Cartografia no ensino fundamental: professor e aluno no processo de ensino-aprendizagem

Cartografia no ensino fundamental: professor e aluno no processo de...

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Trabalho de conclusão de curso apresentado à Faculdade São Luís de França como um dos prérequisitos para a obtenção do grau de Especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior.

Orientador: Prof. Esp. Aline Raquel Santos Diniz Mendonça

Trabalho de conclusão de curso apresentado à Faculdade São Luís de França como um dos prérequisitos para a obtenção do grau de Especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior.

Nota:

Aracaju,de ............................. de ...............

Prof. Aline Raquel Santos Diniz Mendonça

Especialista / FA Orientador

Antonio Minoru Cabral Suzuki∗

Os mapas têm sido ao longo da história da ciência geográfica um instrumento indispensável para a análise e compreensão do espaço geográfico, uma vez que os mesmos representam visualmente qualquer área ou situação real em escala reduzida, permitindo uma análise detalhada. O conhecimento cartográfico é, portanto, de suma importância nas diversas atuações do profissional em Geografia, inclusive na sua prática docente. A utilização dos mapas ocorre sob formas variadas, tais como: mapas impressos ou digital. Pretende-se, então, através desta pesquisa verificar a contextualização da Cartografia com a Geografia no 6º Ano do ensino fundamental, bem como, sua contribuição no processo ensino-aprendizagem. Com a realização de questionários aos alunos, pôde-se concluir que os conteúdos trabalhados com o auxílio de mapas facilitam a compreensão, devido, sobretudo à visualização dos mesmos no material cartográfico.

Palavras-chave: Ensino-aprendizagem. Geografia. Cartografia. Mapas.

1 INTRODUÇÃO

O mapa antes de tudo é linguagem, pois, projeta declarações ideológicas, uma mensagem, um pensamento a partir de um “ponto de vista” de qualquer área, região, lugar e etc., do espaço geográfico. Assim, quando alguém o visualiza se tem uma idéia da representação visual do espaço geográfico a partir da sua análise crítica e técnica, pois:

∗ Breve currículo do autor: Graduado em Licenciatura de Geografia, Professor Preceptor de Estágio em Geografia pela Universidade Tiradentes, Professor de Geografia no Ensino fundamental e Médio. Endereço eletrônico: minorugeo@yahoo.com.br

No século X a linguagem enquanto objeto de estudo adquiriu posição expressiva – na filosofia e nas ciências humanas – sendo considerada um dos elementos estruturadores da vida social e dos conhecimentos. (FONSECA; OLIVA, 2004, p. 62).

Os mapas estão presentes nas escolas hoje, sejam impressos, inseridos dentro dos conteúdos dos livros didáticos ou até mesmo em computadores através de softwares educativos, facilitando o processo de ensino-aprendizagem principalmente nas aulas de Geografia, como auxílio na compreensão dos fenômenos geográficos, sejam eles naturais ou antrópicos.

Para qualquer ser humano, o mapa serve como instrumento de localização, por este motivo, vemos atualmente a diversidade de recursos que se utilizam deste precioso instrumento. Propagandas de casas comerciais, mapas rodoviários, mapas turísticos, softwares e até mesmo, mapas elaborados pelas crianças nos primeiros anos de infância, quando representam seu espaço vivido. São representações gráficas e digitais sobre o dia-a-dia da humanidade.

É neste contexto, que o presente artigo analisou a contextualização da Cartografia com os conteúdos da Geografia no 6º Ano do ensino fundamental, verificando se as propostas do terceiro e quarto ciclos dos PCNs sobre a Cartografia no ensino fundamental têm sido atendidas pelos conteúdos abordados de Cartografia em Geografia, o auxílio da Cartografia aos conteúdos, os mapas e a realidade sócio-ambiental dos alunos e a aplicação das novas tecnologias no ensino de Geografia (softwares de mapas e Tv/Vídeo).

A pesquisa se desenvolveu em uma escola da rede particular do município de

Aracaju/SE, que atende desde a pré-escola ao ensino médio, tendo sido elaborado um instrumental na forma de questionário constando de perguntas abertas e fechadas. Este foi aplicado na aula de Geografia, com 24 alunos (as) do 6º Ano do ensino fundamental do Colégio Nossa Escola I, bairro Coroa do Meio, zona Sul de Aracaju.

A receptividade dos mesmos foi instantânea, e as informações coletadas serviram como parâmetro para identificar os principais pontos dos objetivos específicos. Os dados coletados passaram por análise e interpretação rígida de abordagem qualitativa e quantitativa, sendo que as análises destes dados estão demonstradas em tabelas e gráficos, representando a interpretação dos mesmos, posterior à sua coleta.

O arcabouço teórico da pesquisa bibliográfica serviu como parâmetro para a análise do conteúdo proposto pelo tema, já que, muitas obras possuem informações obtidas a partir de experiências dentro e fora da sala de aula. Também é importante ressaltar a viagem pela história da Cartografia ao longo dos séculos, já que esta ciência sempre encontrou caminhos abertos e também obstáculos para sua consagração nos tempos atuais.

O tema proposto foi um desafio superado, visto que, muitos são os problemas dentro e fora da sala de aula em relação à Cartografia: contextualização com os conteúdos trabalhados em sala de aula; relações entre o geral e o particular; relação com a práxis; a adequação aos PCNs. Foram verificadas tais variáveis que se fazem necessárias para uma avaliação sobre o ensino e aplicação da Cartografia e sua contribuição no processo de ensino aprendizagem nas aulas de Geografia e sua contextualização com a realidade socioambiental dos alunos.

2 A CARTOGRAFIA NAS AULAS DE GEOGRAFIA

2.1 Evolução da Cartografia

Ferreira e Simões (1986, p. 30) afirmam que os mapas estão presentes no mundo desde a antiguidade, quando “[...] o homem vivendo em grupos que se deslocavam continuamente, à procura de meios de subsistência ou em [atividades] guerreiras, sentiu necessidade de conservar informações sobre os caminhos percorridos e as suas [direções] e de as transmitir a outros”. Dentre inúmeros mapas que já foram encontrados pelo mundo, alguns deles já apresentavam pontos com uma linguagem cartográfica primitiva, mas que demonstrava certo interesse pela precisão da localização:

O mapa mais antigo de que se tem conhecimento foi encontrado nas escavações da cidade de Ga Sur, 300 km a norte da Babilônia, e data de 2500 a.C. [...] representando o vale de um rio, provavelmente o Eufrates, com uma montanha de cada lado e desaguando por um delta de três braços. O Norte, o Leste e o Oeste estão assinalados com círculos com inscrições. (Op. Cit., p. 31).

Foi justamente com a “[...] expansão política, comercial e marítima dos povos do mediterrâneo (Mesopotâmia, Fenícia, [Egito]) levou à elaboração de mapas marítimos e, sobretudo, à descrição de lugares e de povos” (Op. Cit., p. 32). Aos poucos, escritores e também estudiosos, foram aperfeiçoando estas técnicas de descrição da Terra e seu espaço, um novo olhar. Heródoto (485-425 a.C.),

[...] percorreu a maior parte do mundo habitável conhecido, desde o Sudão até à Ucrânia e desde a Índia até ao estreito de Gibraltar. Colheu informações sobre os oásis do Saara e a rota das caravanas que ligavam o Norte da África às regiões mais a sul, que produziam o ouro e estanho. [...] pretendia conhecer os locais onde tinham ocorrido os factos históricos sobre os quais ia escrever pelo que estudou em pormenor, assim como as suas populações e características, o contexto espacial e a organização política. (Op. Cit., p. 35).

Um dos geógrafos gregos desta época era Estrabão. Ferreira e Simões (1986) apontam que para Estrabão, não deveria haver preocupação nenhuma entre os geógrafos, de fazer descrições sobre os aspectos físicos do espaço geográfico e sim, apenas os aspectos humanos que interessavam ao governo romano, o ‘mundo habitado’.

Com a queda do Império romano, o conhecimento geográfico e científico, sofreu um declínio muito grande. Os bárbaros começam a travar batalhas em todo o espaço conquistado pelo Império Romano, provocando um isolamento em quase toda a Europa. Os mapas passaram a representar características geográficas contidas na Bíblia, pois, o único poder central que existia era o da Igreja. O mapa então passou a atender aos interesses da Igreja e do feudalismo, como por exemplo, o ‘mapa T-O’, que atendiam estes interesses no século XI d.C.:

[...] os mapas produzidos e reproduzidos na Europa Ocidental, durante a maior parte do feudalismo, não tinham por objetivo qualquer tipo de precisão geométrica, isto é, não foram feitos para indicar lugares, caminhos ou qualquer outro tipo de referência toponímica que objetivasse esclarecer um leitor sobre a sua real distribuição territorial. Com o uso do mapa T-O não seria possível ir ou vir a qualquer lugar e, portanto, pode-se inferir que seus criadores romperam com toda tradição cartográfica até então disponível. (SANTOS, 2002, p. 35).

Portanto, a “[...] [adoção] dos conhecimentos geográficos bíblicos tornou-se evidente na Cartografia”. (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 45). Mas, aos poucos, este paradigma visual foi se quebrando até mesmo pela própria queda do sistema feudal, e também por autores e estudiosos da época que provaram a real dimensão do espaço geográfico e o que acontecia neste, devido às peregrinações aos lugares santos e a volta do comércio entre a Europa e o ocidente após o fim das guerras. Para isto, foi preciso inovar na elaboração de mapas com rotas exatas e com informações disponíveis para os navegadores, como por exemplo, direção das correntes, ventos, ilhas, etc.

8 2.2 A Convivência Conflitante com a Geografia

A Geografia ao longo dos séculos buscou as ferramentas necessárias para que paradigmas e dogmas fossem quebrados, atestando empiricamente as novidades sobre um mundo novo para o conhecimento humano. Mas a ciência geográfica não conviveu pacificamente com a Cartografia. Considerava-se que os estudos e pesquisas de campo ainda eram mais necessários e eficazes do que simplesmente fotos ou desenhos sobre o espaço. Com base nesta observação, muitos geógrafos foram críticos ao uso da Cartografia em seus trabalhos:

A Cartografia e as longas narrativas verbais conviveram, não sem atritos, muitas vezes com supremacia da Cartografia, a ponto de Ritter, um dos modernos fundadores da Geografia, há seu tempo, queixar-se de uma ‘ditadura da Cartografia’. Aqui já poderíamos notar a presença de linguagens conflitantes. (FONSECA; OLIVA, 2004, p. 63).

Ainda hoje, professores e pesquisadores em Geografia relutam em admitir em seus trabalhos o uso da Cartografia, ou melhor, a atribuição de mapas e/ou elementos gráficos que detalhem e interpretem informações sobre o espaço, seja ele natural ou humanizado. Um exemplo bem claro sobre tal fato é demonstrado quando um professor não utiliza mapas contextualizados com o conteúdo abordado, ou até mesmo, não faz o uso adequado do mesmo. Para se ter uma real noção da problemática, numa aula sobre o relevo brasileiro e sua distribuição espacial, apresenta-se o mapa político, onde este destaca apenas a divisão político-administrativa do país. Segundo alguns autores que também estudam esta temática, o problema parece ser muito mais além do que um simples momento de contextualização com este recurso:

Não se pode esquecer, ainda, o fato de que existem diferentes mapas para diferentes usuários. Aparentemente, isso é simples, embora em termos de ensino é fundamental que se faça a diferenciação, porque muitas vezes o professor utiliza-se do mapa que tem em mãos, não fazendo a diferenciação ou não fazendo a seleção dos principais elementos que os seus alunos têm condições de ler. (SIMIELLI, 2006, p. 95).

Este exemplo já foi observado em diversas aulas de professores formados, como também, em aulas de estagiários do ensino fundamental e médio nesta disciplina. O que chama atenção neste exemplo, diz respeito a não contextualização, interpretação e descrição proposta pelo conteúdo.

Já no campo da pesquisa, trabalhos de caráter humano na Geografia – isto porque há uma dualidade nesta ciência: física e humana – apresentam elementos textuais, deixando de lado a caracterização ilustrativa da área de estudo, ou em alguns casos, as transformações no espaço não são tão importantes para a visualização e posteriormente a interpretação.

Os professores que têm uma formação mais direcionada para a Geografia humana, geralmente trabalham menos com as correlações cartográficas. A maior parte das correlações é feita com base no ponto de vista natural e a síntese, que é o nível mais complexo, passa a ser trabalhada no final do ensino médio [...] (Op. Cit., p. 102).

Entretanto, como abordado anteriormente, o mapa é também um elemento lingüístico, pois representa a práxis entre conteúdo e espacialização dos fenômenos.

2.3 A Tecnologia a Serviço da Cartografia

Mesmo com estes atritos, a Cartografia passou a ser mais utilizada pelos geógrafos e também foi se aperfeiçoando. Hoje, é humanamente impossível descrever o espaço geográfico no seu aspecto totalitário, sem o auxilio de novos instrumentais, pois,

[...] anteriormente aos satélites e, segundo os cânones da Geografia tradicional, construir narrativas inteligíveis e explicativas do espaço geográfico, dos territórios ou ainda das paisagens exigia profundo conhecimento de campo. Nesse estilo descritivista, as imagens de satélite podem oferecer muito, já que o produto que elas apresentam ultrapassa de longe o que o olho humano pode ver. Tanto horizontalmente – que seria o planeta todo em sua simultaneidade – quanto verticalmente – aprofundando numa área, num lugar. (FONSECA; OLIVA, 2004, p. 64).

Portanto, a revolução tecnológica trouxe para seu campo de domínio a Cartografia e com ela o conhecimento do espaço geográfico. A Cartografia tem agora a seu dispor, recursos que auxiliam não só a sua ciência, mas também a Geografia e demais interessadas no estudo e descrição do planeta e as transformações naturais e humanas. Ressalta-se ainda que, a Cartografia começou a desempenhar um papel fundamental após o avanço da informática, por volta de 1946, quando surge o computador, um instrumento valioso para os estudos geográficos e ambientais. Além disso, estes recursos digitais e também os mapas impressos são instrumentos valiosos nas aulas de Geografia, tornando-as mais atraentes, atualizadas e no que diz respeito ao ensino-aprendizagem, habilita os alunos a serem construtores também do seu próprio espaço.

10 2.4 A Cartografia no Ensino Fundamental

A criança, segundo Almeida e Passini (2001, p. 23) “[...] perceberá o seu espaço de ação antes de representá-lo, e, ao representá-lo usará símbolos, ou seja, codificará. Antes, portanto de ser leitora de mapas, ela deverá agir como mapeadora do seu espaço conhecido”. A criança já começa a lidar com espaço a partir de elementos que fazem parte do seu cotidiano. Para se ter idéia de quão tão importante é a alfabetização cartográfica, desenhos na pré-escola demonstram que a criança já conhece e memoriza o seus espaço vivido, seja sua casa, seu condomínio, sua rua, ou até mesmo, o caminho que faz de casa para a padaria, para a escola ou a casa de um amigo (a).

No eixo quatro dos PCNs de Geografia, a Cartografia é apresentada como ‘instrumento na aproximação dos lugares e do mundo’. Desenvolve-se a partir das observações que o homem realiza e documenta sobre os fenômenos naturais e humanos ao longo da história. É também do eixo quatro dos PCNs de Geografia que se destaca também, a importância da leitura de mapas no ensino fundamental, onde o aluno passa a conhecer o espaço geográfico e interage com o mesmo, a partir da sua análise sobre este espaço e adequando este conhecimento a sua realidade, passando da observação geral para local. Mas para isso, o uso da linguagem cartográfica passa por pressupostos de apropriação e uso desta linguagem. Katuta (2002, p. 133), afirma que,

[...] a apropriação e o uso da linguagem cartográfica devem ser entendidos no contexto da construção dos conhecimentos geográficos, [...] como instrumental primordial, porém não único, para a elaboração de saberes sobre territórios, regiões, lugares e outros.

A linguagem cartográfica auxilia o ensino da Geografia na construção dos conhecimentos sobre as categorias de análise desta ciência. Fica a cargo de a Geografia interpretar os fenômenos que ocorrem em determinado ponto de vista de um mapa. No segundo pressuposto, (Op. Cit., p. 134) completa esta idéia apontando que “a apropriação e utilização da linguagem cartográfica depende não só, mas em grande parte, das concepções de Geografia e do ensino dessa disciplina que professores e seus alunos possuem”. O conhecimento que se tem em relação aos conteúdos de Geografia e mecanismo para aplicação dos mesmos deve estar uníssono com o auxílio visual que os instrumentos cartográficos transmitem, mas prevalecendo o conhecimento geográfico, base de interpretação dos fenômenos do espaço geográfico.

A linguagem por si só não possibilita a formação crítica e analítica do aluno, para que o mesmo possa ser alfabetizado cartograficamente, contrapondo a idéia de que a criança já está apta a desenvolver mapas a partir do domínio espacial ao seu redor (Op. Cit.).

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