O trabalhador de enfermagem em oncologia pediátrica: repercussões na vida profissional e familiar

O trabalhador de enfermagem em oncologia pediátrica: repercussões na vida...

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DISCIPLINA:INT 5162- ESTÁGIO SUPERVISIONADO I

O trabalho apresentado pelas acadêmicas tem importante relevância para a discussão acerca da influência do trabalho no processo de viver dos cuidadores em enfermagem oncológica pediátrica. Traz importantes contribuições para que se possa repensar a forma pela qual estes trabalhadores são inseridos no processo de trabalho e de como a instituição precisa estabelecer estratégias de acolhimento, treinamento, supervisão, bem como fortalecimento dos aspectos emocionais e situacionais relacionados ao cuidado da criança, adolescente e família com câncer. Neste sentido, o trabalho traz aspectos inovadores tais como ouvir a família do cuidador e apreender a partir desta as repercussões do tipo de trabalho sobre o viver e o ser família. Neste sentido considero o trabalho aprovado ressaltando o mérito pela originalidade no que se refere à abordagem da família, bem como pelo desafio de mergulharem na área oncohematológica pediátrica com dedicação, interesse e respeito pela clientela e preocupação como aqueles que profissionalmente cuidam neste âmbito. Portanto, sou de parecer favorável a aprovação do estudo apresentado por eles como trabalho de conclusão de curso.

Dra. Ana Izabel Jatobá de Souza

Docente do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina COREN 34722

Ana Paula Franco Pacheco1

Dra. Ana Izabel Jatobá de Souza2

Msc. Rosângela Inês Wayhs3

Enfa. Izis G. Coelho3 Dra. Vera Radünz4

Resumo: Trata-se de um estudo qualitativo descritivo exploratório que tem como objetivo conhecer as repercussões do cuidado profissional no processo de viver dos trabalhadores de Enfermagem que atuam em uma Unidade Onco-hematológica Pediátrica. Metodologia: O estudo foi realizado em uma Unidade de Onco-hematologia de Florianópolis/Santa Catarina/Brasil, tendo participado do mesmo sete trabalhadores de Enfermagem entre técnicos de enfermagem e enfermeiros e sete familiares dos respectivos trabalhadores, perfazendo um total de quatorze sujeitos. Os dados foram coletados e analisados no período de Agosto a Novembro de 2008. Como instrumento para a coleta dos dados foi utilizado a entrevista semi-estruturada e para a análise utilizou-se as contribuições de Bardin (1994). Resultados: a análise dos dados permitiu a identificação dos seguintes temas - no que se refere aos profissionais: influências do trabalho no processo de viver do cuidador; influências do trabalho na família do cuidador; luz e sombra no trabalho do cuidador. No que se refere à família do profissional emergiram os seguintes temas: percepção da família sobre a profissão; influências do trabalho na vida familiar do profissional; Luz e sombra do trabalho do cuidador sobre a família: Conclusão: os resultados apontam influências significativas do tipo de trabalho exercido pelo profissional e de como este se reflete no processo de viver dos mesmos, em especial os relacionados ao âmbito familiar. O estudo reforça a necessidade de ações institucionais que minimizem o desgaste do cuidador durante seu trabalho e as repercussões deste sobre o processo de viver, principalmente sobre o sistema familiar, uma vez que este é de fundamental importância como uma unidade de cuidado de seus membros.

Palavras-chave: Enfermagem, câncer, desgaste físico e emocional, criança, adolescente, família.

I. INTRODUÇÃO O câncer é uma doença que traz consigo um estigma de finitude antecipada, do qual emergem inúmeras imagens que desestabilizam o viver tanto daqueles que são diagnosticados como de todos que estão ao redor, em especial a família e os amigos. Os profissionais da saúde também evidenciam concepções negativas e pessimistas em relação ao câncer, em meio ao qual pairam o medo, as inseguranças e as incertezas. Quando o diagnóstico de câncer se dá na fase infanto-juvenil, o impacto parece se ampliar, pois habitualmente a imagem da infância e da adolescência é vista como um período no qual a alegria, a vivacidade e a perspectiva de futuro mais se expressa.

* Artigo elaborado como requisito para finalização do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina 1 Acadêmicos do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. 2 Docente do departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina – orientadora do Trabalho. 3 Enfas. Da Unidade de Hemato-oncologia do Hospital Infantil Joana de Gusmão – supervisoras do Estágio Supervisionado e do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). 4 Docente do departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina – membro da Banca do Trabalho

Portanto, a presença de uma doença como o câncer parece nublar e frustrar tais expectativas.

esquecer o fato de que se cuida da díade criança/adolescente e família

Neste contexto, o cuidado de enfermagem em Oncologia pediátrica requer, além de certa compreensão do profissional para com os pacientes e familiares, primeiramente um autoconhecimento, o qual é alcançado mediante reflexão, devido à exigência no campo emocional e prático. Isso ocorre mais do que em outras áreas, uma vez que implica em lidar com pacientes graves, estando alguns destes, fora de possibilidades terapêuticas, ou que enfrentam um tratamento longo e cheio de riscos e efeitos colaterais. E, em se tratando da área pediátrica, é impossível

Rodrigues e Chaves (2008) apontam que em função da complexidade das demandas dos pacientes e seus familiares, vários estudos têm evidenciado os problemas decorrentes da exposição dos profissionais da saúde, em especial os de enfermagem, neste tipo de trabalho. Diante de tal complexidade, pode ser quase inevitável a total distinção do que se convive no ambiente de trabalho com o que se convive em seu ambiente familiar. Este fato implica em diferentes repercussões na vida do profissional, a depender da forma como o mesmo percebe e reage diante às experiências vivenciadas.

Dessa forma, entende-se que a família e o trabalho são contextos onde o trabalhador de enfermagem vive e convive, portanto, faz parte do seu processo de viver o que acaba criando interrelações entre ambos os cenários, ou seja, geram intersecções no processo de viver da pessoa, as quais, por sua vez, causam, por menor que seja, uma repercussão mútua. As inter-relações geradas entre os cenários no qual o profissional de enfermagem transita podem ser enfrentadas de diversas formas. Estas vão desde os que diminuem o impacto na vida pessoal sem prejuízo psicoemocional, até àquelas nas quais há uma interferência extrema sobre a vida pessoal do trabalhador, determinando conseqüências extremamente indesejadas tais como os desentendimentos familiares e o estresse. Nesta última situação faz-se uma co-relação direta com a síndrome de desgaste do cuidador denominada “Burnout”.

Campos (2008, p. 51) a define como uma “síndrome de esgotamento psíquico e emocional com desenvolvimento de imagem negativa de si mesmo, atitudes negativas face ao trabalho e perda de interesse pelos pacientes”. Nesta definição encontra-se subentendido as importantes repercussões que essa síndrome pode ter no processo de viver destes sujeitos, principalmente no âmbito familiar. Esta percepção pode ser igualmente encontrada nos estudos de Martins (2008), quando este afirma que na terceira fase do “burnout”, ocorre a falta de realização pessoal e o estresse tende a transparecer na esfera do trabalho e o profissional passa também a manifestar os sintomas no ambiente familiar. Outros estudos apontam importantes correlações entre o trabalho e o processo de viver.

de Conclusão de Curso (TCC).

Contudo, estes não abordam as possíveis repercussões do tipo de trabalho do profissional na família, a partir da visão do familiar do trabalhador. Paro, Paro e Ferreira (2005) afirmam que os profissionais de enfermagem representam mais da metade do contingente de pessoal de uma instituição, e é por meio destes que se torna possível o tratamento e o cuidado da criança, do adolescente doente e de sua família. Dessa forma, a equipe de enfermagem está na linha de frente e, é a que, muitas vezes, parece ser esquecida pela instituição. Neste contexto, reforçamos que os profissionais que atuam com pacientes na área oncológica estão mais intensamente mobilizados, visto que no câncer a dimensão real desses acontecimentos é valorizada e requintada pela força simbólica que a doença carrega. (AVELLAR; IGLESIAS; VALVERDE, 2007)

Camargo e Souza (2003) salientam que o cuidado em oncologia, pelas próprias características da patologia e o porvir que a acompanha, acaba encaminhando o desenvolvimento de laços emocionais e afetivos entre os que são cuidadores e os que são cuidados. A equipe de saúde lida diariamente com sofrimento, fragilidade, dor e tantas outras reações provenientes dos pacientes e suas famílias e que somados, contribuem para o aparecimento da síndrome de “burnout” (MARTINS, 2008). Radünz (1999b, p 28) reforça que “o problema que leva um elevado número de profissionais ao “burnout” é a falta de cuidado, começando pela falta de cuidado para consigo mesmo”. Portanto, o profissional deve começar a cuidar, iniciando pelo cuidado de si.

Neste sentido, o trabalhador na área de oncologia pediátrica, que convive diariamente com as implicações de uma doença grave, precisa estar bem diante de pacientes e familiares, pois ele lida com a morte de pacientes infantis e atua em um ambiente no qual, muitas vezes, não é possível manifestar e compartilhar suas angústias e sentimentos. (MARTINS, 2008). Tal situação se mantém em setores públicos e privados, justificando a realização de estudos que ressaltem em seus resultados a necessidade de se dar maior atenção à saúde dos profissionais dessa área. Algumas pesquisas evidenciam e fortalecem esta idéia, entre elas as de Murofuse; Abranches; Napoleão, (2005); Paro; Paro; Ferreira, (2005); Ramalho; Nogueira-Martins, (2007); Avellar; Iglesias; Valverde, (2007), Manett; Marziale, (2007) e Rodrigues; Chaves, (2008).

Portanto, preocupados com este contexto, formulamos as seguintes perguntas de pesquisa:

Quais as influências do cuidado profissional sobre o processo de viver dos trabalhadores de enfermagem em oncologia pediátrica? Quais os fatores que influenciam o cuidado profissional destes trabalhadores? Quais as implicações do cuidado profissional dos trabalhadores de Enfermagem em Oncologia Pediátrica sobre o sistema familiar a partir da percepção de seus familiares?

Para responder os questionamentos propostos, propusemo-nos a desenvolver um estudo com o objetivo geral de conhecer as repercussões do cuidado profissional no processo de viver dos trabalhadores de Enfermagem que atuam em uma Unidade Onco-hematológica Pediátrica.

E como objetivos específicos: identificar as influências do cuidado profissional sobre o trabalhador de Enfermagem em Oncologia Pediátrica; identificar os fatores que influenciam o cuidado profissional dos trabalhadores de Enfermagem em Oncologia Pediátrica; identificar as influências do cuidado profissional em Oncologia Pediátrica sobre o sistema familiar a partir da percepção dos familiares dos trabalhadores de enfermagem.

I. METODOLOGIA: Trata-se de um estudo qualitativo, descritivo, exploratório, realizado na Unidade de Onco- hematologia de um Hospital Infantil de Florianópolis/Santa Catarina/Brasil. Este Hospital é referencial estadual para o diagnóstico e tratamento de diversas patologias no Estado de Santa Catarina/Brasil. A unidade de onco-hematologia possui atualmente quatorze leitos, contando com uma equipe multidisciplinar que atende a criança, o adolescente com diagnóstico e tratamento oncológico. A permanência de um familiar é uma garantia durante todo o processo de hospitalização no período da infância e da adolescência, assegurado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (1990). A equipe de enfermagem é constituída em um total de vinte e sete trabalhadores, sendo duas enfermeiras e os demais técnicos e auxiliares de enfermagem, bem como uma escriturária que desenvolve suas atividades em proximidade com a equipe de enfermagem.

Participaram da pesquisa um total de quatorze sujeitos, a saber: sete profissionais da equipe de enfermagem, sendo seis técnicos de enfermagem e um enfermeiro e os sete familiares. Como critério de inclusão do profissional utilizado, foi o de sua aceitação verbal e por escrito sobre sua participação no estudo. Estabelecemos como critério de exclusão do estudo apenas os profissionais de enfermagem que estivessem em férias, atestados e/ou licenças. Ressaltamos que os profissionais mais antigos da Unidade se encontram no período noturno, com os quais não foram coletadas entrevistas em função da incompatibilidade de horários para a realização da entrevista. Neste sentido, participaram do estudo apenas os profissionais do período diurno. O critério de inclusão utilizado para o familiar consistiu na indicação feita pelo próprio trabalhador através do significado atribuído por ele à palavra família, devendo o familiar indicado residir na mesma cidade e/ou manter contato constante ou periódico com o profissional participante da pesquisa, além do consentimento por escrito do familiar sobre a participação no estudo.

O projeto foi aprovado pela Comissão de Ética do Hospital sob o protocolo nº 042/2008 e

CEP 021/2008. Ressaltamos que foi assegurado aos sujeitos do estudo o anonimato e todas as condições pertinentes aos aspectos éticos conforme preconiza o Conselho Nacional de Saúde sob a Resolução 196/96. Para tanto, na discussão do estudo, utilizamos nomes de flores para não permitir a identificação dos sujeitos. O período de coleta e análise dos dados foi de Agosto a Novembro de 2008. Os dados

5 foram coletados por meio de entrevista semi-estruturada a partir de um roteiro construído para o profissional e um para o familiar (Apêndice A). As entrevistas tiveram duração máxima de 30 minutos, tendo sido gravadas com anuência dos participantes do estudo. As entrevistas com os profissionais foram realizadas nas dependências da própria unidade de internação e as com os familiares foram a partir de visitas domiciliares pré-agendadas. Todos os encontros foram organizados de acordo com a conveniência dos participantes, para que não houvesse prejuízo às suas atividades pessoais e/ou profissionais.

Os dados das entrevistas, depois de transcritos, foram analisados a partir da análise temática de Bardin (1994), que consiste em “descobrir os núcleos de sentido que compõem uma comunicação cuja presença ou freqüência signifiquem alguma coisa para o objetivo analítico visado” (MINAYO, 1999, p. 209). Operacionalmente, a análise temática desdobra-se em três etapas: Pré-análise, Exploração do material e Tratamento dos resultados obtidos e interpretação. Primeiramente, tomamos contato exaustivo com o material deixando-se impregnar pelo seu conteúdo. Em seguida, organizamos o material através de tabelas (profissional e familiar) contendo os depoimentos, sendo extraídas palavras-chave através da exaustividade, representatividade, homogeneidade e pertinência, as quais serviram para construção posterior dos temas principais (MINAYO, 1999). Na exploração do material, codificamos, ou seja, transformamos os dados brutos, visando alcançar os temas principais. E finalmente, realizamos o tratamento dos resultados obtidos e interpretação de acordo com os objetivos traçados inicialmente.

Consideramos relevante assinalar alguns aspectos significativos dos sujeitos do estudo, tais como sexo, idade, estado civil, número de filhos, tempo de serviço e de atuação na oncologia, bem como o familiar escolhido por ele. No quadro que se segue, encontra-se uma síntese acerca dos profissionais e do familiar escolhido.

Quadro 1: síntese das características dos profissionais de enfermagem e do familiar escolhido.

Pseudônimo Sexo Idade Estado civil

Filhos/ idade

Atribuição profissional

Tempo de serviço em Enfermagem

Tempo de serviço em Oncopediatria

Familiar escolhido

Margarida F 26

Solteira - Técnico de

Enfermagem 6 anos e 7 meses 5 meses Amiga.

Idade: 36 anos Sem filhos

Rosa F 38 Casada 2 filhos (8 anos - 5 meses)

Técnico de Enfermagem 10 anos 1 ano e 6 meses Irmã

Idade: 37 anos Com 2 filhos (9 e 2 anos)

Cravo M 32 Casado - Técnico de

Enfermagem 10 anos 1 ano Esposa. Idade: 30 anos

Sem filhos

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