Manual hospitalar anvisa

Manual hospitalar anvisa

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Curso Básico de Controle de Infecção Hospitalar

Caderno C Métodos de Proteção Anti-Infecciosa

Diretor-Presidente Gonzalo Vecina Neto

Diretores Luiz Carlos Wanderley Lima Luiz Felipe Moreira Lima Luiz Milton Veloso Costa Ricardo Oliva

Adjunto: Claudio Maierovitch P. Henriques Gerente-Geral de Tecnologia em Serviços de Saúde Lucila Pedroso da Cruz

Chefe da Unidade de Controle de Infecção em Serviços de Saúde Glória Maria Andrade

Equipe Técnica: Eni Rosa Borba Mesiano Maria do Carmo Freitas da Costa Maria do Carmo Ramalho Rodrigues de Almeida

Coordenação geral: Consultor em Controle de Infecção Hospitalar Antonio Tadeu Fernandes

Colaboradores: Adolfo Edison Manrique Ana Paola Castagnari Anna Sara Levyn Carlos Emílio Levy Esperança Santos de Abreu Fernando Aurélio Calligaris Galvanese Kazuko Uchikawa Graziano Lara Gurgel Fernandes Tavora Lígia Bueno Assumpção Luis Carlos Barradas Barata Maria Cristina Gabrielloni Maria Olivia Vaz Fernandes Martha Oliveira Ramalho Mônica Velhote Rúbia Aparecida Lacerda Talib Moysés Moussallem

Edição de Design Gráfico

Gerência de Comunicação Multimídia E-mail: infovisa@anvisa.gov.br

Site: w.anvisa.gov.br Copyright@ ANVISA, 2000

Apresentação

Historicamente, no Brasil, o Controle das Infecções Hospitalares teve seu marco referencial com a Portaria MS nº 196, de 24 de junho de 1993, que instituiu a implantação de Comissões de Controle de Infecções Hospitalares em todos os hospitais do país, independente de sua natureza jurídica . Na ocasião, o Ministério da Saúde optou por treinar os profissionais de saúde credenciando Centros de Treinamento (CTs) para ministrar o Curso de Introdução ao Controle de Infecção Hospitalar.

Atualmente, as diretrizes gerais para o Controle das Infecções em Serviços de

Saúde são delineadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), na Gerência Geral de Tecnologia em Serviços de Saúde , através da Unidade de Controle de Infecções em Serviços de Saúde (UCISA), e novo impulso tem sido dado no sentido de enfrentar a problemática das infecções relacionadas à assistência .

Com a finalidade de capacitar profissionais de saúde para o controle das infecções em serviços de saúde, a Anvisa está apresentando o Curso Básico de Controle de Infecção Hospitalar, elaborado conforme orientações das legislações pertinentes à matéria.

O curso é composto de uma série de 5 cadernos e um manual do monitor, constando de uma parte teórica e outra de exercícios de reforço, com carga horária total de 40 horas/aula. O objetivo é oferecer subsídios aos profissionais da área da saúde que garantam o desenvolvimento das atividades voltadas para o Controle das Infecções Hospitalares, beneficiando a sociedade através do uso de medidas de proteção e promoção à saúde.

Sugerimos que os temas desenvolvidos sejam aprofundados, complementados e adequados a cada realidade local. Esse constitui nosso maior esforço. É importante que nessa trajetória, em busca do avanço nos conhecimentos sobre o assunto, sejam estabelecidas parcerias visando uma cooperação técnica e a interdisciplinaridade nas ações.

Gonzalo Vecina Neto

Curso Básico de Controle de Infecção Hospitalar

Caderno A: Epidemiologia para o Controle de Infecção Hospitalar

Caderno A 1: Conceitos e Cadeia Epidemiológica das Infecções Hospitalares Caderno A 2: Vigilância Epidemiológica das Infecções Hospitalares

Caderno A 3: Controle e Investigação de Surtos de Infecção Hospitalar Caderno A 4: Conceitos e Critérios Diagnósticos das Infecções Hospitalares

Caderno B: Principais Síndromes Infecciosas Hospitalares

Caderno B 1: Infecção do trato urinário, sítio cirúrgico e pneumonia Caderno B 2: Infecção do acesso vascular, corrente sangüínea. Infecção em pacientes especiais (queimados, renais crônicos e neonatos)

Caderno C: Métodos de Proteção Anti-infecciosa

Caderno C 1: Limpeza, Esterilização e Desinfecção de Artigos e Anti-sepsia Caderno C 2: Precauções Padrão, Isolamento e Saúde Ocupacional

Caderno D: Microbiologia Aplicada ao Controle de Infecção Hospitalar

Caderno D 1: Antimicrobianos e o controle de infecção Caderno D 2: Laboratório de Microbiologia

Caderno E: Programa do Controle de Infecção Hospitalar

Caderno E 1: Setores de Apoio e o Controle de Infecção Hospitalar Caderno E 2: Organização do Controle de Infecção Hospitalar

Manual do Monitor

Pré teste de Avaliação Gabarito

Sumário Caderno C: Métodos de Proteção Anti-infecciosa

Caderno C 1

Limpeza, Esterilização e Desinfecção de Artigos e Anti-sepsia07 Caderno de Respostas33

Caderno C 2:

Precauções Padrão, Isolamento e Saúde Ocupacional37 Caderno de Respostas81

Bibliografia 84

Caderno C1

Limpeza, Esterilização e Desinfecção de Artigos e Anti-Sepsia

Introdução

Sem dúvida alguma, as infecções hospitalares constituem um grave problema de saúde pública, tanto pela sua abrangência como pelos elevados custos sociais e econômicos. O conhecimento e a conscientização dos vários riscos de transmissão de infecções, das limitações dos processos de desinfecção e de esterilização e das dificuldades de processamento inerentes à natureza de cada artigo são imprescindíveis para que se possa tomar as devidas precauções. O conhecimento e a divulgação dos métodos de proteção anti-infecciosa são relevantes uma vez que, a atuação do profissional de saúde está na interdependência do material que está sendo usado, como veículo de transmissão de infecção tanto para o paciente como na manipulação dos artigos sem os devidos cuidados.

Classificação de artigos segundo o risco e potencial de contaminação

A variedade de materiais utilizados nos estabelecimentos de saúde pode ser classificada segundo riscos potenciais de transmissão de infecções para os pacientes, em três categorias: críticos, semi-críticos e não críticos.

Artigos críticos

Os artigos destinados aos procedimentos invasivos em pele e mucosas adjacentes, nos tecidos subepiteliais e no sistema vascular, bem como todos os que estejam diretamente conectados com este sistema, são classificados em artigos críticos. Estes requerem esterilização. Ex. agulhas, cateteres intravenosos, materiais de implante, etc. Artigos semi-críticos

Os artigos que entram em contato com a pele não íntegra, porém, restrito às camadas da pele ou com mucosas íntegras são chamados de artigos semi-críticos e requerem desinfecção de médio ou de alto nível ou esterilização. Ex. cânula endotraqueal, equipamento respiratório, espéculo vaginal, sonda nasogástrica, etc.

Artigos não críticos

Os artigos destinados ao contato com a pele íntegra e também os que não entram em contato direto com o paciente são chamados artigos não-críticos e requerem limpeza ou desinfecção de baixo ou médio nível, dependendo do uso a que se destinam ou do último uso realizado. Ex. termômetro, materiais usados em banho de leito como bacias, cuba rim, estetoscópio, roupas de cama do paciente, etc. Indubitavelmente esse esquema de classificação lógica tem sido útil como guia na escolha adequada dos métodos de proteção anti-infecciosa. Porém, na prática, a escolha não é tão simples quanto parece e muitas dúvidas surgem especialmente em relação aos artigos semi-críticos. Por exemplo, os equipamentos de endoscopia digestiva seriam a principio artigos semi-críticos, requerendo a desinfecção. No entanto, o risco de traumas durante o procedimento não é pequeno, especialmente naqueles portadores de varizes esofagianas. Percebe-se que estes conceitos clássicos levam a algumas imprecisões, sendo as sondas vesicais um outro exemplo, apesar de serem considerados semi-críticos, são utilizadas exclusivamente estéreis. Então propomos alterações nestes conceitos passando a definir como artigos críticos aqueles que têm contato direto ou indireto com áreas estéreis do corpo, independente de serem mucosas ou tecidos epiteliais. Classificamos como artigos semi-críticos os que entram em contato direto ou indireto com mucosa com flora própria ou com lesões superficiais de pele. Por este conceito a sonda vesical passa ser considerada artigo crítico e utilizada estéril.

Pergunta 1: Porque os artigos críticos devem ser esterilizados e os semicríticos, apenas sofrer processo de desinfecção? _

Pergunta 2: Correlacione respectivamente os artigos críticos, semi-críticos ou não críticos, assinalando a alternativa de acordo com as letras C, SC ou NC.

( ) Seringas e agulhas ( ) Mesa de exame ( ) Mamadeiras e bicos ( ) Fios cirúrgicos ( ) Comadres e papagaios

( ) Dieta enteral ( ) Pias e vasos sanitários ( ) Sonda vesical ( ) Medicamentos orais ( ) Máscara de inalação

( ) Instrumentais cirúrgicos

Limpeza e descontaminação de artigos médico-hospitalares

Limpeza

É o procedimento de remoção de sujidade e detritos para manter em estado de asseio os artigos, reduzindo a população microbiana. Constitui o núcleo de todas as ações referentes aos cuidados de higiene com os artigos hospitalares. A limpeza deve preceder os procedimentos de desinfecção ou de esterilização, pois reduz a carga microbiana através remoção da sujidade e da matéria orgânica presentes nos materiais. Estudos têm demonstrado que a limpeza manual ou mecânica, com água e detergente ou produtos enzimáticos reduz aproximadamente 105 do bioburden. O excesso de matéria orgânica aumenta não só a duração do processo de esterilização, como altera os parâmetros para este processo. O avanço tecnológico tem lançado no mercado equipamentos complexos dotados de estreitos lúmens que tornam a limpeza um verdadeiro desafio. Assim, é lícito afirmar que a limpeza rigorosa é condição básica para qualquer processo de desinfeção ou esterilização. “É possível limpar sem esterilizar, mas não é possível garantir a esterilização sem limpar”.

Descontaminação de Artigos

Descontaminação e desinfecção não são sinônimos. A descontaminação tem por finalidade reduzir o número de microorganismos presentes nos artigos sujos, de forma a torná-los seguros para manuseá-los, isto é, ofereçam menor risco ocupacional. O uso de agentes químicos desinfetantes como glutaraldeído, formaldeído, hipoclorito de sódio e outros no processo de descontaminação, prática largamente utilizada, não tem fundamentação. O agente químico é impedido de penetrar nos microorganismos pois há tendência das soluções químicas ligarem-se com as moléculas de proteínas presentes na matéria orgânica, não ficando livres para ligarem-se aos microorganismos nas proporções necessárias dando uma “falsa segurança” no manuseio do material como descontaminado. Além disso o uso desses agentes na prática da descontaminação causa uma aderência de precipitado de matéria orgânica no artigo, prejudicando sobremaneira a posterior limpeza.

Pergunta 3: Qual o conceito de limpeza e porque ela deve preceder os procedimentos de desinfecção e esterilização dos artigos?

Desinfecção

O termo desinfecção deverá ser entendido como um processo de eliminação ou destruição de todos os microrganismos na forma vegetativa, independente de serem patogênicos ou não, presentes nos artigos e objetos inanimados. A destruição de algumas bactérias na forma esporulada também pode acorrer, mas não se tem o controle e a garantia desse resultado.

No seu espectro de ação, a desinfecção de alto nível deve incluir a eliminação de alguns esporos, o bacilo da tuberculose, todas as bactérias vegetativas, fungos e todos os vírus. A desinfecção de alto nível é indicada para ítens semi-críticos como lâminas de laringoscópios, equipamento de terapia respiratória, anestesia e endoscópio de fibra ótica flexível. O agente mais comumente utilizado para desinfecção de alto nível é o glutaraldeído. Na desinfecção de nível intermediário não é esperada ação sobre os esporos bacterianos e ação média sobre vírus não lipídicos, mas que seja tuberculicida, elimine a maioria dos fungos e atue sobre todas as células vegetativas bacterianas. Cloro, iodóforos, fenólicos e álcoois pertencem a este grupo. Os desinfetantes desta classificação, juntamente com os de baixo nível, são tipicamente usados para artigos que entrarão em contato somente com a pele íntegra ou para desinfecção de superfícies. Na desinfecção de baixo nível não há ação sobre os esporos ou bacilo da tuberculose, podendo ter ou não ação sobre vírus não lipídicos e com atividade relativa sobre fungos, mas capaz de eliminar a maioria das bactérias em forma vegetativa. Compostos com quaternário de amônia são exemplos de desinfetantes de baixo nível. Quando se fala em processo de desinfecção, subentende-se o uso de agentes químicos, cujos princípios ativos permitidos pelo Ministério da Saúde, através da Portaria número 15 de 1988 são: os aldeídos, fenólicos, quaternário de amônia, compostos orgânicos liberados de cloro ativo, iodo e derivados, álcoois e glicóis, biguanidas e outros, desde que atendam à legislação específica.

Apesar da grande oferta de produtos químicos no mercado, a escolha do mais adequado não é uma tarefa fácil. Várias características devem ser consideradas nesta seleção: amplo espectro de ação antimicrobiana; inativar rapidamente os microorganismos; não ser corrosivo para metais; não danificar artigos ou acessórios de borracha, plásticos ou equipamento ótico; sofrer pouca interferência, na sua atividade, de matéria orgânica; não ser irritante para a pele e mucosas; possuir baixa toxicidade; tolerar pequenas variações de temperatura e de pH; ter ação residual sobre superfícies quando aplicado no ambiente; manter sua atividade mesmo sofrendo pequenas diluições; ser um bom agente umectante; ser de fácil uso; ser inodoro, ou ter odor agradável; ter baixo custo; ser compatível com sabões e detergentes; ser estável quando concentrado ou diluído.

Pergunta 4: Quais são os aspectos fundamentais a serem considerados no processo de desinfecção? _

Princípios ativos usados como desinfetantes

Aldeídos

O glutaraldeído é o agente mais utilizado na desinfecção, na concentração de

2% e por um período de exposição de 30 minutos. Não danifica metais, borracha, lentes e outros materiais, podendo ser utilizado na desinfecção de endoscópios e aparelhos com lentes. O enxágüe do material pode ser feito em água corrente potável, a secagem com uma compressa ou toalha macia, ou com ar comprimido, acondicionado em recipiente desinfetado e guardado até o próximo uso. Ao manipular o glutaraldeído, o funcionário deve usar luva de borracha, óculos e máscara. O uso mais difundido do glutaraldeído é na desinfecção de artigos semicríticos e instrumentos sensíveis ao calor. Não deve ser usado na limpeza de superfícies pelo seu teor tóxico e fator econômico. Há relatos de hipersensibilidade de funcionários ao manipular o glutaraldeído, como a sensibilidade na pele, irritação ocular e das vias aéreas, principalmente se utilizado em áreas pouco ventiladas.

O formaldeído é usado em estado líquido e gasoso. Como desinfetante é mais utilizado a formalina, solução em água a 10% ou em álcool a 8%, sendo bactericida, tuberculicida, fungicida e viruscida após exposição de 30 minutos e esporicida após

18 horas. É corrosivo, tóxico, irritante de vias aéreas, pele e olhos. É indicado para a desinfecção de vidraria e capilares do sistema dialisador do mesmo paciente, na concentração de 4% por 24 horas. Há estudos que indicam o uso de formaldeído com restrições.

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