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ARQUIVO DO AGRÔNOMO - N” 14

Antônio Marcos Coelho1 JosØ Magid Waquil1 DØcio Karam1

1 Pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, Sete Lagoas-MG. Telefone: (31) 3779-1164. E-mail: amcoelho@cnpms.embrapa.br 2 Consultor da Embrapa Milho e Sorgo.

Carlos Roberto Casela1 Paulo Motta Ribas2

1. INTRODU˙ˆO

Ademanda de grªos no Brasil cresce sistematicamente e mais de 95% dessa demanda Ø, atualmente, atendida pela cultura do milho. Por outro lado, mesmo com o significativo aumento nas safras brasileiras de milho, ainda hÆ dificuldades para o atendimento a essa demanda em expansªo, tendo em vista o crescimento dos setores da avicultura, da suinocultura e da bovinocultura. Como conseqüŒncia, espera-se um aumento nas importaçıes do produto, onerando os custos de produçªo de carnes, uma vez que, apesar do menor preço do milho no mercado internacional, os custos de frete e a incidŒncia de taxas no milho importado torna-o mais caro na ponta do consumo.

Uma parte da demanda brasileira de grªos, estimada entre 10 e 20%, pode ser atendida com maior economicidade com a cultura do sorgo. Os setores da avicultura e da suinocultura, principais consumidores, que apresentam margem de lucro muito estreita em decorrŒncia dos altos custos de produçªo e baixos preços obtidos na comercializaçªo de seus produtos, poderªo reduzir significativamente seus gastos, beneficiando-se da menor cotaçªo do sorgo, estimada entre 20 e 30% inferior à do milho. AlØm disso, o sorgo forrageiro, com aproximadamente 40% do total da Ærea cultivada, sinaliza para que a bovinocultura possa se tornar, a curto prazo, o grande mercado consumidor para forragem e grªos de sorgo, proporcionando incentivo à consolidaçªo da cultura no país.

Procura-se mostrar nesse artigo os limites e as potencialidades da produçªo nacional de sorgo, a partir dos padrıes tecnológicos utilizados atualmente e da melhoria dos sistemas de produçªo. Assim, Ø apresentada uma anÆlise geral da cultura do sorgo no Brasil, identificando os principais fatores agronômicos envolvidos nos sistemas de produçªo.

2. `REA PLANTADA, PRODU˙ˆO E RENDIMENTO

A Ærea cultivada e a produçªo brasileira de sorgo granífero cresceram substancialmente nos œltimos 30 anos (1973 a 2002), representado, respectivamente, aumentos de 317.400 ha e de

529.090 t (Figura 1), atingindo 496.862 ha e produçªo total de 1.057.958 t na safra 2002 (IBGE, 2002). Entretanto, verifica-se que o maior incremento ocorreu, principalmente, a partir da segunda metade da dØcada de 90 (Figura 1). Apesar desse crescimento significativo em Ærea e produçªo, verifica-se que a produtividade Ø baixa (1.500 a 2.500 kg/ha) e extremamente variÆvel ao longo dos anos, típica de uma cultura semeada em condiçıes marginais de clima e, principalmente, sem uso de tecnologias.

Figura 1. `rea plantada, produçªo e rendimento de sorgo granífero no Brasil no período de 1973 a 2002. Fonte: elaborada com dados do IBGE (2002).

O aumento de Ærea plantada e produçªo de sorgo, no Brasil, resultou da conjugaçªo de vÆrios fatores que alavancaram a demanda por matØrias-primas energØticas (METIDIERI, 2000; TSUNECHIRO et al., 2002). Dentre esses fatores, podem ser mencionados:

Demanda aumento do consumo per capita de proteína animal, especialmente carne de frango, provocando crescimento no consumo de raçıes balanceadas; valorizaçªo do sorgo pelas indœstrias de raçıes e expansªo da produçªo de leite e confinamento de bovinos;

Tecnológicos desenvolvimento de novos híbridos adaptados e maior oferta de sementes; desenvolvimento da safrinha, proporcionando receita extra aos agricultores, adoçªo e expansªo do plantio direto e inclusªo do sorgo como provedor de palha; melhorias na infra-estrutura de transporte e recepçªo de armazenamento de grªos.

Difusªo açıes institucionais de divulgaçªo, como por exemplo aquelas coordenadas pelo Grupo Pró-Sorgo/APPS (Associaçªo Paulista de Produtores de Sementes e Mudas), com efetiva participaçªo da Embrapa Milho e Sorgo.

Embora possa-se afirmar que o sorgo Ø cultivado praticamente em todo o território nacional, a contribuiçªo das regiıes em Ærea plantada e produçªo tem-se alterado ao longo dos œltimos 30 anos (Figura 2, Tabela 1).

Tabela 1. Estimativas1 do aumento ou reduçªo anual da participaçªo, Ærea plantada, produçªo e rendimento de sorgo granífero por regiıes do Brasil, no período de 1973 a 2002.

Participaçªo2 rea (%)Produçªo (%)

1 Coeficientes da regressªo linear, significativos (*) ao nível de 5%, ns = nªo significativo, obtidos com base nos dados originais do IBGE (2002). 2 Participaçªo em relaçªo ao total do Brasil. 3 De acordo com COELHO et al. (2002).

Uma aspecto interessante da anÆlise da cultura do sorgo no

Brasil estÆ relacionado aos ganhos em produtividade, ao longo dos anos. Conforme ilustrado na Tabela 1, de um modo geral, todas as regiıes apresentaram ao longo do período analisado (30 anos) reduçªo na produtividade, com valores de atØ 37 kg/ha/ano, como o verificado para a regiªo Sudeste. Na mØdia geral para o Brasil, a reduçªo foi da ordem de 14 kg/ha/ano, enquanto a cultura do milho apresentou no mesmo período ganhos da ordem de 52 kg/ha/ano (Tabela 1). Mesmo na regiªo Centro-Oeste, onde predomina uma agricultura empresarial e de melhor nível tecnológico, onde poderia se esperar um melhor desempenho da cultura do sorgo, nªo houve indicativos de ganhos em produtividade ao longo do período analisado (Tabela 1). Para essa regiªo, os ganhos em produtividade da cultura do milho, na safra de verªo, nos œltimos 31 anos, foi de 81 kg/ha/ano (COELHO et al., 2002).

Por outro lado, comparando-se os ganhos em produtividade do sorgo granífero e do milho safrinha, nos œltimos 1 anos, verificase melhor desempenho do milho, com ganhos superiores aos do sorgo (Tabela 2). Assim, pode-se inferir atravØs desses indicativos de ganhos em produtividade que a cultura do sorgo granífero no Brasil vem sendo cultivada em condiçıes marginais, sem adoçªo de tecnologias, em que a maioria dos produtores usa somente terra e trabalho, num ambiente inadequado para uma agricultura moderna.

Atualmente, tem-se verificado o deslocamento espacial e temporal da Ærea plantada com a cultura, provocado pela sucessªo safra de verªo-safra de outono/inverno, com grande expansªo do cultivo do sorgo em sucessªo a culturas de verªo, como soja (Figura 3), em algumas regiıes, com destaque para o Norte do Estado de Sªo Paulo, Estados de GoiÆs, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Regiªo do Triângulo Mineiro, que no triŒnio 1998 a 2000 foram res-

Figura 2. Regiıes onde a cultura do sorgo tem sido plantada e Æreas de expansªo (Fonte: Guilherme Mezzena, Grupo Pró-Sorgo).

A regiªo Sul, tradicionalmente produtora de sorgo, vem apresentando reduçªo na Ærea plantada e produçªo da ordem de 2,81% e 2,74% ao ano, respectivamente, o que significa uma reduçªo aproximada de 80% no período. Em situaçªo oposta encontrase a regiªo Centro-Oeste, que no mesmo período apresentou aumentos anuais da ordem de 2,24% em Ærea plantada e 2,25% na produçªo, representando aumento aproximado da ordem de 70% para esses dois parâmetros (Tabela 1). As regiıes Sudeste e Nordeste apresentaram grandes variaçıes na Ærea plantada e produçªo, o que dificulta estimar se suas participaçıes tŒm aumentado ou diminuído (Tabela 1).

Regiıesrea (ha)Produçªo (t)Rendimento (kg/ha)

Tabela 2. Ganhos mØdios de produtividades de sorgo e milho safrinha por regiıes do Brasil no período de 1991 a 2001.

Sorgo Milho Safra normal e safrinhasafrinha

- - - - - - - - - - - - - - kg/ha/ano - - - - - - - - - - - - - -

1 *, **, *** coeficientes sªo significativos aos níveis de 1, 5 e 10%, respectivamente; ns = nªo significativo. 2 Milho safrinha na regiªo Nordeste refere-se ao Estado da Bahia. Fonte: Sorgo dados originais do IBGE; milho dados originais da CONAB.

Regiıes

Figura 3. Opçıes mais comuns para a semeadura do sorgo, em sucessªo às culturas de verªo, nas regiıes Centro-Oeste e Sudeste do Brasil. A data de plantio da cultura de verªo Ø variÆvel conforme as chuvas e o local. PD = plantio direto; CM = cultivo mínimo (modificada de SOUZA, 1995).

Tabela 3. rea, produçªo e produtividade mØdia da cultura do sorgo granífero nos principais Estados brasileiros no período de 1998 a 2000.

Fonte: dados originais do IBGE.

ponsÆveis por aproximadamente 85% da Ærea plantada e produçªo (Tabela 3). PorØm, o rendimento Ø baixo, ao redor de 1.500 kg/ha devido aos fatores comentados anteriormente, podendo-se tambØm acrescentar o fato de que normalmente hÆ uma preferŒncia dos agricultores para o plantio do milho em sucessªo à safra de verªo, somente optando pelo sorgo quando a Øpoca para a semeadura do milho Ø inadequada. Assim, pode-se dizer que o sorgo Ø uma cultura de safrinha tardia .

Entretanto, esse sistema tem possibilitado uma sensível reduçªo no custo de produçªo, tendo em vista a economia de insumos, principalmente fertilizantes, herbicidas, e no nœmero de operaçıes de preparo do solo. Conforme dados da organizaçªo Pró-Sorgo/APPS, na safra 2001/2002 a Ærea semeada com sorgo granífero foi de 580,80 mil hectares, sendo 85% desse total em sucessªo às culturas de verªo (sorgo safrinha), e produçªo de grªos de 1,015 milhıes de toneladas. A Ærea semeada com sorgo forrageiro foi de 216.037 hectares.

3. FATORES ENVOLVIDOS NOS SISTEMAS DE PRODU˙ˆO

Os principais fatores que afetam os sistemas de produçªo da cultura de sorgo sªo os de aspecto econômico, ambiental, tecnológico e qualidade do produto.

O aspecto econômico baseia-se no fato de que hÆ um decrØscimo relativo do valor do produto comparado ao custo de produçªo e custo final ao consumidor. Nesse aspecto Ø oportuno salientar que embora o setor produtivo da agricultura o segmento de dentro da porteira tenha nas œltimas duas dØcadas mostrado uma sensível reduçªo na sua renda total, foram obtidos significativos aumentos na produçªo com a estabilizaçªo ou atØ diminuiçªo da Ærea cultivada, o que reflete maior eficiŒncia produtiva (Figura 4).

Consideraçıes ambientais estªo relacionadas com a poluiçªo causada pelo insumos utilizados na produçªo, controle de erosªo e sustentabilidade.

As mudanças tecnológicas sªo rapidamente difundidas aos agricultores pelos modernos meios de comunicaçªo, como, por exemplo, o lançamento constante de novos materiais genØticos. Finalmente, o pœblico consumidor em geral deve ver o produto como sendo de boa qualidade e saudÆvel ou corre-se o risco de perda do mercado com sØrias conseqüŒncias econômicas.

Nos sistemas de produçªo, os fatores tecnológicos podem ser divididos em construçªo da produtividade e proteçªo de produtividade .

Estados

Figura 4. Indicadores do desempenho do setor produtivo da agricultura no Brasil, no período de 1980 a 1998 (1980 = ˝ndice 100) (LOPES & GUILHERME, 2001).

Os fatores de construçªo da produtividade sªo: a) genØtico cultivares; b) manejo cultural precisªo na semeadura; c) fertilidade do solo, nutriçªo e adubaçªo; d) clima disponibilidade espacial e temporal de Ægua e temperatura.

Os fatores de proteçªo da produtividade sªo aqueles que possibilitam a colheita da produçªo que tem sido construída: a) controle de plantas daninhas; b) controle de pragas; c) controle de doenças; d) manejo da colheita.

3.1. Fatores de Construçªo da Produtividade

˚nfase serÆ dada aos fatores de construçªo da produtividade pois sªo eles que aumentam a produçªo em termos de quilogramas por hectare. Acredita-se que, na maioria dos casos, os agricultores e consultores nªo estªo dedicando atençªo suficiente aos fatores de construçªo da produtividade dos seus sistemas de produçªo. A intensificaçªo dos esforços para analisar e implementar as mudanças nas Æreas de construçªo da produtividade Ø o caminho para melhorar significativamente as condiçıes econômicas e ambientais, associadas aos muitos sistemas agrícolas.

No SeminÆrio realizado em Julho de 2001, em Sete Lagoas,

MG, enfocando a pesquisa, o desenvolvimento e o agronegócio do sorgo, foram levantados os principais problemas da cultura no Brasil (SEMIN`RIO..., 2001). No que se refere aos fatores de construçªo da produtividade, os seguintes aspectos foram considerados:

baixa qualidade das sementes comercializadas;

baixa produtividade do sorgo causada pela toxidez de alumínio nas camadas subsuperficiais dos solos;

baixa produtividade do sorgo (safra normal e safrinha) devido ao baixo nível tecnológico empregado;

baixa produtividade do sorgo cultivado em vÆrzeas;

baixa tolerância ao frio e à intensidade luminosa;

degradaçªo de Æreas utilizadas para produçªo de silagem;

efeito negativo dos restos culturais do sorgo safrinha sobre o desenvolvimento da soja na próxima safra;

estande inadequado para os diferentes sistemas de produçªo;

perdas na produçªo devido ao estresse hídrico no sorgo cultivado em safrinha tardia.

3.1.1. Melhoramento GenØtico Cultivares

A escolha da cultivar mais adequada Ø um aspecto fundamental para o estabelecimento de um sistema de produçªo mais eficiente. A eficiŒncia na escolha de materiais genØticos pode ser implementada pela observaçªo de um conjunto de informaçıes para a cultura dentro de cada regiªo. Dentre essas informaçıes, as seguintes características devem ser observadas: a) adaptaçªo à regiªo; b) potencial produtivo; c) estabilidade de produçªo; c) tolerância a doenças (principalmente em plantio direto), inclusive quanto à sanidade dos grªos; d) resistŒncia ao acamamento de colmo e de raiz; e) ciclo; f) características dos grªos textura, coloraçªo e teor de tanino. Outras características tambØm sªo mencionadas, como: velocidade de emergŒncia e sistema radicular vigoroso (importante para o plantio direto), tolerância a algum herbicida, adaptaçªo a espaçamentos mais estreitos e, para produçªo de forragem, rendimento da biomassa e valor nutritivo. Com base nessas informaçıes, as quais devem ser atualizadas periodicamente e de acordo com as necessidades do agricultor, Ø possível selecionar o híbrido ou variedade mais apropriados para um sistema de produçªo específico.

As cultivares produzidas por entidades oficiais e particulares sªo testadas em vÆrios locais do Brasil, atravØs dos Ensaios Nacionais de Sorgo, coordenados pela Embrapa Milho e Sorgo, a fim de proceder a avaliaçªo do rendimento e do comportamento dessas cultivares em relaçªo às principais doenças e pragas. Na Tabela 4 Ø apresentada a variaçªo na produçªo de grªos de diversas cultivares de sorgo granífero, em semeaduras de fevereiro a março, como uma cultura de safrinha, em diferentes regiıes do Brasil.

É importante enfatizar que o mercado interno de grªos de sorgo, representado na sua totalidade pelas indœstrias de raçıes, demanda grªos sem tanino. Entretanto, a comercializaçªo de sementes de sorgo com tanino, no Brasil, Ø bastante restrita, sendo que somente 4% do sorgo granífero semeado Ø do tipo com tanino (TSUNECHIRO et al., 2002).

3.1.2. Manejo Cultural ou Precisªo na Semeadura

O manejo cultural, ou precisªo na semeadura, inclui: ótima populaçªo de plantas;

profundidade e Øpoca de semeadura.

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