Enem 1998-comentada

Enem 1998-comentada

(Parte 8 de 13)

O Brasil, por suas características de crescimento econômico, e apesar da crise e do retrocesso das últimas décadas, é classificado como um país moderno. Tal conceito pode ser, na verdade, questionado se levarmos em conta os indicadores sociais: o grande número de desempregados, o índice de analfabetismo, o déficit de moradia, o sucateamento da saúde, enfim, a avalanche de brasileiros envolvidos e tragados num processo de repetidas migrações(...)

(adap.Valin,1996, pág.50 Migrações: da perda de terra à exclusão social.SP. Atuali, 1996).

Um dos fenômenos mais discutidos e polêmicos da atualidade é a “Globalização”, a qual impacta de forma negativa:

A)na mão-de-obra desqualificada, desacelerando o fluxo migratório. B)nos países subdesenvolvidos, aumentando o crescimento populacional. C)no desenvolvimento econômico dos países industrializados desenvolvidos. D)nos países subdesenvolvidos, provocando o fenômeno da “exclusão social”. E)na mão-de-obra qualificada, proporcionando o crescimento de ofertas de emprego e fazendo os salários caírem vertiginosamente.

A questão coloca um tema muito importante para a análise socioeconômica da população brasileira, que é a contradição entre as taxas de crescimento econômico verificadas nas últimas décadas, gerando uma imagem de modernidade no país, e o agravamento nas condições de miserabilidade de uma parte significativa da população. As transformações mais recentes, vinculadas ao que se convencionou denominar “globalização”, acentuaram essas disparidades entre um Brasil moderno, integrado aos grandes mercados, com parte da população tendo acesso aos bens de consumo mais sofisticados, e um Brasil que foi deixado de lado, com um grande contingente de brasileiros alijados dessa modernidade, desempregados, sem moradia, sem terras para produzir, sem educação, sem saúde, tragados pelo processo perverso da “exclusão social”. Destaque-se ainda que tal processo não se restringe ao Brasil; ao contrário, vem caracterizando praticamente todo o chamado mundo subdesenvolvido.

Analisando os indicadores citados no texto, você pode afirmar que:

A)o grande número de desempregados no Brasil está exclusivamente ligado ao grande aumento da população.

B)existe uma “exclusão social” que é resultado da grande concorrência existente entre a mão-de-obra qualificada.

C)o déficit da moradia está intimamente ligado à falta de espaços nas cidades grandes. D)os trabalhadores brasileiros não qualificados engrossam as fileiras dos “excluídos”. E)por conta do crescimento econômico do país, os trabalhadores pertencem à categoria de mão-de-obra qualificada.

As transformações que vêm ocorrendo no país, ligadas ao processo da globalização, trazem, entre suas conseqüências mais graves, uma elevação acentuada nas taxas de desemprego. Há o desemprego estrutural, que é aquele produzido pela introdução de novas tecnologias e pela automação da produção, que atinge tanto profissionais pouco qualificados como os bem qualificados, mas há também o chamado desemprego conjuntural, que resulta da forte concorrência do produto importado, da recessão interna e também da política de diminuição de custos adotada pela quase totalidade das empresas no país. Esse atinge principalmente o trabalhador pouco qualificado, que tem enormes dificuldades educacionais, culturais e econômicas, para trocar de profissão ou para se qualificar melhor em sua profissão.

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QUESTÃO 37 Resposta: D

QUESTÃO 38 Resposta: D

É esse tipo de trabalhador que acaba sendo excluído de todo o processo, sendo quase sempre obrigado a se envolver com o trabalho informal, temporário, instável e inseguro, a fim de buscar garantir a sobrevivência de sua família, agravando-se, assim, as condições sociais e econômicas de grande parcela da população brasileira.

Uma pesquisa de opinião foi realizada para avaliar os níveis de audiência de alguns canais de televisão, entre 20h e 21h, durante uma determinada noite.

Os resultados obtidos estão representados no gráfico de barras ao lado:

A percentagem de entrevistados que declararam estar assistindo à TvB é aproximadamenteigual a:

A) 15% B) 20% C) 2% D) 27% E) 30%

Pré-requisitos: Leitura de um gráfico de barras e conceitos básicos de percentagem.

39 e 40 Do gráfico, temos os seguintes resultados aproximados:

TVA= 32 residências TVB= 30 residências TVC= 20 residências TVD= 100 residências

Nenhum canal= 18 residências Total= 200 residências

A percentagem dos que declararam estar assistindo à TVB é aproximadamente:

O número de residências atingidas nessa pesquisa foi aproximadamentede:

A) 100 B) 135 C) 150 D) 200 E) 220

O número de residências atingidas nessa pesquisa foi de aproximadamente 200.

A discussão sobre gramática na classe está “quente”. Será que os brasileiros sabem gramática? A professora de Português propõe para debate o seguinte texto:

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TvA TvB TvC TvD Nenhum canal

Nº de residências

QUESTÃO 39 Resposta: A

QUESTÃO 40 Resposta: D

Não há nada mais gostoso do que o mim sujeito de verbo no infinito. Pra mim brincar. As cariocas que não sabem gramática falam assim. Todos os brasileiros deviam de querer falar como as cariocas que não sabem gramática. — As palavras mais feias da língua portuguesa são quiçá, alhures e miúde.

(BANDEIRA, Manuel. Seleta em prosa e verso. Org: Emanuel de Moraes. 4ªed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1986. Pág. 19)

Com a orientação da professora e após o debate sobre o texto de Manuel Bandeira, os alunos chegaram à seguinte conclusão:

A)uma das propostas mais ousadas do Modernismo foi a busca da identidade do povo brasileiro e o registro, no texto literário, da diversidade das falas brasileiras.

B)apesar de os modernistas registrarem as falas regionais do Brasil, ainda foram preconceituosos em relação às cariocas.

C)a tradição dos valores portugueses foi a pauta temática do movimento modernista. D)Manuel Bandeira e os modernistas brasileiros exaltaram em seus textos o primitivismo da nação brasileira.

E)Manuel Bandeira considera a diversidade dos falares brasileiros uma agressão à Língua Portuguesa.

É visível e louvável o propósito da questão de integrar entendimento de texto, conhecimento de gramática e informação literária, no quadro de um certo horizonte cultural. Essa intenção exemplifica a noção de “transversalidade”, assumida pelo MEC como ideal pedagógico. No entanto, a formulação da idéia merece alguns reparos. A questão parte de uma suposta discussão em sala de aula; os alunos examinam o tema “Será que os brasileiros sabem gramática?”. A professora de português propõe o texto de Manuel Bandeira para orientar o debate. Trata-se de um comentário sobre o uso do pronome “mim” como “sujeito de verbo no infinito”, condenado pela norma culta da língua, mas praticado gostosamente, segundo o autor, pelas “cariocas que não sabem gramática”. Bandeira conclui seu comentário manifestando o desejo de que aquela irregularidade, apresentada como típica de um falar regional, se generalizasse entre “todos os brasileiros”, isto é, que a irregularidade regional se tornasse regra nacional. Curiosamente, Bandeira manifesta sua vontade de ruptura da norma culta mediante uma construção erudita: “deviam de querer” — verbo “dever” seguido de preposição “de” e de um verbo no infinitivo, para expressar uma necessidade. Assim, alguém que sabe muita gramática dá prestígio a uma expressão que fere a norma culta. Há um fino humorismo nesse procedimento, como há também na escolha do sujeito que pratica a infração gramatical. Por que “as cariocas” e não “os cariocas”? Estaria Manuel Bandeira depreciando as mulheres, mostrando-as como ignorantes? Um exame mais atento do texto revela que não. O autor defende o erro de português, justificando-o por ele ser “gostoso”. Ao atribuí-lo às mulheres cariocas, e não aos homens ou aos cariocas em geral, sem distinção de sexo, o poeta sugere que elas, e não eles, são a razão dessa “gostosice”. A expressão incorreta se reveste da graça feminina e é investida de uma sutil erotização. É possível, também, reconhecer algo de ingenuidade infantil na expressão “para mim brincar”, evidente no verbo “brincar”. Assim, a expressão plural “as cariocas” evoca sobretudo imagens de mulheres jovens, caso em que o verbo “brincar” pode ser entendido como metáfora maliciosa, que reforça o erotismo. Essas são algumas conclusões fundamentais, decorrentes da análise intrínseca do texto, mas nada disso foi considerado pela banca examinadora. Além de desprezar essas conclusões, a questão supõe uma orientação da suposta professora, na suposta discussão dos supostos alunos, sem explicitar o conteúdo dessa orientação. Ocorre que a alternativa dada como correta pressupõe dados exteriores ao texto, como a noção de que o Modernismo buscou “a identidade do povo brasileiro e o registro, no texto literário, da diversidade das falas brasileiras”. Essa formulação é correta em si, mas não condiz com o problema originaria-

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QUESTÃO 41 Resposta: A

RESOLUÇÃO e mente proposto — “os brasileiros sabem gramática?” —, nem com o que o texto de Bandeira parece propor: uma padronização nacional do uso do pronome “mim” seguido de verbo no infinitivo, subvertendo a norma culta da língua. Literalmente, isso é oposto ao que se afirma na alternativa “A”, pois, em vez de registrar a “diversidade das falas brasileiras”, o texto proporia, num caso específico, a substituição dessa diversidade pela universalização de uma prática lingüística coloquial-regional. No entanto, esse entendimento não deve levar à conclusão de que Bandeira condena a gramática e intenta um geral relaxamento de suas regras. Seu texto, gramaticalmente impecável, é uma hipérbole, que, no fundo, dá uma imensa lição de tolerância. Sua linguagem, que chega a ser preciosa, acolhe o coloquialismo e, assim, registra a “diversidade das falas brasileiras”. Em vez de uma gramática autoritária, uma gramática democrática, que, em última análise, “busca a identidade do povo brasileiro”, com respeito e admiração por sua variedade cultural. A questão, sem entrarmos no mérito do gabarito controverso, não passa da fórmula tradicional de se assinalar uma alternativa que apresente propostas literárias de uma dada escola, contidas num determinado texto. O novo pagou um grande tributo ao velho, e a pretendida integração de texto, língua, literatura e cultura ficou muito aquém do que poderia render.

Você está estudando o abolicionismo no Brasil e ficou perplexo ao ler o seguinte documento:

Texto 1 Discurso do deputado baiano Jerônimo Sodré Pereira – Brasil 1879

No dia 5 de março de 1879, o deputado baiano Jerônimo Sodré Pereira, discursando na Câmara, afirmou que era preciso que o poder público olhasse para a condição de um milhão de brasileiros, que jazem ainda no cativeiro. Nessa altura do discurso foi aparteado por um deputado que disse: “BRASILEIROS, NÃO”.

Em seguida, você tomou conhecimento da existência do Projeto Axé (Bahia), nos seguintes termos:

Texto 2

Projeto Axé, Lição de cidadania – 1998 – Brasil

Na língua africana Iorubá, axé significa força mágica. Em Salvador, Bahia, o Projeto Axé conseguiu fazer, em apenas três anos, o que sucessivos governos não foram capazes: a um custo dez vezes inferior ao de projetos governamentais, ajuda meninos e meninas de rua a construírem projetos de vida, transformando-os de pivetes em cidadãos.

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