Cultura e Opulencia do Brasil - Pe. Antonil

Cultura e Opulencia do Brasil - Pe. Antonil

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Cultura e Opulência do Brasil, de André João Antonil

Fonte: ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. 3. ed. Belo Horizonte : Itatiaia/Edusp, 1982. (Coleção Reconquista do Brasil).

Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://w.bibvirt.futuro.usp.br> A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais.

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CULTURA E OPULÊNCIA DO BRASIL André João Antonil

S. Paulo, 15 de Junho de 1922

Como já tivemos o ensejo de o notar, na advertência à terceira edição das Memórias para a história da

Capitania de S. Vicente, do erudito Frei Gaspar da Madre de Deus – preciosas insubstituíveis, para o estudo das primeiras eras paulistas – como já o deixamos dito, há na bibliografia nacional as mais extraordinárias lacunas a preencher. Milhares e milhares são os brasileiros que sobremodo se interessam pelos livros do velho Brasil, a que, no entanto, só conhecem de citação, pelo fato de que ninguém os encontra, senão de longe em longe, pelo mero acaso, em belchiores, e por preços assustadores. Alguns – bem poucos aliás – destes velhos livros foram, é verdade, reimpressos em grandes coleções, sobretudo na monumental e benemérita Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Já com isto melhorou a situação do público em relação a tão procuradas obras. No entanto, quem pode possuir tão volumosa coleção como a Revista? Poucos bibliófilos apenas. O que convinha era pôr ao alcance de todos, por meio de edições vendidas por preços razoáveis, estes tão apreciados documentos dos velhos tempos brasileiros.

Melhor inspirados não podiam ser os Srs. Weiszflog Irmãos do que publicando a História do Brasil de Frei

Vicente do Salvador e as Memórias de Frei Gaspar da Madre de Deus, sobretudo a primeira crônica, opulentada pelos comentários profundos do grande mestre Capistrano de Abreu. Prosseguindo nesta ordem de idéias enceta hoje a Companhia Melhoramentos de S. Paulo, sucessora de Weiszflog Irmãos, uma série de reimpressões de livros raros brasileiros, a que nos dá a honra de presidir, distinção que sobremodo nos desvanece e só podemos atribuir às relações de amizade que desde anos nos prendem à poderosa e patriótica empresa.

Principiamos pela obra de Antonil, livro famoso, inacessível, aureolado pela perseguição colonial de que foi vítima, pela raridade extrema de sua edição princeps em acima de tudo, cheio de grandes méritos pela abundância, riqueza e sinceridade dos informes. Constitui um repositório preciosíssimo sobre a vida econômica do Brasil em princípios do século XVIII; faz um apanhado completo das condições que regiam as principais indústrias do país; a cana-de-açúcar, fator de enorme opulência do Norte, do luxo da Bahia e de Pernambuco, e a mineração do ouro, exatamente numa época em que acabara de dar-se o grande rush de paulistas e reinóis para as terras prodigiosas dos antigos Cataguazes, agora Minas Gerais. A estas duas mamas do Brasil, se assim podemos chamá-las por analogia à célebre comparação de Sully, quanto à lavoura e pecuária, “tetas principais dos reinos”, consagra Antonil quase toda a sua obra, reservando contudo ainda pequenos capítulos, à criação do gado e à lavra do tabaco.

Condições que regiam a lavoura da cana no Brasil setecentista. Criteriosos conselhos do autor sobre mil e um assuntos. A produção açucareira do Brasil.

Discursando sobre a lavoura da cana, não só escreveu Antonil um manual do agricultor da preciosa gramínea que foi a base da riqueza nacional, até meados do século XIX, como ainda um código do critério e do bom tom, sobremodo proveitoso àquelas épocas atrasadas.

Assim o vemos começar expondo “que cabedal deveria ter o explorador de um engenho real”, para depois ministrar os mais minudentes conselhos a quantos quisessem, no Brasil, estabelecer-se como fabricantes de açúcar. Surgem os conselhos para a compra ads terras, de modo a não adquirir o novel plantador chãos estéreis ou sequer inferiores por massapés, a famosa terra negra, adocicante por excelência do caldo sacarífero.

E como foi sempre o Brasil terra de títulos precários de posse, aconselha aos adquirentes de engenhos que se precavenham contra as possíveis e prováveis demandas; usem de toda a diligência para defender os marcos e as águas de que necessite, para moer, o seu engenho, etc., e assim se evitem demandas e pleitos, “contínua desinquietação d’alma e contínuo sangrador de rios de dinheiro, que vai a entrar em casa dos advogados, solicitadores e escrivães, com pouco proveito de quem promove o pleito ainda quando alcança, depois de tantos gastos de desgostos, em seu favor a sentença. Nem deixe os papéis, e as escrituras que tem, na caixa da mulher, para que depois seja necessário mandar dizer muitas missas a S. Antônio para achar algum papel importante que desapareceu, quando houver mister de exibi-lo!”. E assim continua o bom do autor a discorrer ex abundantia cordis com naturalidade e singeleza encantadoras, a ditar regras de elementar critério a bem dos seus possíveis consulentes, a quem só dá os mais leais e judiciosos conselhos, ora a lhes ensinar “como se há de haver o senhor de engenho com os lavradores e outros vizinhos e estes com o senhor”, ora “como se há de haver na eleição das pessoas e oficiais que admitir a seu serviço e primeiramente da eleição do capelão”, ora ainda na escolha “do feitor mor e dos outros feitores menores, que assistem à moenda, fazendas e partidas da cana” e como lhes determinará “obrigações e soldadas”.

Feita esta primeira parte relativa ao governo do engenho passa a explicar a fabricação do açúcar, expondo quais os deveres do mestre do açúcar, e seu “soto-mestre, a quem chamam banqueiro”, e do seu ajudante, “a quem chamam ajuda-banqueiro”, e, ainda os do purgador e caixeiro do açúcar, ou fiscal mor da safra fabricada.

Voltando a tratar da economia doméstica grande capítulo consagra ao modo pelo qual “se há de haver o senhor de engenho com os seus escravos”, “mãos e pés do seu estabelecimento”. Curiosíssimas páginas estas onde se lêem interessantes apanhados de pontos de vista coloniais sobre as relações mútuas de servos e senhores. É nele que o autor recolhe o adágio tão famoso e tão citado das nossas antigas eras; de que o Brasil “é inferno dos negros, purgatório dos brancos, e paraíso dos mulatos e das mulatas”. Conselhos humanitários quando possível ministra o A. aos sues leitores, apelando para os seus sentimentos religiosos, a fim de que fujam de castigar os servos em demasia, contrariando assim outro prolóquio popular antigo de que só precisam os negros de três P: pão, pau e pano.

Passando a outra série de assuntos continua Antonil a expor os tesouros de sua experiência no caso “de como se há de haver o senhor de engenho no governo de sua família e nos gastos ordinários da casa”, explicando quanto é melindrosa a resolução do problema que se propõe aos pais em relação aos filhos homens: “se ficam no engenho criam-se tabaréus, soltos nas cidades é arrisca-los a faze-los viciosos e enche-los de viciosas doenças. O melhor é tê-los bem vigiados sem consentir que a mãe lhes remeta dinheiro ou mande para isso secretamente ordens ao correspondente”; e por aí continua numa série de observações preciosas para o estudo da vida íntima brasileira, naquelas eras longínquas.

Um dos quatros livros destinou-o exclusivamente à exposição exaustiva dos assuntos referentes à indústria do açúcar desde a escolha da terra, planta e limpa das canas, estudo das variedades agricultadas, pragas, corte e condução para o engenho, até a montagem desta casa de máquinas, movida a água, ensinando como se há de fazer a moagem e de quantas pessoas necessita a moenda. E ainda nos diz quais as melhores madeiras a empregar para o madeiramento do engenho, a fatura da moenda, “canoas e barcos”, o que se deve pagar aos carpinteiros e oficiais de outros ofícios, qual o aparelhamento das fornalhas, e qual a melhor lenha, o que se há de fazer com a cinza e sua decoada, como devem ser as caldeiras e cobres, de quanta gente hão mister e quais os instrumentos que usam. Vem depois a descrição minudente dos processos de limpar e purificar o caldo nas caldeiras e no parol de coar, até passar para os tachos, do modo de cozer e bater o melado nestes, das três têmperas que este sofre, da passagem do açúcar para as formas, do tendal para a casa de purgar, da descrição do pessoal ocupado em purgar, mascavar, secar e encaixar e dos instrumentos para isto necessários, todas as manipulações enfim até a conferência do peso, repartição e encaixotamento do gênero. Estuda os tipos de açúcar, que separadamente se encaixam, a marca das caixas e dos modos de sua condução ao trapiche, lembrando providências para que se poupe a boiada do engenho e se examinem as condições da vendagem do gênero, os seus preços “antigos e modernos”, explicando as causas da crise que assoberbava a lavoura açucareira, a concorrência da nova indústria mineradora do ouro, empolgando todas as atenções, atraindo todos os negros importados da África por preços agora excessivos. Daí a enorme alta do gênero. Feito o cômputo da produção brasileira, em caixas de açúcar, a 37.020, das quais 14.500 para 146 engenhos baianos, 12.300 para 246 pernambucanos e 10.220 para 136 fluminenses, estuda Antonil “o que custa uma caixa de açúcar de trina a cinqüenta arrobas, na alfândega de Lisboa, e o valor de todo o açúcar que cada ano se faz no Brasil”. Assim ficamos sabendo que uma caixa do melhor tipo, de 35 arrobas, açúcar branco batido, valia em princípios do século XVIII 69$488 rs., preço que precisamos multiplicar por 50, senão mais, para atendermos às diferenças de capacidade aquisitiva da moeda, então e agora. Valia a exportação brasileira do gênero um total de

2.535:142$800 rs.; uns cem ou cento e vinte mil contos de hoje, o que é uma cifra bem considerável para tão escassa população.

Muito curiosa a síntese com que remata o A. o seu extenso memorial agrícola. “Do que padece o açúcar desde o seu nascimento na cana até sair do Brasil”, espirituosa, vivaz, em que segue as diversas manipulações por que passa o caldo até se converter em sólido e continua a enunciar-lhe as peripécias da existência até a entrada em casa dos consumidores, depois de mil e um padecimentos e torturas, descritas com real graça.

“E ainda assim, sempre doce, e vencedor de amarguras, vai a dar gosto ao paladar dos seus inimigos nos banquetes, saúde nas mesinhas dos enfermos, e grandes lucros ao senhor do engenho, e aos lavradores que o perseguiram, e aos mercadores que o compraram e o levaram degredado, nos portos, e muito maiores emolumentos à fazenda real nas alfândegas”. São duas páginas de humorismo sobremodo raras de se encontrar em livro português, geralmente repassados de gravidade e monotonia como lhes sucede.

As condições da mineração do ouro.

Informes preciosíssimos, insubstituíveis. Os roteiros para as minas.

Depois de, com o mais profundo critério, afirmar que as minas de ouro a poucos enriqueciam, “sendo as melhores minas do Brasil os canaviais e malhadas em que se planta o tabaco”, consagra Antonil a parte mais importante do livro à mineração do ouro. E foram estes capítulos, quer nos parecer, a principal causa da destruição da sua obra pelo Governo português, como relataremos. Realmente pouco interessaria a europeus esse tratado sobre a cultura da cana, e as condições da lavoura açucareira no Brasil, quando em toda a América era tão espalhada. O Novo Mundo, para a mente dos europeus, era a terra dos metais e das pedras preciosas e o Brasil fora até princípios do século XVIII um país de desoladora aridez, para a maioria dos portugueses. Pois se não tinha minas! Quanta desilusão com a prata de Robério Dias e as esmeraldas tantas vezes anunciadas e jamais confirmadas! Assim com que entusiasmo não acolhera Portugal a notícia da descoberta dos grandes campos auríferos de Minas Gerais, rendosos como poucos placers do Universo! Com que ciúme os resguardava das vistas exóticas! E era Antonil quem em livro que se traduziria logo, a correr mundo, vinha revelar todas as maravilhas dessa nova Golconda. Imprudente idéia! Excelente idéia devemos nós dizer, pois graças a ela temos hoje fortíssimo veio de informações sobre a vida primitiva da mineração do ouro, único documento de reconstituição de muitas faces deste período notabilíssimo, capital, da formação brasileira. Senão examinemos ligeiramente os sumários dos primeiros capítulos de Antonil: Das minas de ouro que se descobriram no Brasil; das minas de ouro que chamam gerais e dos descobridores delas; de outras no rio das Velhas e de Caeté. Mostram que o A. foi o contemporâneo das primeiras explorações antes que a revolução do solo, na ânsia do metal, cobrisse largas superfícies, tendo como informante, de mil e uma particularidades, pessoa que, em 1703, a Artur de Sá e Menezes acompanhou em sua viagem às Minas. Que enorme cópia de informes nos dá! Fala-nos do rendimento dos ribeiros, e das diversas qualidades do ouro que deles se tira, explicando quanto cada um forneceu, de quanto foi o valor médio das bateadas, qual o aspecto do metal e quais os seus característicos, de que modo se procedeu à distribuição das datas e se repartiram as minas, quais os diversos preços do ouro vendido no Brasil, e quais os lucros tirados pelos primeiros exploradores dos leitos dos ribeirões, terminando por explicar os diversos processos de mineração, usados no distrito aurífero.

Para estudar o fácies da gente atraída pelo sacra fames, “mistura de toda a condição de pessoas sobre o qual não houve até o presente coação ou governo bem ordenado”, turba onde se via de tudo, como sempre aconteceu em todos os grandes rushes do ouro, acoroçoada pelos processos irregulares e os abusos dos governantes, magistrados e autoridades várias, seculares e eclesiásticas, todas elas desvairadas pela idéia de recolherem breve ao Reino, ou às suas terras de origem, com fartas arrobas de cabedal, na frase do velho cronista.

Região de grandes e súbitos lucros só podia ser uma terra de excessiva carestia; é o que nos indicam as tabelas reproduzidas pelo autor quando nos fala da “abundância de mantimentos e de todo usual que hoje há nas minas, e do pouco caso que se faz dos preços extraordinariamente altos”, depois de contar que para ali corriam as boiadas de Paranaguá e dos campos da Bahia! Destes preços exagerados, proviera uma alta formidável no custo da vida em todo o Brasil “como se experimentam nos portos das cidades e vilas do país”, ficando desfavorecidos muitos engenhos de açúcar das peças necessárias, padecendo os moradores grande carestia de mantimentos.

E disserta e dissertao bom André João... citando enorme bibliografia de teólogos e jurisconsultos, de onde

Partidário convicto do Redde caesari, e mesmo mais talvez do que o razoável, gasta Antonil numerosas páginas examinando “a obrigação de pagar a El Rei Nosso Senhor a quinta parte do ouro, que se tira das minas do Brasil”, tratando o ponto de dous modos: “ou pelo que pertence ao foro externo pelas leis, às ordenações do reino ou pelo que pertence ao foro interno, alterando a obrigação em consciência”. saltam nomes outrora gloriosos e agora bem esquecidos: Barbosa, Cabedo, Pegas, Molina, Vasques, Solorzano, o Cardeal de Lugo, Avendanho, Soares, uma quantidade de tratadistas bolorentos e hoje fósseis, reveladora de quanto estava versado na consulta às fontes o ardente defensor dos quintos reais que termina a sua dissertação com a seguinte síntese do caso: “o quinto sempre se deve de justiça”.

Capítulos valiosos para a história das entradas são os roteiros “da vila de S. Paulo para as Minas Gerais e para o Rio das Velhas”; do “caminho da cidade do Rio de Janeiro para as Minas Gerais dos Cataguazes do Rio das Velhas” e ainda os do “caminho novo da cidade do Rio de Janeiro para as Minas” e do “caminho da cidade da Bahia para as Minas do Rio das Velhas”.

Quanta particularidade notável ligada à história da penetração aí se ensina! Os pontos terminais das jornadas feitas pelos bandeirantes, Mantiqueira acima: por Artur de Sá e Menezes, via Parati – Taubaté – Guaipacaré, ao pé da serra afamada da Mantiqueira “e depois pelas cinco serras muito altas, que parecem os primeiros morros, que o ouro tem no caminho, para que não cheguem lá os mineiros”. Descreve o caminho novo de Garcia Rodrigues Pais, o filho notável do grande Fernão Dias Pais, a quem deveu o Rio de Janeiro setecentista o formidável impulso que lhe deu a primazia entre as cidades brasileiras, fazendo-o destronar a velha Bahia. Menos interessante a jornada da antiga capital do país aos distritos auríferos. “Mais comprido mas menos dificultoso, por ser mais aberto para as boiadas, mais abundante para o sustento e mais acomodado para as cavalgaduras e para as cargas”.

Num de seus últimos capítulos explica Antonil o “modo de tirar o ouro das minas do Brasil, e ribeiro delas, observado de quem nelas assistiu com o Governador Artur de Sá”, páginas essenciais para a história de nossa mineração. A elas como ao do livro de Antonil, em geral, se reporta freqüentemente Calógeras chamando ao seu autor notável (As minas do Brasil e sua legislação,t. I, pág. 42), o que não pôde o ilustre von Eschwege no Pluto e deixou de o fazer Paul Ferrand, a quem não coube ter em mãos o raro volume para a confecção de seu excelente L’or à Minas Gerais.

Assim, pois, não só para a história primeva da região mineira como para a da povoação nacional, representa o livro de Antonil, frisemo-lo ainda, esta vez, um dos mais notáveis elementos.

Não são de grande peso os dous pequenos capítulos consagrados às “Notícias para se conhecerem as minas de prata” e ao “Modo de conhecer a prata e de beneficiar os metais”, mas assim mesmo neles se divulgam muitos e interessantes informes sobre os processos antigos de prospecting da prata e os de obtenção do metal protosino tão procurado e debalde – pela vastidão do território brasileiro. Quanta noção pitoresca a ressaltar destes conselhos ao antigo empirismo metalúrgico!

Encerra Antonil o seu livro sobre as minas com uma série das mais sensatas e humanitárias considerações sobre “os danos que tem causado ao Brasil a cobiça, depois do descobrimento do ouro nas minas”. É a verberação exata do auri sacra fames através de conceitos repassados de justiça e moderação a que põe ponto a seguinte afirmação piedosa: “Nem há pessoa prudente a que não confesse haver Deus permitido que se descubra nas minas tanto ouro, para castigar com ele o Brasil, assim como está castigando no mesmo tempo tão abundante de guerras, aos europeus com o ferro”. Palavras sobremodo próprias para o tempo em que se imprimiriam (1711) milésimo em que a Europa conflagrada pela última demonstração do insaciável orgulho e mania invasora do Rei Sol deplorava a devastação de numerosos territórios pelos exércitos das potências, graças à Guerra mundial, apelidada de sucessão da Espanha.

Estudo sobre a lavoura do fumo.

Apanhado sobre a pecuária setecentista. Pontos de vista brasileiros e portugueses. Simpatias do autor, suas demonstrações de eqüidade.

Apologista da agricultura e da pecuária, refletia Antonil, sem o saber, os vários conselhos, até então inéditos, na profundeza das páginas manuscritas, daquele velho cronista brasileiro que dizia ao seu rei serem as duas verdadeiras minas do Brasil a da cana-de-açúcar e a do pau-brasil. Estudou o nosso autor, em doze capítulos, as condições da cultura do tabaco em nosso país, “folha de antes desprezada, e quase desconhecida, que tem dado e dá atualmente grandes cabedais aos moradores do Brasil e incríveis emolumentos aos erários dos príncipes”.

Assim expõe “como se começou a tratar no Brasil da planta do tabaco e a que estimação tem chegado”, explica “em que consiste tal lavra, como se semeia, planta e a limpa”, a erva de Nicot e “em que tempo há de se plantar”, enunciando-lhe a série de inimigos vorazes, lagarta, formiga, pulgão e grilo. As diversas manipulações das folhas da solanácea explica: “como se tiram e curam, como delas se fazem e beneficiam as cordas, como se enrola o tabaco”, e de tudo trata com muitos pormenores.

Bem exemplificadas as circunstâncias relativas à escolha do pessoal ocupado “em toda fábrica do tabaco desde a sua planta até se enrolar”, negros, mestres e rapazes destros, ensina-nos Antonil o que vem a ser a segunda e terceira folha do tabaco, e das diversas qualidades dele para se mascar, cachimbar e pisar, declarando que para o tabaco em pó os melhores são os das Alagoas de Pernambuco e os dos campos da Cachoeira.

Relatadas as diversas manipulações exigidas pelo fabrico do rapé, granido e em pó, ocupa-se em explicar o quanto é útil “o uso moderado do tabaco para a saúde, e à demasia nociva à mesma saúde, de qualquer modo que se use dele”. Embora não fumante relata que o fumo do cachimbo, “bebido pela manhã em jejum, moderadamente, disseca as umidades do estômago, ajuda a digestão, e não menos a evacuação ordinária, alivia ao peito que padece fluxão asmática, e diminui a dor insuportável dos dentes”. Já mascá-lo não é tão saudável. O rapé este exige muito cuidado no seu emprego, pois a sua “gota de estilicídio, sempre manente, suja a barba e causa nojo” aos interlocutores do rapezista.

E por aí disserta o bom do autor citando uma série de anedotas em abono de seus modos de ver. O final do tratado sobre o fumo refere-se ao modo pelo qual se despacha o tabaco na alfândega da Bahia, e quanto custa um rolo de oito arrobas posto da Bahia na alfândega de Lisboa, já despachado, e corrente para sair “fazendo ao mesmo tempo ver quão grande estimação tinha o nosso tabaco na Europa e mais partes do mundo, e quais notáveis emolumentos rendia à fazenda real, chegando a exportação brasileira a perto de 900.0 cruzados anuais, dos quais sete oitavos de fumo baiano. Graves as penas cominadas aos que levavam o gênero não despachando nas alfândegas, mas também tão rendoso o contrabando do gênero que se punham em prática mil e uma espertezas para lesar o fisco; cavilosidades que Antonil refere com as devidas minudências “relatando as invenções que sugeria a cautela ambiciosa, porém sempre arriscada, e muitas vezes descoberta com sucesso infeliz, o que claramente provava a estimação, o apetite e a esperança do lucro, que ainda entre riscos acompanhava o tabaco”.

Bem poucas páginas infelizmente consagrou o tão arguto observador das cousas do Brasil ao estudo da criação do gado, sua contemporânea, contentando-se em referir quão extensas eram “as terras para pastar cheias de gado, que no Brasil havia, nas suas diversas regiões”. Se as questões de zootecnia lhe foram indiferentes, em todo caso realizou interessante apanhado estatístico das condições da criação, sobretudo sob o ponto de vista da exportação dos couros, acerca da qual traz uma série de dados, referindo ainda que tal exportação atingiu a mais de quinhentos mil cruzados anuais para a Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. Outra informação valiosa foram os apontamentos relativos à “condução das boiadas do sertão do Brasil, preço ordinário do gado que se mata e do que vai para as fábricas”. Nada mais elucidativo, freqüentemente, para o estudo da civilização do que estes caminhos do gado, sobretudo num país como o nosso, tão recente ainda. A observação destas vias penetradoras, nascidas da pecuária, tem o mais elevado significado.

Encerrando o seu trabalho faz Antonil o resumo “de tudo o que vai ordinariamente cada ano do Brasil para Portugal e do seu valor”, discriminando a valia das diversas grandes verbas, açúcar, tabaco, ouro, couros e pau- brasil, num total de 3.743:992$800, quase nove e meio milhões de cruzados. Guardadas as proporções e levando-se em conta a capacidade de aquisição da moeda, então e agora, e computando-se a população do país num milhão de civilizados, talvez, era a exportação brasileira, per capita, muito mais elevada que hoje. E realmente avultava, merecendo os justos reparos do autor: ”não deixará de causar maior admiração”, expende ele.

Quanto às principais rendas do erário régio também as discrimina, mostrando quanto se avolumavam e cada vez\ mais os diversos contratos dos dízimos reais, dos vinhos, do sal, das aguardentes da terra, o rendimento da Casa da Moeda, os direitos sobre os negros, as fazendas, etc.

“Bem se vê a utilidade que resulta continuamente do estado do Brasil à fazenda real, aos portos e reinos de

Portugal, comentava ele, e também às nações estrangeiras, que com toda a indústria procuram aproveitar-se de tudo o que vai deste estado.

Nada mais justo pois, conclui, do que se favoreça o Brasil por ser de tanta utilidade ao Reino de Portugal”.

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