Construção de uma heroína: historiografia e

Construção de uma heroína: historiografia e

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CONSTRUÇÃO DE UMA HEROÍNA: HISTORIOGRAFIA E LITERATURA SOBRE ANITA GARIBALDI (1970 E 1990).

CRICIÚMA, OUTUBRO DE 2009

CONSTRUÇÃO DE UMA HEROÍNA: HISTORIOGRAFIA E LITERATURA SOBRE ANITA GARIBALDI (1970 E 1990).

Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado para obtenção do grau de Bacharel e Licenciado no curso de História da Universidade do Extremo Sul Catarinense, UNESC.

Orientador(a): Prof. (ª) Dr. Carlos Renato Carola

CRICIÚMA, OUTUBRO DE 2009.

Dedico este trabalho a toda a minha família, ao meu professor orientador Carola, a Débora, que me incentivou a construir essa monografia e aos meus colegas e Professores do Curso de História da UNESC.

4 AGRADECIMENTOS

Agradeço aos meus avôs, que infelizmente já faleceram, e seriam valiosíssimas fontes para dezenas de outros trabalhos. Serão sempre meus exemplos de vida e simplicidade, juntamente com a minha avó Teresa a quem admiro e respeito muito.

Aos meus pais Rogério e Líbia, ao meu irmão Júnior e aos meus padrinhos que sempre permitiram que eu seguisse as minhas escolhas, inclusive na vida profissional, acreditando sempre que eu poderia ser alguém de valor como eles sempre me ensinaram.

Aos meus colegas e professores do Curso de História, que estão no mesmo barco que eu, mas sempre ajudaram a remar em busca de águas menos turbulentas para a história e os historiadores.

Ao meu orientador Carola, que apesar das divergências e da pouca comunicação, acreditou em mim e na minha proposta de pesquisa, me ajudando a construir esse trabalho.

Ao meu anjo da guarda, a Débora, que me ajudou muito na vida, me protegendo e incentivando a investir em mim mesmo e na minha vida. Muita luz, paz, alegria e amor e todas as bênçãos divina.

“Mas o que é o herói senão também essa impossibilidade de demarcar nele o que é real ou imaginário?” Paulo Miceli

6 RESUMO

Muito se escrevera sobre a personagem Anita Garibaldi e de sua figura como heroína nacional e exemplo de mulher. Mas como foi construído o mito de heroísmo? Nas obras escritas sobre ela, existem muitas divergências e relações que variam de acordo com cada autor. Seus interesses, suas ênfases e o contexto em que foram produzidas. Mas o mito permanece em todas as obras e prossegue até os dias de hoje, denominando Ana Maria de Jesus ribeiro como a “Heroína dos Dois Mundos”. Este trabalho analisou um conjunto de obras publicadas nas décadas de 1970 e 1990. Trata-se de uma abordagem historiográfica e bibliográfica, com o objetivo de perceber e evidenciar as representações sobre Anita Garibaldi.

Palavras-chave: Anita Garibaldi, Representação, Herói, Historiográfica.

7 SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO08
2 O SURGIMENTO DA REPRESENTAÇÃO DE ANITA GARIBALDI10
2.1 De Ana Maria de Jesus Ribeiro a Anita Garibaldi10
2.2 A mulher na República: Anita como representante12
2.3 O mito do Herói nacional: Anita como heroína Republicana16
2.4 As representações republicanas de Anita Garibaldi18
2.5 Cem anos da República Juliana: A heroína defendendo Laguna20
3 A PRESENÇA E O FORTALECIMENTO DO MITO DE HEROÍNA23
3.1 Obras de Anita da década de 197024
4 CONCLUSÃO41

8 1 INTRODUÇÃO

Analisar obras de diferentes contextos e autores pode trazer, se não for corretamente trabalhado, um grande problema, que é o Anacronismo. Mas quando se estuda cada obra, e se coloca a mesma em discussão, traz-se á tona uma série de fatores e questões que auxiliam a compreender o desenvolvimento e as transformações que a escrita da história sofreu com o passar do tempo. Compreender essas mudanças, divergências e transformações, são a chave para que a historiografia se torne um objeto fundamental para o estudo de história.

O estudo da historiografia é a abordagem realizada nesse trabalho. Ao analisarmos as obras produzidas sobre Anita Garibaldi, nas décadas de 1970 e 1990, se relacionam diversas produções, que vão de biografias, romances, poesias entre outros. Ao compararmos umas com as outras, pode se adquirir uma abordagem das diversas possibilidades e representações, que essa personagem histórica possui.

Segundo Roger Chartier, a representação é uma apresentação pública de uma pessoa, é uma construção de um grupo que detêm o poder e almeja constituir uma identidade de si mesmo em busca de uma unidade. (CHARTIER, 1991 p. 183- 184).

Fruto de várias construções, Anita se tornou uma representação para o povo

Lagunense, e para os republicanos no início do século X. É um exemplo de feminilidade, de coragem e de mãe. Ana Maria de Jesus Ribeiro tornou-se Anita Garibaldi. Uma simples moradora de Laguna ganhou status de “Heroína dos dois mundos”.

As visões sobre Anita, por mais que demonstrem devoção total á “heroína”, apresenta inúmeras divergências, conflitos políticos, confrontos entre autores, disputa de fontes e incansáveis narrativas sobre a vida de Anita e Giuseppe Garibaldi. O objetivo desse trabalho é discutir as representações materializadas em obras da década de 1970 e década de 1990.

A metodologia de exposição das análises das obras foi feita de acordo com a ordem cronológica do ano das publicações. O objetivo principal é revelar as representações de cada obra, a visão de cada autor em seu contexto, entre outros aspectos.

As obras analisadas de acordo com o recorte histórico foram selecionadas por representarem variados estilos literários, como romance, poesia e biografia. Os livros trazem várias discussões que envolvem não somente a sociedade, mas o contexto em que elas foram produzidas, incentivadas e patrocinadas. Proporcionando ao pesquisador várias possibilidades de leitura e análise.

Garibaldi”, está contextualizado as produções das representações da personagem

No Primeiro capítulo do trabalho “O Surgimento das Representações de Anita Como ela começou a ser construída, de acordo com os moldes de cada autor. Passando pelos primeiros anos da República, nos quais Anita aparece como representação do novo regime político em forma de heroína nacional. E pela comemoração no ano de centenário da revolução Farroupilha. Nesse período, a representação de Anita surge como representante da população de Laguna. A cidade necessitava de melhorias estruturais, que seriam realizadas pelo Governo Federal. Anita era o apelo da cidade pelo progresso.

Na segunda parte, o capítulo “A presença e o fortalecimento do Mito da

Heroína”, procura-se analisar comparativamente as obras produzidas nas décadas de 1970 e 1990. As citações são discutidas e são levantadas reflexões e diferenciações de cada autor, seu ponto de vista e opinião e a quem representava essa produção. As obras são de diferentes estilos, possuem características muito particulares, mas possuem a mesma intenção, que é o fortalecimento da representação de Anita Garibaldi como “heroína”, digna de adoração e respeito.

10 2 O SURGIMENTO DA REPRESENTAÇÃO DE ANITA GARIBALDI

Para a elaboração do conceito de representação se utilizam Roger Chartier, e

Sandra Pesavento no artigo, “Mudanças epistemológicas: a entrada em cena de um novo olhar”. Para compreender a construção do Mito do Herói Republicano, José Murilo de Carvalho no livro “A Formação das Almas: O Imaginário da República do Brasil”. Além de Paulo Miceli com o livro “O mito do herói nacional”. Por fim, utilizase a dissertação de Mestrado do Dr. Prof. Antonio Manoel Elíbio Junior, com o nome “Uma Heroína na História: representações sobre Anita Garibaldi” que tem como objetivo demonstrar também essas representações criadas pelos autores que escreveram sobre Anita Garibaldi. Com o recorte histórico voltado para o início da república e sobre o centenário da revolução Farroupilha em Santa Catarina.

2.1 De Ana Maria de Jesus Ribeiro a Anita Garibaldi

Para começar o trabalho é de grande importância contextualizar o leitor, com relação à biografia de Anita Garibaldi. Anita nasceu em 1821, no contexto da República Juliana, instalada em Laguna, no ano de 1839, em pleno Período Regencial. Nesse contexto histórico surgem alguns outros conflitos regionais espalhados pelo país, entre os quais a Revolução Farroupilha.

Em 1985, Ludwig Wolfgang Rau, escritor suíço, que produziu algumas obras sobre Anita Garibaldi, no livro “A Heroína Anita Garibaldi: Uma revelação farroupilha em território catarinense – Breve território catarinense” faz um pequeno relato sobre a Biografia de Anita. O livro é uma palestra proferida por ele no “Encontro de Delegações dos Conselhos Estaduais de Cultura de Santa Catarina e Rio Grande do Sul”, ocorrido em Laguna em comemoração ao sesquicentenário da Revolução Farroupilha, e 146 anos da República Juliana.

Segundo Rau, Ana Maria de Jesus Ribeiro (o verdadeiro nome de Anita

Garibaldi) nasceu em 1821, mas isso não foi comprovado. Segundo o autor no livro “Anita Garibaldi: O perfil de uma heroína brasileira” escrito em 1975, não se sabe ao certo qual data de nascimento, nem o local, os registros da paróquia nunca foram encontrados. Esse fato gerou e ainda gera várias discussões (pode-se perceber também no próximo capítulo).

Anita era filha de Bento Ribeiro da Silva (que era tropeiro) e Maria Antonia de

Jesus. Por problemas financeiros, Anita teve que casar, por obrigação aos 14 anos, como sua mãe queria, pois seu pai já tinha morrido. Seu casamento durou 4 anos; seu Marido era Manoel Duarte de Aguiar, o Manoel dos Cachorros. Desse casamento não surgiram filhos, apenas reclamações de Ana de Jesus. Em 1839, Anita conhece Giuseppe Maria Garibaldi, que veio com as tropas farroupilhas juntamente com Davi Canabarro e Joaquim Teixeira Nunes, fundadores, mais tarde, da República Juliana que durou apenas 100 dias (RAU, 1985, p. 18).

Giuseppe já possuia uma grande fama, por transportar, por terra, dois lanchões, o “Seival” e o “Farroupilha” de Capivari a Tramandaí; e por ter se salvado após o naufrágio na região ao sul do Cabo de Santa Marta (hoje região pertencente ao Jaguaruna). Rau ressalta que o amor dos dois foi á primeira vista (RAU, 1985, p. 18).

Em 20 de Outubro de 1839 Anita viaja junto a Garibaldi. Nas proximidades de

Imbituba, os barcos Farroupilhas são atacados pelos imperiais. Anita e Giuseppe estão no “Seival”. Rau afirma que Anita demonstra muita coragem (virtudes da qual fazem parte de sua heroificação) ao continuar no barco em meio ao fogo cruzado. Em outro momento, no dia 15 de Novembro, na batalha contra Frederico Mariath, Anita ficou encarregada de atravessar o canal com um bote de munições para os farrapos, arriscando a morte uma dúzia de vezes (RAU, 1985, p. 18 - 19).

Com o fim da República Juliana, Garibaldi e Ana seguem para Lages. Eles participam do combate de Santa Vitória e da batalha das Forquilhas em Curitibanos. Anita é feita prisioneira, mas recebe permissão do Comandante Melo de Albuquerque para procurar o cadáver de Garibaldi. Sem encontrá-lo, Anita volta, e mais tarde consegue fugir, encontrando Giuseppe oito dias depois (RAU, 1985, p. 19). No dia 16 de setembro de 1840, em Mostardas, Rio Grande do Sul, nasce Menotti, primogênito do casal. Doze dias depois, Anita se vê obrigada a fugir com o filho nos braços a cavalo, para fugir do ataque surpresa de Pedro de Abreu. Anita também, posteriormente, atravessa o vale do Rio das Antas, em outra retirada, salvando seu filho. (RAU, 1985, p. 19)

Em 1841, Giuseppe é dispensado por Bento Gonçalves, seguindo com sua família para Montevidéu, para ajudar as forças uruguaias contra Rosas. Em março de 1842, Anita se casa novamente, na antiga Igreja de São Francisco de Assis (RAU, 1985, p. 19). Anita tem mais três filhos, Rosita, que morre com difteria, Teresita e Riccioti. Anita mais os três filhos seguem para Itália, seguidos mais tarde por Giuseppe para morarem em Nice e depois em Gênova. Segundo Rau, Anita começa a desenvolver, na Itália, um aprimoramento intelectual e político, em nome do amor a Giuseppe (RAU, 1985, p. 19).

A vida de Ana de Jesus foi curta. Em 1849, Anita vai a Roma a procura do marido e segue com ele na retirada contra os franceses. Grávida pela 5ª vez e com os sinais da doença que a levaria a óbito, não quis abandonar o marido mesmo em péssimas condições de saúde. Anita veio a falecer no dia 4 de agosto de 1849, em Madriole, longe dos filhos e nos braços de Garibaldi (RAU, 1985, p. 19).

Anita viveu aproximadamente 28 anos, mas sua curta vida tem vários detalhes ainda não comprovados. Com isso, discussões sobre os autores que resolvem contar os feitos da personagem, Anita se torna produto de várias representações, cada qual com características de cada autor.

2.2 A mulher na República: Anita como representante.

Muitas foram as representações acerca de Anita Garibaldi durante todo o período da República. Esse trabalho apropria-se de algumas delas para discutir as divergências e igualdades entre as produções que são responsáveis pelo incentivo á “Heroificação” da personagem Anita Garibaldi.

Por quais motivos tais obras surgiram? Quais seus interesses? As respostas dessas perguntas foram buscadas nessa pesquisa. Os questionamentos ajudam a perceber e compreender as obras analisadas, que levam o nome de Ana de Jesus Ribeiro, a personagem Anita Garibaldi.

Para podermos compreender as representações de Anita, temos que compreender de que forma as mulheres são representadas nas obras históricas. Segundo Mary Del Priore, século XIX:

A mulher na história do Brasil tem surgido recorrentemente sob a luz de estereótipos, dando-nos enfadada ilusão de mobilidade. Auto-sacrificada, submissa sexual, e materialmente e reclusa com rigor à imagem da mulher de elite opões-se a promiscuidade e a lascívia da mulher de classe subalterna, pivô da miscigenação e das relações inter-étnicas que justificaram por tanto tempo a falsa cordialidade entre colonizadores e colonizados. (DEL PRIORE, 1994, p. 1).

As mulheres não tinham uma presença significativa na historiografia brasileira. Eram vistas com olhar preconceituoso, isso quando eram mencionadas. As mulheres eram citadas como prostitutas ou feiticeiras. Só eram associadas á relações não discriminatórias, quando eram observadas como esposas e mães e se a sua submissão ao marido fosse total. Mulheres que tomavam participação política, mesmo em casa, eram muito mal vistas. As que faziam isso eram adúlteras ou bruxas, tornando-se um mal para a sociedade. (DEL PRIORE, 1994, p. 12). Mas as mulheres não tinham nenhum poder? Segundo Mary Del Priore:

Melhor do que tentar responder se as mulheres tinham poder, é tentar decodificar que poderes informais e estratégias elas detinham por trás da ficção do poder masculino, e como se articulavam a tal subordinação e resistência. O estudo dos discursos normativos sobre a mulher deve ser estimulado quando levar em conta as práticas sociais, do contrário, tendo no homem o sujeito das falas, e a mulher seu objeto, corre-se o risco de fazer um retrato fora de foco do segmento feminino (DEL PRIORE, 1994 p 13).

A questão apontada por Del Priore traz algumas reflexões sobre a história das representações cridas sobre Anita Garibaldi. Mas porque a personagem de Anita, não tinha os aspectos relacionados “á mulher”, assim como as mulheres descritas na história do país? Gerson Brasil, no livro “Garibaldi e Anita, Guerrilheiros do Liberalismo”, mostra seu ponto de vista:

Em Anita, a lutadora que enfrentava todos os perigos serenamente não colocava nunca a mulher, no que demais feminino nela existia, numa condição inferior. Ela era, a um tempo, mulher e guerreira, sabia combater e sofrer, e tinha ciúmes imenso do seu herói. A mulher na sua expressão mais alta e perfeita, portanto: completa esposa, mãe exemplaríssima e lutadora pela liberdade e o progresso dos homens. (GERSON, 1971 p. 92).

Gerson Brasil afirma que, por mais que Anita fosse mulher, ela era tratada de uma forma diferente. Era tratada como guerreira e corajosa. Mas ao mesmo tempo suas virtudes de mulher eram ressaltadas, como a esposa perfeita, apaixonada e devota de seu marido, o herói. Anita era o reflexo do que a República necessitava.

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