História e evolução dos hospitais

História e evolução dos hospitais

(Parte 1 de 10)

Rio de Janeiro, 1944. Reedição de 1965.Capítulo1

“A individualidade mais importante do hospital não é o seu diretor, nem o contribuinte, nem o médico, nem a enfermeira, nem o secretário; a individualidade mais importante do hospital é, sem dúvida, o enfêrmo”.

Com a presente edição desejamos iniciar a publicação de uma série de livros e folhetos, instruções e sugestões, sôbre assuntos técnicos e práticos, referentes à organização e administração hospitalares e para-hospitalares, com o fim de levar a todos os recantos do Brasil, igualmente, o conhecimento atualizado, e o mais completo possível, acêrca de uma nova especialidade e da sua plena adoção entre nós.

Esta contribuição constitui o seguimento natural do primeiro Curso de

Organização e de Administração Hospitalares, que acabamos de encerrar a 2 do corrente, com excelente êxito, tendo sido conferido o certificado de especialização a vinte e cinco médicos que são assim os primeiros especialistas formados oficialmente, na América do Sul.

O conceito do hospital moderno, designação que resume individualizando, uma nova orientação sistematizada, alcançou, com efeito, em outros países, e particularmente nos Estados Unidos, os foros de uma especialidade definida, e já hoje de consagrado prestígio.

Compreendendo desde a formação do especialista, o planejamento das edificações e instalações, a seleção do equipamento, as normas da organização e de funcionamento, o regime econômico-financeiro, a assistência social, jurídica, cultural, religiosa e recreacional, o estudo da padronização em geral, a legislação específica, a cooperação profissional e associativa ou de classes; abrangendo, desta sorte, todo o domínio da assistência médico-social na comunidade, tanto para doentes, e de tôdas as classes, como para indigentes, e desajustados sociais, eis, em súmula, todo um programa, que é também a própria finalidade da Divisão de Organização Hospitalar, órgão federal especializado de coordenação, cooperação, orientação e contrôle das atividades dêste setor, no serviço permanente da organização nacional.

Prevaleceu na denominação do serviço oficial, a designação “hospitalar”, porquanto é o hospital o problema por excelência, e de preferência, nesta primeira fase; sendo o nosso objetivo máximo contribuir para a criação de uma ampla rêde de instituições hospitalares, convenientemente

DIVISÃO DE ORGANIZAÇÃO HOSPITALAR 4 construídas e aparelhadas, e uniformemente, por todo o território nacional, permitindo, tanto quanto possível, a distribuição dos necessários cuidados médicos e referidas assistências, com a íntima colaboração das instituições particulares e governamentais.

Inclui a longa e árdua tarefa por nós assumida a determinação de promover, criar, ampliar, melhorar, modernizar, com tôda a cooperação possível, não só os hospitais, como as entidades para-hospitalares, desde as clínicas e as policlínicas isoladas, dispensários e ambulatórios, as estâncias de cura até aos asilos, os abrigos e os albergues.

Com êste plano no que concerne à assistência médico-social, completamse, nas cidades e na zona rural, os serviços de saúde da União, do Estado, e do Município, existentes ou em projeto.

Esta primeira publicação, atendendo à ordem cronológica dos assuntos, encerra, outrossim, uma primazia de propósito conferida do Autor, como homenagem pela sua já longa e valiosa contribuição no domínio médicohospitalar, entre os raros especialistas que já possuímos da Organização e Administração Hospitalares.

Traçando com erudição de paciente e ilustrado pesquisador, que é, a história das instituições médico-sociais, desde a origem mais remota, o Autor nos oferece, de algum modo, e paralelamente, um interessante esbôço da própria evolução da Medicina e da Cirurgia, e suas especialidades.

Apresentada, assim, a obra, excusado seria dizer que é o Professor Ernesto de Souza Campos, médico e engenheiro, cujo nome de cientista, microbiologista, se acha ligado também à criação e autoria do plano da modelar Faculdade de Medicina de S. Paulo, de que é catedrático, autor igualmente de alguns dos mais modernos estudos e projetos de hospitais de São Paulo, Pôrto Alegre, Salvador da Bahia, Belo Horizonte e alhures.

Que a nova série de publicações, que ora se inicia com umtão distinto patrocínio, cresça e frutifique em prol do nosso desideratum técnico, humanitário e patriótico, para a vitória da campanha por nós empenhada há mais de dois anos de constantes esforços, após três lustros de prática pessoal na especialidade.

Divisão de Organização Hospitalar, dezembro de 1943.

THEÓPHILO DE ALMEIDA Diretor

Êste trabalho foi escrito durante o tempo de exercício do autor na

“Comissão do Plano da Universidade do Brasil”, em seguimento a outros três livros já publicados sob os títulos de Estudos sôbre o Problema Universitário”, “Educação Superior no Brasil”, e “Instituições Culturais do Brasil”, os dois últimos editados pelo Ministério da Educação e Saúde.

Como nos trabalhos anteriores, teve o A. a intenção de focalizar um problema nacional, como é o hospitalar, na hora atual. É incontestável que, nesta última década, entramos em um período de renovação hospitalar. Nossos velhos hospitais sob o impulso desta corrente progressista e modernizadora que se vai avolumando nos últimos tempos, vão sendo gradualmente substituídos por outras instalações, algumas verdadeiramente modelares, sob o ponto de vista da sua construção e equipamento. Novos edifícios, em projeto, em construção, ou concluídos, sob linhas de regular ou perfeito ajustamento técnico, oferecem um quadro animador. Algumas vêzes, porém, os projetos são mal conduzidos, indicando ou falta de literatura específica ou que a questão ainda não foi considerada com a importância que merece ter, pois, é impossível adaptar um bom conteúdo em um mau continente.

Por outro lado é preciso ponderar que, havendo já em nosso meio algumas instalações materiais de bom potencial, apresentamos grande deficiência quanto ao funcionamento dessas organizações, à luz da técnica hospitalar moderna. A leitura das mais recentes publicações sôbre a moderna organização hospitalar mostra à evidência, quanto temos ainda que trabalhar para nos aproximarmos da eficiência dos grandes hospitais da nossa época.

O A. desta obra, não obstante considerar-se o menos autorizado entre os que se puseram à frente desta salutar campanha, julgou do seu dever trazer esta modesta contribuição, fruto da sua pequena experiência, neste campo da assistência médico-social.

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Na confecção dêste trabalho algumas citações foram traduzidas, outras conservadas no original, conforme o critério do relêvo a ser assinalado em cada caso.

O A. procurou ser exato no tratamento do assunto. Além dos livros e artigos publicados que teve a oportunidade de compulsar, empreendeu pesquisas, em outras fontes, na rica coleção de manuscritos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Biblioteca Nacional e do Arquivo Nacional. Examinou também, quanto possível, o arquivo de algumas das nossas Misericórdias.

O A. agradece especialmente ao Exmo. Sr. Ministro da Educação, Dr.

Gustavo Capanema, a oportunidade que lhe deu para escrever e publicar êstes estudos e os outros acima mencionados.

Ernesto de Souza Campos.

A palavra hospital é de raiz latina (Hospitalis) e de origem relativamente recente. Vem de hospes – hóspedes, porque antigamente nessas casas de assistência eram recebidos peregrinos, pobres e enfermos. O têrmo hospital tem hoje a mesma acepção de nosocomium, de fonte grega, cuja significação é – tratar os doentes – como nosodochium quer dizer – receber os doentes. Outros vocábulos constituíram-se para corresponder aos vários aspectos da obra de assistência: ptochodochium, ptochotrophium, asilo para os pobres; poedotrophium, asilo para as crianças; orphanotrophium, orf anato; gynetrophium, hospital para mulheres; zenodochium, xenotrophium, refúgio para viajantes e estrangeiros; gerontokomium, asilo para velhos; arginaria, para os incuráveis.

Hospitium era chamado o lugar em que se recebiam hóspedes. Dêste vocábulo derivou-se o têrmo hospício. A palavra hospício foi consagrada especialmente para indicar os estabelecimentos ocupados permanentemente por enfermos pobres, incuráveis e insanos. Sob o nome de hospital ficaram designadas as casas reservadas para tratamento temporário dos enfermos. Hotel é o têrmo empregado com a acepção bem conhecida e universal.

No concílio de Orleans, ocorrido em 549, o Hôtel Dieu de Lyon, criado em 542, por Childebert, foi designado sob o nome de xenodochium. Era destinado a receber pobres, órfãos e peregrinos. Vários “hospitais” para escolares e peregrinos foram criados em Paris – o hospital dos escolares de São Nicolau do Louvre, em 1187; o hospital do Santo Sepulcro, em 1326, para receber peregrinos de Jerusalém; o hospital de Santa Catarina, para abrigar apenas por três dias os desocupados. O têrmo hospital era, pois, impreciso, nesta época, em relação ao conceito atual.

O hospital tem sua origem em época muito anterior à era cristã, não obstante a opinião de autores que se têm esforçado para demonstrar o contrário. Não há dúvida, porém, que o cristianismo impulsionou e desvendou novos horizontes aos serviços de assistência, sob as mais variadas formas.

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ROUBAUD procurou estabelecer provas em favor da origem cristã dos hospitais. O Larousse do Século X, erradamente, assinala o primeiro hospital como tendo sua origem no fim do século IV com o hospital de São Basílio fundado em 368. Os templos de Saturno considerados como primórdios da escola médica existiram muitos séculos antes de Cristo. Segundo MACEACHERN,tais templos caracterizaram os hospitais egípcios.

O Larousse do século X cita e apresenta a estampa de um templo de

Saturno, situado no Forum romano. Sua origem dataria dos tempos de Tullus Hostilius ou de Lucius Tarquinius. Tudo isso é muito confuso pois Hostilius morreu no ano 630 A.C. e Tarquínio – o Soberbo – em 4 A.C. O templo citado não teve, entretanto, finalidade hospitalar.

NABABILÔNIA, a prática da medicina começou no mercado. Pode-se dizer que o mercado foi o hospital daquela época. Segundo HERÓDOTO, o grande historiador de Halicarnassus (Livro I-197):

“Os doentes eram conduzidos ao mercado, porque não existiam médicos. Os que passavam pelo doente interpelavam-no com o intuito de verificar se êles próprios tinham sofrido o mesmo mal ou sabiam de outros que tivessem tido. Podiam assim propor o tratamento que lhes fôra eficaz ou eficaz na cura de pessoas de suas relações. E não era permitido passar pelo doente em silêncio. Todos deviam indagar a causa da sua moléstia.”

Não é verídica a primeira asserção de HERÓDOTO negando a existência de médicos naqueles tempos primitivos, nem é exata a afirmativa que gozavam os sacerdotes das duas grandes ordens dos salmistas e mágicos e dos profetas ou adivinhadores. Mas no último período da história assírio-babilonesca começaram a tomar corpo os estudos médicos. Versaram principalmente sôbre preparados vegetais e minerais sôbre antídotos contra venenos de serpente e escorpiões e sôbre tratamentos diversos em que o “encantamento” era tido em grande conta. A profissão médica foi, destarte, estabelecida naquela região do globo. Segundo GARRISSON (Código Hammurabi – 2.250 A.C.), a remuneração dos médicos estaria mesmo cuidadosamente regulamentada por lei, em certa época daquela civilização. A abertura de um abcesso no ôlho com lanceta de bronze, por exemplo, custava 10 “shekels” de prata para os ricos, 2 a 5 para os pobres. Se o paciente falecia ou perdia o órgão visual era o operador severamente castigado: tinha sua mão cortada, no caso do cliente rico e, no caso de um escravo, era obrigado a dar-lhe substituto quando morria ou metade do valor da operação, ocorrendo a inutilização do ôlho.

Os médicos assírio-babilonescos exerceram sua atividade até no Egito, onde eram chamados para consulta. Existiam especialistas e a remuneração era farta. Conhecem-se os nomes de alguns entre os que exerceram a profissão no primeiro milenário antes de Jesus Cristo.

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Arad Nanâ, médico de Asarhaddon (681-669 A.C.), deixou escrita a história do tratamento ocular de um pequeno princípe:

“Arad Nanâ ao rei meu senhor. Arad Nanâ é teu servidor; mil e mil votos pelo rei meu senhor.

Possam o deus Ninourta e a deusa Goula trazer felicidade e saúde ao rei meu senhor. Mil votos para a criança cuja ôlho está doente. Eu coloquei um penso sôbre o seu rosto. Ontem, à tarde, retirei o penso e também a compressa que estava em baixo. Havia sangue ou pus no penso apenas do tamanho da extremidade do dedo mínimo. Qualquer que seja o deus, entre os teus, responsável pela melhora, sua ordem foi bem executada. Mil votos. Que o coração do rei meu senhor esteja apaziguado. Em 7 ou 8 dias o doente ficará bom”.

Textos médicos ou para médicos dos tempos assírio-babilonescos, os mais remotos da história da medicina, oferecem documentos sôbre a atividade médica na Mesopotânia, desde três mil anos antes da era cristã. Consistem de peças de argila sôbre os quais foram traçados, com estilete, sinais cuneiformes da escritura assíria.

A maior parte, conservada no Museu Britânico, é oriunda da bliblioteca do palácio de NINIVE e foi reunida pelo rei ASSUBANIPAL (668-625 A.C.).

Missões americanas e alemãs encontraram grande número dêsses preciosos documentos.

Mais de um milhar dessas peças completas ou fragmentadas descrevem casos clínicos e terapêuticos ou estabelecem prognósticos. Encontram-se prescrições, formulários e até tratados, compostos de várias peças. Algumas datam de dois mil anos antes da nossa era. Receitas simples ou mais complexas indicam sobretudo a puridicação por meios físicos e o encantamento.

O sacrifício de animais (cabrito) estava em voga já nessa época. Não pretende êste trabalho traçar a história da medicina e sim esboçar, muito sumàriamente, as origens dos hospital. As referências históricas que não se enquadrem perfeitamente neste programa visam apenas entrosar aspectos interessantes dos estudos e do exercício profissional com a história particular das organizações nosocomiais.

A história da medicina tem suas origens em época bem mais remota que a dos hospitais. O homem preocupado, a princípio, apenas com o bem estar de sua família, foi obrigado, com o correr dos tempos e para sua própria defesa, a se interessar pela saúde dos seus semelhantes, quando o aumento da população e a intensificação do trafégo demonstraram a necessidade de proteção coletiva.

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