Recobrimento radicular

Recobrimento radicular

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A gengiva é a parte da mucosa mastigatória que cobre o processo alveolar e circunda a porção cervical dos dentes, sendo composta por gengiva livre ou marginal e gengiva inserida, ambas constituídas por mucosa ceratinizada.

Dentre os defeitos mucogengivais a recessão gengival é o mais comum, caracterizado por um posicionamento apical da margem em relação à junção cemento-esmalte e exposição radicular. Os sintomas relacionados à sua presença podem se manifestar tanto por hipersensibilidade radicular (provocada particularmente por estímulos térmicos ou pelo contato), como por sensibilidade gengival à escovação e à mastigação principalmente quando o tecido marginal é de mucosa alveolar (BORGUETTI e MONNETCORTI et al., 2002). Sua etiologia é considerada multifatorial, sendo o fator anatômico preponderante. Seu diagnóstico precoce é importante tanto para sua prevenção quanto para o seu tratamento (GORMAN & OLEARY, 1967).

A cirurgia plástica periodontal deve ser considerada se a recessão for progressiva. Desse modo, várias técnicas cirúrgicas foram desenvolvidas com o objetivo de corrigir estes defeitos

Recebido em: 15/12/2004 Aceito em: 20/06/2005

Kelly Cristine Freitas Machado 1

Gesilda Correia de Melo Chiquito 2

Patrícia Pinto Saraiva 3

1 Aluna graduada pela

Universidade do Sagrado Coração

2 Prof ª. MS. de Periodontia da

Universidade do Sagrado Coração.

3 Profª. de Periodontia da

Universidade do Sagrado Coração.

p, 2005.

NUNES, Margareth Calvo Pessutti; FRANCO, Eduardo Batista; PEREIRA, José Carlos. Microinfiltração marginal: análise crítica da metodologia. Salusvita, Bauru, v. 24, n. 3,

(CASATI et al., 2001).O objetivo do presente trabalho é apre s e n t a r a técnica do retalho semilunar posicionado coronariamente e suas v a n t agens no tratamento desses defeitos gengivais vestibu l a res e i n t e r p rox i m a i s .

Concluiu-se que o sucesso do tratamento se baseia no conhecimento da sua etiologia e num planejamento cirúrgico adequado, sendo que os resultados obtidos foram satisfatórios dentro dos critérios de avaliação para cirurgias mucogengivais.

PALAVRAS-CHAVE Recessão gengival, Cirurgia Mucogengival, Cobertura Radicular, Retalho semilunar

The gingiva is a part of the masticatory mucosa that covers the alveolar process and surrounds the cervical portion of teeth, being composed of free or marginal gingiva and attached gingiva, both constituted by keratinized mucosa.Gingival recession is one of the most common mucogingival defects and is characterized by apical positioning of the margin in relation to the cementoenamel junction and root exposure.The symptoms related to their presence may be manifested by root hypersensitivity (especially triggered by thermal or contact stimuli) and also by gingival sensitivity to toothbrushing and mastication, especially when the marginal tissue is composed of alveolar mucosa (BORGUETTI et al., 2002). Its etiology is considered multifactorial, and the anatomic aspect is fundamental. The early diagnosis is important for both prevention and treatment (GORMAN & OLEARY, 1967).Periodontal plastic surgeries should be considered in cases of progressive recession. Thus, several surgical techniques have been developed to correct these defects (CASATI et al., 2001). This paper presents the semilunar flap technique with coronal positioning and its advantages for treatment of these buccal and proximal gingival defects.It was concluded that the success of treatment is based on its etiology and proper surgical planning, and the results achieved were satisfactory according to the criteria for evaluation of mucogingival surgeries.

KEY WORDS: Gingival recession, Mucogingival surgery, Root coverage, Semilunar flap

MACHADO, Kelly Cristine Freitas; CHIQUITO Gesilda Correia de Melo; SARAIVA, Patrícia Pinto. Utilização da técnica de retalho Semi lunar para recobrimento em recessões gengivais vestivulares e interproximais. Salusvita, Bauru, v. 25, n. 2, p. 113-134, 2006.

NUNES, Margareth

Calvo Pessutti;

FRANCO, Eduardo

Batista;

PEREIRA, José Carlos. Marginal microleakage: critical analysis of methodology.

Salusvita,

p, 2005.

Bauru, v. 24, n. 3,

A gengiva pode ser considerada como uma unidade funcional e anatômica variável quanto à forma, contorno e localização clínica. Os tecidos gengivais são divididos em gengiva livre ou marginal e gengiva inserida, sendo esta limitada na área apical pela junção mucogengival, estando em contato íntimo com a superfície do dente e não havendo presença de bolsa gengival (BIMSTEIN et al., 2003).

A gengiva livre tem cor rósea, superfície opaca e consistência firme, localizada na porção coronal do tecido gengival das partes vestibular e lingual ou palatina dos dentes e na gengiva interdental ou papila interdental. Sua cor varia normalmente de acordo com o grau de vascularização, queratinização e espessura do epitélio; além disso, a pigmentação fisiológica da gengiva pode variar de acordo com o grupo étnico (BIMSTEIN et al., 2003; LINDHE & KARRING, 1999). A gengiva inserida estende-se desde a base do sulco gengival em direção apical até a junção mucogengival, fazendo limite com a mucosa alveolar de revestimento; apresenta-se com textura firme, cor rósea e na sua superfície está presente um pontilhado, que reflete o contorno do limite do tecido conjuntivo. É variável em espessura, largura, em diferentes áreas da mesma boca, entre indivíduos e idades, sendo mais fino em mulheres que em homens, dando-lhe o aspecto de casca de laranja (LINDHE & KARRING, 1999).

A inflamação gengival inesperada indica a presença de fatores locais ou sistêmicos que exacerbam a resposta gengival à placa bacteriana (BIMSTEIN et al., 2003).

Os defeitos mucog e n g ivais envo l vem a morfologia, a posição e/ou quantidade de gengiva, sendo a recessão gengival o defeito mais comum, podendo ocorrer em crianças e adolescentes e aumentar com a idade. O seu diagnóstico precoce é importante tanto para sua prevenção quanto para o seu tratamento (GORMAN & OLEARY, 1967).

A recessão gengival é caracterizada por um posicionamento apical da margem em relação à junção cemento-esmalte, decorrente da perda de fibras conjuntivas de proteção e sustentação, acompanhada de reabsorção da crista óssea alveolar e necrose do tecido cementário. Essa modificação da posição e da forma do tecido marginal pode ser vista nas faces vestibulares, linguais ou palatinas e interproximais (BORGHETTI e MONNET-CORTI et al., 2002).

A exposição radicular provocada pela migração apical da margem gengival pode ser um fator causal de hiperemia pulpar, suscetibilidade à cárie radicular, e pode criar áreas interproximais que agem como armadilhas de alimento (GORMAN & OLEARY,

MACHADO, Kelly

Cristine Freitas; CHI-

QUITO Gesilda Correia de Melo;

SARAIVA, Patrícia Pinto. Utilização da técnica de retalho

Semi lunar para recobrimento em recessões gengivais vestivulares e interproximais.

Salusvita, Bauru, v. 25, n. 2, p. 113-134, 2006.

1967). Clinicamente apresenta-se com aspecto antiestético ao sorr i r, ou durante a fala, sendo consideravelmente desagr a d á vel ao paciente. Os sintomas relatados são de hipersensibilidade radicular, provo c a d a em particular por estímulos térmicos, pelo contato, ou pela presença de erosão dental, e sensibilidade gengival à escovação ou à mastigação, principalmente quando o tecido marginal é constituído de mucosa alveolar (BORGUETTI e MONNET- C O RTI et al., 2002; FILHO, 1996). As recessões podem aparecer de forma generalizada ou isolada, e se apresentarem em combinação com outras condições dentais, sendo resultado de um ou mais fatores, como o desgaste e micro fraturas de estruturas dentárias associados com forças oclusais (BORGHETTI e MONNET- C O RTI et al., 2002). Ocorre, também, em indivíduos com um bom nível de higiene e que possuem um periodonto predisponente, ou naqueles que apresentam doença periodontal incipiente ou avançada (LINDHE & KARRING, 1999).

Um periodonto sadio pode apresentar uma gengiva fina e uma c o rtical óssea estreita, oferecendo uma leve resistência à agr e s s ã o mecânica ou bacteriana, sendo predisponente à recessão, assim como deiscência óssea, fenestrações, ausência ou pouca altura e espessura de tecido queratinizado, inserção anormal de freio e predisposição genética (BORGHETTI e MONNET- C O RTI et al., 2002).

Segundo BASS (1946) e WILLIAMS (1949) a etiologia da recessão pode ser uma condição patológica. BOYLE (1950) relacionou o defeito gengival com atrofia periodontal, enquanto HIRSCHFELD (1923) citou como causas de exposição radicular o trauma local, pelo uso impróprio de escovas de dente (que pode levar à abrasão), idade avançada e inflamação. Já GORMAN (1967), a declarou como sendo o resultado de traumatismo oclusal e fatores psicossomáticos associados com depressão.

Vários tipos de malposições dentárias também influenciam a existência desse defeito: a versão, a rotação e a tração, onde os tecidos moles e os tecidos duros marginais podem encontrar-se reduzidos em altura ou em espessura. A flexão do dente, causada em função de forças de tensão devido a sobrecargas oclusais durante os mov i m e ntos dentários, pode levar à abfração (BORGHETTI e MONNETC O RT et al., 2002; FILHO, 1996). Segundo HIRSCHFELD (1923), dentes mal posicionados prejudicam o suporte da gengiva marginal e uma pressão aumentada pode levar a uma recessão gengival rápida.

A exposição da raiz devido à migração apical da gengiva pode ocorrer também durante terapia ortodôntica, envolvendo áreas com faixa “insuficiente” de gengiva. Alterações nas dimensões gengivais e da posição do tecido marginal que ocorrem com o tratamento ortodôntico estão relacionadas à direção do movimento do dente.

MACHADO, Kelly Cristine Freitas; CHIQUITO Gesilda Correia de Melo; SARAIVA, Patrícia Pinto. Utilização da técnica de retalho Semi lunar para recobrimento em recessões gengivais vestivulares e interproximais. Salusvita, Bauru, v. 25, n. 2, p. 113-134, 2006.

Segundo LINDHE & KARRING (1999), um fator importante seria a tensão do tecido marginal que ocorre durante a movimentação dentária, pelas forças aplicadas aos dentes. Entretanto, alguns pesquisadores discordam que a movimentação ortodôntica seja causa da recessão gengival (GRAY, 2000).

Quando o dente é deslocado de forma intempestiva, aparece uma deiscência óssea, e a recessão se torna conseqüência do tratamento (BORGHETTI e MONNET-CORTI et al., 2002). Contudo, pacientes com maloclusão severa que requerem tratamento ortodôntico ou cirurgia ortognática, ou ambos, devem realizar a cirurgia plástica periodontal anteriormente (GRAY, 2000).

O deslocamento da margem gengival para apical da junção amelocementária expondo a superfície radicular também pode ser devido à doença inflamatória periodontal ou ainda inflamação causada pelo contato de restaurações com a gengiva (SOBOCKI, 1991). Quando o “periodontium” é fino, o infiltrado inflamatório se estabelece e degrada a maior parte do tecido conjuntivo marginal, levando à recessão. A inflamação é conseqüência da ação da placa (gengivite, periodontite), podendo ser a responsável pela alteração na localização da margem gengival (BORGHETTI e MONNETCORTI et al., 2002).

Recentemente, GUNSOLLEY (1998) relatou que fumantes relativamente jovens com mínima doença periodontal tiveram significantemente mais defeitos gengivais do que indivíduos não fumantes. Níveis semelhantes de acúmulo de placa podem ser achados em fumantes e não fumantes e estes têm consideravelmente mais cálculo supragengival podendo desenvolver mancha extrínseca. Talvez se possa especular que o uso excessivo de escova de dente mais dura e o poder abrasivo do dentifrício expliquem, pelo menos em parte, o desenvolvimento de mais recessão em fumantes que em não fumantes (MÜLLER et al., 2002). Entretanto, fumar é um fator de risco importante que pode contribuir para o fracasso de todos os procedimentos cirúrgicos mucogengivais. Os mecanismos precisos pelos quais a fumaça de tabaco interfere na saúde não são entendidos completamente, uma vez que há milhares de toxinas envolvidas e muitas não identificadas, nem avaliadas em relação aos seus efeitos na saúde periodontal (GRAY, 2000).

A ação do tabaco no contexto das recessões gengivais tanto pode ser explicada por uma alteração da resposta imune e redução da va scularização, como também ação mecânica da escovação ex c e s s iva do paciente fumante, na tentativa de eliminar as pigmentações ex t r í n s e c a s causadas pelo fumo (BORGHETTI e MONNET- C O RTI et al., 2002). S egundo KITCHIN (1941), mulheres apresentam menos

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