Auto - Engano

Auto - Engano

(Parte 1 de 14)

Sobre a Obra:

Este é um livro sobre as mentiras que contamos a nós mesmos. Mentimos para nós o tempo todo: adiantamos o despertador para não perder a hora, acreditamos nas juras da pessoa amada, só levamos realmente a sério os argumentos que sustentam nossas crenças. Além disso, temos a nosso próprio respeito uma opinião que quase nunca coincide com a extensão de nossos defeitos e qualidades. Sem o auto-engano, a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto. Abandonados a ele, entretanto, perdemos a dimensão que nos reúne às outras pessoas e possibilita a convivência social.O problema é que as mentiras que nos contamos não trazem seu nome verdadeiro estampado na fronte. É preciso, por isso, analisar os caminhos que nos levam até elas: encontraremos aí a origem de grandes conquistas e alegrias, mas também dos sofrimentos que muitas vezes causamos a nós mesmos e às pessoas que nos cercam.

Sobre a Digitalização desta Obra:

Esta obra foi digitalizada para proporcionar de maneira totalmente gratuita o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-livro ou mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. A generosidade é a marca da distribuição, portanto:

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“Para Alice”

AUTO---ENGANO Eduardo Gianeti

Quem somos? Por que acreditamos no que acreditamos? Como viver? Os problemas essenciais da existência e da realização humanas não respeitam fronteiras acadêmicas e convenções catalográficas. O saber especializado avança, o mistério e a perplexidade se adensam. Eliminar falsas respostas é mais fácil do que enfrentar as verdadeiras questões. O que afinal sabemos sobre nós mesmos? A racionalidade orienta mas não move; a ciência ilumina mas não sacia; o progresso tecnológico acelera o tempo e abre o leque mas não delibera rumos nem escolhe os fins. O universo subjetivo no qual vivemos imersos é tão real quanto o mundo objetivo no qual trabalhamos e agimos. A relação mais íntima, traiçoeira e definidora de um ser humano é a que ele trava consigo mesmo.

Este livro aborda a questão do auto-engano a partir de quatro ângulos distintos e complementares. O primeiro é a identificação do fenômeno: o que é o auto-engano e no que ele difere da ação de enganar o outro? Outra vertente de análise trata da explicação de sua existência. Por que o auto-conhecimento é um desafio tão difícil para o ser humano e quais as motivações básicas alimentando a nossa propensão espontânea ao auto-engano? O terceiro ângulo de abordagem é de natureza lógica: como é possível para uma mesma pessoa enganar-se a si própria? Como nos desincumbimos de proezas como crer no que não cremos, mentir para nós mesmos e acreditar na mentira ou remar de costas rumo a um objetivo? Finalmente, a questão do auto-engano é discutida a partir de um ponto de vista ético. Qual o lugar e o valor do auto-engano na vida prática, tanto sob a ótica dos projetos, desejos e aspirações de cada indivíduo em particular (ética pessoal) como na perspectiva mais ampla da nossa convivência em sociedades complexas (ética cívica)?

Esses quatro conjuntos de questões sobre o tema comum do auto-engano definem, com uma única exceção apenas, a estrutura e a seqüência do livro. O capítulo l é dedicado à análise do repertório do engano no mundo natural, à caracterização do auto-engano como fenômeno singularmente humano e à descrição de suas principais modalidades de ocorrência. O porquê e o como do auto-engano são tratados nos dois capítulos seguintes. Enquanto o capítulo 2 tem como foco principal a precariedade do auto-conhecimento e os fatores subjacentes à nossa inclinação ao auto-engano, o capítulo 3 aborda a lógica paradoxal do fenômeno e busca elucidar os meandros do prometer auto-enganado no amor e na política em particular. No capítulo 4, que arremata o livro, discuto as implicações do auto-engano para a interação humana em sociedade e o papel das regras impessoais da ética cívica na moderação e prevenção dos seus piores efeitos.

A grande exceção — a questão que não se enquadra na seqüência temática acima descrita — é a discussão do auto-engano na perspectiva da ética pessoal. A razão é simples. O tema da relação entre auto-engano, formação de crenças, motivação e comportamento individual é o único que não aparece confinado a algum capítulo específico do livro porque ele é precisamente o fio condutor — o eixo temático estrutural — que une, costura e atravessa o argumento do início ao fim do trabalho. Do elogio do auto-engano no primeiro capítulo (seções 5 a 7) à discussão da exploração intertemporal de uma pessoa por ela mesma no último (seção 5), passando pela epistemologia do auto-conhecimento e a lógica do auto-engano nos dois capítulos intermediários, são as questões da ética pessoal que conferem unidade e definem a orientação básica do livro como um todo.

Cada indivíduo é um microcosmo: um todo complexo de forças contraditórias e apenas parcialmente ciente de si mesmo. Por motivos que busco examinar em detalhe no livro, as perguntas da ética pessoal — quem sou? o que pretendo fazer de minha vida? como viver melhor individual e coletivamente? — revelam-se especialmente escorregadias e vulneráveis à ação do vasto repertório das tergiversações especiosas da mente humana. Se a propensão ao auto-engano é com freqüência uma maldição, essa maldição parece ser também a fonte secreta e inigualável das apostas no imponderável das quais dependem não só as maiores realizações criativas da humanidade como a esperança selvagem e inexplicável que nos alimenta, impulsiona e sustenta em nossas vidas. Mapear, analisar, ilustrar e discutir as implicações éticas do auto-engano na vida pública e privada, tendo a formação de crenças, as pulsões e a conduta individual como focos privilegiados da investigação, são os objetivos centrais deste livro.

Um trabalho como este é inevitavelmente exploratório e incompleto. Do auto-engano pode-se dizer o que disseram Sócrates do bem e da virtude e Agostinho do tempo: todos nos imaginamos familiarizados com ele, mas somos incapazes de entendê-lo de forma clara e satisfatória. Pior que o simples desconhecimento, contudo, é a ignorância potenciada de uma falsa certeza — o acreditar convicto de quem está seguro de que sabe o que desconhece. Abrirse à dúvida radical — à possibilidade de que estejamos seriamente enganados sobre nós mesmos e sobre as crenças, paixões e valores que nos governam — é abrir-se à oportunidade de rever e avançar. É ousar saber quem se é para poder repensar a vida e tornar-se quem se pode ser.

A filosofia analítica do auto-engano é de certo modo o avesso da terapêutica exortatória da auto-ajuda. Nada mais longe do propósito deste livro do que a pretensão de "curar", converter ou convencer a mudar quem quer que seja. Não acredito na eficácia de homílias e "curas" em cápsulas anódinas de auto-ajuda, assim como sou cético acerca da possibilidade de alguma forma de "regeneração" por meio de convencimento moral. Creio, porém, na força do desejo de cada ser humano de fazer de sua vida o melhor de que é capaz ; e creio no princípio socrático de que o auto-conhecimento — uma visão clara e crítica dos valores e crenças que regem a nossa existência — é parte indispensável da melhor vida ao nosso alcance. Espero que o esforço prospectivo, a intenção por vezes francamente provocadora e as inumeráveis perplexidades deste livro possam de algum modo contribuir não para reduzir a freqüência dos nossos autoenganos, mas para torná-los menos nocivos e mais profícuos.

A leitura de um texto é a ocasião de um encontro. Quando o teor do trabalho é predominantemente técnico ou factual, os termos da troca entre autor e leitor tendem a ser claros e bem definidos: o que um oferece e o outro busca na leitura são informações relevantes e ferramentas para a obtenção de novos resultados. O contato entre as mentes é de superfície e o grau de assimilação dos conteúdos é mensurável.

Mas quando se trata de um texto literário ou filosófico de conteúdo essencialmente reflexivo, como é o caso aqui, a natureza da relação mediada pela palavra impressa é outra. Mais que uma simples troca intelectual entre autor e leitor, a leitura é o enredo de dois solilóquios silenciosos e separados no tempo: o diálogo interno do autor com ele mesmo enquanto concebe e escreve o que lhe vai pela mente absorta; e o diálogo interno do leitor consigo próprio enquanto lê, interpreta, assimila e recorda o que leu.

Como alguém que passa boa parte do seu tempo lendo e investigando o destino das idéias alheias (sou pesquisador na área de história das idéias), nunca me canso de perguntar a mim mesmo: onde estamos, o que procuramos e no que pensamos enquanto lemos? O depoimento do leitor Fernando Pessoa representa o ponto extremo de uma experiência que, em graus variáveis de intensidade, é provavelmente comum a todos. "Embora tenha sido um leitor voraz e ardente", relata o poeta, "não me recordo de nenhum livro que tenha lido, a tal ponto eram minhas leituras estados de minha própria mente, sonhos meus, e mais ainda provocações de sonhos."

Ler é recriar. A palavra final não é dada por quem a escreve, mas por quem a lê. O diálogo interno do autor é a semente que frutifica (ou definha) no diálogo interno do leitor. A aposta é recíproca, o resultado imprevisível. Entendimento absoluto não há. Um mal-entendido — o folhear aleatório e absorto de um texto que acidentalmente nos cai nas mãos — pode ser o início de algo mais criativo e valioso do que uma leitura reta, porém burocrática e maquinai.

"Autores são atores, livros são teatros." A verdadeira trama é a que transcorre na mente do leitor-interlocutor. A ocasião da leitura, não menos que a da criação literária, pode ser o momento para um encontro sereno, amistoso e concentrado — algo cada vez mais raro e difícil, ao que parece, hoje em dia — com a nossa própria subjetividade.

No diálogo interno do qual resultou este livro procurei acima de tudo ser fiel a mim mesmo. Na prática isso significou aceitar o desafio de pensar diretamente e por minha conta e risco o problema do auto-engano, em vez de esconder-me sob o manto protetor do que Mário de Andrade batizou certa feita, referindo-se a um verdadeiro vício ocupacional do intelectual brasileiro, de "exposição sedentária de doutrinas alheias". Daí a opção de escrever um livro que não pressupõe nenhum tipo de conhecimento prévio especializado e daí o empenho em buscar evitar ao máximo a tentação de entremear o argumento desenvolvido no corpo principal do trabalho com citações e digressões eruditas. Como a carne, porém, é muitas vezes fraca, servime copiosamente das notas ao final do livro para dar vazão à incontinência do historiador de idéias.

O importante, entretanto, é frisar que a leitura do texto principal prescinde inteiramente da consulta às notas e referências que se encontram no final do volume. O uso das notas é portanto facultativo e depende apenas do interesse específico do leitor por algum ponto abordado no trabalho. Talvez o melhor a fazer durante a leitura, a fim de preservar a fluência do texto e o fio do enredo, seja simplesmente ignorar e esquecer que as notas existem. As traduções são todas de minha autoria, exceto quando referem-se a obras cuja tradução para o português constam da bibliografia.

A composição de um livro é a ocasião de novos encontros. Com a exceção do prefácio e das notas, este livro foi integralmente escrito durante quatro estadias de um mês cada na pousada Solar da Ponte, situada na cidade histórica mineira de Tiradentes. Quando para lá parti pela primeira vez, no início de 1996, buscando o recolhimento e a solidão necessários para concentrar-me na redação do livro, não sabia como reagiria e o que poderia encontrar do outro lado. A experiência, felizmente, superou as minhas melhores expectativas. Na atmosfera serena e acolhedora da pousada — uma pequena obra de arte incrustrada no encantador cenário tiradentino — encontrei o ambiente ideal que buscava para a realização do trabalho. A John e Anna Maria Parsons e a todo o pessoal do Solar — Suzana, Márcio, Inês, Pedro, Marlene, Bete, Mazé e Siloé — desejo expressar a minha sincera gratidão pela generosa e cordial hospitalidade com que me receberam. De minha parte, fica a saudade e a esperança de poder reviver no futuro dias de mística alegria e calma plenitude como os que tive a sorte de poder usufruir em Tiradentes.

Diversas pessoas leram e comentaram, verbalmente e/ou por escrito, algum dos diversos rascunhos preparatórios do livro. Ciente de que seria impossível lembrar de todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para melhorar o argumento, fazer novas leituras, evitar obscuridades e persistir na execução do trabalho, gostaria de agradecer a: Cleber Aquino, Pérsio Árida, Ana Maria Bianchi, Carlos Alberto Primo Braga, Antônio Cicero, Renê Decol, Angus Foster, Norman Gall, Carlos Alberto Inada, Célia de Andrade Lessa, Luiz Alberto Machado, Juan Moldau, Verônica de Oliveira, Nilson Vieira Oliveira, Antônio Delfim Netto, Samuel Pessoa, Celso Pinto, Horácio Piva, Rui Proença, José Maria Rodriguez Ramos, Bernardo Ricupero, Carlos Antônio Rocca, Jorge Sabbaga, Pedro Moreira Salles, Luiz Schwarcz, Marcelo Tsuji, Caetano Veloso e Andréa Cury Waslander.

Versões preliminares dos três primeiros capítulos foram apresentadas e debatidas em seminários acadêmicos no Instituto de Pesquisas Econômicas da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo. Agradeço aos alunos de pósgraduação e aos demais participantes desses seminários pelo interesse e pelas perguntas e comentários feitos, alguns dos quais foram depois incorporados no trabalho.

Gostaria, ainda, de fazer um agradecimento especial a quatro grandes amigos — Marcos

Pompéia, Maria Cecília Gomes dos Reis (Quilha), Luiz Fernando Ramos (Nando) e Tal Goldfajn — que participaram calorosa e ativamente de minhas incursões pelos caminhos e subterrâneos do auto-engano. Mais do que ninguém, eles foram os interlocutores com quem tive a oportunidade de dialogar de forma exaustiva, fecunda e quase ininterrupta sobre as idéias, pistas, indagações e perplexidades que vinha trabalhando no livro.

Este livro é dedicado a minha mãe Yone, poeta e psicanalista. Foi a forma que encontrei para tentar transmitir não apenas a ela, mas aos demais membros da família, a gratidão que sinto pelo privilégio de nossa convivência durante todos esses anos. pelo privilégio de nossa convivência durante todos esses anos.

1. A NATUREZA E O VALOR DO AUTO-ENGANO

1. A ARTE DO ENGANO NO MUNDO NATURAL PRINCÍPIOS

A natureza submete tudo o que vive ao jugo de duas exigências fatais: manter-se vivo e reproduzir a vida. Nada escapa. Do protozoário unicelular ao autodesignado Homo sapiens, a preservação do indivíduo e a perpetuação da espécie constituem o mínimo denominador comum da subsistência biológica.' Por que é assim, ninguém sabe. O que parece claro é que o risco de extinção é comum a todas as espécies e nem todos os seres vivos têm a mesma facilidade em satisfazer os imperativos de sobreviver e procriar. As condições ambientais mudam ao sabor de forças aleatórias e os poderes de um organismo nem sempre correspondem às demandas definidas por suas necessidades vitais. A natureza pode ser pródiga, mas não faz concessões.

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