Manual da Economia

Manual da Economia

(Parte 1 de 8)

Parte Introdutória

Capitulo 1 - Introdução à Economia

Capitulo 2 - Evolução da Ciência Econômica

Capitulo 3 - Metodologia da Ciência Econômica

Capitulo 4 - Metodologia Quantitativa na Pesquisa Econômica: a Estatística e a Econometria

1 - Introdução à Economia

Juarez Alexandre Baldini Rizzieri

Professor do Departamento de Economia da FEA / USP economista (USP), mestre (Universidade de Purdue, EUA) e doutor pela USP.

1. Uma observação inicial

Um curso de Introdução à Ciência Econômica deve garantir pelo menos três objetivos: primeiro, estimular o estudante à percepção e ao interesse pelos problemas econômicos; segundo, familiarizá-lo com as teorias que se propõem a analisar os mesmos problemas e, finalmente, mostrar o quanto se deve aprender com humildade esta maravilhosa ciência social. O desafio é grande, mas a paciência, a vontade e o entusiasmo devem ficar acima das dificuldades. Cada conceito deve ser rigorosamente entendido, para que não se perca a coerência lógica do raciocínio analítico que é inerente ao pensamento econômico.

-apresentação de alguns problemas econômicos;

Este trabalho contém as seguintes partes: - método de análise científica;

- a "escassez" como objeto da economia;

- o Estado e a Economia de Mercado;

2. Alguns problemas econômicos

Os problemas econômicos estão presentes a todo instante de nossas vidas, desde questões mais rotineiras como assuntos de real complexidade, como por exemplo:

a. Por que a renda nacional cresceu do após guerra até 1980 acima de 7,0% ao ano, superando o Japão e, daí então, praticamente estacionou? b. Por que o nordestino possui uma renda per capita muito inferior à do paulista? e. Por que a expansão da moeda e do crédito pode gerar inflação? d. Por que o governo que não tem superavit fiscal apresenta dificuldade em financiar seus deficits públicos? e. Como pode uma desvalorização cambial conduzir a uma melhora na balança comercial e a uma redução do salário ? f. Será que o sistema de indexação de salários, câmbio e juros interfere no processo inflacionário? g. Por que a taxa de juros de mercado e o preço esperado de venda do produto são dados importantes para as decisões de investimento das empresas? h. Até onde juros altos reduzem o consumo e estimulam a poupança? i. Por que os fumantes são mais penalizados quando sobe o preço de todos os cigarros relativamente à alta de preço de apenas uma marca? j. Serão as negociações coletivas a solução alternativa ao mercado quando a economia é fortemente marcada por oligopólios e sindicatos fortes, acompanhado de baixa abertura ao comércio internacional? Na ausência dessa solução até onde o congelamento de preços apresenta-se como alternativa para conter a inflação? k. Por que os impostos sobre alguns produtos como cigarros, veículos e eletrodomésticos são por demais elevados? l. Quais as justificativas técnicas para a existência de tantas empresas estatais na economia brasileira? m. Por que as universidades públicas são predominantemente federais? n. Como os bancos interferem nas taxas de juros e apenas intermediam. a poupança financeira do país? o. A propaganda cria necessidades ou apenas informa sobre as características dos bens e serviços? p. Por que a alta no preço do cafezinho reduz a demanda de açúcar? q. Porque a rendados agricultores se eleva quando ocorre uma estiagem que reduz a produção? r. Por que estudar economia quando o lazer é mais atraente?

3. Métodos de investigação da Ciência Econômica

3.1. Teoria e métodos de investigação científica a) Definição

Teoria pode ser entendida como um conjunto de "idéias" sobre a realidade, sempre analisadas de forma interdependente. Desta maneira, o aluno desde o início de sua formação científica, não ignorar que toda teoria tem uni caráter ideológico, isto é, a predominância de um conjunto de idéias de como as coisas são e se comportam.

b) Componentes das teorias As "definições" dizem respeito ao significado dos temos (idéias) da teoria; "argumentos" referem-se às condições sob as quais a teoria se sustenta, e "hipóteses" são conjecturas relativas à maneira de como as coisas da realidade se comportam.

c) Modelos

Representação das principais características dos componentes de uma teoria, como por exemplo: a poupança depende da renda e o investimento da taxa de juros, porém é do equilíbrio de ambos que a própria renda se equilibra.

d) Métodos de análise Os métodos científicos se caracterizam pelo raciocínio lógico e são classificados em:

"Indutivo": método que parte dos fatos específicos para se chegar a conclusões gerais. Aprende-se com a experiência do dia-a-dia. Ex.: o aumento de tributos reduz a renda disponível e logo a demanda, o que por sua vez ajuda a frear a inflação.

"Dedutivo": método que parte das conclusões gerais para explicar o particular. Ex.: empresa capitalista maximiza lucro, e como a Ford é uma empresa capitalista ela maximiza lucro. Tal conclusão pode ser válida, mas não necessariamente verdadeira.

3.2. Natureza da investigação na Ciência Econômica

Conforme apresentado anteriormente a investigação científica consiste em relacionar questões formuladas sobre o comportamento dos fenômenos e a sua evidência empírica. Na verdade, existe uma preocupação constante na formulação das leis que governam o comportamento dos fenômenos. Se a evidência for pequena ou nula, torna-se impossível padronizar-se o comportamento do fenômeno, e devem-se reformular as hipóteses formuladas sobre o seu comportamento.

Em algumas ciências, tais como a Biologia, a Química etc., é possível produzir os fenômenos através da experimentação controlada de laboratório. Todavia, em outras ciências, tais como a Economia, a Astronomia etc., é necessário esperar pelo tempo para desenvolver observações a fim de serem utilizadas como evidências no teste das hipóteses sobre o comportamento dos fenômenos.

A investigação científica no campo da Economia procura testar pela evidência a estabilidade do comportamento humano, segundo uma hipótese formulada. Como é possível predizer o comportamento humano?

O caráter estável desse comportamento deve-se ao fato de ser possível gerar (prever) observações a priori com certa margem aceitável de erro. Por que o erro? O erro aparece na dificuldade de se prever o comportamento de um indivíduo isolado dentro do grupo, somente permitindo determinar a tendência estável do comportamento do grupo em geral. Por exemplo, suponha-se uma multidão nas praias de Santos ou Copacabana, tomando banho de mar sob uma temperatura elevada de 38 ou 39* C. É bastante aceitável a idéia de que o consumo local de sorvetes e refrigerantes deva ser estimulado. Todavia, é difícil de se predizer que alguns indivíduos particularizados vão ou não participar desse consumo. Falando pelo comportamento da coletividade, estaríamos propensos a dizer que sim, e a "chance" de acertarmos é maior do que a de errarmos. Isso devido à "lei dos grandes números", ou seja, quanto maior o número de casos favoráveis (número de pessoas que com certeza tomam refrigerantes e sorvetes) em relação ao total dos casos possíveis de ocorrer (número total das pessoas da coletividade), tanto maior será a probabilidade da tendência geral do comportamento da coletividade. Também maior será a chance de se repetirem os casos tomados ao acaso e de acordo com essa determinada tendência.

Assim sendo, o comportamento humano apresenta um caráter estável pela simples determinação da maior chance associada à tendência das ações da maioria das pessoas da coletividade que se está estudando. Essa é a vantagem da economia sobre as demais ciências sociais, isto é, o comportamento econômico é o mais estável.

Uma vez comprovadas pela evidência as leis que explicam o comportamento humano, elas passam a fazer parte do conjunto de conhecimentos que formam a Teoria Econômica1. Como é então essa Teoria utilizada para se testar as hipóteses formuladas sobre uma específica realidade sócio-econômica? Na verdade, isso se apresenta como um simples encadeamento de raciocínio lógico2. Baseadas rios postulados da Teoria existente formulam-se as hipóteses a respeito de como qualquer realidade se comporta. Deduz-se as implicações e os resultados decorrentes dessas hipóteses e confronta-se-os com a evidência dos dados de observação coletados da realidade. Finalmente, desse confronto tiram-se as conclusões: ou a teoria explica satisfatoriamente o comportamento da realidade econômica ou deve formular uma teoria alternativa e mais adequada. Isso tudo pode ser melhor visualizado no seguinte esquema:

1 Os comportamentos humanos agora padronizados passam a definir o comportamento do Homo-Economicus - o qual retrata a imagem do indivíduo cujas; ações sempre racionais derivam exclusivamente de seus interesses econômicos dentro da sociedade. Por isso a Teoria Econômica é muitas vezes sinônimo da "arte de pensar".

Uma vez entendido o método e o objeto da Ciência Econômica é interessante observar a natureza dos argumentos pertinentes à teoria econômica.

Os "argumentos" que compõem a teoria econômica são classificados em "positivos" e "normativos". Os argumentos positivos dizem respeito ao que "é, foi ou será". Desse modo, qualquer rejeição sobre as suas validades pode ser apropriadamente confrontada com os fatos da realidade. Os argumentos normativos dizem respeito ao que "deveria ser". As rejeições a tais argumentos não podem ser confrontadas com Os fatos da realidade objetivos. Isso porque os argumentos normativos são impregnados de critérios filosóficos, religiosos ou culturais. Eles são apresentados sob juízos de valores que procuram infundir a idéia do que é bom ou do que é ruim, logo, carregados de valores subjetivos.

Veja-se o seguinte exemplo: São Paulo é a primeira cidade na produção industrial brasileira. Este é um argumento positivo porque pode ser confrontado com os dados da realidade. O que não acontece com o seguinte argumento: são Paulo deveria ser a segunda cidade porque em primeiro deveria estar Salvador ou Porto Alegre. outro exemplo: o salário real deveria ser mais alto para a felicidade geral do povo, bem como as exportações deveriam ser menores para se poder aumentar o consumo interno, obviamente tudo isso COM uma taxa menor de inflação. Mais um exemplo, o Governo de São Paulo deveria abrir mão do imposto sobre os automóveis, assim o preço ao consumidor seria menor.

Com esses exemplos fica fácil perceber que a economia só se interessa, primordialmente, pelos argumentos positivos.

4. Concepções e definições sobre Ciência Econômica

O marco inicial da etapa científica da Teoria Econômica coincidiu com os grandes avanços da técnica e das ciências físicas e biológicas, nos séculos XVIII e XIX. Nesse notável período da evolução do conhecimento humano, a Economia construiu seu núcleo científico, estabeleceu sua área de ação e delimitou suas fronteiras com outras ciências sociais. A construção de seu núcleo científico fundamentou-se no enunciado de um apreciável volume de leis econômicas, desenvolvidas a partir das concepções mecanicistas, organicistas e posteriormente humanas, através das quais os economistas procuraram interpretar os principais fenômenos da atividade Econômica3.

Os economistas do grupo organicista pretendiam que o organismo econômico se comportasse como um órgão vivo. Os problemas de natureza econômica eram expostos numa terminologia retirada da Biologia, tais como "órgãos", "funções", "circulação", "fluxos", "fisiologia" etc. A concepção organicista da Economia se faz presente em vários textos históricos, por exemplo: "as partes principais da Economia Social são as relacionadas com os órgãos dos quais a sociedade se serve para a criação, a distribuição e o consumo dos bens, do mesmo modo como as partes principais da fisiologia do homem. são os órgãos que se relacionam com a nutrição, o crescimento e o desenvolvimento do corpo humano4 .

3 No Capítulo seguinte deste Manual, discutir-se-á mais detalhadamente a evolução histórica da Ciência Econômica.

4 Texto de Jean B. Say - século XVIII.

Já os mecanicistas pretendiam que as leis da Economia se comportassem como determinadas leis da Física e a terminologia usada era: "estática", dinâmica", "aceleração", "rotação", "velocidade", "fluidez", "forças" etc. Os textos referentes são: "A Economia deveria se ocupar dos resultados produzidos por uma combinação de forças e esses resultados deveriam ser descobertos com o auxílio da natureza mecânica das atividades individuais5 .

Um outro texto é: "Uma força aplicada a uma massa produz um movimento caracterizado por sua aceleração. Esta, para uma mesma força, é tanto maior quanto mais fraca a massa. Do mesmo modo, a procura aplicada a determinada riqueza produz mudança caracterizada pelo preço no qual ela intervém. Para uma procura de montante igual em unidades monetárias, o preço será tanto mais elevado quanto mais fraca for a quantidade das riquezas oferecidas. A quantidade ofertada é, então, uma resistência à elevação infinita dos preços, como a massa, uma resistência ao movimento. Nos dois casos, a inércia é proporcional à qualidade de matéria na qual a influência motriz é aplicada"6 . Um último texto seria "a Economia deveria ser Matemática e Física, porque se ocupa de quantidades e relações entre quantidades"7 .

Todavia, as concepções organicista e mecanicista, hoje, foram ultrapassadas pela concepção humana da Economia, a qual coloca no plano superior os móveis psicológicos da atividade humana. A Economia repousa sobre os atos humanos e é por excelência uma ciência social. Apesar da tendência atual ser a de se obter resultados cada vez mais precisos para os fenômenos econômicos, é quase que impossível se fazer análises puramente frias e numéricas, isolando as complexas reações do homem no contexto das atividades econômicas.

Felizmente, porém, o economista não precisa dar respostas com aproximação de muitas casas decimais, pelo contrário, se apenas conseguir determinar o sentido geral de causa e efeito, já terá dado um formidável passo avante.

Após todos esses enfoques a respeito da concepção da economia sua melhor definição foi dada pelo economista americano Paul Samuelson: "Economia é uma ciência social que estuda a administração dos recursos escassos entre usos alternativos e fins competitivos". Para complementar podese lembrar das palavras do Prof. Antonio Delfim Netto: "Economia é a arte de pensar". Apesar de especificado seu objeto, a Economia relaciona-se com as demais áreas do conhecimento humano.

5 Texto de Hermann H. Gossen - século XIX 6 Texto de Jacques Rueff século X. 7 Texto de W. S. Jevons - século XIX.

4.1. Autonomia e inter-relação com as demais ciências

Notadamente, convém à Economia, como a qualquer outra ciência, a delimitação de seu núcleo e a correta especificação de seu objeto. Mas na realidade é muito difícil separar os fatores essencialmente econômicos dos extra-econômicos, pois todos são significativos para o exame de qualquer sistema social. Neste sentido, a autonomia de cada um dos ramos das Ciências Sociais não deve ser confundida com um total isolamento, pois todas as manifestações das modernas sociedades se encontram interligadas, apenas que a realidade deve ser observada sob diferentes óticas e investigada em termos não unilaterais. Num esquema de visualização gráfica vem:

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