farmacia hospitalar

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Pharmacia Brasileira - Jul/Ago 200112

Pelo jornalista Aloísio Brandªo, editor desta revista

Um mergulho no universo da farmÆcia hospitalar brasileira, atravØs de entrevistas com as figuras mais expressivas do setor, revela uma disparidade assustadora. Nele, coabitam atrasos e finas flores do hiperdesenvolvimento. Mas a busca por melhores conhecimentos estÆ diminuindo essa diferença e transformando para melhor o panorama do setor.

Com todas as dificuldades, Ø visível a busca por uma farmÆcia hospitalar moderna. E o que Ø uma FH moderna? É aquela que, alØm das tradicionais funçıes administrativas, econômicas e tØcnicas, Ø capaz de agregar atividades relacionadas à farmacoepidemiologia, farmacoeconomia e terapia baseada em evidŒncias, que resultem na melhoria da qualidade da assistŒncia prestada ao paciente , responde um dos mais respeitados farmacŒuticos hospitalares brasileiros, professor Tarcísio Palhano.

Visªo geral da Ærea interna da câmara de fluxo, com o farmacŒutico realizando o preparo da dose unitÆria, assessorado por um funcionÆrio da unidade

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A PHARMACIA BRASILEIRA traz, a partir desta página, uma vasta matéria sobre a farmácia hospitalar, no Brasil. A matéria abriga quatro entrevistas e outros textos, com o objetivo de focar o segmento, desde o seu passado, para, daí, chegar a uma perspectiva, dentro de uma abordagem técnico-científica, social, humana e crítica. A primeira visão que se tem é de um setor díspar, onde coabitam o atraso e o hiperdesenvolvimento. Mas nunca por culpa do farmacêutico, ansioso, sempre, em puxar para cima o nível da atividade. Essa desigualdade é a cara do Brasil.

Ainda se vê proprietários e diretores de hospitais e clínicas refratários à idéia de implantação de um programa moderno de farmácia e de contratação de farmacêuticos, em número desejável e levados à qualificação, em seus estabelecimentos. Entretanto, se vê, também, farmácias hospitalares vicejando progressos fantásticos, com requintes da mais alta especialização, a exemplo da farmácia do hospital filantrópico Erasto Gaertner, em Curitiba, toda voltada para a oncologia. A revista entrevistou a farmacêutica Vânia Mari Salvi Andrzejevski, coordenadora daquela farmácia e de um curso de especialização ministrado, ali dentro.

Outro exemplo de franco progresso do setor é o interesse, cada vez maior, no País, pela instalação do sistema de dose unitária. A PHAR-

MACIA BRASILEIRA ouviu uma das maiores autoridades brasileiras no assunto, o farmacêutico George Washington Bezerra da Cunha, diretor do Serviço de Farmácia do Incor (Instituto do Coração) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e coordenador do “I Congresso Brasileiro de Medicamentos em Dose Unitária”, realizado, recentemente, em São Paulo.

Uma radiografia nacional do setor veio de uma entrevista com o presidente da Sbrafh (Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar), Mauro de Castro. A revista falou também com a farmacêutica Lúcia Noblat, que está à frente da revolução que está transformando a farmácia do Hospital Edgard Santos, em Salvador, pertencente à Universidade Federal da Bahia, e com Josué Schostack, farmacêutico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, que vem ministrando cursos de Farmácia Hospitalar pelo Norte e Nordeste do País, a convite do Conselho Federal de Farmácia.

Mas a porta de entrada da revista nesse conjunto de matérias foi uma entrevista com o professor Tarcísio Palhano, um dos homens que escreveram a história da moderna farmácia hospitalar brasileira, dentro do Hospital das Clínicas de Natal (RN), hoje, Hospital Onofre Lopes. Não sem, antes, sondar o farmacêutico que esteve na retaguarda dos acontecimentos, no Rio Grande do Norte, onde se instalou a vanguarda do setor: o professor Aleixo Prates.

A ousadia de Cimino - Prates cita o professor de Farmacotécnica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, José Sylvio Cimino, como o homem que plantou a moderna farmácia hospitalar, no Brasil, cujo primeiro fruto cresceu no Hospital das Clínicas de Natal. De descendência italiana, Cimino era um desses homens audaciosos, para quem o desafio era uma festa.

Para se ter uma idéia, Cimino montou, no final da década de 60, no Hospital das Clínicas de São Paulo, aquela que era a maior farmácia hospitalar do mundo, com nada menos que 5 mil metros quadrados, de acordo com a avaliação do professor Aleixo Prates. Se o tamanho assusta, ainda hoje, imagina, há mais de 30 anos. A área colossal era ocupada com a produção magistral e industrial de medicamentos, toda ela absorvida pelo próprio hospital.

Antes, a farmácia ocupava a modesta área de 400 metros quadrados, que, aliás, não é modesta coisa nenhuma mesmo para os padrões de hoje. Aquela, de 400 metros, foi a primeira farmácia do HC da capital paulista, criada pelo mesmo Cimino, um farmacêutico com profundos conhecimentos de química que chegou a produzir matéria prima dentro do estabelecimento que dirigia. “Quando faltava alguma matéria prima, ele fazia cálculos estequiométricos, misturava substâncias e produzia os insumos”, lembra Aleixo Prates, aluno de Cimino num dos estágios que ministrou. O pioneiro ousado do HC de São Paulo faleceu, na década de 70, deixando a mais importante de suas obras: gerações de farmacêuticos hospitalares espalhados por todo o Brasil.

Por uma questão de registro histórico, vale salientar que a história da farmácia hospitalar brasileira está muito ligada às santas casas de misericórdia. Todas elas possuíam as suas farmácias, embora nem todas elas estivessem em mãos de farmacêuticos. No conjunto de matérias que se segue, não foi possível ouvir ou citar os nomes de todos aqueles que colaboram para o engrandecimento da farmácia hospitalar. Mas a todos eles, os parabéns da revista PHARMACIA BRASILEIRA.

Professor Aleixo Prates

Ambiente de farmÆcia hospitalar

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FARMCIA HOSPITALAR O Conselho Federal de Farmá- cia está determinado a criar um outro panorama para a farmácia hospitalar brasileira. O CFF age em vários flancos, principalmente no campo do conhecimento. Busca alterar os currículos dos cursos de Farmácia, com vistas a que se intensifique o ensino de Farmácia Hospitalar, e vem bancando cursos de educação continuada pelo País. “Estamos muito otimistas, porque estamos presenciando e sendo os agentes de uma mudança substancial na farmácia hospitalar do nosso País”, diz o presidente do CFF, Jaldo de Souza Santos.

Em 1999 e 2000, o

CFF realizou, no Norte e Nordeste, o curso “Atualização em Farmácia Hospitalar”, ministrado pelos farmacêuticos hospitalares Josué Schostack, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, pertencente à UFRS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), também professor de Farmácia Hospitalar da PUC (Pontifícia Universidade Católica) da capital gaúcha e da pós-graduação da Associação dos Hospitais do Rio Grande do Sul; Márcia Elisa Carraro do

O esforço do CFF por disseminar conhecimentos

Nascimento, especialista em farmácia clínica e integrante da farmácia do hospital público Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre; e Iara Aydos, da Farmoterápica, empresa especializada em Nutrição Parenteral e Quimioterapia. A farmacêutica também é de Porto Alegre.

O curso foi realizado em João

Pessoa e Campina Grande (PB), Recife, Maceió, Fortaleza, São Luiz, Terezina, Palmas e Salvador. Em nenhum dos lugares, registrou-se freqüência inferior a 100 participantes, entre farmacêuticos e estudantes de Farmácia. No dia 21 de setembro, iniciou-se a segunda rodada de cursos, desta vez, sobre atenção farmacêutica em farmácias comunitárias e hospitalares.

Mudança na graduação – Farmacêutico hospitalar, há 30 anos, Josué Schostack fez um diagnóstico um pouco sombrio da farmácia hospitalar, nos lugares onde ministrou o curso. “Os farmacêuticos e estudantes não tinham muito conhecimento técnico-científico sobre o assunto, não sabiam, por exemplo, das possibilidades e áreas de atuação profissional, dentro de uma farmácia hospitalar”, lamenta. Schostack acrescenta que muitos não sabiam como trabalhar em um saneante, como agir numa comissão de controle de infecção, como preparar e dispensar um antineoplásico etc.

Para ele, mudanças somente virão com o conhecimento. E a primeira providência, nesse sentido, terá que partir dos cursos de Farmácia. Josué Schostack defende que as instituições de ensino criem a Cadeira obrigatória de Farmácia Hospitalar nos cursos de Farmácia. Critica o fato de que, hoje, poucos a possuem. “Esse número não chega a 10%”, garante. A PUC de Porto Alegre, onde ensina, é uma das pioneiras na criação da Cadeira obrigatória de FH.

Veja, ao final deste conjunto de matérias, as resoluções do Conselho Federal de Farmácia dispondo sobre a atividade do farmacêutico na farmácia hospitalar.

JosuØ Schostack

Jaldo de Souza Santos

Natal, pólo irradiador

O professor Tarcísio Palhano, diretor da farmÆcia do Hospital Onofre Lopes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, foi um dos lançadores da pedra fundamental da moderna farmÆcia hospitalar brasileira

Escrever sobre a farmácia hospitalar brasileira, com o propósito de investigar um tanto do seu passado e do seu presente e abrir uma perspectiva crítica para o seu porvir, abalizado em evidências, fatos, conhecimentos, como é o caso desse conjunto de entrevistas que a revista

PHARMACIA BRASILEIRA está fazendo, requer um roteiro mínimo que inclui alguns nomes obrigatórios, entre outras observações básicas. O professor Tarcício José Palhano é um desses nomes. Unanimidade entre farmacêuticos brasileiros, quan-

Pharmacia Brasileira - Jul/Ago 200115 do se fala no assunto, Palhano é um dos bastiães que ancoraram a farmácia hospitalar, quando ela muito precisava de apoio intelectual, de conhecimento e de homens de boa vontade para crescer, dentro de uma visão moderna. E o que é uma farmácia hospitalar moderna? O próprio Tarcísio Palhano é quem descreve: “É aquela que, além das tradicionais funções administrativas, econômicas e técnicas, é capaz de agregar atividades relacionadas à farmacoepidemiologia, farmacoeconomia e terapia baseada em evidências, que resultem na melhoria da qualidade da assistência prestada ao paciente”.

Meticuloso, devotado ao trabalho, desbravador,

Tarcício Palhano, o homem que ajudou a solidificar a moderna farmácia hospitalar, no País, tem um currículo tão rico, que é impossível resumi-lo, sem deixar de fora algumas de suas grandes ações. Professor adjunto do Curso de Farmácia, da Universidade Federal do Rio Grande do

Norte, professor e coordenador de Farmacologia Aplicada e do Estágio Supervisionado Farmacêutico da mesma Faculdade; diretor, desde 1991, de Farmácia do Hospital Universitário Onofre Lopes, antes - e ainda - chamado de Hospital das Clínicas, o farmacêutico já integrou a Comissão de Ensino do Conselho Federal de Farmácia e a Comissão de Revisão da Farmacopéia Brasileira.

Raramente, tem uma folga em sua agenda.

Mesmo assim, como se possuísse o dom da onipresença, viaja pelo País, pregando o que sabe sobre essa que é uma de suas paixões. Nesta entrevista que deu à PHARMACIA BRASILEIRA, Tarcísio Palhano conta um pouco da história da implantação do novo conceito de farmácia hospitalar no Onofre Lopes, da UFRN. Uma história para a história da Farmácia brasileira. Fala ainda sobre farmácia clínica, sobre a atuação do farmacêutico nos hospitais etc. Veja a entrevista.

Tarcísio Palhano

PHARMACIA BRASILEIRA - É certo dizer que o embrião da farmácia clínica hospitalar brasileira foi gerado na farmácia do Hospital da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sob o seu comando? Pode contar um pouco dessa história?

Tarcísio Palhano - Sim. Tudo começou com o professor Aleixo Prates, em 1977. Convidado pelo reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, professor Domingos Gomes de Lima, para modernizar o Niquifar, laboratório-escola que funcionava nas dependências do Curso de Farmácia, como campo de estágio para os alunos da habilitação em Indústria, também, pretendia desenvolver um projeto que resultasse na completa reestruturação da farmácia do Hospital das Clínicas, o que incluía a ampliação do laboratório de farmacotécnica magistral e a implantação de um serviço de farmácia clínica.

Para viabilizar esse projeto, o professor Aleixo convidou alguns farmacêuticos e também alguns alunos do último período do Curso de Farmácia, entre os quais Júlio Maia, Socor- ro Oliveira e eu. Colamos grau, em dezembro de 1977. Em fevereiro do ano seguinte, prestamos concurso para a Universidade e, em março, já estávamos, em São Paulo, para fazer estágio.

O professor Júlio foi estagiar, na farmácia da Santa Casa de Misericórdia, com o Dr. Cláudio Daffre; a professora Socorro foi encaminhada para estágio com o Dr. Paulo Marques, na farmácia Drogamérica, e eu fui recebido pelo Dr. José Sylvio Cimino, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Confesso que o começo foi difícil e cheguei a pensar em desistir. Apesar de ainda saber muito pouco sobre farmácia clínica, não conseguia correlacioná-la ao estágio que realizava. Foi então que conheci o Dr. George Washington, chefe do Serviço de Farmácia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP. Foi lá, no InCor, juntamente com as colegas Izabella Bolyhos e Sônia Cipriano – hoje, diretora da Divisão de Farmácia do Hospital das Clínicas da USP - que comecei, efetivamente, o meu estágio, sob a supervisão e orientação do Dr. Geor- ge. Concluído o estágio, viajei para o Chile, onde permaneci, de agosto a dezembro, fazendo curso de Farmácia Clínica, sob a orientação da professora Inés Ruiz, da Universidade do Chile.

Enquanto isso, os professores

Júlio e Socorro já haviam concluído os seus estágios, em São Paulo, e, antes de voltarem para Natal, haviam estado em Buenos Aires, para conhecer a Farmácia Florida, então, modelo de farmácia magistral, na América do Sul. De volta a Natal, o professor Júlio assumiu a chefia da Seção de Farmácia do Hospital das Clínicas e começou a executar o projeto de reestruturação idealizado pelo professor Aleixo.

No início do ano seguinte, a professora Inés veio para Natal, com a missão de coordenar a implantação de um Serviço de Farmácia Clínica, no Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foi, assim, que surgiu o primeiro Setor de Farmácia Clínica do Brasil, oficialmente implantado, em 15 de janeiro de 1979, conforme “Termo de Instalação”, lavrado, na ocasião, para documentar tão importante feito.

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