Descobertas Astronômicas de Galileu

Descobertas Astronômicas de Galileu

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As descobertas astronômicas de Galileu Galilei

Antonio Augusto Passos Videira Rio de Janeiro, agosto 2009

As descobertas astronômicas de Galileu Galilei

© 2009 by Antonio Augusto Passos Videira

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Capa Fernando Leite Editoração Leandro Collares (Selênia Serviços) Revisão Maria Beatriz Branquinho da Costa

Os editores agradecem a gentil colaboração de Cássio Leite Vieira.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE — SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. V713g

Vieira, Antonio Augusto Passos

Galilei Galileu e a astronomia / Antonio Augusto Passos Vieira. — Rio de Janeiro : Vieira & Lent, 2009. 112p.: il. – (Ciência no bolso; 10)

Contém glossário Inclui bibliografi a ISBN 978-85-88782-61-7

1. Galileu, 1564-1642. 2. Astronomia. 3. Astronomia - Instrumentos. I. Título. I. Série.

09-3294. CDD: 610.28 CDU: 52 06.07.09 08.07.09 013663

1 edi ção, agosto de 2009 © vieira & lent casa editorial ltda.

Este livro é dedicado à memória de Antares Kleber Grijó de Oliveira, precocemente falecido em março de 2009, e que, na verdade, foi seu inspirador pelo convite que me fez para participar das atividades que pretendia realizar no Observatório Nacional, dedicadas ao Ano Internacional da Astronomia. Nos mais de 15 anos em que pude desfrutar da amizade e da confiança de Antares, convivi com uma pessoa correta, séria, competente e crítica. Essas qualidades faziam dele um colega insubstituível.

Sumário

Apresentação 9

1 Introdução 13 2 Breve biografia de Galileu Galilei 25 3 As descobertas astronômicas de Galileu 41 4 A concepção galileana de natureza e as relações entre ciência e fé 67 5 Conclusão 79 6 Cronologia da vida de Galileu 91 7 Relação dos livros publicados por Galileu ou a ele atribuídos 93

EM NOSSOS DIAS, OS CIENTISTAS SÃO PESSOAS QUE despertam fascínio em muitos de nós, sejamos ou não interessados nos métodos e processos que usam para fazer as descobertas. A nossa época caracteriza-se pelo valor imenso que dá às descobertas sobre a natureza, normalmente atribuídas à competência teórica e técnica dos cientistas. Estes últimos são personagens com alto valor simbólico e social. Contudo, nem sempre foi assim. Houve um tempo em que aqueles que procuravam conhecer os mecanismos da natureza não usufruíam de um reconhecimento social, específico e

Apresentação

10 Antonio Augusto Passos Videira especial. Até o início da chamada Idade Moderna, que se deu, mais ou menos, a partir de meados do século XVI, o filósofo natural, nome de então ao nosso cientista de hoje, era certamente respeitado, mas não tinha muita proeminência nas cortes e universidades europeias. Teólogos e filósofos com conhecimentos das obras de Aristóteles, Santo Agostinho ou São Tomás, entre outros, eram vistos como mais importantes, posto que o saber sobre as Escrituras e sobre a ordenação hierarquizada e hierárquica que o filósofo grego dera à natureza eram percebidos como mais relevantes. O matemático, por exemplo, ocupava, na ordem dos saberes, uma posição abaixo do teólogo e do filósofo.

Com as obras de Copérnico, Bacon, Descartes, Galileu, Harey, Gilbert, Newton e muitos outros, essa situação se inverteu, alcançando o cientista um lugar destacado e invejado. Essa transformação foi concluída na passagem do século XVIII para o século XIX. Ainda que nos últimos anos — ao menos desde o lançamento das duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki —, essa posição desfrutada pela ciência venha merecendo críticas fortes e contundentes, é certo que ainda atrai nossa atenção e é considerada merecedora de nossa admiração, que só faz aumentar quando se reconhece que conhecer

As descobertas astronômicas de Galileu Galilei 1 os mecanismos existentes na natureza é tarefa sedutora e desafiadora, que exige esforço e dedicação fora do comum. Fazer ciência é trabalhar arduamente.

Nos dias de hoje, o cientista apresenta características como dedicação, concentração, imaginação, raciocício lógico, soberba e paixão, entre outras. Evidentemente, nem todos os cientistas possuem as mesmas características. O mundo da ciência é povoado por pessoas muito diferentes entre si.

Galileu Galilei certamente tinha algumas das “marcas registradas” de “nossos” cientistas. Ele nunca economizou esforços, dedicação e paixão às questões e aos problemas para os quais ofereceu soluções corretas e erradas; soluções que o tornaram conhecido, já em sua época. Um dos domínios em que Galileu se fez conhecido foi o da astronomia. Mesmo que também no estudo da cinemática, ramo da física que investiga como ocorrem os movimentos dos corpos sem que haja preocupação em conhecer as forças aí envolvidas, Galileu tenha dado contribuições importantes para o desenvolvimento da ciência, foi na astronomia que provocou as principais transformações na visão de mundo vigente no início do século XVI, as quais acabaram por levar ao gradual desaparecimento da visão aristotélica de mundo com as suas ramificações

12 Antonio Augusto Passos Videira religiosas. A natureza, segundo Galileu, é laica, objetiva, indiferente aos desejos dos seres humanos, distante, precisa e matemática. Tal como nós a vemos nos dias que correm.

A imagem galileana de natureza não foi construída apenas por meio de suas descobertas feitas com o uso da luneta, mas também foi alcançada graças ao uso que fez delas. Em Galileu, impressiona-nos a habilidade instrumental e observacional que tinha, mas é igualmente espetacular sua capacidade de usar as descobertas para defender as ideias que tinha sobre a organização do mundo e o lugar nele ocupado pelo homem. Galileu não foi homem de fugir a polêmicas e disputas intelectuais. Ao contrário, gostava delas e sabia tirar proveito em favor de suas próprias concepções quando nelas se envolvia.

O ano de 2009 foi escolhido pela União Astronômica

Internacional (IAU) o Ano Internacional da Astronomia justamente para que pudéssemos lembrar e comemorar os feitos do sábio italiano. Homenagem merecida: após Galileu, nosso mundo nunca mais foi o mesmo.

ESTE LIVRO TRAZ, APÓS UMA BREVE INTRODUÇÃO, algumas contribuições de Galileu para a astronomia. Essa introdução pretende mostrar que suas descobertas foram principalmente devidas a sua corajosa e ousada decisão de usar um novo instrumento — o perspicillum, ou a luneta telescópica — para investigar os céus. Ao perceber as novas possibilidades de estudo abertas pela luneta, Galileu decidiu trabalhar com o propósito de comprovar a veracidade do sistema copernicano, o qual, basicamente, afirmava que a Terra gira em torno do Sol, agora transformado em centro do universo.

Introdução

A ciência moderna não saiu, perfeita e completa, como Atena da cabeça de Zeus, dos cérebros de Galileu e Descartes. Ao contrário, a revolução galileana e cartesiana — que, apesar de tudo, permanece como uma revolução —, foi preparada por um longo esforço de pensamento. Alexandre Koyré 1

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Sua decisão foi, em parte, guiada pela crença, alcançada quando já era homem maduro, com 40 anos ou mais, de que o sistema copernicano era aquele que não apenas descrevia melhor os movimentos dos astros, no sentido de salvar as aparências,2 mas que correspondia à verdadeira estrutura do cosmo. Porém, a adesão ao copernicanismo não parece ser explicada apenas por critérios científicos. Nesse caso, Galileu não foi levado a aceitar a verdade copernicana por nenhuma decisão baseada em observações ou raciocínos lógico-dialéticos (conclusões ou inferências alcançadas por meio de regras lógicas semelhantes a, por exemplo, Barbara: (1) todos os M são P. (2) todos os S são M. (3), e a conclusão extraída de (1) e (2) é todos os S são P.) retirados de leituras cuidadosas das obras dos filósofos peripatéticos (aqueles filósofos que, mesmo com diferenças entre eles, eram partidários dos mais importantes princípios do pensamento de Aristóteles) ou do próprio Aristóteles. Sua decisão em prol do copernicanismo parece ter sido baseada na convicção, crescente com o passar dos anos, de que a física aristotélica era simplesmente errada e incapaz de dar conta dos novos fenômenos observados através da luneta.

De modo algum alimento com este pequeno trabalho alguma pretensão à completude quanto à exposição da obra

As descobertas astronômicas de Galileu Galilei 15 de Galileu ou mesmo à defesa de algum argumento original acerca da relevância de seu pensamento. Ainda que defenda — como será visto mais adiante — certa atitude diante da obra galileana. Não posso abordar muitos aspectos de sua complexa produção intelectual, como de que modo lhe foi possível descobrir a lei da queda livre dos corpos pesados próximo à superfície da Terra ou argumentar em favor do uso da matemática para descrever e entender a estrutura do universo. Preferi, assim, restringir-me a um período relativamente curto, e o qual é certamente conhecido e muito comentado, de sua fantástica capacidade de investigador, a saber: os anos entre 1609 e 1619, aproximadamente. As descobertas, por exemplo, feitas entre os meses de setembro de 1609 e fevereiro de 1610, época em que Galileu descobriu os satélites de Júpiter, entre outras observações astronômicas de impacto enorme, estão entre aquelas que implicaram o que se convencionou denominar de revolução galileana. Não é exagero afirmar que a descoberta dos satélites de Júpiter, das fases de Vênus, o estudo das manchas solares e a discussão sobre a localização e a natureza dos cometas, pesquisas realizadas ao longo da primeira metade da década de 1610, conferem a Galileu uma importância significativa na história da ciência. Ele simplesmente contribuiu para transformar nossa visão de mundo.

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A descrição dessa descoberta, feita pelo próprio Galileu, que lhe deu um lugar de destaque muito desejado de matemático e filósofo na corte toscana, também contribuiu para que se tornasse conhecido em diversas cortes europeias. A maneira pela qual divulgou suas descobertas, o modo como obteve o reconhecimento junto à corte dos Médici, incluindo um aumento nos vencimentos, bem como a propaganda em favor de novas ideias, que atingiram vários segmentos diferentes da sociedade de então, mostram-nos que Galileu sabia que a verdade científica não se estabelece apenas devido a sua relevância e a sua novidade, sendo necessário também saber apresentar, divulgar e defender “as novas verdades”.

Pretendo discutir as implicações que o próprio Galileu extraiu de suas descobertas astronômicas para favorecer o sistema copernicano e o modo pelo qual essas implicações exigiam uma revisão profunda das relações entre ciência e fé. Com relação a este último tópico, penso que Galileu, embora tenha defendido uma separação entre aquelas duas áreas, não o fez de modo a impedir qualquer comunicação entre esses dois domínios. Sua intenção era mostrar que os textos sagrados deveriam ser interpretados à luz do que era determinado pelo estudo minucioso e dedicado de um outro livro, mais difícil que

As descobertas astronômicas de Galileu Galilei 17 a Bíblia: o livro da natureza. A dificuldade inerente ao livro da natureza deve-se ao fato de que está escrito numa língua específica — matemática —, que não é aprendida correntemente no seio da família ou com os amigos. Em parte, a raiz dos conflitos entre Galileu e a Igreja situa-se na disputa acerca da autoridade responsável pelos ensinamentos a serem extraídos da natureza. Como bem descreve um dos mais importantes historiadores da ciência desse período, o italiano Paolo Rossi:

A maior parte dos intérpretes de Galileu insistiu — e com justa razão — sobre o grande tema galileano da distinção teologia-ciência, sobre a redução do texto sagrado ao plano das verdades morais, sobre a oposição de Galileu às autoridades (“A ciência e a filosofia dos modernos”, p. 109).

Anteriormente, afirmamos que, neste livro, alimentamos a pretensão de defender uma certa tese. Vejamos qual é ela. Em termos historiográficos, ou seja, se levarmos em consideração os procedimentos, os objetivos e os valores usados para narrar a história da ciência, um dos principais objetivos deste pequeno livro é defender a tese de que não é possível compreender a importância e o impacto da obra de Galileu, mesmo que restrita ao domínio da astronomia, caso

18 Antonio Augusto Passos Videira a consideremos apenas a partir da perspectiva dominante em nossos dias, que toma a divisão entre disciplinas como base natural para o entedimento do desenvolvimento do conhecimento científico. Como muito bem observou Rossi:

tezas e de equívocos(...) a discussão sobre o co-

Num contexto cultural [o da época de Galileu] desse tipo, tão variado e difícil, tão rico de incerpernicanismo não parece de modo algum solucionável no plano de uma pura ‘história da astronomia’ (“A ciên cia e a filosofia dos modernos”, p. 161).

Desse modo, o surgimento e o desenvolvimento da ciên cia moderna requerem uma outra perspectiva, diferente daquela que defende que o conhecimento se dá segundo um crescimento linear, cumulativo, e sempre capaz de superar os obstáculos colocados à sua frente pelas tradições e pelo senso comum, como defendido pelo italiano Rossi:

A ciência moderna, que tem a ver com as ‘teorias’ e com os ‘experimentos’, com a ‘necessidade’ e com a ‘contigência’, com a ‘simplicidade’ e com a ‘variedade’ da natureza, que se nutriu de visões metafísicas divergentes e opostas, nasceu, por caminhos tortuosos e difíceis, de múltiplas e discordantes tradições (“A ciência e a filosofia dos modernos”, p. 212).

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A tese presente na citação anterior pode ser aplicada ao nosso personagem, tornando-se possível entender o surgimento, aos olhos de filósofos e historiadores partidários de escolas filosóficas e historiográficas bem fixadas, de um Galileu ambíguo e distinto daquele que nos foi legado pela tradição, que lhe atribui a paternidade da ciência moderna. A busca pela compreensão das realizações galileanas por meio dos critérios atuais não é adequada ou razoável, como já apontado. Por exemplo, procurar um ‘Galileu’ fiel a uma mesma escola — empirista, defensora de que as informações obtidas por meio de sentidos, como visão, olfato e outros, constituem a origem do conhecimento; ou racionalista, que afirma ser a capacidade intelectual inata aos seres humanos a origem dos nossos conhecimentos —, não é esclarecedor de seu pensamento, como justificadamente afirmou Pablo Mariconda, filósofo da ciência e tradutor brasileiro de Galileu: [...] é importante [...] não esquecer que o programa filosófico de Galileu é inteiramente dependente de seu programa de investigação científica. A ausência de um programa autônomo e sistemático de investigação filosófica tem como consequência aquela aparência de oportunismo inescrupuloso à qual se referia Einstein.3 Afinal, Galileu é em certo sentido

20 Antonio Augusto Passos Videira um platônico, em certo sentido um atomista, em certo sentido um aristotélico, em função das conveniências circunstanciadas por suas investigações e posições científicas (Mariconda, 1989, p. 129-130).

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