Livro Adolf Hitler Minha Luta

Livro Adolf Hitler Minha Luta

(Parte 1 de 2)

Minha Luta

(Mein Kampf)

Adolf Hitler

 

 

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

Prefácio

Dedicatória

PRIMEIRA PARTE

I - Na casa paterna

II - Anos de aprendizado e de sofrimento em Viena

III - Reflexões gerais sobre a política da época de minha estadia em Viena

IV - Munique

V - A Guerra Mundial

VI - A propaganda da guerra

VII - A Revolução

VIII - Começo de minha atividade política

IX - O Partido Trabalhista Alemão

X - Causas primárias do colapso

XI - Povo e raça

XII - O primeiro período de desenvolvimento do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães

SEGUNDA PARTE

I - Doutrina e partido

II - O Estado

III - Cidadãos e "súditos" do Estado

IV - Personalidade e concepção do Estado Nacional

V - Concepção do mundo e organização

VI - A luta nos primeiros tempos - A importância da oratória

VII - A luta com a frente vermelha

VIII - O forte é mais forte sozinho

IX - Idéias fundamentais sobre o fim e a organização dos trabalhadores socialistas

X - A máscara do federalismo

XI - Propaganda e organização

XII - A questão sindical

XIII - Política de aliança da Alemanha após a Guerra

XIV - Orientação para leste ou política de leste

XV - O direito de defesa

Posfácio

 

APRESENTAÇÃO

Nélson Jahr Garcia

     Minha Luta (Mein Kampf) foi a melhor obra já escrita contra o nazismo. Já se escreveram livros, artigos, crônicas; fizeram-se filmes, peças de teatro. Por mais que demonstrassem o totalitarismo, a crueldade e a desfaçatez daquele regime, nada conseguiu superar o original.     A comunidade judaica, pelo menos alguns de seus setores, batalham por proibir a divulgação do livro. Não entendo. Quanto mais se conhecer, maior se tornará o repúdio e aversão.     É certo que os filhos de Israel foram perseguidos, mas não só. Também o foram os negros, os eslavos, membros das "Resistências", maçons, todos originários de qualquer raça que não fossem considerados "arianos". Em suma, perseguiu-se tantos quanto se opuseram aos planos megalomaníacos do pequeno austríaco que resolveu tornar-se rei do universo.     Certa vez perguntei a um ex-capitão do exército mecanizado nazista: "Como foi possível que um dos povos mais cultos da Europa apoiasse um projeto neurótico e genocida como o dos nazis?" Respondeu-me, com certa simplicidade: "Perdêramos a I Grande Guerra, engenheiros, médicos e tantos reviravam latas de lixo para encontrar comida, os judeus, comerciantes em sua maioria, expunham suas mercadorias sugerindo serem beneficiados pela situação, era solo fértil para as pregações anti-semitas".     Quanto ao anti-semitismo, além da postura racista inquestionável e confessa, havia uma estratégia de propaganda. Hitler entendia que qualquer movimento precisava de inimigos para fortalecer-se. Subestimando a capacidade intelectual do povo, afirmava explicitamente, que as massas tinham dificuldades de entendimento e compreensão. Daí a necessidade de reduzir os vários adversários a um inimigo único: os judeus. As críticas da imprensa eram escritas por judeus, que também dominavam a literatura, as artes e o teatro. França e Inglaterra estavam controladas pelo capitalismo judaico. Os judeus levavam imigrantes negros para contaminar as raças européias. Os marxistas e revolucionários russos eram judeus. A maçonaria era controlada por judeus. Uma generalização absurda que, infelizmente, funcionou.     Penso que "Minha Luta" deva ser amplamente conhecido, um texto preconceituoso, presunçoso e que traz embutidos neuroses e psicoses indiscutíveis, conhecê-lo talvez seja a melhor forma de impedir que aquelas idéias ressuscitem. Além disso sou contra qualquer forma de censura. Os romanos incendiaram a Biblioteca da Babilônia, Hitler e Stalin queimaram livros, Getúlio Vargas também, os militares de nossa recente ditadura inclusive, e outros tantos, a humanidade só perdeu.     Por isso tudo divulgo o livro, uma peça de propaganda bastante eficiente, mas apenas no seu tempo e contexto. Devemos ler, analisar, discutir e produzir vacinas. Como os vírus, as idéias absurdas tendem a retornar fortalecidas e resistentes; só conhecendo poderemos enfrentá-las. 

PREFÁCIO

     No dia 1.° de abril de 1924, por força de sentença do Tribunal de Munique, tinha eu entrado no presídio militar de Landsberg sobre o Lech.     Assim se me oferecia, pela primeira vez, depois de anos de ininterrupto trabalho, a possibilidade de dedicar-me a uma obra, por muitos solicitada e por mim mesmo julgada conveniente ao movimento nacional socialista.     Decidi-me, pois, a esclarecer, em dois volumes, a finalidade do nosso movimento e, ao mesmo tempo, esboçar um quadro do seu desenvolvimento.     Nesse trabalho aprender-se-á mais do que em uma dissertação puramente doutrinária.     Apresentava-se-me também a oportunidade de dar uma descrição de minha vida, no que fosse necessário à compreensão do primeiro e do segundo volumes e no que pudesse servir para destruir o retrato lendário da minha pessoa feito pela imprensa semítica.     Com esse livro eu não me dirijo aos estranhos mas aos adeptos do movimento que ao mesmo aderiram de coração e que aspiram esclarecimentos mais substanciais.     Sei muito bem que se conquistam adeptos menos pela palavra escrita do que pela palavra falada e que, neste mundo, as grandes causas devem seu desenvolvimento não aos grandes escritores mas aos grandes oradores.     Isso não obstante, os princípios de uma doutrinação devem ser estabelecidos para sempre por necessidade de sua defesa regular e contínua.     Que estes dois volumes valham como blocos com que contribuo à construção da obra coletiva.O AUTORLandsberg sobre o LechPresídio Militar

DEDICATÓRIA

     No dia 9 de novembro de 1923, na firme crença da ressurreição do seu povo, às 12 horas e 30 minutos da tarde, tombaram diante do quartel general assim como no pátio do antigo Ministério da Guerra de Munique os seguintes cidadãos:     Alfarth (Felix). Negociante, nascido a 5 de julho de 1901.     Bauriedl (Andreas). Chapeleiro, nascido a 4 de maio de 1879.     Casella (Theodor). Bancário, nascido a 8 de agosto de 1900.     Ehrlich (Wilhelm). Bancário, nascido a 19 de agosto de 1894.     Faust (Martin). Bancário, nascido a 27 de janeiro de 1901.     Hechenberger (Ant.). Serralheiro, nascido a 28 de setembro de 1902.     Kõrner (Oskar). Negociante, nascido a 4 de janeiro de 1875.     Kuhn (Karl). Garção.Cehfe, nascido a 26 de julho de 1897.     Laforce (Karl). Estudante de engenharia, nascido a 28 de outubro de 1904.     Neubauer (Kurt). Doméstico, nascido a 27 de março de 1899.     Pope (Claus von). Negociante, nascido a 16 de agôsto de 1904.     Pforden (Theodor von der). Membro do Supremo Tribunal, nascido a 14 de maio de 1873.     Rickmers (Joh.). Capitão de Cavalaria, nascido a 7 de maio de 1881.     Scheubner-Richter (Max Erwin von). Engenheiro, nascido a 9 de janeiro de 1884.     Stransky (Lorenz Ritter von). Engenheiro, nascido a 14 de março de 1899.     Wolf (Wilhelm). Negociante, nascido a 19 de outubro de 1898.     As chamadas autoridades nacionais recusaram aos heróis mortos um túmulo comum.     Por isso eu lhes dedico, para a lembrança de todos, o primeiro volume desta obra, a fim de que esses mártires iluminem para sempre os adeptos do nosso movimento.     Landsberg sobre o Lech, Presídio Militar, 16 de outubro de 1924.Adolf Hitler

PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO I - NA CASA PATERNA

     Considero hoje como uma feliz determinação da sorte que Braunau no Inn tenha sido destinada para lugar do meu nascimento. Essa cidadezinha está situada nos limites dos dois países alemães cuja volta à unidade antiga é vista, pelo menos por nós jovens, como uma questão de vida e de morte.     A Áustria alemã deve voltar a fazer parte da grande Pátria germânica, aliás sem se atender a motivos de ordem econômica. Mesmo que essa união fosse, sob o ponto de vista econômico, inócua ou até prejudicial, ela deveria realizar-se. Povos em cujas veias corre o mesmo sangue devem pertencer ao mesmo Estado. Ao povo alemão não assistem razões morais para uma política ativa de colonização, enquanto não conseguir reunir os seus próprios filhos em uma pátria única. Somente quando as fronteiras do Estado tiverem abarcado todos os alemães sem que se lhes possa oferecer a segurança da alimentação, só então surgirá, da necessidade do próprio povo, o direito, justificado pela moral, da conquista de terra estrangeira. O arado, nesse momento será a espada, e, regado com as lágrimas da guerra, o pão de cada dia será assegurado à posteridade.     Por isso, essa cidadezinha da fronteira aparece aos meus olhos como o símbolo de uma grande missão. Sob certo aspecto, ela se apresenta como uma exortação nos tempos que correm. Há mais de cem anos, esse modesto ninho, cenário de uma tragédia cuja significação todo o povo alemão compreende, conquistou, pelo menos, na história alemã, o direito à imortalidade. No tempo da maior humilhação infligida à nossa Pátria, tombou ali, por amor à sua idolatrada Alemanha, Johannes Palm, de Nuremberg, livreiro burguês, obstinado nacionalista e inimigo dos franceses. Tenazmente recusara-se, como Leo Schlagter, a denunciar os seus cúmplices, ou melhor os cabeças do movimento. Como este, ele foi denunciado à França, por um representante do governo. Um chefe de polícia de Ausburgo conquistou para si essa triste glória e serviu assim de modelo às autoridades alemãs no governo de Severing.     Nessa cidadezinha do Inn, imortalizada pelo martírio de grandes alemães, bávara pelo sangue, austríaca quanto ao governo, moravam meus pais no fim do ano 80 do século passado, meu pai como funcionário público, fiel cumpridor dos seus deveres, minha mãe toda absorvida nos afazeres domésticos e, sobretudo, sempre dedicada aos cuidados da família. Na minha memória, pouco ficou desse tempo, pois, dentro de alguns anos, meu pai teve que deixar a querida cidadezinha e ir ocupar novo lugar em Passau, na própria Alemanha.     A sorte de empregado aduaneiro austríaco se traduzia, naquele tempo, por uma constante peregrinação. Pouco tempo depois, meu pai foi para Linz, para onde finalmente se dirigiu também depois de aposentado. Essa aposentadoria não devia, porém, significar um verdadeiro descanso para o velho funcionário. Filho de um pobre lavrador, já noutros tempos ele não tolerava a vida inativa em casa. Ainda não contava treze anos e já o jovem de então fazia os seus preparativos e deixava a casa paterna no Waldviertel. Apesar dos conselhos em contrário dos "experientes" moradores da aldeia, o jovem dirigiu-se para Viena, como objetivo de aprender um ofício manual. Isso aconteceu entre 1850 e 1860. Arrojada resolução essa de afrontar o desconhecido com três florins para as despesas de viagem. Aos dezessete anos, tinha ele feito as provas de aprendiz. Não estava, porém, contente. Muito ao contrário. A longa duração das necessidades de outrora, a miséria e o sofrimento constantes fortaleceram a resolução de abandonar de novo o ofício, para vir a ser alguma coisa mais elevada. Naquele tempo, aos olhos do pobre jovem, a posição de pároco de aldeia parecia a mais elevada a que se podia aspirar; agora, porém, na esfera mais vasta da grande capital, a sua ambição maior era entrar para o funcionalismo. Com a tenacidade de quem, na meninice, já era um velho, por eleito da penúria e das aflições, o jovem de dezessete anos insistiu na sua resolução e tornou-se funcionário público. Depois dos Vinte e três anos, creio eu, estava atingido o seu objetivo. Parecia assim estar cumprida a promessa que o pobre rapaz havia feito, isto é, de não voltar para a aldeia paterna sem que tivesse melhorado a sua situação.     Agora estava atingido o seu ideal. Na aldeia, porém ninguém mais dele se lembrava e a ele mesmo a aldeia se tornara desconhecida.     Quando, aos cinqüenta e seis anos, ele se aposentou, não pôde suportar esse descanso na ociosidade. Comprou, então, uma propriedade na vila de Lambach, na alta Áustria, valorizou-a e voltou assim, depois de uma vida longa e trabalhosa, à mesma origem dos seus pais.     Nesse tempo, formavam-se no meu espírito os primeiros ideais. As correrias ao ar livre, a longa caminhada para a escola, as relações com rapazes extremamente robustos - o que muitas vezes causava a minha mãe os maiores cuidados - esses hábitos me poderiam preparar para tudo menos para uma vida sedentária. Embora, mal pensasse ainda seriamente sobre a minha futura vocação, de nenhum modo as minhas simpatias se dirigiam para a linha de vida seguida por meu pai. Eu creio que já nessa. época meu talento verbal se adestrava nas discussões com os camaradas.     Eu me tinha tornado um pequeno chefe de motins, que, na escola, aprendia com facilidade, mas era difícil de ser dirigido.     Quando, nas minhas horas livres, eu recebia lições de canto no coro paroquial de Lambach, tinha a melhor oportunidade de extasiar-me ante as pompas festivas das brilhantíssimas festas da igreja. Assim como meu pai via na posição de pároco de aldeia o ideal na vida, a mim também a situação de abade pareceu a aspiração mais elevada. Pelo menos temporariamente isso se deu.     Desde que meu pai, por motivos de fácil compreensão, não podia dar o devido apreço ao talento oratório do seu bulhento filho, para daí tirar conclusões favoráveis ao futuro do seu pimpolho, é óbvio que ele não concordasse com essas idéias de mocidade. Apreensivo, ele observava essa disparidade da natureza.     Na realidade a vocação temporária por essa profissão desapareceu muito cedo, para dar lugar a esperanças mais conformes com o meu temperamento.     Revolvendo a biblioteca paterna, deparei com diversos livros sobre assuntos militares, entre eles uma edição popular da guerra franco-alemã de 1870-1871. Eram dois volumes de uma revista ilustrada daquele tempo. Tornaram-se a minha leitura favorita. Não tardou muito para que a grande luta de heróis se transformasse para mim em um acontecimento da mais alta significação. Daí em diante, eu me entusiasmava cada vez mais por tudo que, de qualquer modo, se relacionasse com guerra ou com a vida militar. Sob outro aspecto, isso também deveria vir a ser de importância para mim. Pela primeira vez, embora ainda de maneira confusa, surgiu no meu espírito a pergunta sobre se havia alguma diferença entre estes alemães que lutavam e os outros e, em caso afirmativo, qual era essa diferença. Por que a Áustria não combateu com a Alemanha nesta guerra? Por que meu pai e todos os outros não se bateram também? Não somos iguais a todos os outros alemães? Não formamos todos um corpo único? Esse problema começou, pela primeira vez, a agitar o meu espírito infantil. Com uma inveja intima, deveria às minhas cautelosas perguntas aceitar a resposta de que nem todo alemão possuía a felicidade de pertencer ao império de Bismarck. Isso era inconcebível para mim.     Estava decidido que eu deveria estudar.     Considerando o meu caráter e, sobretudo o meu temperamento, pensou meu pai poder chegar à conclusão de que o curso de humanidades oferecia uma contradição com as minhas tendências intelectuais. Pareceu-lhe que uma escola profissional corresponderia melhor ao caso. Nessa opinião, ele se fortaleceu ainda mais ante minha manifesta aptidão para o desenho, matéria cujo estudo, no seu modo de ver, era muito negligenciado nos ginásios austríacos. Talvez estivesse também exercendo influência decisiva nisso a sua difícil luta pela vida, na qual, aos seus olhos, o estudo de humanidades de pouca utilidade seria. Por princípio, era de opinião que, como ele, seu filho naturalmente seria e deveria ser funcionário público. Sua amarga juventude fez com que o êxito na vida fosse por ele visto como tanto maior quanto considerava o mesmo como produto de uma férrea disposição e de sua própria capacidade de trabalho. Era o orgulho do homem que se fez por si que o induzia a querer elevar seu filho a uma posição igual ou, se possível, mais alta que a do seu pai, tanto mais quando por sua própria diligência, estava apto a facilitar de muito a evolução deste.     O pensamento de uma repulsa aquilo que, para ele, se tornou o objetivo de uma vida inteira, parecia-lhe inconcebível. A resolução de meu pai era, pois, simples, definida, clara e, a seus olhos, compreensível por si mesma. Finalmente para o seu temperamento tornado imperioso através de uma amarga luta pela existência, no decorrer da sua vida inteira, parecia coisa absolutamente intolerável, em tais assuntos, entregar a decisão final a um jovem que lhe parecia inexperiente e ainda sem responsabilidade.     Seria impossível que isso se coadunasse com a sua usual concepção do cumprimento do dever, pois representava uma diminuição reprovável de sua autoridade paterna. Além disso, a ele cabia a responsabilidade do futuro do seu filho.     E, não obstante, coisa diferente deveria acontecer. Pela primeira vez na vida fui, mal chegava aos onze anos, forçado a fazer oposição.     Por mais firmemente decidido que meu pai estivesse na execução dos planos e propósitos que se formara, não era menor a teimosia e a obstinação de seu filho em repelir um pensamento que pouco ou nada lhe agradava.     Eu não queria ser funcionário.     Nem conselhos nem "sérias" admoestações conseguiram demover-me dessa oposição.     Nunca, jamais, em tempo algum, eu seria funcionário público.     Todas as tentativas para despertar em mim o amor por essa profissão, inclusive a descrição da vida de meu pai, malogravam-se, produziam o efeito contrário.     Era para mim abominável o pensamento de, como um escravo, um dia sentar-me em um escritório, de não ser senhor do meu tempo mas, ao contrário, limitar-me a ter como finalidade na vida encher formulários! Que pensamento poderia isso despertar em um jovem que era tudo menos bom no sentido usual da palavra? O estudo extremamente fácil na escola proporcionava-me tanto tempo disponível que eu era mais visível ao ar livre do que em casa.     Quando hoje, meus adversários políticos examinam com carinhosa atenção a minha vida até aos tempos da minha juventude para, finalmente, poder apontar com satisfação os maus feitos que esse Hitler já na mocidade havia perpetrado, agradeço aos céus que agora alguma coisa me restitua à memória daqueles tempos felizes.     Campos e florestas eram outrora a sala de esgrima na qual as antíteses de sempre vinham à luz.     Mesmo a freqüência à escola profissional que se seguiu a isso em nada me serviu de estorvo.     Uma outra questão deveria, porém, ser decidida.     Enquanto a resolução de meu pai de fazer-me funcionário público encontrou em mim apenas uma oposição de princípios, o conflito foi facilmente suportável. Eu podia, então dissimular minhas idéias íntimas, não sendo preciso contraditar constantemente. Para minha tranqüilidade, bastava-me a firme decisão de não entrar de futuro para a burocracia. Essa resolução era, porém, inabalável. A situação agravou-se quando ao plano de meu pai eu opus o meu. Esse fato aconteceu já aos treze anos. Como isso se deu, não sei bem hoje, mas um dia pareceu-me claro que eu deveria ser artista, pintor.     Meu talento para o desenho, inquestionavelmente, continuava a afirmar-se, e foi até uma das razões por que meu pai me mandou à escola profissional sem contudo nunca lhe ter ocorrido dirigir a minha educação nesse sentido. Muito ao contrário. Quando eu, pela primeira vez, depois de renovada oposição ao pensamento favorito de meu pai, fui interrogado sobre que profissão desejava então escolher e quase de repente deixei escapar a firme resolução que havia adotado de ser pintor, ele quase perdeu a palavra.     "Pintor! Artista!" exclamou ele.     Julgou que eu tinha perdido o juízo ou talvez que eu não tivesse ouvido ou entendido bem a sua pergunta.     Quando compreendeu, porém, que não tinha havido mal-entendido, quando sentiu a seriedade da minha resolução, lançou-se com a mais inabalável decisão contra a minha idéia.     Sua resolução era demasiado firme. Inútil seria argumentar com as minhas aptidões para essa profissão.     "Pintor, não! Enquanto eu viver, nunca!" terminou meu pai.     O filho que, entre outras qualidades do pai, havia herdado a teimosia, retrucou com uma resposta semelhante mas no sentido contrário.     Cada um ficou irredutível no seu ponto de vista. Meu pai não abandonava o seu nunca e eu reforçava cada vez mais o meu não obstante.     As conseqüências disso não foram muito agradáveis. O velho tornou-se irritado e eu também, apesar de gostar muito dele. Afastou-se para mim qualquer esperança de vir a ser educado para a pintura. Fui mais adiante e declarei então absolutamente não mais estudar. Como eu, naturalmente, com essa declaração teria todas as desvantagens, pois o velho parecia disposto a fazer triunfar a sua autoridade sem considerações de qualquer natureza, resolvi calar daí por diante, convertendo, porém, as minhas ameaças em realidade.     Acreditava que quando meu pai observasse a minha falta de aproveitamento na escola profissional, por bem ou por mal consentiria na minha sonhada felicidade.     Não sei se meus cálculos dariam certo. A verdade é que meu insucesso na escola verificou-se. Só estudava o que me agradava, sobretudo aquilo de que eu poderia precisar mais tarde como pintor. O que me parecia sem significação para esse objetivo ou o que não me era agradável, eu punha de lado inteiramente.     Nesse tempo os meus certificados de estudos, apresentavam sempre notas extremas, de acordo com as matérias e o apreço em que eu as tinha. Digno de louvor e ótimo, de um lado; sofrível ou péssimo do outro.     Incomparavelmente melhores eram os meus trabalhos em geografia e, sobretudo, em história. Eram essas as duas matérias favoritas, nas quais eu fazia progressos na classe.     Quando, depois de muitos anos, examino o resultado daqueles tempos, vejo dois fatos de muita significação:     1.° Tornei-me nacionalista.     2.° Aprendi a entender a história pelo seu verdadeiro sentido.     A antiga Áustria era um "estado de muitas nacionalidades".     O cidadão do império alemão, pelo menos outrora, não podia, em última análise, compreender a significação desse fato na vida diária do indivíduo, em um Estado assim organizado como a Áustria.     Depois do maravilhoso cortejo triunfal dos heróis da guerra franco-prussiana, os alemães que viviam no estrangeiro eram vistos como cada vez mais estranhos à vida da nação, que, em parte, não se esforçavam por apreciar ou mesmo não o podiam.     Confundia-se, na Alemanha, sobretudo em relação aos austro-alemães, a desmoralizada dinastia austríaca com o povo que, na essência, se mantinha são.     Não se concebe como o alemão na Áustria - não fosse ele da melhor têmpera - pudesse possuir força para exercer a sua influência em um Estado de 52 milhões. Não se concebe também, sem essa hipótese, que, até na Alemanha, se tenha formado a opinião errada de que a Áustria era um Estado alemão, disparate de sérias conseqüências que constitui, porém, um brilhante atestado em favor dos dez milhões de alemães da fronteira oriental.     Só hoje, que essa triste fatalidade caiu sobre muitos milhões dos nossos próprios compatriotas, que, sob o domínio estrangeiro, acham-se afastados da Pátria e dela se lembram com angustiosa saudade e se esforçam por ter ao menos o direito à sagrada língua materna, compreende-se, em maiores proporções, o que significa ser obrigado a lutar pela sua nacionalidade.     Só então um ou outro poderá, talvez, avaliar a grandeza do sentimento alemão na velha fronteira oriental, sentimento que se manteve por si mesmo, e que, durar te séculos, protegera o Reich na fronteira oriental para finalmente se resumir a pequenas guerras destinadas apenas a conservar as fronteiras da língua. Isso se dava em um tempo em que o governo alemão se interessava por uma política colonial, enquanto se mantinha indiferente pela defesa da carne e do sangue de seu povo, diante de suas portas.     Como sempre acontece em todas as lutas, havia na campanha pela língua três classes distintas: os lutadores, os indiferentes e os traidores.     Já na escola se começava a notar essa separação, pois o mais digno de nota na luta pela língua é que é justamente na escola, como viveiro das gerações futuras, que as ondas do movimento se fazem sentir mais vibrantes.     Em torno da criança empenha-se a luta, e a ela é dirigido o primeiro apelo:     "Menino de sangue alemão, não te esqueças de que és um alemão; menina, pensa que um dia deverás ser mãe alemã".     Quem conhece a alma da juventude poderá compreender que são justamente os moços que com mais intensa alegria ouvem tal grito de guerra. De centenas de maneiras diferentes costumam eles dirigir essa luta em que empregam os seus próprios meios e armas. Eles evitam canções não alemães, entusiasmam-se pelos heróis alemães, tanto mais quanto maior é o esforço para deles afastá-los, sacrificam o estômago para economizarem dinheiro para a luta dos grandes Em relação ao estudante não-alemão, são incrivelmente curiosos e ao mesmo tempo intratáveis. Usam as insígnias proibidas da nação e sentem-se felizes em ser por isso castigados ou mesmo batidos. São, em pequenas proporções, um quadro fiel dos grandes, freqüentemente com melhores e mais sinceros sentimentos.     A mim também se ofereceu outrora a possibilidade de, ainda relativamente muito jovem, tomar parte na luta pela nacionalidade da antiga Áustria. Quando reunidos na associação escolar, expressávamos os nossos sentimentos usando lóios e as cores preta, vermelha e ouro, que, entusiasticamente, saudávamos com urras. Em vez da canção imperial, cantávamos "Deutschland über alles", apesar das admoestações e dos castigos. A juventude era assim politicamente ensinada em um tempo em que os membros de uma soi-disant nacionalidade, na maioria da sua nacionalidade conhecia pouco mais do que a linguagem. Que eu então não pertencia aos indiferentes, compreende-se por si mesmo. Dentro de pouco tempo, eu me tinha transformado em um fanático Nacional-Alemão, designação que, de nenhuma maneira, é idêntica à concepção do atual partido com esse nome.     Essa evolução fez em mim progressos muito rápidos, tanto que, aos quinze anos, já tinha chegado a compreender a diferença entre patriotismo dinástico e nacionalismo racista. O último conhecia eu, então, muito mais.     Para quem nunca se deu ao trabalho de estudar as condições internas da monarquia dos Habsburgos, um tal acontecimento poderá não parecer claro. Somente as lições na escola sobre a história universal deveriam, na Áustria, lançar o germe desse desenvolvimento, mas só em pequenas proporções existe uma história austríaca específica.     O destino desse Estado é tão intimamente ligado à vida e ao crescimento do povo alemão, que uma separação entre a história alemã e a austríaca parece impossível. Quando, por fim, a Alemanha começou a separar-se em dois Estados diferentes, até essa separação passou para a história alemã.     As insígnias do Imperador, sinais do esplendor antigo do Império, preservadas em Viena, parecem atuar mais como um poder de atração do que como penhor de uma eterna solidariedade.O primeiro grito dos austro-alemães, nos dias do desmembramento do Estado dos Habsburgos, no sentido de uma união com a Alemanha, era apenas efeito de um sentimento adormecido mas de raízes profundas no coração dos dois povos o anelo pela volta à mãe-pátria nunca esquecida.     Nunca seria isso, porém, compreensível, se a aprendizagem histórica dos austro-alemães não fosse a causa de uma aspiração tão geral. Ai está a fonte que nunca se estanca, a qual, sobretudo nos momentos de esquecimento, pondo de parte as delícias do presente, exorta o povo, pela lembrança do passado, a pensar em um novo futuro.     O ensino da história universal nas chamadas escolas médias ainda hoje muito deixa a desejar. Poucos professores compreendem que a finalidade do ensino da história não deve consistir em aprender de cor datas e acontecimentos ou obrigar o aluno a saber quando esta ou aquela batalha se realizou, quando nasceu um general ou quando um monarca quase sempre sem significação, pôs sobre a cabeça a coroa dos seus avós. Não, graças a Deus não é disso que se deve tratar.     Aprender história quer dizer procurar e encontrar as forças que conduzem às causas das ações que vemos como acontecimentos históricos. A arte da leitura como da instrução consiste nisto: conservar o essencial, esquecer o dispensável.     Foi talvez decisivo para a minha vida posterior que me fosse dada a felicidade de ter como professor de história um dos poucos que a entendiam por esse ponto de vista e assim a ensinavam. O professor Leopold Pötsch, da escola profissional de Linz, realizara esse objetivo de maneira ideal. Era ele um homem idoso, bom mas enérgico e, sobretudo pela sua deslumbrante eloqüência, conseguia não só prender a nossa atenção mas empolgar-nos de verdade. Ainda hoje, lembro-me com doce emoção do velho professor que, no calor de sua exposição, fazia-nos esquecer o presente, encantava-nos com o passado e do nevoeiro dos séculos retirava os áridos acontecimentos históricos para transformá-los em viva realidade. Nós o ouvíamos muitas vezes dominados pelo mais intenso entusiasmo, outras vezes comovidos até às lágrimas. O nosso contentamento era tanto maior quanto este professor entendia que o presente devia ser esclarecido pelo passado e deste deviam ser tiradas as conseqüências para dai deduzir o presente. Assim fornecia ele, muito freqüentemente, explicações para o problema do dia, que outrora nos deixava em confusão. Nosso fanatismo nacional de jovens era um recurso educacional de que ele, freqüentemente apelando para o nosso sentimento patriótico, se servia para completar a nossa preparação mais depressa do que teria sido possível por quaisquer outros meios. Esse professor fez da história o meu estudo favorito. Assim, já naqueles tempos, tornei-me um jovem revolucionário, sem que fosse esse o seu objetivo.     Quem, com um tal professor, poderia aprender a história alemã, sem ficar inimigo do governo que, de maneira tão nefasta, exercia a sua influência sobre os destinos da nação?     Quem poderia, finalmente, ficar fiel ao imperador de uma dinastia que no passado e no presente sempre traiu os interesses do povo alemão, em beneficio de mesquinhos interesses pessoais?     Já não sabíamos, nós jovens, que esse Estado austríaco nenhum amor por nós possuía e sobretudo não podia possuir?     O conhecimento histórico da atuação dos Habsburgos foi reforçado pela experiência diária. No norte e no sul, o veneno estrangeiro devorava o nosso sentimento racial, e até Viena tornava-se, a olhos vistos e cada vez mais, estranha ao espírito alemão.     A Casa da Áustria tchequizava-se, por toda parte, e foi por efeito do punho da deusa do direito eterno e da inexorável lei de Talião que o inimigo mortal da Áustria alemã, arquiduque Franz Ferdinando, foi vítima de uma bala que ele próprio havia ajudado a fundir. Era ele o patrono da eslavização da Áustria, que se operava de cima para baixo, por todas as formas possíveis.     Enormes foram os ônus que se exigiam do povo alemão, inauditos os seus sacrifícios em impostos e em sangue, e, não obstante, quem quer que não fosse cego, deveria reconhecer que tudo isso seria inútil.     O que nos era mais doloroso era o fato de ser esse sistema moralmente protegido pela aliança com a Alemanha, e que a lenta extirpação do sentimento alemão na velha monarquia até certo ponto tinha a sanção da própria Alemanha.     A hipocrisia dos Habsburgos com a qual se pretendia dar no exterior a aparência de que a Áustria ainda era um Estado alemão, fazia crescer o ódio contra a Casa Austríaca, até atingir a indignação e, ao mesmo tempo, o desprezo.     Só no Reich os já então predestinados" nada viam de tudo isso.     Como atingidos pela cegueira, caminhavam eles ao lado de um cadáver e, nos sinais da decomposição, acreditavam descobrir indícios de nova vida.     Na fatal aliança do jovem império alemão com o arremedo de Estado austríaco estava o germe da Grande Guerra, mas também o do desmembramento.     No decurso deste livro terei que me ocupar mais demoradamente deste problema. Basta que aqui se constate que, já nos primeiros anos da juventude, eu havia chegado a uma opinião que nunca mais me abandonou, mas, pelo contrário, cada vez mais se fortificou. E essa era que a segurança do germanismo pressupunha a destruição da Áustria e que o sentimento nacional não era idêntico ao patriotismo dinástico e que, antes de tudo, a Casa dos Habsburgos estava destinada a fazer a infelicidade do povo alemão.     Dessa convicção eu já tinha outrora tirado as conseqüências: amor ao meu berço austro-alemão, profundo ódio contra o governo austríaco.     A arte de pensar pela história, que me tinha sido ensinada na escola, nunca mais me abandonou. A história universal tornou-se para mim, cada vez mais, uma fonte inesgotável de conhecimentos para agir no presente, isto é, para a política. Eu não quero aprender a história por si, mas, ao contrário, quero que ela me sirva de ensinamento para a vida.     Assim como logo cedo tornei-me revolucionário, também tornei-me artista.     A capital da alta Áustria possuía outrora um teatro que não era mau. Nêle se representava quase tudo. Aos doze anos, vi pela primeira vez "Guilherme Te!!" e, alguns meses depois, "Lohengrin", a primeira ópera que assisti na minha vida. Senti-me imediatamente cativado pela música. O entusiasmo juvenil pelo mestre de Bayreuth não conhecia limites.     Cada vez mais me sentia atraído pela sua obra, e considero hoje uma felicidade especial que a maneira modesta por que foram as peças representadas na capital da província me tivesse deixado a possibilidade de um aumento de entusiasmo em representações posteriores mais perfeitas.     Tudo isso fortificava minha profunda aversão pela profissão que meu pai me havia escolhido. Essa aversão cresceu depois de passados os dias da meninice, que para mim foram cheios de pesares. Cada vez mais eu me convencia que nunca seria feliz como empregado público. Depois que, na escola profissional, meus dotes de desenhista se tornaram conhecidos, a minha resolução ainda mais se afirmou.     Nem pedidos nem ameaças seriam capazes de modificar essa decisão.     Eu queria ser pintor e, de modo algum, funcionário público.     E, coisa singular, com o decorrer dos anos aumentava sempre o meu interesses pela arquitetura.     Eu considerava isso, outrora, como um natural complemento da minha inclinação para a pintura e regozijava-me intimamente com esse desenvolvimento da minha formação artística.     Que outra coisa, contrário a isso, viesse acontecer, não previa eu.     O problema da minha profissão devia, porém, ser decidido mais rapidamente do que eu supunha.     Aos treze anos perdi repentinamente meu pai. Ainda muito vigoroso, foi vítima de um ataque apoplético que, sem provocar-lhe nenhum sofrimento, encerrou a sua peregrinação na terra, mergulhando-nos na mais profunda dor.     O que mais almejava, isto é, facilitar a existência de seu filho, para poupar-lhe a vida de dificuldades que ele próprio experimentara, não havia sido alcançado, na sua opinião. Apenas sem o saber, ele lançou as bases de um futuro que não havíamos previsto, nem ele, nem eu.     Aparentemente, a situação não se modificou logo.     Minha mãe sentia-se no dever de, conforme aos desejos de meu pai, continuar minha educação, isto é, fazer-me estudar para a carreira de funcionário. Eu, porém, estava ainda mais decidido do que antes, a não ser burocrata, sob condição alguma. A proporção que a escola média, pelas matérias estudadas ou pela maneira de ensiná-las, afastava-se do meu ideal, eu me tornava indiferente ao estudo.     Inesperadamente, uma enfermidade veio em meu auxílio e, em poucas semanas, decidiu do meu futuro, pondo termo à constante controvérsia na casa paterna.     Uma grave afecção pulmonar fez com que o médico aconselhasse a minha mãe, com o maior empenho, a não permitir absolutamente. que, de futuro, eu me entregasse a trabalhos de escritório. A freqüência à escola profissional deveria também ser suspensa pelo menos por um ano.     Aquilo que eu, durante tanto tempo, almejava, e por que tanto me tinha batido, ia, por força desse fato, uma vez por todas, transformar-se em realidade.     Sob a impressão da minha moléstia, minha mãe consentiu finalmente em tirar-me, tempos depois, da escola profissional e em deixar-me freqüentar a Academia.Foram os dias mais felizes da minha vida, que me pareciam quase que um sonho e na realidade de sonho não passaram.     Dois anos mais tarde, o falecimento de minha mãe dava a esses belos projetos um inesperado desenlace.     A sua morte se deu depois de uma longa e dolorosa enfermidade que, logo de começo, pouca esperança de cura oferecia. Não obstante isso, o golpe atingiu-me atrozmente. Eu respeitava meu pai, mas por minha mãe tinha verdadeiro amor.     A pobreza e a dura realidade da vida forçaram-me a tomar uma rápida resolução. Os pequenos recursos econômicos deixados por meu pai foram quase esgotados durante a grave enfermidade de minha mãe. A pensão que me coube como órfão, não era suficiente nem para as necessidades mais imperiosas. Estava escrito que eu, de uma maneira ou de outra, deveria ganhar o pão com o meu trabalho.     Tendo na mão unia pequena mala de roupa e, no coração, uma vontade imperturbável, viajei para Viena.     O que meu pai, cinqüenta anos antes, havia conseguido, esperava eu também obter da sorte. Eu queria tornar-me "alguém", mas, em caso algum, empregado público.

CAPÍTULO II - ANOS DE APRENDIZADO E DE SOFRIMENTO EM VIENA

     Quando minha mãe morreu, meu destino sob certo aspecto já se tinha decidido.     Nos seus últimos meses de sofrimento eu tinha ido a Viena para fazer exame de admissão à Academia. Armado de um grosso volume de desenhos, dirigi-me à capital austríaca convencido de poder facilmente ser aprovado no exame. Na escola profissional eu já era sem nenhuma dúvida, o primeiro aluno de desenho da minha classe. Daquele tempo para cá a minha aptidão se tinha desenvolvido extraordinariamente. de maneira que, contente comigo mesmo, esperava, orgulhoso e feliz, obter o melhor resultado da prova a que me ia submeter.     Só uma coisa me afligia: meu talento para a pintura parecia sobrepujado pelo talento para o desenho, sobretudo no domínio da arquitetura. Ao mesmo tempo, crescia cada vez mais meu interesses pela arte das construções. Mais vivo ainda se tornou esse interesse quando, aos dezesseis anos incompletos, fiz minha primeira visita a Viena, visita que durou duas semanas. Ali fui para estudar a galeria de pintura do "Hofmuseum", mas quase só me interessava o próprio edifício do museu. Passava o dia inteiro, desde a manhã até tarde da noite, percorrendo com a vista todas as raridades nele contidas, mas, na realidade, as construções é que mais me prendiam a atenção. Durante horas seguidas, ficava diante da Ópera ou admirando o edifício de Parlamento. A "Ringstrasse" atuava sobre mim como um conto de mil-e-uma noites.     Achava-me agora, pela segunda vez, na grande cidade, e esperava com ardente impaciência, e, ao mesmo tempo, com orgulhosa confiança, o resultado do meu exame de admissão. Estava tão convencido do êxito do meu exame que a reprovação que me anunciaram feriu-me como um raio que caísse de um céu sereno. Era, no entanto, uma pura verdade. Quando me apresentei ao diretor para pedir-lhe os motivos da minha não aceitação à escola pública de pintura, assegurou-me ele que, pelos desenhos por mim trazidos, evidenciava-se a minha inaptidão para a pintura e que a minha vocação era visivelmente para a arquitetura. No meu caso, acrescentou ele, o problema não era de escola de pintura mas de escola de arquitetura.     Não se pode absolutamente compreender, em face disso, que eu até hoje não tenha freqüentado nenhuma escola de arquitetura nem mesmo tomado sequer uma lição.     Abatido, deixei o magnífico edifício da "Shillerplatz", sentindo-me. pela primeira vez na vida, em luta comigo mesmo. O que o diretor me havia dito a respeito da minha capacidade agiu sobre mim como um raio deslumbrante a revelar uma luta íntima, que, de há muito, eu vinha sofrendo, sem até então poder dar-me conta do porquê e do como.     Em pouco tempo, convenci-me de que um dia eu deveria ser arquiteto. O caminho era, porém, dificílimo, pois o que eu, por teimosia, tinha evitado aprender na escola profissional, ia agora fazer-me falta. A freqüência da Escola de Arquitetura da Academia dependia da freqüência da escola técnica de construções e a entrada para essa exigia um exame de madureza em uma escola média. Tudo isso me faltava completamente. Dentro das possibilidades humanas, já não me era mais lícito esperar a realização dos meus sonhos de artista.     Quando, depois da morte de minha mãe, pela terceira vez, e desta vez para demorar-me muitos anos, fui a Viena, a tranqüilidade e uma firme resolução tinham voltado a mim, com o tempo decorrido nesse intervalo.     A antiga teimosia também tinha voltado e com ela a persistência na realização do meu objetivo. Eu queria ser arquiteto. Obstáculos existem não para que capitulemos diante deles mas para os vencermos. E eu estava disposto a arrostar com todas essas dificuldades, sempre tendo, diante dos olhos, a imagem de meu pai, que, de simples aprendiz de sapateiro de aldeia, tinha subido até ao funcionalismo público. O chão sobre que eu pisava era mais firme, as possibilidades na luta, maiores. O que, outrora, me parecia aspereza da sorte, aprecio hoje como sabedoria da Providência. Enquanto a necessidade me oprimia e ameaçava aniquilar-me, crescia a vontade de lutar. E, finalmente, foi vitoriosa a vontade. Agradeço àqueles tempos o ter-me tornado forte e poder sê-lo ainda. E ainda mais agradeço o ter-me livrado do tédio da vida fácil e ter-me tirado do conforto despreocupado do lar, para dar-me o sofrimento como substituto de minha mãe e lançar-me na luta de um mundo de misérias e de pobreza, que aprendi a conhecer e pelo qual mais tarde deveria lutar.     Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo.     Viena, a cidade que para muitos reputada como um complexo de inocentes prazeres, como lugar para homens que se querem divertir, vale para mim, infelizmente, como uma viva lembrança dos mais tristes tempos da minha vida. Ainda hoje, essa capital só desperta em mim pensamentos sombrios. Cinco anos de miséria e de sofrimentos, eis o que significa a minha estadia nessa cidade de prazeres. Cinco anos em que, primeiro como ajudante de operário, depois como aprendiz de pintor, vime forçado a trabalhar pelo pão quotidiano, mesquinho pão que nunca bastava para saciar a minha fome habitual, A fome era então minha companheira fiel que nunca me deixava sozinho e que de tudo igualmente participava. Cada livro que eu comprava aumentava a sua participação na minha vida. Uma visita à Ópera fazia com que ela me fizesse companhia o dia inteiro. Era uma eterna luta com o meu impiedoso companheiro. E, não obstante isso, nesse tempo aprendi mais do que nunca. Além do meu trabalho em construções, das raras visitas à Ópera, - feitas com o sacrifício do estômago - tinha como único prazer a leitura. Li muito e profundamente. No tempo livre, depois do trabalho, subia imediatamente ao meu quarto de estudo. Em poucos anos, lancei os alicerces de conhecimentos de que ainda hoje me utilizo. Mais importante do que tudo isso: naqueles tempos adquiri uma noção do mundo que serviu de fundamento granítico para o meu modo de agir de então. A essa noção precisei acrescentar pouca coisa, mudar nada.     Ao contrário.     Estou firmemente convencido de que, em conjunto, várias idéias criadoras que hoje possuo, já na mocidade apareciam fundadas em princípios. Faço diferença entre a sabedoria da velhice, que vale pela sua maior profundidade e prudência, resultantes da experiência de uma longa vida, e a genialidade da juventude que, em inesgotável proliferação, cria pensamentos e idéias sem poder logo elaborá-las definitivamente, em conseqüência do tumulto em que elas se sucedem. A mocidade fornece o material de construção e os pia-nos de futuro, dos quais a velhice toma os blocos, trabalha-os e levanta a construção, isso quando a chamada sabedoria dos velhos não sufoca a genialidade dos moços.     A vida que eu até ali tinha levado na casa paterna diferenciava-se em pouco ou em nada da vida dos outros. Sem cuidados, podia esperar pelo dia seguinte, e para mim não havia questão social. As relações da minha juventude compunham-se de pequenos burgueses, por conseguinte de um mundo que mantinha muito poucas relações com o verdadeiro operário. Por mais estranho que isso possa parecer à primeira vista, o abismo entre essa camada social, cuja situação econômica nada tem de brilhante, e o trabalhador manual, é freqüentemente mais profundo do que se pensa. A razão dessa quase inimizade jaz no receio que tem um grupo social que, apenas há pouco tempo, elevou-se acima do nível do proletariado, de descer à antiga e pouco prezada posição ou de, pelo menos, ser visto como pertencendo a essa classe. A isso se acrescente, entre muitos, a desagradável lembrança da ignorância dessa baixa classe, a constante brutalidade nas suas relações uns com os outros e compreender-se-á porque a pequena burguesia, em uma posição social ainda inferior, considera todo contato com essas ínfimas camadas sociais como um fardo insuportável.     Isso explica porque é mais freqüente a uma pessoa altamente colocada, do que a um parvenu, nivelar-se, sem afetação, com os mais humildes. O parvenu é o que, por sua própria força de vontade, passa, na luta pela vida, de uma posição social a outra mais elevada. Essa luta, as mais das vezes áspera, mata a compaixão no coração humano e estanca a simpatia pelos sofrimentos dos que ficam atrás.     Sob esse aspecto, a sorte foi comigo compassiva. Enquanto me compelia a voltar para esse mundo de pobreza e de incertezas, que, no decurso de sua vida, meu pai já havia abandonado, punha, ao mesmo tempo, diante dos meus olhos, com todos os seus aspectos repugnantes, a educação estreita dos pequenos burgueses. Só então aprendi a conhecer os homens, aprendi a fazer a diferença entre ocas aparências, exteriorizações brutais e a essência íntima das coisas.     Já no fim do século passado, Viena pertencia ao número das cidades em que era visível o desequilíbrio social.     Brilhante riqueza e degradante pobreza revezavam-se em contrastes violentos. No centro da cidade e nas suas adjacências sentia-se o bater do pulso do Império de cinqüenta e dois milhões, com todo o seu poder mágico de atração, nesse Estado de várias nacionalidades. A Corte no seu deslumbrante esplendor, agia como ímã sobre a riqueza e a inteligência do resto do Estado. A isso deve-se juntar a forte centralização da política da monarquia dos Habsburgos. Nessa concentração, estava a única possibilidade de manter-se em firme união essa salada de povos. A conseqüência disso foi, porém, uma exagerada concentração das autoridades governamentais na capital, na residência da Corte     Além disso, Viena era, não só espiritual e politicamente, mas também economicamente, o centro da antiga monarquia danubiana. Em frente ao exército de oficiais superiores, funcionários públicos, artistas e sábios, estendia-se um exército ainda maior, composto de trabalhadores; em frente da riqueza da aristocracia e do comércio, uma pobreza atroz. Diante dos palácios da Ringstrasse perambulavam milhares de sem-trabalho e, por baixo dessa via triunfal da velha Áustria, amontoavam-se os sem-teto, no lusco-fusco e na imundície dos canais.     Dificilmente em uma cidade alemã se poderia tão bem estudar a questão social como em Viena. Mas ninguém se iluda. esse estudo não pode ser feito de cima para baixo. Quem não se viu nas garras dessa víbora nunca aprenderá a conhecer os seus dentes venenosos. Sem essa etapa, tudo redunda em palavreado superficial ou sentimentalismo hipócrita. Um e outro caso são de conseqüências nocivas: no primeiro, porque não se pode descer ao âmago da questão, no segundo, porque se passa sobre ela.     Não sei o que é mais desolador: a indiferença pela miséria social que se nota diariamente na maioria dos que foram favorecidos pela sorte ou que subiram pelos seus próprios méritos, ou a afabilidade soberba, importuna, sem tato, embora sempre compassiva, de certas senhoras da moda que afetam sentir com o povo. Essa gente peca por falta de instinto mais do que se pode supor. Por isso, com surpresa sua, o resultado de sua atividade social é sempre nulo, freqüentemente provoca repulsa, o que é interpretado como prova da ingratidão do povo.     Dificilmente entra na cabeça dessa gente que uma atividade social não consiste nisso e que, sobretudo, não se deve esperar gratidão, pois, no caso, não se trata de distribuição de favores mas apenas de restabelecimento de direitos.     Por isso, escapei de entender a questão social por essa forma. Quando ela me arrastou aos seus domínios parecia não me convidar para aprender mas sim para pôr-me à prova. Não foi por seu merecimento que a cobaia, ainda sadia, suportou a operação.     Na maior parte dos casos não era muito difícil, naquele tempo, encontrar trabalho, uma vez que eu não era operário técnico, mas devia conquistar o pão de cada dia, como ajudante de operário e muitas vezes como trabalhador de. emergência.     Colocava-me, por isso, no ponto de vista daqueles que sacodem dos pés a poeira da Europa, com o irremovível propósito de, rio Novo Mundo, criar uma nova vida, construir uma nova pátria. Libertados de todas as noções até aqui falhas sobre profissão, ambiente e tradições, pegam-se a todo ganho que se lhes oferece, agarram-se a todo trabalho, lutando sempre, com a convicção de que nenhuma atividade envergonha, pouco importando de que natureza esta possa ser. Assim estava eu também decidido a lançar-me de corpo e alma no mundo para mim novo e abrir-me um caminho, lutando.     Cedo me convenci de que trabalho há sempre, mas perdemo-lo com a mesma facilidade com que o encontramos.     A incerteza do ganho do pão quotidiano, dentro de pouco tempo pareceu-me ser o aspecto mais sombrio da nova vida.     O operário técnico não é lançado tão freqüentemente na rua, como os que não o são, mas ele também não está inteiramente ao abrigo dessa sorte. Entre eles, ao lado da perda do pão por falta de trabalho, podem concorrer o chômage e as suas próprias greves.     Nesses casos, a incerteza do ganho do pão diário tem fortes reações sobre toda a economia.     O camponês que se dirige às grandes cidades atraído pelo trabalho que imagina fácil ou que o é realmente, mas sempre trabalho de pouca duração, ou o que é atraído pelo esplendor da grande cidade, o que sucede na maioria dos casos, esse ainda está habituado a uma certa segurança do pão. Ele costuma só abandonar os antigos postos, quando tem outro pelo menos em perspectiva.     A falta de trabalhadores do campo é grande e, por isso, a probabilidade de falta de trabalho é ali muito pequena.     É pois, um erro acreditar que o jovem trabalhador que se dirige à cidade seja inferior ao que fica trabalhando na aldeia. A experiência mostra que acontece o contrário com todos os elementos de emigração, quando são sadios e ativos. Entre esses emigrantes devem-se contar não só os que vão para a América mas também os jovens que se decidem a abandonar sua aldeia para se dirigirem as grandes capitais desconhecidas. Esses também estão dispostos a aceitar uma sorte incerta. Na maioria, trazem algum dinheiro, e, por isso, não se vêem na contingência de ser arrastados ao desespero logo nos primeiros dias, se, por infelicidade, de começo não encontram trabalho. O pior é, porém, quando perdem, em pouco tempo, o trabalho que haviam encontrado. Encontrar outro, sobretudo no inverno, é difícil, se não impossível. Nas primeiras semanas, a situação é ainda insuportável, pois ele recebe da caixa do sindicato a proteção dada ao seu trabalho e atravessa como pode os dias de desemprego. Quando o seu último vintém é gasto, quando a caixa, em conseqüência da longa duração da falta de trabalho, também suspende o pagamento, vem a grande miséria. Então, faminto, erra para cima e para baixo, empenha ou vende os objetos que lhe restam e cada vez mais sensível se lhe torna a falta de roupas. Desce a uma Convivência que acaba por envenenar-lhe o corpo e a alma. Fica sem casa e, se isso acontece no inverno como é comum, então a miséria aumenta. Finalmente, encontra algum trabalho, mas o jogo se repete. Uma segunda vez atingiu de maneira semelhante à primeira, a terceira vez as coisas se tornaram ainda mais difíceis, e assim, pouco a pouco, ele aprende a suportar com indiferença a eterna insegurança. Por fim, a repetição adquire força de hábito.     E assim o homem, outrora diligente, abandona inteiramente a sua antiga concepção da vida, para, pouco a pouco, transformar-se em um instrumento cego daqueles que dele se utilizam apenas na satisfação dos mais baixos proveitos. Sem nenhuma culpa sua ele ficou tantas vezes sem trabalho, que, mais uma vez, menos uma vez, pouco lhe importa. Assim mesmo quando não se trata da luta pelos direitos econômicos do operariado mas de destruição dos valores políticos, sociais ou culturais, ele será então, quando não entusiasta de greves, pelo menos indiferente a elas.     Essa evolução eu tive oportunidade de acompanhar cuidadosamente em milhares de exemplos. Quanto mais eu observava esses fatos, tanto mais aumentava a minha aversão pela cidade dos milhões que os homens, cheios de cobiça, acumulavam para, depois, tão cruelmente, desperdiçá-los.     Eu também fui fustigado pela vida na grande metrópole e à minha própria custa submeti-me a essa provação, experimentando, uma por uma todas essas dolorosas sensações.     Observei ainda que essa rápida mudança do trabalho para a ociosidade forçada e vice-versa, essa eterna oscilação do emprego para o desemprego, com o tempo, haveria de destruir o sentimento de economia e as razões para um prudente equilíbrio de vida. Lentamente o corpo parece acostumar-se a viver à farta nos bons tempos e a passar fome nos maus. A fome destrói todos os projetos dos operários no sentido de um melhor e mais razoável modus vivendi. Nos bons tempos eles se deixam embalar por uma constante miragem pelo sonho de uma vida melhor, sonho que empolga de tal modo a sua existência que eles esquecem as antigas privações, logo que recebem os seus salários. Dai resulta que o que consegue trabalho, imediatamente, da maneira mais desrazoável, esquece uma prudente distribuição de suas despesas, para viver à larga, apenas nos dias imediatos. Isso conduz ao transtorno da manutenção da casa durante a semana, tornando não mais possível uma razoável distribuição da receita. O dinheiro da semana, de começo, dá para cinco dias em vez de sete, mais tarde para três em vez de quatro, finalmente apenas para um dia e, por fim, logo na primeira noite é inteiramente gasto em prazeres.     Em casa, as mais das vezes, há mulher e crianças. Também elas recebem a influência dessa maneira de viver, principalmente se o chefe de família é bom para os seus. Nesse caso, o ganho da semana é esbanjado com todos em casa nos três primeiros dias. Come-se e bebe-se enquanto o dinheiro dura, e, nos últimos dias, todos passam fome. Então a mulher percorre humildemente a vizinhança e os arredores, pede emprestado alguma coisa, faz pequenas dividas no vendeiro e procura assim manter-se com os seus nos últimos dias da semana. Ao meio-dia, sentam-se todos juntos, diante de magros pratos, muitas vezes até esses faltam, e, fazendo planos, esperam pelo dia do pagamento. Enquanto passam fome sonham de novo com a felicidade. E assim as crianças desde a mais tenra idade, acostumam-se a essa miséria, o pior, porém, é quando, desde o começo, o marido segue o seu caminho e a mulher, por amor aos filhos, levanta-se contra isso. Então surgem as brigas, as disputas constantes. E à proporção que o marido se afasta da mulher, aproxima-se do álcool. Todos os sábados ele se embriaga. Por instinto de conservação, por si e pelos filhos, a mulher briga para tomar os últimos vinténs do marido quando este se dirige da fábrica para a espelunca. Por fim, domingo ou segunda-feira, à noite, ele volta para casa, embriagado e brutal, sempre sem vintém. Então desenrolam-se freqüentemente cenas lastimáveis.     Assisti tudo isso em centenas de casos. No começo sentia-me enojado ou irritado para, mais tarde, compreender toda a tragédia dessa miséria e as suas causas mais profundas. Infelizes vitimas de péssimas condições sociais.     Tão tristes, talvez, eram, outrora, as condições das habitações. A crise de casas para os ajudantes de operários de Viena era horrível. Ainda hoje sinto calafrios quando penso naqueles horríveis covis, as estalagens e nas habitações coletivas, naqueles sombrios quadros de sujeira e de escândalos. Que poderia resultar daí, quando desses covis de miséria a torrente de escravos abandonados se lançasse sobre a outra parte da humanidade, livre de cuidados, despreocupada?     Sim, o resto do mundo é despreocupado. Despreocupado fica, deixando que as coisas sigam o seu caminho, sem pensar que, na sua falta de intuição, a revanche terá lugar, mais cedo ou mais tarde, se em tempo os homens não modificarem essa triste realidade.     Quanto agradeço hoje à Providência o ter-me lançado nessa escola! Aí eu não podia mais sabotar o que não me era agradável. Essa escola educou-me depressa e solidamente.     A menos que eu não quisesse perder a esperança nos homens com quem convivia outrora, deveria fazer a diferença entre a vida que aparentavam e as razões da mesma. Tudo isso deveria, pois, ser suportado sem desânimo. Então, de toda essa infelicidade e miséria, de toda essa sujidade e degradação, deveriam surgir na minha mente não mais homens, mas miseráveis produtos de leis miseráveis. Por isso, a gravidade da luta pela vida que sustentei, evitou que eu capitulasse por mero sentimentalismo ante os pecos resultados desse processo de evolução.     Não, isso não deveria ser compreendido assim.     Já, naqueles tempos, eu havia chegado à conclusão de que só um caminho duplo poderia conduzir ao objetivo da melhoria dessa situação: um mais profundo sentimento de responsabilidade no sentido do estabelecimento de melhores bases para a nossa evolução, combinado isso com a brutal resolução de demolir todas as incorrigíveis excrescências.     Assim como a natureza concentra os seus maiores esforços não na conservação do que existe mas no cultivo do que cria, para continuação da espécie, assim também na vida humana trata-se menos de melhorar artificialmente o que há de mau - o que, pela natureza humana, em noventa e nove por cento dos casos é impossível - do que, desde o início, assegurar, por melhores métodos, a evolução das novas criações     Já durante a minha luta pela vida em Viena, tornou-se evidente ao meu espírito que a atividade social nunca deverá ser vista como uma obra de proteção sem- finalidade e irrisória, mas sim na remoção de defeitos substanciais na organização de nossa vida econômica e cultural que possam concorrer para a degeneração dos indivíduos ou pelo menos para o seu desvio.     A dificuldade dessa maneira de proceder em face dos últimos e brutais meios contra os delitos dos inimigos do Estado, jaz justamente na incerteza do julgamento sobre os. motivos íntimos ou causas principais dos fenômenos contemporâneos.     Essa incerteza é fundada na convicção da culpa de cada um nessas tragédias do passado e inutiliza toda séria e firme resolução. Causa ao mesmo tempo, a fraqueza e a indecisão na execução até mesmo das mais necessárias medidas de conservação.     Quando um tempo vier não mais empanado pela sombra da consciência da própria culpabilidade, a conservação de si mesmo criará a tranqüilidade íntima, a força exterior, brutal e sem considerações, para matar os maus rebentos da erva ruim.     Como o Estado Austríaco praticamente desconhecia qualquer legislação social, sua incapacidade para o combate de morte aos maus germes saltava diante dos nossos olhos em toda sua evidência.     Eu não sei o que naqueles tempos mais me horrorizava, se 'a miséria econômica dos meus camaradas, se a sua grosseria espiritual .e moral e o nível baixo de sua cultura.     Quantas vozes não se tomava de cólera a nossa burguesia, quando, da boca de algum miserável vagabundo, ouvia a declaração de que lhe era indiferente ser ou não alemão, contanto que ele tivesse a sua subsistência garantida.     Essa falta de orgulho nacional, é, então, censurada da maneira mais incisiva e a repulsa por um tal modo de sentir é expressa em termos enérgicos.     Quantos, porém, já se fizeram a pergunta sobre quais eram as causas de possuírem eles próprios melhores sentimentos?     Quantos compreendem a infinidade de recordações pessoais sobre a grandeza da pátria, da nação,' em todas as fronteiras da vida artística e cultural que lhes inspiram o justo orgulho de poderem pertencer a um povo tão favorecido?     Quantos pensam na dependência do orgulho nacional em relação ao conhecimento das grandezas da Pátria em todos esses domínios?     Refletem nossos círculos burgueses em que irrisória extensão esses motivos de orgulho nacional se apresentam ao povo?     Ninguém se desculpe com o argumento de que "em outros países a coisa não se passa de outra maneira" e que, não obstante, o trabalhador orgulha-se da sua nacionalidade. Mesmo que isso fosse assim, não poderia servir como desculpa para a nossa própria negligência. Tal, porém, não se dá. O que nós sempre pintamos como uma educação "chauvinística" dos franceses, por exemplo, não é mais do que a exaltação das grandezas da França em todos os domínios da Cultura, ou da "civilisation", como a denominam os nossos vizinhos.     O jovem francês não é educado para o objetivismo, mas para as opiniões subjetivas, que a gente só pode avaliar, quando se trata da significação das grandezas políticas ou culturais da sua pátria.     Essa educação terá que ser sempre restrita aos grandes e gerais pontos de vista que, se preciso, por meio de eterna repetição, se gravem na memória e nos sentimentos do povo.     Entre nós, aos erros por omissão, junta-se ainda a destruição do pouco que o indivíduo tem a felicidade de aprender na escola. O envenenamento político do nosso povo elimina ainda esse pouco do coração e da memória das vastas massas, quando a necessidade e os sofrimentos já não o tinham feito.     Pense-se no seguinte.     Em um alojamento subterrâneo, composto de dois quartos abafados, mora uma família proletária de sete pessoas. Entre os cinco filhos, suponhamos um de três anos. É esta a idade em que a consciência da criança recebe as primeiras impressões. Entre os mais dotados encontra-se, mesmo na idade madura, vestígio da lembrança desse tempo. O espaço demasiado estreito para tanta gente não oferece condições vantajosas para a convivência. Brigas e disputas, só por esse motivo, surgirão freqüentemente. As pessoas não vivem umas com as outras, mas se comprimem umas contra as outras. Todas as divergências, sobretudo as menores, que, nas habitações espaçosas, podem ser sanadas por um ligeiro isolamento, conduzem aqui a repugnantes e intermináveis disputas. Para as crianças isso é ainda suportável. Em tais situações, elas brigam sempre e esquecem tudo depressa e completamente. Se, porém, essa luta se passa entre os pais, quase todos os dias, e de maneira a nada deixar a desejar em matéria de grosseria, o resultado de uma tal lição de coisas faz-se sentir entre as crianças. Quem tais meios desconhece dificilmente pode fazer uma idéia do resultado dessa lição objetiva, quando essa discórdia recíproca toma a forma de grosseiros desregramentos do pai para com a mãe e até de maus tratos nos momentos de embriaguez. Aos seis anos, já o jovem conhece coisas deploráveis, diante das quais até um adulto só horror pode sentir. Envenenado moralmente, mal alimentado, com a pobre cabecinha cheia de piolhos, o jovem "cidadão" entra para a escola.     A custo ele chega a ler e escrever. Isso é quase tudo. Quanto a aprender em casa, nem se fale nisso. Até na presença dos filhos, mãe e pai falam da escola de tal maneira que não se pode repetir e estão sempre mais prontos a dizer grosserias do que pôr os filhos nos joelhos e dar-lhes conselhos. O que a criança ouve em casa não é de molde a fortalecer o respeito às pessoas com que vai conviver. Ali nada de bom parece existir na humanidade; todas as instituições são combatidas, desde o professor até às posições mais elevadas do Estado. Trata-se de religião ou da moral em si, do Estado ou da sociedade, tudo é igualmente ultrajado da maneira mais torpe e arrastado na lama dos mais baixos sentimentos. Quando o rapazinho, apenas com quatorze anos, sai da escola, é difícil saber o que é maior nele: a incrível estupidez no que diz respeito a conhecimentos reais ou a cáustica imprudência de suas atitudes, aliada a uma amoralidade que, naquela idade, faz arrepiar os cabelos.     Esse homem, para quem já quase nada é digno de respeito, que nada de grande aprendeu a conhecer, que, ao contrário, conhece todas as vilezas humanas, tal criatura, repetimos, que posição poderá ocupar na vida, na qual ele está à margem?     De menino de treze anos ele passou, aos quinze, a um desrespeitador de toda autoridade.     Sujidade e mais sujidade, eis tudo o que ele aprendeu. E isso não é de molde a estimulá-lo a mais elevadas aspirações.     Agora entra ele, pela primeira vez, na grande escola da vida.     Então começa a mesma existência que nos anos da - meninice ele aprendeu de seus pais. Anda para cima e para baixo, entra em casa Deus sabe quando, para variar bate ele mesmo na alquebrada criatura que foi outrora sua mãe, blasfema contra Deus e o mundo e, enfim, por qualquer motivo especial, é condenado e arrastado a uma prisão de menores.     Lá recebe ele os últimos polimentos.     O mundo burguês admira-se, no entanto, da falta de "entusiasmo nacional" deste jovem "cidadão".     A burguesia vê, como no teatro e no cinema, no lixo da literatura e na torpeza da imprensa, dia a dia, o veneno se derramar sobre o povo, em grandes quantidades, e admira-se ainda do precário "valor moral", da "indiferença nacional" da massa desse povo, como se a sujeira da imprensa e do cinema e coisas semelhantes pudessem fornecer base para o conhecimento das grandezas da Pátria, abstraindo-se mesmo a educação individual anterior. Pude então bem compreender a seguinte verdade, em que jamais havia pensado:     O problema da "nacionalização" de um povo deve começar pela criação de condições sociais sadias como fundamento de uma possibilidade de educação do indivíduo. Somente quem, pela educação e pela escola, aprende a conhecer as grandes alturas, econômicas e, sobretudo, políticas da própria Pátria, pode adquirir e adquirirá, certamente, aquele orgulho íntimo de pertencer a um tal povo. Só se pode lutar pelo que se ama, só se pode amar o que se respeita e respeitar o que pelo menos se conhece.     Logo que o interesses pela questão social foi em mim despertado, comecei a estudá-la profundamente. Aos meus olhos surgia um novo mundo até então desconhecido.     No ano de 1909 para 1910, minha própria situação modificou se um pouco porque não precisava mais ganhar o pão de cada dia como ajudante de operário. Já trabalhava, por minha conta, como desenhista e aquarelista. Continuava a ganhar muito pouco - o essencial para viver - mas em compensação tinha lazeres para aperfeiçoar-me na profissão que havia escolhido. Já não entrava em casa, à noite, como antigamente, cansado ao extremo, incapaz de parar a vista em um livro sem adormecer dentro de pouco tempo. Meu trabalho de agora corria paralelo com a minha profissão artística. Podia, então, como senhor do meu próprio tempo, dividi-lo melhor do que antes.     Eu pintava para ganhar o pão e estudava por prazer.     Assim foi possível às minhas observações sobre a questão social juntar o complemento teórico indispensável. Eu estudava quase tudo que sobre esse assunto se podia assimilar em livros, dando assim às minhas próprias idéias base mais sólida.     Creio que os que comigo conviviam naquele tempo tinham-me por um tipo esquisito.     Era natural que eu, com ardor, satisfizesse à minha paixão pela arquitetura. Ao lado da música, a arquitetura me parecia a rainha das artes. Minha atividade, em tais condições, não era um trabalho, mas um grande prazer. Podia ler ou desenhar até tarde da noite, sem cansar-me absolutamente. Assim fortalecia-se a convicção de que o meu belo sonho, depois de longos anos, transformar-se-ia em realidade. Estava inteiramente convencido de um dia conquistar um nome como arquiteto.     Não me parecia muito significativo que eu também tivesse o maior interesse por tudo que se relacionasse com a política. Ao contrário, isso era, em minha opinião, um dever natural de cada ser pensante. Quem nada entende de política perde o direito a qualquer critica, a qualquer reivindicação.     Também sobre esse assunto li e aprendi muito.     Sob o nome de leitura, concebo coisa muito diferente do que pensa a grande maioria dos chamados intelectuais.     Conheço indivíduos que lêem muitíssimo, livro por livro letra por letra, e que, no entanto, não podem ser apontados como "lidos". Eles possuem uma multidão de "conhecimentos", mas o seu cérebro não consegue executar uma distribuição e um registro do material adquirido. Falta-lhes a arte de separar, no livro, o que lhes é de valor e o que é inútil, conservar para sempre de memória o que lhes interessa e, se possível, passar por cima, desprezar o que não lhes traz vantagens, em qualquer hipótese não conservar consigo esse peso sem finalidade. A leitura não deve ser vista como finalidade, mas sim como meio para alcançar uma finalidade. Em primeiro lugar, a leitura deve auxiliar a formação do espírito, a despertar as disposições intelectuais e inclinações de cada um. Em seguida, deve fornecer o instrumento, o material de que cada um tem necessidade na sua profissão, tanto para o simples ganha-pão como para a satisfação de mais elevados desígnios. Em segundo lugar, deve proporcionar uma idéia de conjunto do mundo. Em ambos os casos, é, porem, necessário que o conteúdo de qualquer leitura não seja confiado à guarda da memória na ordem de sucessão dos livros, mas como pequenos mosaicos que, no quadro de conjunto, tomem o seu lugar na posição que lhes é destinada, assim auxiliando a formar este quadro no cérebro do leitor. De outra maneira, resulta um bric-á-brac de matérias aprendidas de cor, inteiramente inúteis, que transformam o seu infeliz possuidor em um presunçoso, seriamente convencido de ser um homem instruído, de entender alguma coisa da vida, de possuir cultura, ao passo que a verdade é que, a cada acréscimo dessa sorte de conhecimentos, mais se afasta do mundo, até que acaba em um sanatório ou, como "político", em um parlamento.     Nunca um cérebro assim formado conseguirá, da confusão de sua "ciência", retirar o que é apropriado às exigências de determinado momento, pois seu lastro espiritual está arranjado não na ordem natural da vida mas na ordem de sucessão dos livros, como os leu e pela maneira por que amontoou os assuntos no cérebro. Quando as exigências da vida diária dele reclamam o justo emprego do que outrora aprendeu então precisará mencionar os livros e o número das páginas e, pobre infeliz, nunca encontrará exatamente o que procura.     Nas horas críticas, esses "sábios", quando se vêem na dolorosa contingência de pesquisar casos análogos para aplicar às circunstâncias, só descobrem receitas falsas.     Não fosse assim e não se poderiam conceber os atos políticos dos nossos sábios heróis do Governo que ocupam as mais elevadas posições, a menos que a gente se decidisse a aceitar as suas soluções não como conseqüências de disposições intelectuais patológicas, mas como infâmias e trapaçarias.     Quem possui, porém, a arte da boa leitura, ao ler qualquer livro, revista ou brochura, dirigirá sua atenção para tudo o que, no seu modo de ver, mereça ser conservado durante muito tempo, quer porque seja útil, quer porque seja de valor para a cultura geral.     O que por esse meio se adquire encontra sua racional ligação no quadro sempre existente que a representação desta ou daquela coisa criou, e corrigindo ou reparando, realizará a justeza ou a clareza do mesmo. Se qualquer problema da vida se apresenta para exame ou contestação, a memória, por esta arte de ler, poderá recorrer ao modelo do quadro de percepção já existente, e por ele todas as contribuições coligidas durante dezenas de anos e que dizem respeito a esse problema são submetidas a uma prova racional e ao nosso exame, até que a questão seja esclarecida ou respondida.     Só assim a leitura tem sentido e finalidade.     Um leitor, por exemplo, que, por esse meio, não fornecer à sua razão os fundamentos necessários, nunca estará na situação de defender os seus pontos de vista ante uma contradita, correspondam os mesmos mil vezes à verdade. Em cada discussão a memória o abandonará desdenhosamente. Ele não encontrará razões nem para o fortalecimento de suas afirmações, nem para a refutação das idéias do adversário. Enquanto isso acarreta, como no caso de um orador o ridículo da própria pessoa, ainda se pode tolerar; de péssimas conseqüências é, porém, que esses indivíduos que "sabem" tudo e não são capazes de coisa alguma, sejam colocados na direção de um Estado.     Muito cedo esforcei-me por ler por aquele processo e fui, da maneira mais feliz, auxiliado pela memória e pela razão. Observadas as coisas por esse aspecto, foi me fecundo e proveitoso, sobretudo o tempo que passei em Viena. A experiência da vida diária servia de estímulo para sempre novos estudos dos mais diversos problemas. Quando eu, por fim, cheguei à situação de poder fundamentar a realidade na teoria e tirar a prova da teoria na experiência, na prática, estava em condições de evitar o excesso de apego à teoria, ou descer demais à realidade.     Assim, a experiência da vida diária, nesse tempo, em dois dos mais importantes problemas, além do social, tornou-se definitiva e serviu de estimulante para sólido estudo teórico.     Quem sabe se eu algum dia me teria aprofundado na teoria e na vida do marxismo, se, outrora, eu não tivesse quebrado a cabeça com esse problema? O que eu, na minha mocidade, conhecia sobre a social democracia era muito pouco e muito errado.     Causava-me intenso prazer que a social democracia dirigisse a luta pelo direito do voto secreto e universal. A minha razão já me dizia, porém, que essa conquista deveria levar a um enfraquecimento do regime dos Habsburgos, por mim já tão odiado.     Na convicção de que o Estado danubiano nunca se manteria sem o sacrifício do espírito alemão, e que o mesmo prêmio de uma lenta eslavização do elemento germânico de modo algum ofereceria garantia de um governo verdadeiramente viável, pois a força criadora do Estado dos eslavos é muito hipotética, via eu com prazer todo movimento que, na minha imaginação, poderia contribuir para o desmembramento desse Estado de dez milhões de alemães, inviável e condenado à morte. Quanto mais o palavrório corroía o parlamento, mais próximo deveria estar a hora da ruína desse Estado babilônico e com ela também a hora da libertação dos meus compatriotas austro-alemães. Só assim se poderia voltar à antiga anexação à mãe-pátria.     Por isso, a atividade da social-democracia não me parecia antipática. Como esse movimento se preocupava em melhorar as condições vitais do operariado - como eu acreditava na minha ingenuidade de outrora - pareceu-me melhor falar a seu favor do que contra. O que mais me afastava da social-democracia era sua posição de adversária em relação ao movimento pela conservação do espírito germânico, a deplorável inclinação em favor dos "camaradas" eslavos que só aceitavam esse alerta quando era acompanhado de concessões práticas, repelindo-o, arrogantes e orgulhosos, quando não viam interesses. Davam, assim, ao importuno mendigo a paga merecida.     Na idade de dezessete anos, a palavra marxismo era-me pouco conhecida, enquanto socialismo e social-democracia pareciam-me concepções idênticas. Foi preciso, também, nesse caso, que o punho forte do destino me abrisse os olhos para essa maldita maneira de ludibriar o povo.     Até então eu só tinha contato com a social-democracia como observador em algumas demonstrações coletivas, sem possuir nenhuma idéia da mentalidade de seus adeptos ou da essência da doutrina. De repente. pude sentir os efeitos de sua doutrinação e de sua maneira de encarar o mundo. O que, talvez só depois de dezenas de anos, tivesse acontecido, aprendi agora no decurso de poucos meses, isto é, a verdadeira significação de uma peste ambulante sob a máscara de virtude social e amor ao próximo e da qual se deve depressa libertar a terra, pois, ao contrário, muito facilmente a humanidade será por ela imolada.     No serviço de construções teve lugar o meu primeiro encontro com os sociais-democratas. Logo de começo, não foi muito agradável. Minhas roupas ainda estavam em ordem, minha linguagem era cuidada, minha vida comedida. Tinha tanto que lutar com a minha sorte que pouco podia cuidar do que me cercava. Só procurava trabalho para não passar fome e para ter a possibilidade de continuar, mesmo lentamente, a minha educação. Talvez eu não me tivesse absolutamente preocupado com o novo meio em que me achava, se, 1á no terceiro ou quarto dia, não se tivesse dado um fato que me forçou a tomar imediatamente uma posição definida: fui intimado a entrar no sindicato.     Meus conhecimentos sobre organização sindical eram então quase nulos. Nem a sua utilidade nem a sua inutilidade podia eu aquilatar. Quando me esclareceram que eu deveria entrar, recusei-me. Fundamentava a minha resolução com a razão de que eu não entendia do assunto e que, sobretudo, não me deixava levar à força para parte alguma. Talvez fosse a primeira a razão por que não me puseram imediatamente na rua. Talvez esperassem que, dentro de alguns dias, eu estivesse convertido ou pelo menos mais dócil.     Haviam-se enganado radicalmente.     Depois de quatorze dias, eu não poderia mais entrar para o sindicato, mesmo que o tivesse desejado. Nestes quatorze dias, pude conhecer de mais perto os que me cercavam, de modo que nenhuma força do mundo poderia mais arrastar-me a uma organização, cujos esteios me apareceram sob uma luz tão desfavorável.     Nos primeiros dias fiquei indignado.      Ao meio-dia, uma parte dos operários ia para a estalagem próxima, enquanto a outra ficava no local da- construção e aí tinha o seu magro almoço. Estes eram casados, para os quais as mulheres, em miseráveis vasilhas, traziam a sopa do meio-dia. Para o fim da semana, o número desses era sempre maior. A razão disso só mais tarde compreendi.     Então conversava-se política.      Eu bebia minha garrafa de leite e comia o meu pedaço de pão, conservando-me sempre afastado, e estudava com atenção meus novos conhecidos ou refletia sobre a minha triste sorte. Não obstante isso, ouvia mais do que o suficiente. Pareceu-me freqüentemente que se aproximavam de mim de propósito para me forçarem a tomar uma posição. Em todo caso, como vim a saber, isso visava o efeito de me provocar.     Ali tudo se negava: a nação era uma invenção das classes capitalistas (que número infinito de vezes ouvi essa palavra!); a Pátria era um instrumento da burguesia para exploração das massas trabalhadoras; a autoridade da lei era simples meio de opressão do proletariado; a escola era instituto de cultura do material escravo e mantenedor da escravidão; a religião era vista como meio de atemorizar o povo para melhor exploração do mesmo; a moral não passava de uma prova da estúpida paciência de carneiro do povo. Não havia nada, por mais puro, que não fosse arrastado na lama mais asquerosa.     De começo, tentei manter-me em silêncio. Por fim, não podia mais. Comecei a tomar posição, comecei a contraditar. Então passei a compreendei- que essa oposição de nada valia, enquanto eu não possuísse conhecimentos seguros sobre os pontos debatidos. Comecei a pesquisar nas próprias fontes, de onde eles extraíam a sua fictícia sabedoria. Li livros sobre livros, brochuras sobre brochuras. No local do serviço, as coisas chegavam freqüentemente à exaltação. Eu discutia cada vez melhor, até que um dia foi empregado um meio que facilmente levava de vencida a razão: o terror, a força. Alguns dos defensores do lado contrário intimaram-me a abandonar a construção imediatamente ou a ser jogado do andaime. Como estava sozinho e a resistência seria impossível, preferi seguir o primeiro alvitre, adquirindo assim mais uma experiência.     Saí, enojado, mas, ao mesmo tempo, tão impressionado que já agora seria inteiramente impossível para mim abandonar a questão. Não. Depois da eclosão da primeira revolta, a obstinação de novo venceu. Estava firmemente resolvido a voltar, apesar de tudo para outro serviço de construção. Essa decisão foi fortalecida pela situação precária em que me encontrei algumas semanas mais tarde, depois de gastar as pequenas economias. Não me restava outra saída, quer eu quisesse quer não. E cena idêntica desenrolou-se, para acabar da mesma forma que a primeira.     Travou-se uma luta no meu íntimo, que se define nesta pergunta: isso é gente digna de pertencer a um grande povo?     Eis uma pergunta angustiosa. Se a respondermos afirmativamente, a luta por uma nacionalidade merecerá os trabalhos e os sacrifícios que os melhores fazem por um tal rebotalho? Se a resposta for negativa, então o nosso povo já está muito pobre em homens.     Com desânimo inquietador via eu, naqueles dias críticos e atormentados, a massa, que já não pertencia a seu povo, tornar-se um exército ameaçador.     Com que sentimentos diferentes fitava, então, as filas sem fim dos trabalhadores vienenses em um dia de demonstração coletiva! Durante quase duas horas, de pé, um dia, observei, com a respiração suspensa, a monstruosa onda humana que rolava lentamente. Tomado de um desânimo inquieto, abandonei a praça e dirigi-me para casa. No caminho, vi em uma tabacaria o "Arbeiterzeitung", órgão central da antiga social-democracia. Em um café popular, que eu freqüentava constantemente a fim de ler os jornais, esse periódico também era exposto à venda. Eu não podia, porém, fazer o sacrifício de passar uma vista por mais de dois minutos na folha infame, que, para mim, tinha o efeito do vitríolo.     Debaixo da acabrunhadora impressão que a demonstração coletiva havia produzido, senti uma voz íntima que me incitava a comprar o jornal e lê-lo inteiramente. À noite tratei disso, vencendo a crescente repulsa que sempre experimentava ao ver essa torneira de mentiras concentradas. Melhor do que em toda a literatura teórica, pude, pela leitura diária da imprensa social-democrática, estudar a essência do movimento e o curso das suas idéias.     Que diferença entre as cintilantes frases de liberdade, beleza e dignidade da literatura teórica, entre o fogo-fátuo do palavrório que, laboriosamente, aparenta a mais profunda e irresistível sabedoria, pregada com uma segurança profética, e a brutal virtuosidade da mentira da imprensa diária que trabalhava pela salvação da nova humanidade sem recuar ante nenhuma objeção, usando de todos os recursos da calúnia!     Uma é destinada aos estúpidos das camadas intelectuais médias e superiores, a outra às massas.     A meditação sobre a literatura e a imprensa dessa doutrinação, servia-me para descobrir de novo a minha gente.     O que, a princípio, me parecia um abismo intransponível, devia tornar-se motivo para amar cada vez mais o meu povo.     Só um louco poderia, depois de conhecer esse monstruoso trabalho de envenenamento, condenar ainda as vítimas do mesmo. Quanto mais independente eu me tornava nos anos seguintes, tanto mais longe alcançava a minha vista as causas íntimas do êxito da social-democracia. Então compreendendo a significação da exigência brutal feita ao operário para só ler jornais vermelhos, só freqüentar assembléias vermelhas, só ler livros vermelhos, etc., vi, muito claro, os efeitos violentos dessa doutrinação da intolerância.     A psique das massas é de natureza a não se deixar influenciar per meias medidas, por atos de fraqueza.     Assim como as mulheres, cuja receptividade mental é determinada menos por motivos de ordem abstrata do que por uma indefinível necessidade sentimental de uma força que as complete e, que, por isso preferem curvar-se aos fortes a dominar os fracos, assim também as massas gostam mais dos que mandam do que dos que pedem e sentem-se mais satisfeitas com uma doutrina que não tolera nenhuma outra do que com a tolerante largueza do liberalismo. Elas não sabem o que fazer da liberdade e, por isso, facilmente sentem-se abandonadas.     A impudência do terrorismo espiritual passa-lhes despercebida, assim como os crescentes atentados contra a sua liberdade que as deveriam levar à revolta. Elas não se apercebem, de nenhum modo, dos erros intrínsecos dessa doutrinação. Elas vêem apenas a força incontrastável e a brutalidade de suas resolutas manifestações externas, ante as quais sempre se curvam.     Se uma doutrina que encerrasse mais inveracidade ao lado de idêntica brutalidade na propaganda, fosse oposta à social-democracia, triunfaria, do mesmo modo, por mais áspera que fosse a luta.     Em menos de dois anos, não só a doutrina da social-democracia mas também o seu emprego como instrumento prático, tornaram-se-me claros.     Eu compreendi o infame terror espiritual que esse movimento exerce especialmente sobre a burguesia.     A um dado sinal, os seus propagandistas lançam um chuveiro de mentiras e calúnias contra o adversário que lhes parece mais perigoso, até que se rompam os nervos dos agredidos que, para terem tranqüilidade, se rendem ao inimigo.     Mas é do destino dos tolos nunca alcançarem o sossego.     O jogo recomeça e repete-se inúmeras vozes, até que o pavor ante os monstros selvagens provoca uma significativa imobilidade do adversário.     Como a social democracia, por experiência própria, conhece muito bem o valor da força, lança-se mais violentamente contra aqueles em cuja individualidade descobre algum sistema de resistência. Por outro lado, incensa todos os fracos do lado oposto, a princípio cautelosamente e depois abertamente, conforme essas qualidades morais sejam reais ou imaginárias.     Eles receiam menos um gênio impotente e sem vontade do que uma natureza forte, mesmo intelectualmente modesta.     A social-democracia se recomenda sobretudo aos fracos de espírito e de caráter.     Esse partido sabe aparentar que só ele conhece o segredo da paz e tranqüilidade, enquanto, cautelosamente mas de maneira decidida, conquista uma posição depois da outra, ora por meio de discreta pressão, ora através de requintadas escamoteações em momentos em que a atenção geral está dirigida para outros assuntos, não quer por ele ser despertada ou tem a oportunidade como não merecendo grande interesses ou receia provocar o perverso adversário.     Essa é uma tática que, tendo em conta exatamente tidas as fraquezas humanas, é coroada de êxito matemático, quando o adversário não aprende a usar gás venenoso contra gás venenoso, isto é, as mesmas armas do agressor.     É preciso que se diga às naturezas fracas que se trata de uma luta de vida ou de morte.     Não menos compreensível para mim tornou-se a significação do terror material em relação aos indivíduos e às massas.     Aqui também havia um cálculo exato de atuação psicológica. O terror nos lugares de trabalho, nas fábricas, nos locais de reunião e por ocasião das demonstrações coletivas, era sempre coroado de êxito, enquanto um terror maior não se lhe opunha.     Quando acontece essa última hipótese, o partido, em gritos de pavor, embora habituado a desrespeitar a autoridade do Estado, em altos berros pedirá seu auxílio, para, na maioria dos casos, no meio da confusão geral, alcançar o seu verdadeiro objetivo, isto é: encontrar covardes autoridades que, na tímida esperança de poder de futuro contar com o temível adversário, auxiliem-no a combater o inimigo.     Que impressão um tal êxito exerce sobre o espírito das vastas massas e dos seus adeptos, assim como sobre o vencedor, só pode avaliar quem conhece a alma do povo, não através de livros mas pelo estudo da própria vida, pois, enquanto, no círculo dos vencedores, o triunfo alcançado é tido como uma vitória do direito de sua causa, o adversário batido, na maioria dos casos, duvida do êxito de uma outra resistência.     Quanto melhor eu conhecia os métodos da violência material, tanto mais me inclinava a desculpar as centenas de milhares de proletários que cediam ante a força bruta.     A compreensão desse fato devo principalmente aos meus antigos tempos de sofrimentos, os quais me fizeram entender o meu povo e fazer a diferença entre as vítimas e os seus condutores.     Como vítimas devem ser vistos os que foram submetidos a essa situação corruptora. Quando eu me esforçava por estudar, na vida real, a natureza íntima dessas camadas "inferiores", não podia delas fazer uma idéia justa, sem a segurança de que, nesse meio, também encontrava qualidades recomendáveis, como sejam capacidade de sacrifício, fiel camaradagem, extraordinária sobriedade, discreta modéstia, virtudes essas muito comuns, sobretudo nos antigos sindicatos. Se é verdade que essas virtudes se diluíam cada vez mais nas novas gerações, sob a atuação das grandes cidades, incontestável é também que muitas conseguiam triunfar sobre as vilezas comuns da vida. Se esses homens, bons e bravos, na sua atividade política, entravam nas fileiras dos inimigos do nosso povo e a estes auxiliavam, era porque não compreendiam e nem podiam compreender a vileza da nova doutrina ou porque, em ultima ratio, as injunções sociais eram mais fortes do que todas as vontades em contrário. As contingências da vida a que, de um modo ou de outro, estavam fatalmente sujeitos, faziam-nos entrar no acampamento da social-democracia.     Como a burguesia, inúmeras vezes, da maneira mais inepta e também a mais imoral, fazia frente às mais justas aspirações coletivas, sem muitas vezes retirar ou esperar retirar qualquer proveito de uma tal atitude, mesmo o mais ordeiro trabalhador saia da organização sindical para tomar parte na atividade política.     Milhões de proletários, na intimidade, foram, sem dúvida, de começo, inimigos do partido social-democrático. Foram, porém, derrotados na sua oposição pela conduta idiota do partido burguês combatendo todas as reivindicações da massa dos trabalhadores.     A impugnação cega da burguesia a todos os ensaios por uma melhoria nas condições do trabalho, tais como um aparelhamento de defesa contra as máquinas, a proteção ao trabalho das crianças e a proteção da mulher, pelo menos nos últimos meses de gravidez, tudo isso auxiliou a social-democracia a pegar as massas nas suas redes. Esse partido sabia aproveitar todos os casos em que pudesse manifestar sentimentos de piedade para com os oprimidos. Nunca mais poderá a nossa burguesia política reparar os seus erros, pois, enquanto ela se opunha a todas as tentativas por uma remoção dos males sociais, semeava ódio e justificava mesmo as afirmações dos inimigos da nacionalidade, segundo as quais só o Partido Social Democrata defendia os interesses das classes produtoras.     Aí estão as razões morais da resistência dos sindicatos e os motivos por que prestaram os melhores serviços àquele partido político.     Nos meus anos de aprendizado em Viena fui forçado, quer quisesse quer não, a tomar posição no problema dos sindicatos.     Como eu os via como parte integral e indivisível do Partido Social Democrata, minha decisão foi rápida e falsa.     Como era natural, recusei-me a entrar para o sindicato.     Também nesta importante questão foi a vida real que me serviu de mestre.     O resultado foi uma reviravolta nos meus primeiros julgamentos.     Aos vinte anos, já fazia a diferença entre o sindicato como meio de defesa dos direitos sociais dos empregados e de luta pela melhoria das condições de vida dos mesmos e o sindicato como instrumento do partido na luta política de classes.     Como a social-democracia compreendeu a enorme significação do movimento sindicalista, assegurou para si a colaboração desse instrumento e dai o seu êxito; como a burguesia não a compreendeu, isso lhe custou a sua posição política. Na sua teimosa oposição, imaginou a burguesia fazer parar uma evolução fatal e, na realidade, conseguiu apenas forçá-la a tomar um caminho ilógico. Dizer-se que o movimento sindical em si é inimigo da Pátria é uma idiotice, e além disso, uma inverdade. O contrário é que é a verdade. Se uma atividade sindical tem como objetivo a melhoria de uma classe que constitui uma das colunas mestras da nação e se esforça por realizá-lo, essa atividade não só não se exerce contra a Pátria e o Estado mas, no verdadeiro sentido da palavra, consulta os interesses nacionais. É fora de qualquer dúvida que essa atuação auxilia a criar programas sociais, sem o que nem se deve pensar em uma educação nacional coletiva. Esse movimento atinge seu maior mérito quando, pelo combate aos cancros sociais existentes, ataca as causas das moléstias do corpo e do espírito, contribuindo para a conservação da saúde do povo. É ociosa a discussão sobre as vantagens dessas agitações.     Enquanto, entre os que distribuírem trabalho, houver homens que não compreendam a questão social ou possuam idéias erradas de direito e de justiça, é não só direito mas dever dos por eles empregados, - que aliás formam uma parte do nosso povo - proteger os interesses da quase totalidade contra a avidez ou a irracionalidade de poucos, pois a manutenção da fé na massa do povo é para o bem-estar da nação tão importante quanto a conservação da sua saúde.     Ambos esses interesses serão seriamente ameaçados pelos indignos empregadores que não têm os mesmos sentimentos da coletividade, de que vivem divorciados. Devido à sua condenável atitude, inspirada na ambição ou na intransigência, nuvens ameaçadoras anunciam tempestades futuras.     Remover as causas de uma tal evolução é conquistar um mérito em relação à Pátria. Agir ao contrário é trabalhar contra os interesses da nação.     Não se diga que cada um tem independência suficiente para tirar todas as conclusões das injustiças reais ou fictícias que lhe são feitas. Não, isso é hipocrisia e deve ser visto como tentativa para desviar a atenção das soluções justas.     A alternativa é a seguinte: evitar acontecimentos nocivos à coletividade consulta ou não os interesses da nação? Na primeira hipótese, a luta deve ser aceita com todas as armas que possam assegurar o triunfo.     O trabalhador, individualmente, não está nunca em condições de empenhar-se, com êxito, em uma luta contra o poder do grande empregador. Nesse conflito não se trata do problema da vitória do direito. Se assim fosse, o simples reconhecimento desse direito faria cessar toda luta, pois desapareceria, em ambas as partes, o desejo de combater. Trata-se, porém, de uma questão de força. Naquele caso, o sentimento de justiça por si só faria terminar a luta de modo honroso, ou melhor, nunca se chegaria a ela. Se atos indignos ou contrários aos interesses sociais arrastam à -reação, a luta só poderá ser decidida em favor do lado mais forte, salvo se a justiça se dispuser à solução desses males.     Além disso, é evidente que o empregador, apoiado na força concentrada de suas empresas, terá que enfrentar o corpo de empregados, se não quiser ser compelido a perder, desde o início, qualquer esperança de vitória.     Assim a organização sindical pode produzir o fortalecimento dos ideais sociais por unia atuação mais prática e, com isso, o afastamento de causas de irritação que sempre dão motivo a descontentamentos e a queixas. Se isso não acontece deve-se em grande parte àqueles que a todas as soluções legais das dificuldades do povo julgam opor obstáculos ou impedi-las por meio de sua influência política.     Enquanto a burguesia não compreendia a significação da organização sindical, ou, melhor, não queria entendê-la, e insistia em fazer-lhe oposição, a social-democracia punha-se ao lado do movimento combatido.     Vendo longe, ela criou para si uma base firme que nos momentos críticos, já lhe havia servido de último esteio. A verdade, porém, é que a antiga finalidade era, pouco a pouco, abandonada, para dar lugar a outros objetivos.     A social-democracia nunca pensou em solucionar os problemas reais do movimento profissional.     Em poucas décadas, nas mãos espertas da social-democracia, o movimento sindical de instrumento de defesa dos direitos sociais passou a ser instrumento de destruição da economia nacional.     Os interesses dos trabalhadores não deveriam em nada obstar a sua ação, pois, politicamente, o emprego de meios de compressão econômica sempre permite a extorsão e o exercício de violências a toda hora, sempre que, de um lado, há a necessária falta de escrúpulos e, do outro, a suficiente estupidez junta a uma paciência de cordeiro. E isso acontece nos dois campos em luta.     Já no começo deste século o movimento sindical, de há muito, havia deixado de servir ao seu objetivo de outrora.     De ano a ano, ele, cada vez mais, caía nas mãos dos políticos da social-democracia, para, por fim, ser utilizado apenas como pára-choque na luta de classes. Em conseqüência de permanentes conflitos deveria, finalmente, levar à ruína toda a organização econômica, pacientemente construída, arrastando o edifício do Estado à mesma sorte, pela destruição de suas fundações econômicas.     Cogitava-se cada vez menos da defesa de todos os interesses reais do proletariado, até chegar-se à conclusão de que a prudência política considerava como não aconselhável melhorar as condições sociais e culturais das grandes massas, pois, ao contrário, corria-se o perigo de que essas, tendo seus desejos satisfeitos, não mais poderiam ser eternamente utilizadas como tropas de combate facilmente manejáveis.     Essa evolução atemorizou de tal maneira os guias da luta de classes que eles, por fim, se opuseram a todas as salutares reformas sociais e, da maneira mais decidida, tomaram posição de combate às mesmas.     Na justificação dos fundamentos dessa atitude negativa e incompreensível nada deviam recear.     No campo burguês estava se escandalizado com essa visível falta de sinceridade da tática da social democracia, sem que, porém, dai se tirassem as mínimas conclusões para um acertado plano de ação. Justamente o receio da social-democracia diante de cada melhoria real da situação do proletariado em relação à profundidade de sua até então miséria cultural e social, talvez tivesse concorrido a arrancar esse instrumento das mãos dos representantes de classes     Isso não aconteceu, porém. Em vez de tomar a ofensiva, a burguesia deixou apertar-se cada vez mais o cerco em torno de si para, enfim, adotar providências inadequadas que, por muito tardias, tornaram-se sem eficiência, e, por isso mesmo, eram facilmente repelidas. Assim ficou tudo como antes, apenas o descontentamento tornou-se cada vez maior.     Os "sindicatos independentes", como uma nuvem tempestuosa, obscureciam o horizonte político, ameaçando também a existência dos indivíduos. Essas organizações se transformaram no mais temível instrumento de terror contra a segurança e independência da economia nacional, a solidez do Estado e a liberdade dos indivíduos.     Foram eles, sobretudo, que transformaram a concepção da democracia em uma frase asquerosa e ridícula, que profanava a liberdade e escarnecia, de maneira imperecível, da fraternidade, nesta proposição: "Se não quiseres ser dos nossos, nós te arrebentaremos a cabeça".     Assim começava eu a conhecer esses inimigos do "gênero humano".     No decurso dos anos, a opinião sobre eles desenvolveu-se e aprofundou-se, sem modificar-se, porém.     Quanto mais eu estudava o aspecto exterior da social-democracia, tanto mais crescia o desejo de penetrar na estrutura íntima dessa doutrina.     A literatura oficial do Partido de pouca utilidade me poderia ser na realização desse objetivo. Ela é, no que diz respeito a questões econômicas, falsa nas suas afirmações e conclusões e mentirosa quanto à finalidade política.     Daí a razão por que eu me sentia, de coração, afastado dos novos modos de expressão da eterna rabulice política e da sua maneira de descrever as coisas.     Com um inconcebível luxo de palavras de significação obscura, gaguejavam sentenças que deveriam ser ricas de pensamento como eram falhas de senso.     Só a decadência dos nossos intelectuais das grandes cidades poderia, neste labirinto da razão, sentir-se confortavelmente, para, no nevoeiro deste dadaismo literário, compreender a "vida íntima", apoiado na proverbial inclinação de uma parte do nosso povo, para sempre farejar a sabedoria profunda no meio dos paradoxos pessoais.     Enquanto eu, na realidade de suas demonstrações, pesava todas as mentiras e desatinos teóricos dessa doutrina, chegava, pouco a pouco, a uma compreensão mais clara da sua vontade.     Nestas horas apoderavam-se de mim idéias tristes e maus presságios. Vi diante de mim uma doutrina, constituída de egoísmo e de ódio, que, por leis matemáticas, poderá ser levada à vitória mas arrastará a humanidade à ruína.     Nesse ínterim, eu já tinha compreendido a ligação entre essa doutrina de destruição e o caráter de uma certa raça para mim até então desconhecida.     Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo.     Hoje é-me difícil, senão impossível, dizer quando a palavra judeu pela primeira vez foi objeto de minhas reflexões. Na casa paterna, durante a vida de meu pai, não me lembro de tê-la ouvido. Creio que ele já via nessa palavra a expressão de uma cultura retrógrada. No curso de sua vida, ele chegou a uma concepção mais ou menos cosmopolita do mundo combinada a um nacionalismo radical que, também, exercia seus efeitos sobre mim.     Na escola também não encontrei oportunidade que me pudesse levar a uma modificação desse modo de encarar as coisas, que me havia transmitido meu pai.     É verdade que, na esc

ola profissional, eu havia conhecido um jovem judeu que era tratado por nós com certa prevenção, mas isso somente porque não tínhamos confiança nele, devido ao seu todo taciturno e a vários fatos que nos haviam escarmentado. Nem a mim nem aos outros despertou isso quaisquer reflexões.     Só dos meus quatorze para os quinze anos deparei freqüentemente com a palavra judeu, ligada em parte a conversas sobre assuntos políticos. Sentia contra isso uma ligeira repulsa e não podia evitar essa impressão desagradável que, aliás, sempre se apoderava de mim quando discussões religiosas se travavam na minha presença.     Nesse tempo eu não via a questão sob qualquer outro aspecto.     Em Linz havia muito poucos judeus. Com o decorrer dos séculos, o aspecto do judeu se havia europeizado e ele se tornara parecido com gente. Eu os tinha por alemães, Não me era possível compreender o erro desse julgamento, porque o único traço diferencial que neles via era o aspecto religioso diferente do nosso. Minha condenação a manifestações contrárias a eles, a perseguição que se lhes movia, por motivos de religião como eu acreditava, levavam-me à irritação, Eu não pensava absolutamente na existência de um plano regular de combate aos judeus.     Com essas idéias vim para Viena.     Absorvido pela avalancha de impressões que a arquitetura despertava, abatido pelo peso da minha própria sorte, eu não tinha olhos para observar a estrutura da população da grande cidade.     Embora Viena, já naquele tempo, possuísse duzentos mil judeus em uma população de dois milhões, não me apercebi desse fato. Nas primeiras semanas, os meus sentidos não puderam abarcar o conjunto de tantos valores e idéias novas. Só depois que, pouco a pouco, a serenidade voltou e as imagens confusas dos primeiros tempos começaram a esclarecer-se, é que mais acuradamente pude ver em torno de mim o novo mundo que me cercava e, então, deparei também com o problema judaico.     Não quero afirmar que a maneira por que eu os conheci me tenha sido particularmente agradável. Eu só via no judeu o lado religioso. Por isso, por uma questão de tolerância, considerava injusta a sua condenação por motivos religiosos. O tom, sobretudo da imprensa anti-semítica de Viena, parecia me indigno das tradições de cultura de um grande povo, Causava-me mal-estar a lembrança de certos fatos da Idade Média, cuja reprodução não desejava ver. Como esses jornais não valiam grande coisa - e a razão disso eu então não conhecia - via neles mais o produto de mesquinha inveja do que o resultado de uma questão de princípios, embora falsos.     Fortaleci-me nessa maneira de pensar pela forma infinitamente mais digna (assim pensava eu então) por que a grande imprensa respondia a todos esses ataques ou - o que me parecia de mais mérito ainda pelo silêncio de morte em que se mantinha.     Lia com fervor a chamada grande imprensa ("Neue Freie Presse", "Wiener Tageblatt", etc.) e ficava admirado ante a extensão dos assuntos que oferecia ao leitor assim como diante da objetividade das suas manifestações em cada caso particular. Apreciava o seu estilo elegante, distinto. Os exageros de forma não me agradavam, chocavam-me.     Porque eu tenha visto Viena assim, apresento como desculpa o esclarecimento que me dei a mim mesmo.     O que repetidamente me causava repugnância era a maneira indigna pela qual a imprensa bajulava a corte.     Não havia acontecimento na corte que não fosse comunicado aos leitores em tom do mais intenso entusiasmo ou da mais lamurienta consternação, prática essa que, mesmo tratando-se do "mais sábio monarca" de todos os tempos, podia ser comparada aos excessos incontidos de um galo silvestre.     Isso me parecia exagerado e era por mim visto como uma mancha para a Democracia liberal.      Pretender as graças desta corte e de maneira tão indigna era o mesmo que trair a dignidade da nação.     Esta foi a primeira sombra que devia perturbar as minhas afinidades espirituais com a grande imprensa de Viena.     Como sempre, também em Viena, eu acompanhava todos os acontecimentos da Alemanha com o maior ardor, quer se tratasse de questões políticas ou de problemas culturais.     Com uma admiração a que se juntava o maior orgulho, eu comparava a elevação do Reich com a decadência do Estado austríaco, Enquanto os acontecimentos da política externa, na sua maior parte, provocavam geral contentamento, a política interna freqüentemente dava margem a sombrias aflições. A campanha que, naquele tempo, se movia contra Guilherme II, não tinha a minha aprovação, Nele eu não via só o Imperador dos Alemães mas também o criador da frota alemã. A imposição feita pelo Reichstag de não permitir ao Kaiser fazer discursos indignava-me de modo tão extraordinário, porque essa proibição partia de uma fonte que, aos meus olhos, nenhuma autoridade possuía, atendendo a que, em um só período de sessão, esses gansos do parlamento haviam grassitado mais idiotices do que o poderia fazer, durante séculos, uma inteira dinastia de imperadores, dado o seu muito menor número.     Eu me encolerizava com o fato de, em um país em que qualquer imbecil não só reivindicava para si o direito de crítica mas, no Parlamento, tinha até a permissão de decretar leis para a Pátria, o detentor da coroa imperial pudesse receber admoestações da mais superficial das instituições de palavrório de todos os tempos.     Irritava-me ainda mais com o fato de ver que a mesma imprensa "vienense" que, diante de um cavalo da corte, se desfazia nas mais respeitosas mesuras a um acidental movimento da cauda do mesmo, aparentando cuidados que para mim não passavam de mal encoberta maldade, pudesse exprimir o seu pensamento contra o imperador dos alemães!     Em tais casos o sangue me subia à cabeça.     Foi isso o que, pouco a pouco, me fez olhar com mais atenção a grande imprensa.     Fui forçado a reconhecer uma vez que um dos jornais anti-semíticos, o "Deutsche Volksblatt", em uma oportunidade idêntica, portara se de maneira mais decente.     O que também me enervava era a nojenta bajulação com que a grande imprensa se referia à França.     Éramos forçados a nos envergonhar de sermos alemães quando nos chegavam aos ouvidos esses açucarados hinos de louvor à "grande nação da cultura".     Essa lastimável galomania mais de uma vez me levou a deixar cair das mãos um desses grandes jornais.     Freqüentemente, procurava o "Volksblatt" que, apesar de muito menor, parecia-me mais limpo nesses assuntos.     Não concordava com a sua atitude radicalmente anti-semítica, mas, de vez em quando, eu encontrava argumentações que me faziam refletir.     De qualquer modo, por meio de "Volksblatt", eu pude conhecer aos poucos o homem e o movimento de que dependiam a sorte de Viena: o Dr. Karl Lueger e o Partido Social Cristão.     Quando vim para Viena era francamente contrário a ambos.     O movimento e o seu líder me pareciam reacionários.     O habitual sentimento de justiça deveria, porém, modificar esse julgamento, à proporção que se me oferecia oportunidade de conhecer o homem e a sua atuação. Com o tempo, tornei-me de franco entusiasmo por ele. Hoje, vejo-o, mais do que antes, como o mais forte burgo-mestre alemão de todos os tempos,     Quantas de minhas arraigadas convicções caíram por terra com essa mudança de modo de ver a respeito do movimento social-cristão!     A minha maior metamorfose foi, porém, a que experimentei em relação ao movimento anti-semítico.     Isso me custou, durante meses, as maiores lutas íntimas, entre os meus sentimentos e as minhas idéias, luta em que as idéias acabaram por triunfar.     Por ocasião dessa áspera luta entre a educação sentimental e a razão pura, a observação da vida de Viena prestou-me serviços inestimáveis.     Eu já não errava pelas ruas da importante cidade como um cego que nada vê. Com os olhos bem abertos, observava não mais somente os monumentos arquitetônicos mas também os homens.     Um dia em que passeava pelas ruas centrais da cidade, subitamente deparei com um indivíduo vestido em longo caftan e tendo pendidos da cabeça longos caches pretos.     Meu primeiro pensamento foi: isso é um judeu?     Em Linz eles não tinham as características externas da raça.     Observei o homem, disfarçada mas cuidadosamente, e quanto mais eu contemplava aquela estranha figura, examinando-a traço por traço, mais me perguntava a mim mesmo: isso é também um alemão?     Como acontecia sempre em tais ocasiões, tentei remover as minhas dúvidas recorrendo aos livros. Pela primeira vez na minha vida, comprei, por poucos pfennigs, alguns panfletos anti-semíticos. Infelizmente, todos partiam do ponto de vista de já ter o leitor algum conhecimento da questão semítica. O tom da maior parte desses folhetos era tal que, de novo, fiquei em dúvida. As suas afirmações eram apoiadas em argumentos tão superficiais e anticientíficos que a ninguém convenciam.     Durante semanas, talvez meses, permaneci na situação primitiva.      O assunto parecia-me tão vasto, as acusações tão excessivas, que, torturado pelo receio de fazer uma injustiça, de novo fiquei em um estado de incerteza e ansiedade.      Não me era lícito duvidar que, no caso, não se tratava de uma questão religiosa, mas de raça, pois logo que comecei a estudar o problema e a observar os judeus, Viena apareceu-me sob um aspecto diferente. Já agora, para qualquer parte que me dirigisse, eu via judeus e quanto mais os observava mais firmemente convencido ficava de que eles eram diferentes das outras raças. Sobretudo no centro da cidade e na parte norte do canal do Danúbio, notava-se um verdadeiro enxame de indivíduos que, por seu aspecto exterior, em nada se pareciam com os alemães. Mesmo, porém, que me assaltassem ainda algumas dúvidas, todas as hesitações se dissipavam em face da atitude de uma parte dos judeus.     Surgiu entre eles um grande movimento de vasta repercussão em Viena que muito concorreu para um juízo seguro sobre o caráter racial dos judeus. esse movimento foi o Sionismo.     Parecia, à primeira vista, que só uma parte dos judeus aprovava essa atitude e que a grande maioria condenava aquele princípio e o rejeitava decididamente. Após observação mais acurada, verificava-se que essa aparência se traduzia em um misto de teorias, para não dizer de mentiras, apresentadas por motivos tácitos, pois o chamado judeu liberal rejeitava os pontos de vista dos sionistas, não porque esses fossem não judeus mas porque eram judeus que pertenciam a um credo pouco prático e talvez mesmo perigoso para o próprio judaísmo.     Essa discórdia em nada alterava, porém, a solidariedade íntima entre os adversários.     A luta aparente entre os sionistas e os judeus liberais muito cedo me despertou nojo. Comecei a vê-la como hipócrita, uma deslavada miséria, de começo a fim, e, sobretudo, indignada da tão proclamada pureza moral desse povo.     De mais a mais, essa pureza moral ou de qualquer outra natureza era uma questão discutível. Que eles não eram amantes de banhos podia-se assegurar pela simples aparência. Infelizmente não raro se chegava a essa conclusão até de olhos fechados, Muitas vezes, posteriormente, senti náuseas ante o odor desses indivíduos vestidos de caftan. A isso se acrescentem as roupas sujas e a aparência acovardada e tem-se o retrato fiel da raça.     Tudo isso não era de molde a atrair simpatia. Quando, porém, ao lado dessa imundície física, se descobrissem as nódoas morais, maior seria a repugnância.     Nada se afirmou em mim tão depressa como a compreensão, cada vez mais completa, da maneira de agir dos judeus em determinados assuntos.     Poderia haver uma sujidade, uma impudência de qualquer natureza na vida cultural da nação em que, pelo menos um judeu, não estivesse envolvido?     Quem, cautelosamente, abrisse o tumor haveria de encontrar, protegido contra as surpresas da luz, algum judeuzinho. Isso é tão fatal como a existência de vermes nos corpos putrefatos.     O judaísmo provocou em mim forte repulsa quando consegui conhecer suas atividades, na imprensa, na arte, na literatura e no teatro.     Protestos moles já não podiam ser aplicados. Bastava que se examinassem os seus cartazes e se conhecessem os nomes dos responsáveis intelectuais pelas monstruosas invenções no cinema e no drama, nas quais se reconhecia o dedo do judeu, para que se ficasse por muito tempo revoltado. Estava-se em face de uma peste, peste espiritual, pior do que a devastadora epidemia de 1348, conhecida pelo nome de Morte Negra. E essa praga estava sendo inoculada na nação.     Quanto mais baixo é o nível intelectual e moral desses industriais da Arte, tanto mais ilimitada é a sua atuação, pois até os garotos, transformados, em verdadeiras máquinas, espalham essa sujeira entre os seus camaradas. Reflita-se também no número ilimitado das pessoas contagiadas por esse processo, Pense-se em que, para um gênio como Goethe, a natureza lança no mundo dezenas de milhares desses escrevinhadores que, portadores de bacilos da pior espécie, envenenam as almas.     É horrível constatar, - mas essa observação não deve ser desprezada.-.ser justamente o judeu que parece ter sido escolhido pela natureza para essa ignominiosa tarefa.     Dever-se-ia procurar na ignomínia dessa missão o motivo de haver essa escolha recaído nos judeus?     Comecei a estudar cuidadosamente os nomes de todos os criadores dessas podridões artísticas fornecidas ao povo. O resultado foi aumentar as minhas prevenções na atitude em relação aos judeus. Por mais que isso contrariasse meus sentimentos, eu era arrastado pela razão a tirar as minhas conclusões do que observava.     Não se podia negar - porque era uma realidade - o fato de correrem por conta dos judeus nove décimos da sordidez e dos disparates da literatura, da arte e do teatro, fato esse tanto mais grave quanto é sabido que esse povo representa um centésimo da população do país.     Comecei também a examinar debaixo do mesmo ponto de vista a grande imprensa de minha predileção.     À proporção que o meu exame se aprofundava diminuía o motivo de minha antiga admiração por essa imprensa. O estilo desses jornais era insuportável, as idéias eu as repelia por superficiais e banais e as afirmações pareciam aos meus olhos conter mais mentiras do que verdades honestas. E os editores dessa imprensa eram judeus!     Muitas coisas que até então quase me passavam despercebidas agora me chamavam a atenção como dignas de ser observadas, outras que já tinham sido objeto de minhas reflexões passaram a ser melhor compreendidas.     Comecei a ver sob outra luz as opiniões liberais desses periódicos. O tom de distinção das réplicas aos ataques, assim como o seu completo silêncio em certos assuntos, revelavam-se agora como truques inteligentes e vis. As suas brilhantes criticas teatrais sempre favoreciam os autores judeus e as apreciações desfavoráveis só atingiam os autores alemães.     Suas ligeiras alfinetadas contra Guilherme II, assim como os elogios à cultura e à civilização francesa, evidenciavam a persistência nos seus métodos. O conteúdo das novelas era de repelente imoralidade e na linguagem via-se claramente o dedo de um povo estrangeiro. O sentido geral dos seus escritos era tão evidentemente depreciador de tudo quanto era alemão, que não se podia deixar de nisso ver uma intenção deliberada.     Quem teria interesses nessa campanha?     Seria tanta coincidência mero acaso?     A dúvida foi crescendo em meu espírito.     Essa evolução mental precipitou-se com a observação de outros fatos, com o exame dos costumes e da moral seguidos pela maior parte dos judeus.     Aqui ainda foi o espetáculo das ruas de Viena que me proporcionou mais uma lição prática.     As ligações dos judeus com a prostituição e sobretudo com o tráfico branco podiam ser estudadas em Viena, melhor do que em qualquer cidade da Europa ocidental, como exceção, talvez, dos portos do sul da França.     Quem à noite passeasse pelas ruas e becos de Viena seria, quer quisesse quer não, testemunha de fatos que se conservaram ocultos a grande parte do povo alemão, até que a Guerra deu aos lutadores oportunidade de poderem, ou melhor, de serem obrigados a assistir a cenas semelhantes.     Quando, pela primeira vez, vi o judeu envolvido, como dirigente frio, inteligente e sem escrúpulos, nessa escandalosa exploração dos vícios do rebotalho da grande cidade, passou-me um calafrio pelo corpo, logo seguido de um sentimento de profunda revolta.     Então não mais evitei a discussão sobre o problema semítico.     Como procurava aprender a vida cultural e artística dos judeus sob todos os aspectos, encontrei-os em uma atividade que jamais me tinha passado pela mente.     Agora que me tinha assegurado de que os judeus eram os líderes da social-democracia, comecei a ver tudo claro. A longa luta que mantive comigo mesmo havia chegado ao seu ponto final.     Nas relações diárias com os meus companheiros de trabalho, já minha atenção tinha sido despertada pelas suas surpreendentes mutações, a ponto de tomarem posições diferentes em torno de um mesmo problema, no espaço de poucos dias e, às vezes, de poucas horas.     Dificilmente eu podia compreender como homens que, tomados isoladamente, possuem visão racional das coisas, perdem-na de repente, logo que se põem em contato com as massa. Era motivo para duvidar de seus propósitos.     Quando, depois de discussões que duravam horas inteiras, eu me tinha convencido de haver afinal esclarecido um erro e já exultava com a vitória, acontecia que, com pesar meu, no dia seguinte, tinha de recomeçar o trabalho, pois tudo tinha sido debalde. Como um pêndulo em movimento, que sempre volta para as mesmas posições, assim acontecia com os erros combatidos, cuja reaparição era sempre fatal.     Assim pude compreender: 1.° que eles não estavam satisfeitos com a sorte que tão áspera lhes era; 2.° que odiavam os empregadores que lhes pareciam os responsáveis por essa situação; 3.° que injuriavam as autoridades que lhes pareciam indiferentes ante a sua deplorável situação; 4.° que faziam demonstrações nas ruas sobre a questão dos preços dos gêneros de primeira necessidade.     Tudo isso podia-se ainda compreender, pondo-se a razão de lado. O que, porém, era incompreensível era o ódio sem limites à sua própria nação, o achincalhamento das suas grandezas, a profanação da sua história, o enlameamento dos seus grandes homens.     Essa revolta contra a sua própria espécie, contra a sua própria casa, contra o seu próprio torrão natal, era sem sentido, inconcebível e contra a natureza.     Durante dias, no máximo semanas, conseguia-se livrá-los desse erro Quando, mais tarde, encontrávamos o pretenso convertido, já os antigos erros de novo se haviam apoderado de seu espírito. A monstruosidade tinha tomado posse de sua vítima.     Pouco a pouco, compreendi que a imprensa social-democrática era, na sua grande maioria, controlada pelos judeus. Liguei pouca importância a esse fato que, aliás, se verificava com os outros jornais. Havia, porém, um fato significativo: nenhum jornal em que os judeus tinham ligações poderia ser considerado como genuinamente nacional, no sentido em que eu, por influência de minha educação, entendia essa palavra.     Vencendo a minha relutância, tentei ler essa espécie de imprensa marxista, mas a repulsa por ela crescia cada vez mais. Esforcei-me por conhecer mais de perto os autores dessa maroteira e verifiquei que, a começar pelos editores, todos eram judeus.     Examinei todos os panfletos sociais-democráticos que pude conseguir e, invariavelmente, cheguei à mesma conclusão: todos os editores eram judeus. Tomei nota dos nomes de quase todos os líderes e, na sua grande maioria, eram do "povo escolhido", quer se tratasse de membros do "Reichscrat", de secretários dos sindicatos, de presidentes de associações ou de agitadores de rua. Em todos encontravam-se sempre a mesma sinistra figura do judeu. Os nomes de Austerlitz, David, Adler, Ellenbogen etc., ficarão eternamente na minha memória.     Uma coisa tornou-se clara para mim. Os líderes do Partido Social Democrata, com os pequenos elementos do qual eu tinha estado em luta durante meses, eram quase todos pertencentes a uma raça estrangeira, pois para minha satisfação íntima, convenci-me de que o judeu não era alemão. Só então compreendi quais eram os corruptores do povo.     Um ano de estadia em Viena tinha sido suficiente para dar-me a certeza de que nenhum trabalhador deveria persistir na teimosia de não se preocupar com a aquisição de um conhecimento mais certo das condições sociais. Pouco a pouco, familiarizei-me com a sua doutrina e dela me utilizava como instrumento para a formação de minhas convicções íntimas.     Quase sempre a vitória se decidia para o meu lado.     Todo esforço devia ser tentado para salvar as massas, ainda com grandes sacrifícios de tempo e de paciência.     Do lado dos judeus nenhuma esperança havia, porém, de libertá-los de um modo de encarar as coisas.     Nesse tempo, na minha ingenuidade de jovem, acreditei poder evidenciar os erros da sua doutrina. No pequeno círculo em que agia, esforçava-me, por todos os meios ao meu alcance, por convencê-los da perniciosidade dos erros do marxismo e pensava atingir esse objetivo, mas o contrário é o que acontecia sempre. Parecia que o exame cada vez mais profundo da atuação deletéria das teorias sociais democráticas nas suas aplicações servia apenas para tornar ainda mais firmes as decisões dos judeus.     Quanto mais eu contendia com eles, melhor aprendia a sua dialética. Partiam eles da crença na estupidez dos seus adversários e quando isso não dava resultado fingiam-se eles mesmos de estúpidos. Se falhavam esses recursos, eles se recusavam a entender o que se lhes dizia e, de repente, pulavam para outro assunto, saíam-se com verdadeiros truismos que, uma vez aceitos, tratavam de aplicar em casos inteiramente diferentes. Então quando, de novo, eram apanhados no próprio terreno que lhes era familiar, fingiam fraqueza e alegavam não possuir conhecimentos preciosos.     Por onde quer que se pegassem esses apóstolos, eles escapuliam como enguias das mãos dos adversários. Quando, um deles, na presença de vários observadores, era derrotado tão completamente que não tinha outra saída senão concordar, e que se pensava haver dado um passo para a frente, experimentava-se a decepção de, no dia seguinte, ver o adversário admirado de que assim se pensasse. O judeu esquecia inteiramente o que se lhe havia dito na véspera e repetia os mesmos antigos absurdos, como se nada, absolutamente nada, houvesse acontecido. Fingia-se encolerizado, surpreendido e, sobretudo, esquecido de tudo, exceto de que o debate tinha terminado por evidenciar a verdade de suas afirmações.     Eu ficava pasmo.     Não se sabia o que mais admirar, se a sua loquacidade, se o seu talento na arte de mentir.     Gradualmente comecei a odiá-los.     Tudo isso tinha, porém, um lado bom. Nos círculos em que os adeptos, ou pelo menos os propagadores da social-democracia, caíam sob as minhas vistas, crescia o meu amor pelo meu próprio povo.     Quem poderia honestamente anatematizar as infelizes vítimas desses corruptores do povo, depois de conhecer-lhes as diabólicas habilidades?     Como era difícil, até mesmo a mim, dominar a dialética de mentiras dessa raça!     Quão impossível era qualquer êxito nas discussões com homens que invertem todas as verdades, que negam descaradamente o argumento ainda há pouco apresentado para, no minuto seguinte, reivindicá-lo para si!     Quanto mais eu me aprofundava no conhecimento da psicologia dos judeus, mais me via na obrigação de perdoar aos trabalhadores.     Aos meus olhos, a culpa maior não deve recair sobre os operários mas sim sobre todos aqueles que acham não valer a pena compadecer-se da sua sorte, com estrita justiça dar aos filhos do povo o que lhes é devido, mas poupar os que os desencaminham e corrompem.     Levado pelas lições da experiência de todos os dias, comecei a pesquisar as fontes da doutrina marxista. Em casos individuais, a sua atuação me parecia clara. Diariamente, eu observava os seus progressos e, com um pouco de imaginação, podia avaliar as suas conseqüências. A Única questão a examinar era saber se os seus fundadores tinham presente no espírito todos os resultados de sua invenção ou se eles mesmos eram vitimas de um erro.     As duas hipóteses me pareciam possíveis.     No primeiro caso, era dever de todo ser pensante colocar-se à frente da reação contra esse desgraçado movimento, para evitar que chegasse às suas extremas conseqüências; na segunda hipótese, os criadores dessa epidemia coletiva deveriam ter sido espíritos verdadeiramente diabólicos, pois só um cérebro de monstro - e não o de um homem - poderia aceitar o plano de uma organização de tal porte, cujo objetivo final conduzirá à destruição da cultura humana e à ruína do mundo.     Nesse último caso, a solução que se impunha, como última tábua de salvação, era a luta com todas as armas que pudesse abraçar a razão e a vontade dos homens, mesmo se a sorte do combate fosse duvidosa.     Assim comecei a entrar em contato com os fundadores da doutrina a fim de poder estudar os princípios em que se fundava o movimento marxista. Consegui esse objetivo mais depressa do que me seria lícito supor, devido aos conhecimentos que possuía sobre a questão semítica, embora ainda não muito profundos. Essa circunstância tornou possível uma comparação prática entre as realidades do mesmo e as reivindicações teóricas da social-democracia, que tanto me tinha auxiliado a entender os métodos verbais do povo judeu, cuja principal preocupação é ocultar ou pelo menos disfarçar os seus pensamentos. Seu objetivo real não está expresso nas linhas mas oculto nas entrelinhas.     Foi por esse tempo que se operou em mim a maior modificação de idéias que devia experimentar. De inoperante cidadão do mundo passei a ser um fanático anti-semita. Mais uma vez ainda - e agora pela última vez - pensamentos sombrios me arrastavam ao desânimo.     Durante meus estudos sobre a influência da nação judaica, através de longos períodos da história da civilização, o tétrico problema se armou diante de mim não teria inescrutável destino, por motivos ignorados por nós, pobres mortais, decretado a vitória final dessa pequena nação?     A esse povo não teria sido destinado o domínio da Terra como uma recompensa?     À proporção que me aprofundava no conhecimento da doutrina marxista e me esforçava por ter uma idéia mais clara das atividades do marxismo, os próprios acontecimentos se encarregavam de dar uma resposta àquelas dúvidas.     A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura. Por essa maneira de encarar o universo, conduziria a humanidade a abandonar qualquer noção de ordem. E como nesse grande organismo, só o caos poderia resultar da aplicação desses princípios, a ruína seria o desfecho final para todos os habitantes da Terra.     Se o judeu, com o auxilio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter.     A natureza sempre se vinga inexoravelmente de todas as usurpações contra o seu domínio.     Por isso, acredito agora que ajo de acordo com as prescrições do Criador Onipotente. Lutando contra o judaísmo, estou realizando a obra de Deus.

CAPÍTULO III - REFLEXÕES GERAIS SOBRE A POLÍTICA DA ÉPOCA DE MINHA ESTADA EM VIENA

     Estou convencido de que, a menos que se trate de indivíduos dotados de dons excepcionais, o homem, em geral, não se deve ocupar, publicamente, de política, antes dos trinta anos de idade. Não o deve, porque só então se realiza, o mais das vezes, a formação de uma base de idéias, de acordo com a qual, ele examina os diferentes problemas políticos e determina a sua atitude definitiva em relação aos mesmos. Só depois de adquirir uma tal concepção fundamental e de alcançar, por meio dela, firmeza no- modo de encarar as questões particulares do seu tempo, deve ou pode o homem, intelectualmente amadurecido, tomar parte na direção da coisa pública.     A não ser assim, corre ele o perigo de um dia mudar de atitude sobre questões essenciais ou, contra as suas idéias e sentimentos, permanecer fiel a uma maneira de ver desde muito tempo repelida pela sua razão, pelas suas convicções. O primeiro caso, é, para o indivíduo pessoalmente doloroso, porque, quem vacila não tem mais o direito de esperar que a fé de seus adeptos tenha a inabalável firmeza que dantes tinha; e, para os seus dirigidos, a fraqueza do chefe sempre se traduz em perplexidade e não raro no sentimento de um certo vexame em face daqueles que até então combatiam. Em segundo lugar, sobrevem o que. sobretudo hoje, é muito freqüente: à medida que o chefe não dá mais crédito ao que ele próprio disse, a sua defesa torna-se mais fraca e, por isso mesmo, vulgar quanto à escolha dos meios. Ao passo que ele próprio não pensa mais em defender os seus pontos de vista políticos (ninguém morre por aquilo em que não crê), as suas exigências junto aos seus partidários, tornam-se proporcionalmente cada vez mais imprudentes até que, afinal, ele sacrifica as suas últimas qualidades de chefe para converter-se num "político", isto é, nesse tipo de homem cujo único sentimento verdadeiro é a falta de sentimento, ao lado de uma arrogante impertinência e uma descarada arte de mentir.     Se, por infelicidade dos homens decentes, um sujeito desses chega ao Parlamento, deve saber-se desde logo que, para ele, a essência da política consiste apenas numa luta heróica pela posse duradoura de uma "mamadeira" para si e para a sua família. Quanto mais dependam dele mulher e filhos, tanto mais aferradamente lutará pelo seu mandato. Qualquer outro homem de verdadeiros instintos políticos é, por isso mesmo, seu inimigo pessoal. Em qualquer novo movimento, fareja ele o possível começo do fim de sua carreira, e em cada homem superior a probabilidade de um perigo que ameaça.     Adiante, falarei mais detalhadamente dessa espécie de percevejos parlamentares.     O homem de trinta anos ainda terá de aprender muito, no curso de sua vida, mas isso será apenas o complemento e acabamento do quadro doutrinário traçado pela concepção por ele já aceita. Para ele, aprender não é mais mudar de método, mas enriquecer os seus conhecimentos; e seus partidários não terão de suportar a angústia de até então terem recebido dele ensinamentos errôneos, mas, ao contrário, a evidente evolução do chefe lhes dará satisfação, porque o que este aprende significa o aprofundamento da doutrina deles. E isso é uma prova da justeza de suas intuições.     Um chefe político que se vir na contingência de abandonar as suas idéias, reconhecendo-as como falsas, só procederá com decência se, ao reconhecer a falsidade das mesmas, estiver disposto a ir até às últimas conseqüências. Em tal caso, deve, no mínimo, renunciar ao exercício público de uma futura atividade política. Porque, tendo admitido o reconhecimento de um erro fundamental, fica aberta a possibilidade de uma segunda descaída. De modo algum, pode mais pretender ou exigir a confiança de seus concidadãos.     Atesta quão pouco se atende hoje a esse decoro a vileza da canalha que, - por vezes, se julga chamada a "fazer" política.     Da regra geral quase ninguém escapa.     Outrora, sempre me abstive de ingressar publicamente na vida pública, se bem que sempre me tivesse preocupado com a política, mais que muitos outros. Só a círculos restritos falava eu do que me impelia ou atraia. E o falar em pequenos grupos tinha, em si, de certo modo, muita utilidade. No mínimo, eu aprendia a "falar" e com isso a conhecer os homens nas maneiras de ver e de objetar, às vezes extremamente simplistas. Assim, sem perder tempo nem oportunidade, aperfeiçoava o meu espírito. A ocasião era, nesse tempo, em Viena, mais favorável do que em qualquer parte da Alemanha.     As idéias políticas em voga, na velha Monarquia do Danúbio, eram de mais interesses que na velha Alemanha da mesma época, exceto em parte da Prússia, em Hamburgo e nas costas do Mar do Norte. Sob a denominação de "Áustria" entendo nesse caso, o domínio do grande Império dos Habsburgos, em que a população alemã era, sob todos os aspectos, não somente o motivo histórico da formação daquele Estado, mas a força que, por si só, durante séculos, tornara possível a formação cultural do país. Quanto mais o tempo passava, mais dependiam da conservação dessa "célula mater" a estabilidade e o futuro daquele Estado.     Os velhos domínios hereditários eram o coração do Império, que sempre fornecia sangue fresco à circulação da vida do Estado e da sua cultura. Viena era, então, ao mesmo tempo, cérebro e vontade.     Só pelo seu aspecto exterior, Viena se impunha como a rainha daquele conglomerado de povos. A magnificência de sua beleza fazia esquecer o que ali havia de mau.     Por mais violentamente que palpitasse o Império, no interior, em sangrentas lutas das diferentes raças, o estrangeiro e, em particular, os alemães, só viam, na Áustria, a imagem agradável de Viena. Maior ainda era a ilusão porque, a esse tempo, Viena parecia ter atingido a sua fase de maior prosperidade. Sob o governo de um burgomestre verdadeiramente genial, despertava a venerável residência do soberano do velho Império, mais uma vez, para uma vida maravilhosa. O último grande alemão, o criador do povo de colonizadores da fronteira oriental, não era tido oficialmente entre os chamados "estadistas". O Dr. Lueger, tendo prestado inauditos serviços como burgomestre da "cabeça do Estado" e "cidade residência" (Viena), fazendo-a progredir, como por encanto, em todos os domínios econômicos e culturais, fortalecera o coração do Império, tornando-se assim, indiretamente, maior estadista que todos os "diplomatas" de então reunidos.     Se o aglomerado de povos a que se dá o nome de "Áustria" fracassou, isso nada quer dizer contra a capacidade política do germanismo na antiga fronteira oriental, mas é o resultado forçado da impossibilidade em que se encontravam dez milhões de indivíduos de conservarem duradouramente um Estado de diferentes raças com cinqüenta milhões de habitantes, a não ser que ocorressem na ocasião oportuna determinadas circunstâncias favoráveis.     O alemão austríaco teve que enfrentar um problema acima das suas possibilidades. Ele sempre se acostumou a viver no quadro de um grande Estado e nunca perdeu o sentimento inerente à sua missão histórica. Era o único, naquele Estado, que, além das fronteiras do apertado domínio da coroa, via ainda as fronteiras do Império. Quando, afinal o destino o separou da pátria comum, ele tentou tomar a si a grandiosa tareia de tornar se senhor e conservar o germanismo que seus pais, outrora, em infindos combates, haviam imposto ao leste. A propósito, convêm não esquecer que isso aconteceu com forças divididas, pois, no espírito dos melhores descendentes da raça alemã, nunca cessou a recordação da - pátria comum de que a Áustria era uma parte.     O horizonte geral do alemão-austríaco era proporcionalmente mais amplo. As suas relações econômicas abrangiam quase todo o multiforme Império. Quase todas as empresas verdadeiramente grandes se achavam em suas mãos e o pessoal dirigente, técnicos e funcionários, era na maior parte colocado por ele. Era também o detentor do comércio exterior em tudo o que o judaísmo ainda não havia posto a mão, nesse campo de suas preferências. Só o alemão conservava o Estado politicamente unido. Já o serviço militar o punha fora do lar. O recruta alemão austríaco ingressaria talvez, de preferência, num regimento alemão, mas o regimento poderia estar tanto na Herzegovina como em Viena ou na Galícia. o corpo de oficiais era sempre alemão, prevalecendo sobre o alto funcionalismo. Alemãs, finalmente, eram a arte e a ciência. Abstração feita do "kitsch" que é o novo processo na Arte, cuja produção podia ser sem dúvida também de um povo de negros, era só o alemão o possuidor e vulgarizador do verdadeiro sentimento artístico. Em música, literatura, escultura e pintura, era Viena a fonte que inesgotavelmente abastecia, sem cessar, toda a dupla monarquia.     O germanismo era enfim o detentor de toda a política externa, abs. traindo-se um pouco da Hungria.     Portanto, era vã toda tentativa de conservar o Império, Visto faltar, para isso, a condição essencial.     Para o Estado de povos austríacos só havia uma possibilidade: vencer as forças centrifugas das diferentes raças. O Estado, ou tornava-se central e interiormente organizado, ou não podia existir.     Em vários momentos de lucidez nacional, essa idéia chegou às "altíssimas" esferas, para logo ser esquecida ou ser posta de lado por inexeqüível. Todo pensamento de um reforço da Federação, forçosamente teria de fracassar em conseqüência da falta de um núcleo estatal de força predominante. A isso acrescentem-se as condições intrinsecamente diferentes do Estado austríaco em face do Império alemão, segundo o conceito de Bismarck. - Na Alemanha tratava-se apenas de vencer as tradições políticas, pois sempre houve uma base comum cultural. Antes de tudo, possuía o Reich, à exceção de pequenos fragmentos estranhos, um povo único.     Inversa era a situação da Áustria.     Lá a recordação da própria grandeza, em cada raça, desapareceu inteiramente ou foi apagada pela esponja do tempo ou pelo menos tornou-se confusa e indistinta. Por isso, desenvolveram-se, então, na era dos princípios nacionalistas, as forças racistas. Vencê-las tornava-se relativamente mais difícil, visto que, à margem da monarquia, começaram a formar-se Estados nacionais, cujos - povos, racialmente aparentados ou iguais às nações desmembradas, podiam exercer mais força de atração, ao contrário do que acontecia com o austro-alemão.     A própria Viena não podia resistir por muito tempo a essa luta.     Com o desenvolvimento de Budapeste, que se tornou grande cidade tinha ela, pela primeira vez, uma rival, cuja missão não era mais a concentração de toda a monarquia, mas antes o fortalecimento de uma parte da mesma. Dentro de pouco tempo, Praga seguiu o exemplo e depois Lemberg, Laibach, etc. Com a elevação dessas cidades, outrora provincianas, a metrópoles nacionais, formaram se núcleos culturais mais ou menos independentes. E dai as tendências nacionalistas das diferentes raças. Assim devia aproximar-se o momento em que as forças motrizes desses Estados seriam mais poderosas que a força dos interesses comuns e, então, extinguir-se-ia a Áustria.     Essa evolução tomou feição definida depois da morte de José II, dependendo a sua rapidez de uma série de fatores em parte inerentes à própria monarquia, mas que por outro lado eram o resultado da atitude do Reich na política internacional de então.     Se se pretendesse seriamente admitir a possibilidade da conservação daquele Estado e lutar por ela, só se poderia ter por objetivo uma centralização absoluta e obstinada. Depois, primeiro que tudo, se devia acentuar, pela fixação de uma língua oficial una, a homogeneidade pura e formal, cuja direção, porém, deteria nas mãos os expedientes técnicos, pois sem isso não pode subsistir um Estado uno. Depois, com o tempo, tratar-se-ia de desenvolver um sentimento nacional uno, por meio das escolas e da instrução. Isso não se alcançaria em dez ou vinte anos, mas em séculos, pois em todas as questões de colonização a pertinácia vale mais que a energia do momento.     Compreende-se, sem maiores explicações, que a administração, bem como a direção política, deveriam ser conduzidas com a mais rigorosa unidade de vistas.     Era para mim imensamente instrutivo examinar porque isso não aconteceu, ou melhor, porque não se fez isso. O culpado por essa omissão foi o culpado pelo desmoronamento do Reich.     Mais que qualquer outro Estado estava a antiga Áustria dependente da inteligência dos seus guias. A ela faltava o fundamento do Estado nacional, que possui, na base racista, sempre uma força de conservação.     O Estado racionalmente uno pode suportar a natural inércia de seus habitantes (e a força de resistência a ela inerente), a pior administração, a pior direção, por períodos de tempo espantosamente longos, sem por isso subverter-se. Muitas vezes, tem-se a impressão de que em tal corpo não há mais vida, é como se estivesse morto e bem morto. De repente, o suposto cadáver se levanta e dá aos homens surpreendentes sinais de sua força vital.     Assim não acontece com um Estado composto de raças diferentes, mantido, não pelo sangue comum, mas por um só pulso. Nesse caso, qualquer fraqueza na direção pode não só conduzir o Estado à estagnação como dar causa ao despertar dos instintos individuais, que sempre existem, sem que em tempo oportuno possa exercer-se uma vontade predominante. Só por via de uma educação comum, durante séculos, por uma tradição comum, por interesses comuns, pode esse perigo ser atenuado. Por isso, tais formações estatais, quanto mais jovens, mais dependentes são da superioridade da direção; e quando são obras de homens violentos ou de heróis espirituais, logo desaparecem após a morte de seu grande fundador. Mas, mesmo depois de séculos, esses perigos não devem ser considerados como vencidos; apenas adormecem, para, às vezes, despertarem de repente, quando a fraqueza da direção comum e a força da educação e a sublimidade de todas as tradições não podem mais dominar o impulso da própria vitalidade das diferentes raças.     Não ter compreendido isso é talvez a culpa, de tão trágicas conseqüências, da casa dos Habsburgos.     Só a um deles o destino apresentou o fanal, que logo depois se apagou para sempre, do destino da sua pátria.     José II, imperador católico-romano, viu, angustiosamente, que, um dia, no redemoinho de uma Babilônia de povos que se comprimiam à fronteira do Império, desapareceria a sua Casa, a não ser que, à última hora, fossem sanados os descuidos dos antepassados. Com sobre-humana força, o "amigo dos homens" tentou remediar a negligência de seus antecessores e procurou recuperar em décadas o que se havia perdido em séculos. Se para a realização de sua obra, ao menos duas gerações, depois dele, tivessem continuado, com o mesmo afinco, a tarefa iniciada, provavelmente se teria realizado o milagre. Mas quando, após dez anos de governo, faleceu, exausto de corpo e de espírito, com ele caiu a sua obra no túmulo, para não mais despertar, para adormecer para sempre na sepultura.     Os seus sucessores não estavam à altura da tarefa, nem pela inteligência, nem pela energia.     Quando, através da Europa, flamejavam os primeiros sinais da tempestade revolucionária, começou também a Áustria a pegar fogo, pouco a pouco. Quando, porém, o incêndio irrompeu afinal, já a fogueira era atiçada menos por causas sociais ou políticas que por forças impulsoras de origem racial.     Em outra parte qualquer, a revolução de 1848 podia ser uma luta de classes, mas na Áustria já era o começo de um novo conflito racial. Quando o alemão daquele tempo, esquecendo ou não reconhecendo essa origem, se colocava a serviço da sublevação revolucionária, traçava ele próprio o seu destino. Com isso auxiliava o despertar do espírito da democracia ocidental, que, dentro de pouco tempo, teria de subverter-se-lhe a base da própria existência.     Com a formação de um corpo representativo parlamentar, sem o prévio estabelecimento e fixação de uma língua oficial, foi colocada a pedra fundamental do fim do domínio do germanismo na monarquia dos Habsburgos. Desde esse momento, estava perdido também o próprio Estado. O que se seguiu foi apenas a liquidação histórica de um Império.     Era tão comovente quão instrutivo acompanhar essa decomposição. Sob milhares de formas realizava-se aos poucos a execução dessa sentença histórica. O fato de que parte dos homens se agitava às cegas através dos acontecimentos prova apenas que estava na vontade dos deuses o aniquilamento da Áustria.     Não desejo perder me aqui em minúcias, pois esse não é o fim deste livro. Apenas quero incluir no quadro geral de uma observação aqueles acontecimentos que, como causas sempre invariáveis da decadência de povos e Estados, também têm significação para o nosso tempo e finalmente se fazem sentir, em apoio dos fundamentos de meu pensamento político.     Entre as instituições que, aos olhos mesmo pouco perspicazes do cidadão comum, mais claramente podiam - mostrar a decomposição da monarquia austríaca, estava, em primeiro lugar, aquela que parecia dever procurar na força a razão de sua própria existência, isto é, o Parlamento ou, como se dizia na Áustria, o Conselho do Império ("Reichsrat").     Evidentemente, o modelo dessa corporação encontrava-se na Inglaterra, o país da "democracia" clássica. De lá transportaram essa maldita instituição e estabeleceram-na em Viena, tanto quanto possível sem modificá-la.     Na Abgeordnetenhaus e na Herrenhaus, o sistema bicameral inglês festejava a sua ressurreição. As "casas" eram, porém, algo diferentes. Quando, outrora, Barry fez surgir das ondas do Tâmisa o seu palácio do Parlamento, mergulhou na História do Império Britânico e retirou dela ornatos para os 1200 nichos, consolos e colunas de sua monumental construção. Assim as Câmaras dos Comuns e dos Lordes se tornaram, pelas suas esculturas e pinturas, o templo da glória nacional.     Aí surgiu a primeira dificuldade para Viena. Quando o dinamarquês Hansen acabava de colocar a última cumeeira da casa de mármore para os novos representantes do povo, só lhe restava, para decoração, recorrer a empréstimos à arte clássica. Os estadistas e filósofos gregos e romanos embelezaram esse teatro da "democracia ocidental" e, com ironia simbólica, avançam sobre as duas casas quadrigas em direção aos quatros pontos cardeais, expressando melhor, dessa maneira, as tendências divergentes então existentes no interior.     As várias raças tomariam como ofensa e provocação que nessa obra se glorificasse a História da Áustria, exatamente como no império Alemão foi preciso vir o ribombar das batalhas da guerra mundial para que se ousasse consagrar ao povo alemão a obra de Wallot - o Reichstag.     Quando, com menos de 20 anos de idade, penetrei no majestoso palácio de Franzensring, para assistir, como ouvinte e espectador a uma sessão da Câmara dos Deputados, senti-me possuído dos mais desencontrados sentimentos.     Sempre odiei o Parlamento, mas não a instituição em si. Ao contrário, como homem de sentimentos liberais, eu não podia imaginar outra possibilidade de governo, pois a idéia de qualquer ditadura, dada a minha atitude em relação à casa dos Habsburgos, seria considerada um crime contra a liberdade e contra a razão.     Não pouco contribuiu para isso uma certa admiração pelo Parlamento inglês, que adquiri insensivelmente, devido à abundante leitura de jornais de minha juventude - admiração que não poderia perder facilmente. Causava-me enorme impressão a gravidade com que a Câmara dos Comuns cumpria a sua missão (como de maneira tão atraente costuma descrever a nossa imprensa). Poderia haver uma forma mais elevada de self .government de um povo?     Justamente por isso é que eu era um inimigo do Parlamento austríaco. Considerava a sua forma de atuação indigna do grande modelo. Além disso, acrescia o seguinte:     O destino do germanismo (Deutschtum) no Estado Austríaco dependia de sua posição no Reichsrot. Até à introdução do sufrágio universal e secreto, os alemães, no Parlamento, estavam em maioria, embora pequena. Já esse estado de coisas era grave, pois não merecendo a social-democracia a confiança nacional, esta, para não afugentar os adeptos não alemães, era sempre, nas questões críticas referentes ao germanismo, contrária às aspirações alemãs. Já naquela época a social-democracia não podia ser considerada um partido alemão. Com a introdução do sufrágio universal cessou a supremacia alemã, numericamente falando. Não havia, pois, nenhum empecilho no caminho da futura desgermanização do Estado.     Já naquele tempo, o instinto de conservação nacional fazia com que eu me sentisse pouco inclinado pela representação popular, na qual a raça alemã, em vez de ser representada, era sempre traída. Entretanto, esses defeitos, como muitos outros, não deviam ser atribuídos ao sistema em si, mas ao Estado austríaco. Eu pensava outrora que, com o restabelecimento da maioria alemã, nos corpos representativos, não haveria mais necessidade de uma atitude doutrinária contra aquela instituição,. enquanto perdurasse o velho Estado austríaco.     Com essa disposição interior entrei pela primeira vez nos tão sagrados quão disputados salões. É verdade que para mim eles só eram sagrados devido à beleza da magnífica construção. Uma obra-prima helênica em terra alemã.     Mas, dentro de pouco tempo, sentia verdadeira indignação ao assistir ao lamentável espetáculo que se desenrolava ante meus olhos.     Estavam presentes centenas desses representantes do povo, que tinham de tomar atitude sobre uma questão de importância econômica.     Bastou para mim esse primeiro dia para fazer refletir durante semanas e semanas sobre a situação.     O conteúdo mental do que se discutia era de uma "elevação" deprimente, a julgar pelo que se podia compreender do falatório, pois alguns deputados não falavam alemão e, sim línguas eslavas, ou melhor, seus dialetos. O que, até então, só conhecia através da leitura de jornais, tinha agora oportunidade de ouvir com os meus próprios ouvidos. Era uma massa agitada que gesticulava e gritava em todos os tons. Um velhote inofensivo se esforçava, suando por todos os poros, para restabelecer a dignidade da casa, agitando uma campainha, ora falando com benevolência, ora ameaçando.     Tive de rir.     Algumas semanas mais tarde, tornei a aparecer na Câmara. O quadro estava mudado a ponto de não ser reconhecido. A sala completamente vazia. Dormia-se lá em baixo. Alguns deputados se encontravam em seus lugares e bocejavam. Um deles "falava". Estava presente um vice presidente da Câmara, o qual, visivelmente aborrecido, percorria a sala com os olhos.     Surgiram-me as primeiras dúvidas. Cada vez que se me oferecia uma oportunidade, corria para lá. e observava silenciosa e atentamente o quadro, ouvia os discursos, sempre que podia compreendê-los, estudava as fisionomias mais ou menos inteligentes desses eleitos das raças daquele triste Estado e, aos poucos, fazia as minhas próprias reflexões.     Bastou um ano dessa calma observação para modificar ou afastar definitivamente o meu juízo sobre o caráter dessa instituição. No meu íntimo já tinha tomado atitude contra a forma adulterada que essa instituição tomava na Áustria. Já não podia mais aceitar o Parlamento em si. Até então eu vira o insucesso do Parlamento austríaco na falta de uma maioria alemã: agora, porém, eu reconhecia a fatalidade na essência e caráter dessa instituição.     Naquela ocasião apresentou-se-me uma série de questões. Comecei a familiarizar-me com o princípio da resolução por maioria como base de toda a Democracia. Entretanto, não dispensava menor atenção aos valores mentais e morais dos cavalheiros que, como eleitos do povo, deviam servir a esse desideratum..     Aprendi assim a conhecer ao mesmo tempo a instituição e os seus representantes.     No decurso de alguns anos, desenvolveu-se em minha mente o tipo plasticamente claro do fenômeno mais respeitável dos nossos tempos, o homem parlamentar. Começou-se a gravar de tal forma em minha memória, que não sofreu modificação essencial daí por diante.     Desta vez também o ensino intuitivo da realidade prática evitou que eu aceitasse uma teoria que, à primeira vista, tão sedutora parece a muitos e que, entretanto, deve ser contada entre os sinais de decadência da humanidade.     A atual Democracia do ocidente é a precursora do marxismo, que sem ela seria inconcebível Ela oferece um terreno propicio, no qual consegue desenvolver-se a epidemia. Na sua expressão externa - o parlamentarismo - apareceu como um mostrengo "de lama e de fogo", no qual, a pesar meu, o fogo parece ter-se consumido depressa demais. Sou muito grato ao destino por ter-me apresentado essa questão a exame, anteriormente em Viena, pois cismo que, na Alemanha, não poderia tê-la resolvido tão facilmente. Se eu tivesse reconhecido em Berlim, pela primeira vez, o absurdo dessa instituição chamada Parlamento, teria talvez caldo no extremo oposto e, sem aparente boa razão, talvez me tivesse enfileirado entre aqueles a cujos olhos o bem do povo e do Império está na exaltação da idéia imperial e que assim se põem, cegamente, em oposição à humanidade e ao seu tempo.     Isso seria impossível na Áustria.     Lã não era tão fácil cair de um erro no outro. Se o Parlamento nada valia, menos ainda valiam os Habsburgos. Lá a rejeição do parlamentarismo, por si só, não resolveria nada, pois ficaria de pé a pergunta: e depois? A eliminação do Reichsrat deixaria ficar, como único poder governamental, a casa dos Habsburgos, - idéia que se me afigurava intolerável.     A dificuldade desse caso particular conduziu-me a estudar o problema de maneira mais profunda do que, de outra forma, teria feito em tão verdes anos.     O que mais que tudo e com mais insistência me fazia refletir no exame do parlamentarismo era a falta evidente de qualquer responsabilidade individual dos seus membros.     O Parlamento toma qualquer decisão - mesmo as de conseqüências mais funestas - e ninguém é por ela responsável, nem é chamado a prestar contas.     Pode-se, porventura, falar em responsabilidade, quando, após um colapso sem precedentes, o governo pede demissão, quando a coalizão se modifica, ou mesmo o Parlamento se dissolve?     Poderá, por acaso, uma maioria hesitante de homens ser jamais responsabilizada?     Não está todo conceito de responsabilidade intimamente ligado à personalidade?      Pode-se, na prática, responsabilizar o dirigente de um governo pelos atos cuja existência e execução devem ser levadas à conta da vontade e do arbítrio de um grande grupo de homens?     Porventura consistirá a tarefa do estadista dirigente não tanto em produzir um pensamento criador, um programa, como na arte com que torna compreensível a natureza de seus planos a um estúpido rebanho, com o fim de implorar-lhe o final assentimento? Pode ser critério de um estadista que ele deva ser tão forte na arte de convencer como na habilidade política da escolha das grandes linhas de conduta ou de decisão?     Está provada a incapacidade de um dirigente pelo fato de não conseguir ele ganhar, para uma determinada idéia, a maioria de uma aglomeração reunida mais ou menos por simples acaso?     Já aconteceu que essas câmaras compreendessem uma idéia antes que o êxito se tornasse o proclamador da grandeza dessa mesma idéia?     Toda ação genial neste mundo não é um protesto do gênio contra a inércia da massa?     Que pode fazer o estadista que só consegue pela lisonja conquistar o favor desse aglomerado para os seus planos?     Deve ele comprar o apoio desses representantes do povo ou deve - em lace da tolice da execução das tarefas consideradas vitais - retrair-se e permanecer inativo?     Em tal caso, não se dá um conflito insolúvel entre a aceitação desse estado de coisas e a decência ou, melhor, a opinião sincera.     Onde está o limite que separa o dever para com a coletividade e o compromisso da honra pessoal?     Qualquer verdadeiro dirigente não deverá abster-se de degradar-se assim em aproveitador político?     E, inversamente, não deverá todo aproveitador estar destinado a "fazer" política, desde que a responsabilidade não caberá, afinal, a ele, mas à massa intangível?     O princípio da maioria parlamentar não deve conduzir ao desaparecimento da unidade de direção?     Acreditamos, acaso, que o progresso neste mundo provenha da ação combinada de maiorias e não de cérebros individuais?     Ou pensa-se que, no futuro, podemos dispensar essa concepção de cultura humana?     Não parece, ao contrário, que a competência hoje seja mais necessária do que nunca?     Negando a autoridade do indivíduo e substituindo-a pela soma da massa presente em qualquer tempo, o princípio parlamentar do consentimento da maioria peca contra o princípio básico da aristocracia da natureza; e, sob esse ponto de vista, o conceito do princípio parlamentar sobre a nobreza nada tem a ver com a decadência atual de nossa alta sociedade.     Para um leitor de jornais judeus é difícil imaginar os mais que a Instituição do controle democrático pelo parlamento ocasiona, a não ser que ele tenha aprendido a pensar e a examinar o assunto com independência. Ela é a causa principal da incrível dominação de toda a vida política justamente pelos elementos de menos valor. Quanto mais os verdadeiros chefes forem afastados das atividades políticas, que consistem principalmente, não em trabalho criativo e produção, mas no regatear e comprar os favores da maioria, tanto mais a atuação política descerá ao nível das mentalidades vulgares e tanto mais essas se sentirão atraídas para a vida pública.     Quanto mais tacanho for, hoje em dia, em espírito e saber, um tal mercador de couros, quanto mais clara a sua própria intuição lhe fizer ver a sua triste figura, tanto mais louvará ele um sistema que não lhe exige a força e o gênio de um gigante, mas contenta-se com a astúcia de um alcaide e chega mesmo a ver com melhores olhos essa espécie de sapiência que a de um Péricles. Além disso, um palerma assim não precisa atormentar-se com a responsabilidade de sua ação. Ele está fundamentalmente isento dessa preocupação, porque, qualquer que seja o resultado de suas tolices de estadista, sabe ele muito bem que, desde muito tempo, o seu fim está escrito: um dia terá de ceder o lugar a um outro espírito tão grande quanto ele próprio. Uma das características de tal decadência é o fato de aumentar a quantidade de "grandes estadistas" à proporção que se contrai a escala do valor individual. O valor pessoal terá de tornar-se menor à medida que crescer a sua dependência de maiorias parlamentares, pois tanto os grandes espíritos recusarão ser esbirros de ignorantões e tagarelas, como, inversamente, os representantes da maioria, isto é, da estupidez, nada mais odeiam que uma cabeça que reflete.     Sempre consola a uma assembléia de simplórios conselheiros municipais saber que tem à sua frente um chefe cuja sabedoria corresponde ao nível dos presentes. Cada um terá o prazer de fazer brilhar, de tempos em tempos, uma fagulha de seu espírito; e, sobretudo, se Sancho pode ser chefe, por que não o pode ser Martinho?     Mas, ultimamente, essa invenção da democracia fez surgir uma qualidade que hoje se transformou em uma verdadeira vergonha, que é a covardia de grande parte de nossa chamada "liderança". Que felicidade poder a gente esconder-se, em todas as verdadeiras decisões de alguma importância, por trás das chamadas maiorias!     Veja-se a preocupação de um desses salteadores políticos em obter a rogos o assentimento da maioria, garantindo-se a si e aos seus cúmplices, para, em qualquer tempo, poder alienar a responsabilidade. E eis aí uma das principais razões por que essa espécie de atividade política é desprezível e odiosa a todo homem de sentimentos decentes e, por. tanto, também de coragem, ao passo que atrai todos os caracteres miseráveis - aqueles que não querem assumir a responsabilidade de suas ações, mas antes procuram fugir-lhe, não passando de covardes pulhas. Desde que os dirigentes de uma nação se componham de tais entes desprezíveis, muito depressa virão as conseqüências. Ninguém terá mais a coragem de uma ação decisiva: toda desonra, por mais ignominiosa, será aceita de preferência à resolução corajosa. Ninguém mais está disposto a arriscar a sua pessoa e a sua cabeça para executar uma decisão temerária.     Uma coisa não se pode e não se deve esquecer: a maioria jamais pode substituir o homem. Ela é sempre a advogada não só da estupidez, mas também da covardia, e assim como cem tolos reunidos não somam um sábio, uma decisão heróica não é provável que surja de um cento de covardes.     Quanto menor for a responsabilidade de cada chefe individualmente, mais crescerá o número daqueles que se sentirão predestinados a colocar ao dispor da nação as suas forças imortais. Com impaciência, esperarão que lhes chegue a vez; eles formam em longa cauda e contam, com doloridos lamentos, o número dos que esperam na sua frente e quase que calculam a hora quando possivelmente alcançarão o seu desiderato. Daí a ânsia por toda mudança nos cargos por eles cobiçados e daí serem eles gratos a cada escândalo que lhes abre mais uma vaga. Caso um deles não queira recuar da posição tomada, quase que sente isso como quebra de uma combinação sagrada de solidariedade comum. Então é que eles se tornam maldosos e não sossegam enquanto o desavergonhado, finalmente vencido, não põe o seu lugar novamente à disposição de todos. Por isso mesmo, não alcançará ele tão cedo essa posição. Quando uma dessas criaturas é forçada a desistir do seu posto, procurará imediatamente intrometer-se de novo na fileira dos que estão na expectativa, a não ser que o impeça, então, a gritaria e as injúrias dos outros.     O resultado disso é a terrível rapidez de mudança nas mais altas posições e funções, em um Estado como o nosso, fato que é desfavorável, de qualquer modo, e que freqüentemente opera com efeitos absolutamente catastróficos, porque não só o estúpido e o incapaz são vitimados por esses métodos de proceder, mas mesmo os verdadeiros chefes, se algum dia o destino os colocar nessas posições de mando.     Logo que se verifica o aparecimento de um homem excepcional, imediatamente se forma uma frente fechada de defesa, sobretudo se um tal cabeça, não saindo das próprias fileiras, ousar, mesmo assim, penetrar nessa sublime sociedade. O que eles querem fundamentalmente é estarem entre si, e é considerado inimigo comum todo cérebro que possa sobressair no meio de tantas nulidades. E, nesse sentido, o instinto é tanto mais agudo quanto é falho a outros respeitos.     O resultado será assim sempre um crescente empobrecimento espiritual das classes dirigentes. Qualquer um, desde que não pertença a essa classe de "chefes", pode julgar quais sejam as conseqüências para a nação e para o Estado.      O regime parlamentar na velha Áustria já existia em germe.     É verdade que cada chefe de gabinete ministerial era nomeado pelo imperador e rei, porém essa nomeação nada mais era do que a execução da vontade parlamentar. O hábito de disputar e negociar as várias pastas já era democracia ocidental do mais puro quilate. Os resultados correspondentes também aos princípios em voga. Em particular, a mudança de personalidades se dava em períodos cada vez mais curtos, para transformar-se, finalmente, numa verdadeira caçada. Ao mesmo tempo decaía crescentemente a grandeza dos "estadistas" de então, até que só ficou aquele pequeno tipo de espertalhão parlamentar, cujo valor se aquilatava e reconhecia pela capacidade com que conseguia promover as coligações de então, isto é, com que realizava os pequeninos negócios políticos - únicos que justificavam a vocação desses representantes do povo para um trabalho prático     Nesse terreno oferecia a escola de Viena as melhores perspectivas ao observador.     O que me impressionava também era o paralelo entre a capacidade e o saber desses representantes do povo e a gravidade dos problemas que tinham de resolver. Quer se quisesse, quer não, era preciso também atentar mais de perto para o horizonte mental desses eleitos do povo, sendo ainda impossível deixar de dar a atenção necessária aos processos que conduzem ao descobrimento desses impressionantes aspectos de nossa vida pública      Valia a pena também estudar e examinar a fundo a maneira pela qual a verdadeira capacidade desses parlamentares era empregada e posta a serviço da pátria, ou seja o processo técnico de sua atividade.     O panorama da vida parlamentar parecia tanto mais lamentável quanto mais se penetrava nessas relações íntimas e se estudavam as pessoas e o fundamento das coisas, com desassombrada objetividade. E isso vem muito a propósito, tratando-se de uma instituição que, por intermédio de seus detentores, a todo passo se refere à "objetividade" como única base justa de qualquer atitude. Examinem-se esses cavalheiros e as leis de sua amarga existência e o resultado a que se chegará será espantoso.     Não há um princípio que, objetivamente considerado, seja tão errado quanto o parlamentar.     Pode-se mesmo, nesse caso, abstrair inteiramente a maneira pela qual se realiza a escolha dos senhores representantes do povo, mesmo os processos por que chegam a seu posto e à sua nova dignidade, Considerando que a compreensão política da grande massa não está tão desenvolvida para adquirir por si opiniões políticas gerais e escolher pessoas adequadas, chegar-se-á com facilidade à conclusão de que, nos parlamentos, só em proporção mínima, é que se trata da realização de um desejo geral ou mesmo de uma necessidade pública.     A nossa concepção ordinária da expressão "opinião pública" só em pequena escala depende de conhecimento ou experiências pessoais, mas antes do que outros nos dizem. E isso nos é apresentado sob a forma de um chamado "esclarecimento" persistente e enfático.     Do mesmo modo- que o credo religioso resulta da educação, ao passo que o sentimento religioso dormita no íntimo da criatura, assim a opinião política da massa é o resultado final do trabalho, às vezes incrivelmente árduo e intenso, da inteligência humana.     A quota mais eficiente na "educação" política, que, no caso, com muita propriedade, é chamada "propaganda", é a que cabe à imprensa, a que se reserva a "tarefa de esclarecimento" e que assim se constitui em uma espécie de escola para adultos. Todavia, essa instrução não está nas mãos do Estado, mas é exercida por forças em geral de caráter muito inferior. Quando ainda jovem, em Viena, eu tive as melhores oportunidades para adquirir conhecimento seguro sobre os chefes e sobre os hábeis operários mentais dessa máquina destinada à educação popular.     O que primeiro me impressionou foi a rapidez com que aquela força perniciosa do Estado conseguia fazer vitoriosa uma definida opinião, muito embora essa opinião implicasse no falseamento dos verdadeiros desejos e idéias do público. Dentro de poucos dias um absurdo irrisório se tornava um ato governamental de grande importância, ao mesmo tempo que problemas essenciais caíam no esquecimento geral ou antes eram roubados à atenção das massas.     Assim, no decurso de algumas semanas, alguns nomes eram como que magicamente tirados do nada e, em torno deles, se erguiam incríveis esperanças no espírito público; dava-se-lhes uma popularidade, que nenhum verdadeiro homem jamais esperaria conseguir durante toda a sua vida. Ao mesmo tempo, perante os seus contemporâneos, velhos e dignos caracteres da vida pública e administrativa eram considerados mortos, quando se achavam em plena eficiência, ou eram cumulados de tantas injúrias que seus nomes pareciam prestes a tornar-se símbolos de infâmia. Era necessário estudar esse vergonhoso método judeu de, como por encanto, atacar de todos os lados e lançar lama, sob a forma de calúnia e difamação, sobre a roupa limpa de homens honrados, para aquilatar. em seu justo valor, todo o perigo desses patifes da imprensa.     Não há nenhum meio a que não recorra um tal salteador moral para chegar aos seus objetivos.     Ele meterá o focinho nas mais secretas questões de família e não sossegará enquanto o seu faro não tiver descoberto um miserável incidente que possa determinar a derrota da infeliz vítima. Caso nada seja encontrado, quer na vida pública quer na vida particular, o patife lança mão da calúnia, firmemente convencido, não só de que, mesmo depois de milhares contestações, alguma coisa sempre fica, como também de que devido a centenas de repetições que essa demolição da honra encontra entre os cúmplices, impossível é à vítima manter a luta na maioria dos casos. Essa corja nem mesmo age por motivos que possam ser compreensíveis para o resto da humanidade.     Deus nos livre! Enquanto um bandido desses ataca - o resto da humanidade, essa gente esconde-se por trás de uma verdadeira nuvem de probidade e frases untuosas, tagarela sobre "dever jornalístico" e quejandas balelas e alteia-se até a falar em "ética" de imprensa, em assembléias e congressos, ocasiões em que a praga se encontra em maior número e em que a corja mutuamente se aplaude.     Essa súcia, porém, fabrica mais de dois terços da chamada "opinião pública", de cuja espuma nasce a Afrodite parlamentar.     Seria necessário escrever volumes para poder pintar com exatidão esse processo e representá-lo na sua inteira falsidade. Mas, mesmo abstraindo tudo isso e observando somente os efeitos da sua atividade, parece-me isso suficiente para esclarecer o espírito mais crédulo quanto à insensatez objetiva dessa instituição.     Mais depressa e mais facilmente compreenderemos a falta de senso e perigo dessa aberração humana se compararmos o sistema democrático parlamentar com uma verdadeira democracia germânica.     Na primeira, o ponto mais importante é o número. Suponhamos que quinhentos homens (ultimamente também mulheres), são eleitos e chamados a dar solução definitiva sobre tudo. Praticamente, porém, só eles constituem o governo, pois se é verdade que dentro deles é escolhido o gabinete, o mesmo, só na aparência, pode fiscalizar os negócios públicos. Na realidade, esse chamado governo não pode dar um passo sem que antes lhe seja outorgado o assentimento geral da assembléia. O Governo contudo não pode ser responsável por coisa alguma, desde que o julgamento final não está em suas mãos mas na maioria parlamentar.     Ele só existe para executar a vontade da maioria parlamentar em todos os casos. Propriamente só se poderia ajuizar de sua capacidade política pela arte com que ele consegue se adaptar à vontade da maioria ou atrair para si essa mesma maioria. Cai, assim, da posição de verdadeiro governo para a de mendigo da maioria ocasional. Na verdade, o seu problema mais premente consistirá, em vários casos, em garantir-se o favor da maioria existente ou em provocar a formação de uma nova mais favorável. Caso consiga isso, poderá continuar a "governar" por mais algum tempo; caso não o consiga, terá de resignar o poder. A retidão de suas intenções, por si só, não importa.     A responsabilidade praticamente deixa de existir.     Uma simples consideração mostra a que ponto isso conduz.     A composição intima dos quinhentos representantes do povo, eleitos, segundo a profissão ou mesmo segundo a capacidade de cada um, resulta em um quadro tão disparatado quanto lastimável. Não se irá pensar por acaso que esses eleitos da nação sejam também eleitos da inteligência. Não é de esperar que das cédulas de um eleitorado capaz de tudo, menos de ter espírito, surjam estadistas às centenas. Ademais, nunca é excessiva a negação peremptória à idéia tola de que das eleições possam nascer gênios. Em primeiro lugar, só muito raramente aparece em uma nação um verdadeiro estadista e muito menos centenas de uma só vez; em segundo lugar, é verdadeiramente instintiva a antipatia da massa contra qualquer gênio que se destaque. É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que ser "descoberto" um grande homem por uma eleição. O indivíduo que realmente ultrapassa a medida normal do tipo médio costuma fazer-se anunciar, na história universal, pelos seus próprios atos, pela afirmação de sua personalidade.     Quinhentos homens, porém, de craveira abaixo da medíocre, decidem sobre os negócios mais importantes da nação, estabelecem governos que em cada caso e em cada questão têm de procurar o assentimento da erudita assembléia. Assim é que, na realidade, a política é feita pelos quinhentos.     Mas, mesmo pondo de lado o gênio desses representantes do povo, considere-se a quantidade de problemas diferentes que esperam solução, muitas vezes em casos opostos, e facilmente se compreenderá o quanto é imprestável uma instituição governamental que transfere a uma assembléia o direito de decisão final - assembléia essa que possui em quantidade mínima conhecimentos e experiência dos assuntos a serem tratados. As mais importantes medidas econômicas são assim submetidas a um foro cujos membros só na porcentagem de um décimo demonstraram educação econômica. E isso não é mais que confiar a decisão última a homens aos quais falta em absoluto o devido preparo.     Assim acontece também com qualquer outra questão. A decisão final será dada sempre por uma maioria de ignorantes e incompetentes, pois a organização dessa instituição permanece inalterada, ao passo que os problemas a serem tratados se estendem a todos os ramos da vida pública, exigindo, pois, constante mudança de deputados que sobre eles tenham de julgar e decidir. É de todo impossível que os mesmos homens que tratam de questões de transportes, se ocupem, por exemplo, com uma questão de alta política exterior. Seria preciso que todos fossem gênios universais, como só de séculos em séculos aparecem. Infelizmente trata-se, não de verdadeiras "cabeças", mas sim de diletantes, tão vulgares quanto convencidos do seu valor, enfim de mediocridade da pior espécie. Daí provém a leviandade tantas vezes incompreensível com que os parlamentares falam e decidem sobre coisas que mesmo dos grandes espíritos exigiriam profunda meditação. Medidas da maior relevância para o futuro de um Estado ou mesmo de uma nação são tomadas como se se tratasse de uma simples partida de jogo de baralho e não do destino de uma raça.     Seria certamente injusto pensar que todo deputado de um tal parlamento tivesse sempre tão pouco sentimento de responsabilidade. Não. Absolutamente não.     Obrigando esse sistema o indivíduo a tomar posição em relação a questões que não lhe tocam de perto, ele corrompe aos poucos o seu caráter. Não há um deles que tenha a coragem de declarar: "Meus senhores, eu penso que nada entendemos deste assunto. Pelo menos eu não entendo absolutamente". Aliás, isso pouco modificaria, pois certamente essa maneira de ser franco seria inteiramente incompreendida e, além disso, não se haveria de estragar o brinquedo por caso de um asno honesto. Quem, porém, conhece os homens, compreende que em uma sociedade tão ilustre ninguém quer ser o mais tolo e, em certos círculos, honestidade é sempre sinônimo de estupidez.     Assim é que o representante ainda sincero é jogado forçosamente no caminho da mentira e da falsidade. Justamente a convicção de que a reação individual pouco ou nada modificaria, mata qualquer impulso sincero que porventura surja em um ou outro. No final de contas, ele se convencerá de que, pessoalmente, longe está de ser o pior entre os demais e que com sua colaboração talvez impeça maiores males.     É verdade que se fará a objeção de que o deputado pessoalmente poderá não conhecer este ou aquele assunto, mas que a sua atitude será guiada pela fração a que pertença; esta, por sua vez, terá as suas comissões especiais que serão suficientemente esclarecidas pelos entendidos. À primeira vista, isso parece estar certo. Surgiria, porém, a pergunta: por que se elegem quinhentos, quando só alguns possuem a sabedoria suficiente para tomarem atitude nas questões mais importantes?     Aí é que está o busilis.     Não é móvel de nossa atual Democracia formar uma assembléia de sábios, mas, ao contrário, reunir uma multidão de nulidades subservientes, que possam ser facilmente conduzidas em determinadas direções definidas, dada a estreiteza mental de cada uma delas. Só assim pode ser feito o jogo da política partidária, no mau sentido que hoje tem. Mas isso, por sua vez, torna possível que os que manobram os cordéis fiquem em segurança por trás dos bastidores, sem possibilidade de serem tornados pessoalmente responsáveis. Atualmente, uma decisão, por mais nociva que seja ao povo, não pode ser atribuída, perante os olhos do público, a um patife único, ao passo que pode sempre ser transferida para os ombros de todo um grupo.     Praticamente, pois, não há responsabilidade, porque a responsabilidade só pode recair sobre uma individualidade única e não sobre as gaiolas de tagarelice que são as assembléias parlamentares.     Por isso esse tipo de Democracia se tornou o instrumento da raça que, para a consecução de seus objetivos, tem de evitar a luz do sol, agora, e sempre. Ninguém, a não ser um judeu, pode estimar uma instituição que é tão suja e falsa quanto ele próprio.     Em contraposição ao que precede, está a verdadeira democracia germânica. que escolhe livremente o seu chefe, sobre quem recai a inteira responsabilidade de todos os atos que pratique ou deixe de praticar. Nela não há a votação de uma maioria no que se refere às várias questões, sem a determinação de um indivíduo único que responda com seus bens e vida por suas decisões.     Caso se objete que em tais condições só dificilmente haverá alguém que queira dedicar a sua pessoa a tão arriscada tarefa, poder-se-á retrucar:     O verdadeiro sentido da democracia germânica reside, justamente, graças a Deus, no fato de não ser possível ao primeiro ambicioso, indigno ou impostor, chegar, por caminhos escusos, ao governo de seu povo. A extensão da responsabilidade assumida afasta os incompetentes e os fracos.     Na hipótese de um indivíduo dessa estofa tentar insinuar-se, fácil será ir-lhe ao encontro com esta apóstrofe: Para fora, covarde, patife. Retira o pé, tu maculas os degraus da escada, pois a ascensão ao panteon da história não é para os que rastejam e, sim, para os heróis!     Após dois anos de freqüência ao parlamento de Viena já havia chegado a essa conclusão.     Não me aprofundei mais sobre o assunto.     O regime parlamentar teve, como seu principal mérito, enfraquecer, nos últimos anos, o velho Estado dos Habsburgos. Quanto mais se enfraquecia, pela sua ação, o predomínio do germanismo, tanto mais se caía em um regime de choque entre as várias raças. No próprio Reichsrat isso se dava sempre à custa do Império, pois, por volta da passagem do século, o mais inocente indivíduo veria que a força de atração da monarquia não conseguia mais banir as tendências separatistas dos diferentes povos.     Ao contrário.     Quanto mais mesquinhos se tornavam os meios empregados pelo Estado para a sua conservação, tanto mais aumentava o desprezo geral pelo mesmo Estado. Não só na Hungria, como também nas várias províncias eslavas, o sentimento de fidelidade à monarquia era tão frágil que a sua fraqueza não era considerada uma vergonha. Esses sinais de declínio que apareciam provocavam até alegria, pois era mais desejada a morte que a convalescença do antigo regime.     No parlamento conseguiu-se evitar o colapso total por uma renúncia indigna e pela realização de toda sorte de opressão sobre o elemento germânico. No interior jogava-se, habilidosamente, um povo contra o outro. Entretanto, nas linhas gerais, a atuação política era dirigida contra os alemães. Sobretudo, desde que a sucessão ao trono começara a dar ao arquiduque Fernando uma certa influência, estabeleceu-se um plano regular na tchequização praticada pelo governo. Aquele futuro soberano da dupla monarquia procurava, por todos os meios possíveis, fazer progredir a desgermanização, promovendo-a por todos os modos ou, no mínimo, defendendo-a. Localidades puramente alemãs eram, por via indireta, na burocracia oficial, devagar porém seguramente, incluídas na zona perigosa das línguas mistas. Na própria Baixa Áustria esse processo progredia mais ou menos rapidamente e muitos tchecos consideravam Viena como a sua principal cidade.     O pensamento predominante desse novo Habsburgo, cuja família falava o theco de preferência (a esposa do arquiduque era uma condessa tcheca e casara com o príncipe morganaticamente, sendo o meio em que ela nascera tradicionalmente anti-germânico), era estabelecer gradualmente um Estado eslavo na Europa central, em linhas estritamente católicas, como uma proteção contra a Rússia ortodoxa. Nesse sentido, como tantas vezes aconteceu aos Habsburgos, a religião era mais uma vez arrastada a servir a uma concepção puramente política, concepção lamentável, quando encarada do ponto de vista germânico.     A vários respeitos, o resultado foi mais que trágico. Nem a casa dos Habsburgos nem a Igreja Católica tiraram o proveito que esperavam.     O Habsburgo perdeu o trono, Roma perdeu um grande Estado.     Chamando forças religiosas a servirem a seus fins políticos, a coroa provocou um estado de espírito que ela própria inicialmente julgou ser impossível. A tentativa de exterminar o germanismo na velha monarquia despertou o movimento pangermanista na Áustria.     Na década de 80 o liberalismo manchesteriano, de origem judaica, atingira, se não ultrapassara, o seu ponto culminante na monarquia. A reação contra ele, entretanto, não proveio como em tudo, na Áustria, de pontos de vista sociais e, sim, de pontos de vista nacionais. O instinto de conservação obrigou o germanismo a pôr se em guarda, da maneira mais viva. Só em segundo plano é que as considerações econômicas começaram a ganhar influência apreciável. Assim- é que desabrocharam, da confusão política, dois partidos, um mais nacionalista, outro mais socialista, ambos porém altamente interessantes e Instrutivos para o futuro.     Após o fim deprimente da guerra de 1866 a Casa Habsburgo preocupava-se com a idéia de uma revanche no campo de batalha. Só a morte do imperador Maximiliano, do México, cuja expedição infeliz se atribuiu em primeira linha a Napoleão III e cujo abandono, por parte dos franceses, provocou geral indignação, evitou uma aliança mais íntima com a França. Entretanto, os Habsburgos estavam de alcatéia na ocasião. Caso a guerra de 1870-71 não se tivesse transformado numa expedição triunfal, única no gênero, a corte de Viena teria ousado tentar um golpe sangrento de vingança por causa de Sadowa. Quando, porém, chegaram as primeiras narrações dos feitos heróicos dos campos de batalha, maravilhosos e quase incríveis e, no entretanto, verdadeiros, o mais "sábio> de todos os monarcas reconheceu que a hora não era propícia e aparentou alegrar-se com o que, na realidade, contrariava os seus planos.     A luta de heróis desses dois anos conseguira milagre muito mais formidável, pois, quanto aos Habsburgos, a sua atitude modificada jamais correspondia a um impulso íntimo de coração, mas sim à força das circunstâncias. O povo alemão, na velha Marca oriental, foi arrastado pela embriaguez da vitória do Reich e via, profundamente comovido, a ressurreição do sonho dos antepassados convertido em maravilhosa realidade.     Que ninguém se engane, porém. O Austríaco de sentimento verdadeiramente germânico reconhecera, dessa hora em diante, em Königratz, a condição tão trágica quanto indispensável da restauração do império, o qual não devia estar ligado ao marasmo podre da antiga aliança, e não o estava.     Sobretudo ele, aprendeu a sentir, à sua própria custa, que a casa dos Habsburgos terminara a sua missão histórica e que o novo Império só poderia eleger imperador quem, pelo seu sentimento histórico, fosse capaz de oferecer uma cabeça digna à "coroa do Reno". Tanto mais era, pois, de louvar o destino por ter realizado essa investidura no rebento de uma dinastia que, com Frederico, o Grande, já dera à nação, em tempos perturbados, um exemplo eloqüente para inspirar a grandeza da raça.     Quando, porém, após a grande guerra, a casa dos Habsburgos se lançou decididamente no caminho da destruição lenta porém inexorável, da perigosa germanização da dupla monarquia (cujas intenções intimas não podiam deixar dúvidas) - e esse tinha de ser o fim da política de eslavização - irrompeu a resistência do povo condenado ao extermínio e de maneira nunca vista na história alemã dos tempos modernos.     Pela primeira vez, homens de sentimentos nacionalistas e patrióticos se fizeram rebeldes. Rebeldes, não contra a nação ou contra o Estado, e sim contra uma forma de governo que, segundo as suas convicções, tinha de conduzir ao aniquilamento da própria raça.     Pela primeira vez, na história alemã, contemporânea, o patriotismo corrente, dinástico, se divorciou do amor à pátria e ao povo.     Deve-se ao movimento pangermanista da Áustria alemã da década de 90 o ter constatado de maneira clara e insofismável que uma autoridade pública só tem direito de exigir respeito e proteção, quando ela corresponde aos desejos de uma nacionalidade ou pelo menos quando não lhe causa dano.     Não pode haver autoridade pública que se justifique pelo simples fato de ser autoridade, pois, nesse caso, toda tirania neste mundo seria inatacável e sagrada.     Quando, por força da ação do governo, uma nacionalidade é levada à destruição, a rebelião de cada um dos indivíduos de um tal povo não é só um direito, mas também um dever. Quando um caso assim se apresenta a questão não se decide por considerações teóricas, mas pela violência e - pelo êxito.     Como todo poder público, naturalmente, chama a si o dever de conservar a autoridade do Estado, mesmo que ela seja má e traia mil vozes os desejos de uma nacionalidade, o instinto de conservação, em luta com esse poder pela conquista da liberdade ou da independência, terá de usar das mesmas armas com as quais o adversário procura manter-se. A luta será, portanto, travada com o recurso aos meios "legais". enquanto o povo não deverá recuar mesmo diante de meios ilegais, quando o opressor colocar-se fora da lei.     De um modo geral, não se deve esquecer nunca que a conservação de um Estado ou de um governo não é o mais elevado fim da existência humana, mas o de conservar o seu caráter racial. Caso este se ache em perigo de ser dominado ou eliminado, a questão da legalidade terá apenas importância secundária. Mesmo que o poder dominante empregue mil vezes os meios "legais" na sua ação, o instinto de conservação dos oprimidos é sempre uma justificação elevada para a luta por todos os meios.     Só admitindo essa hipótese é que se pode compreender porque os povos deram tão formidáveis exemplos históricos nas lutas pela liberdade, contra a escravização, quer seja interna, quer externa.     Os direitos humanos estão acima dos direitos do Estado.     Se, porém, na luta pelos direitos humanos, uma raça é subjugada, significa isso que ela pesou muito pouco na balança do destino para ter a felicidade de continuar a existir neste mundo terrestre, pois quem não é capaz de lutai pela vida tem o seu fim decretado pela providência.     O mundo não foi feito para os povos covardes.     Quanto é fácil a uma tirania proteger-se com o manto da "legalidade", ficou clara e eloqüentemente demonstrado com o exemplo da Áustria.     O poder legal do Estado baseava-se, então, no anti-germanismo do parlamento, com a sua maioria não-germânica e na casa reinante, também germanófoba. Nesses dois fatores, estava encarnada toda a autoridade pública. Querer modificar o destino do povo teuto-austríaco dessa posição era tolice. Assim, porém, segundo o parecer dos veneradores da autoridade do Estado e da legalidade, toda resistência deveria ser abandonada por não ser exeqüível por meios legais. Isso, porém, significaria o fim do povo alemão na monarquia, necessariamente, forçosamente, e dentro de breve tempo. Efetivamente só pela derrocada daquele Estado foi o germanismo salvo desse destino.     Os teoristas de óculos, preferem, porém, morrer por sua doutrina a morrer pelo seu povo.     Como os homens, primeiro, criam as leis, pensam, depois, que estas estão acima dos direitos humanos.     Foi mérito do movimento pangermanista de então na Áustria o ter varrido de uma vez essa tolice, para desespero de todos os cavaleiros andantes e fetichistas da teoria do Estado.     Enquanto os Habsburgos tentavam perseguir o germanismo, este partido atacava - e impavidamente - a sublime, Casa soberana. Pela primeira vez, ele lançou a sonda nesse Estado apodrecido, abrindo os olhos a centenas de milhares de pessoas. Foi seu mérito ter libertado a maravilhosa noção de amor pátrio da influência dessa triste dinastia.     Aquele partido, nos seus primeiros tempos, contava com muitos adeptos, ameaçando mesmo transformar-se em verdadeira avalanche. Entretanto, o êxito não durou. Quando cheguei a Viena, o movimento há muito já havia sido ultrapassado pelo Partido Cristão Socialista, que alcançara o poder e se encontrava em estado de decadência.     Esse processo de evolução e desaparecimento do movimento pangermanista de um lado e da incrível ascensão do partido socialista, de outro, deveria tornar-se, para mim, da maior importância como objeto de estudo.     Quando cheguei a Viena, minhas simpatias estavam inteiramente do lado da orientação pangermanista.     Que se tivesse a coragem de exclamar no parlamento - viva Hohenzollern! - me impunha respeito e me causava contentamento; que se considerasse esse Partido como parte apenas momentaneamente separada do Império alemão e se proclamasse esse sentimento publicamente, a cada momento, despertava-me alegre confiança; que se admitissem impavidamente todas as questões referentes ao germanismo e nunca se entregassem a compromissos parecia-me o único caminho ainda acessível para a salvação de nosso povo; que, porém, o movimento, depois de sua magnifica ascensão, tornasse a decair, não podia eu compreender. Menos ainda compreendia que o Partido Cristão Socialista conseguisse alcançar nessa mesma época, tão grande violência. Este havia chegado exatamente ao auge de sua glória.     Ao comparar os dois movimentos, deu-me o destino o melhor ensinamento, apressado pela minha aliás triste situação, para que eu compreendesse as causas desse enigma.     Preliminarmente, começarei o meu exame por dois homens que podem ser considerados os chefes e fundadores dos dois partidos: Georg von Schönere e o Dr. Karl Lueger.     Quanto ao ponto de vista do caráter, ambos se elevam muito acima da média das chamadas personalidades parlamentares. No pantanal de uma corrupção política generalizada, a minha simpatia pessoal de início dirigia-se ao pangermanista Schönere e só pouco a pouco também ao chefe cristão social.     Comparados quanto às suas' capacidades, já naquele tempo, Schönere me parecia o melhor e mais sólido pensador dos problemas básicos. Melhor que qualquer outro, ele reconheceu, de modo mais certo e claro, o fim fatal do Estado austríaco. Se as suas advertências tivessem achado eco, sobretudo no Reichstag, no que dizia respeito à monarquia dos Habsburgos, a desgraça da guerra da Alemanha contra a Europa jamais teria acontecido.     Mas se Schönere compreendia os problemas, na sua essência Intima, errava muito quanto aos homens.     Nesse conhecimento estava, ao contrário, a força do Dr. Lueger.     Este era um raro conhecedor dos homens, que se precavia de vê-los melhores do que eles são na realidade. Por isso contava ele mais com as reais possibilidades da vida, de que conhecimento tinha Schönere. Tudo o que pensava o pangermanista estava teoricamente certo, mas faltava-lhe a força e a habilidade de transmitir à massa o conhecimento teórico, pois essa capacidade é e sempre será limitada. Essa falta de real reconhecimento dos homens conduziu, com o correr dos anos, a um engano na avaliação de vários movimentos, bem como de instituições antiquíssimas.     Finalmente reconheceu Schönere, sem dúvida, que se tratava, no caso, de questões de concepção universal, porém não entendeu que a grande massa se presta admiravelmente para detentora dessas convicções quase religiosas.     Infelizmente, teve ele uma percepção muito imperfeita das extraordinárias limitações da disposição da burguesia para a luta. Devido a sua situação econômica, os burgueses são tímidos, não se arriscam a prejuízos, o que sempre os impede de agir.     Essa incompreensão da importância das camadas baixas da sociedade foi a causa da extrema ineficiência de suas opiniões sobre questões sociais.     Em tudo Isso o Dr. Lueger era o oposto de Schönere.     O profundo conhecimento dos homens fazia com que aquele não só fizesse juízo certo das forças aproveitáveis, como também ficasse a coberto de uma avaliação demasiadamente baixa das instituições existentes, sendo que, talvez por esse motivo, aprendesse a empregá-las em auxilio da consecução de seus intentos.     Ele compreendeu perfeitamente que a força combativa da burguesia superior, hoje em dia, é pequena, é insuficiente para conseguir a vitória de um grande e novo movimento. Dai vem que atribuía grande importância, na sua atividade política, à conquista das camadas cuja existência estava ameaçada e, nas quais, por isso mesmo, a vontade de lutar

servia de estímulo em vez de ser motivo de inércia. Além disso, ele era inclinado a empregar todos os meios violentos para atrair a si as fortes instituições existentes com o fito de tirar, dessas velhas fontes de poder, todo o proveito para o seu movimento.     Por isso, baseou o seu novo partido, em primeira linha na classe média. ameaçada de extinção, e assegurou-se, assim, uma classe de adeptos extremamente difíceis de serem abalados e dotados de tão grande espírito de sacrifício como de vontade de lutar. A sua atitude extremamente hábil em relação à Igreja Católica conquistou-lhe, em pequeno espaço, a mais nova geração do clero, e de tal maneira que o antigo partido clerical foi forçado a retirar-se do campo ou, mais avisadamente, a aderir ao novo partido a fim de, paulatinamente, ganhar posição a posição.     Grande injustiça seria feita a esse homem, se se considerasse essa como a sua única característica, pois, além da qualidade de um tático inteligente, ele possuía as de um reformador verdadeiramente grande e genial. Entretanto, também nessa grande personalidade não era completo o conhecimento das possibilidades existentes bem como de sua própria capacidade pessoal.     Os objetivos que esse homem verdadeiramente notável se tinha proposto eram eminentemente práticos. Ele queria conquistar Viena. Viena era o coração da monarquia. Dessa cidade partia ainda o último alento de vida para o corpo doentio e envelhecido do império decadente. Quanto mais saudável se tornasse o coração, mais facilmente reviveria o resto do corpo. Uma idéia correta em princípio, que, porém, só podia ter aplicação durante um tempo determinado e limitado.     Aí é que estava a fraqueza desse homem. O que ele realizou como burgomestre na cidade de Viena é imortal no melhor sentido da palavra. Mesmo assim, não conseguiu, porém, salvar a monarquia - era tarde demais.     Seu rival Schönere vira mais claramente.     Na sua atuação prática o Dr. Lueger obtinha admirável êxito. O efeito, porém, do que ele esperava sempre deixava de realizar-se.     O que Schönere desejava, ele não o conseguia; o que ele temia, realizava-se, infelizmente, de uma maneira terrível.     Assim, os dois homens não realizaram o seu objetivo. Lueger não pôde mais salvar a Áustria e Schönere não conseguiu evitar a ruína do povo alemão.     É infinitamente instrutivo para o nosso tempo estudar a causa do fracasso desses dois partidos. É essencial, sobretudo, para os meus amigos, pois, em muitos pontos, as condições de hoje são semelhantes às daquele tempo, podendo-se, por isso, evitar erros que conduziram à morte de um. movimento e à esterilidade do outro.     O colapso do movimento pangermanista na Áustria teve, a meu ver, três causas:     Primeira; a noção pouco clara da importância do problema social, justamente tratando-se de um partido novo essencialmente revolucionário.     Enquanto Schönere e seus adeptos se dirigiam em primeira linha às camadas burguesas, o resultado só podia ser fraco, inofensivo.     A burguesia alemã é, sobretudo nas suas camadas superiores, embora que não o pressintam os indivíduos, pacifista a ponto de renunciar a si mesma, principalmente quando se trata de questões internas da nação ou do Estado. Nos bons tempos, isto é, nos tempos de um bom governo, tal disposição é uma razão do valor extraordinário dessas camadas para o Estado; em épocas de governos maus, porém, ela age de maneira verdadeiramente maléfica. Para conseguir a realização de uma luta séria, o movimento pangermanista tinha de lançar-se á conquista das massas. O fato de não se ter agido assim tirou-lhe, de começo, o impulso inicial que uma tal onda necessita para não desfazer-se.     Quando, inicialmente, não se tem em mira e não se executa esse princípio básico, o novo partido perde, para o futuro, toda possibilidade de evitar os efeitos do erro de começo. Aceitando, em número excessivo, elementos moderados burgueses, a atitude do movimento será dirigida por estes, ficando assim excluída a possibilidade de recrutar forças apreciáveis no seio da grande massa popular. Tal movimento não passará mais de pálidos mexericos e críticas. Nunca mais se poderá criar a fé quase religiosa aliada a idêntico espírito de sacrifício; surgirá, porém, em seu lugar, a tendência de, por meio de cooperação "positiva" - neste caso isso significa o reconhecimento do statu quo - aos poucos, aparar a dureza da luta para finalmente chegar a uma paz podre.     Foi o que aconteceu ao movimento pangermanista, pelo fato de não ter, desde o princípio, acentuado principalmente a conquista de seus adeptos entre os círculos da grande massa. Tornou-se um movimento "burguês, distinto, moderadamente radical".     Desse erro decorreu, porém, a segunda causa de seu rápido desaparecimento.     A situação na Áustria, para o germanismo, no tempo do aparecimento do movimento pangermanista, já não dava lugar a esperanças. De ano a ano, o parlamento se tornava, cada vez mais, uma instituição destinada ao aniquilamento lento do povo alemão. Toda tentativa de salvação na décima-segunda hora só podia oferecer uma probabilidade, embora pequena, de êxito, na extinção dessa instituição.     Com isso surgiu, junto ao movimento, uma questão de importância teórica.     Para destruir o parlamento, dever-se-ia ir ao parlamento, a fim de esvaziá-lo "de dentro para fora" ou devia-se conduzir essa luta de fora, atacando aquela instituição.     Os pangermanistas entraram no parlamento e foram derrotados.     Verdade é que se devia penetrar ali.     Conduzir uma luta contra tal potência, do lado de fora, significava armar-se de coragem inabalável é estar também disposto a sacrifícios infinitos. Agarra-se o touro pelos cornos e recebe-se fortes marradas. As vezes se cairá por terra, podendo levantar-se com os membros partidos, somente depois da mais áspera luta é que a vitória sorrirá ao ousado atacante. Somente a grandeza dos sacrifícios conquistará novos lutadores para a causa, até que a persistência garanta sucesso.     Para isso, porém, são necessários os filhos do povo, tirados da grande massa.     Só eles são suficientemente decididos e tenazes para conduzir essa luta ao seu fim sangrento.     O movimento pangermanista, porém, não possuía essa grande massa; nada mais lhe restava, pois, que ir ao parlamento.     Seria falso pensar que essa resolução tivesse sido o resultado de longos sofrimentos íntimos ou mesmo de meditações; não, não se pensava absolutamente em outra coisa.     Essa tolice, nada mais era que o reflexo de noções pouco claras sobre a importância e o efeito de tal participação numa instituição reconhecida, já em princípio, como falsa. Esperava-se, geralmente, facilitar o esclarecimento da grande massa popular, uma vez que se tinha a oportunidade de falar diante do "foro da nação inteira". Parecia também claro que o ataque à raiz do mal teria mais êxito que o ataque feito de fora. Pensava-se que a proteção das imunidades fortaleceria a segurança dos vários lutadores, de sorte que o ataque se tornaria mais forte.     Na realidade, porém, as coisas tomaram outro aspecto.     O "foro" perante o qual falavam os deputados pangermanistas em vez de tornar-se maior, tornara-se menor, pois cada um só fala diante do círculo que é capaz de ouvi-lo ou que, por meio dos comunicados da imprensa, recebe uma reprodução do que foi dito.     O maior foro de ouvintes é representado não pela sala de um parlamento e, sim, por um grande comício público.     No comício se encontra um grande número de pessoas que vieram somente para ouvir o que o orador tem a dizer-lhes, ao passo que no salão de sessões da Câmara dos Deputados só há algumas centenas de indivíduos que estão em geral apenas para receberem o seu subsídio e não para receber esclarecimentos da sapiência de um ou outro senhor "representante do povo".     Antes de tudo, porém, trata se, no caso, do mesmo público que nunca está disposto a aprender algo de novo, pois, além de faltar-lhe inteligência, falta-lhe a necessária vontade para isso.     Jamais um desses representantes fará por si mesmo honra à melhor verdade para, em seguida, pôr-se a seu serviço. Não. Nenhum fará isso, a não ser que tenha razão de esperar que tal mudança possa salvar o seu mandato por mais uma legislatura. Só quando pressentem que o seu partido sairá mal nas próximas eleições é que essas glórias da humanidade se mexem para verificar como se poderá mudar para um partido de orientação mais segura, sendo que essa mudança de atitude se processa sob um dilúvio de justificações morais. - Daí, acontecer sempre que quando um partido decai em grande escala do favor público e que há ameaça provável de uma derrota fulminante, começa a grande migração: os ratos parlamentares abandonam o navio partidário.     Isso nada tem que ver com o saber e o querer, mas é um índice daquele dom divinatório que adverte, ainda em tempo oportuno, o tal percevejo parlamentar, fazendo com que ele se abrigue em outra cama partidária mais quente.     Falar perante um tal "foro" significa, na verdade, jogar pérolas a porcos. De fato, isso não vale a pena! Nesse caso o êxito não pode ser senão igual a zero.     E assim era, na realidade. Os deputados pangermanistas poderiam falar até rebentar: o efeito, porém, seria nulo.     A imprensa, por sua vez, conservava-se muda ou mutilava os discursos de tal maneira que qualquer conexão era impossível e mesmo o sentido era deturpado, quando não se perdia inteiramente. E por isso a opinião pública só recebia uma imagem muito imperfeita das intenções do novo movimento. Era inteiramente destituído de importância o que dizia cada um dos deputados: a importância estava naquilo que se dava a ler como sendo deles. Consistia isso em extratos de seus discursos, que, mutilados, só podiam e deviam provocar impressão errônea. Assim o público perante o qual eles falavam realmente era os escassos quinhentos parlamentares. E isso nos diz bastante.     O pior, porém, era o seguinte: o movimento pangermanista só poderia contar com sucesso caso tivesse compreendido, desde o primeiro dia, que não se deveria tratar de um novo partido e, sim, de uma nova concepção política do mundo. Só esta conseguiria provocar as forças internas para essa luta gigantesca. Para esse fim, porém, só servem para chefes as melhores e mais corajosas cabeças.     Caso a luta por um sistema universal não seja conduzida por heróis prontos ao sacrifício, em curto espaço de tempo será impossível encontrar lutadores preparados para morrer. Um homem que combate exclusivamente por sua existência pouco terá de sobra para a causa geral. A fim de que se possa realizar aquela hipótese, é necessário que cada um saiba que o novo movimento trará honra e glória ante a posteridade e que, no presente, nada oferecerá. Quantos mais postos tenha um movimento a distribuir, maior será a concorrência dos medíocres., até que estes políticos oportunistas, sufocando pelo número o partido vitorioso, o lutador honesto não mais reconheça o antigo movimento e os novos adesistas o rejeitem decididamente como um intruso" incômodo.     Com isso, porém, estará liquidada a "missão" de tal movimento.     Logo que a agitação pangermanista aceitou o parlamento, começou a dispor de "parlamentares" em vez de guias e lutadores de verdade. O partido baixou ao nível de qualquer das facções do tempo e, por isso, perdeu a força necessária para enfrentar o destino com a audácia dos mártires. Em vez de lutar, aprendeu também a "falar" e a "negociar". Em breve tempo, o novo parlamentar sentia como mais nobre dever, - porque menos arriscado - combater a nova concepção do mundo com as armas "espirituais" da eloqüência parlamentar, em vez de lançar-se numa luta com o risco da própria vida - luta de resultado incerto e que nada rende para os seus líderes.     Como eles estavam no parlamento, os adeptos, lá fora, começaram a esperar milagres, que naturalmente não se realizaram e nem poderiam realizar-se. Dentro em pouco, apareceu a impaciência, pois, mesmo o que se conseguia ouvir dos próprios deputados de modo algum correspondia às esperanças dos eleitores. Isso era de fácil explicação, pois a imprensa inimiga evitava transmitir ao público uma imagem exata da ação dos representantes pangermanistas.     Quanto mais crescia o gosto dos novos representantes do povo pela maneira ainda suave da luta "revolucionária" no parlamento e nas dietas, tanto menos se achavam eles dispostos a voltar ao mais perigoso trabalho de propaganda, no seio das camadas populares.     Os comícios, que eram o único meio eficiente de influir sobre as pessoas e, portanto, capaz de atrair grandes massas populares, eram cada vez menos utilizados.     Desde que as reuniões nas casas públicas foram definitivamente substituídas pela tribuna do parlamento, para, deste foro, derramar os discursos sobre as cabeças do povo, o movimento pangermanista deixou de ser um movimento popular e desceu, em curto tempo, à categoria de um clube de dissertações acadêmicas, de caráter mais ou menos sério.     A má impressão propagada pela imprensa não era, de maneira alguma, corrigida pela atividade das assembléias parlamentares. Assim, a palavra "pangermanista" passou a soar mal aos ouvidos populares. É preciso que os literatelhos e peralvilhos de hoje saibam que as maiores revoluções deste mundo nunca foram dirigidas por escrevinhadores!     Não. A pena sempre se limitou a traçar as bases teóricas das revoluções.     O poder, porém, que pôs em movimento as grandes avalanchas históricas, de caráter religioso e político, foi, desde tempos imemoriais, a força mágica da palavra falada.     Sobretudo a grande massa de um povo sempre só se deixa empolgar pelo poder da palavra. Todos os grandes movimentos são movimentos populares, são erupções vulcânicas de paixões humanas e de sensações psíquicas provocadas ou pela deusa cruel da necessidade ou pela tocha da palavra atirada entre a massa e não por meio de jorros de literatos açucarados metidos a estetas e a heróis de salão.     Só uma tempestade de paixão escaldante é que consegue torcer o destino dos povos: mas só consegue provocar entusiasmo quem o possua no seu íntimo. Só esse entusiasmo inspira aos seus eleitos as palavras que, como golpes de martelo, conseguem abrir as portas do coração de um povo.     Não é escolhido para anunciador da vontade divina aquele a quem falta a paixão e mantém-se em um silêncio cômodo.     Por isso, todo escritor devia restringir-se ao seu tinteiro, para trabalhar "teoricamente", se não lhe faltam inteligência e saber. Para chefe não nasceu ele, porém, nem para tal foi escolhido.     Um movimento de grandes objetivos, deve, pois, diligenciar para não perder o contato com a massa do povo.     Esse ponto deve ser examinado em primeiro lugar e as decisões devem ser tomadas sob essa orientação. Deverá ser evitado tudo o que posse diminuir ou enfraquecer a capacidade de ação sobre a coletividade, não por motivos "demagógicos", mas pelo simples reconhecimento de que sem a força formidável da massa de um povo não se pode realizar uma grande idéia, por mais elevada e sublime que ela pareça. A dura realidade é que deve determinar o caminho para o objetivo visado; não querer palmilhar caminhos desagradáveis significa neste mundo desistir do Ideal, quer se queira, quer não.     Logo que o movimento pangermanista, por sua atitude parlamentar, colocou o seu ponto de apoio no parlamento e não no povo, perdeu o futuro e ganhou, em troca, o êxito barato e passageiro.     Escolheu a luta mais fácil, e, por isso mesmo, deixou de merecer a vitória final.     Justamente essas questões foram por mim estudadas em Viena, da maneira mais profunda, notando, então, que, no seu não reconhecimento, estava um dos principais motivos do colapso do movimento, que, a meu ver, era destinado a tomar em suas mãos a direção do germanismo.     Os dois primeiros erros que fizeram com que fracassasse o movimento pangermanista completavam-se, um era conseqüência do outro. A falta de conhecimento das forças impulsoras das grandes revoluções deu lugar à errada avaliação da importância das grandes coletividades; daí proveio o pouco interesses pela questão social, o medíocre aliciamento das camadas inferiores da nação, bem como também a atitude favorável em relação ao parlamento.     Caso tivesse sido reconhecido o incrível poder que cabe à massa como portadora da resistência revolucionária em todos os tempos, ter-se-ia trabalhado de outra maneira, tanto socialmente como com relação à propaganda. Não se teria também, então, acentuado o movimento em direção ao parlamento e sim em direção à oficina e à rua.     O terceiro erro, porém, se caracterizou ainda mais pelo não reconhecimento do valor da massa, que, uma vez movimentada em determinada direção, por espíritos superiores, mais tarde, como um volante, dá impulso à força e tenacidade uniforme do ataque.     A áspera luta que o movimento pangermanista teve de sustentar com a Igreja católica só se explica devido à falta de compreensão da psicologia do povo.     As causas do ataque violento do novo partido contra Roma estavam no seguinte:     "Logo que a Casa dos Habsburgos se decidira definitivamente a transformar a Áustria em um Estado eslavo, foram utilizados todos os meios que pareciam próprios para esse fim. As instituições religiosas foram também inescrupulosamente postas ao serviço da nova idéia oficial, por essa inconscientíssima dinastia. A utilização de paróquias tchecas e de seus curas era somente um dos muitos meios de chegar a este fim, isto é, uma eslavização generalizada da Áustria".     O processo desenrolava-se mais ou menos assim:     "Os padres tchecos eram mandados para paróquias puramente alemãs. Esses sacerdotes lenta, mas seguramente, começavam a sobrepor os interesses do povo tcheco aos interesses da Igreja, tornando-se assim a célula mater do processo de desgermanização".     O clero germânico, ante esse processo, fracassou quase completamente. E assim aconteceu não só porque esses próprios sacerdotes eram inteiramente incapazes de uma semelhante luta, no sentido do germanismo. como por não conseguirem opor a necessária resistência ao- ataque dos outros. Dessa maneira o germanismo era lenta, mas irresistivelmente, repelido por um lado, pela ação desabusada de parte do clero que se lhe opunha e pelo outro pela insuficiência da defesa. Se, como vimos, isso se dava em pequena escala, em grande escala não seria outra a situação.     Aí também as tentativas antigermânicas dos Habsburgos não encontraram, sobretudo de parte do alto clero, a resistência exigida, e, assim, a defesa dos interesses alemães passava a plano secundário.     A impressão geral era de que havia uma ofensa grosseira aos direitos alemães da parte do clero católico.     Parecia com isso que a Igreja não sentia com o povo alemão e se colocava, de maneira injusta, ao lado do inimigo do mesmo. A raiz de todo o mal, porém, estava, segundo a opinião de Schönere, no fato de a direção da Igreja católica não estar na Alemanha, bem como na animosidade, proveniente desse fato, contra os anseios de nossa nacionalidade.     Os chamados problemas culturais passaram, como quase tudo na Áustria, para segundo plano. O que valia, na atitude do movimento pangermanista, com relação à- Igreja católica, era menos a atitude desta relativamente à ciência que a sua insuficiente compreensão dos interesses alemães e, inversamente, uma constante fomentação das pretensões e da cobiça eslavas.     George Schönere não era homem que fizesse as coisas pela metade. Iniciou a luta contra a Igreja, convencido de que somente por ela é que a raça alemã poderia salvar se. O movimento de libertação contra Roma (Los von Rom") parecia o mais formidável, porém também o mais difícil processo de ataque, que teria de destruir a cidadela inimiga. Fosse ele vitorioso estaria vencida, para sempre, a infeliz cisão religiosa na Alemanha e a força interior do Reich e da nação alemã poderia, com uma tal vitória, lucrar de maneira formidável.     Entretanto, nem a previsão nem as conclusões dessa luta estavam certas.     Incontestavelmente a força de resistência do clero católico, de nacionalidade alemã, era inferior, em todas as questões referentes ao germanismo, às de seus irmãos não alemães, sobretudo tchecos.     Ao mesmo tempo, só um ignorante não veria que ao clero alemão jamais ocorreu uma defesa agressiva dos interesses da sua raça.     Demais, quem quer que não estivesse ofuscado pelas aparências, deveria reconhecer que esse fato deve ser atribuído primeiro que tudo a uma circunstância que todos nós alemães devemos lastimar: a "objetividade" com que encaramos os problemas raciais, assim como todos os outros.     Assim como o sacerdote tcheco era subjetivo em relação ao seu povo e somente objetivo em relação A Igreja, o sacerdote alemão era dedicado subjetivamente à Igreja e permanecia objetivo com relação à nação. Esse é um fenômeno que em mil outros casos podemos constatar, para infelicidade nossa.     Isso não é de maneira alguma só uma herança especial do catolicismo, mas ataca, entre nós, em curto espaço de tempo, quase toda a organização do Estado.     Compare-se, por exemplo, a atitude que o nosso funcionalismo público assume em face das tentativas de um renascimento nacional com a do funcionalismo de qualquer outra nação em circunstâncias semelhantes. Imagina-se, acaso, que o corpo de funcionários de qualquer outro país do mundo preteriria de maneira semelhante os desejos da nação ante a frase oca "autoridade do Estado", como é corrente entre nós desde cinco anos, sendo até considerado particularmente digno de elogios, quem assim procede? Não assumem os dois credos, hoje em dia, na questão judaica, uma atitude que não está em harmonia nem com os desejos da nação nem com os verdadeiros interesses da própria religião? Compare-se, por exemplo, a atitude de um rabino, em todas as questões, mesmo de somenos importância do judaísmo como raça, com a do clero de ambos os credos cristãos com relação à raça germânica.     Isso acontece conosco toda vez que se trata de defender uma idéia abstrata.     A "autoridade do Estado", a "democracia", o "pacifismo", a "solidariedade internacional", etc., são idéias que sempre convertemos em concepções fixas, puramente doutrinárias, de sorte que todo julgamento sobre as necessidades vitais da nação é feito exclusivamente por esse critério.     Essa maneira infeliz de considerar todas as aspirações pelo prisma de uma opinião preconcebida destrói toda a capacidade de aprofundar-se o homem num assunto subjetivamente por contradizer objetivamente a própria teoria e conduz finalmente a uma inversão de meios e de finalidades. Toda tentativa de levantar a nação será repelida, desde que implique na extinção de um regime, mesmo mau, desde que seja uma infração ao "princípio de autoridade". O "princípio de autoridade" não é, porém, um meio para um fim, antes, aos olhos desses fanáticos da objetividade, representa o próprio fim, o que é suficiente para explicar a triste vida desse princípio. Assim é que, por exemplo, toda tentativa por uma ditadura seria recebida com indignação, mesmo que o seu executor fosse um Frederico, o Grande, e que os artistas políticos de uma maioria parlamentar momentânea não passassem de anões incapazes ou de indivíduos medíocres. A lei da democracia parece mais sagrada para um desses doutrineiros que o bem da nação. Um protegerá, portanto, a pior tirania que aniquila um povo, desde que o "princípio de autoridade" se corporiza nela, ao passo que o outro rejeita mesmo o mais abençoado governo, desde que este não corresponda à sua concepção de democracia.     Da mesma maneira o nosso pacifista alemão silenciará diante do mais sangrento atentado contra o povo, mesmo que ele parta das mais rudes Forças militares; silenciará desde que a mudança desse destino só seja possível por meio de uma resistência, portanto, de uma violência, pois isso contraria o seu espírito pacifista. O socialista alemão internacional, entretanto, pode ser saqueado solidariamente pelo resto do mundo; ele mesmo retribui com simpatia fraternal e não pensa em reparações ou mesmo protestos, pois que ele é - um alemão.     Isso pode ser deplorável, porém quem quiser modificar uma situação deve reconhecê-la primeiramente.      O mesmo acontece com a defesa dos anseios do povo alemão por uma parte do clero. Por si, isso não representa nem má vontade, nem é provocado, por exemplo, por ordem "de cima". Vemos, porém, nessa fraqueza nacional, o resultado de uma educação também falha no sentido da germanização da juventude como também, por outro lado, uma submissão irrestrita à idéia tornada ídolo.     A educação para a democracia, para o socialismo de feitio internacional, para o pacifismo, etc., é tão rígida e radical, portanto considerada por eles puramente subjetiva que, com isso, a imagem geral do resto do mundo é influenciada por essa noção fundamental, ao passo que a atitude para com o germanismo desde a juventude sempre se caracterizou pelo seu objetivismo. Dessa maneira o pacifista alemão que se submete subjetivamente à sua idéia, procurará sempre primeiro os direitos objetivos, mesmo em casos de ameaças injustas e pesadas a seu povo e nunca se colocará, por puro instinto de conservação, na fileira de seu rebanho para lutar ao lado dele.     Quanto isso vale para os vários credos, pode ser mostrado pelo seguinte:     O protestantismo representa, por si, melhor, as aspirações do germanismo, desde que esse germanismo esteja fundamentado na origem e tradições da sua igreja; falha, entretanto, no momento em que essa defesa dos interesses nacionais tenha de realizar-se num domínio em discordância com a sua tradicional maneira de conceber os problemas mundiais.     O protestantismo servirá para promover tudo o que é essencialmente germânico, sempre que se trate de pureza interior ou, de intensificar o sentimento nacional, ou de defesa da vida alemã, da língua e também da liberdade, uma vez que tudo isso é parte essencial nele; mas é mais hostil a qualquer tentativa de salvar a nação das garras de seu mais mortal inimigo, porque a sua atitude em relação ao judaísmo foi traçada mais ou menos como um dogma. Nisso ele gira indecisamente em torno da questão e, a não ser que essa questão seja resolvida, não terá sentido ou possibilidade de êxito qualquer tentativa de um renascimento alemão.     Durante minha estadia em Viena, eu tive bastante prazer e oportunidade de examinar essa questão, sem espírito preconcebido e, pude ainda verificar milhares de vezes, no convívio diário, a correção desse modo de ver.     Nessa cidade em que estão em foco as mais variadas raças, era evidente, a todos parecia claro, que somente o pacifista alemão procura considerar sempre objetivamente as aspirações de sua própria nação, porém nunca o faz assim o judeu em relação às do seu povo; que somente o socialista alemão é "internacional", isto é, é proibido de fazer justiça a seu próprio povo de outra maneira que não seja com lamentações e choro entre os companheiros internacionais. Nunca agem assim o tcheco, o polaco, etc. Enfim, reconheci desde então, que a desgraça só em parte está nessas teorias e, por outra parte, em nossa insuficiente educação com relação ao nacionalismo e numa dedicação diminuída, em virtude disso, em relação ao mesmo.     Por essas razões, falhou o primeiro fundamento puramente teórico do movimento pangermanista contra o catolicismo.     Eduque-se o povo alemão, desde a juventude, no reconhecimento firme dos direitos da própria nacionalidade e não se empestem os corações infantis com a maldição de nossa "objetividade", mesmo em coisas relativas à conservação do próprio eu, e em pouco tempo, verificar-se-á que (supondo-se um governo radical nacional), assim como na Irlanda, na Polônia ou na França, o católico alemão será sempre alemão.     A mais formidável prova disso foi fornecida naquela época em que, pela última vez, o nosso povo, em defesa de sua existência, se apresentou, diante da justiça da História, em uma luta de vida e de morte.     Enquanto naquele momento não faltou a direção de cima, o povo cumpriu o seu dever do modo mais decisivo.     Pastor protestante ou padre católico, ambos contribuíram infinitamente para uma longa conservação de força de resistência, não só no "front" mas, sobretudo, no interior do país. Nesses anos, e sobretudo nos primeiros momentos de entusiasmo, só existia na realidade um único império alemão sagrado nos dois campos e para cuja subsistência e futuro cada um se dirigia ao seu céu.     O movimento pangermanista na Áustria deveria ter-se proposto a seguinte pergunta: É ou não possível a conservação do germanismo austríaco sob uma fé católica? No caso afirmativo, o partido político não se deveria ter incomodado com a questão religiosa ou de credo. Em caso contrário, seria necessária uma reforma religiosa e nunca um partido político.     Aquele que pensa poder chegar, pelo atalho de uma organização política, a uma reforma religiosa, mostra somente que lhe falta qualquer vislumbre da evolução das noções religiosas ou mesmo das dogmáticas e da atuação prática do clero.     Na realidade não se pode servir a dois senhores, sendo que eu considero a fundação ou destruição de uma religião muito mais importante do que a fundação ou destruição de um Estado, quanto mais de um partido.     Não se diga que os aludidos ataques foram a defesa contra ataques do lado contrário!     É certo que, em todas as épocas, houve indivíduos sem consciência que não tiveram pejo de fazer da religião instrumento de seus interesses políticos (pois é disso que se trata quase sempre e exclusivamente entre esses pulhas). Entretanto, é falso tornar a religião ou o credo responsável por um bando de patifes que dela fazem mau uso, da mesma forma por que poriam qualquer outra coisa a serviço de seus baixos instintos.     Nada pode melhor servir a um tratante e mandrião parlamentar do que a oportunidade que assim se lhe oferece de, ao menos posteriormente, conseguir a justificação de sua esperteza política. Pois logo que a re1igião ou o credo é responsabilizado por uma maldade pessoal e por isso atacados, o maroto chama, com berreiro formidável, o mundo inteiro para testemunhar quão justa fora a sua atuação e como, graças a ele e à sua loquacidade, foram salvas a religião e a igreja. Os contemporâneos, tão tolos quanto esquecidos, não reconhecem o verdadeiro causador da luta, devido ao grande berreiro que se faz ou não se lembram mais dele e assim atinge o patife o seu objetivo.     Essas astuciosas raposas sabem bem que isso nada tem a ver com a religião. Por isso mais rirá ele consigo mesmo, enquanto que o seu adversário, honesto porém inábil, perde a cartada e retira-se de tudo, desiludido da lealdade e da fé nos homens.     Em outro sentido, seria também injusto tomar a religião ou mesmo a igreja como responsável pelos desacertos de quaisquer indivíduos.     Compare-se a grandeza da organização visível com a defeituosidade média dos homens em geral e será necessário admitir que a relação do bem para o mal é melhor entre nós do que em qualquer outra parte. É certo que há também, mesmo entre os próprios padres, alguns para os quais a sua função sagrada é apenas um meio para a satisfação de sua ambição- política e que chegam mesmo a esquecer, na luta política, muitas vezes de maneira mais do que lamentável, que deveriam ser os guardas de uma verdade superior e não os representantes da mentira e da calúnia. Entretanto para cada indigno desses há, por outro lado, milhares e milhares de curas honestos, dedicados da maneira mais fiel à sua missão que, em nossos tempos atuais, tão mentirosos como decadentes, se destacam como pequenas ilhas num pântano geral.     Tão pouco condeno ou devo condenar a igreja pelo fato de um sujeito qualquer de batina cair em falta imunda contra os costumes, quando muitos outros mancham e traem a sua nacionalidade, em uma época em que isso ocorre freqüentemente. Sobretudo hoje em dia, é bom não esquecer que para cada Efialtes há milhares de pessoas que, com o coração sangrando, sentem a infelicidade de seu povo e, como os melhores de nossa nação, desejam ansiosamente a hora em que para nós o céu possa sorrir também.     A quem, porém, responde que, no caso, não se trata de pequenos problemas da vida diária, mas sobretudo de questões de verdade fundamental e de conteúdo dogmático, pode-se dar a devida resposta com outra questão:     "Se te considerares feito pelo destino a fim de proclamar a verdade, faze-o; tem, porém, também, a coragem de não quereres fazer isso pelo talho de um partido político - pois constitui também esperteza, mas coloca, em lugar do mal de agora, o que lhe parece melhor para o futuro.     Se porventura te faltar a coragem ou se não conheceres bem o que em ti há de melhor, não te metas; em todo caso, não tentes, pelo recurso de um movimento político, conseguir astuciosamente aquilo que não tens coragem de fazer de viseira erguida".     Os partidos políticos nada têm a ver com os problemas religiosos, a não ser que estes, estranhos ao povo, venham solapar os costumes e a moral da própria raça. A religião também não se deve imiscuir em intrigas do partidarismo político.     Quando os dignitários da igreja se servem de instituições ou doutrinas religiosas para prejudicar a sua nacionalidade, nunca deverão ser seguidos nessa trilha e sim combatidos com as mesmas armas.     As doutrinas e Instituições religiosas de seu povo devem ser intangíveis para o chefe político; ao contrário, este não deveria ser político e sim reformador!     Qualquer outra atitude conduziria a uma catástrofe, especialmente na Alemanha.     Nas minhas observações sobre o movimento pangermanista em sua luta contra Roma, cheguei, naquela ocasião e, sobretudo posteriormente, à seguinte conclusão: devido a sua fraca compreensão da significação do problema social, o movimento perdeu a força combativa da massa popular. Indo ao parlamento, perdeu a sua força de impulsão e sobrecarregou-se com toda a fraqueza inerente àquela instituição. A sua luta contra a igreja desacreditou-o perante muitas camadas das classes baixa e média e privou-o de muitos dos melhores elementos que se poderiam indicar como essencialmente nacionais.     Os resultados da "Kulturkampf" na Áustria foram praticamente nulos.     É verdade que foi possível arrancar perto de cem mil membros à igreja, porém sem que ela por isso tivesse sofrido dano sensível. Realmente, nesse caso, não havia necessidade de chorar pelas "ovelhinhas" perdidas; ela só perdeu o que há já muito tempo intimamente lhe não pertencia. Essa era a diferença entre a nova reforma e a antiga. Outrora, muitos dos melhores elementos da igreja se tinham afastado dela por convicção religiosa íntima, ao passo que agora só os "mornos" é que se foram e por "considerações" políticas.     Justamente do ponto de vista político o resultado foi muito ridículo e deplorável.      Mais uma vez fracassara um promissor movimento político da nação alemã por não ter sido conduzido com a necessária sobriedade, mas perdera-se um campo que forçosamente teria de conduzir a um desagregamento.     A verdade, pois, é que:     O movimento pangermanista jamais teria cometido esse erro, se não possuísse pouca compreensão da psicologia da massa. Se os seus chefes tivessem sabido que para conseguir êxito não se deve nunca mostrar a massa dois ou mais adversários, por considerações puramente psíquicas, pois isso conduziria de outra maneira ao desagregamento da força combativa, só por esse motivo o movimento pangermanista deveria ter sido principalmente dirigido contra um só adversário. Nada mais perigoso para um partido político que deixar-se levar nas suas decisões por levianos que tudo querem sem conseguir jamais coisa alguma.     Mesmo que nos vários credos haja muita coisa a eliminar o partido político não deve perder de vista um minuto o fato de que, a julgar por toda a experiência da história até hoje, nunca um partido político conseguiu, em situações semelhantes, chegar a uma reforma religiosa. Não se estuda, porém, a história para não recordar os seus ensinamentos quando é chegada a hora de aplicá-la praticamente ou para pensar que as coisas agora são outras e que, portanto, as suas verdades não são mais aplicadas, mas aprende-se dela justamente o ensino útil para o presente. Quem não consegue isso, não deve ter a pretensão de ser chefe político. Esse é na realidade um idiota superficial e muito convencido e toda boa vontade não desculpa a sua incapacidade prática.     A arte de todos os grandes condutores de povos, em todas as épocas, consiste, em primeira linha, em não dispersar a atenção de um povo e sim em concentrá-la contra um único adversário. Quanto mais concentrada for a vontade combativa de um povo, tanto maior será a atração magnética de um movimento e mais formidável o ímpeto do golpe. Faz parte da genialidade de um grande condutor fazer parecerem pertencer a uma só categoria mesmo adversários dispersos, porquanto o reconhecimento de vários inimigos nos caracteres fracos e inseguros muito facilmente conduz a um princípio de dúvida sobre o direito de sua própria causa.     Logo que a massa hesitante se vê em luta contra muitos inimigos, surge imediatamente a objetividade e a pergunta de se realmente todos estão errados ou só o próprio povo ou o próprio movimento é que está com o direito.     Com isso aparece também o primeiro colapso da própria força. Daí ser necessário que uma maioria de adversários internos seja sempre vista em blocos, de sorte que a massa dos próprios adeptos julgue que a luta seja dirigida contra um inimigo único. Isso fortalece a fé no próprio direito e aumenta a irritação contra o inimigo.     O fato de o movimento pangermanista não ter compreendido isso lhe custou a derrota.     O seu objetivo estava certo. A vontade era pura. O caminho seguido, porém, estava errado. Ele se assemelhava a um alpinista que tem em vista o pico a ser galgado e que se põe a caminho com decisão e força, sem porém dedicar atenção a esse último, tendo a vista sempre voltada para o objetivo, sem atentar na trilha que segue. Por isso, fracassa.     Inversamente, parecia passarem-se as coisas nas fileiras do adversário - no Partido Socialista Cristão.     O caminho seguido por este foi sábia e seguramente escolhido. Entretanto, faltou-lhe a compreensão exata do objetivo.     Em quase todos os pontos em que o movimento pangermanista falhou, eram bem e corretamente pensadas as disposições do Partido Socialista Cristão.     Ele compreendia exatamente a importância das massas e, desde o seu início, atraiu a si uma certa camada popular, pela ostensiva afirmação de seu caráter social. E desde que se dispôs a ganhar a classe média e a classe dos artesãos, ganhou permanentes e fiéis sectários, prontos para o sacrifício de si mesmos. O partido evitou combater contra quaisquer organizações representadas pela Igreja, assegurando-se, assim, o apoio dessa poderosa organização. Possuía, por isso, um único adversário verdadeiramente grande. Compreendeu o valor da propaganda em larga escala e especializou-se em influenciar psicologicamente os instintos da grande maioria de seus adeptos.     O fato de ter o partido falhado em seu sonho de salvar a Áustria foi devido aos seus métodos, que eram errados em dois sentidos, assim como à obscuridade de seus objetivos.     Em vez de ser fundado sobre base racial, o seu anti-semitismo tinha fundamento religioso. A razão por que esse erro se insinuou foi a mesma que causou o segundo erro.     Se o Partido Socialista Cristão quisesse salvar a Áustria não se deveria apoiar, na opinião de seu fundador, no princípio racial, desde que, de qualquer modo, em breve prazo, ocorreria a dissolução geral do Estado. Os chefes do partido entenderam que a situação em Viena exigia que se evitassem as tendências para a dispersão e se apoiassem todos os pontos de vista conducentes à unidade.     Naquela época, Viena se achava fortemente impregnada de elementos tchecos e nada a não ser a extrema tolerância nos problemas raciais poderia evitar que aquele partido fosse anti-germânico desde o início. - Para salvação da Áustria, aquele partido não poderia ser dispensado. Por isso fizeram esforços especiais para ganhar o grande número de pequenos negociantes tchecos de Viena pela oposição à escola liberal de Manchester e, com isso, julgavam haver descoberto um grito de guerra para a luta contra o judaísmo, luta baseada na religião, que deixaria na sombra todas as diferenças de raça da velha Áustria.     Claro é que um combate em tal base molestaria muito pouco os judeus. Na pior das hipóteses, um pouco de água benta bastaria para salvar os seus negócios e, ao mesmo tempo, o seu judaísmo.     Com essa base leviana, nunca foi possível tratar de maneira séria e científica do problema, mas apenas perderam-se muitos adeptos que não compreendiam essa espécie de anti-semitismo. Com isso a força de aliciar adeptos ficaria circunscrita quase exclusivamente a círculos intelectuais restritos, a não ser que se quisesse passar do puro sentimento para um verdadeiro do problema. A atitude das classes intelectuais era de franca negação. A questão parecia cada vez mais limitar-se a uma nova tentativa de conversão dos judeus. Tinha-se até a impressão de tratar-se de uma certa inveja de concorrente. Com isso a luta perdeu o caráter de um movimento superior e para muitos - e justamente não para os piores - tomou a aparência de imoral e reprovável. Faltava a convicção de que se tratava de uma questão vital de toda a humanidade, de cuja solução dependia o destino de todos os povos não judeus.     As meias medidas, a indecisão, haviam destruído o valor da posição anti-semítica do Partido Socialista Cristão.     Era um anti-semitismo aparente, era pior do que nada, porque o povo tinha a ilusão de segurar firmemente o seu inimigo nas mãos, quando este é que o guiava.     O judeu, porém, em curto espaço de tempo, de tal maneira se acostumara a essa espécie de anti-semitismo, que a sua supressão certamente lhe teria feito mais falta do que incômodos lhe dava a sua existência.     Se o Estado constituído de diferentes raças já exigia um sacrifício, maior ainda o exigia a defesa do germanismo.     Não se podia ser "nacionalista", a não ser que, mesmo em Viena, se quisesse deixar de sentir a terra debaixo dos pés. Esperava-se salvar o Estado dos Habsburgos contornando suavemente essa questão e, assim, o atiravam diretamente à ruína. Com isso, porém, perdeu o movimento a única poderosa fonte, de energia que pode fornecer força, duradouramente, a um partido político. O movimento cristão social tornou-se, com isso, um partido como qualquer outro. Eu havia seguido atentamente os dois movimentos, um por impulso íntimo do coração, o outro arrastado pela admiração pelo homem raro que já então me aparecia como um símbolo amargo de todo o germanismo austríaco.     Quando o formidável cortejo fúnebre conduzia o falecido burgomestre da Rathaus para a Ringstrasse, também me encontrava entre as muitas centenas de milhares de pessoas que assistiam ao espetáculo fúnebre. Intimamente comovido, dizia-me o sentimento que também a obra desse homem tinha de ser em vão, devido à fatalidade que irrecusavelmente teria de conduzir aquele Estado ao aniquilamento.     Se o Dr. Karl Lueger tivesse vivido na Alemanha, teria sido incluído entre os maiores homens de nossa raça. Foi infelicidade sua e de sua obra que tivesse vivido naquele Estado insustentável que era a Áustria.     Ao mesmo tempo de sua morte, já começava a espalhar-se vivamente, cada mês que se passava, aquela pequena chama dos Balcãs, de maneira que, por uma gentileza do destino, foi lhe poupado ver aquilo que ele acreditava poder evitar.     Eu, porém, tentei encontrar as causas do insucesso de ambos os movimentos e cheguei à convicção firme de que, abstraindo inteiramente a impossibilidade de ainda conseguir na velha Áustria o fortalecimento do Estado, os erros dos dois partidos eram os seguintes:     O partido pangermanista teoricamente tinha toda razão quanto ao objetivo da regeneração germânica, mas era infeliz na escolha de seus métodos. Era nacionalista, mas, infelizmente, não bastante social para ganhar a adesão da massa popular. O seu anti-semitismo era baseado na verdadeira apreciação da importância do problema racial e não em- teorias religiosas. Por outro lado, a sua luta contra um credo definido estava errada tanto quanto aos fatos como quanto à tática.     As idéias do movimento cristão socialista acerca do objetivo do renascimento germânico eram demasiadamente vagas, mas, como partido, era feliz e inteligente na escolha de seus métodos. Compreendia a importância da questão social, mas laborava em erro na sua luta contra os judeus e ignorava inteiramente a força do sentimento nacional.     Se o Partido Socialista Cristão possuísse, além de sua inteligente compreensão da grande massa, uma noção certa da importância do problema da raça, como a tinha apanhado o movimento pangermanista, e tivesse ele também sido nacionalista ou tivesse o movimento pangermanista adotado, além da sua compreensão certa do objetivo da questão judaica e da importância do sentimento nacional, também a inteligência prática do Partido Socialista Cristão, sobretudo quanto à atitude em relação ao socialismo - ter-se-ia produzido aquele movimento que, já então - estou convencido - poderia ter influído no destino do germanismo.     Se isso assim não aconteceu, foi devido, em grande parte, ao caráter do Estado austríaco.     Como não via a minha convicção realizada em nenhum outro partido, eu não podia me decidir a ingressar em uma das organizações existentes ou mesmo colaborar na luta. Já naquele tempo eu considerava todos os movimentos políticos falhados e incapazes de realizar o grande renascimento nacional do povo alemão.     A minha antipatia pelo Estado dos Habsburgos crescia cada vez mais, naquela época.     Quanto mais eu começava a preocupar-me sobretudo com questões de política externa, tanto mais ganhava terreno a minha convicção de que aquela estrutura estatal tinha de tornar-se- a desgraça do germanismo. Cada vez mais claramente via, enfim, que o destino da nação alemã não mais seria decidido desse lugar e, sim, do próprio Reich. Isso, porém, não dizia respeito apenas às questões políticas, mas também a todas as questões da vida cultural propriamente.     O Estado austríaco mostrava também no campo das atividades puramente culturais ou artísticas todos os sintomas de decadência, ou, pelo menos, a sua insignificância para o futuro da nação alemã. No campo da arquitetura era que mais isso se fazia sentir. A arquitetura moderna, por isso mesmo, não tinha grande êxito na Áustria, pois, após a construção da Ringstrasse, as obras, pelo menos em Viena, eram insignificantes relativamente aos grandes planos que surgiam na Alemanha.     Comecei assim a levar cada vez mais uma vida dupla; a razão e a realidade fizeram-me passar por uma tão amarga quanto abençoada escola na Áustria. Entretanto o coração andava por outros lugares. Um angustioso descontentamento me empolgara à medida que eu reconhecia a vacuidade em torno desse Estado e a impossibilidade de salvá-lo, sentindo, ao mesmo tempo, com toda a certeza, que, em tudo e por tudo, ele só poderia representar a desgraça do povo alemão.     Eu estava convencido de que o Estado se encontrava em situação de poder dominar e inutilizar qualquer alemão verdadeiramente grande e de apoiar qualquer coisa que fosse contra o germanismo.     Odiava o conglomerado de raças, checos, polacos, húngaros, rutenos, sérvios, croatas, etc. e acima de tudo aquela excrescência desses cogumelos presentes em toda parte - judeus e mais judeus.     Para mim a cidade gigante parecia a encarnação do incesto.     O alemão que eu falava na juventude era o dialeto falado na Baixa Baviera; eu não conseguia nem esquecê-lo nem aprender a gíria vienense. Quanto mais tempo eu permanecia naquela cidade, mais aumentava em mim o ódio contra a estranha mistura de raças que começava a corroer aquele velho centro cultural alemão.     A idéia, porém, de que aquele Estado pudesse manter-se por mais tempo me pareceu inteiramente ridícula.     A Áustria era então como um velho mosaico, cuja argamassa destinada a segurar as pedrinhas se tivesse tornado velha e quebradiça. A obra consegue aparentar a sua existência, mas logo que recebe um choque, quebra-se em mil pedacinhos. A questão toda era saber quando se daria esse choque.     O meu coração sempre pulsara, não por uma monarquia austríaca e sim por um império alemão. A hora da decadência desse Estado só me poderia parecer como o começo da redenção da nação alemã- Por todos esses motivos, cada vez se tornou mais intenso em mim o desejo de poder ir para o lugar para onde, desde a mais tenra juventude, me atraíam secreta ânsia e decidido amor.     Outrora eu desejara poder algum dia fazer nome como arquiteto e, em pequena ou grande escala, conforme o destino mandasse, prestar à nação o meu devotado serviço.     Finalmente, eu desejava ter a felicidade de, no local, poder desempenhar o meu papel no país onde o mais ardente desejo de meu coração tinha de ser realizado: a união de meu amado lar com a pátria, comum.     Muitas pessoas ainda hoje não poderão compreender a grandeza de uma tal ânsia. Entretanto eu me dirijo àqueles a quem o destino negou até agora essa felicidade; dirijo-me a todos aqueles que, desligados da pátria, têm de lutar até pelo bem sagrado da língua, e que, devido a seu sentimento de fidelidade à pátria, são perseguidos e martirizados e que, dolorosamente comovidos, esperam ansiosamente a hora que os deixe voltar de novo ao coração da mãe querida; dirijo-me a todos esses e sei que eles me compreenderão!     Só aquele que sente dentro de si o que significa ser alemão sem poder pertencer à pátria querida é que poderá medir a profunda ânsia que em todos os tempos atormenta aqueles que dela se acham possuídos e nega-lhes satisfação e felicidade até que se lhe abram as portas da casa paterna e no Reich comum o sangue comum torne a encontrar paz e sossego.     Viena era e permaneceu para mim a mais rude, embora mais completa, escola de minha vida. Eu pisara essa cidade ainda meio criança e abandonei-a já homem feito. Nela recebi os fundamentos de uma concepção política em pequena escala, que mais tarde ainda tive de completar em detalhes, porém que nunca mais me abandonara. O verdadeiro valor daqueles anos de aprendizado só hoje é que posso apreciar plenamente.     Por isso é que tratei esse período mais desenvolvidamente, pois 'foi ele justamente que nessas questões me proporcionou a primeira lição de coisas em problemas que afetam os princípios do partido, o qual, tendo começado em mui pequenas proporções, se acha, depois de apenas cinco anos, em vias de tornar-se um grande movimento popular. Não sei qual seria hoje a minha atitude em face do judaísmo, da social-democracia, de tudo o que se entende por marxismo, por questão social, etc., se a força do destino, naquele primeiro período de minha vida, não me tivesse dado um fundamento de opiniões formado pela experiência pessoal.     Pois, se bem que a desgraça da pátria consegue estimular milhares e milhares de pessoas a pensarem nas causas íntimas da derrocada, esse fato não consegue nunca conduzir àquela profundidade, àquela aguda intuição que se abre para aquele que, somente depois de muitos anos de luta, se tornou senhor do destino.

CAPÍTULO IV - MUNIQUE

     Na primavera de 1912 fui definitivamente para Munique.     Aquela cidade parecia-me tão familiar como se eu tivesse morado há longo tempo dentro de seus muros. Isso provinha do fato de que os meus estudos a cada passo se reportavam a essa metrópole da arte alemã. Quem não conhece Munique não viu a Alemanha, quem não viu Munique não conhece a arte alemã.     Entretanto, esse período anterior à guerra foi o mais feliz e tranqüilo de minha vida. Se bem que os meus salários fossem ainda muito reduzidos, eu não vivia para poder pintar, mas pintava para dessa maneira, assegurar a minha vida ou, melhor, para assim poder continuar os meus estudos. Eu estava convencido de que um dia ainda conseguiria o meu objetivo. E só isso já me fazia suportar com indiferença todos os pequenos aborrecimentos da vida quotidiana. Acrescente-se mais o grande amor que eu tinha por aquela cidade, quase que desde a primeira hora da minha permanência ali. Uma cidade alemã! Que diferença de Viena! Sentia-me mal em pensar naquela babel de raças. Além disso, o dialeto muito mais chegado a mim, me fazia lembrar a minha juventude, sobretudo no trato com a Baixa Baviera. Havia milhares de coisas que já eram ou com o tempo se me tornaram caras. O que, porém, mais me atraía era a admirável aliança da força e da arte no ambiente geral, essa linha única de monumentos que vai do Hofbräuhaus ao Odeon, da Ocktoberfest à Pinacoteca. Sinto-me hoje pertencer mais àquela cidade do que a qualquer outro lugar do mundo e isso devido ao fato de estar a mesma inseparavelmente ligada à minha própria vida, à minha evolução. O fato de, já naquela ocasião, eu gozar uma verdadeira tranqüilidade, era de atribuir-se ao encanto que a admirável residência de Witteisbach exerce sobre todos os homens que possuam qualidades intelectuais aliadas a sentimentos artísticos.     O que, afora os trabalhos de minha profissão, mais me atraía, era o estudo dos acontecimentos políticos do dia, sobretudo os da política externa. Eu cheguei a estes através dos rodeios da política alemã de aliança, a qual, desde os meus tempos da Áustria, considerava absolutamente falsa. Apenas não compreendera, em Viena, em toda a sua extensão, como o Reich a si mesmo se enganava, com a prática daquela política. Já naquela época estava eu inclinado a admitir - ou procurava convencer-me a mim mesmo, exclusivamente como desculpa - que possivelmente em Berlim já se sabia quão fraco e pouco merecedor de confiança seria na realidade o aliado austríaco, o que, entretanto, por motivos mais ou menos secretos, se mantinha sob reserva, a fim de apoiar uma política de aliança que o próprio Bismarck havia inaugurado e cujo abandono brusco não era aconselhável, para não assustar o estrangeiro ou inquietar o povo, no interior.     Entretanto, as minhas relações, sobretudo entre o povo, fizeram que muito depressa verificasse, horrorizado, que essa minha convicção era falsa. Com grande surpresa minha, tive de constatar, em toda parte, que, mesmo nos círculos bem informados, não se tinha a mais pálida idéia do caráter da monarquia dos Habsburgos. Justamente entre o povo dominava a persuasão de que o aliado devia ser considerado uma potência de verdade que, na hora do perigo, agiria como um só homem. No seio da massa, considerava-se sempre a Monarquia como um Estado "alemão" e pensava-se também poder contar com ela. Pensava-se que a força nesse caso também podia ser computada por milhares, como por exemplo na própria Alemanha, e esquecia-se, inteiramente:1.°) que, há muito tempo. a Áustria deixara de ser um Estado de caráter alemão; 2.°) que as condições internas daquele país cada vez mais tendiam para a desagregação.     Naquele tempo se conhecia melhor aquela estrutura de Estado do que a chamada "diplomacia" oficial, a qual, como quase sempre, cambaleava cegamente para a fatalidade. A disposição de ânimo do povo nada mais era que o resultado daquilo que de cima se despejava na opinião pública. Os de cima, porém, mantinham pelo aliado um culto como pelo bezerro de ouro. Esperava-se poder substituir por habilidade aquilo que faltava em sinceridade. Tomavam-se sempre as palavras como valores reais.     Em Viena eu me encolerizava ao constatar a diferença que, de tempos a tempos, aparecia entre os discursos dos estadistas oficiais e o modo de expressar-se da imprensa local. Entretanto, Viena era, ao menos aparentemente, uma cidade alemã. Como eram diferentes as coisas, quando se saia de Viena, ou melhor da Áustria alemã, e se caía nas províncias eslavas do Reich! Bastava que se manuseassem os jornais de Praga para saber-se de que maneira era ali julgada a sublime fantasmagoria da Tríplice Aliança. Ali só havia cruel ironia e sarcasmo para essa obra-prima dos "estadistas". Em plena paz, enquanto os dois imperadores trocavam entre si o beijo da amizade, ninguém ocultava que essa aliança desapareceria no dia em que se tentasse, do mundo de fantasias, - espécie de ideal dos Nibelungen - transportá-la para a realidade prática.     Quanta excitação houve quando, alguns anos depois, chegada a hora da prova da Tríplice Aliança, a Itália abandonou-a, deixando os seus dois companheiros, para, enfim, transformar-se em inimiga! A não ser para aqueles que estivessem atacados de cegueira diplomática, era simplesmente incompreensível que, mesmo por um minuto, se pudesse acreditar no milagre de vir a Itália a combater ao lado da Áustria. Entretanto, as coisas na Áustria não se passavam de modo diferente.     Na Áustria, só os Habsburgos e os alemães eram adeptos da idéia de aliança. Os Habsburgos por cálculo e necessidade; os alemães por credulidade e estupidez política. Por credulidade, porque eles pensavam, por meio da Tríplice Aliança, prestar um grande serviço à Alemanha, fortalecê-la e protegê-la; por estupidez política, porém, porque o que eles imaginavam não correspondia à realidade, pois que estavam apenas concorrendo para acorrentar o Império à carcassa de um Estado morto, que teria de arrastá-los ao abismo, sobretudo porque aquela aliança contribuía para, cada vez mais, desgermanizar a própria Áustria. Porque, desde que os Habsburgos acreditavam que uma aliança com o Império poderia garanti-los contra qualquer interferência de parte deste - e infelizmente nisso tinham razão - eles ficavam capacitados a continuarem na sua política de livrar-se, gradualmente, da influência germânica no interior, com mais facilidade e menos risco. Eles tinham que temer qualquer protesto de parte do governo alemão, que era conhecido pela "objetividade" de seu ponto de vista e, além disso, tratando com os austríacos alemães, podiam sempre fazer calar qualquer voz impertinente que se levantasse contra qualquer feio exemplo de favoritismo para com os eslavos, com uma simples referência à Tríplice Aliança.     Que poderia fazer o alemão na Áustria, se o próprio alemão do Império exprimia reconhecimento e confiança no governo dos Habsburgos?     Deveria oferecer resistência para depois ser estigmatizado por toda a opinião pública alemã como traidor da própria nacionalidade? Ele, que há dezenas de anos vinha fazendo os maiores sacrifícios pela sua nacionalidade!     Que valor, porém, possuía essa aliança, caso tivesse sido destruído o germanismo da monarquia dos Habsburgos. Não era, para a Alemanha, o valor da Tríplice Aliança, dependente da manutenção da hegemonia alemã na Áustria? Ou acreditava-se, por acaso, que mesmo com a eslavização do Império dos Habsburgos, se pudesse manter a aliança?     A atitude da diplomacia alemã oficial, bem como também de toda a opinião pública com relação ao problema interno das nacionalidades na Áustria, não era simplesmente uma tolice mas uma verdadeira loucura! Contava-se com uma aliança, fazia-se o futuro e a segurança de um povo de setenta milhões de habitantes dependerem dela - e ficava-se observando, impassível, como, de ano para ano, a única base para essa aliança era sistematicamente, infalivelmente destruída pelo aliado! Chegaria o dia em que restaria apenas um "tratado" com a diplomacia vienense, mas o auxílio do aliado do Império faltaria no momento oportuno.     Na Itália isso se verificara desde o princípio.     Se se tivesse feito um estudo mais inteligente da história da Alemanha e da psicologia da raça, ninguém poderia ter acreditado, por um instante, que o Quirinal de Roma e o Hofburg de Viena viessem um dia a lutar, lado a lado, em uma frente única de batalha. A Itália se transformaria num vulcão antes que qualquer governo ousasse enviar um só italiano a combate. O Estado dos Habsburgos era fanaticamente odiado. Os italianos só poderiam marchar como inimigos! Mais de uma vez vi flamejar em Viena o apaixonado desdém e insondável ódio que mantinham os italianos contra o Estado austríaco. Os erros e crimes da Casa de Habsburgo, no decurso dos séculos, contra a liberdade e a independência da Itália, eram demasiado grandes para jamais serem esquecidos, mesmo na hipótese de haver qualquer desejo nesse sentido. Não havia tal desejo nem entre o povo nem de parte do governo italiano. Para a Itália, por isso, só havia dois modos possíveis de tratar com a Áustria - a aliança ou a guerra.     Tendo escolhido o primeiro, podiam eles preparar-se calmamente para o segundo.     A política alemã de aliança era ao mesmo tempo inexpressiva e arriscada, especialmente desde que as relações da Áustria para com a Rússia tendiam crescentemente para uma solução pela guerra.     Foi esse um caso clássico, em que se pôde constatar a falta de grandiosas e acertadas linhas de conduta.     Por que, pois, foi concluída uma aliança? Simplesmente para garantir o futuro do Reich, quando ele estava em posição de manter-se sobre os próprios pés. O futuro do Reich estava na política de habilitar, por todos os meios, a nação alemã a continuar existindo.     Por conseqüência, o problema deveria ter sido posto assim: que forma deverá assumir a vida da nação alemã em um futuro tangível? E como se poderá garantir a essa evolução os necessários fundamentos e a necessária segurança, no quadro do concerto das potências européias?     Considerando claramente as condições para a atividade da política externa, tinha-se de fatalmente chegar à seguinte convicção:     A Alemanha tem um acréscimo de população de, aproximadamente, 900 mil almas por ano. A dificuldade de alimentação desse exército de novos cidadãos tem de aumentar de ano para ano e acabar finalmente numa catástrofe, caso se não encontrem meios de, em tempo, dominar o perigo da miséria e da fome.     Havia quatro caminhos para evitar esse tremendo desenlace.     1° Podia-se, a exemplo da França, limitar artificialmente o acréscimo de nascimentos e, com isso, impedir uma superpopulação.     A própria natureza costuma agir no sentido de limitar o aumento de população de determinadas terras ou raças, em épocas de grandes necessidades ou más condições climáticas, bem como de pobreza do solo; e isso com um método tão sábio quão inexorável. Ela não impede a capacidade de procriação em si e sim, porém, a conservação dos rebentos, fazendo com que eles fiquem expostos a tão duras provações que o menos resistente é forçado a voltar ao seio do eterno desconhecido, o que ela deixa sobreviver às intempéries está milhares de vezes experimentado e capaz de continuar a produzir, de maneira que a seleção possa recomeçar. Agindo desse modo brutal contra o indivíduo e chamando-o de novo momentaneamente a si, desde que ele não seja capaz de resistir à tempestade da vida, a natureza mantém a raça, a própria espécie, vigorosa e a torna capaz das maiores realizações.     A diminuição do número, por esse processo, redunda em um reforço da capacidade do indivíduo e, por conseguinte, em última análise, em um revigoramento da espécie.     As coisas se passam de outra maneira quando é o homem que toma a iniciativa de provocar a limitação de seu número. Ai é preciso considerar não só o fator natural como o humano. O homem sabe mais que essa cruel rainha de toda a sabedoria - a natureza. Ele não limita a conservação do indivíduo, mas a própria reprodução. Isso lhe parece, a ele que sempre tem em vista a si mesmo e nunca à raça, mais humano e mais justificado que o inverso. Infelizmente, porém, as conseqüências são também inversas.     Enquanto a natureza, liberando a geração, submete, entretanto, a conservação da espécie a uma prova das mais severas, escolhendo dentro de um grande número de indivíduos os que julga melhores e só a estes conserva para a perpetuação da espécie, o homem limita a procriação e se esforça, aferradamente, para que cada ser, uma vez nascido, se conserve a todo preço. Essa correção da vontade divina lhe parece ser tão sábia quanto humana e ele alegra-se de, mais uma vez, ter sobrepujado a natureza e até de ter provado a insuficiência da mesma. E o filho de Adão não quer ver nem ouvir falar que, na realidade, o número é limitado, mas à custa do apoucamento do indivíduo.     Sendo limitada a procriação e diminuído o número dos nascimentos, sobrevem, em lugar da natural luta pela vida, que só deixa viverem os mais fortes e mais sãos, a natural mania de conservar e "salvar" a todos, mesmo os mais fracos, a todo preço. Assim se deixa a semente para uma descendência que será tanto mais lamentável quanto mais prolongado for esse escárnio contra a natureza e suas determinações.     O resultado final é que um tal povo um dia perderá o direito à existência neste mundo, pois o homem pode, durante um certo tempo, desafiar as leis eternas da conservação, mas a vingança virá mais cedo ou mais tarde. Uma geração mais forte expulsará os fracos, pois a ânsia pela vida, em sua última forma, sempre romperá todas as correntes ridículas do chamado espírito de humanidade individualista, para, em seu lugar, deixar aparecer uma humanidade natural, que destrói a debilidade para dar lugar à força.     Aquele, pois, que quiser assegurar a existência ao povo alemão limitando a sua multiplicação, rouba lhe com isso o futuro.     2° Outro caminho seria aquele que hoje em dia freqüentemente ouvimos aconselhado e louvado: a chamada colonização interna. Essa é uma proposta que muitos fazem, na melhor das intenções, que é, porém, mal compreendida pela maioria e que pode trazer, por isso, os maiores prejuízos imagináveis. Sem dúvida, a capacidade produtiva de um terreno pode ser elevada até determinado limite. Mas só até esse limite determinado e não infinitamente mais. Durante um certo lapso, poder-se-á, portanto, compensar, sem perigo de fome, a multiplicação do povo alemão por meio do aumento do rendimento de nosso solo. Entretanto, a isso se opõe o fato de crescerem as necessidades da vida mais do que o número da população. As necessidades humanas com relação ao alimento e ao vestuário crescem de ano para ano e, por exemplo, já hoje em dia, não estão em proporção com as necessidades de nossos antepassados de cem anos atrás. É, pois, errôneo pensar que cada elevação da produção provoque a condição necessária a uma multiplicação da população. Isso se dá até um certo ponto, pois que ao menos uma parte do aumento da produção do solo é consumida na satisfação das necessidades superiores da humanidade. Entretanto, com a máxima parcimônia de um lado e a máxima diligencia por outro lado, chegará um dia em que um limite será atingido pelo próprio solo. Mesmo com toda a diligência, não será possível aproveitá-lo mais e surgirá, embora protelada por algum tempo, uma nova calamidade. A fome aparecerá de tempos em tempos, quando houver má colheita. Com o aumento da população, isso se dará cada vez mais, de sorte que isso só não aparecerá quando raros anos de riqueza encherem os armazéns de víveres. Entretanto, finalmente, aproximar-se-á a época em que não se poderá mais atender à miséria e a fome, então, tornar-se-á a companheira de um tal povo. A natureza terá de prestar auxílio de novo e proceder à seleção entre os escolhidos, destinados a viver; ou então é o próprio homem que a si mesmo se auxilia, lançando mão do impedimento artificial de sua reprodução com todas as graves conseqüências para a raça e para a espécie. Poder-se-á ainda objetar que esse futuro está destinado a toda a humanidade, de uma maneira ou de outra, e que, portanto, nenhum povo conseguirá naturalmente escapar a essa fatalidade.     À primeira vista, sem mais considerações, isso está certo. Há, também, a considerar o seguinte: numa determinada época, toda a humanidade será certamente forçada a interromper o aumento do gênero humano ou a deixar a natureza decidir, por si própria. Essa situação atingirá a todos os povos, mas atualmente só serão atingidas por essa miséria as raças que não possuem energia suficiente para assegurarem para si o solo necessário. Ninguém contesta que, hoje em dia, ainda há neste mundo solo em extensão formidável e que só espera quem o queira cultivar. Da mesma forma também é certo que esse solo não foi reservado pela natureza para uma determinada nação ou raça, como superfície de reserva para o futuro. Trata-se, sim, de terra e solo destinados ao povo que possua a energia de o conquistar e a diligência de o cultivar.     A natureza não conhece limites políticos. Preliminarmente, ela coloca os seres neste globo terrestre e fica apreciando o jogo livre das forças. O mais forte em coragem e em diligência recebe o prêmio da existência, sempre atribuído ao mais resistente.     Quando um povo se limita à colonização interna, enquanto outras raças se agarram a cada vez maiores extensões territoriais, será forçado a restringir as suas necessidades, em uma época em que os outros povos ainda se acham em constante multiplicação. Esse caso dá-se tanto mais cedo quanto menor for o espaço à disposição de um povo. Como, porém, em geral, infelizmente, as melhores nações, ou mais corretamente falando, as únicas raças verdadeiramente culturais, portadoras de todo o progresso humano, muitas vezes se resolvem na sua cegueira pacifista a desistir de nova aquisição de solo, contentando-se com a colonização "interna", nações inferiores sabem assegurar-se enormes territórios. Tudo isso conduz a um resultado final:     As raças culturalmente melhores, mas menos inexoráveis, teriam de limitar a sua multiplicação, por força da limitação do solo, ao passo que os povos culturalmente mais baixos, naturalmente mais brutais, ainda estariam, em conseqüência da maior superfície disponível, em condições de se reproduzirem ilimitadamente, por outras palavras, dia viria em que o mundo passaria a ser dominado por uma humanidade culturalmente inferior, porém mais enérgica.     Assim, para um futuro não muito remoto, só há duas possibilidades: ou o mundo será governado nos moldes de nossas modernas democracias e então o fiel da balança decidirá a favor das raças numericamente mais fortes, ou o mundo será - governado segundo as leis da ordem natural e vencerão então os povos de vontade brutal e, por conseqüência, não a nação que se limita a si mesma.     O que ninguém poderá duvidar é que o mundo será exposto às mais graves lutas pela existência da humanidade. No fim, vence sempre o instinto da conservação. Sob a pressão deste, desaparece o que chamamos espírito de humanidade como expressão de uma mistura de tolice, covardia e pretensa sabedoria, tal qual a nave ao sol de março. A humanidade tornou-se grande na luta eterna, na paz eterna ela perecerá.     Para nós, alemães, porém, a senha da colonização interna já é funesta, pois, entre nós, ela imediatamente reforça a opinião de termos achado um meio que, de acordo com o espírito pacifista, permite podermos numa vida de torpor, "ganhar" a existência. Essa doutrina, tomada a sério entre nós, significa o fim de todo o esforço no sentido de conservarmos no mundo o lugar que nos compete. Desde que o alemão médio se tenha convencido de poder garantir-se por esse meio a vida e o futuro, qualquer tentativa de uma interpretação ativa e, portanto, frutuosa, das necessidades vitais da Alemanha estaria perdida. Toda política externa verdadeiramente útil poderia ser considerada impossível com uma tal opinião da nação, e, com isso, o futuro do povo alemão estaria prejudicado.     Tendo-se em vista essas conseqüências, deve-se concordar que não é por acaso que, em primeira linha, são sempre os judeus que procuram e sabem inocular, no espírito do povo, tão perigosas idéias, aliás mortalmente perigosas. Eles conhecem muito bem as pessoas com que têm de tratar para não saberem que essas são vitimas agradecidas de qualquer charlatão que lhes diga haver sido descoberto o meio de enganar a natureza, de modo a tornar supérflua a dura e inexorável luta pela existência, para, em seu lugar, ora com trabalho ou mesmo sem nada fazer, conforme calha a cada um, assenhorear-se do planeta.     Não é nunca demasiado insistir em que toda colonização alemã interna tem de servir, em primeiro plano, para evitar males sociais, sobretudo para livrar a terra da especulação geral. Entretanto nunca poderá ser suficiente para assegurar o futuro da noção sem a conquista de novos territórios.     Se agirmos de outra maneira, não só chegaremos a esgotar as nossas terras como também as nossas forças.     Finalmente, há a constatar ainda o seguinte:     A limitação, implícita, na colonização interna, a uma determinada pequena superfície de solo, bem como o efeito final que se lhe segue da restrição da reprodução, conduz o povo a uma situação político-militar extraordinariamente desfavorável.     A garantia da segurança externa de um povo depende da extensão de seu "habitat". Quanto maior for o espaço de que um povo disponha, tanto maior é sua proteção natural; pois sempre foram conseguidas vitórias militares mais rápidas e, por isso mesmo, mais fáceis e especialmente mais eficientes e mais completas contra povos apertados em pequenas superfícies de terra do que contra Estados de vasta extensão territorial. Na grandeza do território há, pois, sempre, uma certa proteção contra ataques repentinos, visto como o êxito só será conseguido após longas e severas lutas e, por isso, o risco de um ataque temerário parecerá demasiado grande, a não ser que existam motivos excepcionais. Na vastidão territorial, em si mesma, já existe uma base para a fácil conservação da liberdade e da independência de um povo, enquanto que, ao contrário, a pequenez territorial como que desafia a conquista.     De fato, as duas primeiras possibilidades para se conseguir um equilíbrio entre a população crescente e o solo invariável em grandeza, foram rejeitadas pelos chamados círculos nacionais do Reich. Os motivos que determinaram essa atitude eram, entretanto, outros que os indicados acima. Relativamente à limitação dos nascimentos, a atitude era de recusa, em primeiro lugar por um certo sentimento moral. A colonização interna era repelida com desapontamento, pois que se farejava, nela, um ataque contra a grande propriedade rural e o começo de uma luta geral contra a propriedade particular. Pela forma por que sobretudo essa última terapêutica era recomendada podia-se imediatamente ver a condenação dessa hipótese.     De um modo geral, a defesa em face da grande massa não era muito hábil e de modo algum atingia o âmago do problema.     Em face disso, só restavam dois caminhos- para assegurar um trabalho são à população crescente.     3° Podiam-se adquirir novos territórios, a fim de, anualmente, derivar os milhões excedentes, conservando dessa maneira a nação em condições de poder alimentar-se a si mesma, ou se passaria a:     4° Produzir, por meio da indústria e do comércio, para o consumo estrangeiro, a fim de, por esse modo, garantir a vida do povo.     Portanto, política rural, colonial ou comercial.     Ambos os caminhos foram, sob vários pontos de vista, considerados, examinados, recomendados e combatidos.     O primeiro ponto de vista sem dúvida teria sido o mais são dos dois. A aquisição do novo território para nele acomodar o excesso da população encerra vantagens infinitamente maiores, especialmente se se toma em consideração o futuro e não o presente.     Só as vantagens da conservação de uma classe de camponeses, como fundamento de toda a nação, são enormes. Muitos dos nossos males atuais não são mais que a conseqüência do desequilíbrio entre o povo dos campos e o das cidades. Uma base firme constituída de pequenos e médios camponeses foi, em todos os tempos, a melhor defesa contra as enfermidades sociais do gênero das que nos afligem hoje em dia. Essa é também a única saída que permite a um povo encontrar o pão de cada dia nos limites da sua vida econômica. A indústria e o comércio recuam de sua posição de dirigentes e se colocam no quadro geral de uma economia nacional de consumo e compensação. Ambos não são mais a base de alimentação do povo e sim um auxílio para a mesma. Dispondo eles de uma compensação entre a produção e o consumo, tornam toda a alimentação do povo mais ou menos independente do exterior. Ajudam, portanto, a assegurar a liberdade do Estado e a independência da nação, sobretudo nos dias graves.     Entretanto, uma tal política rural não poderá ser realizada, por exemplo, no Camerun e sim quase que exclusivamente na Europa. Calma e modestamente, temos de colocar-nos no ponto de vista de que certamente não deve ter sido a intenção do céu dar a um povo cinqüenta vezes mais terra do que a outro. Nesse caso, os limites políticos não devem afastar-se dos limites do direito eterno. Se é verdade que o mundo tem espaço para todos viverem, então que se nos dê também o solo necessário à nossa vida.     Isso naturalmente não será feito de boa vontade. O direito da própria conservação fará então sentir os seus efeitos; e o que é negado por meios suasórios tem de ser tomado à força.     Tivessem os nossos antepassados feito depender as suas decisões de tolices pacifistas, como se faz atualmente, e não possuiríamos mais que um terço do nosso atual território. Não é a isso que devemos as duas Marcas orientais do Reich e, com elas, a força interior da grandeza do domínio territorial de nosso Estado, o que nos tem permitido existir até hoje.     Há outra razão para que essa solução seja considerada correta:     Muitos Estados europeus de hoje são semelhantes a pirâmides que se sustêm sobre o seu vértice. As suas possessões na Europa são ridículas comparativamente com a sua pesada carga de colônias, comércio estrangeiro, etc. Poder-se-ia dizer: ponto na Europa e base em todo o mundo. Inversa é a situação dos Estados Unidos, cuja base está sobre o seu próprio continente e cujo ápice é o seu ponto de contato com o resto do globo. Daí a grande força interna daquele Estado e a fraqueza da maioria das potências colonizadoras européias.     Mesmo a Inglaterra não é prova em contrário, pois sempre nos inclinamos a esquecer a verdadeira natureza do mundo anglo-saxão em relação ao Império britânico. Pelo fato de possuir a mesma língua e a mesma cultura que os Estados Unidos, a Inglaterra não pode ser comparada com nenhum outro Estado da Europa.     Por isso, a única esperança de realizar a Alemanha uma política territorial sadia está na aquisição de novas terras na própria Europa. As colônias são inúteis para esse fim, por parecerem impróprias para o estabelecimento de europeus em grande número. Entretanto, no século dezenove, já não era mais possível adquirir, por métodos pacíficos, tais territórios para efeitos de colonização. Uma política de colonização dessa espécie só poderia ser realizada por meio de uma luta áspera, que seria mais razoável se aplicada na obtenção de território no continente, próximo da pátria, de preferência a quaisquer regiões fora da Europa.     Uma tal decisão exige, porém, a solidariedade de toda a nação. Não é possível abordar, com meias medidas ou com hesitações, uma tarefa cuja execução só é viável pelo emprego de toda a energia nacional. A direção política do Reich teria de dedicar-se exclusivamente a esse fim; nenhum passo deveria ser dado por outras considerações que não fosse o reconhecimento dessa tarefa e das condições pare o seu êxito. Deveria ficar bem claro que esse objetivo só poderia ser atingido em luta, tendo-se tranqüilamente em mira o movimento das armas.     Todas as alianças deveriam ser examinadas exclusivamente sob esse ponto de vista e apreciadas quanto à sua utilidade nesse objetivo. Houvesse o desejo de adquirir territórios ria Europa e isso teria de dar-se de um modo geral à custa da Rússia. O novo Reich teria de novamente pôr-se em marcha na estrada dos guerreiros de outrora, a fim de, com a espada alemã, dar ao arado alemão a gleba e à nação o pão de cada dia.     Para uma tal política só havia um possível aliado na Europa: Inglaterra.     A Grã-Bretanha era a única potência que poderia proteger a nossa retaguarda, suposto que déssemos início a uma nova expansão germânica. Teríamos tanto direito de fazê-lo quanto tiveram os nossos antepassados. Nenhum dos nossos pacifistas se nega a comer o pão do Oriente, embora o primeiro arado outrora tivesse sido a espada.     Nenhum sacrifício deveria ser considerado demasiado grande nesse trabalho de conquistar as simpatias da Inglaterra. Dever-se-ia renunciar às colônias e ao poderio naval, e evitar a concorrência à indústria britânica.     Somente uma atitude absolutamente clara poderia conduzir a um tal objetivo: renúncia a uma marinha de guerra alemã, concentração de todas as forças do Estado no exército. Ê verdade que o resultado seria uma limitação temporária, entretanto abrir-se-iam os horizontes para um grande futuro.     Houve uma época em que a Inglaterra nos daria atenção nesse sentido, porque ela compreendia muito bem que, devido a sua crescente população, a Alemanha teria de procurar qualquer saída e de achá-la na Europa, com o auxílio inglês, ou, sem esse auxílio, em qualquer outra parte do mundo.     A tentativa para se obter uma aproximação com a Alemanha, feita no dobrar do século, foi devida em tudo e por tudo a esse sentimento. Mas aos alemães não agradava "tirar as castanhas do fogo" para a Inglaterra, - como se fosse possível uma aliança sobre outra base que não a da reciprocidade. Baseado nesse princípio, o negócio poderia muito bem ter sido feito com a Inglaterra. A diplomacia britânica era bastante hábil para saber que nada era lícito esperar sem reciprocidade.     Imaginemos que a Alemanha, com uma hábil política exterior, tivesse representado o papel que o Japão representou em 1904, e, dificilmente, poderemos prever as conseqüências que isso teria tido para o país.     Jamais teria havido a "Guerra Mundial".     No ano de 1904, o sangue teria sido dez vezes menos que o que se derramou em 1914-18.     Mas que posição ocuparia a Alemanha, hoje em dia, no mundo!     Sobretudo a aliança com a Áustria foi uma idiotice.     Essa múmia de Estado uniu-se à Alemanha não para lutar com ela na guerra mas para conservar uma eterna paz, a qual então poderia ser utilizada, de uma maneira inteligente, para a destruição lenta porém segura do germanismo na Monarquia. Essa aliança era absolutamente inviável, pois que não se poderia esperar por muito tempo uma defesa ofensiva dos interesses nacionais alemães em um Estado que não possuía nem a força nem a decisão para limitar o processo de desgermanização nas suas fronteiras imediatas. Se a Alemanha não possuía consciência nacional bastante e também a impavidez para arrancar ao impossível Estado dos Habsburgos o mandato sobre o destino de dez milhões de irmãos de raça, não se poderia, então, na verdade, esperar que jamais ela recorres. se a planos de tão larga visão e tão audaciosos. A atitude do velho Reich em relação ao problema austríaco foi a pedra-de-toque de sua atitude na luta decisiva de toda a nação.     Ninguém observava como, ano a ano, o germanismo era cada vez mais oprimido e que o valor da aliança, de parte da Áustria, era determinado exclusivamente pela conservação dos elementos alemães. Mas absolutamente não se seguiu esse caminho.     Nada temiam tanto como a luta e, finalmente, na hora mais desfavorável, foram constrangidos a ela.     Queriam fugir ao destino e foram surpreendidos por ele. Sonhavam com a conservação da paz do mundo e caíram na guerra mundial.     E esse foi o mais importante motivo porque não se deu o devido valor a essa terceira saída para a garantia do futuro alemão. Sabia-se que a conquista do novo solo só podia ser alcançada a leste. A luta necessária foi prevista, mas o que se queria a todo preço era a paz. A senha da política externa há muito que não era mais a conservação da nação alemã a todo transe, mas a conservação da paz universal, por to. dos os meios. Ainda voltarei a falar mais detalhadamente sobre esse ponto.     Assim, restava ainda a quarta possibilidade: indústria e comércio universais, poder naval e colônias.     Um tal desenvolvimento era na verdade mais fácil e mais rapidamente acessível. O povoamento do solo é um processo mais lento e que dura, às vezes, séculos. É, porém, justamente nisso que se deve procurar a sua força intrínseca. Não se trata de um flamejar repentino, mas de um crescimento lento, mas fundamental e constante, em contraposição a um desenvolvimento industrial que pode ser improvisado no correr de poucos anos, assemelhando-se, porém, mais a uma bolha de sabão que a força solida, É verdade que mais rapidamente se constrói uma esquadra do que, em luta tenaz, se erige uma estância e coloniza-se a mesma com lavradores; entretanto aquela também mais facilmente se aniquila do que esta última. Contudo, se a Alemanha, não obstante, trilhava esse caminho, ao menos deveria reconhecer-se claramente que esse programa um dia acabaria em luta, só crianças imaginariam que se pode conseguir o desejado alimento, pela boa conduta e pela declaração de sentimentos de paz, na "concorrência pacífica dos povos", como tanto e tão suntuosamente se tagarelava sobre esse assunto, como se tudo se pudesse obter sem lançar mão das armas.     Não. Se continuássemos a trilhar esse caminho, a Inglaterra um dia se tornaria nossa inimiga. Nada mais insensato do que o desapontamento que experimentamos, pelo fato de a Inglaterra tomar um dia a liberdade de enfrentar a nossa tendência pacifista com a crueldade do egoísta violento. Só a nossa reconhecida ingenuidade se poderia surpreender com esse desfecho.     Nunca deveríamos ter agido assim!     Se uma política de aquisição territorial na Europa só poderia ser feita em aliança com a Inglaterra contra a Rússia, uma política de colônias e de comércio mundial, por outro lado, só seria concebível em uma aliança com a Rússia contra a Inglaterra. Nesse caso, dever-se-ia chegar inexoravelmente às últimas conseqüências, pondo se a Áustria à margem.     Considerada sob todos os pontos de vista, essa aliança com a Áustria era, já no dobrar do século, uma verdadeira loucura.     Entretanto, não se pensava numa aliança com a Rússia contra a Inglaterra, nem tão pouco com a Inglaterra contra a Rússia, pois, em ambos os casos, o resultado teria sido a guerra e, para evitá-la, é que se decidiu adotar a política comercial e industrial. A conquista "econômica pacifica" era uma receita que de uma vez por todas estava destinada a dar um golpe decisivo na política de violência de até então. Talvez não houvesse completa confiança nessa política, sobretudo tendo-se em vista que, de tempos a tempos, surgiam, vindas do lado da Inglaterra, ameaças inteiramente incompreensíveis. Finalmente capacitaram-se os alemães da necessidade de construir-se uma frota, não com o propósito de atacar e destruir, mas para defender a paz mundial e para a "conquista pacífica do mundo". Por isso tiveram de mantê-la em escala modesta, não somente quanto ao número mas também quanto à tonelagem de cada navio e ao respectivo armamento, de modo a tornar evidente que o seu fim último era pacífico.     Conversar em "conquista pacífica do mundo" foi a maior loucura que já se tomou como princípio dirigente de uma política nacional, especialmente porque não se recuava em citar a Inglaterra para provar que era possível pô-la em prática. O mal feito pelos nossos professores com o seu ensinamento de história e com suas teorias dificilmente pode ser remediado e apenas prova, de modo evidente, quantas pessoas "ensinam" história sem compreendê-la, sem percebê-la. Exatamente na Inglaterra ter-se-ia de reconhecer uma evidente refutação à teoria. De lato, nenhuma outra nação se preparou melhor para a conquista econômica, mesmo com a espada ou mais tarde a sustentou mais inexoravelmente que a inglesa. Não é a característica dos estadistas ingleses tirarem lucro econômico da força política e imediatamente transformarem o lucro econômico em força política? Assim foi um erro completo imaginar que a Inglaterra seria demasiado covarde para derramar o seu sangue em defesa de sua política econômica. O fato de não possuírem os ingleses um exército nacional não era prova em contrário; porque não é a forma das forças militares que importa, mas antes a vontade e a determinação de força existente. A Inglaterra sempre possuiu os armamentos de que necessitava. Sempre lutou com as armas precisas para garantir o êxito da sua política. Lutou com mercenários enquanto os mercenários bastavam aos seus planos, mas lançou mão do melhor sangue de toda a nação quando tal sacrifício foi necessário para assegurar a vitória. Sempre teve a determinação de lutar e sempre foi tenaz e inexorável na sua maneira de conduzir a guerra.     Na Alemanha, entretanto, com o correr do tempo se estimulava, por meio das escolas, da imprensa e dos jornais humorísticos, a que se tivesse da vida inglesa e mais ainda do Império uma idéia própria a conduzir a inoportuna decepção; porque tudo gradualmente se contaminou com essa tolice e o resultado foi a opinião falsa sobre os ingleses, que se traduziu em amarga desforra por parte deles, Essa idéia correu tão largamente que toda a gente estava convencida de que o inglês, tal qual o imaginavam, era um homem de negócios, ao mesmo tempo ladino e incrivelmente covarde. Jamais ocorreu aos nossos dignos mestres da ciência professoral que um Império vasto como o Império britânico não poderia ser fundado e conservado unido apenas com astúcia e métodos escusos. Os primeiros que advertiram sobre esse assunto não foram ouvidos ou tiveram de ficar em silêncio. Recordo-me perfeitamente do espanto de meus camaradas quando nos enfrentamos com os "Tommies" em Flandres. Depois dos primeiros dias de luta, alvoreceu no cérebro de cada um a noção de que aqueles escoceses não correspondiam exatamente à gente que os escritores de jornais humorísticos e as notícias da imprensa entendiam descrever-nos.     Comecei então a refletir sobre a propaganda e sobre as suas formas mais úteis.     Esse falseamento certamente tinha suas vantagens para aqueles que o propagavam. Estavam aptos a demonstrar, com exemplos, por mais incorretos que estes fossem, se era correta a idéia de uma conquista econômica do mundo. O que o inglês conseguiu nós poderíamos também conseguir, havendo para nós a vantagem especial de nossa maior probidade, a ausência daquela perfídia especificamente inglesa. Era de esperar ainda com isso ganharmos mais facilmente a simpatia de todas as pequenas nações e a confiança das grandes.     Não compreendíamos que a nossa probidade causasse aos outros um íntimo horror, desde que acreditávamos seriamente em tudo isso, enquanto o resto do mundo via nessa conduta a expressão de uma falsidade astuta, até que, com o maior espanto, a revolução proporcionou uma visão mais profunda da ilimitada tolice de nosso modo de pensar.     Pela tolice dessa "conquista econômica pacífica" do mundo se depreende imediatamente a tolice da tríplice aliança. Com que Estado se podia, pois, fazer aliança? Conjuntamente com a Áustria, não era possível pensar em conquistas guerreiras, mesmo na Europa. Justamente nisso é que estava, desde o primeiro momento, a fraqueza intrínseca da aliança. Um Bismarck podia tomar a liberdade de um tal expediente, mas não nenhum dos seus ignorantes sucessores, muito menos numa época em que não existiam mais as mesmas condições da aliança promovida por Bismarck. Bismarck acreditava ainda que a Áustria fosse um Estado alemão. Com a introdução do sufrágio universal, tinha esse país, entretanto, paulatinamente, adotado um sistema de governo parlamentar e antigermânico.     A aliança com a Áustria, sob o ponto de vista racial e político, foi simplesmente nociva. Tolerava-se o desenvolvimento de uma nova potência eslava na fronteira do Reich, potência essa que mais cedo ou mais tarde teria de tomar atitudes em relação à Alemanha muito diferentes da Rússia, por exemplo. Com isso a aliança de ano para ano tinha de tornar-se cada vez mais fraca, à proporção que os únicos portadores desse pensamento na monarquia perdiam influência e eram desalojados das posições dominantes.     Já pelo dobrar do século, a aliança com a Áustria tinha entrado na mesma fase que a aliança da Áustria com a Itália.     Só havia duas possibilidades: ou prevalecia a aliança com a monarquia dos Habsburgos ou se protestava contra o combate ao germanismo na Áustria. Entretanto, quando se inicia tal movimento, o resultado final, geralmente, é a luta aberta, declarada.     O valor da tríplice aliança era, psicologicamente, de somenos importância, uma vez que a força de uma aliança declina quando se limita a manter uma situação existente. Por outro lado, uma aliança será tanto mais forte quanto mais as potências contratantes estejam convencidas de que, com a mesma, podem obter uma vantagem tangível, definida.     Isso era compreendido em vários meios, mas infelizmente não o era pelos chamados "profissionais". Ludendorff, então coronel no grande estado-maior, apontava essa fraqueza um memorando escrito em 1912. Naturalmente os "estadistas" se' recusaram a dar qualquer importância ao assunto, pois a razão, que está ao alcance de qualquer mortal, escapa aos "diplomatas".     Para a Alemanha foi uma felicidade que a guerra de 1914, embora indiretamente, irrompesse por intermédio da Áustria, obrigando os Habsburgos a nela tomarem parte. Tivesse acontecido o contrário e a Alemanha teria ficado sozinha. Nunca o Estado dos Habsburgos teria podido ou mesmo teria querido tomar parte em uma guerra que se originasse de parte da Alemanha. Aquilo que, em relação à Itália, tanto se condenou, ter-se-ia dado mais cedo na Áustria: ela teria ficado "neutra" para assim ao menos salvar o Estado contra uma revolução. O eslavismo austríaco, no ano de 1914, teria preferido destruir a monarquia a consentir no auxilio à Alemanha.     Poucas pessoas naquela ocasião podiam compreender como eram grandes os perigos e dificuldades oriundas das alianças com a monarquia do Danúbio. Em primeiro lugar, a Áustria possuía inimigos demais, que cogitavam de herdar de um Estado carcomido. Não era possível que, no correr do tempo, não surgisse um certo ódio contra a Alemanha, na qual se enxergava a causa do impedimento à queda da monarquia, por todos esperada e desejada. Chegou-se à convicção de que, no final de contas, só se poderia alcançar Viena via Berlim.     A ligação com a Áustria privava a Alemanha das melhores e mais promissoras alianças. Em lugar dessas alianças, surgiu uma situação tensa com a Rússia' e mesmo com a Itália. Em Roma o sentimento geral era tão simpático à Alemanha como antipático à Áustria.     Como os alemães se tinham lançado na política do comércio e da indústria, não havia mais o menor motivo para uma luta contra a Rússia. Somente os inimigos de ambas as nações é que poderiam ter nisso um vivo interesses. De fato, eram em primeira linha judeus e marxistas que, por todos os meios, incitavam a guerra entre os dois Estados.     Essa aliança, em terceiro lugar, tinha em si um grande perigo, pois que com facilidade uma das potências inimigas do império de Bismarck em qualquer tempo poderia mobilizar vários Estados contra a Alemanha, uma vez que estavam em condições de, à custa do aliado austríaco, acenar com as perspectivas de grandes vantagens.     Todo o oriente da Europa poderia levantar-se contra a monarquia do Danúbio, sobretudo a Rússia e a Itália. Nunca se teria realizado a coligação mundial, que se vinha desenvolvendo desde a ação inicial do rei Eduardo, se a Áustria, como aliada da Alemanha, não tivesse oferecido vantagens tão apetecidas pelos inimigos. Só assim foi possível reunir, numa única frente de ataques, países de desejos e objetivos tão heterogêneos. Cada um deles poderia esperar, numa ação conjunta contra a Alemanha, conseguir enriquecer-se. Esse perigo aumentou extraordinariamente pelo fato de parecer que a essa aliança infeliz também estava filiada a Turquia como sócio comanditário.     O mundo financeiro internacional judaico necessitava, porém, desse chamariz, a fim de poder realizar o plano, há muito desejado, da destruição da Alemanha que ainda não se tinha submetido ao controle financeiro e econômico geral, à margem do Estado. Só assim se podia forjar uma coalizão tornada forte e corajosa pelo simples número dos exércitos de milhões em marcha, pronta, finalmente, a avançar contra o lendário Siegfried.     A aliança com a monarquia dos Habsburgos que, já nos tempos em que eu estava na Áustria, tanto me irritava, começou a tornar-se a causa de longas provações intimas que, no correr do tempo, ainda mais reforçavam a minha primeira opinião.     No meio modesto, que eu então freqüentava, nenhum esforço fiz para esconder a minha convicção de que aquele infeliz tratado com um Estado condenado à destruição teria de levar a Alemanha a um colapso catastrófico, a não ser que ela conseguisse desvencilhar-se do mesmo, ainda em tempo. Nunca vacilei, por um momento; mantive-me, nessa convicção, firme como uma rocha, até que, por fim, a torrente da guerra mundial tornou impossível uma reflexão razoável, e o ímpeto do entusiasmo tudo levou de vencida e o dever de todos passou a ser a consideração das realidades, Mesmo quando me achava na frente de batalha, sempre que o problema era discutido, eu exprimia a minha opinião de que quanto mais depressa fosse rompida a aliança tanto melhor para a nação alemã e que sacrificar a monarquia dos Habsburgos não seria sacrifício para a Alemanha, se com isso ela pudesse reduzir o número de seus inimigos, desde que os milhões de capacetes de aço não se tinham reunido para manter uma decrépita dinastia, mas para salvar a nação alemã.     Antes da guerra, parecia, às vezes, que num campo ao menos havia uma leve dúvida quanto à correção da política de aliança que vinha sendo seguida. De tempos a tempos, os círculos conservadores na Alemanha começavam a fazer advertências contra a excessiva confiança nessa política, mas, como tudo mais que era razoável, fazer essas advertências era como falar no deserto. Havia a convicção geral de que a Alemanha estava a caminho de conquistar o mundo, que o êxito seria ilimitado e que nada teria de ser sacrificado.     Mais uma vez, ao "não profissional" nada era permitido fazer senão olhar silenciosamente, enquanto os "profissionais" marchavam diretamente para a destruição, arrastando consigo .a nação inocente, como o caçador de ratos de Hamein.     A causa mais profunda do fato de ter sido possível apresentar a um povo inteiro, como processo político prático, a insensatez de uma "conquista econômica", tendo como objetivo a conservação da paz universal, residia numa enfermidade de todos os nossos pensamentos políticos.     A vitoriosa marcha da técnica e da indústria alemãs, os crescentes triunfos do comércio alemão, fizeram que se esquecesse de que tudo isso só era possível dada a suposição da existência de um Estado forte. Muitos, ao contrário, chegavam até a proclamar a sua convicção de que o Estado devia a sua vida a esses progressos, desde que o Estado, primeiro que tudo e mais que tudo, é uma instituição econômica e deveria ser dirigido de acordo com as regras da economia, devendo, por isso, a sua existência ao comércio - condição que era considerada ser a mais sã e mais natural de todas. Entretanto, o Estado nada tem a ver com qualquer definida concepção ou desenvolvimento econômico.     O Estado não é uma assembléia de negociantes que durante uma geração se reuna dentro de limites definidos para executar projetos econômicos, mas a organização da comunidade, homogênea por natureza e sentimento, unida para a promoção e conservação da sua raça e para a realização do destino que lhe traçou a Providência. Esse e nenhum outro é o objeto e a significação de um Estado. A economia é tão somente um dos muitos meios necessários à realização desse objetivo. Nunca, porém, é o objetivo de um Estado, a não ser que este, desde o princípio, repouse em uma base falsa, por antinatural. Só assim é que se explica que o Estado, como tal, não necessite ter, como condição, uma limitação territorial. Isso só será necessário entre povos sue, por si mesmos, querem assegurar a alimentação de seus irmãos em raça e que, portanto, estão prontos a lutar com o seu próprio trabalho, em prol de sua existência. Os povos que, como zangões, conseguem infiltrar-se no resto da humanidade, a fim de, sob todos os pretextos, fazer com que os outros trabalhem para si, podem, mesmo sem possuírem um "habitat" determinado e limitado, formar um Estado. Isso se dá em primeira linha num povo sob cujo parasitismo, sobretudo hoje, toda a humanidade sofre: o povo judeu.     O Estado judaico nunca teve fronteiras, nunca teve limites no espaço, mas era unido pela raça. Por isso, aquele povo sempre foi um Estado dentro do Estado. Foi um dos mais hábeis ardis já inventados o de encobrir-se aquele Estado sob a capa de religião, obtendo-se assim a tolerância que o ariano sempre estendeu a todos os credos. A religião mosaica nada mais é que uma doutrina para a conservação da raça judaica. Por isso ela abraça quase todos os ramos do conhecimento sociológico, político e econômico que lhe possam dizer respeito.     O instinto de conservação da espécie é sempre a causa da formação das sociedades humanas. Por isso, o Estado é um organismo racial e não uma organização econômica, diferença essa que, sobretudo hoje em dia, passa despercebida aos chamados "estadistas". Daí pensarem estes poder construir o Estado pela economia quando, na realidade, aquele nada mais é que o resultado da atuação daquelas virtudes que residem no instinto de conservação da raça e da espécie. Estas são, porém, sempre virtudes heróicas e nunca egoísmo mercantil, pois que a conservação da existência de uma espécie pressupõe o sacrifício voluntário de cada um. Nisso é que está justamente o sentido da palavra do poeta: "e se não arriscardes a vida, nunca vencereis na vida", isto é, a capacidade de sacrifício de cada um é indispensável para assegurar a conservação da espécie. A condição mais essencial, porém, para a formação e conservação de um Estado é a existência de um sentimento de solidariedade, baseado na identidade de raça, bem como a boa vontade de por ele sacrificar-se. Isso, em povos senhores de seu próprio solo, conduz à formação de virtudes heróicas, em povos parasitas conduz à hipocrisia mentirosa e à crueldade dissimulada, qualidades essas que devem ser pressupostas pela maneira diferente como vivem em relação ao Estado. A formação de um Estado só será possível pela aplicação dessas virtudes, pelo menos originariamente, sendo que na luta pela conservação serão submetidos ao jugo e assim mais cedo ou mais tarde sucumbirão os povos que apresentarem menos virtudes heróicas ou que não estejam na altura da astúcia do parasita inimigo. Mas, também nesse caso, isso deve ser atribuído não tanto à falta de inteligência como à falta de decisão e de coragem, que procura esconder-se sob o manto de sentimento de humanidade.     O fato de a força interna de um Estado só em casos raros coincidir com o chamado progresso econômico mostra claramente como está pouco ligado às virtudes que servem para a formação e conservação do Estado essa prosperidade que, em infinitos exemplos, parece até indicar a próxima decadência do Estado. Se, porém, a formação da comunidade humana tivesse de ser atribuída em primeira linha a forças econômicas, então o mais elevado desenvolvimento econômico significaria a mais formidável força do Estado e não inversamente.     A crença na força da economia para formar e conservar um Estado, torna-se incompreensível, sobretudo quando se trata de um país que, em tudo e por tudo, mostra clara e incisivamente o contrário.- Justamente a Rússia demonstra, de maneira evidentíssima, que não são as condições materiais, mas as virtudes ideais, que tornam possível a formação de um Estado. Somente sob a sua guarda é que a economia consegue florescer, até que, com a decadência das puras forças geradoras do Estado, a economia também decai, processo esse que exatamente agora podemos observar com desesperada tristeza. Os interesses materiais dos homens sempre conseguem prosperar melhor enquanto permanecem à sombra de virtudes heróicas.     Sempre que aumentava o poder político da Alemanha o progresso material se fazia sentir, os negócios começavam a melhorar; ao passo que quando os negócios monopolizavam a vida de nosso povo e enfraqueciam as virtudes de nosso espírito, o Estado desfalecia, arrastando, na sua ruína, os próprios negócios.     E se perguntarmos a nós mesmos quais são as forças que fazem e conservam os Estados, vemos que elas aparecem sob uma única denominação: habilidade e abnegação para o sacrifício individual, por amor da comunidade. Que essas virtudes não têm relação com a economia torna-se óbvio pela compreensão de que o homem nunca se sacrifica por negócios, isto é, os homens não morrem por negócios, mas por ideais. Nada mostrou melhor a superioridade psicológica dos ingleses, na dedicação por um ideal nacional, do que as razões que eles apresentaram para combater. Enquanto nós lutávamos pelo pão quotidiano, a Inglaterra lutava pela "liberdade", não pela própria mas pela das pequenas nações. Na Alemanha todos zombavam ou se irritavam com essa impudência, o que prova quanto se tornara insensata e estúpida a ciência oficial na Alemanha de antes da guerra. Não tínhamos a menor noção da natureza das forças que podem levar os homens à morte por sua livre e espontânea vontade.     Enquanto o povo alemão continuava a pensar, em 1914, que lutava por ideais, ele manteve-se firme; mas logo que se tornou evidente que lutava apenas pelo pão quotidiano, preferiu renunciar ao brinquedo.     Os nosso inteligentes "estadistas", entretanto, ficaram atônitos com essa mudança de sentimento. eles nunca compreenderam que o homem, desde o momento que luta por um interesse econômico, evita o mais que pode a morte, pois que esta o faria perder o gozo do prêmio de sua luta. A preocupação pela salvação de seu filho faz que a mais fraca das mães se torne heroína e somente a luta pela conservação da espécie e da lareira e também do Estado fez, em todos os tempos, com que os homens se jogassem de encontro às lanças dos inimigos.     Pode-se considerar a seguinte frase como uma sentença eternamente verdadeira:     Jamais um Estado foi fundado pela economia pacífica e sim, sempre, pelo instinto de conservação da espécie, esteja este situado no campo da virtude heróica ou da astúcia. O primeiro produz os Estados arianos, de trabalho e cultura, o segundo, colônias judaicas parasitárias. Desde que um povo ou um Estado procura dominar esses instintos, estão atraindo para si a escravidão, a opressão.     A crença de antes da guerra de que era possível ter o mundo aberto para a nação alemã ou de fato conquistá-lo pelo método pacífico de uma política de comércio e colonização, era um sinal evidente de que haviam desaparecido as genuínas virtudes que fazem e conservam os Estados. bem como a intuição, a força de vontade e a determinação que fazem as grandes coisas. Como era de esperar, o resultado imediato disso foi a grande guerra, com todas as suas conseqüências     Para aquele que não examinasse a questão, essa atitude de quase toda a nação alemã era um enigma indecifrável, pois a Alemanha era justamente um exemplo maravilhoso de um império que surgiu de uma política de força. A Prússia - célula mater do Reich - proveio de grandes heroísmos e não de operações financeiras ou negócios comerciais. E o próprio Reich era o mais maravilhoso prêmio da direção da política de força e da coragem indômita dos seus soldados. Como poderia, justamente o povo alemão, chegar a tal amortecimento de seus instintos políticos? Não se tratava, é preciso que se note, de um fenômeno isolado e sim de sintomas de decadência geral que, em proporções verdadeiramente assustadoras, ora flamejavam como fogos-fátuos no seio do povo ora corroíam a nação como tumores malignos. Parecia que uma torrente de veneno constante era impelida por uma força misteriosa até os últimos vasos sangüíneos desse corpo de heróis, com o fim de aniquilar o seu bom senso, o simples instinto de conservação.     Examinando todas essas questões, condicionadas ao meu ponto de vista em relação à política de alianças da Alemanha e à política econômica do Reich, nos anos de 1912 e 1914, restou, como solução do enigma aquela força que já anteriormente eu conhecera em Viena sob prisma inteiramente diverso: a doutrina marxista, sua concepção do mundo e a influência de sua capacidade de organização.     Pela segunda vez na minha vida analisei profundamente essa doutrina de destruição - desta vez porém não mais guiado pelas impressões e efeitos do meu ambiente diário, e sim dirigido pela observação dos acontecimentos gerais da vida política. Aprofundei-me novamente na literatura teórica desse novo mundo, procurei compreender os seus efeitos possíveis, comparei estes com os fenômenos reais e com os acontecimentos no que diz respeito à sua atuação na vida política, cultural e econômica.     Comecei a considerar, pela primeira vez, que tentativa deveria ser feita para dominar aquela pestilência mundial.     Estudei os móveis, as lutas e os sucessos da legislação especial de Bismarck. Gradualmente o meu estudo me forneceu princípios graníticos para as minhas próprias convicções - tanto que desde então nunca pensei em mudar minhas opiniões pessoais sobre o caso. Fiz também um profundo estudo das ligações do marxismo com o judaísmo.     Se, outrora, em Viena, a Alemanha me tinha dado a impressão de um colosso inabalável, começaram agora entretanto a surgir em mim considerações apreensivas. No meu íntimo eu estava descontente com a política externa da Alemanha, o que revelava ao pequeno circulo que meus conhecidos, bem como com a maneira extremamente leviana, como me parecia, de tratar-se o problema mais importante que havia na Alemanha daquela época - o marxismo. Realmente, eu não podia compreender como se vacilava cegamente ante um perigo cujos efeitos - tendo-se em vista a intenção do marxismo tinham de ser um dia terríveis. Já naquela época eu chamava a atenção, no meio em que vivia, para a frase tranqüilizadora de todos os poltrões de então: "A nós nada nos pode acontecer". Esse pestilento modo de pensar já outrora destruíra um império gigantesco. Por acaso só a Alemanha não estaria sujeita às mesmas leis de tidas as outras comunidades humanas?     Nos anos de 1913 e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo.     Na funesta política de alianças da Alemanha eu via apenas o fruto da ação destruidora dessa doutrina. O pior era que esse veneno destruía quase insensivelmente os fundamentos de uma sadia concepção do Estada e da economia, sem que os por ele atingidos se apercebessem de que a sua maneira de agir, as manifestações da sua vontade já eram uma conseqüência destruidora do marxismo.     A decadência do povo alemão tinha começado há muito tempo, sem que os indivíduos, como acontece freqüentemente, pudessem claramente ver os responsáveis pela mesma. Muitas vezes se tentou procurar um remédio para essa enfermidade, mas confundiam-se os sintomas com a causa. Como ninguém conhecia ou queria conhecer a verdadeira causa do mal-estar da nação, a luta contra o marxismo não passou de um charlatanismo sem eficiência.

CAPÍTULO V - A GUERRA MUNDIAL

     Quando ainda jovem, na fase em que tudo nos sorri, nada me fazia tão triste, como o ter nascido justamente em uma época em que todas as honras e glórias eram reservadas a negociantes ou a funcionários do governo.     As ondas dos acontecimentos históricos aparentemente tinham arrefecido e, de tal maneira, que o futuro, na realidade parecia pertencer à "concorrência pacifica dos povos", isto é, a uma calma e recíproca ladroagem, pela eliminação dos métodos violentos da reação das vítimas. Os diferentes países começavam a se assemelhar, cada vez mais, a empresas que se solapassem reciprocamente o chão debaixo dos pés, na conquista sem trégua de fregueses e de encomendas, procurando cada um sobrepujar as outras, por todos os meios ao seu alcance. Tudo isso era posto em execução com uma espetaculosidade tão grande quanto ingênua. Essa evolução parecia não só permanente, como destinada também a, algum dia (com a aprovação geral), transformar o mundo inteiro em uma única e grande casa de negócios, em cujas ante-salas seriam expostos, para a posteridade, os bustos dos mais atilados especuladores e dos mais ingênuos funcionários da administração. Os comerciantes poderiam ser, então representados pela Inglaterra; os funcionários administrativos seriam os alemães; os judeus, porém, fariam o sacrifício de ser os proprietários, pois que, como eles próprios confessam, nunca lucram, sempre têm de "pagar" e, além disso, falam a maioria das línguas.     Ah! se me tivesse sido possível ter nascido cem anos antes! Mais ou menos no tempo das guerras da Independência, quando o homem, mesmo sem negócios, ainda valia alguma coisa!     Muitas vezes me ocorriam pensamentos desagradáveis, relativos à minha peregrinação terrena, demasiado tardia na minha opinião, e a época "de calma e ordem" que se me deparava eu considerava uma infâmia imerecida do destino. É que já, nos meus mais tenros anos, eu não era "pacifista". Todas as tentativas de educação nesse sentido tinham resultado inúteis.     A guerra dos "Boers"", então desencadeada, teve sobre mim o efeito de um relâmpago. Diariamente, eu aguardava ansioso os jornais, devorava telegramas e boletins, e considerava-me feliz por ser, ao menos de longe, testemunha dessa luta de titãs.     A guerra russo-japonêsa já me encontrou sensivelmente mais amadurecido e, também mais atento aos acontecimentos. Moviam-me, sobretudo, razões nacionais. Desde os primeiros momentos, tomei partido, e, discutindo as opiniões correntes, coloquei-me imediatamente do lado dos japoneses, pois via na derrota dos russos uma diminuição do espírito eslavo na Áustria.     Muitos anos se passaram desde então, e aquilo que, outrora, quando ainda rapaz, me parecia morbidez, compreendia agora como sendo a calma, antes da tempestade. Já desde o tempo em que vivia em Viena pairava sobre os Balcãs aquela atmosfera pesada, prenúncio de tempestade, e já lampejos mais claros riscavam o céu, mas se perdiam ligeiros nas trevas sinistras. Em seguida, veio a guerra dos Balcãs, e, com ela, o primeiro temporal varreu a Europa, já agora nervosa. A época que se seguiu influiu como um pesadelo sobre os homens. O ambiente estava tão carregado que, em virtude do mal-estar que a todos afligia, a catástrofe que se aproximava chegou a ser desejada. Que os céus dessem livre curso ao des. tino, já que não havia barreiras que o detivessem! Caiu então o primeiro formidável raio sobre a terra; a tempestade desencadeou-se, e, aos trovões do céu, juntavam-se as baterias da guerra mundial.     Quando a notícia do assassinato do grão-duque Francisco Ferdinando chegou a Munique, eu estava justamente em casa e ouvia contar o desenrolar dos acontecimentos de maneira muito vaga. Meu primeiro receio foi que as balas assassinas tivessem partido de estudantes alemães, que, indignados com o constante trabalho de eslavização feito pelo herdeiro presuntivo da coroa austríaca, tivessem querido livrar o povo alemão desse inimigo interno. As conseqüências eram fáceis de imaginar: uma nova onda de perseguições aos alemães, que, agora, facilmente seriam "explicadas e justificadas", perante o mundo. Quando, porém, logo depois, ouvi o nome dos autores presumíveis e verifiquei que eram sérios, fiquei estupefato ante essa vingança do destino impenetrável. O maior amigo da raça eslava caíra sob as balas de fanáticos eslavos! Quem, nos últimos anos, tivesse tido oportunidade de observar constantemente as relações entre a Áustria e a Sérvia, não poderia duvidar, nem um segundo, de que a pedra começara a rolar e que nada poderia detê-la na sua queda.     É uma injustiça fazer hoje em dia recriminações ao governo de Viena sobre a forma e o conteúdo do seu "Ultimatum". Nenhuma outra potência do mundo teria agido de maneira diferente, se se encontrasse em idênticas condições. A Áustria tinha, na sua fronteira sudoeste, um inimigo de morte, o qual, cada vez mais, desafiava a Monarquia e nisso persistiria até que chegasse o momento propicio à destruição do Império. Receava-se, com razão, que isso se desse, o mais tardar, com a morte do velho imperador. E, nesse momento, talvez a monarquia não estivesse em condições de oferecer resistência séria.     O Estado inteiro encontrava-se, nos últimos anos, de tal maneira dependente da vida de Francisco José, que a morte desse homem, tradicional personalização do Império, eqüivaleria, no sentir da massa popular, à morte do próprio Império. Era até considerado uma das mais inteligentes manobras, sobretudo da política eslava, fazer crer que a Áustria devia a sua existência à habilidade extraordinária e única desse monarca. Essa bajulação era tanto mais apreciada na Corte, quando ela em nada correspondia, na realidade, ao mérito desse Imperador. Não se podia ver o espinho escondido atrás dessa lisonja. Não se lobrigava ou não se queria ver que, quanto mais a monarquia dependesse da extraordinária arte de governar, como se costumava dizer, deste "mais sábio monarca de todos os tempos", tanto mais catastrófica seria a situação, quando um dia o destino batesse a essa porta, reclamando o seu tributo.     Seria possível imaginar a velha Áustria sem o seu velho Imperador?     Não se repetiria, imediatamente, a tragédia que outrora atingira Maria Teresa? Não! Na verdade, é uma injustiça que se faz aos círculos governamentais de Viena censurá-los por terem eles provocado uma guerra que talvez tivesse sido possível evitar. Esse desfecho era, porém, inevitável. Quando muito poderia ter sido protelado por um ou dois anos. Foi este o castigo das diplomacias, tanto da alemã como da austríaca. Elas sempre tentaram protelar o ajuste de contas que tinha de vir e agora eram forçadas a dar o golpe na hora menos favorável. A verdade é que mais outra tentativa para manter a paz teria trazido a guerra numa época ainda menos propícia. Quem não quisesse esta guerra deveria ter a coragem de arcar com as conseqüências. Essas, porém, só poderiam consistir no sacrifício da Áustria. Assim mesmo, a guerra teria vindo, talvez não mais como a luta de todos contra nós mas sim tendo como finalidade o aniquilamento da monarquia dos Habsburgos. De qualquer modo, uma decisão tinha de ser tomada: ou entrávamos na guerra ou ficaríamos de fora, observando, a fim de vermos, de mãos cruzadas, o destino seguir o seu curso.     Justamente aqueles que, hoje, mais vociferam contra o desencadear da guerra, foram os que mais funestamente ajudaram a atiçá-la.     A social-democracia, há dezenas de anos, fomentava, da maneira mais torpe, a guerra contra a Rússia, enquanto o Partido do Centro, baseado num ponto de vista religioso, fazia a política alemã girar em torno do Estado austríaco. Tinha-se que arcar com as conseqüências desse erro. O que veio tinha de vir e, em hipótese nenhuma, poderia ser evitado. A culpa do governo alemão neste caso foi de perder sempre as boas oportunidades de intervenção, devido à preocupação constante de manter a paz. Assim agindo, o governo se emaranhava em uma coligação destinada à manutenção da paz universal, para tornar-se, por fim, a vítima de uma coligação do mundo inteiro, que antepunha à pressão pela manutenção da paz a determinação de fazer a guerra.     Caso o governo de Viena tivesse dado uma forma mais suave ao seu ultimato, em nada teria mudado a situação. Quando muito teria sido varrido do poder pela indignação popular. Aos olhos da grande massa do povo, o tom do ultimato ainda era brando demais e, de modo nenhum, lhe parecia brutal. Nele não havia excessos. Quem hoje procura negar isso ou é um desmemoriado ou um mentiroso consciente. Graças a Deus, a luta do ano de 1914 não foi, na realidade, imposta e sim desejada pelo povo inteiro. Todos queriam acabar de vez com uma insegurança generalizada. Só assim pode-se também compreender que mais de dois milhões de alemães, homens e rapazes, se pusessem voluntariamente sob a bandeira decididos a protegê-la com a última gota do seu sangue.     Aquelas horas foram para mim uma libertação das desagradáveis recordações da juventude, Até hoje não me envergonho de confessar que, dominado por delirante entusiasmo, caí de joelhos e, de todo coração, agradeci aos céus ter-me proporcionado a felicidade de poder viver nessa época.     Tinha-se desencadeado uma luta de libertação, a mais formidável que o mundo jamais vira, pois logo que a fatalidade tinha iniciado o seu curso, as grandes massas perceberam que, desta vez, não se tratava do destino nem da Sérvia nem da Áustria, e sim da vida ou morte da nação alemã.     Pela primeira vez, depois de muitos anos, o povo via claro o seu próprio futuro. Assim é que, logo no começo da luta titânica, ainda sob a ação de um transbordante entusiasmo, brotaram, no espírito do povo, os sentimentos à altura da situação, pois somente esta idéia de salvação geral conseguiu que a exaltação nacional significasse alguma coisa mais do que simples fogo de palha. A certeza da gravidade da situação era, porém, por demais necessária. Em geral, ninguém podia, naquela época, ter a menor idéia da duração da luta que, então, se iniciava. Sonhava-se poder estar de volta, à casa, no próximo inverno, a fim de retomar o trabalho pacífico. Aquilo que o homem deseja vale como objeto de esperança e crença. A grande maioria da nação estava cansada do eterno estado de insegurança. Só assim pode-se compreender que não se pensasse numa solução pacífica do conflito austro-sérvio, mas em uma solução definitiva para as complicações existentes. Ao número desses milhões que assim pensavam pertencia eu.     Mal se tinha divulgado em Munique a notícia do atentado e já me passavam pela mente duas idéias, a saber: a guerra seria absolutamente inevitável e o império dos Habsburgos seria forçado a ficar fiel às suas alianças. O que eu mais havia temido sempre era a possibilidade de a Alemanha entrar em conflito - talvez mesmo em conseqüência dessa aliança - sem que a Áustria tivesse sido a causa direta, e que, dessa maneira, o governo austríaco não se decidisse, por motivo de política interna, a se colocar ao lado do seu aliado. A maioria eslava do Império teria imediatamente iniciado a sua resistência a uma decisão espontânea nesse sentido, preferindo ver o Império destruído nos seus fundamentos a conceder o auxílio solicitado. Entretanto, esse perigo estava agora afastado. O velho Império tinha de lutar, por bem ou por mal.     Minha atitude em face do conflito era bem clara e definida. Para mim não se tratava de uma guerra para que a Áustria obtivesse satisfação por parte da Sérvia. Não. A Alemanha é que lutava pela sua vida, e com ela o povo pela sua existência, pela sua liberdade, por seu futuro. A política de Bismarck ia ser seguida. Aquilo que os antepassados haviam conquistado com o sacrifício do sangue dos seus heróis nas batalhas de Weissenburg, até Sedan e Paris, tinha de ser reconquistado pela jovem Alemanha. Caso fosse essa luta vitoriosa, o nosso povo entraria de novo no rol das grandes potências, com o seu poder exterior aumentado. E assim o Império alemão poderia se tornar uma eficiente garantia da paz, sem ter de diminuir o pão de cada dia de seus filhos, em nome dessa mesma paz.     Quantas vezes, rapazinho ainda, tive o desejo sincero de poder provar por fatos que para mim o entusiasmo nacional não era uma pura fantasia. A mim me parecia muitas vezes quase um crime aplaudir o que quer que fosse sem se estar convencido da razão de ser de seus gestos. Quem tinha o direito de assim agir sem ter passado por aqueles momentos difíceis sem que a mão inexorável do destino, dando aos acontecimentos um tom mais sério, exige a sinceridade das atitudes humanas? Meu coração, como o de milhões de outros, transbordava de orgulho e felicidade por poder de vez libertar-me dessa situação de inércia.     Tantas vezes tinha eu cantado o "Deutschland, Deutschland über alles", com todas as forças de meus pulmões e gritado "Heil"... que quase me parecia uma graça especial poder comparecer agora, perante a justiça divina, para afirmar a sinceridade dessa minha atitude. Desde o primeiro instante estava firmemente decidido, em caso de guerra - esta me parecia inevitável - a abandonar os livros imediatamente. Ao mesmo tempo sabia muito bem que o meu lugar seria aquele para onde me chamava a voz da consciência. Por motivos políticos, tinha preliminarmente abando. nado a Áustria. Nada mais natural, pois, que agora que se iniciava a luta, coerente com as minhas opiniões políticas, eu assim procedesse. Não era meu desejo lutar pelo império dos Habsburgos. Estava pronto, porém, a morrer, em qualquer instante, pelo meu povo ou pelo governo que o representasse na realidade.     A 3 de agosto apresentei um requerimento a S. M. o rei Luís III, no qual eu solicitava a permissão para assentar praça num regimento bávaro. A secretaria do Governo, naquela ocasião, como era natural, estava assoberbada de serviço. Por isso tanto mais alegre fiquei ao tomar conhecimento, já no dia seguinte, do despacho favorável à minha solicitação. Ao abrir, com mãos trêmulas, o documento no qual li o deferimento do meu pedido, com a recomendação de me apresentar a um regimento bávaro, meu contentamento e minha gratidão não tiveram limites. Poucos dias depois, eu envergava a farda, que só quase seis anos mais tarde deveria despir.     Começou então para mim, como provavelmente para todos os outros alemães, a mais inesquecível e a maior época da minha vida. Comparado com a luta titânica que se travava, todo o passado desaparecia inteiramente. Com orgulho e saudade, recordo-me, justamente nesses dias em que se passa o 10o. aniversário daqueles formidáveis acontecimentos, das primeiras semanas daquela luta heróica de nosso povo, na qual graças à benevolência do destino, me foi dado tomar parte.     Como se fosse ontem, passam diante de meus olhos todos os acontecimentos. Vejo-me fardado, no círculo dos meus queridos camaradas. Lembro-me da primeira vez que saímos para exercícios militares, etc., até que enfim chegou o dia da partida para o front.     Uma única preocupação me afligia naquele momento, a mim como a muitos outros. Era recear chegarmos tarde demais no front. Essa idéia não me deixava tranqüilo. A cada manifestação de júbilo por um novo feito heróico, sentia uma profunda tristeza, pois toda a vez que se festejava uma nova vitória, parecia para mim aumentar o perigo de chegarmos demasiadamente tarde. Finalmente, chegou o dia de deixarmos Munique, a fim de nos apresentarmos ao cumprimento do dever. Tive então a oportunidade de ver, pela primeira vez, o Reno, na nossa viagem para o ocidente, feita ao longo das suas águas calmas. A nós estava confiada a defesa, contra a cobiça dos inimigos, do mais germânico de todos os rios. Quando os primeiros raios de sol da manhã, atravessando um leve véu de neblina, refletiam-se no monumento de Niederwald, irrompeu, do longuíssimo trem de transporte, a velha canção alemã "Die Wacht am Rhein". Senti-me transbordante de entusiasmo.     Em seguida, veio uma noite úmida e fria, em Flandres, durante a qual marchamos silenciosos e, quando o sol começou a despontar através das nuvens, rompeu de repente sobre as nossas cabeças uma saudação de aço, e, entre as nossas fileiras, sibilavam balas que caíam levantando a terra molhada. Antes de desaparecer a pequena nuvem, duzentas bocas gritavam ao mesmo tempo "urra" a esses primeiros mensageiros da morte. Em seguida, começou o pipocar da metralha, a gritaria, o estrondo da artilharia, e, febricitante de entusiasmo, cada um marchava para a frente, cada vez mais depressa, até que, sobre os campos de beterraba, e, através das charnecas, começou a luta corpo a corpo. De longe, porém, chegavam aos nosso ouvidos os sons de uma canção, que, cada vez mais se aproximava, passando, de companhia a companhia, e, enquanto a morte dizimava as nossas fileiras, a canção chegava a nós e nós a passávamos adiante: "Deutschland, Deutschland, über alles, über alles in der Welt!"     Passados quatro dias, voltamos. Até a maneira de andar dos soldados se tinha modificado. Rapazes de dezessete anos pareciam homens feitos. Os voluntários do regimento de List talvez não tivessem aprendido bem a lutar, o que é certo é que sabiam morrer como velhos soldados     Esse foi o começo.     Assim continuou a luta, ano a ano. Ao romantismo das batalhas tinha sucedido o horror. O entusiasmo se arrefecera aos poucos e o júbilo transbordante foi abafado pelo pavor da morte. Chegou a época em que cada um tinha de lutar entre o instinto de conservação e o imperativo do dever. Também eu não escapei a essa luta. Cada vez que a morte rondava algo indeterminado procurava se revoltar, baseado na razão, e, no entre. tanto, isso nada mais era do que a covardia que, assim disfarçada, procurava envolver cada um. Começou uma luta pró e contra, e o último resto de consciência decidia definitivamente. Entretanto quanto mais claro se ouviam essas vozes que recomendavam cautela, quanto mais elas procuravam atrair e falar alto, tanto mais violenta era a resistência, até que, enfim, após longa luta interior, a consciência do dever vencia. Já no inverno de 1915 a 1916 eu tinha decidido essa luta. A vontade tinha finalmente conseguido se impor. Nos primeiros dias, eu tinha avançado com júbilo e alegria nos lábios; agora me encontrava calmo e decidido. Assim devia permanecer até o fim. Só agora o destino podia caminhar para as últimas provas, sem que os meus nervos se rompessem ou a minha razão falhasse.     O jovem voluntário tinha se transformado num soldado experimentado.     Essa transformação tinha se operado no exército inteiro. As lutas constantes o tinham envelhecido e ao mesmo tempo, enrijado. Os que não puderam resistir à tempestade foram por ela vencidos. Somente agora é que se poderia julgar esse exército. Só agora depois de dois a três anos em que uma batalha se seguia a outra, em que ele combatera contra inimigos superiores em número e em armas, sofrendo fome e necessidades, só agora é que se podia avaliar o valor desse exército, único no mundo.     Durante milhares de anos ninguém poderá falarem heroísmo sem se lembrar do exército alemão na guerra mundial. Só então, do véu do passado, a fronte de aço do capacete cinzento, firme e inabalável, aparecerá como monumento imortal. Enquanto houver alemães na face da terra, eles terão de se lembrar que aqueles homens eram dignos filhos da Pátria.     Eu era soldado naquela ocasião e não queria me meter em política. A época na verdade não era para isso. Até hoje sou da opinião que o último cocheiro prestou ao país serviços maiores do que o primeiro, digamos assim, "parlamentar". Nunca odiei tanto estes palradores como no tempo em que cada indivíduo decidido que tinha alguma coisa a dizer, ou berrava-a na cara de seus inimigos ou então calava-se oportunamente e cumpria silenciosamente o seu dever, fosse onde fosse. De fato, naquela época, eu odiava esses "políticos", e se fosse por mim, teria mandado formar imediatamente um batalhão parlamentar de sapadores. Só assim eles poderiam, inteiramente à vontade, expandir entre si a sua verborragia, sem incomodar ou prejudicar o resto da humanidade honesta e decente.     Naquela época eu não queria saber de política; entretanto não tinha outro remédio senão tomar partido em certos acontecimentos que diziam respeito à nação inteira, sobretudo a nós soldados.     Havia duas coisas que então me aborreciam intimamente e eram por mim consideradas prejudiciais à causa da nação.     Logo após as primeiras notícias de vitórias, uma certa imprensa começou a deixar cair sobre o entusiasmo geral algumas gotas de entorpecente, e isso devagar e desapercebidamente para muitos. Agia, essa mesma imprensa, sob a máscara de boa vontade, de boas intenções e até mesmo de zelo pela sorte do soldado. Receava-se um excesso no festejar das vitórias. Além disso, havia o pensamento de que essa forma de celebrar os triunfos militares não era digna de uma grande nação. Achava-se que a bravura e o heroísmo do soldado alemão deveriam ser naturais, sem espetaculosidades. Os alemães não se deviam deixar empolgar por manifestações de contentamento irrefletidas, que iriam repercutir no estrangeiro, o qual apreciaria a forma calma e digna de alegria mais do que uma exaltação desmedida, etc. Nós alemães, acrescentavam, não deveríamos esquecer que a guerra não estava no nosso programa, e, por isso, não deveríamos nos envergonhar de confessar abertamente que, em qualquer época, contribuiríamos com o nosso esforço para a confraternização da humanidade. Não era, pois, conveniente empanar a pureza dos leitos do exército com uma gritaria demasiado espetaculosa. O resto do mundo compreenderia muito mal essa maneira de agir. Nada é mais admirado do que a modéstia com que um verdadeiro herói esquece, silenciosa e calmamente, os seus maiores feitos.     Em vez de pegar esses camaradas pelas orelhas, amarrá-los a um poste e puxá-los por uma corda, a fim de que a nação em festas não mais pudesse ofender a sensibilidade estética de tais escrevinhadores, começou-se a proceder na realidade contra a maneira "inadequada" de celebrar as vitórias.     Não se tinha a mais pálida idéia de que o entusiasmo, uma vez abafado, não mais pode ser provocado quando se deseja. Ele é uma embriaguez e deve ser mantido nesse estado. Como, porém, se poderia manter uma luta sem essa força do entusiasmo, principalmente tratando-se de uma luta que iria pôr à prova, de uma maneira inédita, as qualidades morais da nação?     Eu conhecia o bastante sobre a psicologia das grandes massas para saber que com sentimentalismo estético não se poderia manter aceso esse ardor cívico. No meu modo de ver, era rematada loucura não atiçar o fogo dessa paixão. O que eu ainda menos compreendia é que se procurasse destruir o entusiasmo existente. O que me irritava também era a atitude que se tomava em relação ao marxismo. Para mim essa atitude era uma prova de que não se tinha a mínima idéia do que fosse essa calamidade. Acreditava-se seriamente ter reduzido à inação o marxismo, com a simples declaração de que agora não existiam mais partidos.     Não se percebia absolutamente que, no caso, não se tratava de um partido e sim de uma doutrina que tende a destruir a humanidade inteira. Compreende-se isso, considerando-se que, nas Universidades sujeitas a influências semíticas, nada se dizia a respeito, e que muitos, sobretudo nossos altos funcionários, acham, por uma questão de tola pretensão, inútil o aprender algo que não figure entre as matérias lecionadas nas escolas superiores. As transformações sociais mais radicais passam despercebidas a essas cabeças ocas, razão pela qual as instituições do governo são em muito inferiores às instituições particulares. Àquelas calha bem o provérbio: "O que o camponês não conhece, não come". Algumas poucas exceções só servem para confirmar a regra.     Foi tolice rematada identificar o trabalhador alemão com o marxismo, nos dias de agosto de 1914. O trabalhador alemão tinha-se livrado, justamente naquela época, desse veneno. Se assim não fosse, ele nunca teria se apresentado para a guerra. Pensou-se estupidamente que o marxismo tinha-se tornado "nacional". Essa suposição só serve para mostrar que, nesses longos anos, nenhum dos dirigentes do Estado se tinha dado ao trabalho de estudar a essência dessa doutrina, pois, se assim fosse, dificilmente se teria propalado semelhante tolice.     O marxismo, cuja finalidade última é e será sempre a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar com espanto que, nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram, e cada dia com mais ardor se apresentavam ao serviço da pátria. Em poucos dias, estava destruída a mistificação desses embusteiros infames dos povos. Solitária e abandonada, encontrava-se essa corja de agitadores judeus, como se não restasse mais um traço das loucuras inculcadas, durante mais de 60 anos, ao operariado alemão. Foi um mau momento para esses mistificadores. Logo que tais agitadores perceberam o grande perigo que os ameaçava, em conseqüência de suas constantes mentiras, disfarçaram-se e trataram de fingir que acompanhavam o entusiasmo nacional.     Tinha chegado agora o momento oportuno de proceder contra a traiçoeira camarilha de envenenadores do povo. Dever-se-ia ter agido sumariamente, sem consideração para com as lamentações que provavelmente se desencadeariam. Em agosto de 1914 tinham desaparecido, como por encanto, as idéias ocas de solidariedade internacional e, no lugar delas, já poucas semanas depois, choviam, sobre os capacetes das colunas em marcha, as bênçãos fraternais dos shrapnell americanos. Teria sido dever de um governo cuidadoso exterminar sem piedade os destruidores do nacionalismo, uma vez que os operários alemães se tinham integrado de novo na Pátria.     Em um tempo em que os melhores elementos da nação morriam no front, os que ficaram em casa, entregues aos seus trabalhos, deviam ter livrado a nação dessa piolharia comunista.     Ao invés disso, sua Majestade o Kaiser estendia a mão a esses conhecidos criminosos, dando, assim, oportunidade a esses pérfidos assassinos da nação de voltarem a si e de recuperarem o tempo perdido.     A víbora podia, pois, recomeçar o seu trabalho, com mais cautela do que antes, porém de maneira mais perigosa. Enquanto os honestos sonhavam com a paz, os criminosos traidores organizavam a revolução.     Senti-me intimamente desgostoso com essas meias medidas. O que eu nunca poderia imaginar, porém, era que o fim fosse tão horroroso.     Que se deveria fazer? Pôr os dirigentes do movimento nos cárceres, processá-los e deles livrar a nação. Ter-se ia de empregar com a máxima energia todos os meios de ação militar, a fim de destruir essa praga. Os partidos teriam de ser dissolvidos, o Reichstag teria de ser chamado à. razão pela força convincente das baionetas. O melhor até teria sido dissolvê-lo. Assim como a República, hoje, tem meios de dissolver os partidos, naquela época, com mais razão, devia-se ter apelado para tal recurso, pois se tratava de uma questão de vida ou de morte de toda uma nação.     É verdade que nesses momentos surge sempre a pergunta: Será. possível destruir idéias a ferro e a fogo? Será possível combater concepções universais empregando a força bruta?     Já naquele tempo, por mais de uma vez, me fiz a mim mesmo essas perguntas. Meditando sobre casos análogos, principalmente sobre aqueles casos da história universal que se baseiam em fundamentos religiosos, chega-se à seguinte conclusão básica:     As idéias, assim como os movimentos que têm uma determinada base espiritual, seja ela certa ou errada, só podem, depois de ter atingido um certo período de sua evolução, ser destruídos por processos técnicos de violência, quando essas armas são elas mesmas portadoras de um novo pensamento flamejante, de uma idéia, de um princípio universal.     O emprego exclusivo da violência, sem o estímulo de um ideal preestabelecido, não pode jamais conduzir à destruição de uma idéia ou evitar a sua propagação, exceto se essa violência tomar a forma de exterminação irredutível do último dos adeptos do novo credo e da sua própria tradição. Isto significa, entretanto, na maioria dos casos, a segregação de um tal organismo político do círculo das atividades, às vezes por tempo indefinido e até para sempre. A experiência tem mostrado que um tal sacrifício de sangue atinge em cheio a parte mais valiosa da nacionalidade, pois toda perseguição que tem lugar sem prévia preparação espiritual, revela-se como moralmente injustificada, provocando protestos veementes dos mais eficientes elementos do povo, protesto esse que redunda geralmente em adesão ao movimento perseguido. Muitos assim procedem por um sentimento de repulsa a todo combate a idéias, pela força bruta.     O número dos adeptos cresce então proporcionalmente à intensidade da perseguição. Entretanto, o extermínio sem tréguas da nova doutrina só poderá ser possível à custa de grande e crescente dizimação dos que a aceitam, dizimação que, em última análise, conduzirá o povo ou o governo ao depauperamento. Tal processo será, desde o princípio, inútil, quando a doutrina a ser combatida já tenha ultrapassado certo círculo restrito.     É por isso que aqui, como em todo processo de crescimento, o período da infância é o que está mais exposto à destruição, enquanto que, com o correr dos anos, a força de resistência aumenta, para só ceder lugar à nova infância com a aproximação da fraqueza senil, se bem que sob outra forma e por outros motivos.     De fato, quase todas as tentativas de, por meio da força, e sem base espiritual, destruir uma doutrina, conduzem ao insucesso e não raras vezes ao contrário do desejado, e isso pelos seguintes motivos:     A primeira de todas as condições para uma luta pela força bruta é a persistência. Isto quer dizer que só há possibilidade de êxito no combate a uma doutrina quando se empregam métodos de repressão uniformes e sem solução de continuidade. Fazendo-se, entretanto, indecisamente, alternar a força com a tolerância, acontecerá que, não só a doutrina a ser destruída conseguirá fortificar-se mas também ela ficará em situação de tirar novas vantagens de cada perseguição, pois que, passada a primeira onda de compressão, a indignação pelo sofrimento lhe trará novos adeptos, enquanto que os já existentes se conservarão cada vez mais fiéis. Mesmo aqueles que tinham abandonado as fileiras, passado o perigo, voltarão a elas. A condição essencial do sucesso é a aplicação constante da força. A continuidade é, porém, sempre o resultado de uma convicção espiritual determinada. Toda força que não provém de uma firme base espiritual torna-se indecisa e vaga. A ela faltará a estabilidade que só poderá repousar em certo fanatismo. Emana da energia e decisão bruta de um indivíduo. Está, porém, sujeita a modificações de acordo com as personalidades que a aceitam, isto é, com a força e o modo de ser de cada um.     Além disso, há a considerar outra coisa: toda concepção universal, seja ela religiosa ou política - às vezes é difícil estabelecer a linha divisória - luta menos pela destruição negativa do mundo de idéias contrário do que pela vitória positiva de suas próprias idéias. A luta consiste assim, menos na defensiva, do que na ofensiva. Entretanto, ela ainda leva uma vantagem, pois tem o seu objetivo determinado, isto é a vitória da própria idéia, enquanto que, inversamente, é difícil determinar quando está atingido o fim negativo da destruição da doutrina inimiga. Aqui também a decisão pertence ao ataque e não à defesa. A luta contra uma força espiritual por meios violentos só é uma defesa enquanto as armas não são elas mesmas portadoras e disseminadoras de uma nova doutrina.     Resumindo, pode-se estabelecer o seguinte: Toda tentativa de combater pelas armas um princípio universal tem de ser mal sucedida, enquanto a luta não tomar rigorosamente forma de ofensiva por novas idéias. É somente na luta de dois princípios universais que a força bruta, empregada, persistente e decididamente, pode provocar a decisão favorável ao lado por ela sustentado. Por isso é que até então tinha fracassado a luta contra o marxismo.     Este foi o motivo pelo qual a legislação socialista de Bismarck acabou falhando e tinha de falhar. Faltou a plataforma de uma nova doutrina universal por cuja vitória se deveria ter lutado. De fato, estimular uma luta de vida e morte com expressões vazias, tais como "autoridade do Estado", "paz e ordem", é algo que só poderia mesmo ocorrer a altos funcionários de secretaria, sabidamente ocos de idéias. Faltando, como faltou, nessa luta, uma verdadeira base espiritual, teve Bismarck de contar, a fim de poder introduzir a sua legislação socialista, com uma instituição que nada mais era do que um aborto do comunismo.     Confiando o destino de sua guerra ao marxismo à complacência da democracia burguesa, o chanceler de ferro queria fazer da ovelha, lobo.     Entretanto, tudo isso era a conseqüência forçada da falta de um princípio geral básico e de grande poder conquistador. que fosse oposto ao marxismo. O resultado final da luta de Bismarck redundou, pois, numa grande desilusão.     Eram, porém, as condições, durante a guerra, ou mesmo no seu começo, diferentes? Infelizmente, não.     Quanto mais eu me preocupava com a idéia de uma modificação de atitude do governo com relação à social-democracia - partido esse que no momento, representava o marxismo - tanto mais eu reconhecia a falta de um sucedâneo para essa doutrina.     Que se ia oferecer às massas, na hipótese da queda da social-democracia? Não havia um movimento ao qual fosse lícito esperar que pudesse atrair as massas de operários, nesse momento, mais ou menos, sem guias. Seria rematada ingenuidade imaginar que o fanático internacional, que já havia abandonado o partido de classe, se decidisse a entrar num partido burguês, portanto em uma nova organização de classe. Isso é inegável, embora não seja do agrado das várias organizações que parece acharem muito natural uma cisão de classes, até o momento em que essa cisão não comece a lhes ser desfavorável sob o ponto de vista político. A contestação desse tato só serve para provar a insolência e a estupidez dos mentirosos.     De um modo geral, é um erro julgar que a grande massa seja mais tola do que parece. Em política não é raro o sentimento decidir mais acertadamente do que a razão.     A alegação de que a massa erra, deixando-se levar pelo sentimento,     alegação que se procura evidenciar com a sua ingênua atitude na política internacional - pode-se rebater vigorosamente observando-se o fato de não ser menos insensata a democracia pacifista, cujos lideres, no entanto, provêm exclusivamente da burguesia.     Enquanto milhões de cidadãos rendem culto, todas as manhãs, à sua imprensa democrática, ficará muito mal a estes senhores rirem das tolices do companheiro que, no final das contas, engole as mesmas asneiras, se bem que com outra encenação. Nos dois casos, o fabricante desses raciocínios é sempre judeu.     Deve-se, portanto, evitar a negação de fatos que existem na realidade. O fato de que há uma questão de classe (não se trata exclusivamente de problemas ideais, conforme se costuma fazer crer, sobretudo em épocas de eleições) não pode ser contestado. O sentimento de classe de grande parte de nosso povo, bem como o menosprezo do trabalhador manual, é um fenômeno que não provém da fantasia de um lunático.     Não obstante, ele mostra a pequena capacidade de raciocínio dos nossos chamados intelectuais, quando, justamente nesses círculos, não se compreende que um estado de coisas, o qual não pode evitar o desenvolvimento de uma calamidade como o marxismo, agora não está mais em condições de reconquistar o perdido.     Os partidos "burgueses", como eles mesmos se denominam, não poderão jamais contar com o apoio das massas proletárias, pois aqui temos dois mundos antagônicos, em parte naturalmente, em parte artificialmente cindidos, e cuja atitude recíproca só pode ser a de luta. O vencedor neste caso só poderia ser o mais jovem, e esse seria o marxismo.     De fato, em 1914, seria possível imaginar uma luta contra a social-democracia. Agora, predizer o tempo da duração deste embate seria duvidoso, uma vez que faltava um sucedâneo prático para ela.     Aqui havia uma grande lacuna.     Eu possuía essa opinião já muito antes da Guerra e, por isso, nunca pude me decidir a me aproximar de um dos partidos existentes. No correr dos acontecimentos da guerra mundial tive essa minha opinião reforçada pela impossibilidade visível de começar a luta sem tréguas contra a social-democracia, já que faltava um movimento que fosse mais do que um partido "parlamentar>. Muitas vezes me externei a esse respeito com os meus camaradas mais íntimos. Apareceram-me então as primeiras idéias de, mais tarde, tomar parte na política.     Justamente foi esse o motivo que fez com que eu muitas vezes comunicasse ao pequeno círculo de meus amigos a minha intenção de, passada a Guerra, combinar o meu trabalho profissional com a atividade política, como orador.     Creio que isso estava resolvido, no meu espirito, com toda a seriedade.

CAPÍTULO VI - A PROPAGANDA DA GUERRA

     Observador cuidadoso dos acontecimentos políticos, sempre me interessou vivamente a maneira por que se fazia a propaganda da guerra. Eu via nessa propaganda um instrumento manejado, com grande habilidade, justamente pelas organizações sociais comunistas. Compreendi, desde logo, que a aplicação adequada de uma propaganda é uma verdadeira arte, quase que inteiramente desconhecida dos partidos burgueses. somente o movimento cristão social, sobretudo na época de Lueger, aplicou este instrumento com grande eficiência e a isso se devem muitos dos seus triunfos.     A que resultados formidáveis uma propaganda adequada pode conduzir, a guerra já nos tinha mostrado. Infelizmente tudo tinha de ser aprendido com o inimigo, pois a atividade, do nosso lado, nesse sentido, foi mais do que modesta. Justamente o insucesso total do plano de esclarecimento do povo do lado alemão, foi para mim um motivo para me ocupar mais particularmente da questão de propaganda.     Não nos faltava oportunidade para pensar sobre essa questão. Infelizmente as lições práticas eram fornecidas pelo inimigo e custaram-nos caro. O adversário aproveitou, com inaudita habilidade e cálculo verdadeiramente genial, aquilo de que nos havíamos descuidado. Aprendi imensamente nessa propaganda de guerra feita pelo inimigo. Aqueles que da mesma se deviam ter servido, como lição eficiente, deixaram-na passar despercebida; julgavam-se espertos demais para aprender dos outros. Por outro lado, não havia vontade honesta para tal.     Haveria entre nós uma propaganda?     Infelizmente, só posso responder pela negativa. Tudo o que, na realidade, foi tentado nesse sentido era tão inadequado e errôneo, desde o princípio, que em nada adiantava. Às vezes era até prejudicial. Examinando atentamente o resultado da propaganda de guerra alemã, chegava-se à conclusão de que ela era insuficiente na forma e psicologicamente errada, na essência.     Começava-se por não se saber claramente se a propaganda era um meio ou um fim.     Ela é um meio e, como tal, deve ser julgada do ponto de vista da sua finalidade. A forma a tomar deve consentir no meio mais prático de chegar ao fim que se colima. É também claro que a importância do objetivo que se tem em vista pode se apresentar sob vários aspectos, tendo-se em vista o interesses social, e que, portanto, a propaganda pode variar no seu valor intrínseco. A finalidade pela qual se lutava durante a guerra era a mais elevada e formidável que se pode imaginar. Tratava-se da liberdade e da independência de nosso povo, da garantia da vida, do futuro e, em uma palavra, da honra da nação. Estávamos em face de uma questão que, não obstante opiniões divergentes de muitos, ainda existe ou melhor deve existir, pois os povos sem honra costumam perder a liberdade e a independência, mais tarde ou mais cedo. Isso, por sua vez, corresponde a uma justiça mais elevada, pois gerações de vagabundos sem honra não merecem a liberdade. Aquele, porém, que quiser ser escravo covarde não deve ter o sentimento de honra, pois, do contrário, esta cairia muito rapidamente no desprezo geral.     O povo alemão lutava por sua existência e o fim da propaganda da guerra devia ser o de apoiar essa luta. Levá-la à vitória, eis o seu objetivo.     Quando, porém, os povos lutam neste planeta por sua existência, quando se trata de uma questão de ser ou não ser, caem por terra todas as considerações de humanidade ou de estética, pois todas essas idéias não estão no ambiente, mas originam-se na fantasia dos homens e a ela estão presas. Com a sua partida desse mundo desaparecem também essas idéias, pois a natureza não as conhece. Mesmo entre os homens, elas só são próprias a alguns povos ou melhor a certas raças, na medida que elas provém do sentimento desses mesmos povos ou raças. O sentimento humanitário e estético desapareceria, até mesmo de um mundo habitado, uma vez que este perdesse as raças criadoras e portadoras dessa idéia.     Todas essas idéias têm uma significação secundária na luta de um povo pela sua existência, chegam mesmo a desaparecer, uma vez que possam contrariar o seu instinto de conservação.     Quanto à questão do sentimento de humanidade já Moltke afirmava que ele residia no processo sumário da guerra, e que, portanto, a maneira mais incisiva de combate, é a que conduz a esse fim.     Aqueles que procuram argumentar nesses assuntos com palavras, tais como estética, etc., pode-se responder da seguinte maneira: As questões vitais da importância da luta pela vida de um povo anulam todas as considerações de ordem estética. A maior fealdade na vida humana é e será. sempre o jugo da escravidão. Será possível que esses decadentes considerem "estética" a sorte atual do povo alemão? É verdade que, com os judeus, que são os inventores modernos dessa cultura perfumada, não se deve discutir sobre esses assuntos. Toda a sua existência é um protesto vivo contra a estética da imagem do Criador.     Se, na luta, esses pontos de humanidade e beleza são excluídos, eles também não poderão servir de orientação para a propaganda.     A propaganda durante a guerra era um meio para um determinado fim, e esse fim era a luta pela existência do povo alemão. Portanto, a propaganda só poderia ser encarada sob o ponto de vista de princípios conducentes àquele objetivo.     As armas mais terríveis seriam humanas, desde que conduzissem a vitória mais rapidamente. Belos seriam somente os métodos que ajudassem a assegurar a dignidade à Nação: a dignidade da liberdade. Essa era a única atitude possível na questão da propaganda de guerra, numa luta de vida e de morte.     Fossem esses pontos conhecidos daqueles que os deviam conhecer, nunca se teriam verificado vacilações quanto à forma e aplicação dessa arma verdadeiramente terrível na mão de um conhecedor.     A segunda questão de importância decisiva era a seguinte: a quem se deve dirigir a propaganda, aos intelectuais ou à massa menos culta? A. propaganda sempre terá de ser dirigida à massa!     Para os intelectuais, ou para aqueles que, hoje, infelizmente assim se consideram, não se deve tratar de propaganda e sim de instrução científica. A propaganda, porém, por si mesma, é tão pouco ciência quanto um cartaz é arte, considerado pelo seu lado de apresentação. A arte de um cartaz consiste na capacidade de seu autor de, por meio da forma e das cores, chamar a atenção da massa. O cartaz de uma exposição de arte só tem em vista chamar a atenção sobre a arte da exposição; quanto mais ele consegue esse desideratum tanto maior é a arte do dito cartaz. Além disso, o cartaz deve transmitir à massa uma idéia da importância da exposição, nunca, porém, deverá ser um sucedâneo da arte que se procura oferecer. Assim, quem desejar se ocupar da arte mesma, terá de estudar mais do que o próprio cartaz, e não lhe bastará por exemplo, um simples passeio pela exposição. Dele se espera que se aprofunde nas várias obras, observando-as com todo cuidado, acabando por fazer delas um juízo justo.     Semelhantes são as condições do que hoje designamos pela palavra propaganda.     O fim da propaganda não é a educação científica de cada um, e sim chamar a atenção da massa sobre determinados fatos, necessidades, etc., cuja importância só assim cai no círculo visual da massa.     A arte está exclusivamente em fazer isso de uma maneira tão perfeita que provoque a convicção da realidade de um fato, da necessidade de um processo, e da justeza de algo necessário, etc. Como ela não é e não pode ser uma necessidade em si, como a sua finalidade, assim como no caso do cartaz, é a de despertar a atenção da massa e não ensinar aos cultos ou àqueles que procuram cultivar seu espírito, a sua ação deve ser cada vez mais dirigida para o sentimento e só muito condicionalmente para a chamada razão.     Toda propaganda deve ser popular e estabelecer o seu nível espiritual de acordo com a capacidade de compreensão do mais ignorante dentre aqueles a quem ela pretende se dirigir. Assim a sua elevação espiritual deverá ser mantida tanto mais baixa quanto maior for a massa humana que ela deverá abranger. Tratando-se, como no caso da propaganda da manutenção de uma guerra, de atrair ao seu círculo de atividade um povo inteiro, deve se proceder com o máximo cuidado, a fim de evitar concepções intelectuais demasiadamente elevadas.     Quanto mais modesto for o seu lastro científico e quanto mais ela levar em consideração o sentimento da massa, tanto maior será o sucesso. Este, porém, é a melhor prova da justeza ou erro de uma propaganda, e não a satisfação às exigências de alguns sábios ou jovens estetas. A arte da propaganda reside justamente na compreensão da mentalidade e dos sentimentos da grande massa. Ela encontra, por forma psicologicamente certa, o caminho para a atenção e para o coração do povo. Que os nossos sabidos não compreendam isso, a causa está na sua preguiça mental ou no seu orgulho. Compreendendo-se, a necessidade da conquista da - grande massa, pela propaganda, segue-se daí a seguinte doutrina: É errado querer dar à propaganda a variedade, por exemplo, do ensino científico.     A capacidade de compreensão do povo é muito limitada, mas, em compensação, a capacidade de esquecer é grande. Assim sendo, a propaganda deve-se restringir a poucos pontos. E esses deverão ser valorizados como estribilhos, até que o último indivíduo consiga saber exatamente o que representa esse estribilho. Sacrificando esse princípio em favor da variedade, provoca-se uma atividade dispersiva, pois a multidão não consegue nem digerir nem guardar o assunto tratado. O resultado é uma diminuição de eficiência e consequentemente o esquecimento por parte das massas.     Quanto mais importante for o objetivo a conseguir-se, tanto mais certa, psicologicamente, deve ser a tática a empregar.     Por exemplo, foi um erro fundamental querer tornar o inimigo ridículo, como o fizeram os jornais humorísticos austríacos e alemães.     Este sistema é profundamente errado, pois o soldado, quando caia na realidade, fazia do inimigo uma idéia totalmente diferente, o que, como era de esperar, acarretou graves conseqüências. Sob a impressão imediata da resistência do inimigo, o soldado alemão sentia-se ludibriado por aqueles que o tinham orientado até então, e, em vez de um aumento de sua combatividade ou mesmo resistência, dava-se o oposto. O homem desanimava.     Em contraposição, a propaganda de guerra dos americanos e ingleses era psicologicamente acertada. Apresentando ao povo os alemães como bárbaros e Hunos, ela preparava o espírito dos seus soldados para os horrores da guerra, ajudando assim a preservá-los de decepções. A mais terrível arma que fosse empregada contra ele, parecer-lhe-ia mais uma confiança no que lhe tinham dito e aumentaria a crença na 'Veracidade das afirmações de seu governo como também, por outro lado, servia para fazer crescer o ódio contra o inimigo infame. O cruel efeito da arma do adversário que ele começava a conhecer parecia-lhe aos poucos uma prova da brutalidade feroz do inimigo "bárbaro" de que ele já tinha ouvido falar, sem que, por um segundo, tivesse sido levado a pensar que as suas próprias armas fossem, muito provavelmente, de ação mais terrível.     Assim é que, sobretudo o soldado inglês, nunca se sentiu mal informado pelos seus, o que infelizmente se dava com o soldado alemão, Este chegava a rejeitar as noticias oficiais como falsas, como verdadeiro embuste.     Tudo isso era a conseqüência de se entregar esse serviço de propaganda ao primeiro asno que se encontrava, em vez de compreender que para este serviço é necessário um profundo conhecedor da alma humana.     A propaganda de guerra alemã serviu de exemplo inexcedível em efeitos negativos, em virtude da falta absoluta de raciocínio psicologicamente certo.     Muito se poderia ter aprendido do inimigo, sobretudo aquele que, de olhos abertos e com o sentido alerta, observasse a onda da propaganda inimiga durante os quatro anos e meio de guerra.     O que menos se compreendia era a condição primeira de toda atividade propagandista, a saber: a atitude fundamentalmente subjetiva e unilateral que a mesma deve assumir em relação ao objetivo visado. Neste terreno cometeram se erros tão grandes, logo no começo da guerra, que se tinha o direito de duvidar se tanta asneira podia ser atribuída só à pura ignorância.     Que se diria, por exemplo, de um cartaz anunciando um novo sabão e que, no entanto, aponta como "bons" outros sabões? A única coisa a fazer diante disso seria levantar os ombros, e passar.     O mesmo se dá em relação à propaganda política.     Foi um erro fundamental, nas discussões sobre a culpabilidade da guerra, admitir que a Alemanha não podia sozinha ser responsabilizada pelo desencadeamento dessa catástrofe. Deveria ter-se incessantemente atribuído a culpa ao adversário, mesmo que esse fato não tivesse correspondido exatamente à marcha dos acontecimentos, como na realidade era o caso. Qual, porém, foi a conseqüência dessa indecisão?     A grande massa de um povo não se compõe de diplomatas ou só de professores oficiais de Direito, mesmo de pessoas capazes de ajudar com acerto, e sim de criaturas propensas à dívida e às incertezas. Quando se verifica, em uma propaganda em causa própria, o menor indício de reconhecer um direito à parte oposta, cria-se imediatamente a dúvida quanto ao direito próprio. A massa não está em condições de distinguir onde acaba a injustiça estranha e onde começa a sua justiça própria. Ela, num caso como esse, torna-se indecisa e desconfiada, sobretudo quando o adversário não comete a mesma tolice, mas, ao contrário, lança toda e qualquer culpa sobre o inimigo. Nada mais natural, pois que, finalmente, o povo acabe acreditando mais na propaganda inimiga do que na própria, dada a uniformidade coerência desta. Esse efeito é, então, inevitável quando se trata de um povo como o alemão que já por si sofre de tão grande mania de objetivismo, e está sempre preocupado em evitar injustiças ao inimigo, mesmo ante o perigo do seu próprio aniquilamento.     A massa não chega a compreender que não é assim que se imaginam essas coisas nos postos de comando.     O povo, na sua grande maioria, é de índole feminina tão acentuada, que se deixa guiar, no seu modo de pensar e agir, menos pela reflexão do que pelo sentimento.     Esses sentimentos, porém, não são complicados mas simples e consistentes. Neles não há grandes diferenciações. São ou positivos ou negativos: amor ou ódio, justiça ou injustiça, verdade ou mentira. Nunca, porém, o meio termo.     Tudo isso foi compreendido, sobretudo pela propaganda inglesa e por ela aproveitado, de uma maneira verdadeiramente genial. Lá não havia indecisões que pudessem provocar dúvidas.     A prova do conhecimento que tinham os ingleses do primitivismo do sentimento da grande massa foi as divulgações das crueldades do nosso exército, campanha que se adaptava a esse estado de espírito do povo.     Essa tática serviu para assegurar, de maneira absoluta, a resistência no front, mesmo na ocasião das maiores derrotas. Além disso, persistiu-se na afirmação de que o inimigo alemão era o único culpado pelo rompimento de hostilidades. Foi essa mentira repetida e repisada constantemente, propositadamente, com o fito de influir na grande massa do povo, sempre propensa a extremos. O desideratum foi atingido. Todos acreditaram nesse embuste.     O quanto foi eficiente essa maneira de fazer propaganda ficou patenteado claramente no fato de ter ela conseguido, após quatro anos, não só assegurar a resistência ao inimigo como começar a influir nocivamente no modo de ver do nosso próprio povo.     Não é de espantar que à nossa propaganda estivesse reservado um tal insucesso. Ela trazia a semente da ineficácia na sua própria dubiedade. Além disso, era pouco provável, a julgar pelo seu conteúdo, que ela fosse capaz de causar o efeito necessário no seio da multidão anônima.     Só mesmo os nossos "estadistas" falhos de espírito poderiam imaginar que, com esse pacifismo anódino e cheirando a flor de laranja, se conseguisse despertar o entusiasmo de alguém ao ponto de arrastá-lo ao sacrifício até da vida. Foi, pois, inútil essa miserável tática e até mesmo perniciosa. Qualquer que seja o talento que se revele na direção de uma propaganda não se conseguirá sucesso, se não se levar em consideração sempre e intensamente um postulado fundamental. Ela tem de se contentar com pouco, porém, esse pouco terá de ser repetido constantemente. A persistência, nesse caso, é, como em muitos outros deste mundo, a primeira e mais importante condição para o êxito.     Em assuntos de propaganda, justamente, é que não se pode ser guiado por estetas, nem por blasés. Os primeiros dão, pela forma e pela expressão, um tal cunho à propaganda que, dentro em pouco, ela só tem poder de atração nos círculos literários; os segundos devem ser cuidadosamente evitados, pois a sua falta de sensibilidade faz com que procurem constantemente novos atrativos. Essas criaturas de tudo se fartam com facilidade; o que eles desejam é variedade e são incapazes de uma compreensão das necessidades de seus concidadãos ainda não contaminados pelo seu pessimismo. Eles são sempre os primeiros críticos da propaganda, ou, melhor, de seu conteúdo, o qual lhes parece demasiado arcaico, demasiado batido, etc. Só querem novidades, só procuram variedade e tornam-se dessa maneira inimigos mortais de uma conquista eficiente das massas sob o ponto de vista político. Logo que uma propaganda, na sua organização e no seu conteúdo, começa a se dirigir pelas necessidades deles, perde toda a unidade e se dispersa inteiramente.     A propaganda, entretanto, não foi criada para fornecer a esses senhores blasés uma distração interessante e sim para convencer a massa. Esta, porém, necessita - sendo como é de difícil compreensão - de um determinado período de tempo, antes mesmo de estar disposta a tomar conhecimento de um fato, e, somente depois de repetidos milhares de vezes os mais simples conceitos, é que sua memória entrará em funcionamento.     Qualquer digressão que se faça não deve nunca modificar o sentido do fim visado pela propaganda, que deve acabar sempre afirmando a mesma coisa. O estribilho pode assim ser iluminado por vários lados, porém o fim de todos os raciocínios deve sempre visar o mesmo estribilho. Só assim a propaganda poderá agir de uma maneira uniforme e decisiva.     Só a linha mestra, que nunca deve ser abandonada, é capaz de, guardando a acentuação uniforme e coerente, fazer amadurecer o sucesso final. Só então poder-se-á, com espanto, constatar que formidáveis e quase incompreensíveis resultados tal persistência é capaz de produzir.     Todo anúncio, seja ele feito no terreno dos negócios ou da política, tem o seu sucesso assegurado na constância e continuidade de sua aplicação.     Também aqui foi modelar o exemplo da propaganda de guerra inimiga, restrita a poucos pontos de vista, exclusivamente destinada à massa e levada avante com tenacidade incansável.     Durante toda a guerra empregaram-se os princípios fundamentais reconhecidos certos, assim como as formas de execução, sem que se tivesse nunca tentado a menor modificação. No princípio essa tática parecia louca no atrevimento de suas afirmações. Tornou-se mais tarde desagradável, e finalmente acreditada. Quatro e meio anos após, estalou na Alemanha uma revolução cujo leit-motiv provinha da propaganda de guerra inimiga.     Na Inglaterra, entretanto, compreendeu-se mais uma coisa, a saber:     Essa arma espiritual só tem o seu sucesso garantido na aplicação às massas e esse sucesso cobre regiamente todas as despesas.     Lá, a propaganda valia como arma de primeira ordem, enquanto que entre nós era considerada o último ganha-pão dos políticos desocupados, e fornecia pequenas ocupações para heróis modestos.     O seu sucesso era, pois, de modo geral, igual a zero.

CAPÍTULO VII - A REVOLUÇÃO

     A propaganda inimiga tinha começado entre nós, no ano de 1915; desde 1916 tornou-se cada vez mais intensa, para finalmente se transformar, no começo de 1918, numa onda avassaladora. Podia se. então, a cada passo, reconhecer os efeitos desta conquista de almas. O exército alemão aprendia aos poucos a pensar conforme o inimigo desejava.     A nossa reação, no entanto, falhava inteiramente.     Entre os dirigentes responsáveis pela direção do exército, havia a intenção de aceitar a luta também para esse desideratum. Sob o ponto de vista psicológico, cometeu-se um erro, deixando que esses esclarecimentos se processassem no seio da própria tropa. Para ser eficiente elas deveriam ter vindo da nação. Só então poder-se-ia contar com o seu sucesso, entre homens que há quatro anos escreviam para a história de sua Pátria páginas imorredouras, de inigualáveis feitos heróicos, alcançados no meio das maiores dificuldades e privações.     No entanto, o que, da Pátria, chegava às linhas da frente?     Era isso estupidez ou crime?     Em pleno verão de 1918, após a evacuação da margem sul do Mama, a imprensa, sobretudo, a imprensa alemã se portava de modo tão miseravelmente inábil, mesmo criminosamente imbecil, que, diariamente, a par do ódio crescente, ocorria-me perguntar se, na realidade, não haveria mesmo ninguém capaz de pôr um fim a esse desperdício do heroísmo do exército.     Que aconteceu em França quando, em 1914, de vitória em vitória, varríamos o solo francês?     Que fez a Itália nos dias da derrocada de seu front do Isonzo? Que fez a França na primavera de 1918, quando o ataque das divisões alemãs parecia abalar as suas posições nos seus fundamentos e quando as baterias de longo alcance começaram a fazer sentir os seus efeitos em Paris? Como lá se soube tirar partido da paixão nacional levada ao paroxismo, lançada em rosto aos regimentos em retirada desabalada! Como trabalhou a propaganda na influenciação da massa, no sentido de inculcar a fé na vitória final no coração dos soldados dos fronts rompidos!     Que aconteceu entre nós?     Nada ou pior do que isso.     Naquela ocasião subiam-me à cabeça a raiva e a indignação quando, ao ler os jornais, tinha de analisar, sob o ponto de vista psicológico, aquela matança em massa.     Mais de uma vez me atormentou a idéia de que, se a Providência me tivesse colocado no lugar desses ignorantões ou mal intencionados incompetentes ou criminosos de nosso serviço de propaganda, talvez outro tivesse sido o desfecho da luta.     Senti, pela primeira vez, nesses meses, a maldade da sorte que me mantinha no front, ao alcance do tiro de qualquer negro, enquanto, no seio da Pátria, eu poderia prestar serviços mais eficientes.     Já naquela ocasião, tinha bastante confiança em mim mesmo para acreditar que teria levado a cabo tal empresa.     Eu não passava, porém, de um desconhecido, um entre oito milhões! Assim sendo, o melhor era calar a boca e tratar de cumprir, na posição em que estava, o meu dever, da melhor maneira.     No verão de 1915. caíram em nossas mãos os primeiros boletins inimigos.     Seu conteúdo era quase sempre o mesmo, se bem que com algumas variantes na forma da exposição. Todos afirmavam que a miséria na Alemanha aumentaria cada vez mais; que a duração da guerra seria infinita, que as probabilidades de vitória seriam cada vez menores, que o povo em casa cada vez mais desejava a paz, que só o "militarismo" e o "Kaiser" queriam a continuação da guerra; que o mundo inteiro - que bem sabia disso - não fazia a guerra ao povo alemão e sim exclusivamente ao único culpado que era o Kaiser, que a luta não teria fim antes do afastamento desse inimigo da humanidade pacífica; que as nações liberais e democráticas aceitariam a Alemanha, uma vez acabada a guerra, na liga eterna da paz mundial, aceitação essa que seria garantida, desde o momento em que estivesse aniquilado o "militarismo prussiano", etc., etc.     Para melhor ilustrar o exposto não raras vezes eram então transcritas "cartas de casa", isto é, das famílias dos soldados, cujo conteúdo parecia apoiar essas afirmações.     No primeiro momento, os soldados, na sua maioria, levavam na troça essas tentativas do inimigo. Os boletins eram lidos, em seguida enviados para a retaguarda aos estados-maiores e, na maioria dos casos, olvidados até que o vento trouxesse novo carregamento para dentro das trincheiras. Geralmente eram aeroplanos que distribuíam esses boletins.     Nesse processo de propaganda, evidenciava-se, à primeira vista, o fato de atacarem com veemência a Prússia, justamente nos setores do front, onde havia bávaros. Asseverava-se que a Prússia era o verdadeiro culpado e responsável pela guerra e que, por outro lado, não havia, especialmente contra a Baviera, a menor animosidade. É verdade, diziam, que nada se podia fazer em seu favor, enquanto ela se encontrasse a serviço do militarismo prussiano, auxiliando-o a "tirar as castanhas do fogo".     Esta maneira de persuadir começou na realidade já em 1915 a produzir certos efeitos. No seio da tropa, a má vontade contra a Prússia crescia visivelmente, sem que as autoridades tomassem quaisquer providências. Evidentemente, isso foi mais do que uma simples negligência que mais cedo ou mais tarde se faria sentir, de maneira terrível, não só contra a "Prússia" mas também contra o povo alemão, no seio do qual, a Baviera ocupa lugar de destaque.     Desde o ano de 1916, a propaganda inimiga começou a alcançar triunfos completos, nesse sentido.     Além disso, as queixas que se continham nas cartas das famílias- dos soldados vinham produzindo, há muito, os seus naturais efeitos. Já não era nem mais necessário que o inimigo as transmitisse ao front, por meio de boletins, etc. Contra esse estado de coisas também não se tomaram providências "por parte do governo", salvo algumas "exortações", psicologicamente asnáticas. O front continuou a ser inundado com esse veneno fabricado em casa por mulheres ingênuas, as quais, naturalmente, não suspeitavam que esse era o meio de reforçar ao extremo, no espírito do inimigo, a confiança na vitória e que assim prolongavam e agradavam os sofrimentos dos seus parentes em luta nas trincheiras. As cartas levianas das mulheres alemãs custaram a vida a centenas de milhares de homens.     Assim, já em 1916, começaram a aparecer sintomas alarmantes. O front vociferava e mostrava-se descontente com muitas coisas, e, às vezes, com razão, se indignava.     Enquanto os soldados, pacientemente passavam fome nas linhas da frente e os seus parentes sofriam grandes privações em casa, em outros lugares havia abundância e dissipação.     Mesmo no campo da luta, nem tudo, a esse respeito, se passava, como seria de esperar.     Assim, já naquela ocasião, murmurava se contra esse estado de coisas. Essas reclamações não passavam, porém, de questões "domésticas". O mesmo homem que, pouco antes, tinha vociferado e resmungado, poucos minutos depois cumpria silenciosamente o seu dever, com a máxima naturalidade. A mesma companhia, que pouco antes se manifestara descontente, agarrava-se a um pedaço de trincheira, cuja defesa lhe tinha sido confiada, como se o destino da Alemanha dependesse exclusivamente desses 100 metros de buracos de lama. Esse era ainda o front do velho e maravilhoso exército de heróis.     A diferença entre eles e a Pátria iria eu conhecer em uma mutação brusca.     Em fins de setembro de 1916, a minha divisão se deslocou para a batalha do Somme. Essa foi para nós a primeira das. formidáveis batalhas materiais que se seguiram, e a impressão, difícil de descrever, era mais de inferno do que de guerra.     Semanas a fio, sob o furacão do fogo de barragem resistia o front alemão, às vezes comprimido um pouco para trás, às vezes avançando de novo, porém nunca recuando.     A 7 de outubro de 1916 fui ferido.     Consegui ser levado para a retaguarda e devia voltar para a Ale. manha em um trem de ambulância.     Dois anos se haviam passado sobre a última vez que eu vira a Pátria, período de tempo, quase infinito, em tais circunstâncias.     Eu mal podia imaginar a existência de alemães que não estivessem metidos em uniforme. Quando, em Hermies, no hospital de feridos, quase estremeci de susto ao ouvir a voz de uma mulher alemã enfermeira que tinha dirigido a palavra a um meu vizinho de cama.     Ouvir um tal som pela primeira vez após dois anos!     Quanto mais o trem, que nos devia conduzir à Pátria, se aproximava da fronteira, tanto mais inquieto cada um se sentia intimamente. Sucediam-se as localidades pelas quais, há dois anos atrás, tínhamos passado como jovens soldados:- Bruxelas, Louvam, Liége, e finalmente acreditamos reconhecer a primeira casa alemã com a sua cumeeira alta e suas lindas janelas.     A Pátria!     Era outubro de 1914, ardíamos de entusiasmo ao atravessar a fronteira; agora reinavam o silêncio e a comoção Cada um se sentia feliz por ter o destino lhe permitido rever ainda uma vez o solo pátrio que tivera de defender com sua vida; e quase que se envergonhava de se sentir observado pelos outros. Quase no dia de completar um ano da minha partida, fui internado no hospital de Beelitz, perto de Berlim.     Que mudança! Da lama da batalha do Somme às camas brancas dessa construção maravilhosa! No princípio quase não ousávamos nos deitar nesses leitos. Só lentamente poderíamos rios acostumar a esse novo mundo, tão diferente das trincheiras!Infelizmente, porém, este mundo era também novo noutro sentido.     O espírito do exército no front parecia não encontrar acolhida aqui. Algo, ainda desconhecido no front, ouvi aqui pela primeira vez:- o elogio da própria covardia!     Lá fora seria possível maldizer e ouvir vociferar, porem nunca com a intenção de faltar com o dever ou de glorificar o covarde. Não! O covarde era sempre considerado covarde e mais nada; e o desprezo que o atingia era sempre geral, assim como geral era a admiração que se dedicava ao verdadeiro herói. No hospital, entretanto, dava-se já em parte o inverso: Os mais deslavados instigadores é que tinham a palavra e procuravam, com todos os recursos da sua verborragia lamentável, tornar ridículos os conceitos do soldado decente e proclamar como virtude a falta de caráter do covarde. Eram sobretudo alguns miseráveis rapazolas que davam o tom. Um deles se vangloriava de ter ele mesmo passado a mão pelo arame farpado, a fim de ir para o hospital. Ele parecia, não obstante esse ferimento ridículo, já estar ali há muito tempo, e que, só por um embuste, tinha vindo num trem de transporte para a Alemanha. Este sujeito venenoso ia tão longe, a ponto de colocar a própria covardia num pé de igualdade com a valentia superior ou a morte heróica de um soldado decente. Muitos ouviam silenciosos, outros se afastavam, outros, porém, concordavam.     Eu estava enojado; no entanto o instigador era tolerado no estabelecimento. Que se devia fazer? A direção devia saber e sabia quem e o que ele era. Entretanto nada acontecia.     Logo que pude andar de novo, consegui licença para ir a Berlim.     A miséria áspera, mais negra, era visível por toda a parte. A cidade de milhões estava faminta. O descontentamento era grande. Em muitas casas visitadas por soldados, o tom era semelhante ao do hospital. Tinha-se a impressão de que esses indivíduos procuravam justamente esses lugares, a fim de espalhar aí o seu modo de pensar.     Muito e muito pior era, porém, a situação em Munique! Quando me restabeleci e tive alta do hospital e fui transferido para o batalhão de reserva pensei não reconhecer mais a cidade. Descontentamento, desânimo, imprecações por toda a parte. Mesmo no batalhão de reserva, o moral era abaixo da critica. Para isso contribuía aqui a maneira grandemente inábil como os antigos oficiais instrutores tratavam os soldados vindos do front. Eles ainda não tinham estado uma hora sequer no front e, por esse motivo, sã em parte conseguiam estabelecer relações cordiais com os velhos soldados Estes possuíam certas particularidades oriundas dos serviços de campanha, as quais eram inteiramente incompreensíveis para os dirigentes dessas tropas de reserva e que só o oficial vindo do front poderia compreender. Este último naturalmente era considerado pelos soldados, doutra maneira que não o era pelo comandante de etapas". Abstraindo disso tudo, porém, a impressão geral era péssima. Ser reacionário era considerado sinal de superioridade; a perseverança no cumprimento do dever tomava-se como fraqueza ou estreiteza de espírito. Os escritórios estavam repletos de judeus. Quase todo escriturário era judeu e quase todo judeu era escriturário. Eu ficava abismado ante essa massa de lutadores do povo eleito e não podia deixar de compará-la com os poucos representantes no front.     No mundo dos negócios, pior ainda era o estado de coisas. Nesse ponto, o povo judeu tinha se tornado na realidade "indispensável". O morcego tinha começado a lentamente chupar o sangue do povo. Pelos caminhos Indiretos das sociedades de guerra, tinha-se achado uma maneira de eliminar aos poucos a economia nacional livre.     Pregava-se a necessidade de uma centralização sem limites.     Assim é que, na realidade, já no ano de 1916 para 1917, quase toda a produção se achava sob o controle dos financistas judeus.     Contra quem, porém, se dirige o ódio do povo? Nessa época, eu via com pavor aproximar-se uma calamidade que, se não fosse desviada em tempo oportuno, teria de provocar a debacle.     Enquanto o judeu roubava a nação inteira e a oprimia sob o seu jugo, instigava-se o povo contra os "Prussianos". Como no front, também aqui não se tomavam providências contra essa propaganda venenosa. Parecia não passar pela cabeça de ninguém que o colapso da Prússia estava longe de provocar o soerguimento da Baviera. Ao contrário, a queda de um teria de arrastar o outro para o abismo, impiedosamente.     Sentia-me infinitamente mal ante essa atitude. Nela eu via o mais genial manejo dos judeus, que desejavam afastar de si a atenção geral para dirigi-la para outros assuntos. Enquanto brigava o bávaro com o prussiano, ele roubava aos dois a existência; enquanto se falava mal, na Baviera, do prussiano, o judeu organizava a revolução e destruía ao mesmo tempo a Prússia e a Baviera.     Eu não podia tolerar essa maldita luta entre filhos do mesmo povo; por isso, sentia-me contente por voltar ao front, para onde, ao chegar em Munique, tinha pedido minha transferência.     No princípio de março de 1917, encontrava-me de novo no meu regimento.     Lá para os fins do ano de 1917, parecia ter atingido o máximo o desânimo no exército. O exército inteiro, após o colapso russo, estava animado de nova esperança e de nova coragem. A tropa começava cada vez mais a se convencer de que a luta havia de acabar com a vitória da Alemanha. Ouvia-se, novamente cantar, e os agourentos cada vez eram mais raros. Tinha-se de novo fé no destino da Pátria.     Sobretudo o colapso italiano, no outono de 1917, tinha produzido um efeito maravilhoso. Via-se nessa vitória a prova da possibilidade de romper o front, mesmo abstraindo o teatro de operações russas. Uma fé maravilhosa invadia novamente o coração de milhões, e fazia com que aguardassem com confiança a primavera de 1918. O inimigo, porém, estava visivelmente abatido. Nesse inverno houve mais calma do que de costume; era a calma que precede a tempestade.     Justamente enquanto o front fazia os últimos preparativos para o término final da luta, enquanto transportes de homens e material rolavam para as linhas do oeste, e a tropa recebia instruções para o grande ataque, arrebentou na Alemanha a maior patifaria de toda a guerra.     A Alemanha não devia vencer. A última hora, quando a vitória começava a se decidir pelas bandeiras alemãs, lançou-se mão de um meio que parecia adequado a sufocar, de um golpe, no nascedouro, a ofensiva alemã da primavera, tornando a vitória impossível.     Organizou-se a greve de munições. Caso ela vingasse, o front alemão teria de se esfacelar e seria realizado o desejo, manifestado pelo "Vorwärts" de que a vitória desta vez não fosse das cores alemãs. A linha da frente teria de ser rompida, em poucas semanas, por falta de munição. A ofensiva seria assim evitada, a Entente estaria salva e o capital internacional se teria tornado dono da Alemanha. A finalidade Intima do marxismo, isto é, a mistificação dos povos, teria sido atingida. A destruição da economia nacional, em beneficio do capital internacional, é um fim que foi atingido graças à tolice e à boa fé de um lado e a uma covardia inominável do outro.     É verdade que a greve de munição, que visava anular o front pela falta de armas, não teve o sucesso esperado. Ele desmoronou cedo demais para que a falta de munição, conforme estava planejado, pudesse ter condenado o exército à destruição. Tanto mais terrível, porém, foi o dano moral provocado.     Em primeiro lugar, todos se perguntavam: Para que, afinal de contas, lutava o exército, se a própria Pátria não desejava a vitória? Para que os enormes sacrifícios e privações? O soldado tem de lutar pela vitória e a Pátria faz greve!     Em segundo lugar, qual teria sido o efeito desses acontecimentos sobre o inimigo?     No inverno de 1917 a 1918, pela primeira vez, nuvens tenebrosas surgiram no firmamento do mundo aliado. Durante quase quatro anos. tinha-se investido contra o gigante alemão, sem se ter podido derrubá-lo e, no entanto, este só tinha um escudo para se defender, enquanto a espada tinha de distribuir golpes, ora para o oeste, ora para o sul. Finalmente o gigante estava com as costas livres. Rios de sangue tinham corrido até ele abater definitivamente um inimigo. Era chegado o momento de, no oeste, juntar a espada ao escudo e se, até então, o inimigo não tinha conseguido romper a defensiva, a ofensiva ia atingi-lo em cheio.     Ele era temido e receava-se a sua vitória.     Em Londres e Paris sucediam se as conferências. Até a propaganda inimiga já se fazia com dificuldade. Já não era tão fácil demonstrar a improbabilidade da vitória alemã. O mesmo se dava nas frentes de batalha, onde reinava silêncio absoluto, até nas tropas aliadas. Esses senhores tinham perdido de repente a insolência. Também para eles, as coisas começaram lentamente a aparecer sob uma luz desagradável. A sua atitude interna com relação ao soldado alemão tinha-se modificado. Até então, os nossos soldados eram vistos como loucos a quem uma derrota certa esperava. Agora, porém, estava diante deles o destruidor do aliado russo. A restrição das ofensivas alemãs do oeste. provindas da necessidade, pareciam entretanto tática genial. Durante três anos os alemães tinham investido contra a Rússia, no princípio aparentemente sem o menor sucesso. Quase que se tinha rido desse começo de luta. No final das contas, o gigante russo teria de sair vencedor graças à superioridade numérica. A Alemanha, porém, estava fadada a esvair-se em sangue. A realidade parecia justificar essas esperanças.     Desde os dias de setembro de 1914, quando. pela primeira vez, começaram a rolar para a Alemanha, pelas ruas e estradas, os magotes Infinitos dos prisioneiros russos da batalha de Tennenberg, a avalanche parecia não ter fim. Entretanto, cada exército batido e destruído era substituído por um novo. O Império colossal fornecia ao Czar cada vez novos soldados e à guerra suas novas vítimas e isso inesgotavelmente. Quanto tempo poderia a Alemanha resistir a essa corrida? Não chegaria o dia em que, após uma última vitória alemã, não aparecessem os últimos exércitos para a última batalha? E mais! Na medida das possibilidades humanas, a vitória da Rússia poderia ser postergada, porém, teria de vir.     Agora tinham acabado todas essas esperanças. O aliado que tinha trazido ao altar dos interesses comuns os maiores sacrifícios em sangue, tinha chegado ao fim de suas forças e jazia no chão à mercê do inimigo inexorável. O medo e o pavor se infiltravam nos corações dos soldados, que até então eram animados de uma crença quase cega. Temia-se a primavera próxima. Pois, se até então não se tinha conseguido derrubar o alemão, que, só em parte, tinha podido atender ao front ocidental, como se poderia ainda contar com a vitória, agora que parecia se reunir a força toda do Estado heróico nessa frente?     A imaginação era trabalhada pelas sombras das montanhas do sul do Tirol. Até na névoa do Flandres se projetavam as fisionomias sombrias dos exércitos batidos de Cadorna, e a fé na vitória cedia o lugar ao medo da próxima derrota.     Quando já se pensava ouvir o rolar uniforme das divisões de ataque do exército alemão em marcha, e quando já se esperava o juízo final, eis que irrompe da Alemanha uma luz vermelha que projeta a sua sombra até o último buraco de trincheira inimiga. No momento em que as divisões alemãs recebiam as últimas instruções para a grande ofensiva, declarava-se na Alemanha a greve geral.     A primeira impressão do mundo foi de estupefação. Em seguida, porém, a propaganda inimiga, tomando novo alento, atirou-se a essa tábua de salvação da décima segunda hora. De um golpe se tinham encontrado os meios de 1-eviver a confiança arrefecida dos soldados aliados, de apresentar a probabilidade de vitória como sendo uma certeza e de transformar a pavorosa depressão com relação aos acontecimentos vindouros em confiança absoluta. Podia-se agora inculcar aos regimentos, até então na expectativa do ataque alemão, a convicção, na maior batalha de todos os tempos, de que a decisão final dessa guerra não ia depender do arrojo da ofensiva alemã e sim de sua persistência na defensiva. Os alemães podiam obter quantas vitórias quisessem, na sua pátria esperava-se uma revolução e não o exército vitorioso.     Os jornais ingleses, franceses e americanos começaram a semear essa convicção no coração de seus leitores, enquanto uma propaganda imensamente hábil era utilizada com o fim de elevar o moral das tropas.     "A Alemanha às vésperas da revolução! A vitória dos aliados inevitável!" Este foi o melhor remédio para pôr o indeciso Tommy e o Poilu de novo firmes sobre as pernas. Podiam agora fazer funcionar de novo os fuzis e os fuzis-metralhadoras e, no lugar de uma fuga em pânico, estabeleceu-se resistência cheia de esperanças.     Foi esse o resultado da greve das munições. Ela reavivou entre os povos inimigos a fé na vitória e pôs termo à paralisaste depressão no front aliado. Em conseqüência disso, milhares de soldados alemães tiveram que pagar com seu sangue esse desatino. Os promotores desse mais que infame golpe eram aqueles que esperavam obter os mais elevados postos administrativos na Alemanha revolucionária.     Do lado alemão poder-se-ia talvez ter reagido com sucesso, do lado do inimigo entretanto as conseqüências eram inevitáveis. A resistência tinha deixado de ser aquela oferecida por um exército que considerava tudo perdido e foi substituída por uma luta de vida e de morte pela vitória.     A vitória tinha de vir. Bastava para isso que o front ocidental resistisse alguns meses à ofensiva alemã. Nos parlamentos da Entente reconheceram-se as possibilidades do futuro, e foram concedidos créditos imensos para a continuação da propaganda com o fim de destruir a unidade alemã.     Eu tive a felicidade de poder tomar parte nas duas primeiras ofensivas e na última.     Estas se tornaram a mais tremenda impressão de toda minha vida; tremenda porque, pela última vez, a luta perdeu o seu caráter de defensiva e tornou-se uma ofensiva, como em 1914. Pelas trincheiras dó exército alemão passou um novo alento quando, finalmente, depois de três anos de espera no inferno inimigo, tinha chegado o dia da "revanche". Mais uma vez exultaram os batalhões vitoriosos e as últimas coroas de louro entrelaçaram-se às bandeiras vitoriosas. Mais uma- vez retumbaram as canções à Pátria, ao longo das colunas em marcha, e, pela última vez, a misericórdia divina sorria a seus filhos ingratos.     Em pleno verão de 1918, pairava uma atmosfera pesada sobre o front. Na Pátria havia dissenções. Qual era a causa? Muita coisa se contava entre as diversas unidades do exército. Dizia-se que a guerra agora se tornara sem finalidade, pois, somente loucos poderiam acreditar na vitória. Não era mais o povo, e sim os capitalistas e a monarquia que estavam interessados em continuar a guerra. Todas essas notícias vinham da Pátria e eram discutidas no front.     No princípio o soldado pouco reagia contra isso. Que nos importava o sufrágio universal? Era por ele que nós vínhamos combatendo há quatro anos? Foi um golpe infame esse de roubar dessa maneira, no túmulo, a finalidade da guerra ao herói morto. Há tempos os jovens regimentos não tinham marchado, em Flandres, para a morte, com o grito "Viva o sufrágio universal secreto" e sim bradando "Deutschland über alles". Pequena, porém, não totalmente- insignificante diferença! Aqueles que gritavam pelo direito de voto, na sua grande maioria, não tinham estado lá para lutar por essa conquista. O front não conhecia essa canalha política. Lá- onde se encontravam os alemães decentes que permaneceriam, enquanto sentissem um sopro de vida, só se via uma fração diminuta dos senhores parlamentares.     O front, na sua primitiva situação, tinha muito pouco interesses pelo novo alvo de guerra dos senhores Ebert, Scheidmann, Barth, Liebknecht. etc. Não se podia compreender porque esses reacionários se arrogavam o direito de, passando por cima do exército, controlar o Estado.     Minhas noções políticas pessoais estavam fixadas desde o começo. Eu odiava essa corja de miseráveis partidários traidores da nação. Há muito tempo eu tinha compreendido que para esses tratantes não se- tratava do bem da nação e sim de encher os seus bolsos vazios. E o fato de eles estarem dispostos a sacrificar a Nação inteira por esse fim e de permitir, se necessário fosse, a destruição da Alemanha, fez com que perante meus olhos merecessem a forca. Tomar em consideração os seus desejos significava sacrificar os interesses do povo trabalhador em favor de alguns batedores de carteira. Só se poderia satisfazer os seus desejos no caso de se estar decidido a abrir mão da sorte da Alemanha. Assim pensava a maioria do exército combatente. Mas o reforço vindo da Pátria se tornava cada vez menos eficiente, de sorte que a sua vida, em vez de produzir um aumento de combatividade, tinha o efeito contrário. Sobretudo o reforço constituído pelos novos soldados era na maior parte inútil. Dificilmente se poderia acreditar que esses eram filhos do mesmo povo que tinha mandado a sua juventude para a luta em Ypres.     Em agosto e setembro, aumentaram cada vez mais os sintomas de decadência, embora o efeito do ataque inimigo não pudesse ser comparado com o pavor produzido pelas nossas batalhas defensivas de outrora. Comparadas a elas, as batalhas do Somme e de Flandres eram coisas do passado, de horripilante memória.     Em fins de setembro, a minha divisão, pela terceira vez, chegava às posições que tínhamos tomado de assalto, quando éramos ainda um regimento de voluntários, recentemente formado.     Que reminiscências! Em outubro e novembro de 1914, tínhamos ali recebido nosso batismo de fogo. Com o coração ardendo de patriotismo e com canções nos lábios, tinha o nosso novo regimento seguido para a batalha, como para uma festa. O sangue mais caro era dado com prazer à Pátria, pensando cada um com isso garantir à Nação a sua independência e a sua liberdade.     Em julho de 1917, pisamos, pela segunda vez, o solo tão sagrado para nós todos, pois nele repousavam nossos melhores camaradas que, quase ainda crianças, tinham se lançado à morte, de olhos fixos na Pátria querida! Nós, os velhos, que outrora ali passamos com nosso regimento, quedávamo-nos respeitosamente comovidos diante desse lugar sagrado, onde tínhamos jurado "fidelidade e obediência até à morte". Esse terreno, há três anos atrás tomado de assalto pelo nosso regimento, tinha agora de ser defendido numa tremenda batalha defensiva.     O Inglês preparava a grande ofensiva do Flandres com um fogo de barragem que já durava três semanas. Parecia então que o espírito dos mortos revivia; o regimento se agarrava com unhas e dentes à lama imunda, apagava-se aos buracos e às fendas do solo, sem se abalar nem ceder um palmo, e ia se tornando, como já uma vez, cada vez mais desfalcado, até que, finalmente a 31 de julho de 1917, se desencadeou o ataque dos ingleses.     Nos primeiros dias de agosto fomos substituídos. O regimento tinha se transformado em algumas companhias; estas marchavam para a retaguarda, recobertas de lama, mais se assemelhando a espectros do que a criaturas. Fora algumas centenas de metros de buracos de granadas, o inglês só tinha conseguido encontrar a morte.     Agora no outono de 1918, estávamos, pela terceira vez, no terreno da ofensiva de 1914. A nossa cidadezinha, Comines, outrora tão sossegada, tinha se transformado em campo de batalha. É verdade que, embora o terreno da luta fosse o mesmo, as criaturas tinham mudado: fazia-se agora política entre a tropa. O veneno da Pátria começou, como em toda parte, a trazer até aqui os seus efeitos. Os reforços mais novos falharam inteiramente - eles tinham vindo da Pátria, já contaminados.     Na noite de 13 a 14 de outubro, começou o bombardeio a gás na frente sul de Ypres. Empregava-se um gás cujo efeito ignorávamos ainda. Nessa mesma noite, eu devia conhecê-lo por experiência própria. Estávamos ainda numa colina ao sul de Werwick, na noite de 13 de outubro, quando caímos sobre um fogo de granadas que já durava horas e que se prolongou pela noite a dentro, de maneira mais ou menos violenta. Lá por volta de meia-noite, já uma parte de nossos companheiros tinha sido posta fora de combate, alguns para sempre. Pela manhã senti também uma dor que de 15 em 15 minutos se tornava mais aguda e, às 7 horas da manhã, trôpego e tonto, com os olhos ardendo, eu me retirava levando comigo a minha última mensagem da guerra.     Já algumas horas mais tarde, os meus olhos tinham se transformado em carvão incandescente. Em torno de mim tudo estava escuro.     Foi assim que eu vim para o hospital de Pasewalk na Pomerânia e ali tive de assistir a revolução!     Já há algum tempo pairava no ar algo de incerto e desagradável. Dizia-se que, dentro de algumas semanas, ia haver alguma coisa. Eu não compreendia o que se queria dizer com isso. Primeiramente, pensei numa greve semelhante à da primavera. Boatos desfavoráveis com relação à Marinha apareciam constantemente, dizia-se que esta estava em plena efervescência. Pensei que isso fosse mais o resultado da fantasia de alguns indivíduos do que a opinião da grande massa. No hospital quase todos falavam esperançados no breve término da guerra, porém, ninguém contava com isso "imediatamente". Os jornais, eu não os podia- ler.     Em novembro aumentou a tensão geral.     E, finalmente, um dia, inopinadamente, deu-se a desgraça. Marinheiros vindos em caminhões incitavam à revolução. Alguns rapazolas judeus eram os "dirigentes" dessa luta pela "liberdade, beleza e dignidade" de nosso povo. Nenhum deles tinha estado no front. Os três orientais tinham sido mandados para casa pelo recurso a um "lazareto de doenças venéreas". Agora içavam na Pátria o trapo vermelho.     Ultimamente, eu tinha melhorado um pouco. A dor cruciante nos olhos diminuía. Aos poucos eu conseguia - distinguir imprecisamente os que me cercavam. Podia alimentar a esperança de recuperar a vista, ao menos a ponto de poder exercer mais tarde uma profissão qualquer. É verdade que eu não poderia jamais pensar em desenhar. Achava-me assim no caminho da convalescença, quando aconteceu a calamidade.     Ainda tive a esperança de que se tratasse de uma traição mais ou menos de caráter local. Cheguei a procurar convencer alguns camaradas nesse sentido. Sobretudo os meus companheiros bávaros do hospital estavam inclinados a pensar assim. Lá o ambiente era tudo, menos revolucionário. Nunca pude imaginar que também era Munique a loucura se desencadeasse. A mim me parecia que a fidelidade à digna casa de Witteisbach fosse mais forte do que a vontade de alguns judeus. Assim me convenci de que se tratava de um pronunciamento simples da Marinha, o qual seria dominado em poucos dias.     Os dias seguintes foram passando e, com eles, veio a mais terrível certeza de minha vida. Os boatos aumentavam constantemente. O que eu tinha tomado por uma questão local era na realidade uma revolução geral. Além disso chegavam a cada instante as noticias mais vergonhosas do front. Queria-se capitular.     Mas, Senhor, seria possível tal coisa?     A dez de novembro o velho pastor veio ao hospital para uma pequena prédica.     Foi então que soubemos de tudo.     Estava presente e fiquei profundamente emocionado. O velho e digno senhor parecia tremer ao nos comunicar que a casa dos Hohenzollern não mais poderia usar a coroa imperial e que a Pátria se tinha transformado em república, e que só restava pedir ao Todo-Poderoso que concedesse a sua bênção a essa transformação e não abandonasse o nosso povo de futuro. Ele não podia deixar de, em poucas palavras, relembrar a casa imperial; queria prestar homenagens aos serviços dessa Casa à Prússia, à Pomerânia, enfim a toda Pátria alemã e, nesse momento, o bom velho começou a chorar. No pequeno salão havia profundo desânimo em todos os corações e creio que não havia quem pudesse conter as lágrimas. Quando o pastor procurou continuar e começou a comunicar que teríamos que acabar essa longa guerra e que a nossa Pátria, agora que tínhamos perdido a guerra e estávamos sujeitos à misericórdia do inimigo, iria sofrer grandes opressões e que o armistício seria aceito dependendo da magnanimidade dos nossos inimigos - eu não me contive. Para mim era impossível permanecer onde estava. Comecei a ver tudo preto em torno de mim e cambaleando voltei ao dormitório. Joguei-me na cama e cobri a cabeça em fogo com o cobertor e o travesseiro.     Desde o dia em que estivera diante do túmulo de minha mãe nunca mais tinha chorado. Quando na minha juventude o destino era duro para comigo, a minha pertinácia aumentava. Quando, durante os longos anos de guerra, a morte colhia um dos nossos caros camaradas e amigos, parecia-me um pecado queixar-me e lamentar a perda. Não morriam eles pela Alemanha? Quando, nos últimos dias da terrível luta fui atingido pelo gás terrível que começou a corroer os meus olhos, tive no momento de susto ímpetos de fraquejar diante de expectativa da cegueira eterna. Imediatamente ouvi dentro de mim a voz da consciência bradar: miserável poltrão ainda queres chorar quando há milhares que sofrem mais do que tu! E assim conformei-me, calado, com o destino. Agora porém não suportava mais.     Só então verifiquei como a dor pessoal desaparece diante da desgraça da Pátria.     Tudo tinha sido em vão. Em vão todos os sacrifícios e privações, e em vão a fome e a sede de meses sem fim. Em vão as horas em que, transidos de pavor, cumpríamos assim mesmo o nosso dever, e em vão a morte de dois milhões que então caíram. Seria que não se iam abrir os túmulos das centenas de milhares que outrora tinham partido com fé na Pátria para nunca mais voltarem? Não se iriam abrir esses túmulos, a fim de enviarem à nação os heróis mudos enlameados e ensangüentados, quais espíritos vingativos, pela traição do maior sacrifício que um homem pode oferecer nesse mundo? Foi para isso que morreram os soldados de agosto e setembro de 1914? Foi para isso que se lhes ajuntaram os regimentos de voluntários do Outono desse mesmo ano? Foi para isso que rapazes de 17 anos tombaram na terra de Flandres? Era esse o sentido do sacrifício oferecido pelas mães alemãs à Pátria, quando, com o coração partido, deixavam partir seus filhos mais caros para não mais revê-los? Tudo isso aconteceu para que agora um punhado de miseráveis criminosos pudesse pôr a mão sobre a Pátria?     Foi para isso que o soldado alemão tinha persistido, ao sol e à neve, sofrendo fome, sede, frio e cansaço das noites sem dormir e das marchas sem fim? Foi para Isso que ele, sempre com o pensamento no dever de proteger a Pátria contra o Inimigo, se expôs sem recuar ao inferno de fogo de barragem, e à febre dos gases asfixiantes?     Na verdade, também esses heróis merecem uma lápide em que se escreva:     "Viajante que vindes à Alemanha, contai à nação que aqui repousamos fiéis à Pátria e obedientes ao dever".     E a Pátria?     Seria esse o único sacrifício que teríamos de suportar?     Valeria a Alemanha do passado menos do que supúnhamos? Não tinha ela obrigações para com a sua própria História? Éramos nós ainda dignos de nos cobrir com a glória do seu passado? Como poderíamos justificar às gerações futuras esse ato do presente?     Miseráveis e depravados criminosos! Quanto mais eu procurava esclarecer as idéias, nessa hora, com relação ao terrível acontecimento, tanto mais eu corava de raiva e de vergonha. Que significavam todas as dores dos meus olhos comparadas com essa miséria.     Seguiram-se dias terríveis e noites mais terríveis ainda. Eu sabia que tudo estava perdido. Contar com a misericórdia, do inimigo era loucura.     Nessas noites cresceu em mim o ódio contra os responsáveis por esses acontecimentos. Nos dias que se seguiram tive a consciência do meu destino. Ri-me, ao pensar no meu futuro, que há pouco tempo me tinha preocupado. Não seria ridículo querer construir um edifício sólido sobre tais bases? Finalmente me convenci que o que havia acontecido era o que eu havia sempre temido. Somente não tinha podido acreditar. O imperador Guilherme II tinha sido o primeiro imperador alemão que tinha oferecido a mão à conciliação com os líderes do marxismo, sem se lembrar que bandidos não têm honra. Enquanto eles seguravam a mão do imperador com a outra procuravam o punhal.     Com judeus não se pode pactuar. Só há um pró ou um contra.     Eu, porém, resolvi tornar-me político.

CAPÍTULO VIII - COMEÇO DE MINHA ATIVIDADE POLÍTICA

     Em fins de novembro de 1918 voltei para Munique. De novo entrei no batalhão de reserva do meu regimento, o qual se achava então nas mãos dos "conselhos de soldados". Senti-me tão enojado que resolvi abandonar o batalhão, logo que me fosse possível. Juntamente com o meu fiel camarada de guerra, Schmidt Ernest, dirigi-me para Traunstein e ali permaneci até a dissolução do acampamento.     Em março de 1919, voltamos de novo para Munique.     A situação era insustentável. A continuação da revolução se tornara fatal. A morte de Eisner tinha tido apenas o efeito de apressar os acontecimentos, provocando a ditadura dos Conselhos, ou, melhor, um domínio temporário dos judeus, objetivo que tinham em vista aqueles que provocaram a revolução.     Por essa época, passavam pela minha cabeça planos e mais planos. Dias a fio eu meditava sobre o que se poderia fazer, mas chegava sempre à conclusão de que, devido ao fato de ser eu um desconhecido, não possuía os requisitos indispensáveis para garantia do êxito de qualquer atuação. Mais adiante voltarei a falar sobre os motivos que me induziram a não me filiar a nenhum dos partidos então existentes.     Durante a nova revolução dos Conselhos, assumi, pela primeira vez, uma atitude que me custou a má vontade do Conselho Central. Em 27 de abril de 1919, pela manhã cedo, eu devia ser preso. Entretanto, diante de um fuzil com que eu os ameacei, os três rapazolas incumbidos de me prender, perderam a coragem e desistiram da idéia.     Alguns dias depois da libertação de Munique, fui intimado a comparecer diante da comissão de sindicâncias, a fim de prestar esclarecimentos sobre os acontecimentos relativos à revolução no 2o. regimento de infantaria.     Foi essa a minha primeira incursão no campo da atividade puramente política.     Algumas semanas mais tarde, recebi ordem de tomar parte num "curso" destinado aos membros da milícia de defesa. Esse curso visava dar aos soldados certas bases de orientação cívica. Para mim a vantagem da iniciativa consistia no fato de eu poder travar conhecimento com alguns camaradas que pensavam da mesma maneira que eu, e com os quais eu podia discutir detalhadamente a situação do momento. Estávamos todos mais ou menos convencidos de que a Alemanha não se poderia salvar do colapso cada vez mais próximo, por intermédio dos partidos do centro e da social-democracia. que tinham sido causadores do crime de novembro. Além disso, sabíamos que os chamados partidos dos "burgueses nacionais" não poderiam, mesmo com a melhor boa vontade do mundo, conseguir reparar o mal já feito. Faltava uma série de condições essenciais, sem as quais o êxito não seria possível. O decorrer do tempo provou a justeza das nossas previsões. Com essas idéias, discutimos, no pequeno círculo de camaradas, a formação de um novo partido.     As idéias fundamentais que então possuíamos eram as mesmas que mais tarde foram realizadas no "Partido Trabalhista Alemão". O nome do movimento a ser inaugurado tinha de, desde o princípio, oferecer a possibilidade de uma aproximação com a grande massa. Sem essa condição, todo trabalho parecia inócuo e sem finalidade. Assim, ocorreu-nos o nome "Partido Social Revolucionário", e isso porque os pontos de vista sociais do novo partido significavam na realidade uma revolução.     A razão mais profunda, entretanto, estava no seguinte:     Conquanto eu me tivesse ocupado outrora do exame dos problemas econômicos, nunca tinha ultrapassado os limites de certas considerações despertadas pelo estudo das questões sociais.     Somente mais tarde alargaram-se os meus horizontes com o exame da política de aliança da Alemanha. Essa política, em grande parte, era o resultado de uma falsa avaliação do problema econômico, bem como da falta de clareza quanto às possíveis bases de subsistência do povo alemão no futuro. Todas essas idéias, porém, eram baseadas ainda na opinião de que, em todo o caso, o capital era somente o produto do trabalho e, portanto, como este mesmo sujeito à correção de todos aqueles fatores que desenvolvem ou restringem a atividade humana. Ai então estaria a significação nacional do capital. Ele dependia de uma maneira tão imperiosa da grandeza, liberdade e poder do Estado, portanto da Nação, que a reunião dos dois por si mesma estava destinada a guiar o Estado e a Nação, impulsionados ambos pelo capital, pelo simples instinto de conservação e de multiplicação. Essa dependência do capital em relação ao Estado livre forçava aquele a, por seu lado, intervir pela liberdade, pelo poder, e grandeza da Nação.     O problema do Estado em relação ao capital tornava-se assim simples e claro. Ele só teria de fazer com que o capital se mantivesse a serviço do Estado e evitar que esse se convencesse de que era o dono da nação. Essa atitude podia-se manter em dois limites: conservação de uma economia viva nacional e independente, de um lado, garantia de direitos sociais dos empregados, de outro lado.     Anteriormente eu não tinha conseguido ainda distinguir, com a clareza que seria de desejar, a diferença entre o capital considerado como resultado final do trabalho produtivo, e o capital cuja existência repousa exclusivamente na especulação.     Esta diferença foi exaustivamente tratada e esclarecida por Gottfied Feder, professor em um dos cursos já por mim citados.     Pela primeira vez na minha vida, assisti a uma exposição de princípios relativa ao capital internacional, no que diz respeito a movimentos de bolsa e empréstimos.     Depois do ter ouvido a primeira preleção de Feder, passou-me imediatamente pela cabeça a idéia de ter então encontrado uma das condições básicas para a fundação de um novo partido.     Aos meus olhos o mérito de Feder consistia em ter pintado, com as cores mais fortes, o caráter especulativo, assim como econômico, do capital internacional e ter mostrado a sua eterna preocupação de juros.     As suas exposições eram tão certas em todas as questões fundamentais, que os críticos das mesmas desde logo combatiam menos a veracidade teórica da idéia do que a possibilidade prática de sua execução. Assim, aquilo que aos olhos de outros era considerado o lado fraco das idéias de Feder, constituía aos meus o seu ponto mais forte.     A missão de um doutrinador não é a de estabelecer vários graus de exequibilidade de uma determinada causa, e sim a de esclarecer o fato em si. Isso quer dizer, que o mesmo deve se preocupar menos com o caminho a seguir do que com o fim a atingir. Aqui, o que decide é a veracidade, em princípio, de uma idéia, e não a dificuldade de sua execução. Assim que o doutrinador procura, em lugar da verdade absoluta, levar em consideração as chamadas "oportunidade" e "realidade", deixará ele de ser uma estréia polar da humanidade para se transformar em um receitador quotidiano. O doutrinador de um movimento deve estabelecer a finalidade do mesmo; o político deve procurar realizá-lo. Um, portanto, dirige seu modo de pensar pela eterna verdade, o outro é dirigido na sua ação pela realidade prática. A grandeza de um reside na verdade absoluta e abstrata de sua idéia, a do outro no ponto de vista certo em que se coloca com relação aos fatos e ao aproveitamento útil dos mesmos, sendo que a este deve servir de guia o objetivo do doutrinador. Enquanto o sucesso dos planos e da ação de um político, isto é, a realização dessas ações, pode ser considerada como pedra-de-toque da importância desse político, nunca se poderá realizar a última intenção do doutrinador, pois ao pensamento humano é dado compreender as verdades, armar ideais claros como cristal, porém a realização dos mesmos tem de se esboroar diante da imperfeição e insuficiência humanas. Quanto mais abstratamente certa, e, portanto, mais formidável for uma idéia, tanto mais impossível se torna a sua realização, uma vez que ela depende de criaturas humanas É por isso que não se deve medir a importância dos doutrinadores pela realização de seus fins, e sim pela verdade dos mesmos e pela influência que eles tiveram no desenvolvimento da humanidade. Se assim não fosse, os fundadores de religiões não poderiam ser considerados entre os maiores homens desse mundo, porquanto a realização de suas intenções éticas nunca será, nem aproximadamente, integral. Mesmo a religião do amor, na sua ação, não é mais do que um reflexo fraco da vontade de seu sublime fundador; a sua importância entretanto reside nas diretrizes que ela procurou imprimir ao desenvolvimento geral da cultura e da moralidade entre os homens.     A grande diversidade entre os problemas do doutrinador e os do político é um dos motivos por que quase nunca se encontra uma união entre os dois, em uma mesma pessoa. Isto se aplica sobretudo ao chamado político de "sucesso", de pequeno porte, cuja atividade de fato nada mais é do que a "arte do possível", como modestamente Bismarck cognominava a política. Quanto mais livre tal político se mantém de grandes idéias tanto mais fáceis, comuns e também visíveis, sempre entretanto mais rápidos, serão os seus sucessos. É verdade também que esses estão destinados ao esquecimento dos homens e, às vezes, não chegam a sobreviver à morte de seus criadores. A obra de tais políticos é, de modo geral sem valor para a posteridade, pois o seu sucesso no presente repousa no afastamento de todos os problemas e Idéias grandiosos que como tais teriam sido de grande importância para as gerações futuras.     A realização de idéias destinadas a ter influência sobre o futuro é pouco lucrativa e só muito raramente é compreendida pela grande massa, à qual Interessam mais reduções de preço de cerveja e de leite do que grandes planos de futuro, de realização tardia e cujo benefício, finalmente, só será usufruído pela posteridade.     É assim que, por uma certa vaidade, vaidade esta sempre inerente à política, a maioria dos políticos se afasta de todos os projetos realmente difíceis, para não perder a simpatia da grande massa. O sucesso e a importância de tal político residem exclusivamente no presente, e não existem para a posteridade. Esses microcéfalos pouco se Incomodam com isso: eles se contentam com pouco.     Outras são as condições do doutrinador. A sua importância quase sempre está no futuro, por Isso não é raro ser ele considerado lunático. Se a arte do político é considerada a arte do possível, pode-se dizer do idealista que ele pertence àqueles que só agradam aos deuses, quando exigem e querem o impossível. Ele terá de quase sempre renunciar ao reconhecimento do presente; colhe, entretanto, caso suas idéias sejam imortais, a glória da posteridade.     Em períodos raros da história da humanidade pode acontecer que o política e o idealista se reunam na mesma pessoa. Quanto mais intima for essa união, tanto maior serão as resistências opostas à ação do político. Ele não trabalha mais para as necessidades ao alcance do primeiro burguês, e sim por ideais que só poucos compreendem. É por isso que sua vida é alvo do amor e do ódio. O protesto do presente, que não compreende o homem, luta com o reconhecimento da posteridade pela qual ele trabalha.     Quanto maiores forem as obras de um homem pelo futuro, tanto menos serão elas compreendidas pelo presente; tanto mais pesada é a luta tanto mais raro é o sucesso. Se em séculos esse sorri a um, é possível que em seus últimos dias o circunde um leve halo da glória vindoura. É verdade que esses grandes homens são os corredores de Maratona da História. A coroa de louros do presente toca mais comumente às têmporas do herói moribundo.     Entre eles se contam os grandes lutadores que, incompreendidos pelo presente, estão decididos a lutar por suas idéias e seus ideais. São eles que, mais tarde, mais de perto, tocarão o coração do povo. Parece até que cada um sente o dever de no passado redimir o pecado cometido pelo presente. Sua vida e sua ação são acompanhadas de perto com admiração comovidamente grata, e conseguem, sobretudo nos dias de tristeza, levantar corações quebrados e almas desesperadas. Pertencem a essa classe não só os grandes estadistas, como também todos os grandes reformadores. Ao lado de Frederico o Grande, figura aqui Martinho Lutero, bem como Ricardo Wagner.     Quando assisti a primeira conferência de Gottfried Feder sobre a "abolição da escravidão do juro", percebi imediatamente que se tratava aqui de uma verdadeira teoria destinada a imensa repercussão no futuro do povo alemão. A separação acentuada entre o capital das bolsas e a economia nacional, oferecia a possibilidade de se enfrentar a internacionalização da economia alemã, sem ameaçar o princípio da conservação da existência nacional independente, na luta contra o capital. Eu via com- bastante clareza o desenvolvimento da Alemanha, para não perceber que a maior luta não seria contra os povos inimigos e sim contra o capital internacional. Senti na conferência de Feder o formidável grito de guerra para a próxima luta.     Os fatos, mais tarde, vieram demonstrar quão certo era o nosso pressentimento de então. Hoje em dia não somos mais ridicularizados pelos idiotas da nossa política burguesa; hoje em dia, mesmo esses, desde que não sejam mentirosos conscientes, reconhecem que o capital internacional não foi só o maior Instigador da guerra, como, mesmo após o término da luta, continua a transformar a paz num inferno.     O combate contra a alta finança internacional se tornou um dos pontos capitais do programa na luta da nação alemã pela sua independência econômica e pela sua liberdade.     Quanto às restrições feitas pelos chamados homens práticos, pode-se-lhes responder da seguinte maneira: todos os receios relativos às terríveis conseqüências econômicas provenientes da realização da abolição da "escravidão do juro" são supérfluas. Antes de tudo, as receitas econômicas até então usadas deram muito maus resultados ao povo alemão. As atitudes com relação a uma afirmação nacional lembram-nos vivamente o parecer de peritos semelhantes de outros tempos: por exemplo, da junta médica bávara, com relação à questão da introdução da estrada de ferro. Todos os receios dessa sábia corporação não se realizaram; os viajantes dos trens, do novo cavalo a vapor, não ficavam tontos, os espectadores também não ficavam doentes e desistiu-se dos tapumes de madeira destinados a tomar essa nova organização invisível. Só se conservaram, para a posteridade, as paredes de madeira nas cabeças de todos os chamados peritos.     Em segundo lugar, deve-se tomar nota do seguinte: toda idéia, por melhor que ela seja, torna-se perigosa quando ela imagina ser um desideratum, quando na realidade não é mais do que um meio para um fim. Para mim, porém, e para todos os verdadeiros nacionais socialistas, só há uma doutrina: Povo e Pátria.     O objetivo da nossa luta deve ser o da garantia da existência e da multiplicação de nossa raça e do nosso povo, da subsistência de seus filhos e da pureza do sangue, da liberdade e independência da Pátria, a fim de que o povo germânico possa amadurecer para realizar a missão que o criador do universo a ele destinou.     Todo pensamento e toda idéia, todo ensinamento e toda sabedoria, devem servir a esse fim. Tudo deve ser examinado sob esse ponto de vista e utilizado ou rejeitado segundo a conveniência. Assim é que não há teoria que se possa impor como doutrina de destruição, pois tudo tem de servir à vida.     Foi assim que os dogmas de Gottfried Feder me incitaram a me ocupar de uma maneira decidida com esses assuntos que eu pouco conhecia.     Comecei a aprender e compreender, só agora, o sentido e a finalidade da obra do judeu Karl Marx. só agora compreendi bem seu livro - "O Capital" - assim como a luta da social-democracia contra a economia nacional, luta essa que tem em mira preparar o terreno para o domínio da verdadeira alta finança internacional.     Também em outro sentido foram esses cursos de grandes conseqüências para mim. Certo dia pedi a palavra. Um dos presentes achou que devia quebrar lanças pelos judeus e começou a defendê-los em longas considerações. Essa atitude provocou de minha parte uma réplica. A grande maioria dos presentes ao curso colocou-se do meu lado. O resultado, porém, foi que poucos dias depois determinaram a minha inclusão num regimento de Munique como "oficial de cultura intelectual".     Naquela época a disciplina da tropa era bem fraca, ela sofria as conseqüências do período dos "Conselhos de Soldados". Só aos poucos e com muita- cautela poder-se-ia ir restabelecendo a disciplina militar e a subordinação, em lugar da obediência "voluntária" - como se costumava designar o chiqueiro sob o regime de Kurt Eisner. A tropa tinha de aprender a sentir e a pensar de maneira nacional e patriótica. A minha atividade dirigia-se nesses dois sentidos.     Comecei o trabalho com todo entusiasmo e amor. Tinha de repente a oportunidade de falar diante de um auditório maior, e aquilo que já antigamente, sem saber, eu aceitava por puro sentimento, realizou-se: eu sabia "falar". Também a voz tinha melhorado bastante, a ponto de me fazer ouvir suficientemente em todos os pontos do pequeno compartimento dos soldados.     Não havia missão que me fizesse mais feliz do que essa, pois agora, antes de minha saída, poderia prestar serviços úteis à instituição que tão de perto me tocava o coração: ao exército.     Posso dizer que a minha atuação foi coroada de êxito: centenas, talvez milhares de camaradas foram por mim reconduzidos, no decorrer das minhas lições, ao seu povo e à sua Pátria. Eu "nacionalizava" a tropa e podia, por esse meio, auxiliar a fortalecer a disciplina geral.     Ainda uma vez tive oportunidade de conhecer uma série de camaradas, que pensavam como eu, e que mais tarde começaram a edificar a base do novo movimento.

CAPÍTULO IX - O PARTIDO TRABALHISTA ALEMÃO

     Um dia recebi ordem da autoridade superior para ir verificar o que se passava num grêmio aparentemente político, cujo nome era "Partido Trabalhista Alemão". O dito grêmio pretendia realizar uma reunião por aqueles dias, em que deveria falar Gottfried Feder. A missão de que fui incumbido era ir até lá verificar o que se passava e, em seguida, apresentar um relatório.     A curiosidade do exército de então em relação aos partidos políticos era mais do que compreensível. A revolução tinha dado ao soldado o direito de participação na política. Desse direito faziam uso justamente os mais inexperientes. Só no momento em que o Centro e a social-democracia tiveram de reconhecer, com grande pesar, que as simpatias dos soldados começavam a se afastar dos partidos revolucionários para se inclinarem pelo movimento de reerguimento da nação, é que se julgou necessário retirar da tropa o direito de voto e de participação na política.     Era óbvio que o Centro e o marxismo lançassem mão dessas medidas, pois se não se tivesse procedido ao corte dos "direitos cívicos" - como se costumava denominar a igualdade de direitos políticos dos soldados após a revolução - não teria havido, poucos anos depois, o chamado governo de novembro e, consequentemente, teria sido evitada essa desonra nacional A tropa estava naturalmente indicada para livrar a Nação dos sugadores da Entente.     O fato de os chamados partidos "nacionais" concordarem entusiasmados com a modificação do programa dos criminosos de novembro, para tornar, por esse modo, ineficiente o exército como instrumento de ressurreição nacional, demonstrou mais uma vez até onde podem levar as idéias exclusivamente doutrinárias desses "mais inocentes dos inocentes". Essa burguesia, doente de senilidade mental, pensava com toda seriedade que o exército voltaria a ser o que tinha sido, isto é, um sustentáculo da defesa nacional, enquanto o Centro e o Marxismo só pensavam em lhe extrair. o dente perigoso do nacionalismo, sem o qual o exército não é mais do que uma policia e nunca uma tropa capaz de lutar com o inimigo. Tudo isso o futuro encarregou-se de provar à saciedade.     Pensariam porventura, os nossos "políticos nacionais" que a transformação da mentalidade do exército se pudesse processar em outro sentido que não o nacional? Essa é a miserável mentalidade desses senhores, e isso provém do fato deles, em vez, como soldados, terem combatido no front, terem ficado, nas suas cômodas posições, como parladores, isto é, conversadores parlamentares.     Não podiam ter a mínima idéia do que se passava no coração de homens que a posteridade reconhecerá como os primeiros soldados do mundo.     Decidi-me então a ir assistir à Assembléia desse partido, até então inteiramente desconhecido para mim.     Quando cheguei, à noite, ao "Leiberzimmer" da antiga cervejaria Sternecker, o qual deveria mais tarde se tornar histórico para nós, encontrei ali umas 20 a 25 pessoas, na maioria gente das mais baixas camadas do povo.     A conferência de Feder já me era conhecida dos tempos em que eu freqüentava os seus cursos, de sorte que fiz abstração da mesma e me preocupei em observar o auditório.     A impressão que tive não foi má; um grêmio recém-fundado como muitos outros. Estávamos justamente em uma época em que todo o mundo se julgava habilitado a fundar um novo partido, isso porque a ninguém agradava o rumo que as coisas tomavam e os partidos existentes não mereciam nenhuma confiança. Por toda parte apareciam novas associações que logo depois desapareciam sem deixar o menor vestígio de sua passagem. Geralmente os fundadores não tinham a menor idéia do que fosse transformar uma associação em um partido ou mesmo iniciar um movimento. Soçobravam assim essas fundações, quase sempre diante de sua ridícula estreiteza de idéias.     Não foi de outra forma que julguei "o Partido Trabalhista Alemão", após assistir durante duas horas uma de suas sessões. Fiquei contente quando Feder terminou seu discurso. Tinha visto o bastante, e já me dispunha a sair quando a anunciada abertura dos debates livres me induziu a ficar. Parecia que tudo ia correr sem significação, até que, de repente, começou a falar um "Professor", o qual inicialmente pôs em dúvida a exatidão dos argumentos de Feder. Ante uma resposta muito adequada de Feder, colocou-se o dito "Professor" de repente "no terreno das realidades:", sem, porém, deixar de recomendar muito oportunamente ao jovem partido adotar, como ponto importante de seu programa, a luta pela "separação" da Baviera da Prússia. O homenzinho afirmava atrevidamente que, nesse caso, a Áustria alemã sobretudo, se ligaria imediatamente à Baviera, que a paz seria então muito melhor, e outros absurdos. Não me contive mais e pedi a palavra, a fim de fazer sentir ao erudito senhor a minha opinião nesse ponto e fi-lo com tanto sucesso que meu antecessor na tribuna abandonou o recinto como um cão batido, antes mesmo de eu acabar. Enquanto eu falava, a assistência ouvia cheia de espanto e quando eu me dispunha a dizer boa-noite à assembléia e retirar-me, um dos assistentes dirigiu-se a mim, apresentou-se (nem pude compreender direito o seu nome), colocou em minhas mãos um pequeno livreto, visivelmente uma brochura política, com o pedido insistente de lê-la.     Para mim isso foi muito agradável, pois era de esperar que, por esse meio, pudesse conhecer de maneira mais fácil aquela sociedade maçante, sem ter, depois, de assistir a sessões tão desinteressantes. Além disso, eu tinha tido uma boa impressão desse desconhecido, que me pareceu ser um operário. Retirei-me.     Por aquela época,, eu morava no quartel do 2°. regimento de infantaria, num pequeno cubículo que trazia em si, ainda bem patentes, os sinais da revolução. Geralmente, durante o dia, eu passava fora, as mais das vezes no regimento de caçadores n.° 41 ou então em reuniões, em conferências, em outras unidades da tropa. Somente à noite me recolhia aos meus aposentos. Como costumava acordar cedo, Já antes de 5 horas, tinha o hábito de divertir-me em jogar, para os camundongos que passeavam pelo meu cubículo, pedacinhos de pão duro que haviam sobrado da véspera. Eu ficava a ver esses engraçados animaizinhos se disputarem essas preciosas iguarias.     Na minha vida eu tinha passado tanta miséria que bem podia imaginar o que fosse a fome e, portanto, o prazer daqueles bichinhos. Na manhã seguinte àquela reunião eu estava deitado, mal acordado, lá pelas 5 horas, assistindo o movimento dos - camundongos. Como não pudesse conciliar o sono, lembrei-me, de repente, da noite passada, e veio-me à lembrança a brochura que o operário me havia dado. Comecei a lê-la. Era uma pequena brochura, na qual o autor, o tal operário, descrevia a maneira pela qual ele tinha chegado de novo ao pensamento nacionalista através da confusão marxista e das frases ocas das corporações profissionais. Dai o título - "meu despertar político:". - Desde o início o livreto me despertou interesses, pois nele se refletia um fenômeno que há doze anos eu tinha sentido. Involuntariamente vi se avivarem as linhas gerais da minha própria evolução mental. Durante o dia pensei sobre o assunto várias vezes e ia pô-lo finalmente de lado, quando, menos de uma semana depois, recebi, com surpresa minha, um cartão postal anunciando que eu tinha sido aceito sócio do "Partido Trabalhista Alemão". Pedia-se que eu me externasse a respeito e para isso viesse na próxima quarta-feira a uma sessão da comissão do Partido. Na realidade eu me sentia mais do que surpreso por essa maneira de angariar" sócios e não sabia se me devia zangar ou rir. Eu não pensava em entrar para um partido já organizado e sim em fundar o meu próprio partido. Essa pretensão de filiar-me a um partido não me tinha passado pela cabeça. Já me dispunha a responder àqueles senhores por escrito quando venceu a curiosidade e decidi-me a comparecer, no dia marcado, a fim de, oralmente, expor os meus motivos.     Chegou quarta-feira. O hotel no qual se devia realizar a sessão anunciada era o "Alte Rossenbad", na Hermstrasse. Era um lugarzinho modesto onde, só de quando em quando, aparecia alguma alma penada.     Em 1919 isso não era de estranhar, pois o cardápio mesmo dos hotéis maiores era pouco atraente, dado a sua modéstia e exiguidade. Este hotel, porém, eu não conhecia.     Atravessei o salão mal iluminado no qual não havia viva alma. Dirigi-me para a porta que dá para um quarto lateral e achei-me diante da "assembléia". Na meia obscuridade de um lampião a gás, meio quebrado, estavam sentados, em redor de uma mesa, quatro jovens, entre os quais o autor da pequena brochura, o qual imediatamente me cumprimentou da maneira mais amável e me deu as boas vindas como novo membro do Partido Trabalhista Alemão.     Na realidade eu estava um tanto embasbacado. Como me comunicassem que o verdadeiro "presidente do Reich" ainda viria, resolvi adiar, por algum tempo, as minhas declarações. Finalmente apareceu este. Era o presidente da reunião na Cervejaria Sterneck, por ocasião da conferência de Feder.     De novo, movido pela curiosidade, esperei pelos acontecimentos.     Agora eu já conhecia os nomes dos vários senhores presentes. O presidente da "organização do Reich, era um senhor Harr, o da de Munique, um senhor Anton Drexier.     Em seguida foi lida a ata da última sessão e aprovado um voto de agradecimento ao conferencista. Veio depois o relatório da caixa. A sociedade possuía um total de 7 marcos e 50 pfennigs - pelo que o tesoureiro recebeu um voto de confiança geral. Esse fato foi consignado em ata.     O primeiro presidente tratou em seguida das respostas a uma carta de Kiel, a uma de Düsseldorf e a outra de Berlim. Todos concordaram com as respostas apresentadas. Em seguida procedeu-se à comunicação da correspondência entrada: uma carta de Berlim, uma de Düsseldorf e outra de Kiel, cujo recebimento pareceu provocar grande contentamento. Considerou-se esse constante aumento de correspondência como o melhor e mais visível sinal da expansão e importância do Partido Trabalhista Alemão, e, em seguida, teve lugar um longo debate sobre as respostas novas a serem dadas,     Horrível, simplesmente horrível. Isso nada mais era do que uma associação maçante da pior espécie. Nesse clube é que eu devia entrar? Logo depois tratou-se da aceitação de novos sócios, isto é, tratou-se do meu ingresso para o clube.     Comecei a fazer-me perguntas. Pondo de parte algumas diretrizes nada mais havia, nem um programa, nem um panfleto, enfim nada impresso, nem cartões de sócio nem mesmo um simples carimbo. Havia sim visíveis boa fé e boa vontade. Perdi a vontade de sorrir, pois o que era tudo isso senão o sina1 típico do completo atordoamento geral e do inteiro fracasso de todos os partidos, até então, de seus programas, de suas intenções e de suas atividades? O que levava esses jovens a se reunirem de uma maneira aparentemente tão ridícula nada mais era do que o eco de vozes interiores, que, mais por instinto de que conscientemente, lhe fazia crer na impossibilidade do reerguimento da Nação alemã bem como da sua convalescença de males interiores por meio de partidos como o caráter dos até então existentes. Li por alto as diretrizes datilografadas que havia e vi nelas mais uma ânsia por alguma coisa nova do que uma realidade. Muita coisa faltava, porém nada havia feito. Em tudo se sentia, porém, o sinal de uma aspiração de todos.     O que essas criaturas sentiam eu bem o sabia; era o desejo por um novo movimento que deveria ser mais do que um partido na acepção corrente da palavra.     Quando naquela noite voltei ao quartel, tinha meu juízo formado com relação a esse grêmio.     Achava-me talvez diante da mais difícil interrogação de minha vida: deveria cooperar nesse setor ou recusar-me?     A razão só podia aconselhar a recusa, o sentimento, porém, não me deixou sossegar e quanto mais vezes eu procurava me convencer da tolice disso tudo, tanto mais o sentimento me inclinava para esse agrupamento de jovens.     Os dias que se seguiram foram de desassossego para mim.     Comecei a pensar. Há muito que estava decidido a tomar parte ativa na política.     Para mim era claro que isso deveria se dar por meio de um novo movimento, somente me tinha faltado até então um impulso para a atividade. Eu não pertenço à categoria das pessoas que começam hoje uma coisa para, no dia seguinte, abandonarem-na ou passarem a outra. Justamente essa convicção era o motivo principal por que eu dificilmente me resolveria a uma tal fundação nova, a qual seria tudo ou deixaria de existir. Eu sabia que isso seria decisivo para mim e não havia a possibilidade de um "recuo"; tratava-se pois, não de uma brincadeira passageira e sim de algo muito sério. Já naquele tempo eu tinha uma aversão instintiva por pessoas que tudo começavam sem nada acabar. Todos esses trapalhões me eram odiosos. Eu considerava a atividade dessas criaturas pior do que a ociosidade.     Até o destino parecia me estar dando uma indicação. Nunca eu teria aderido a um dos grandes partidos e mais tarde explicarei mais claramente os motivos. Essa pequeníssima fundação, possuindo uma meia dúzia de sócios, pareceu-me ter a vantagem de não se ter ainda fossilizado em uma "organização". Ela parecia oferecer a impossibilidade de uma verdadeira atividade pessoal a cada um. Aqui ainda se poderia trabalhar e, quanto menor fosse o movimento, mais fácil seria conduzi-la pelo caminho certo. Aqui se poderia ainda determinar o caráter objetivo e os métodos da organização, o que não se poderia pensai' em fazer tratando-se dos glandes partidos. Quanto mais eu refletia sobre o assunto mais crescia em mim a convicção de que justamente de um tal movimento pequeno é que algum dia poderia ser preparado o reerguimento da nação, e nunca dos partidos políticos parlamentares, presos a velhos preconceitos ou mesmo dependentes dos proveitos do novo regime.     O que se deveria anunciar aqui era um novo princípio universal e não uma nova propaganda eleitoral.     Na verdade uma decisão imensamente difícil essa de transformar uma intenção em realidade.     Que antecedentes tinha eu para poder arcar com tarefa de tal vulto? O fato de ser pobre, de não possuir recursos financeiros, parecia o menos; mais difícil era a circunstância de pertencer eu à categoria dos desconhecidos, um entre milhões, que o acaso deixa viver ou arranca da vida, sem que o mundo mais próximo disso tome o menor conhecimento. A tudo isso se juntava a dificuldade proveniente de minha falta de instrução.     A chamada "intelectualidade" vê com infinito desdém todo aquele que não passou pelas escolas oficiais, a fim de se deixar encher de sabedoria. Nunca se pergunta: Que sabe o indivíduo e sim: que estudou ele? Para essas criaturas "cultas" mais vale a cabeça oca, que vem protegida por diplomas, do que o mais vivo rapazola que não possua tais canudos. Era, pois, fácil para mim imaginar a maneira pela qual esse mundo oculto - se me oporia e só me enganei pelo fato de naquele tempo ainda considerar os homens melhores do que na realidade o são. É verdade que há exceções, que naturalmente brilharão com tanto maior fulgor. Aprendi, entretanto, a distinguir entre os eternos estudantes e os verdadeiros conhecedores.     Após dois dias de tormentosos pensamentos e meditações convenci-me de que devia dar o passo.     Foi essa a decisão de maiores conseqüências em toda a minha vida.     Não havia e não podia haver um recuo. Aceitei a minha inclusão como sócio do Partido Trabalhista Alemão e recebi um cartão provisório de sócio, com o numero sete.

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