Entrada em Espaços Confinados e Operações de Resgate

Entrada em Espaços Confinados e Operações de Resgate

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Controle de Entrada em

Curso de

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Antes de abordarmos nosso tema principal, gostaria de destacar que os conceitos aplicados nesse curso fazem parte de experiências profissionais vivenciadas por mais de 25 anos nas atividades operacionais dos serviços de busca e salvamento do Corpo de Bombeiros de São Paulo.

É necessário fazer essas considerações porque o Corpo de Bombeiros não é apenas a prevenção e o combate a incêndios. Pelo contrário, os incêndios representam somente cerca de 15% do total de emergências atendidas, ficando os 85% restantes, por conta do resgate de vidas humanas (aproximadamente 65%) e salvamentos diversos com 20%.

Desde sua fundação, em 1880, o Corpo de Bombeiros se vê empenhado no atendimento de ocorrências envolvendo vidas humanas que não derivam propriamente de situações de incêndio. Em 1931, sob o comando do legendário comandante Cianciulli, essas ocorrências, que ficaram conhecidas como atividades de salvamento, desenvolveram-se consideravelmente com a incorporação de novas tecnologias e modernos equipamentos. É dessa época a colocação em serviço operacional da primeira ambulância do Corpo de Bombeiros e do primeiro auto-salvamento, que com o nome de salvação, derivou mais tarde no serviço de busca e salvamento. O Cmt. Cianciulli, também foi o inventor do “aparelho de poço”, provavelmente o precursor dos modernos equipamentos utilizados para movimentação vertical. Esse “aparelho” consistia de um tripé equipado com engrenagens que mutiplicavam a força exercida na manivela de içamento e era muito utilizado para retirada de animais de grande porte que caiam em poços.

Em maio de 1943, foi criado o quadro de especialista em salvação, admitindo, implicitamente, que a atividade de salvar vidas requeria treinamento específico. No início dos anos 50 criou-se um núcleo denominado Seção de Salvação, com a missão de planejar e coordenar as atividades de salvamento, reunindo os homens especializados sob um único comando. Por essa época, a cidade de São Paulo urbanizava-se rápida e desordenadamente e era comum um tipo de ocorrência que hoje quase não existe mais: pessoa ou animal em poço.

Os novos munícipes, sem contar com água encanada e captação de esgotos, furavam poços e fossas negras em suas propriedades, que acabavam sendo responsáveis por um grande número de acidentes. Essa característica, que perdurou até a década de 80, foi de tal magnitude que por muitos anos os três tipos básicos de intervenção emergencial eram classificados, para efeitos estatísticos, como: água, terra e poço.

Particularmente, as ocorrências em poço, revestiam-se de peculiaridades tais que requeriam táticas de abordagem e de atendimento especiais. Por outro lado, as ocorrências no meio líquido, notadamente as de mergulho, fizeram com que os homens de salvamento desenvolvessem conhecimentos e habilidades com o emprego de ar comprimido respirável. Nascia aí, de modo incipiente e não científico, a vocação para o trabalho em espaços confinados.

O treinamento proposto, visa capacitar os profissionais da área de segurança na coordenação de trabalhos, prevenção de acidentes, procedimentos e medidas de proteção em espaços confinados, de acordo com a NBR 14787.

Este é o objetivo principal, porém outra meta, igualmente importante, que vamos desenvolver e procurar atingir no presente treinamento, é proporcionar aos técnicos conhecimentos suficientes para iniciar a capacitação de seus funcionários socorristas nas atividades de resgate de vítimas em espaços confinados.

Entradas em espaços confinados como parte da atividade industrial podem ser feita por vários motivos. A mais comum é para a realização de serviços de inspeção, reparos, manutenção, ou qualquer outra operação cuja característica é não fazer parte da rotina industrial. Outro tipo de entrada, esta mais difícil de controlar, é a realizada por pessoas não autorizadas, que inadvertidamente ou não, acabam por se arriscar no interior de espaços confinados. Esse problema é comum quando em um espaço confinado o trabalho a ser realizado envolve muitos trabalhadores, como soldadores, pintores, eletrecistas, etc...Nos dias atuais um componente novo que veio agravar esse aspecto é o empresas contratadas para operar com a empresa contratante no mesmo espaço.

Esas operações de entrada só devem ser realizadas após a elaboração da

Permissão de Entrada. A Permissão é uma autorização (e aprovação) por escrito, que especifica o local, o trabalho a ser feito e certifica que todos os riscos existentes foram avaliados por pessoal qualificado e que as medidas de proteção necessárias foram tomadas para garantir a segurança de cada trabalhador.

Por fim uma das mais importantes razões para realizar uma entrada é aquela que é feita para efetuar resgate e salvamento de trabalhador acidentado. Esta e todas as demais razões para entradas devem sempre ser precedida de um bom planejamento inicial onde todos os riscos são previamente levantados e estudados. Os socorristas devem conhecer a disposição física estrutural do espaço, os procedimentos de saída de emergência e os recursos de primeiros socorros disponíveis.

Entradas para resgatar trabalhador acidentado deve ser precedida de planejamento. Todos os riscos potenciais existentes devem ter sido revistos. O vigia e o socorrista devem conhecer antecipadamente a disposição física do espaço, os procedimentos de saída de emergência e de suporte à vida necessários.

Sob nenhuma circunstância o vigia deverá adentrar ao espaço confinado até que ele esteja seguro e certificado que adequada assistência está presente. Enquanto aguarda a chegada de pessoal de resgate e primeiros socorros ele deverá, do lado de fora do espaço confinado, fazer tentativas de resgatar o trabalhador através da linha de vida.

Os riscos encontrados e associados com entradas e trabalho em espaços confinados são capazes de causar lesões, doenças ou até mesmo a morte do trabalhador. Acidentes ocorrem porque geralmente as pessoas que adentram esses locais falham no reconhecimento dos riscos potenciais.

Antes de iniciar o salvamento, informações sobre o espaço confinado deverão ser obtidas, tais como: natureza do agente contaminante, área cúbica , o tipo de trabalho que estava sendo realizado e quantos trabalhadores estão operando no local.

Se utilizar ventilação forçada, está não deverá criar riscos adicionais, como a recirculação do agente contaminante devido a uma má colocação da saída da manga de exaustão.

Muito embora a norma tenha sido desenvolvida para, através da prevenção e da previsão, evitar o resultado acidente de trabalho tornando desnecessário o emprego de equipes de salvamento, a verdade é que as peculiares condições que envolvem operações em um espaço confinado acabam, por vezes, ultrapassando os limites da previsibilidade e dando margem a manifestação da emergência. É nesse momento que entram em cena os socorristas, minimizando os efeitos deletérios do acidente.

As técnicas de primeiros socorros que serão abordadas não serão diferentes daquelas universalmente aceitas e reconhecidas como de maior efetividade na manutenção da vida, bem como o perfil do trabalhador empregado como socorrista não será diferente daquele que vem sendo utilizado no recrutamento e seleção desse profissional. O socorrista que, de acordo com a norma, atuará no espaço confinado deverá ter as mesmas habilidades e capacitação de seus colegas que prestam atendimento pré-hospitalar em qualquer outra área. O que vai diferenciá-lo é que em seu campo de trabalho o ambiente de atuação determinará as tomadas de decisão, alterando as prioridades e seqüências do atendimento, em prol do bem estar da vítima e do próprio socorrista.

Desde já podemos apontar que a principal diferença que norteará as decisões do socorrista, diz respeito ao local de intervenção e prestação de socorros. Espaços confinados podem e comumente desenvolvem atmosferas IPVS e nesses casos a vítima deverá ser primeiramente removida do local para depois receber cuidados médicos. O socorrista deverá redobrar sua atenção quando adentrar nesses ambientes para que também não venha a se tornar uma vítima.

A NBR 14787, prevê que as empresas que executem trabalhos em espaços confinados, mantenham serviços de resgate: “5.6 Implantar o serviço de emergências e resgate mantendo os membros sempre à disposição, treinados e com equipamentos em perfeitas condições de uso.”

E dentro dessa linha, a norma chega a detalhar um mínimo de providências para tornar exeqüível o trabalho da equipe de resgate, conforme podemos verificar pelo texto: “O empregador deverá assegurar que cada membro do serviço de resgate:

• Utilize equipamento de proteção individual e de resgate necessários para operar em espaços confinados e sejam treinados no uso adequado dos mesmos.

• Tenha sido treinado para desempenhar as tarefas de resgate designadas.

• Receba o mesmo treinamento requerido para os Trabalhadores Autorizados.

• Seja treinado em primeiros socorros básicos e em reanimação cardiopulmonar (RCP). Ao menos um membro do serviço de resgate deverá estar disponível e ter certificação atual em primeiros socorros e em RCP.

• Deverá ser capacitado, fazendo resgate em espaços confinados, ao menos uma vez a cada doze meses, por meio de treinamentos simulados nos quais eles removam manequins ou pessoas dos atuais espaços confinados ou espaços confinados representativos. Espaços confinados representativos são os que, com respeito ao tamanho da abertura, configuração e meios de acesso, simulam os tipos de espaços confinados dos quais o resgate será executado.”

Dessa forma, o trabalhador que tiver a incumbência de chefiar a equipe de resgate deve, juntamente com os trabalhadores autorizados, exercitar a previsão buscando prever todas as intercorrências que podem resultar em acidente. Esse cuidado está expresso na própria norma:

“Identificar e avaliar os riscos dos espaços confinados antes da entrada dos trabalhadores.” Se esse item for bem desenvolvido, tanto pelos trabalhadores quanto pela equipe de resgate, os riscos de acidente serão mínimos e, caso ocorram, a equipe estará muito mais bem preparada e confiante para realizar seu trabalho de salvamento.

31.1.3 – Cabe ao empregador: e) garantir a capacitação permanente dos trabalhadores sobre os riscos, as medidas de controle, de emergência e resgate em espaços confinados;

31.3 – Medidas de proteção d) designar as pessoas que participarão das operações de entrada, identificando os deveres de cada trabalhador e providenciando o treinamento requerido;

31.3.3 – Todo trabalho realizado em espaço confinado deve ser acompanhado por supervisão capacitada para desempenhar as seguintes funções: f) adotar os procedimentos de emergência e resgate quando necessário; g) operar os equipamentos de movimentação ou resgate de pessoas;

31.3.5 – Os equipamentos de proteção e resgate devem estar disponíveis e em condições imediatas de uso;

31.3.15 – Nos estabelecimentos onde ocorrerem espaços confinados devem ser observadas, de forma complementar a presente NR, a NBR 14606 – Postos de Serviço – Entrada em espaço confinado e a NBR 14787 – Espaço Confinado – Prevenção de acidentes, procedimentos e medidas de proteção.

31.4 – Capacitação para trabalhos em espaços confinados

31.4.1 – O empregador deve desenvolver programas de capacitação sempre que ocorrer qualquer das seguintes situações: a) antes que o trabalhador seja designado para desempenhar atividades em espaços confinados; b) antes que ocorra uma mudança no trabalho; c) na ocorrência de algum evento que indique a necessidade de novo treinamento; d) pelo menos uma vez ao ano.

31.4.2 – O programa de capacitação deve possuir no mínimo: a) conteúdo programático versando sobre: definições; identificação de espaço confinado; reconhecimento, avaliação e controle de riscos; funcionamento de equipamentos utilizados; técnicas de resgate e primeiros socorros; utilização da Permissão de Entrada. b) carga horária adequada a cada tipo de trabalho, estabelecida a critério do responsável técnico, devendo possuir no mínimo oito horas, sendo quatro horas de treinamento teórico e quatro horas de treinamento prático; c) instrutores designados pelo responsável técnico, devendo os mesmos possuir proficiência no assunto; d) informações que garantam ao trabalhador, ao término do treinamento, condições para desempenhar com segurança os trabalhos para os quais seja designado.

31.4.3 - É vedada a designação para trabalhos em espaços confinados sem a prévia capacitação do trabalhador.

31.5 – Medidas de emergência e resgate

31.5.1 – O empregador deve elaborar e implantar procedimentos de emergência e resgate adequados aos espaços confinados incluindo, no mínimo: a) identificação dos riscos potenciais através da Análise Preliminar de Riscos - APR; b) descrição das medidas de salvamento e primeiros socorros a serem executadas em caso de emergência; c) utilização dos equipamentos de comunicação, iluminação de emergência, resgate e primeiros socorros; d) designação de pessoal responsável pela execução das medidas de resgate e primeiros socorros para cada serviço a ser realizado; e) exercício anual em técnicas de resgate e primeiros socorros em espaços confinados simulados.

A NBR prevê que as equipes de resgate devem: Desenvolver e implementar procedimentos para os serviços de emergência especializada e primeiros socorros para o resgate dos trabalhadores em espaços confinados. Para atingir esse objetivo, as equipes devem utilizar-se de procedimentos operacionais padronizados para realizarem suas operações. Existem “pops” como o da RCP, por exemplo, que são empregados por todos e servem para qualquer equipe que vá fazer uma reanimação em uma vítima. Porém, cada local de trabalho tem peculiaridades próprias e somente aqueles que ali trabalham podem desenvolver ações operacionais específicas.

Para nortear nosso curso, definimos a seguir, o que é um “pop”, como ele nasce e como é modificado.

Procedimento Operacional Padrão ou Protocolo, como é denominado pelos norte-americanos, é a descrição passo a passo de um trabalho ou operação. Tem por finalidade uniformizar o modo de realizar uma determinada manobra técnica por aqueles que trabalham na atividade operacional, que passando a ser embasada em procedimento escrito, permite o controle e a melhoria do serviço prestado.

Para se ter um "pop" é condição básica que exista uma rotina ou um manual de treinamento, pois é daí que ele se origina. Não se pode ter um procedimento padrão de uma atividade até então inexistente no serviço. Ex. de nada adianta elaborar um "pop" de punção cricotiroideana se esse trabalho não foi ensinado em treinamento anterior; ou um "pop" de desfibrilação cardíaca se não está disponível o desfibrilador e o respectivo treinamento; ou ainda, um "pop" de combate a incêndios em edifícios elevados se a cidade onde o bombeiro trabalha não tem edifícios com mais de um pavimento ou não possui escadas ou plataformas mecânicas.

Os “pops” para equipes de resgate em espaços confinados são a padronização de determinados procedimentos de primeiros socorros para garantir ao paciente um mínimo aceitável de cuidados, tanto em qualidade como em efetividade. Este mínimo é baseado em legislação, ordens administrativas e procedimentos aceitos por organismos que cuidam e se interessam pelos cuidados de emergência.

Os procedimentos são elaborados a partir de um colegiado de pessoas envolvidas nas atividades de prestação de cuidados médicos, com experiência na área, e submetidos aos conselhos para aprovação. Nosso objetivo é que você realize cuidados de emergência padronizados de acordo com seu treinamento e experiência.

Os “pops” são dinâmicos, podendo serem mudados desde que novas técnicas ou conhecimentos científicos demonstrem que o que está em vigor tornou-se obsoleto.

Nosso curso, por exemplo, obedece um “pop” de carga horária, habilidades, estágios e equipamentos que devem ser ensinados aos alunos, para que estes possam ministrar cuidados de emergência no nível que se espera. Treinamento e reciclagens são os melhores meios de assegurar que o socorrista será capaz de ministrar cuidados médicos.

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