Artigo: A Mata Atlântica de Sergipe

Artigo: A Mata Atlântica de Sergipe

1Anais do VIII Congresso de Ecologia do Brasil, 23 a 28 de Setembro de 2007, Caxambu - MG

LANDIM, Myrna Friederichs (mlandim@ufs.br)1; FONSECA, Eliana Lima2;

1ECOS (Núcleo de Ecossistemas Costeiros) - Departamento de Biologia - Universidade Federal de Sergipe., 2Departamento de Geografia, UFRGS, Porto Alegre, RS eliana.fonseca@ufrgs.br

A Mata Atlântica é certamente um dos ecossistemas brasileiros com maior perturbação antrópica e com maiores taxas de ocupação humana de sua área originaldesde o descobrimento. Vários estudos têm enfatizado a grande diversidade de espécies animais e vegetais nela presentes e o risco de sua extinção pelo uso contínuo e crescente dessas áreas e de seus recursos. No Nordeste brasileiro, o relevo menos íngreme permitiu o fácil acesso do homem. O histórico de ocupação do litoral para a extração predatória do pau-brasil (Caesalpinia echinata), inicialmente, e para a cultura da cana de açúcar, que ainda persiste em vastas extensões, propiciou a eliminaçãoquase completa desse ecossistema. Atualmente, com algumas poucas exceções, somente são encontrados fragmentos dispersos, variando em tamanho e grau de conservação. A grande fragmentação das áreas remanescentes de mata atlântica é um dos principais empecilhos à conservação dessas áreas.

Em Sergipe, os fragmentos de Mata Atlântica estão localizados na zona litorânea compreendendo uma faixa de aproximadamente 40 km de largura, situada emtorno de 10o 30' a 11o 30' S e 37o a 38o 30' W. No início do século, 41,07% do total do Estado de Sergipe era ocupado por matas (Campos, 1912). Impactos antrópicos permanecem, sob diferentes formas. Tendo em vista a marcante sazonalidade da região, áreas perturbadas tornam-se mais vulneráveis à queimadas durante a estaçãoseca, dificultando a regeneração natural.

Em levantamentos realizados ao nível nacional, Sergipe, em conseqüência de sua pequena extensão territorial, não parece possuir áreas significativas de mataatlântica. No entanto, apesar da pequena área e da grande fragmentação desses remanescentes, estes são extremamente importantes. Visando subsidiar estratégias de conservação, são essenciais análises conjuntas dos padrões de distribuição espacial desses remanescentes, bem como de sua composição florística.

O objetivo deste trabalho é analisar a fragmentação de áreas de mata atlântica em Sergipe, identificando e quantificando as áreas remanescentes, caracterizando os remanescentes com relação à área florestada e grau de impacto antrópico.

A diversidade florística das áreas remanescentes de mata atlântica de Sergipe vem sendo estudada sistematicamente desde 1995 (LANDIM et al. 1998, LANDIM & SIQUEIRA 2001, RIBEIRO & LANDIM, 2006), estando as exsicatas depositadas no herbário do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Sergipe (ASE).

Mais recentemente foi iniciada a análise da fragmentação através da identificação dessas áreas de imagens do satélite Landsat-7TM, em composição colorida das bandas 3, 4 e 5, na escala de 1:500.0. Os trabalhos de campo prosseguem, sendo todos os pontos localizados no campo com GPS (Global Positioning System) de navegação. Coletas de material florístico são realizadas em áreas escolhidas com base nas imagens. As classes de vegetação referentes à cobertura florestal, delimitadas nas interpretações das imagens, são digitalizadas e quantificadas, sendo este feito usando o programa Spring versão 4.3.1 do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Levantamentos florísticos preliminares realizados em alguns destes remanescentes (LANDIM & SIQUEIRA 2001) indicaram a existência de uma diversidade aindasignificativa nessas áreas. Nelas foram encontradas espécies ameaçadas de extinção, como é o caso de Campomanesia viatoris (LANDIM & LANDRUM, 2002), conhecidaanteriormente apenas por duas coletas, em Alagoas. Os dados resultantes de levantamentos em outros

2Anais do VIII Congresso de Ecologia do Brasil, 23 a 28 de Setembro de 2007, Caxambu - MG fragmentos vêm complementando a caracterização da composiçãomata atlântica de Sergipe. da

A importância dessas áreas não se refere apenas à flora, mas também à sua fauna. Os ainda insuficientes estudos sobre a composição faunística dessas áreasque a sua diversidade é maior do que o forte impacto antrópico sobre elas permitia supor. Recentemente foi descrita uma espécie nova de macaco, Callicebus coimbrai (KOBAYASHI & LANGGUTH 1999), habitando essas áreas. Outras espécies de primatas, como C. barbarabrownae e Cebus xanthosternos, são registradas emcomo criticamente em perigo. vêm revelando Sergipe, constando

A área total da mata atlântica de Sergipe, a partir de imagens de 1997, consiste de cerca de 85.0 ha, aproximadamente 0,04% da área total do estado. No momento, estão sendo obtidas imagens mais atuais, de modo a comparar os resultados de ambos os anos e estimar a provável redução da área de mata atlântica no Estado A análise das imagens demonstra uma grande fragmentação, e uma maior concentração de áreas remanescentes significativas de mata atlântica na região sul do estado. Este fato, somado à presença na região, de populações de C. coimbrai, indicam ser esta uma região propícia para a implantação de novas unidades de conservaçãoEstado. Considerando o contexto local de grande fragmentação, a implantação de unidades de conservação deve levar em conta aspectos como tamanho dos fragmentos, distância entre eles, composição florística e faunística, dentre outros. Mesmo fragmentos relativamente pequenos apresentam significativa diversidade florística e são capazes de sustentar populações de C. coimbrai. Prioridade também será dada aos pontos onde a redução da área coberta for mais intensa, necessitando, portanto, de maiores esforços de fiscalização e atividades de educação ambiental. no

Devido à grande redução da área dos fragmentos existentes, estratégias de conservação devem contemplar o estabelecimento de corredores ecológicos, visando aumentar o fluxo gênico de espécies vegetais e animais, potenciais polinizadores e dispersores daquelas espécies e, desse modo, agentes e beneficiárias da manutençãoestrutura. No entanto, a definição de corredores ecológicos somente pode ser feita com um maior conhecimento sobre a composição e distribuição das espécies porfragmentos, o que deve ser, ao menos parcialmente, dependente de sua área. São necessários, portanto, a continuidade do levantamento de campo nos fragmentosanálise de novas áreas, principalmente mais ao norte do estado, menos estudado. Além disso, a caracterização da síndrome de dispersão de suas espécies, em andamento, permitirá subsidiar estudos e planos de manejo para as populações de C. coimbrai. desta estudados e a

KOBAYASHI, S. & LANGGUTH, A. 1999. A new species of titi monkey in northeast Brazil. Neotropical Primates 7(3): 8-89.

MAIA, M.M. 1998. Fitossociologia de um remanescente de Mata Atlântica em Sergipe, Mata do Crasto. XLIX Congresso Nacional de Botânica, Salvador, BA. Resumos, p. 411.

LANDIM, M.F. e LANDRUM, L.R. 2002. The genus

Campomanesia (Myrtaceae) in atlantic rain forest fragments in Sergipe, Northeast region of Brazil. SIDA, 20(1):205-214

LANDIM, M. F.& SIQUEIRA, E. R. de. 2001.

Caracterização florística e ecológica da mata atlântica de Sergipe. In: Mata Atlântica de Sergipe. E.R. Siqueira e F.E. RibeiroTabuleiros Costeiros, Aracaju. 132p. (Eds.). Embrapa

RIBEIRO, Lorena Vieira; LANDIM, M. F. 2006.

Análise e caracterização florística de um remanescente de mata atlântica no município de São Cristóvão/SE: subsídios paraestratégias de conservação. In: CD-ROM - Resumos: XXIX Reunião Nordestina de Botânica, Mossoró.

(Financiamento: CNPq)

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