Trabalho esquizofrenia

Trabalho esquizofrenia

(Parte 1 de 3)

Introdução à profissão

Docente: Ramiro Délio Borges de Meneses Luciana Jesus Martins Macedo, n.º 14590 do 2ºano de Engenharia Biomédica Data de entrega: 6 de Janeiro de 2010

IPSN ‐ ESSVS Esquizofrenia

Introdução  3 
1. História da esquizofrenia 4 
2. Psicose esquizofrénica  6 
3. Delírios  8 
4. Alucinações 9 
5. Início da psicose esquizofrénica  10 
6. Classificação de psicoses  11 
6.1 Tipo paranóide  11 
6.2 Tipo desorganizado  11 
6.3 Tipo catatónico  11 
6.4 Tipo indiferenciado  12 
6.5 Tipo residual  12 
7. Genética da esquizofrénica  13 
7.1 Estudos Genéticos  15 
7.2 Conclusões provisórias  15 
8. Gravidez na esquizofrenia  17 
Conclusão  18 
Bibliografia  19 

Índice

IPSN ‐ ESSVS Esquizofrenia

Introdução

Este trabalho vai ser realizado no âmbito da unidade curricular de introdução à profissão com a temática de esquizofrenia. A escolha desta temática deve‐se ao facto de ser uma doença do foro psicológico, sem cura e com imensos enigmas por desvendar.

A esquizofrenia é um distúrbio mental grave caracterizado pela perda do contacto com a realidade, alucinações, delírios, pensamento anormal e alteração do funcionamento laboral e social. A esquizofrenia é um importante problema de saúde pública em todo o mundo sendo mais prevalente que a doença de Alzheimer, a diabetes ou a esclerose múltipla, afectando 1% da população mundial. Diversos distúrbios compartilham as características da esquizofrenia mas os seus sintomas estão presentes no mínimo seis meses, sendo denominados de distúrbios esquizofreniformes. Quando os sintomas persistem por pelo menos um dia, mas duram menos de um mês, eles são denominados distúrbios psicóticos breves. Um distúrbio caracterizado pela presença de sintomas do humor, tais como depressão ou mania, juntamente com sintomas mais típicos de esquizofrenia é denominado distúrbio esquizoafectivo. Um distúrbio da personalidade que pode compartilhar sintomas de esquizofrenia, mas no qual os sintomas em geral não são tão graves a ponto de satisfazer aos critérios da psicose, é denominado distúrbio da personalidade esquizotípica.

Os transtornos esquizofrénicos caracterizam‐se em geral por distorções fundamentais e características do pensamento e da percepção e por afectos inapropriados ou embotados. Usualmente mantém‐se clara a consciência e a capacidade intelectual, embora certos déficits cognitivos possam evoluir no curso do tempo. Os fenómenos psicopatológicos mais importantes incluem o eco do pensamento, a percepção delirante, ideias delirantes de controle, de influência ou de passividade, vozes alucinatórias que comentam ou discutem com o paciente na terceira pessoa, transtornos do pensamento e sintomas negativos.

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1. História da Esquizofrenia

São várias as tendências de reflexão sobre doença mental, notadamente sobre as psicoses que, embora provenientes de diversos momentos históricos do pensamento psicológico, estimulam bastante as discussões sobre o tema. O modelo sóciogénico evidencia que a sociedade, complexa e exigente, é a responsável exclusiva pelo enlouquecimento humano. Há também o modelo organogénico, diametralmente oposto ao anterior, onde os elementos orgânicos da função cerebral seriam os responsáveis absolutos pela doença mental. O modelo psicogénico defende que a dinâmica psíquica é responsável pela doença e subestimam‐se as disposições constitucionais. Há ainda o modelo organodinámico, que compatibiliza todos os três anteriores, onde participariam requisitos biológicos, motivos psicológicos e determinantes sociais, mais conhecido como bio‐psico‐social.

Tem sido quase unânime a aceitação pela psiquiatria clínica a associação de determinadas configurações de personalidade predispostas e a eclosão de psicoses. Estas personalidades são as chamadas personalidades pré‐mórbidas, cujo conceito é abordado em transtornos da personalidade; constituições que por si transtornam a vida do indivíduo ou incapacitam um desenvolvimento pleno, ou ainda, em certas circunstâncias, encerra uma maior aptidão para o desenvolvimento de determinadas doenças psíquicas. A personalidade pré‐mórbida é considerada pela psicopatologia como uma variação do existir humano e traduz uma possibilidade mais acentuada para o desenvolvimento de certa vulnerabilidade psíquica. Aqui o termo "possibilidade" dever ser considerado em toda sua plenitude, ou seja, um carácter não obrigatório, mas que deve ser levado muito a sério.

Clinicamente e a grosso modo, pode‐se dizer que as neuroses diferenciam‐se das psicoses pelo grau de envolvimento da personalidade, sendo sua desorganização e desagregação muito mais pronunciadas nas psicoses. O vínculo com a realidade é muito mais ténue e frágil nas psicoses que nas neuroses, nestas a realidade não é negada, mas vivida de maneira mais sofrível, valorizada e percebida de acordo com as lentes da afectividade e representada de acordo com as exigências conflituais. Já nas psicoses, alguns aspectos da realidade são negados e substituídos por concepções particulares e peculiares que atendem unicamente às características da doença.

A sintomatologia psicótica caracteriza‐se, principalmente, pelas alterações em nível do pensamento e da afectividade e, consequentemente, todo comportamento e toda performance existencial do indivíduo serão comprometidos. Na psicose o pensamento e a afectividade se apresentam qualitativamente alterados, tal como uma novidade cronologicamente delimitada na história de vida do paciente e que passa a actuar morbidamente em toda sua performance psíquica. Essa alteração confere ao paciente uma maneira patológica de representar a realidade, de elaborar conceitos e de relacionar‐se com o mundo objectual. Não contam tanto aqui as variações

IPSN ‐ ESSVS Esquizofrenia quantitativas de percepção do real, como pode ocorrer na depressão, por exemplo, mas um algo novo e qualitativamente distinto de todas as nuances anteriormente permitidas, um algo essencialmente patológico, mórbido e sofrível.

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2. Psicose Esquizofrénica

A esquizofrenia é uma doença da personalidade total que afecta a zona central do eu e altera toda estrutura vivencial. Culturalmente o esquizofrénico representa o estereótipo do "louco", um indivíduo que produz grande estranheza social devido ao seu desprezo para com a realidade reconhecida. Agindo como uma pessoa que rompe as amarras da concordância cultural, o esquizofrénico menospreza a razão e perde a liberdade de escapar às suas fantasias.

Aproximadamente 1% da população mundial possui a doença, geralmente iniciada antes dos 25 anos e sem predilecção por qualquer camada sociocultural. O diagnóstico baseia‐se exclusivamente na história psiquiátrica e no exame do estado mental. É extremamente raro o aparecimento de esquizofrenia antes do 10 ou depois dos 50 anos de idade e parece não haver nenhuma diferença na prevalência entre homens e mulheres.

Esquirol (1772‐1840), considerava a loucura como sendo a somatória de dois elementos: uma causa predisponente, atrelada à personalidade, e uma excitante, fornecida pelo ambiente. Hoje em dia, depois de muitos anos de reflexão e pesquisas, a psiquiatria moderna reafirma a mesma coisa com palavras actualizadas. O principal modelo para a integração dos factores etiológicos da esquizofrenia é o modelo stress‐ diátese, o qual supõe o indivíduo possuidor de uma vulnerabilidade específica colocada sob a influência de factores ambientais stressantes. Em determinadas circunstâncias o binómio diátese‐stress proporcionaria condições para o desenvolvimento da esquizofrenia. Até que um factor etiológico para a doença seja identificado, este modelo parece satisfazer as teorias mais aceitas sobre o assunto.

Através da CID‐10, foi incluída na classificação das esquizofrenias, o transtorno esquizotípico. Na realidade não se acredita tratar de mais um tipo de doença, mas de um estágio da mesma doença. Sabendo‐se que os sintomas gerais, básicos e de primeira ordem das esquizofrenias, pode‐se entender o transtorno esquizotípico como sendo uma fase pré‐mórbida da psicose, mais sério que o transtorno esquizóide de personalidade e menos mórbido que a esquizofrenia franca. Tanto está certa esta visão que o próprio CID‐10 considera este transtorno como sinónimo de esquizofrenia prodrómica, borderline, ou pré‐psicótica.

Os sintomas característicos da esquizofrenia podem ser agrupados, genericamente, em dois tipos: positivos e negativos. Os sintomas positivos são os mais floridos e exuberantes, tais como as alucinações, mais frequentemente as auditivas e visuais e, menos frequentes, as tácteis e olfactivas; os delírios, persecutórios, de grandeza, de ciúmes, somáticos, místicos, fantásticos; perturbações da forma e do curso do pensamento, como incoerência, prolixidade e desagregação; comportamento

IPSN ‐ ESSVS Esquizofrenia desorganizado, bizarro, agitação psicomotora e mesmo negligência nos cuidados pessoais.

Os sintomas negativos são, geralmente, de déficits, ou seja, a pobreza do conteúdo do pensamento e da fala, embotamento ou rigidez afectiva, prejuízo do pragmatismo, incapacidade de sentir emoções, incapacidade de sentir prazer, isolamento social, diminuição de iniciativa e diminuição da vontade.

Alguns sintomas, embora não sejam específicos da esquizofrenia, são de grande valor para o diagnóstico, seriam: a) audição dos próprios pensamentos, sob forma de vozes; b) alucinações auditivas que comentam o comportamento do paciente; c) alucinações somáticas; d) sensação de ter os próprios pensamentos controlados; e) irradiação destes pensamentos; f) sensação de ter as acções controladas e influenciadas por alguma coisa do exterior.

Tentando agrupar a sintomatologia da esquizofrenia para sintetizar os principais tratadistas, teremos destacados três atributos da actividade psíquica: comportamento, afectividade e pensamento. Os delírios surgem como alterações do conteúdo do pensamento esquizofrénico e as alucinações como pertencentes a senso‐ percepção. Ambos acabam sendo causa e/ou consequência das alterações nas três áreas acometidas pela doença.

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3. Delírios

Os delírios, sintoma principal da esquizofrenia, são crenças erróneas, habitualmente envolvendo a interpretação falsa de percepções ou experiências. O seu conteúdo pode incluir uma variedade de temas, como por exemplo, a perseguição (persecutórios), referenciais, somáticos, religiosos ou grandiosos. Os delírios persecutórios são os mais comuns. O doente acredita que está a ser atormentado, seguido, enganado, espionado ou ridicularizado. Os delírios de referência também são comuns; neles o doente crê que certos gestos, comentários, passagens de livros, um delírio e uma ideia vigorosamente mantida às vezes é difícil, e depende do grau de convicção com o qual a crença é mantida, apesar de evidências nitidamente contrárias.

Os delírios na esquizofrenia podem sugerir ainda uma interpretação falsa da realidade percebida. É o caso, por exemplo, do paciente que sente algo sendo tramado contra ele pelo facto de ver duas pessoas simplesmente conversando. Trata‐se, neste caso, de uma percepção delirante. Desta forma, a percepção delirante necessita de algum estímulo para ser delirantemente interpretado. Outras vezes, não há necessidade de nenhum estímulo a ser interpretado, como, por exemplo, julgar‐se "Deus". Neste caso trata‐se de uma ocorrência delirante. O tipo de delírio mais frequente na esquizofrenia é o tipo paranóico ou de referência, ou seja, com temática de perseguição ou prejuízo no primeiro caso e de que todos se referem ao paciente, por exemplo, rádios, vizinhos, televisão, entre outros.

Na esquizofrenia os delírios surgem paulatinamente, sendo percebidos aos poucos pelas pessoas íntimas aos pacientes. Em relação ao delírio de referência, inicialmente os familiares começam a perceber uma certa aversão à televisão, aos vizinhos, etc. Embora os delírios bizarros sejam considerados especialmente característicos da esquizofrenia, pode ser difícil avaliar o grau de "bizarria", especialmente entre diferentes culturas. Os delírios são considerados bizarros se são claramente implausíveis e incompreensíveis e não derivam de experiências comuns da vida. Um exemplo de delírio bizarro é a crença de uma pessoa de que um estranho retirou os seus órgãos internos e os substituiu pelos de outra pessoa, sem deixar quaisquer cicatrizes ou ferimentos. Um exemplo de delírio não bizarro é a falsa crença de estar sob vigilância policial.

Os delírios que expressam uma perda de controle sobre a mente ou o corpo, geralmente são considerados bizarros; eles incluem a crença da pessoa de que seus pensamentos foram retirados por alguma força externa, que pensamentos estranhos foram colocados na sua mente ou que o seu corpo ou acções estão a ser manipulados por alguma força externa. Se os delírios são considerados bizarros, este sintoma isolado já basta para satisfazer o critério principal para esquizofrenia.

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4. Alucinações

As alucinações, outro sintoma típico, mas não exclusivo da esquizofrenia, podem ocorrer em qualquer modalidade sensorial, ou seja, auditivas, visuais, gustativas e tácteis. As alucinações auditivas são, de longe, as mais comuns e características da esquizofrenia, sendo geralmente experimentadas como vozes conhecidas ou estranhas, que são percebidas como distintas dos pensamentos da própria pessoa. O conteúdo pode ser bastante variável, embora as vozes pejorativas ou ameaçadoras sejam especialmente comuns. Certos tipos de alucinações auditivas, como, por exemplo, ouvir duas ou mais vozes conversando entre si ou comentando os pensamentos ou o comportamento da pessoa, têm sido considerados particularmente característicos da esquizofrenia e foram incluídos na lista de sintomas de primeira ordem.

A desorganização do pensamento é defendida por alguns autores, como o aspecto mais importante da esquizofrenia. Em vista da dificuldade inerente ao exame do pensamento, este será feito pela qualidade do discurso do paciente, portanto, o conceito de discurso desorganizado foi salientado na definição de esquizofrenia.

As alucinações mais comuns na esquizofrenia são do tipo auditivas, em primeiro lugar, e visuais em seguida. Um esquizofrénico pode estar ouvindo sua própria voz, dia e noite, sob a forma de comentários e antecipações daquilo que ele faz ou pretende fazer.

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5. Início da psicose esquizofrénica

O início da psicose depois dos quarenta e cinco anos, frequentemente se relaciona com factores orgânicos identificáveis e não se trata de esquizofrenia, mas a primeira preocupação deve ser sempre verificar se não se trata de um transtorno do humor grave com sintomas psicóticos.

Habitualmente a irrupção da esquizofrenia nota‐se quando a família e os amigos observam que a pessoa mudou de comportamento, que “já não é mais a mesma”. A pessoa passa a funcionar mal em áreas significativas da vida quotidiana, como na escola ou trabalho, nas relações sociais e familiares. Frequentemente, há uma notável falta de interesse por cuidados com si mesmo. Os próprios pacientes experimentam os seguintes sentimentos: a) Perplexidade: no início da doença, os pacientes sofrem um sentimento de estranheza sobre a experiência, alguma confusão sobre de onde vêm os sintomas, normalmente alucinações, e perguntam‐se porque a sua experiência diária tem vindo a mudar tanto. b) Isolamento: a pessoa esquizofrénica experimenta uma sensação intensa de ser diferente dos demais e de estar separada de outras pessoas. O isolamento social e a evitação de contactos tornam‐se evidentes. c) Ansiedade e terror: em geral a experiência quotidiana está invadida por uma sensação geral de mal‐estar e ansiedade; evidenciam‐se os períodos de terror intenso, causado por um mundo dentro do qual tudo parece perigoso e incontrolável, normalmente atribuído a origens externas e mágicas.

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