A pirâmide do poder do coronelismo

A pirâmide do poder do coronelismo

Antonio de Melo Torres1

A importância do coronel era medida pela capacidade de controlar, usando a força ou não, um maior coeficiente de votos, o que também acarretaria em um maior prestígio fora de seus domínios. Sendo assim, o coronel, que regionalmente controlava os “currais eleitorais”, controlando através de pressões, tanto emocionais, quanto físicas o coeficiente eleitoral, utilizando-se de mecanismos fraudulentos para se obter a votação desejada.

O coronel necessitava do cabo eleitoral, que podia ser um professor, um comerciante influente, um padre, e quando estes não conseguiam “controlar” as consciências, o jeito era apelar para os jagunços que eram os cabos eleitorais mais eficientes no controle do curral eleitoral. Desta forma podemos representar o poder local do coronel através de uma pirâmide:

O coronel controla os cabos eleitorais, que a troca de proteção tendem a executar as ordens do coronel, mesmo que se utilizem da violência para conseguir tal intento, isto é, arrecadar votos no curral eleitoral, que temeroso ou mesmo devedor de favores vota naqueles que o coronel manda que seja votado.

1 Especialista em Historia do Nordeste Brasileiro pela Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL.

Em seus estudos procura enfocar temas local, religiosos e pedagógicos. Email: torresa_1979@hotmail.com

O Apogeu do Coronelismo

Representante dos grandes latifundiários, o presidente Campos Sales implementou um política que beneficiava sua classe e que favorecesse os estados dominantes em detrimento dos outros estados tidos como pequenos, isto é, enquanto a política do Café com Leite, com São Paulo e Minas, prosseguia, os outros estados serviam apenas como base de apoio nas disputas entre os grandes estados. Tal esquema eleitoreiro ficou sendo chamado de “Política dos Governadores”. Sendo que a elite agrária agarrou com unhas e dentes já que segundo Peixoto (2007): “Mas Coronelismo quer dizer também compromisso, uma troca de favores entre o poder público em ascensão e os chefes locais, senhores da terra, que, decadentes, lutavam pela sobrevivência”. Sobrevivência que não passava mais só com a utilização da terra, mas com as jogadas políticas. Uma corrente que levava o presidente escolhido para ocupar a cadeira da presidência tinha que passar por um sistema que garantisse a eficácia nas eleições, devido a isso, era de suma importância que o coronel, os governadores e o presidente vivessem num estado de devedores de favores uns para com os outros, como explica Carvalho (2007)

O coronel municipal apoiava o coronel estadual que apoiava o coronel nacional, também chamado de presidente da República, que apoiava o coronel estadual, que apoiava o coronel municipal. Aperfeiçoou-se ao máximo a técnica eleitoral. Quanto mais regular a eleição, de acordo com as atas, mais fraudada era.

Seguido a lógica de Carvalho, podemos representar a política dos governadores através do organograma abaixo:

Esse esquema funcionava como um circulo vicioso alimentado pela corrupção e pela violência, praticada pela força de defesa dos coronéis, os jagunços. Os jagunços eram a polícia local. Nas eleições eram os momentos que ocorriam mais violências, inclusive com diversas mortes, e essas ficavam impunes, já que diziam, segundo Carvalho (2007) “Surgiram o „juiz nosso‟ e o „delegado nosso‟, para aplicar a lei contra os inimigos e proteger os amigos”. Sendo assim, o coronel que conquistasse mais prestígio junto à população e o governo estadual e federal, seria dominante de certa área, na qual só ele mandava, e desmandava.

Para que isso desse certo era também preciso que certas responsabilidades fossem bem distribuídas, como afirma Terra Networks (2007):

O presidente da república exigia que os governadores lhes enviassem bancadas concordes com a sua política. Em troca, ele sustentava as propostas regionais dos governadores (inclusive com apoio militar se fosse preciso). Estes por sua volta articulavam-se com os coronéis do seu estado, fazendo com que também eles mandassem para a assembléia legislativa na capital do estado, deputados acertados com os interesses políticos do governador.

Caso esse sistema ainda não revelasse uma precisão, o governo ainda dispunha de um outro mecanismo, que poderia confirmar ou não o candidato eleito, era a comissão de verificação, também chamada de degola.

A Comissão de Verificação

Chamada de degola, já que os candidatos eleitos não eram empossados, foi uma forma eficiente que a classe política dominante encontrou para afastar os políticos indesejados, então não bastava ter votos, mas sim, ser bem visto por essa mesma classe.

Dessa forma o presidente teria a chance, através da comissão de verificação legalizar ou repudiar qualquer eleição, segundo as suas conveniências.

Toma lá, dá cá

O apadrinhamento, as trocas de favores, um empreguinho, uma proteção, etc. tudo isso e muito mais eram os mecanismos pra manter os currais eleitorais satisfeitos com os mandos e desmandos do coronel, como complementa Peixoto

Era com seu prestígio pessoal que o coronel obtinha realizações de utilidades públicas para a sua localidade, como escolas, estradas, ferrovias, igreja, postos de saúde, luz, rede de esgotos e água encanada. Essas obras tinham por objetivo não só desenvolver o seu espaço, como também construir e preservar a sua liderança e aumentar a dependência política do seu eleitorado. A relação de reciprocidade ganha novos contornos e amplia a sua esfera para outras arenas: a vaga na escola só é concedida pelo vereador; a rede de água e esgoto ou a instalação elétrica compete ao deputado estadual; e os investimentos em transporte ou pólos de desenvolvimento ficam com os deputados federais e os senadores.

Esses benefícios não só ficavam nas construções obras, para a comunidade, mas também se utilizando do clientelismo, os coronéis conseguiam de tudo para aqueles que fossem solidários com a sua política e vivesse sobre sua tutela, enquanto aqueles que o desafiasse passavam a amargar perseguições, ou o pior, a morte.

O nepotismo, o uso da máquina pública era comum, não que hoje não exista, mas é mais restrito, naquele tempo, os cofres públicos estavam a disposição daqueles senhores que estivessem do lado do presidente, e que soubesse operar a maquina eleitoreira local em favor das grandes elites, deixando assim nas mãos do coronel a oportunidade de fazer o que bem entender com o erário público, como afirma Carvalho (2007)

O clientelismo, isto é, a troca de favores com o uso de bens públicos, sobretudo empregos, tornou-se a moeda de troca do coronelismo. Em sua forma extrema, o clientelismo virava nepotismo. O coronel nomeava, ou fazia nomear, filho, genro, cunhado, primo, sobrinho. Só não nomeava mulher e filha porque o lugar delas ainda era dentro de casa.

Além do nepotismo, esse texto de Carvalho deixa explicito que a sociedade daquele período era machista e patriarcal, que via a figura feminina com funções apenas de cuidar da criação da família, enquanto coronel e os seus herdeiros administravam a política e as finanças.

Ascensão e queda do coronelismo. Terra Networks. Disponível em:<http://w.iets.org.br/biblioteca/Coronelismo_enxada_e_votos.pdf> acesso em 10 mai. 2007.

CARVALHO, José Murilo de. Metamorfoses do coronel. Disponível em: <http://w.ppghis.ifcs.ufrj.br/media/carvalho_metamorfoses_coronel.pdf> acesso em 10 mai. 2007.

PEIXOTO, Celina Vargas do Amaral. Coronelismo, Enxada e Voto. Disponível em: <http://w.iets.org.br/biblioteca/Coronelismo_enxada_e_votos.pdf> Acesso em 10 de mai. 2007.

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