Interação família e escola: contribuições

Interação família e escola: contribuições

(Parte 2 de 5)

O que temos hoje é um reflexo dessas mudanças, nas novas concepções de educação dos filhos, o que antes era feito entre famílias, passou a ser feito por uma instituição. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a educação feita por outra família isolava cada vez mais a criança de sua família biológica. A criança aprendia de forma prática, fazia afazeres domésticos enquanto aprendia, praticava coisas comuns do nosso cotidiano, mas sempre acompanhada pelo mestre que era responsável por sua aprendizagem que era voltada para a vida.

A realidade atual fez com que as escolas absorvessem todas as funções que as famílias educadoras exerciam, pois as funções familiares vão cada vez mais se restringindo. O que se vê hoje é um quadro de crianças entregues a sua própria sorte, pois os pais assumiram outras funções sociais e a escola sozinha não consegue cumprir todo o processo educacional.

Ariès (2006) aborda mais uma função da família: a proteção. A sociedade, longe da família, para quem não está preparado, pode ser muito desafiadora. A família deve preparar o indivíduo para viver fora dela, ou seja, a família tem a função de educar para a vida.

Nos período de instabilidade do poder público, a criança encontra na instituição familiar o seu primeiro refúgio. Entretanto, assim que o Estado oferece condições satisfatórias, a criança se liberta do regime familiar no qual sofreu alterações de ordem política (DUBY, apud ARIÈS, 2006).

Segundo ainda este autor, até meados do século XV, o sentimento de família e infância era ausente na vida cotidiana das pessoas. As crianças eram vistas como "adultos em miniatura", havendo um único mundo para adultos e crianças, dando-se a educação e as aprendizagens pela interação direta. Posteriormente, o sentimento de infância começou a ser desenvolvido, primeiro transformando a criança em fonte de distração para os adultos e, em seguida, pela preocupação moral dos eclesiásticos e moralistas, defendendo os colégios como espaço para proteger e ensinar as crianças.

Referindo-se, também, à concepção histórica da “família”, Bock, Furtado e Teixeira (2002) afirmam que ela esteve intacta ao longo de milhares de anos, mas tem mudado, e muito, nos últimos séculos, principalmente depois da liberalidade feminina. Segundo esses autores, a estrutura de pai, mãe e filhos têm sofrido muitas modificações advindas da modernidade, modificações estas que para muitos, não lhe permitem mais o uso do termo “família”. Eles ainda citam exemplos muito comuns em nossos dias, como a família de pais separados, ou filhos e cônjuges de mais de uma união como em segundos casamentos, a união homossexual, entre muitas outras que podem existir. Por outro lado, os autores ressaltam que nem sempre essa mudança no conceito de família está ligada à sua estabilidade.

Haveria alguma influência dessas várias formas de considerar a família sobre a conduta, o comportamento, a formação, enfim, influências sobre o aprendizado de uma criança no âmbito escolar? A discussão sobre essa questão levantaria dissensões sobre vários pontos de vista, sem dúvida.

Ainda conforme Bock, Furtado e Teixeira (2002, p. 254), "o vínculo, em seus aspectos biológico, social e afetivo é condição para o crescimento e desenvolvimento global da criança. Não há possibilidade de sobrevivência física e psíquica no desamor". Percebe-se, portanto que numa relação familiar com ou sem paradigmas, o importante é que o ser humano seja tratado como tal. Este fator é imprescindível à formação de qualquer cidadão. Mas deve-se também considerar que uma criança necessita, além de amor, do exemplo dos pais ou responsáveis. E mesmo que não haja reflexos diretos e perceptíveis no seu processo de aprendizado, a formação do caráter, a construção da índole seguirá potencialmente esses exemplos.

Diante do pressuposto de que a família é a base das primeiras aprendizagens de cada indivíduo, entende-se ser preciso valorizá-la e valorizar o que nela se aprende. Apesar disso, entende-se que hoje, não só a família, a escola e a Igreja participam da educação das crianças e jovens, mas a mídia e os meios de comunicação em geral também dão sua contribuição, trazendo para a educação dos nossos tempos uma homogeneidade de culturas e de ideologias.

16 2.1 O PAPEL DA FAMÍLIA NA EDUCAÇÃO DOS FILHOS

Gokhale (1980) defende que a família além de servir de base para a futura sociedade, desempenha também papel fundamental na vida social do aluno. A educação familiar bem fundamentada possui papel importante no desenvolvimento do comportamento produtivo do discente.

Além de uma educação familiar bem fundamentada, Tiba (1996), defende a inserção da escola na vida familiar do aluno. A família, por outro lado, deve proporcionar atenção e carinho à criança e deve assegurar um ambiente agradável para que a criança consiga de maneira satisfatória resolver seus deveres escolares.

Bartholo (2003) relata que as relações familiares implicam na integração que o aluno apresenta com o processo ensino-aprendizagem, indagando que os pais são o maior valor que pode vir a possibilitar o entendimento do indivíduo. Parolin completa:

Segundo Parolin (2003), a família tem o dever de estruturar o sujeito em sua identificação, individuação e autonomia. Esse processo ocorre no cotidiano da criança, no qual lhe são oferecidos carinho, atenção e dedicação para que possa suprir suas necessidades, por meio da arte da convivência.

17 3 A INTERAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA

A participação da família no processo educacional tem sido intensamente explorada por estudiosos nas últimas décadas. Muitos desses estudos tinham por principal finalidade apontar os benefícios da integração família e escola e esclarecer como pode ocorrer a participação dos pais. Maimoni e Bortone (2001) informam que as pesquisas realizadas indicam que o envolvimento dos pais pode ocorrer de várias maneiras, como segue:

- acompanhamento das tarefas e dos trabalhos escolares; - estabelecimento de horários de estudo;

- acompanhamento do rendimento do aluno na escola;

- encorajamento ao desenvolvimento por meio do reforço aos esforços da própria criança; - participação na programação da escola, como atividades esportivas e extracurriculares; - auxílio ao filho adolescente na seleção de cursos, entre outros.

3.1 IMPORTÂNCIA DA INTERAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA

É cada vez mais difícil a distinção do certo ou errado na cabeça das crianças e jovens. Isso acontece porque, enquanto os educadores medievais agiam com total proteção da criança, ensinando-lhes tudo com situações do cotidiano, e depois a escola assumiu essa função com a toda rigidez da época, hoje é cada vez mais raro encontrar uma estrutura familiar favorável à educação da criança; além disso, a sociedade lhe oferece outros atrativos que a afasta da família e vice-versa.

A família tem atributos diferentes a cada fase de seus membros. Dessa forma, deve ter um direcionamento para o bebê, para a criança, para o púbere, para o adolescente e para o adulto. Assim também, a escola deve direcionar suas atribuições para cada fase, conforme ressaltam Bossa e Oliveira (1998, p. 170):

que melhor os atendeAssim, se o bebê, a criança, o púbere, o

Da mesma forma que os indivíduos, que, no decorrer de sua existência, passam por um ciclo de diferentes fases, cada qual com características específicas, a Família e a Escola também passam por fases diversas em função da idade de seus membros, os cuidados que necessitam, a estrutura adolescente tem diferentes características e necessidades, a família com crianças pequenas púberes e adolescentes, jovens e adultos também têm diferentes tarefas, expectativas e organizações para atender o relacionamento em cada uma dessas fases. A escola, da mesma forma, tem que cuidar desde o espaço físico ao professor contratado e às atividades programadas para cada etapa do desenvolvimento dos alunos no decorrer do ciclo vital.

A família enfrenta seus problemas para cada fase, assim como a escola também enfrenta suas dificuldades diante de cada etapa da vida de seus alunos. Uma das questões mais conflituosas que a escola enfrenta é o fracasso escolar e esse problema, que por vezes é atribuído a muitos fatores, também é atribuído a problemas familiares.

A criança, quando não é bem amparada pela família no sentido de educar, transmitir conhecimentos, valores, cultura e servir-lhe como exemplo, pode ser influenciada pelos seus grupos sociais. Muitas vezes é mais fácil seguir ao “seu grupo” de amigos do que aos pais ou à escola. Com isso, a criança pode acabar apegando-se ao que é mais fácil e atraente para seguir naquele momento, juntando-se, por exemplo, ao grupo dos mais “bagunceiros” da escola, dos menos interessados em atividades escolares, e que sempre estão envolvidos com problemas de indisciplina. Como afirma Tiba, “atualmente, o contato social é muito precoce. Ainda sem completar a educação familiar, a criança já está na escola. O ambiente social invade o familiar não só pela escola, mas também pela televisão, internet, dentre outros” (2002, p. 178).

O que acontece atualmente é a inversão dos papéis: a família espera da escola uma educação exemplar, uma educação completa, uma formação como acontecia na era Medieval, quando os pais entregavam os filhos a outra família para educá-los ou contratavam um mestre para que acompanhasse a criança a todo o momento ensinando-lhe tudo o que fosse necessário para viver em sociedade, principalmente bons modos e etiquetas sociais.

Segundo Tiba (2002), muitos pais culpam a escola pelo mau comportamento em casa, dando a entender que quem educa é a escola. Na realidade, essa idéia é errônea e não deve prevalecer, pois cabe aos pais a formação do caráter, da autoestima e da personalidade da criança.

Entende-se que se cada um cumprir seu papel, um completa o outro, não serão necessárias cobranças e não haverá uma sobrecarga nem da família e nem da escola. Não apenas as duas entidades precisam definir-se, mas também é preciso deixar bem claro para a criança a função de cada um para que ela possa buscar de forma correta a ajuda para seus conflitos.

Tiba (2002) entende que se a união entre família e instituição de ensino for firmada desde o início da vida escolar da criança, todos irão ganhar. O mesmo ressalta ainda que, se a criança estiver bem, vai melhorar, e se precisar de ajuda para resolver seus problemas, receberá tanto da escola quanto dos pais para solucioná-los.

Concordando com as concepções de Tiba (2002), Parolin (2003) coloca família e escola como "instituições parceiras". Segundo ela, ambas carregam a função de socialização, porém, esta tarefa seria diferentemente conduzida em cada uma, e complementares perante a sociedade como um todo. Pois é essencial a fusão da emoção, sentimentos e intuição advinda do “mundo subjetivo” que se adquire na família, à razão, conhecimento e informação do mundo objetivo passado pela escola em busca da sabedoria.

Reforçando os autores citados anteriormente, Lopez (2002) lembra que, em nossa sociedade, os pais nunca deixaram de ser os responsáveis morais e legais sobre os filhos, por mais que seja cada vez mais comum às crianças no mundo atual começarem a freqüentar escolas antes mesmo dos dois anos de idade. E é justamente por isso que a integração dessas instituições deve ser extremamente íntima. Ainda segundo o mesmo autor, na educação dos filhos a família tem a função de proporcionar suporte à atuação pedagógica, garantindo o cumprimento dos deveres fora do corpo físico escolar, contribuição esta muito importante na formação do cidadão.

Nogueira (1999) completa que a relação entre escola e família tem-se resumido à comunicação de notas e freqüência escolar, e resultados de aprendizagem com a solicitação de ajuda para resolver problemas disciplinares e financeiros, relação esta que normalmente não inclui o respeito e reconhecimento dos pais como educadores responsáveis por seus filhos. A autora ressalta ainda que a concepção de comunidade escolar inclui todos os seus profissionais, alunos e respectivas famílias em busca de um mesmo objetivo: a formação do cidadão.

Voltando ao comentário de Parolin (2003), anteriormente citado, escola e família são instituições independentes, porém, nunca isoladas, e de atuação obrigatoriamente conjunta. Nessa relação, nem sempre se poderá atribuir responsabilidades a uma que exima a outra dessa mesma obrigação.

Diante disso, destaca-se que é de fundamental importância a integração dos pais no sistema educacional, pois são eles que podem incentivar o melhor aproveitamento educacional de seus filhos, e é através dessa parceria que a instituição de ensino pode constituir uma aliança com forte embasamento (TIBA, 2002).

3.2 FATORES QUE INFLUENCIAM A RELAÇÃO FAMÍLIA E ESCOLA E O RENDIMENTO ESCOLAR

A interação da família no processo educacional dos filhos tem se mostrado cada vez mais fundamental para seu desempenho escolar. Assim, a integração entre os pais e a instituição de ensino tende a contribuir para uma estabilidade educacional do aluno (CHECHIA; ANDRADE, 2002).

Referindo-se a essa questão, Paro afirma que “na mesma medida em que enfatizam a importância e a necessidade de os pais participarem, em casa, da vida escolar de seus filhos, os professores e funcionários, em geral, reclamam da falta dessa participação” (2007, p. 39).

Carvalho (2000) ressalta que uma das tarefas que a família deve exercer na vida estudantil dos filhos é justamente a de acompanhar seus estudos, e que essa participação pode ser espontânea ou proposta pela própria instituição de ensino.

Após estudo realizado, Bhering e Blatchford (1999) apontaram que os pais necessitam conhecer melhor o Projeto Político Pedagógico (P) da escola, bem como suas regras. O P de uma escola é um documento que representa um referencial teórico-filosófico e político da mesma. Deve incluir estratégias e propostas práticas de ação, além de aspirações e ideais da comunidade escolar. Esse documento deve permitir que a escola faça suas escolhas sobre a melhor forma de educar a todos. Por ter como princípio uma transformação ou uma mudança da realidade educacional deve englobar os diversos segmentos da escola de forma participativa, o que inclui os pais dos alunos.

Concordando com Bhering e Blatchford (1999), Paro (1992) defende que conhecendo fatores relacionados à escola, é possível criar situações que possam agir de maneira a aproximar a escola e a família.

Outro fator importante para a aproximação entre família e escola é o diálogo (PARO, 2007). Para que o mesmo aconteça é necessário que os pais se sintam respeitados, valorizados e tratados “de igual para igual” na escola dos filhos.

Referindo-se aos fatores que prejudicam o rendimento escolar dos alunos, Paro (2007) destaca a falta de condições favoráveis para o estudo, principalmente nas classes menos favorecidas. O mesmo relata ainda que nessas camadas sociais podem ser evidenciadas situações bastante diversas, desde extrema precariedade até realidades na qual a família oferece boas condições de trabalho. No entanto, na atual situação das famílias menos favorecidas, é bastante possível que os casos em que há ausência de situações adequadas aos estudos predominem amplamente. Diante disso Paro ainda afirma que “a precariedade dos recursos e dos espaços para o estudo no interior dos lares não deixa de ser uma realidade que dificulta o trabalho estudantil das crianças e jovens (2007, p. 48).

Percebe-se, então, que famílias menos favorecidas financeiramente possuem uma dificuldade muito maior em poder proporcionar aos filhos condições favoráveis de estudo. Oliveira (2008) confirma essa constatação defendendo em seu artigo que o fator condição social exerce fundamental influência no insucesso nos estudos por parte dos alunos.

Outro fator apontado por Paro (2007) como prejudicial à integração família e escola é a comunicação ineficiente. Em relação a isso, ele afirma que a comunicação eficiente entre a família e a escola está muito distante da realidade atual, e que os valores importantes no que diz respeito ao ensino ficam prejudicados nesse tipo de relação. De acordo com o mesmo autor, a falta de iniciativa dos educadores contribui de maneira significativa para este quadro. Para ele, os docentes deixam a desejar nas atitudes, além de haver escassez de trabalho em conjunto com a família dos alunos.

Paro (2007) relata que os docentes não têm iniciativa de trabalho junto à família do aluno, e que esta também é carente de habilidade e incentivo para que os filhos tenham bons hábitos escolares.

Entende-se que a precariedade de condições das classes menos favorecidas economicamente influencia de maneira negativa no processo educacional, e que isso aliado à falta de interesse do educador em re-socializar o aluno e de trazer a família para dentro da escola, ajuda a potencializar ainda mais os problemas que assolam o sistema educacional brasileiro.

3.3 O PAPEL DA ESCOLA NO PROCESSO DE INTERAÇÃO COM A FAMÍLIA

De acordo com Paro (1992), o entendimento de alguns fatores vitais da atuação da comunidade na escola, levaria diversos profissionais ligados à educação a fomentar idéias de como se aproximar da família, estreitando a relação entre ela e a escola.

Paro (1992) afirma ainda que a instituição de ensino deve usar todos os métodos de aproximação direta com a família, pois dessa forma podem compartilhar informações significativas em relação aos seus objetivos, recursos, problemas, além de questões pedagógicas. Somente dessa maneira, os pais poderão participar efetivamente do aumento do nível educacional, bem como do desenvolvimento de seu filho.

Depois de um estudo realizado com pais de alunos, Bhering e Blatchford (1999), apontaram que os pais sentiam a necessidade de entender melhor sobre o funcionamento escolar e, que ainda, as suas regras fossem mais conhecidas, principalmente as de sala de aula.

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