Corretivos da acidez do solo

Corretivos da acidez do solo

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BOLETIM TÉCNICO N° 6

Novembro de 2005 ANDA ASSOCIAÇÃO NACIONAL PARA DIFUSÃO DE ADUBOS SÃO PAULO

Alcarde, J.C.

Corretivos da acidez dos solos: características e interpretações técnicas por J.C. Alcarde. São Paulo, ANDA, 2005

24p. (ANDA, Boletim Técnico, 6)

1. Solo – Acidez – Corretivos. I. Alcarde, J.CI. Associação Nacional para Difusão de

Adubos. I. Título. IV. Série.

CDU 631.415

Poucas práticas agrícolas dão retornos tão elevados como a calagem no que diz respeito ao aumento da produtividade e, conseqüentemente, da produção, das mais diferentes culturas.

Entretanto, para que os objetivos da calagem sejam atingidos em sua plenitude, é necessário que o técnico que orienta o agricultor se familiarize com os conceitos modernos sobre corretivos da acidez dos solos, a classificação de acordo com a legislação brasileira, as características dos corretivos quanto à natureza química dos constituintes, o poder de neutralização (PN), os teores de cálcio e de magnésio, a solubilidade, a granulometria, a reatividade, o efeito residual e o poder relativo de neutralização total (PRNT).

Esses aspectos são enfocados neste Boletim no 6, “Corretivos da acidez dos solos: características e interpretações técnicas”, de autoria do Engo Agro José Carlos Alcarde, Professor Titular do Departamento de Ciências Exatas da ESALQ-USP, Piracicaba, SP, e Coordenador do Comitê de Controle de Qualidade da ANDA.

A maneira simples e objetiva com que o autor trata o assunto leva à certeza de que a utilização dessas informações irá contribuir para atingir maior eficiência com a prática da calagem e, também, para aumentar a produtividade da agropecuária brasileira.

ANDA Associação Nacional para Difusão de Adubos São Paulo, novembro de 2005

I. Introdução6
I. Conceito7
I. Classificação8
IV. Características12
IV.1. Natureza química dos constituintes12
IV.2. Poder de Neutralização (PN)12
IV.3. Teores de cálcio e magnésio13
IV.4. Solubilidade14
IV.5. Granulometria14
IV.6. Reatividade e efeito residual14
IV.7. Poder Relativo de Neutralização Total (PRNT)17
V. Controle da qualidade19
V.1. Pela indústria19
V.2. Pelo poder público19
V.3. Pelo consumidor19
VI. Considerações finais20

Página VII. Literatura citada ......................................................... 20

O sucesso da prática da calagem depende fundamentalmente de três fatores: da

I. INTRODUÇÃO dosagem adequada, do produto - ou melhor, das características do corretivo utilizado – e da aplicação correta.

A dosagem adequada é estabelecida com base na análise de solo, sobre a qual se aplica um critério técnico de recomendação da dose.

Quanto ao produto, atualmente dispõe-se de diversos tipos de corretivos de acidez com características e efeitos diferentes; é necessário conhecê-los para se proceder à escolha do produto mais conveniente a cada situação agrícola.

Finalmente, esses cuidados referidos, isto é, dosagem adequada e corretivo mais conveniente, podem ser total ou parcialmente comprometidos por uma aplicação mal feita, o que, a bem da verdade, tem sido bastante comum. E por aplicação bem feita de corretivos entende-se distribuição e incorporação do produto ao solo bem executadas.

No presente boletim pretende-se apresentar os diferentes tipos de corretivos da acidez dos solos com suas respectivas características e discutir as interpretações técnicas pertinentes.

* Engenheiro Agrônomo, Professor Titular aposentado do Departamento de Ciências Exatas, Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, USP. Piracicaba – SP. Consultor – e-mail: jcalcard@esalq.usp.br

Corretivos da acidez dos solos são produtos capazes de neutralizar (diminuir ou eliminar) a acidez dos solos e ainda carrear nutrientes vegetais ao solo, principalmente cálcio e magnésio (Alcarde, 1992).

A acidez de um solo é devida à presença de H+ livres, gerados por componentes ácidos presentes no solo (ácidos orgânicos, fertilizantes nitrogenados, etc.). A neutralização da acidez consiste em neutralizar os H+, o que é feito pelo ânion OH-. Portanto, os corretivos de acidez devem ter componentes básicos para gerar OH- e promover a neutralização (Figura 1).

geram geram
H+ + OH- → H2O

(Ca, Mg) Figura 1. Representação do conceito de corretivo da acidez dos solos

----------------------------- Componentes ácidos

Corretivos da Acidez dos Solos

Componentes básicos ou alcalinos (neutralizantes)

Os corretivos de acidez são classificados em (Boyton, 1966; Alcarde, 1983 e 1986; Tisdale et al., 1985; Brasil, 2004-c):

a) Calcário: produto obtido pela moagem da rocha calcária. Seus constituintes são o carbonato de cálcio - CaCO3 e o carbonato de magnésio - MgCO3. Em função do teor de MgCO3, os calcários são classificados em : calcíticos, com teor de MgCO3 inferior a 10%; magnesianos, com teor mediano de MgCO3 entre 10% e 25%; e dolomíticos, com teor de MgCO3 acima de 25%. Em função da natureza geológica, os calcários são também classificados em sedimentares e metamórficos. Os primeiros são mais friáveis ou “moles” e os últimos são mais “duros”, porém, quando bem moídos apresentam comportamento agronômico semelhante.

Ação neutralizante:

CaCO3

H2O solo

Ca2+ + CO3

2- solução do solocalcário

CO32- + H2O(solo)HCO3- + OH- (Kb1 = 2,2 x 10-4)
HCO3- + H2O(solo)H2O + CO2 + OH- (Kb2 = 2,4 x 10-8)
OH- + H+(solução do solo) H2O

Essas equações mostram que no solo o calcário libera Ca2+, Mg2+ e CO32-; a base química, isto é, o componente que proporciona a formação de OH- é o CO32- (e posteriormente o

HCO3-); o valor da constante de ionização (Kb1) mostra que o CO32- é uma base fraca, isto é, a reação de formação de OH- é relativamente lenta e parcial; e o OH- produzido neutralizará o H+ da solução, responsável pela sua acidez.

b) Cal virgem agrícola: produto obtido industrialmente pela calcinação ou queima completa do calcário. Seus constituintes são o óxido de cálcio - CaO e o óxido de magnésio - MgO, e se apresenta como pó fino.

Ação neutralizante: { EMBED Word.Picture.8 }

OH- + H+(solução do solo) H2O

Essas equações mostram que no solo a cal virgem libera Ca2+, Mg2+, OH- e calor; a liberação de OH- é imediata e total, o que confere à cal virgem o caráter de base forte; e o OH- produzido neutralizará o H+ da solução do solo, responsável pela sua acidez.

c) Cal hidratada agrícola ou cal extinta: produto obtido industrialmente pela hidratação da cal virgem. Seus constituintes são o hidróxido de cálcio - Ca(OH)2 e o hidróxido de magnésio - Mg(OH)2 e também se apresenta na forma de pó fino.

Ação neutralizante: { EMBED Word.Picture.8 }

Essas equações mostram que a ação neutralizante da cal hidratada é muito semelhante à da cal virgem: a cal virgem “se hidrata” no solo utilizando água nele contida, enquanto a cal hidratada é hidratada industrialmente.

d) Calcário calcinado: produto obtido industrialmente pela calcinação parcial do calcário. Seus constituintes são CaCO3 e MgCO3 não decompostos do calcário, CaO e MgO e também

Ca(OH)2 e Mg(OH)2 resultantes da hidratação dos óxidos pela umidade do ar. Apresenta-se na forma de pó fino.

Sua ação neutralizante é devida à base forte OH- e a base fraca CO32-.

e) Escória básica de siderurgia (Wutke & Gargantini, 1962): subproduto da indústria do ferro e do aço. Seus constituintes são o silicato de cálcio - CaSiO3 e o silicato de magnésio - MgSiO3- .

Ação neutralizante: { EMBED Word.Picture.8 }

SiO32- + H2O(solo)HSiO3- + OH- (Kb1) = 1,6 x 10-3)
HSiO3- + H2O(solo)H2SiO3 + OH- (Kb2) = 3,1 x 10-5)
OH- + H+(solução do solo) H2O

Essas equações mostram que a ação neutralizante da escória é muito semelhante à do calcário: neste caso, a base química é o SiO32- que também é fraca (Kb1 = 1,6 x 10-3), mas é mais forte que a base CO32- (Kb1 = 2,2 x 10-4).

f) Carbonato de cálcio: produto obtido pela moagem de margas (depósitos terrestres de carbonato de cálcio), corais e sambaquis (depósitos marinhos de carbonato de cálcio, também denominados de calcários marinhos). Sua ação neutralizante é semelhante à do carbonato de cálcio dos calcários.

Os diferentes corretivos de acidez e suas ações neutralizantes podem ser representados, resumidamente, pela Figura 2.

Observações:

• conforme foi mostrado, uma base é considerada forte ou fraca pela intensidade com que coloca o OH- no meio: uma base forte coloca, de imediato, todos os seus OH- no meio, enquanto uma base fraca, devido o equilíbrio químico, coloca mais lentamente e em pequenas quantidades;

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