Manual Agroflorestal para a Mata Atlântica

Manual Agroflorestal para a Mata Atlântica

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Porém, fruteiras tais como abacateiro e pessegueiro não são espécies florestais, o que podemos dizer que um consórcio limitado a café e abacateiro não se torna um SAF; um consórcio limitado a pessegueiro com cultivos agrícolas de ciclo curto também não se caracteriza como um SAF, não obstante o fato de o pessegueiro fornecer linda madeira de qualidade para assoalhos de luxo, são cultivos perenes agrícolas. Consórcios agrícolas não são SAFs. Diversos cipós ou plantas trepadeiras podem entrar na composição de SAFS como componentes geradoras de renda (cipós com propriedades medicinais, por exemplo).

Classificação dos SAFs

Os SAFs têm sido classificados de diferentes formas, segundo sua estrutura no espaço, seu desenho através do tempo, a importância relativa e a função dos diferentes componentes, assim como os objetivos da produção e suas características sociais e econômicas (Macedo et. al, 2.0).

Na classificação de uso mais difundida, procura-se considerar os aspectos funcionais e estruturais como base para agrupar estes sistemas em categorias:

1. Informações gerais sobre Sistemas Agroflorestais e suas práticas

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Sistemas silviagrícolas: são caracterizados pela combinação de árvores, arbustos ou palmeiras com espécies agrícolas. Por exemplo: o consórcio “café-ingá-louro pardo” ou “pupunha-cupuaçu-castanheira”.

Sistemas silvipastoris: são caracterizados pela combinação de árvores, arbustos ou palmeiras com plantas forrageiras herbáceas e animais.

Sistemas agrossilvipastoris: são caracterizados pela criação e manejo de animais em consórcios silviagrícolas, por exemplo: criação de porcos em agroflorestas ou, ainda: um quintal com frutíferas, hortaliças e galinhas.

Figura 2 - Consórcio café + ingá (9x9m) + louro-pardo (18x18m)

Fotos 1 e 2 - Pastagem degradada com sobrecarga (na esquerda): sistema silvipastoril com distribuição relativamente uniforme das árvores introduzidas (castanheiras do Pará).

Figura 3 – Quintal agroflorestal com criação de galinhas

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CAP. 1

Existe uma tendência de propor uma categoria adicional: os sistemas silvi-apícolas (outras informações em Barros Silva, 2007). Porém, não parece necessário, pois a produção de mel pode ser integrada em diversos tipos de sistemas silviagrícolas e sistemas agrossilvipastoris. A apicultura em sistemas silvipastoris não é sempre recomendável.

No Brasil, alguns profissionais e usuários de SAFs utilizam o termo “sistema agrossilvipastoril” para designar os SAFs no seu conjunto. Entretanto, isso não é correto. A palavra utilizada para designar as diversas alternativas de uso agroflorestal da terra, no seu conjunto, são Sistemas Agroflorestais.

Por outro lado, o termo Agrossilvicultura é utilizado para designar técnicas empregadas na implantação e manejo de SAFs, da mesma forma que silvicultura documenta os métodos naturais ou artificiais de formar, manejar e regenerar florestas nativas ou florestas plantadas.

Quanto à presença dos componentes dos SAFs ao longo do tempo, distinguem-se duas principais categorias:

! SAFs concomitantes (ou simultâneo): onde todos os componentes são associados no mesmo período de tempo, durante todo o ciclo das culturas existentes (por exemplo: o consórcio “café – ingá – louropardo”)

!SAFs seqüenciais: onde há uma relação cronológica entre os componentes do sistema, se sucedendo no tempo, como é o caso da seqüência “lavoura branca - Capoeira - lavoura branca”.

Figura 4 - Colméias dispostas num SAF

Figura 5 - SAF seqüencial: Roça capoeira roça capoeira

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Percorrendo a Mata Atlântica, é praticamente impossível encontrar dois SAFs estritamente iguais. Os agricultores familiares sejam eles tradicionais ou não, implantam e manejam uma ampla variedade de arranjos que refletem conhecimentos diferenciados, diretamente ligados às suas necessidades de segurança alimentar e às demandas do mercado.

De modo geral, grande parte dos SAFs implantados por agricultores familiares assistidos por organizações não governamentais de Ater, têm sido implantados buscando interagir com os princípios da agroecologia , potencializando a transição de modelos simplificados para propostas complexas através de estratégias participativas e sistêmica, reconhecendo o potencial endógeno e sociocultural local, conforme Vivan e Clement, 2008, "áreas compostas por arranjos seqüenciais de espécies ou de consórcios de espécies herbáceas, arbustivas e arbóreas, que evoluem para sistemas perenes de múltiplos estratos".

No Brasil, assim como em muitos países tropicais, encontramos tanto SAFs que são conduzidos de modo a evoluir para um conjunto de dois ou no máximo três estratos (com manejo restrito a roçadas), como SAFs que são mais complexos em termos de manejo (podas para fertilização e condução dos diferentes estratos) e de estrutura horizontal e vertical (vários estratos). Estas duas categorias podem ser descritas como:

!Consórcios agroflorestais estáticos: são aqueles onde o manejo e outras intervenções realizadas pelo agricultor praticamente não modifica a composição nem a estrutura do consórcio agroflorestal. O sistema cacau - cabruca convencional é um exemplo: roçadas periódicas mantêm a regeneração natural em níveis bastante baixos. Não existe poda ou manejo do estrato dominante e basicamente dois estratos são admitidos: o dominante, onde estão árvores de grande porte; e o arbustivo, onde está o cacau. As únicas intervenções são a colheita do cacau e as capinas, as quais geram o mesmo impacto negativo na regeneração natural de espécies arbóreas. Muitos SAFs praticados pertencem a esta categoria. Todavia, convém saber que, dependendo da fertilidade da terra e da estrutura do sistema produtivo, alguns SAFs estáticos podem apresentar excelentes características de sustentabilidade ecológica e econômica, desde que haja certo nível de replantio de espécies de sombra, a fim de evitar o envelhecimento do sistema. O sistema cabruca, os cafezais sombreados orgânicos do Ceará e os sistemas silvipastoris se encaixam, de modo geral, nesta categoria.

!SAFs sucessionais (conhecidos também como dinâmicos): caracterizam-se por serem sistemas multi-estratificados, implantados e manejados com a tendência de imitar a dinâmica de sucessão ecológica de restauração natural de uma floresta nativa, porém, cuja composição e manejo atendem objetivos de segurança alimentar e aumento da renda familiar (Michon, 1998). A modalidade mais rigorosa e mais próxima desse processo foi consolidada e difundida no Brasil e no exterior pelo agricultor e pesquisador suíço Ernst Götsch, cujos modelos de SAFs são apoiados numa relação direta com a dinâmica sucessional, as capinas seletivas e uma seqüência de podas (e eventualmente, rebaixamentos), acelerando a acumulação de matéria orgânica no solo (detalhes adicionais no CD-ROM). Uma outra modalidade de agrofloresta sucessional é o SAFRA (Sistema Agroflorestal Regenerativo e Análogo), promovido no Centro-Sul do Paraná pelos agricultores assistidos pela ONG Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA), no qual a erva-mate é cultivada como componente de um SAF dinâmico biodiversificado, sendo a araucária um componente de base deste consórcio.

A Agroecologia é entendida como um enfoque científico, teórico, prático e metodológico, com base em diversas áreas do conhecimento, que se

propõe a estudar processos de desenvolvimento sob uma perspectiva ecológica e sociocultural e, a partir de um enfoque sistêmico, adotando o agroecossistema como unidade de análise, apoiar a transição dos modelos convencionais de agricultura e de desenvolvimento rural para estilos de agricultura e de desenvolvimento rural sustentáveis (Associação Brasileira de Agroecologia - ABA).

Ver também "Agroecologia e Extensão Rural: contribuições par a promoção do desenvolvimento sustentável”, livro de Francisco Roberto Caporal e José Antônio Costabeber. Brasília, MDA/SAF/Dater - 2007.

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CAP. 1

Categorias de SAFs quanto à estrutura e potencial de conservação

Outra classificação relevante para o entendimento de funções ecológicas de SAFs foi proposta por

Scroth et al., (2004). Um dos principais aspectos desta classificação é o entendimento de seu valor como habitat e corredor biológico, e ambos os sistemas podem ser de grande relevância à conservação da biodiversidade. São duas categorias principais de SAF complexos:

SAFs de estrutura e composição baseadas em árvores do estrato dominante

Têm maior potencial para conservação da biodiversidade de espécies vegetais pela sua estrutura de copa fechada e maior tolerância à regeneração de espécies nativas no manejo. Essa categoria inclui Sistemas Agroflorestais complexos como os que são formados por seringais biodiversos (Hevea brasiliensis) gerados a partir de roçados sucessionais, comuns na zona de amortecimento do Parque Nacional do Tapajós, no Pará. Também são comuns estes sistemas na Indonésia, em Sumatra, na forma de agroflorestas de damar (Shorea javanica), uma resina comercial, e durian (Durio zibethinus) um fruto de larga aceitação na Ásia, ou de benjoin (Styrax spp.), que também produz resina e matéria prima para incensos.

SAFs de estrutura e composição baseadas em árvores do estrato arbustivo

Têm potencial de conservação de biodiversidade principalmente para espécies animais e vegetais que dependem de situações de diversidade de exposição solar e estágios de sucessão, típico do mosaico gerado neste tipo de SAFs. Exemplos desta categoria de agroflorestas complexas baseadas em espécies de porte arbustivo são o sistema de cultivo de cacau tradicional diversificado em cabrucas, os cafezais sombreados com grande diversidade da América Central, os bananais com árvores (sistemas silvi-bananeiros), tradicionais no Vale do Ribeira (SP) e entre povos indígenas na região de Talamanca, na costa caribenha da Costa Rica.

Sistemas Agroflorestais ou Agroflorestas?

Como forma de distinção entre as diversas formas e arranjos de SAFs, vem se consolidando um movimento, no Brasil, estabelecido pelas organizações dos agricultores e de assessoria técnica à agricultura familiar (órgãos públicos e privados), centros de pesquisa e de ensino, de utilização do termo agrofloresta, estabelecido para designar Sistemas Agroflorestais biodiversificados e agroecológicos, cujas características se assemelham ecologicamente a sucessão natural dos ecossistemas, devido a grande diversidade de espécies agrícolas e florestais. Porém agrofloresta é uma palavra nascida no Brasil, e ela pode causar alguma confusão quando utilizada em publicações destinadas a um público internacional, onde a expressão é utilizada de forma diferente.

Implantação e Manejo dos SAFs

De forma inicial, podemos resumir que no desenvolvimento agroflorestal, os ingredientes de pleno sucesso são, principalmente :

!O sistema deve reunir um grande número de espécies (alto nível de biodiversidade interna do SAF).

Capítulo elaborado com contribuição do Mutirão Agroflorestal. Ver texto da contribuição na íntegra em: Manual Agroflorestal para Mata Atlântica – CD-ROM.

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!O SAF deve possibilitar a geração de produtos e alimentos limpos, isentos de contaminação por agrotóxico.

!Os agricultores devem poder contar com um forte e amplo apoio técnico, considerando desde a implantação e manejo de SAFs, até o processo de agregação de valor através do beneficiamento dos produtos gerados, e na busca de mercados que valorizem a sua origem.

!Os serviços de extensão rural nas atividades agroflorestais (governamentais e não-governamentais) devem promover intercâmbio de conhecimentos e experiências entre membros das comunidades agrícolas familiares.

!Os agricultores e os extensionistas devem aumentar sua capacidade de observar, de pesquisar e intercambiar suas experiências com os outros membros da sua associação ou comunidade; os extensionistas devem aprender a falar no linguajar dos agricultores.

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