Dificuldades em ser docente

Dificuldades em ser docente

(Parte 1 de 4)

Marilda Gonçalves Dias Facci++, Sonia Mari Shuma Barroco+++,

Zaita Fátima de Rezende Gonzalez Leal++++,Elizabethe Lovato de Marchi+++++,

Regina Maura Penha Bega++++++, Rosangela Brogin +++++++, Rosemeire Soares Plepis++++++++ e Sirlei de Fátima Duim Dias+++++++++

Este trabalho é um ‘olhar’ do psicólogo escolar, resultado das análises, reflexões e atuação no contexto escolar, visando contribuir para questões que envolvem os dilemas do ‘ser professor’ na atualidade e procurando auxiliar na construção coletiva de uma perspectiva historicizadora na compreensão desta temática. Apresenta resultados do Projeto de Pesquisa intitulado “Os caminhos e descaminhos de ser professor no final do milênio”, desenvolvido na Universidade Estadual de Maringá-PR. O texto trata de estudos teóricos sobre a profissão professor e a Psicologia Histórico-Cultural e discute dados de entrevistas realizadas com vinte professores do ensino fundamental da Rede Municipal de Ensino de Maringá. Nossos resultados apontam para a importância de valorizarmos o trabalho do professor no processo ensino-aprendizagem e ao mesmo tempo, redefinirmos as relações entre Psicologia e Pedagogia.

Palavras-chave: Profissão Professor – Psicologia Histórico-Cultural – Professor Reflexivo - Historicidade

+ Este artigo foi elaborado a partir do Projeto de Pesquisa intitulado “Os caminhos e descaminhos de ser professor no final do milênio”, desenvolvido na Universidade Estadual de Maringá – Departamento de Psicologia no período de 1999-2000, com a coordenação da Profa.

Dra. Marilda Gonçalves Dias Facci. ++ Doutora em Educação Escolar (UNESP/Araraquara). Docente do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá-UEM, na área de Psicologia Escolar. Especialista em Psicanálise e Materialismo Histórico (UEM). Mestre em Educação (Universidade Estadual Paulista -UNESP/Marília) Endereço: Av. Colombo, 5790 – CEP: 87.020-900 – Maringá-PR. e-mail: :nmfacci@wnet.com.br..br.

+++ Doutoranda em Educação Escolar (UNESP-Campus de Araraquara). Docente do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá-UEM. Especialista em Fundamentos da Educação (UEM). Mestre em Fundamentos da Educação (UEM). ++++ Docente do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá-UEM, na área de Psicologia Escolar Mestre em Educação (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Marília) +++++ Psicóloga escolar da Rede Municipal de Ensino de Maringá, especialista em Educação Especial (UEM). ++++++ Psicóloga escolar da Rede Municipal de Ensino de Maringá. Mestre em Psicologia pela

UNESP/Assis. +++++++ Psicóloga escolar da Rede Municipal de Ensino de Maringá. Eespecialista em Psicologia Escolar. ++++++++ Psicóloga escolar da Rede Municipal de Ensino de Maringá.. Especialista em Psicologia Escolar +++++++++ Graduada em Pedagogia, aluna do Curso de Especialização em Psicologia e Educação (UEM).

At moments of extensive social transformations, the school and the teacher are in focus. This paper assumes the educational psychologist point-of-view, and presents the result of analyses and reflections based on the work developed in a school context, hoping to contribute to an understanding the dilemmas related to ‘being a teacher’ today. The other purpose of this paper is to stimulate the collective construction of a historical perspective, in order to better understand contemporary teaching challenges. It presents the results of a scientific project entitled “The skills and mistakes of being a teacher at the end of the millennium”, developed at Maringá State University. It discusses the data collected in interviews with 20 elementary school teachers of the Public School System of Maringá.. It emphasizes the need to prize the work of the teacher in the teaching-learning process, and also to redefine the relations between Psychology and Education.

Keywords: Historical and Cultural Psychology – Historicity – Reflective Teacher – Teaching

“Teríamos que conseguir que os outros acreditem no que somos. Um processo social complicado, lento, de desencontros entre o que somos para nós e o que somos para fora [...]. Somos a imagem social que foi construída sobre o ofício de mestre, sobre as formas diversas de exercer este ofício. Sabemos pouco sobre a nossa história”. (Arroyo, 2000, p. 29)

Refletir sobre o que significa ‘ser professor’ não é nada inédito e nem recente, porém, em todos os momentos de grandes transformações sociais, a escola é colocada em evidência e seus sujeitos em pauta. Almeja-se que esta instituição formadora possa responder às necessidades sociais e cumprir o seu papel, ‘idealizado’ ou apregoado ideologicamente, de preparar as pessoas para tornarem-se capazes de enfrentar os novos desafios.

O presente trabalho consiste em um ‘olhar’ do psicólogo escolar, resultante do conhecimento, reflexões e da prática desenvolvida no contexto escolar, que pretende contribuir para as questões que envolvem os dilemas do que é “ser professor” na atualidade. Como fica demarcado na epígrafe de Arroyo, acima citada, atualmente o professor sabe muito pouco sobre a sua identidade e sobre a história do desenvolvimento do seu ‘ofício’.

Este texto sistematiza fundamentos teóricos acerca dos estudos sobre o professor, pautados na Psicologia Histórico-Cultural, bem como dados de uma pesquisa empírica, realizada no município de Maringá-PR, acerca da profissão docente. Ele abarca, portanto, a formação e atuação profissional dos professores, que tem sido uma das preocupações e objeto de estudo dos psicólogos escolares ou educacionais, quando se tem como meta valorizar a prática docente no processo ensino-aprendizagem. Essa preocupação não é limitada à psicologia escolar e, de acordo com Marin (1996), é bastante antiga, mas ainda se mantém como uma problemática atual, à medida que se presencia uma variedade de teorias de aprendizagem e tendências pedagógicas norteando a prática em sala de aula ou normatizando metodologias e formas de compreender o trabalho do professor. Essas teorias e tendências, no entanto, não conduzem a uma posição definida sobre qual deve ser o trabalho do professor no momento atual.

As tendências pedagógicas discutidas por Saviani (1983) – Pedagogia Tradicional,

Escola Nova, Tecnicismo e, mais atualmente a Pedagogia Histórico Crítica – têm apresentado expectativas ou formas de compreender o que compete ao professor no processo ensino-aprendizagem. Recentemente, pode ser somado, ainda, a estas tendências, o Construtivismo, que vem ganhando grande espaço nas propostas e diretrizes educacionais. Vale ressaltar que o Construtivismo também tem sido denominado, entre os educadores e em textos bibliográficos, de Sócio-Construtivismo, Sócio-Interacionaismo e Interacionismo

Hoje, convive-se com todas essas tendências, no espaço intra-escolar, de modo nem sempre esclarecido e consistente. Neste caso, as propostas pedagógicas afirmam guiar-se pelo Construtivismo, Sócio-Construtivismo ou mesmo pela Psicologia Histórico-Cultural mais como uma nomenclatura que se tornou conhecida do que como uma concepção na qual se acredita. Observa-se, com freqüência, uma tentativa de imprimir uma visão progressista do que seja ensinar ou aprender, buscando atender às demandas do mercado que exigem pedagogias inovadoras ou mesmo procurando seguir os ‘modismos’ em educação. Mas o que se constata, com certa recorrência, é uma predominância da Pedagogia Tradicional – no modo de se conceber a relação professoraluno, na organização escolar, etc. – sem contudo priorizar o cerne que caracterizou essa abordagem educacional: a opção pelo ensino de conteúdos clássicos, eruditos.

As dificuldades enfrentadas pelo professor neste início do século XXI, período marcado por palavras de ordem como ‘globalização’, ‘mundialização da economia’, ‘desenvolvimento de competências’, ‘aprender a aprender’, as quais evidenciam a presença marcante do ideário liberal que, no entanto, se camufla sob uma nova roupagem, torna atual o interesse pelo tema sobre a profissão docente. É importante lembrar que, historicamente, esse ideário liberal encaminhou os homens modernos e contemporâneos a uma possibilidade de vida que os livrasse da herança de sangue e das tradições e os impulsionou para um desenvolvimento econômico e social pautados no capital. Na atualidade, convive-se com os saldos que o capitalismo produziu, que vão além das palavras de ordem citadas. O capitalismo elevou a humanidade a outro nível de desenvolvimento social, mas, produziu também, novas contradições, tornando cada vez mais difícil ter-se clareza de como agir ou comportar-se. Uma dessas contradições refere-se à socialização do saber: uma sociedade que produziu tanto conhecimento, o veicula em forma de rápidas informações e de modo parcial, para manter os homens atrelados aos valores de troca, e põe o profissional encarregado historicamente de repassar o saber em forma de ensino, em condições cada vez mais difíceis e alienadas, quer no que se refere às suas atribuições, quer no que se refere ao desenvolvimento da sua carreira e condições sócio-econômicas que ela propicia. Busca-se, então, compreender o que compete, realmente, ao professor e qual o seu papel neste momento.

Os professores têm vivenciado, de acordo com Esteve (1995, 1999) e Mosquera e

Stobäus (1996), as conseqüências de toda uma situação de mal-estar, provocadas por mudanças recentes na educação, que podem ser representadas pelos sentimentos conflitivos despertados diante das circunstâncias que o processo histórico produziu em termos de educação. Sentimentos e atitudes tais como: desmotivação pessoal e, muitas vezes, abandono da profissão; insatisfações profissionais, traduzidas pelo pouco investimento e indisposição na busca de aperfeiçoamento; esgotamento e ‘stress’, como conseqüência do acúmulo de tensões; depressões; ausência de uma reflexão crítica sobre a ação profissional e outras reações que permeiam a prática educativa e que acabam, em vários momentos, provocando um sentimento de autodepreciação. Tais ‘sintomas’ do mal-estar docente tornam-se facilmente percebidos pelo psicólogo educacional ou outros profissionais que atuam na área de educação ao desenvolverem atividades e estudos com os professores. Convive-se, portanto, nos meios escolares, com a angústia sofrida pelos professores, podendo pensar-se, também, em ‘sofrimento humano’, expressão usada por Bauman (1999) para descrever o que os homens, de uma forma geral, estão sentindo frente à globalização e transformações que vêm ocorrendo na sociedade.

A partir destas constatações, foi definido um projeto de pesquisa, intitulado “Os caminhos e descaminhos de ser professor no final do milênio” (Facci, 2000), desenvolvido no período de abril de 1999 a novembro de 2000, na Universidade Estadual de Maringá (UEM), com os seguintes objetivos: verificar a compreensão do professor acerca da sua profissão no desenvolvimento da prática pedagógica; refletir sobre a contribuição da Psicologia Histórico-Cultural – escola de Vigotski e outros autores – na fundamentação do trabalho docente; realizar uma leitura crítica da profissão docente. Esse projeto foi coordenado por uma professora do Departamento de Psicologia da UEM e contou com a participação de quatro Psicólogas da Secretaria de Educação do Município de Maringá-PR, uma pedagoga – aluna do curso de especialização em “Psicologia na Educação” do Departamento de Psicologia – e duas professoras também do Departamento de Psicologia.

Inicialmente realizou-se o levantamento bibliográfico e a seleção de textos para serem discutidos por todos os participantes do projeto, sob a forma de grupos de estudo para subsidiar a compreensão do trabalho do professor na prática pedagógica. Num segundo momento, foram realizadas entrevistas com professores do ensino fundamental da Rede Municipal de Ensino de Maringá com objetivo de coletar dados para a análise de aspectos que evidenciassem a forma como os mesmos entendiam a profissão professor. Alguns resultados obtidos e análises teóricas serão apresentados neste artigo que discute, também, aspectos acerca dos estudos sobre o professor na perspectiva do professor reflexivo e da Psicologia Histórico-Cultural.

PROFISSÃO PROFESSOR: ALGUNS ESTUDOS REALIZADOS A PARTIR DA DÉCADA DE 1980

Na bibliografia pesquisada, constatou-se que atualmente têm sido travadas várias discussões sobre a profissão docente. Mesmo correndo o risco de deixar de mencionar estudos importantíssimos nesta área, neste momento, far-se-á um pequeno “recorte” de algumas teorias estudadas, considerando-se que o universo teórico sobre esse tema é muito amplo.

Serão apresentadas, inicialmente, algumas idéias de Antônio Nóvoa (1995a, 1995b), pesquisador português que contribuiu consideravelmente para a compreensão da profissão docente. Esse autor, ao escrever sobre as dimensões pessoais e profissionais dos professores, valendo-se de uma retrospectiva histórica, mostrou que os estudos sobre a formação e atuação de professores, de forma geral, foram marcados por uma separação entre o eu pessoal e o eu profissional. Somente no final da década de 1980, segundo esse autor, começaram a ocorrer estudos que tiveram o mérito de “recolocar os professores no centro de debates educativos e das problemáticas da investigação” (Nóvoa, 1995b, p. 15). Os trabalhos de Nóvoa acrescentaram uma nova perspectiva nos estudos sobre os professores, resgatando a influência da individualidade no desempenho de sua profissão. Nóvoa (1999), em seu artigo “Os professores e a virada do milênio: do excesso dos discursos à pobreza das práticas”, analisa a lógica excesso-pobreza aplicada ao exame da situação dos mesmos. Isto é, as pesquisas em torno dessa temática estão se proliferando, os documentos oficiais estão falando sobre o magistério, mas fica evidente, na prática, que quase tudo continua num mesmo rumo e direção: desvalorização do magistério, salários “miseráveis”, excesso de jornada de trabalho, má qualificação, entre outros, são alguns dos problemas presentes na profissão professor.

Alarcão (1996), outra pesquisadora da área, afirma que a produção científica em torno de questões da profissionalização docente tem destacado a formação reflexiva dos professores, pautada nas idéias de Donald Schön. De acordo com essa autora, esse tipo de formação começou a ser difundido na década de 1980 e ganhou fortes adeptos. O conceito de professor reflexivo emergiu, inicialmente, nos Estados Unidos, em oposição ao movimento que enfatizava a aprendizagem de técnicas, ao racionalismo técnico, considerando, então, que o professor deve ser compreendido como um intelectual em contínuo processo de formação.

Schön fundamentou suas pesquisas na teoria de John Dewey, filósofo, psicólogo e pedagogo norte-americano que muito influenciou o pensamento pedagógico contemporâneo e o movimento da Escola Nova. Campos e Pessoa (1998, p. 187) afirmam que Dewey foi um crítico das práticas pedagógicas que pregavam a obediência e a submissão e que a educação, no seu entender, “está continuamente reconstruindo a experiência concreta, ativa e produtiva de cada um”. Geraldi, Messias e Guerra (1998, p. 248) esclarecem que Dewey “definiu a ação reflexiva como uma ação que implica uma consideração ativa e cuidadosa daquilo que se acredita ou que se pratica, iluminada pelos motivos que a justificam e pelas conseqüências a que conduz” e que “a busca do professor reflexivo é a busca do equilíbrio entre a reflexão e a rotina, entre o ato e o pensamento”. A ação reflexiva envolve intuição, emoção e não é somente um conjunto de técnicas que podem ser ensinadas aos professores.

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