O jogo na educação física escolar

O jogo na educação física escolar

(Parte 1 de 4)

CENTRO UNIVERSITÁRIO DE VOLTA REDONDA- UniFOA

Volta Redonda Janeiro, 2007

Artigo apresentado como exigência para a obtenção do título de Pós-Graduando em fundamentos da Educação Física Escolar, Esporte e Lazer do Centro Universitário de Volta Redonda.

Por: Rodrigo Landim Alves

Orientadores:

Profª. Ms. Ivanete da Rosa Silva de Oliveira Profº. Ms. Coriolano Pereira da Rocha Júnior

Volta Redonda Janeiro, 2007

Termo de Aprovação

(1º Examinador) _ Ivanete da Rosa silva de Oliveira

(2º Examinador) _ Coriolano Pereira da Rocha Júnior

Rodrigo Landim Alves CENTRO UNIVERSITÁRIO DE VOLTA REDONDA

RESUMO: O tema a ser tratado neste artigo é o jogo. Realizamos algumas

ao prazer de quem o executa

reflexões sobre o assunto entendendo-o como um fenômeno universal que possui uma pluralidade de olhares, que está presente em todas as culturas e possuidor de um caráter natural e espontâneo, mas que também pode ser usado nas aulas de Educação Física Escolar como um recurso pedagógico eficiente, explorando uma diversidade de conteúdos, e dando ao mesmo sentido sócio-cultural, e não apenas para desenvolvimento de determinadas habilidades técnicas. Daí veio à necessidade de se compreender como os professores de Educação Física entendem e utilizam o jogo em suas aulas. Realizamos uma revisão da literatura para entender as diferentes análises sobre o jogo e aplicamos um questionário junto aos professores da rede pública de Rio claro (RJ). Ao confrontarmos os dados do questionário com os da revisão bibliográfica, verificamos que ao jogo são atribuídas várias funções, pois o mesmo é compreendido de vários aspectos. O jogo constitui-se como uma importante atividade para o desenvolvimento humano e para a construção da autonomia, podendo ser utilizado pelo professor de formas variadas, visando sempre

Palavras-chaves: jogo; educação física escolar; desenvolvimento humano; prazer .

1. INTRODUÇÃO

O presente estudo surge dos questionamentos acerca do fenômeno “jogo” e da necessidade de se compreender como os professores de Educação Física vêem e utilizam o jogo como conteúdo da Educação Física Escolar, sua organização e quais valores são atribuídos a ele.

Nossa intenção é melhor compreender as maneiras com que o jogo é concebido e tratado no espaço da escola e isto se justifica tão somente por ser o jogo um dos meios mais tradicionais de trabalho da Educação Física e mesmo por ser um fator comum ao cenário de nossa sociedade. Para o desenvolvimento do estudo lançaremos mão da revisão de literatura como mecanismo de entender as análises sobre o jogo e efetuaremos nossa pesquisa junto a um público de professores que atuam na rede pública básica de ensino de Rio Claro (RJ), usando do questionário como modo de levantar dados. Nossa interpretação tentará ser qualitativa, tratando os dados do questionário em associação aos da revisão, chegando assim as nossas conclusões.

O jogo pode ser visto como um fenômeno universal que possui uma pluralidade de olhares e que está presente em todas as culturas, possuindo um caráter natural e espontâneo. Também existe a possibilidade de ser usado como um recurso pedagógico nas aulas de Educação Física, justo por explorar uma diversidade de conteúdos e por poder atribuir aos mesmos um sentido sócio-cultural, não o vendo apenas como um elemento para o desenvolvimento de determinadas habilidades técnicas.

Sobre isto, Ferreira (1995) diz que o jogo no espaço escolar está resumido a aprendizagem das regras de cada modalidade e no aprimoramento dos alunos; já Correia (2006) diz que o cotidiano escolar reproduz à competição através da esportivização da Educação Física Escolar, idéia que é compartilhada por Melo (1998) ao dizer que o jogo vem sendo concebido pela Educação Física dentro de uma ótica competitiva.

A partir destas reflexões surge a possibilidade de se renovar e ampliar o modo como a Educação Física vê e utiliza o jogo, indo ao encontro de suas funções educativas que são de irrefutável valor.

Dentro do cotidiano infantil o jogo merece destaque, pois parece ser um elemento de grande importância e conseguir conciliar sua característica de espontaneidade e sua função educativa é papel fundamental do educador. Esse educador muitas vezes sente-se limitado e impossibilitado de dar sentido ao que é ensinado por conta de estar arraigado a uma prática deficitária e pobre de meros aperfeiçoamentos de habilidades técnicas e motoras, vendo o jogo de forma utilitária (SANTIN, 1987) associado ao quadro tradicional do ensino formal.

Não podemos negar a existência do esporte dentro dos conteúdos da

Educação Física Escolar, entretanto não podemos deixar acontecer à exacerbação de seu viés competitivo e técnico, fazendo com que a função do esporte na escola se limite apenas a treinar em detrimento do educar. Segundo Galvão (1996) este fato reforça uma imagem dualista do homem, dividindo-o em corpo e mente onde a Educação Física se compromete apenas com a primeira parte.

O homem deve ser visto como um todo (SANTIN, 1990), pois uma visão fragmentada contribui com sua alienação e dentre outras coisas para que isso não ocorra a Educação Física deve estar incluída no currículo escolar, passando de mera instrução física para uma colaboradora efetiva do processo de desenvolvimento do indivíduo, utilizando para isto seu principal meio para construção do conhecimento: o movimento humano.

É nesse contexto que o jogo se faz presente, propiciando vivências significativas e não apenas imitações de gestos ou mera distração. Por si só a criança joga, brinca, imagina e abstrai-se numa intensa e constante prática de atividades motoras. Devemos considerar a possibilidade de fazer do jogo estratégias metodológicas intencionais objetivando ensinar alguma coisa para alguém, considerando-o como um momento de criação e construção, mas mantendo sua característica lúdica e valorizando sua espontaneidade, sendo capaz de proporcionar prazer, alegria e facilitar o entendimento do jogo como ato social.

Siedentop (1972) (apud Knijnik 2001) diz que a fonte de significado pelo qual a Educação Física é mais compreendida é o jogo, surge daí a importância de valorizá-lo e identificá-lo como um elemento indispensável à educação formal.

No decorrer de nosso estudo não nos preocuparemos em diferenciar o jogar do brincar, sabendo que ambos podem ter o mesmo entendimento, fato visto em seu aspecto lingüístico onde jogar e brincar podem ter o mesmo significado, como acontece em várias línguas européias a exemplo do alemão (spielen), do inglês (to play), do francês (jouer) e do espanhol (jugar). Por alguns momentos jogar e brincar caminham lado a lado e por outros se confundem a tal ponto que não se possa delimitar onde começa um e termina o outro, mas sempre temos em mente que ambos são de fundamental importância justamente por suas funções de construção lúdica na organização psíquica e para o desenvolvimento infantil.

Prenderemos-nos apenas nas definições e teorias do jogo, sendo que não o interpretaremos como sinônimo de esporte independente de ser escolar ou institucionalizado, mesmo considerando que o esporte em determinados momentos também pode ser um jogo.

2. DEFINIÇÕES E CARACTERÍSTICAS DO JOGO

Antes de começarmos a apresentar algumas definições e comentários acerca do jogo, apresentaremos a idéia de Paula (1996: p.86) que diz ser o jogo “uma entidade sem definições, pois representa uma busca de satisfação de uma necessidade não material do ser”. Segundo a mesma autora, fazendo analogia com as necessidades vitais, se ficarmos sem alimentação morreremos e se não respirarmos isso também ocorrerá, mas com o jogo é diferente, se não jogarmos a morte não virá e continuaremos vivos. Talvez venha daí a idéia de que o jogo é descartável e supérfluo, porém o prazer que o mesmo provoca o transforma numa necessidade.

A questão do prazer e da alegria também é citada por Macías (2006) que ainda o relaciona com ações humanas destituídas e diferentes de trabalho árduo, já que é visto como uma atividade não-séria por se contrapor ao trabalho, que é visto como sério.

Encontramos no “Miniaurélio séc. XXI: o minidicionário da língua portuguesa”, uma definição para jogo. Neste o jogo é entendido como uma “atividade física ou mental fundada em sistemas de regras que definem a perda ou ganho. Passatempo” (FERREIRA, 2001, p. 408). Isso dá uma idéia de que para o jogo existir é necessário ter um vencedor e conseqüentemente um perdedor. Tal compreensão se mostra limitada e estreita, podendo se adotada no ambiente escolar exacerbar a competição. Com relação a outras perspectivas, está é uma definição reducionista, pois como veremos mais adiante outras definições vão analisar o jogo sob outros prismas, entendendo-o como possuidor de outras propriedades que não a de mera reprodução e possuidor de outras possibilidades que não somente a competição. Esses conceitos serão posteriormente mais aprofundados.

Huizinga (1996) em sua célebre obra “Homo Ludens” apresenta uma definição para o jogo, onde o autor dá a este uma idéia de cultura, distanciando-o do paradigma biológico (que predominava na época) e que ele é mais do que um fenômeno fisiológico ou um reflexo psicológico. O referido autor procura entender o jogo numa dimensão histórica, tentando determinar seu caráter lúdico e ressaltando que ele vai além da esfera da vida humana. Vamos então à definição, onde Huizinga diz que

O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentido de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da vida quotidiana. (Huizinga, 1996, pg. 3)

O autor entende o jogo com elemento da cultura humana, sendo de fato mais antigo que a própria cultura e que os homens, já que é fácil observar que os animais também brincam. Lara e Pimentel (2006) realizaram um estudo sobre a obra de Roger Callois e identificaram alguns pontos de discordância deste autor com Huizinga, como o fato da cultura ser posterior ao jogo. Ainda Lara e Pimentel (op.cit) não entendem o jogo como alheio ao meio social e acreditam que este modifica e é modificado pelas ações do homem, caracterizando-o como “uma atividade livre, separada, incerta, improdutiva, regulamentada e fictícia” (p. 180).

Huizinga (1996) entende o jogo como uma atividade livre, porém afirma que ele possui regras (mesmo que internas e subentendidas, forjadas por seus próprios participantes) que devem ser aceitas e seguidas para a sua realização, que possui uma determinada duração e local específico para ocorrer, mas não atribui ao homem a sua criação. Essa característica livre também é observada por Macías (2006) que cita alguns autores que a identificam no jogo como é o caso do próprio Huizinga, Cagigal, Blanchard e Cheska.

Ao contrário de Huizinga, o Coletivo de Autores1 (1992) o entende como uma invenção do homem, um ato intencional que desperta curiosidade resultando num processo criativo capaz de mudar, mesmo que imaginariamente a realidade e o presente. Ainda o definem como uma forma de expressão corporal que deve buscar desenvolver uma reflexão pedagógica sobre o acervo de formas e representações do mundo que o homem tem produzido no decorrer da história, podendo ser identificado simbolizando vivências historicamente criadas e culturalmente desenvolvidas.

Assim como no Coletivo de Autores, encontramos no PCN (1996) a indicação do jogo como conteúdo da Educação Física, estando presente em um bloco juntamente com os esportes, lutas e ginástica. Há uma visão ampla e muito flexível sobre o tema, entendendo-o como cooperativo ou recreativo, com caráter competitivo, simples passatempo ou diversão. Por ter um caráter de orientação e subsídio para o professor, questiona o ensino por condicionantes e entende o jogo como uma atividade cultural.

Carvalho (1993) vê no jogo condicionantes sociais e econômicos, definindo-o como “um processo pedagógico histórico e social (pg. 47)” e parafraseando Marx, diz que “as crianças não produzem seus. jogos a partir da sua vontade exclusiva, mas a partir de um legado cultural lúdico, produzido historicamente pelas gerações passadas. (pg. 49)”, afirmando que muitas vezes o jogo serve aos interesses hegemônicos das classes dominantes através do desenvolvimento de valores. Este autor com essas idéias descaracteriza teses espontaneístas e dá ao jogo um caráter

1 Pelo fato desta obra ser comumente citada deste modo, decidi também assim faze-lo.

de dependência dos fenômenos exteriores da existência e não do desenvolvimento do cérebro infantil e reforça sua crítica ao jogo desideologizado e despolitizado, entendendo-o como um sistema de representações e esquemas que reforçam uma infância de imitações do real, que é uma fantasia criada pela telerrealidade.

Bracht (1986) também dá peso a essa crítica, ressaltando que “não podemos prescindir de uma análise crítica do papel social da Educação Física em nossa sociedade (p. 62)” e Gadotti (1984) afirma que é melhor um educador manipulador a um incapaz de posicionar-se criticamente.

Dentro desta discussão surge uma nova perspectiva, o fato de o jogo poder conduzir para a autonomia. Galvão (1996) o identifica como um meio apropriado para isso, pois “através dele é possível formar sujeitos capazes de cooperar, de questionar, criticar e transformar”. (p. 118).

Autores como Taffarel (1985) e Kinjnik (2001) corroboram essa idéia de capacitar o aluno a ter autonomia sobre a criação e gestão de seus jogos através da estimulação de atos criativos, considerando suas condições sociais, ambientais e a questão dos materiais disponíveis.

Apesar de contrárias, essas teorias acerca do jogo se encontram no mesmo caminho quando valorizam sua importância na vida e principalmente no desenvolvimento infantil, reforçando-o como fenômeno cultural. Rechia (2006) cita alguns estudiosos, entre eles: Chateau, Vygostsky, Piaget, Huizinga, Wallon e Winnicott que apontaram o jogo como elemento essencial no desenvolvimento e no universo infantil e o próprio Huizinga (1996) diz que apesar de autêntico e espontâneo, o jogo é profundamente sério.

Oliveira (1994) analisa o jogo como uma atividade onde “as pessoas têm oportunidade de se constituírem como tais, reintegrando o cognitivo, psicomotor e afetivo-social num todo. (p. 32)”, sendo por meio do jogo que a criança inicia sua integração social aprendendo a conviver e a se situar no mundo ao qual vive. Já Melo (1989) o define como “uma atividade ou ocupação voluntária, onde o real e a fantasia se encontram” (pg. 61).

Após algumas caracterizações e definições acerca do tema ‘jogo’, recorremos a Kishimoto (1998) que citando Christie (1991) elabora alguns critérios para a identificação de características que sirvam para se distinguir o jogo. A autora inicia com a não-literalidade, onde o sentido habitual é substituído por um novo; depois cita o efeito positivo que o jogo provoca, caracterizado pelo prazer e pela alegria que estimula, tendo o sorriso como sinal de sua exteriorização; há ainda a questão da flexibilidade, pois jogar deixa a criança mais flexível a buscar novas alternativas de ação, já que o jogo reduz a pressão do ambiente e ajuda a criar um clima propício para a investigação de novas soluções para eventuais situações problemas; outra característica importante, é que na criança existe a prioridade do processo de brincar, por esta não visar o produto da ação, mas apenas pensa em brincar, onde brincar e jogar possuem finalidades em si e como disse Freire (1992) a criança é uma especialista em brincar. Outras características apresentadas são a livre escolha e o controle interno, pois “o jogo só pode ser jogo quando selecionado livre e espontaneamente pelas crianças.” (KISHIMOTO, op.cit., p. 06) e quando os próprios jogadores determinam o desenvolvimento dos acontecimentos.

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