A pessoa de Maria

A pessoa de Maria

Noções de Mariologia:A pessoa de Maria

Professor Ricardino Lassadier*

I

O Novo Testamento pouco nos fala de Maria e isso, por vezes, leva muitas pessoas ao engano de considerar a figura da Mãe de Deus como um personagem sem muita importância. Justificam tal concepção afirmando que estão, fundamentados na Bíblia. Mas, lamentavelmente, a busca do fundamento converte-se, não raras vezes, em fundamentalismo, já que qualificam a importância da pessoa (Maria), pela quantificação de citações literárias e literais, ou seja, quanto mais um personagem for citado maior seria sua importância. Certamente que o número de citações é relevante, porém, isso não basta para medir o “grau” dessa relevância.

Aspiramos meditar sobre importância da Virgem de Nazaré mostrando que seu valor faz-se presente na Escritura, mas está para além da própria Escritura. Faz-se presente na Igreja, em sua magnífica Tradição bi-milenar assistida pelo Paráclito mediante a ação do Magistério, faz-se presente na divina Vontade e Amor de Deus que escolheu Maria entre todas as mulheres da história da humanidade para uma missão única, singular, sem igual e incomparável. Ou será que alguém na história da humanidade teve uma missão igual à de Maria?

A centralidade da Escritura é Deus de tal maneira que o Novo Testamento em geral e os Evangelhos de modo particular não são e nem constituem um tratado de Mariologia. Aliás, a compreensão acerca da importância de Nossa Senhora ocorreu paulatinamente; o Espírito Santo foi, aos poucos, iluminando a Igreja sobre muitas coisas que inicialmente não eram entendidas e os Evangelhos comprovam o que afirmamos.

O Evangelho segundo São Marcos é o mais antigo, foi escrito entre os anos 66 – 73 d.C. A “mariologia” apresentada nesse Evangelho é muito pobre. São Marco faz apenas duas referências à pessoa de Maria: Mc 3, 31-35 e Mc 6,1-3. Há pessoas que tomam esses textos procurando legitimar certa depreciação da Virgem Maria. No entanto, essa interpretação não se sustenta quando lemos estes textos conjuntamente: Mc 3, 31-35: “Nisso chegaram a mãe e os irmão de Jesus. Ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo. Ao seu redor estava sentada muita gente. Disseram-lhe:’Tua mãe e teu irmãos e irmãs estão lá fora e te procuram’. Ele respondeu: ‘Quem é minha mãe ? Quem são meus irmãos?’ E passando o olhar sobre os que estavam sentados ao seu redor, disse: ‘Eis minha mãe e meus irmãos! Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Nesta passagem, o evangelista mostra-nos Jesus afastando-se de sua família de sangue e dando ênfase a um parentesco espiritual (que será o sinal da Igreja), e indica que esse novo parentesco fundamenta-se na busca em fazer a vontade do Pai. Ora, será que Maria não cumpriu vontade de Deus fazendo-se serva do Altíssimo (cf. Lc 1, 38), ou haverá contradição entre as narrativas evangélicas? De qualquer modo, não há nada na seguinte passagem que indique que Jesus tenha rechaçado sua mãe por ela não realizar a vontade de Deus. Se assim fosse poderíamos dizer que também Jesus não teria sido fiel ao Pai visto que sentiu profundamente em seu ser o abandono por parte do Pai (cf. Mc 15, 33-34). Mas sabemos que a fidelidade de Jesus foi absoluta (cf. Mc 14, 35-36). Maria foi aquela que mais compartilhou da missão de Jesus. Abaixo do Cristo, ninguém foi tão fiel como ela, logo também ela sentiu a rejeição, o abandono. Não que Jesus não a amasse, porém, justamente por amá-la e por saber quem era sua mãe e por saber qual o papel dela na história da salvação fazia-se necessário que ela sentisse o abandono. Isso em nada diminui Maria, muito pelo contrário, é uma prova da íntima e misteriosa unidade entre o Filho e a Mãe; Ele o Redentor, ela a pessoa que mais colaborou com a redenção.

A outra passagem do Evangelho segundo São Marcos é: “Saindo dali, Jesus foi para sua própria terra. Seus discípulos o acompanhavam. No sábado, ele começou a ensinar na sinagoga, e muitos dos que o ouviam se admiravam “De onde lhe vem isso?’ diziam. ‘Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E esses milagres realizados por suas mãos? Não é ele o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão? E suas irmãs não estão aqui conosco?’ E ele se tornou para eles uma pedra de tropeço” (Mc 6, 1-3). Aqui Jesus é rejeitado pelos seus, por aqueles que o conheciam provavelmente desde criança, afinal ele não é ninguém mais do que o filho de Maria . De acordo com Dom Murilo Krieger (2001, p. 46) o que aconteceu foi que “o conhecimento de Jesus segundo a carne ofusca o conhecimento segundo o Espírito”. A Expressão filho de Maria significaria: “o que tem ele de especial, afinal ele não é um de nós, uma pessoa qualquer?”.

São Marcos apresenta-nos Maria, sobretudo como mãe que se preocupa e teme pelo que possa vir a acontecer com seu filho amado. É um erro supor – como muitos fazem – que Maria tinha conhecimento de tudo que ia acontecer e como aconteceria. Ela é uma mulher de fé que caminhava na fé, mesmo sem compreender tudo de maneira absoluta, afinal ela não é deusa. É natural sua preocupação humana, mas isso em nada desabona ou denigre Maria, ao contrário mostra-nos que ela foi uma mulher que amava e desejava o melhor para o seu Filho e ao mesmo tempo, apesar de não entender tudo, permanece, pela fé, fiel aos desígnios de Deus.

O Evangelho segundo São Mateus foi escrito entre os anos 80 e 90 de nossa era (d.C).De acordo com muitos biblistas este Evangelho é contado a partir da perspectiva de José, o “homem Justo”, ou seja, o homem fiel a Deus, religioso, obediente que, quando é surpreendido pela gravidez de sua noiva, é açoitado na alma pela dúvidas. No entanto se decide, a despeito da dor e da dúvida, resguardar a integridade de Maria e despedi-la escondida (cf Mt 1,19). Mas o Senhor vem em auxílio de José: “Depois que lhe veio esse pensamento apareceu-lhe em sonho um anjo do Senhor, que lhe disse: ‘José, Filho de Davi, não tema em receber, Maria como esposa; o que nela foi gerado vem do Espírito Santo” (Mt 1,20). Para José, Maria é a mulher da misteriosa intimidade com Deus, é a Mãe do Cristo, do Salvador.

São Lucas escreveu seu Evangelho por volta dos anos de 80 ou 90 de nossa era. Para São Lucas, Maria é a amada de Deus, escolhida para gerar em si a Salvação (Lc 26-36), é a escrava de Deus que vive alimentada pela meditação da sua Palavra (Lc 2,19).

São Lucas e São Mateus foram os dois evangelistas que narraram, partindo de perspectivas diferentes, a Encarnação do Verbo, isto é, o Natal.

Dom Murilo Krieger (2001, pp. 59,60) tomando por base principalmente os Evangelhos de Mateus e de Lucas apresenta-nos de forma bela esse belo Mistério, mostrando de que maneira toda a criação é, em certo sentido, afetada pela humanização de Deus. Transcrevemos aqui a exposição feita pelo Arcebispo de Maringá: “No Natal, todo universo se alegra. Cada uma das criaturas participa dessa festa, dando sua colaboração e seu presente:

Os anjos cantam: ‘Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência (divina)’ (Lc 2, 14).

O Céu dá uma estrela, que orienta os Magos vindos de tão longe: ‘E eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou’ (Mt 2, 9b).

Os magos do Oriente, tendo entrado na casa e achando o menino com Maria, sua Mãe, dão-lhe sua adoração, reconhecendo estar diante do ‘rei dos judeus que acaba de nascer’ (Mt 2, 11).

Os pastores, que vivem nos arredores de Belém, guardando seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite, tendo ouvido o anúncio do anjo, dizem uns ao outros: ‘Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou’ (Lc 2, 15). Tendo ido com grande pressa, encontram ‘o menino na manjedoura’ (Lc 2, 16). Dão então, a Maria e a José o testemunho do que lhes havia sido dito a respeito do menino (Lc 2, 17); a Deus, dão glória e o louvor ‘por tudo o que tinham ouvido e visto, e que estava de acordo com o que lhes fora dito’(Lc, 2, 20).

A terra dá a seu rei uma gruta, já que não há lugar para ele na hospedaria (cf, Lc 2, 7).

Os animais dão à criança que nasce uma manjedoura, onde é colocada, envolvida em faixas (cf. Lc 2, 7).

A humanidade, por sua vez, lhe dá o presente mais importante: a Mãe. Em Maria, nossa irmã na ordem da criação, ‘o Verbo se fez carne e habitou entre nós’ (Jo 1, 14). Por isso, também nós estamos presente na gruta de Belém, na contemplação, na adoração e nas homenagens que a criação presta àquele no qual fomos escolhidos ‘antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis’ (Ef 1, 4), diante de Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

II

Se aguçarmos nossa atenção, perceberemos que Maria, na Escritura, está presente nos três momentos constitutivos dos mistérios do Cristianismo, a saber, a Encarnação, a Páscoa e Pentecostes. A Encarnação aconteceu nela, em sua pessoa, em seu ventre que recebeu Jesus, nosso Redentor, verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Quanto ao mistério Pascal, ela estava presente aos pés da cruz (cf. Jo 19, 25), testemunhando privilegiada e dolorosamente (aliás, esse mesmo privilégio foi em si doloroso), nossa Redenção, realizada por seu Filho, que destrói o pecado e faz nova todas as coisas. Também estava ela em Pentecostes, na vinda do Espírito Santo, Santificador (cf. At. 1, 14), que prolonga na Igreja de Jesus Cristo e nossa Redenção (cf. CANTALAMESSA, 1992, p. 6). Então, Maria é presença marcante no mistério do Reino de Deus que foi desejado pelo Pai, inaugurado por Cristo e vai historicamente sendo constituído pela Igreja através da ação do Espírito Santo, que nos encaminha para a realização plena na eternidade. Por isso é muito apropriado, para compreendermos o valor da pessoa de Maria, partir do conceito de Reino de Deus.

Reino de Deus quer indicar a presença de Deus na história para renovar todas as coisas, ou ainda, Reino de Deus indica um tempo novo, um tempo renovado por Cristo, indica que é chegada a Redenção da humanidade e nela, toda a criação (cf. COYLE, 1999, 19). O Reino tem início com evento da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, sua Vida, Morte e Ressurreição, com a vinda do Espírito Santo e a fundação da Igreja. A partir daí, Deus não somente é Senhor da história, mas vivencia, toma parte dela. Dizendo de outro modo: O Reino começa com Cristo e estende-se ou desenvolve-se com a vinda do Espírito Santo e a fundação da Igreja, dirigida pelo mesmo Espírito. O Reino começa como uma “Semente” (o Verbo encarnado), de certo modo plantada no seio de Maria, que se desenvolverá e dará abundantes frutos. Nesse sentido, a fé comprometida é sinal e também realização e efetivação do Reino enraizado na Igreja desde Pentecostes e, desse enfoque, a Igreja apresenta-se como Reino já em andamento. Como dissemos anteriormente, notemos que Maria é presença marcante nesses momentos de nascimento do Reino e obviamente da Igreja que já é o Reino aqui e agora: a Encarnação (cf.: Lc 1, 26-38) e a vinda do Espírito (cf.: At 1; 2, 1-4).

Tudo isso nos faz entender que a figura da Virgem de Nazaré encontra-se inserida no desenvolvimento do Reino, por isso ela é nosso modelo de compaixão e adesão livre, espontânea e responsável à vontade de Deus através do seu “sim” (Ibdem,1999, p. 22).

São Paulo em sua carta aos gálatas (GL 4, 4-5) refere-se a Jesus como Filho de Deus “nascido de uma mulher”. Essa referência paulina foi compreendida pela Igreja como uma indicação clara das duas naturezas de Cristo: a humana e a divina. A natureza divina é indicada pela expressão “filho de Deus”; natureza humana pelo termo “nascido de uma mulher”, frase essa que, segundo Coyle (1999, p. 23), é comum no judaísmo, mas que ganha um novo sentido ou significado. Jesus, por Maria, não somente inaugura uma nova era, como já foi dito, mas Ele faz nova a própria humanidade em cada pessoa, por isso é Ele quem tem o poder de tirar o pecado do mundo. Até a vinda do Salvador vivia-se sob a Lei em uma condição de “criança”, isto é, infantil sujeita a seu responsável, sujeita a seu pedagogo (cf. Gl 3, 25). Jesus veio trazer ao homem o “amadurecimento” e isso ocorre com a colaboração de Maria. É por ela que Jesus nasce e o Reino se faz presente, é nela que o Verbo se encarna como Cabeça de seu Corpo Místico que é a Igreja.

Consideremos que em Maria cumpre-se a promessa que tem início em Abraão e, além disso, com a Encarnação da Segunda Pessoa da Trindade todas as pessoas se tornam herdeiras da promessa feita a Abraão. Por Maria, a promessa se realiza transcendendo os limites de uma nação. Dizendo de outra forma, por Maria, se realiza a promessa da salvação em sentido universal, isto é, católica, pois termo católico é originário da língua grega catholikón significa universal, geral, para todos.

A imagem da mulher virgem que dá à luz ao Messias é sinal de realização da promessa, da chegada do Reino, então, sendo Maria essa mulher ela é, por vontade de Deus e não por si mesma, o eixo central da história (Ibdem, 1999, p.24).

Ao dizer seu sim a Deus, Maria era provavelmente muito jovem (13, 14 ou 15 anos?), e no relato da anunciação (cf. Lc 1, 28-33) ela é apresentada como colaboradora do plano da salvação, tanto que arrisca-se “a crer em algo incrível a respeito de si mesma – ‘o Senhor está contigo!” Ela colabora de modo decisivo e sua escolha muda não só toda a sua vida, mas também a da humanidade” (Ibdem, 1999, P. 26).

Maria entra e faz parte da Tradição da Igreja como a mulher que escuta a Palavra de Deus e deixa essa Palavra se realizar de forma efetiva e prática em sua vida, em sua existência. Ao dizer “eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a sua Palavra” (Lc 1, 38), a menina de Nazaré faz-se serva e nos traz à lembrança o servo de Iahweh de Is 42, 1 que veio para realizar a justiça na terra. Isto significa que ela se faz colaboradora de Deus em seu Plano de salvação por uma adesão ativa. Dessa forma, concretiza-se em seu ventre a união entre Deus e o homem. E ela é verdadeiramente a Mãe do Messias, pois permite que a Palavra torne-se ativa em sua pessoa durante toda a sua vida.

Maria é a mulher da obediência ativa. Obediência que estabelece a lógica evangélica cantada no Magnífica: Onde tudo que é do mundo é renovado e ganha um novo sentido.

III

A obediência ativa e confiante de Maria é claramente perceptível no Evangelho segundo São João. No referido Evangelho é colocado em destaque o ministério de Jesus Ressuscitado presente, na Igreja e é a partir daí que a pessoa de Nossa Senhora deve ser vista.

João relata o milagre realizado por Cristo nas bodas de Caná (cf. Jo 2, 1-12), e tal milagre – bastante conhecido por todos – acontece pela mediação de Maria. Vejamos essa passagem com atenção: É uma festa de casamento e no meio da comemoração o vinho acaba e Maria intervém contando ao seu Filho que não há mais vinho ao que ele responde que ainda não é chegada a hora de manifestar sua glória. Notemos que a glória de Jesus será manifestada pela sua morte (morte de cruz), e ressurreição. Pois bem, diante da objeção do Filho, a Mãe dirige-se aos serviçais: “fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5), pouco depois o milagre acontece. A Igreja logo entendeu que essa mensagem era direcionada para si e viu em Maria (mediante a resposta dada ao Filho), o modelo de fé e confiança. Em outros termos, Maria é aquela que confia antes de qualquer sinal, antes de qualquer milagre. A partir dessa passagem, a relação entre Maria e seu Filho é compreendida como uma relação pautada em uma inabalável e confiante fé amorosa.

É comum a interpretação segundo a qual a intervenção de Nossa Senhora acontece de modo explicito e direto, como se ela estivesse diretamente pedindo um milagre. Parece-nos que essa interpretação contém um certo engano em razão da superficialidade da mesma. De modo algum estamos negando o papel intercessor da Virgem Santa, o que pretendemos esclarecer é que a intervenção intercessora de Maria deve ser compreendida no interior da reflexão teológica própria do Evangelho segundo São João.

Se observarmos a narrativa bíblica de São João, Maria não chega a pedir um milagre, antes ela apresenta a Jesus o fim do vinho. Aqui muitos são os símbolos e mensagens: a) Ao apresentar a Jesus a notícia da falta de vinho, a Virgem Maria está trazendo a condição da fragilidade e carência que é comum a natureza humana, ou seja, Maria apresenta ao seu divino Filho que é rico em misericórdia a miséria humana carente de alegria, de felicidade. b) O milagre acontece em um casamento, isto é, na celebração que marca o início de vida nova, Assim, ao transformar água em vinho, Jesus, transforma o que era caduco, ultrapassado em algo novo; com esse sinal tem início a NOVA ALIANÇA. A antiga aliança (representada pelo vinho que acabou), já esgotou. No presente contexto a fé de Maria e a apresentação da carência humana realizada por ela de um lado e a resposta de Jesus com o milagre, por outro assinalam de um tempo velho para um novo tempo. É a passagem do antigo Israel pra o novo Israel que é a Igreja simbolizada pelas bodas e pela presença de Maria e os apóstolos.

Outro dado que merece atenção: O milagre ocorre a partir do princípio ditado por Maria (cf.Jo 2,5). Isto é, Maria atualiza e, de certo modo indica a renovação do compromisso entre o homem e Deus. No A.T. quando o Senhor anuncia que deseja realizar aliança com Israel, o povo responde: “faremos tudo o quanto o Senhor falou” (cf. Ex 3-8). Na conclusão da Antiga Aliança esta formula é repetida duas vezes (cf. Ex 24, 3-8) ************

Caná (Jo 2, 1-12) e Calvário (Jo 19, 25-27) mencionam a hora de Jesus, isto é, aludem a cruz que torna-se instrumento de nossa Redenção. Para São João, há uma essencial ligação entre os dois acontecimentos: Caná marca o início eficaz da vida pública e do ministério de Jesus, o Calvário realiza a consumação completa de sua missão. Em ambos os momentos, Maria é apresentada por João como a mãe de Jesus, ela é igualmente denominada mulher, ou seja, a nova Eva pela qual nos chega a salvação. Por isso, para o Bem Aventurado Dom João Antônio Farina (2008, p. 8), Maria é infinitamente maior do que Abraão, pois ela guarda e educa Jesus “e guardando-o e educando-o, prepara a lenha sobre a fogueira do sacrifício Dele, mais do que fez Abraão para o sacrifício de Isaac”. A Abraão, Deus poupou; Maria não foi poupada da dor de ter seu Filho e seu Deus ofertado em holocausto.

Sendo Deus infinito, o que dizer da dor de Maria? Como medir seu sofrimento? Não foi também uma dor de dimensão infinita? Um é o crucificado, mas dois são martirizados. Nessa perspectiva, o Papa João Paulo II (2003, p. 114) diz que a Virgem de Nazaré cooperou de modo único e exclusivo com a Redenção e a ela “podemos, então, dirigir-nos com confiança, implorando-lhe o auxílio, na consciência do papel singular a ela confiado por Deus, papel de cooperadora da Redenção, por ela exercido durante toda a vida e, de modo particular, aos pés da cruz”.

Considerando que a glória de Jesus é manifestada em sua morte e ressurreição e sendo que este evento está de acordo com a Vontade do Pai, podemos dizer que em Caná, Jesus realiza a vontade da Mãe. No Gólgota cumpri-se o desígnio divino; em Caná é satisfeita a vontade humana. Ambas as vontades, ambos os momentos estão no Plano salvífico de Deus. Isso denota que em Jesus, pelo chamamento do Pai, no Espírito e a disponibilidade do sim de Maria, o homem e Deus realizam verdadeiramente a comunhão entre o céu e a terra.

Maria que se fizera presente em Caná, também estava aos pés da cruz e lá “Jesus, ao ver sua Mãe e, ao lado dela, o discípulo amado, disse à Mãe: ‘Mulher, eis o teu filho! ’Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua Mãe!’ A partir daquela hora, o discípulo a acolheu junto de si” (Jo 19, 26-27). Tal passagem é rica de simbolismos, dentre eles destacamos o seguinte: A maternidade de Maria e a filiação de João manifestam a unidade da Igreja, a unidade entre os fiéis da Igreja e na Igreja. Ao mesmo tempo, é expressa a unidade da qual a própria Virgem faz parte, que a tem como Mãe, a saber: Maria faz parte, está no interior da unidade da Igreja, mas ao mesmo tempo, ela enquanto Mãe da Igreja é Mãe da unidade (cf. COYLE, 1999, p. 34). A Virgem de Nazaré é para todos os crentes, modelo de fé; e um modelo que pelo seu testemunho nos motiva a obedecer a Jesus, dizendo-nos para que façamos tudo o que Ele nos disser.

Ao pé da Cruz Maria, que dissera seu sim ao anjo na Anunciação e Encarnação, continua confirmando: “Sim”. Entretanto, no Calvário o sim não é pronunciado verbalmente, é silencioso, manifestado por lágrimas de fidelidade e doação. O sim mariano do Calvário é, com certeza, o mais silencioso e, paradoxalmente, o mais gritante jamais manifestado por um ser humano na história. O evangelista diz que ela permaneceu de pé. Ora, há aqui um forte simbolismo, pois esta é a posição que os judeus, no templo oravam ao Senhor, glorificando-o. Então, Maria de pé diante de seu Filho fixado no lenho da cruz significa uma atitude orante. Naquele momento extremo, sem compreender bem, com seu coração transpassado pela espada da dor e do sofrimento, ela permanecia fiel, em oração.

IV

Outro aspecto que merece nossa atenção refere-se a algo que citamos no início deste texto: a presença de Maria. Ela poucas vezes aparece, porém sempre em momentos decisivos. Um dos títulos mais conhecidos de Nossa Senhora é Nossa Senhora da Conceição Aparecida. A razão desse título tem seu motivo no “aparecimento” da pequena imagem retirada das águas por alguns pescadores. Maria, nos evangelhos aparece pouco para que seu Filho possa aparecer muito. A Senhora Aparecida é, nesse sentido, a Senhora Desaparecida. Isto é Nossa Senhora sabe a hora de aparecer, de mostrar-se, mas sabe a hora de desaparecer e mostrar seu Filho. Este é um ensinamento maravilhoso que Nossa Senhora deixa para nós, pois precisamos saber o momento de aparecer e saber o momento de desaparece. Nesse sentido o “desaparecimento” de Maria nos evangelhos é tão importante quanto os seus aparecimentos. Quantos músicos e pregadores, que se dizem marianos, precisam aprender a desaparecer para que Nosso Senhor apareça?

Outro título muito importante é Nossa Senhora de Nazaré, que arrasta multidões no Círio em Belém do Pará. Ambos os títulos aqui citados são muito populares e devido a grande devoção mariana em torno dessas duas expressões da Virgem Mãe de Deus desejamos propor uma breve reflexão sobre as duas pequenas representações: Aparecida e Nazaré. Ambas nos revelam uma característica importantíssima sobre a Virgem Maria.

Talvez muitos não saibam, mas a imagem de N. S. Aparecida apresenta-nos Maria grávida. Isso significa que ao olharmos para a pequena imagem de N. S. Aparecida devemos ter consciência que nela, em Maria, está implicitamente Nosso Senhor, ainda não mostrado, ainda “guardado” para ser apresentado no tempo certo. Na imagem de N. S. de Nazaré, a Virgem Santa apresenta-nos Jesus Menino, como que nos mostrando a Ele, ao mesmo tempo mostrando Ele a nós. Nas duas representações de Maria Jesus é o centro.

É como se N. S. Aparecida dissesse: “venham até mim e encontrarão meu Filho que trago em mim, em meu ventre”. É como se N. S. de Nazaré falasse: “venham até mim, apresento-lhes meu Filho, nascido de minhas entranhas”. Observemos que tanto na representação de Aparecida como na representação de Nazaré, a Virgem continua dizendo, continua repetindo para cada um de nós o que falou nas bodas de Caná: “fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).

Agora responda com sinceridade, após ter conhecido um pouco melhor a pessoa de Maria: Ela não é digna de veneração e de nossas homenagens? Ela é uma mulher como qualquer outra? Teria Deus escolhido “uma qualquer” para ser sua mãe?

Cada pessoa humana (cada homem, cada mulher), certamente, ama sua mãe, no entanto, ninguém escolheu a mãe que tem. Seguramente se alguém pudesse escolher de quem nascer, será que não procuraria escolher a melhor das mulheres? Deus, em sua infinita liberdade, pôde escolher de quem nascer. Será que Ele fez a pior das escolhas? Ou será que alguém é capaz de escolher, de avaliar, melhor do que Deus?

Queira Nosso Senhor Jesus Cristo que o presente estudo seja um instrumento que possibilite ao fiel católico (e quem sabe até alguém de outra religião), conhecer a pessoa de Maria, de modo a poder respeitá-la e ama-la. Temos a firme convicção de que as pessoas que desprezam Maria, o fazem por ignorância, por desconhecimento. É praticamente impossível conhecer Maria e não ama-la. Deus, que é Onisciente (tudo sabe, tudo conhece), foi sem dúvida o primeiro a se apaixonar por Maria. E Ele a amou a tal ponto e de tal maneira que a desejou Trinitariamente, de forma singular e única: Sendo Pai, o Senhor, amou-a como filha; sendo Filho (Verbo feito Homem), amou-a como mãe; Sendo Espírito Santo de Amor, amou-a como esposa. É verdade que todos somos objetos do Amor de Deus, mas ninguém foi e é como Maria. Pelo que sabemos há somente uma pessoa que conhece Maria e não a ama: Satanás.

*O autor é graduado (Licenciado e Bacharel), em Filosofia (UFPa), Especialista em Filosofia (Epistemologia das Ciências Humanas/ UFPa).Especialista em Teologia (Teologia e Realidade com ênfase em bioética/CESUPA). Professor do IRFP (História da Filosofia Moderna e Contemporânea). Leciona na Escola Diaconal Santo Efrém da Arquidiocese de Belém (Antropologia Teológica, Escatologia); Leciona na Curso de Teologia (CCFC), as disciplinas Teologia Fundamental, Mariologia e Escatologia. É professor da Rede pública, onde leciona Filosofia.

CONTATO: 32494214/ 91736992

REFERÊNCIAS BIBLÍOGRAFICAS

- BÍBLIA SAGRADA. CNBB. São Paulo: Paulinas, Paulus, Ave Maria, Salesiana, Loyola; Aparecida-SP: Santuário; Petrópolis-RJ: Vozes, 2002.

-CANTALAMESSA, Raniero. Maria, um espelho para a Igreja. Aparecida: Santuário, 1992.

-COYLE, kathlen. Maria na tradição cristã, a partir de uma perspectiva contemporânea. São Paulo: Paulus, 1999.

-CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2003.

-COMPÊNDIO DO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2005.

-JOÃO PAULO II. A Assunção de Maria na Tradição da Igreja. In: AQUINO, Felipe (org), A Virgem Maria: 58 Catequeses do Papa sobre Nossa Senhora. Lorena-SP: Cléofas, 2003.

-FARINA, Antonio João. Discursos: Encontrei o coração do Irmão; As Glórias de Maria. Benevides-Pa: Irmãs Mestras de santa Dorotéia Filhas dos Sagrados Corações, 2008.

- KRIGER, Murilo. Com Maria, Mãe de Jesus. São Paulo: Paulinas, 2001.

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