Exercícios resolvidos lógica

Exercícios resolvidos lógica

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Se a vida é sagrada, o aborto é um assassínio. Logo, o aborto é um assassínio. 2*) O aborto é um assassínio. Logo, não deve ser permitido.

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3) Mais de 90% da população humana acredita num qualquer tipo de Deus.

Logo, Deus existe. 3*) Mais de 90% das pessoas acreditam que existem. Logo, essas pessoas existem.

4) Ou podemos conhecer tudo ou não podemos conhecer nada.

Mas não podemos conhecer tudo. Logo, não podemos conhecer nada. 4*) Ou existo ou não existo.

Mas não é verdade que eu não existo. Logo, eu existo.

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Nota final Os problemas

Ao longo do manual, os Problemas diferem das Questões de Revisão por três motivos:

1. As respostas às Questões de Revisão estão quase na sua totalidade no próprio manual. Para lhes responder pouco mais é necessário do que compreender o que se estudou. Isto não acontece no caso dos Problemas. Para responder aos Problemas é necessário pensar por nós mesmos, com base no que estudámos; não basta estudar com atenção o que está no manual. 2. As respostas correctas às Questões de Revisão não permitem grandes variações; há apenas um conjunto muito restrito de variações aceitáveis nas respostas. O mesmo não acontece nas respostas aos Problemas; neste caso, é possível responder correctamente de inúmeras maneiras. O que é mais importante na resposta aos Problemas são as justificações apresentadas, e não a resposta em si. 3. As respostas às Questões de Revisão quase não exigem qualquer tipo de capacidade discursiva: basta dizer mais ou menos pelas mesmas palavras o que se acabou de estudar. O mesmo não acontece no caso dos Problemas, que exigem alguma capacidade discursiva. Isto é, exigem a capacidade para articular um pequeníssimo ensaio (por vezes, é apenas um parágrafo) que responda ao problema.

Por vezes, o grupo de respostas correctas aos Problemas é mais restrito; outras vezes é completamente aberto. Por exemplo, os dois Problemas da secção 1.1. só podem ser correctamente respondidos de formas relativamente restritas. No caso do Problema 1, qualquer resposta que afirme que a frase «Há seres inteligentes noutros planetas» não exprime uma proposição está errada. A resposta correcta é a seguinte:

A frase «Há seres inteligentes noutros planetas» exprime uma proposição apesar de ninguém saber se a frase é verdadeira ou falsa. Isto porque o que determina se uma frase exprime uma proposição não é o facto

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de alguém conhecer o valor de verdade dessa frase, mas simplesmente o facto de essa frase ter um valor de verdade, ainda que ninguém saiba qual é. Ora, a frase dada tem sem dúvida um determinado valor de verdade, conforme há ou não seres inteligentes noutros planetas, e por isso exprime uma proposição, apesar de ninguém conhecer o seu valor de verdade.

Como se vê, este tipo de resposta exige uma articulação de ideias que as respostas às Questões de Revisão não exigem. É necessário compreender a matéria dada no manual, mas é também necessário pensar e depois saber organizar uma resposta articulada.

E como se aprende a fazer isto? Praticando; pensando; comparando respostas de diferentes colegas; discutindo as respostas com o professor. Não há receitas automáticas para aprender a fazer filosofia, tal como não há receitas automáticas para aprender a fazer seja o que for. Há algumas técnicas, e há alguns elementos firmes que temos de dominar, mas depois é necessário ser criativo e caminhar pelos nossos próprios pés.

1Como responder aos Problemas

Uma das técnicas que nos pode ajudar a responder correctamente aos

Problemas é pensar no seguinte: «Que elementos da matéria dada são relevantes para responder ao Problema?» No exemplo dado, verifica-se que os elementos fundamentais para dar uma resposta correcta se encontram no manual:

• Uma frase pode ter valor de verdade ainda que ninguém saiba qual é; • Uma frase exprime uma proposição desde que tenha valor de verdade

Responder ao Problema dado é uma questão de saber isolar estes elementos nos quais a resposta tem de se basear e depois organizar um pequeníssimo ensaio que articule esses elementos de forma a responder ao que está em causa.

Precisamente porque estamos no início do manual e porque a lógica é uma disciplina exacta, os Problemas do Capítulo 1 têm quase todos respostas determinadas à partida — isto é, se alguém responder que «Há vida inteligente noutros planetas» não exprime uma proposição, esse estudante está a dar uma resposta errada. Mas noutros capítulos do manual isto não acontece: tanto se pode responder «sim», «não» ou até «talvez»!

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2Múltiplas respostas corectas

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Vejamos um exemplo: no Capítulo 2, secção 1.3., o Problema 1 pode ser respondido de maneiras muito diferentes. Tanto se pode concordar como discordar. Não é a concordância ou discordância que torna a resposta correcta ou errada. O que conta, nestes casos, é a justificação. Vejamos dois exemplos de respostas possíveis, igualmente correctas, mas que respondem de formas opostas:

Concordo com o argumento dado porque se compararmos as duas hipóteses vemos que quando um orador é honesto há menos probabilidade de ele nos estar a enganar e a conduzir ao erro. Imaginemos um orador honesto, que está a dizer-nos o que genuinamente pensa. É verdade que ele pode estar a conduzir-nos ao erro porque ele próprio pode estar enganado. Mas a probabilidade de isto acontecer é menor do que no caso do orador desonesto. Pois neste último caso, à probabilidade normal de ele poder estar enganado soma-se a probabilidade de ele saber a verdade mas estar deliberadamente a enganar-nos porque isso lhe convém. Logo, sempre que um orador é honesto há mais razões para aceitar o que ele diz do que quando um orador é desonesto.

Compare-se agora com outra resposta, igualmente correcta, mas oposta:

Discordo do argumento dado porque se compararmos as duas hipóteses vemos que o facto de um orador ser honesto não é suficiente para que a probabilidade de ele nos enganar ser menor do que a de um orador desonesto. A falácia de pensar o contrário consiste em presumir que o orador desonesto é quase omnisciente: que, quando ele pensa que nos está a enganar, está realmente a enganar-nos. Mas isso é falso. Um orador pode ser desonesto porque está a afirmar que é verdade o que ele pensa que é falso; mas ele pode estar enganado e o que ele pensa que é falso ser de facto verdadeiro. Portanto, tanto faz que um orador seja honesto como desonesto: a probabilidade de engano é sempre a mesma. É por isso que o que conta na argumentação é exclusivamente o valor dos próprios argumentos e não o carácter do orador.

Como se vê, as duas respostas são opostas. Mas ambas estão correctas.

Porquê? Porque ambas articulam os elementos essenciais necessários para uma resposta correcta; porque nenhuma delas comete falácias evidentes; porque ambas justificam de forma sólida e sóbria o que defendem.

Assim, muitos dos problemas admitem mais de uma resposta correcta.

Mas daqui não se segue que tudo é subjectivo e que se pode dizer tudo. Algumas respostas são erradas:

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Concordo porque a probabilidade é menor e além disso quem nos quer enganar é porque está a dizer falsidades e portanto não devemos confiar nele.

Esta resposta está errada porque não é articulada, não justifica o que defende, não revela qualquer reflexão pessoal e nem sequer uma compreensão mínima da matéria dada. O facto de concordar é irrelevante. Se discordasse mas tivesse a mesma falta de articulação, justificação, reflexão e compreensão, a resposta estaria igualmente errada.

3Actividades

Muitos dos Problemas sugeridos podem e devem ser aproveitados para realizar diferentes tipos de actividades. Por exemplo, o Problema 2 da secção 3 do Capítulo 2 é evidentemente uma actividade que implica a interacção entre estudantes. Mas muitos outros problemas podem e devem ser usados para organizar actividades na sala de aula. Por exemplo, o Problema 1 da secção 2.2. do mesmo capítulo pode ser respondido por cada estudante individualmente, mas também pode e deve ser discutido na sala de aula. Discutir filosofia oralmente é um dos aspectos centrais do nosso estudo.

E como se discute filosofia oralmente? Uma vez mais, não há receitas, tal como não há receitas para saber escrever boas respostas e bons ensaios. Mas há alguns elementos que nos ajudam a discutir melhor, muitos dos quais são exactamente os mesmos que nos ajudam a escrever melhor: ao discutir filosofia oralmente é necessário articular os elementos essenciais necessários para uma resposta correcta; não cometer falácias evidentes; procurar justificar de forma sólida e sóbria o que se defende; ouvir com atenção as ideias e objecções dos outros e responder-lhes adequadamente e sem ataques pessoais.

Discutir ideias em filosofia é uma das experiências humanas mais ricas, com a qual se aprende imenso; é como entrar na cabeça das outras pessoas e ver o mundo a partir dos olhos delas; aprendemos a ver coisas que antes não víamos, e corrigimos mutuamente os nossos erros e distracções. Mas para que a discussão filosófica seja uma experiência enriquecedora é necessário encará-la com seriedade, com o objectivo de descobrir a verdade, e não com o objectivo de «ganhar a discussão» ou de exibir superioridade perante os outros. Ensinar a fazer isto foi um dos objectivos que nos levaram a escrever este manual.

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