Sistemas de produção de bovinos de corte

Sistemas de produção de bovinos de corte

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NÚCLEO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM PRODUÇÃO ANIMAL w.neppa.uneb.br

Danilo Gusmão de Quadros NEPPA-UNEB

Apostila técnica do Curso sobre “Sistemas de produção de bovinos de corte”, realizado na Pró-Reitoria de Extensão da UNEB

Salvador – Bahia Novembro de 2005

1.0 Introdução

A bovinocultura de corte é uma atividade de muita importância para o Brasil, que conta com o maior rebanho comercial do mundo (Tabela 1). Entretanto, os sistemas de criação predominantes são caracterizados por baixos índices zootécnicos, em conseqüência da precária nutrição, dos problemas sanitários, do manejo ineficiente e do baixo potencial genético dos animais.

TABELA 1 - Os índices zootécnicos médios do rebanho brasileiro.

Índices Média Brasileira

Natalidade (%) 60 Mortalidade até a desmama (%) 8 Taxa de desmama (%) 5 Mortalidade pós-desmama (%) 4 Idade à primeira cria (anos) 4 Intervalo entre partos (meses) 20 Idade média de abate (anos) 4 Taxa de abate (anos) 17 Peso médio de carcaça (kg) 210 Rendimento de carcaça (%) 53 Taxa de lotação (animal / ha) 0,9

Quilograma de carcaça/ha 34 Fonte: EUCLIDES FILHO (2000)

Entende-se por sistema de produção de gado de corte o conjunto de tecnologias e práticas de manejo, bem como o tipo de animal, o propósito da criação, a raça ou grupamento genético e a ecorregião onde a atividade é desenvolvida. Devem-se considerar, ainda, ao se definir um sistema de produção, os aspectos sociais, econômicos e culturais, uma vez que esses têm influência decisiva, principalmente, nas modificações que poderão ser impostas por forças externas e, especialmente, na forma como tais mudanças deverão ocorrer para que o processo seja eficaz, e as transformações alcancem os benefícios esperados. Permeando todas essas considerações, devem estar a definição do mercado e a demanda a ser atendida, ou seja, quais são e como devem ser atendidos os clientes ou consumidores.

No Brasil, os sistemas de produção de carne bovina caracterizam-se pela dependência quase que exclusiva de pastagens. Enquanto o fato de se fundamentar em pastagens resulta, por um lado, em vantagem comparativa por viabilizar custos de produção relativamente baixos; por outro, a utilização exclusiva dessa fonte de alimentação tem, nesse momento em que as competitividades por preço e por qualidade de produto impõem mudanças no setor, se apresentado bioeconomicamente inviável em muitas situações. Isso é agravado, principalmente, pela forma como essas pastagens são manejadas.

A pecuária de corte é uma atividade que está dividida em criação de gado comercial e elite, sendo que a primeira tem com principal objetivo a produção de carne bovina de qualidade para a alimentação humana, além de fornecer matéria-prima para a industria farmacêutica, de cosmético, de calçado, de roupas, de rações, entre outras. Já a criação de gado elite, tem como foco central à produção de matrizes e reprodutores para a criação de gado comercial e elite.

A produção da pecuária de corte pode ser dividida em três fases:

Cria: compreende o período de cobertura até a desmama; Recria: compreende a período entre o desmama até a fase de terminação;

Engorda: última fase, pode ser feita a pasto ou no confinamento.

2.0 Agronegócio da bovinocultura de corte

O Brasil possui o primeiro rebanho comercial do mundo com mais de 197 milhões de cabeças,com a atividade apresentando acelerada taxa de crescimento (Figura 1). É forte exportador de carne bovina, atingindo o primeiro lugar do mundo. Na economia, a pecuária representa próximo a 8% do PIB (Produto Interno Bruto).

FIGURA 1 – Número de bovinos no Brasil

Nº bovinos

Aproximadamente 60% do rebanho concentrado nas regiões centro-oeste e sudeste, efetivamente nos cerrados (Figura 2).

FIGURA 2 – Efetivo bovino conforme a região brasileira

Sudeste 23%

Centro- Oeste 34%

Nordeste 15%

Fonte: IBGE (2005), referente a dados de 1996

A Bahia, com cerca de 9 milhões de cabeças, é ocupa o oitavo lugar brasileiro e o primeiro da região nordeste no efetivo do rebanho bovino. No Estado da Bahia, as mesoregiões centro-sul e sul concentram quase metade do rebanho. Os 10 municípios detentores dos maiores rebanhos são: Itanhém, Itarantim, Itambé, Medeiros Neto, Itapetinga, Ipirá, Itamaraju, Guaratinga, Lajedão e Malhada (Figura 3).

FIGURA 3 – Ranqueamento dos municípios baianos em relação ao efetivo de bovinos

Nº bovinos

Itanhém Itarantim ItambéMedeiros

Neto Itapetinga Ipirá ItamarajuGuaratingaLajedão Malhada

Fonte: IBGE (2005), referente a dados de 1996.

O setor coureiro obteve saldo positivo de US$ 1,9 bilhão de dólares em 1999, conseguindo ainda entre 1992 e 1999 um superávit de US$ 14,69 bilhões. Já o saldo positivo de exportação/importação no setor de carnes e laticínios foi de US$ 858 milhões em 1998. O mercado cresceu, mas não se desenvolveu. No setor couro, todos estão deixando de ganhar. Durante a última década, o setor de curtumes remunerou o couro cru brasileiro pela metade do valor recebido pelo produto americano. Isto aconteceu porque somente 5% dos couros americanos apresentaram os defeitos abaixo descritos, que são encontrados em 93% dos couros brasileiros (Tabela 2).

TABELA 2 – Problemas mais freqüentes com couros bovinos no Brasil e suas consequências

Problemas Conseqüências Carrapatos, bernes, cicatrizes de sarnas etc

Couro mais sujo e menor conversão alimentar do boi

Marcas de fogo É uma agressão ao couro e ao animal, resultando em estresse, levando à perda de peso e do valor do couro

Riscos de arame, galhos ou parafusos, cicatrizes de currais, carrocerias e furos de ferrões

Ferimentos trazem conseqüências negativas para conversão alimentar e provoca perda de área de valor do couro ‘Fonte: FZEA-USP

O mercado remunerou a sub-qualidade oferecida com sub-preço. Quem perdeu foi o produtor. Apesar da maioria achar que não, o produtor realmente recebe pelo couro de seus bois. Na realidade, os frigoríficos utilizam, para definir o preço final a ser pago ao pecuarista pela arroba do boi, uma somatória de cada item que compõe o aproveitamento bovino - e entre estes itens, um é o couro (Tabela 3).

TABELA 3: Representatividade de cada item no valor final da arroba Boi de 16 arrobas

Corte de traseiro Representa 57% das arrobas do boi Corte dianteiro Representa 2% das arrobas do boi

Ponta de agulha Representa 9% das arrobas do boi Couro verde Representa 7% das arrobas do boi

Subprodutos Representa 5% das arrobas do boi Fonte: FZEA-USP

A melhoria do couro tende a beneficiar não somente as empresas de curtumes, mas toda a cadeia produtiva, já que o couro tem influência direta sobre o preço da arroba, ou seja, melhorando a qualidade do couro haveria incremento no preço final da arroba, aumentando o faturamento do produtor, indústria processadora e curtumes. Nos EUA, remunera-se o couro ao produtor como no

Brasil, ou seja, o valor do couro está implícito no preço total pago pela arroba do boi. Nos últimos 10 anos, o frigorífico americano recebeu, em média, US$ 48,10/couro enquanto que o brasileiro recebeu apenas US$ 27,01/couro. O diferencial por perda de qualidade, somente no couro, em relação ao americano, foi de US$ 21,09.

3.0 Raças e cruzamentos para produção de carne

3.1 Raças De maneira simples e direta, pode-se classificar as raças bovinas de interesse para produção de carne no Brasil como Raças européias da subespécie Bos taurus taurus, e Raças indianas da subespécie Bos taurus indicus.

As raças européias podem ser separadas assim: a) raças européias adaptadas ao clima tropical, como a Caracu; b) raças européias britânicas, como a Angus e a Hereford, e c) raças européias continentais, como as francesas Charolês e Limousin, as suíças Simental e Pardo Suíço, ou as italianas Marchigiana e Piemontês. As raças de origem indiana, do grupo Zebu, bem conhecidas no Brasil, que tiveram ou estão tendo uma participação decisiva no desenvolvimento da pecuária tropical, são por ordem de importância histórica, a Gir, a Guzerá e a Nelore. As raças Indubrasil e Tabapuã, embora sejam do grupo Zebu, não são indianas porque foram formadas no Brasil. É o caso também da raça Brahman, que foi formada nos Estados Unidos, a partir de cruzamentos entre raças indianas.

Há pelo menos cinco décadas, diversos cruzamentos entre raças européias e indianas têm sido feitos nas regiões tropicais do continente americano, da Austrália e da África, com relativo sucesso. Alguns desses cruzamentos, denominados “industriais”, foram e ainda são feitos entre duas ou três raças para aproveitamento comercial das vantagens da heterose (vigor híbrido). Outros cruzamentos deram origem a novas raças, como a Santa Gertrudis, a Canchim, a Pitangueiras, a Brangus, a Braford e a Simbrasil para citar apenas as mais conhecidas no Brasil. Por último, temos os cruzamentos multirraciais que objetivam formar “raças sintéticas”, também conhecidas como “composto”, cujo melhor exemplo para nós é o Montana.

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