Escorpionismo por Tityus pusillus Pocock, 1893 (Scorpiones; Buthidae) no Estado de Pernambuco

Escorpionismo por Tityus pusillus Pocock, 1893 (Scorpiones; Buthidae) no Estado de...

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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 42(2):206-208, mar-abr, 2009RELATO DE CASO/CASE REPORT

1. Departamento de Zoologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, PE. 2. Programa de Pós-Graduação em Diversidade Animal, Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA. 3. Centro de Assistência Toxicológica, Hospital da Restauração, Recife, PE. Endereço para correspondência: Dra. Cleide Maria Ribeiro de Albuquerque. Departamento de Zoologia/UFPE. Av. Morais Rego s/n, 50570-420 Recife, PE. e-mail: cleide.ufpe@gmail.com Recebido para publicação em 05/01/2009 Aceito em 20/03/2009

Os escorpiões são aracnídeos terrestres bem distribuídos globalmente e com registros de acidentes em todos os continentes onde ocorrem: África33 34, Américas8 14 15 16, Ásia2, Europa1 30 e Oceania19 20.

O escorpionismo tornou-se um problema de saúde pública em alguns países pela alta incidência e/ou gravidade dos casos, e dificuldade de gestão pelos serviços de saúde, ultrapassando 1.200.0 casos anuais com mais de 3.250 mortes no mundo12. No Brasil, diversas espécies de escorpiões podem provocar acidentes, sendo estas pertencentes principalmente ao gênero Tityus C.L. Koch, 1836, destacando-se as espécies Tityus serrulatus Lutz & Mello, 1922, Tityus bahiensis (Perty, 1833) e Tityus stigmurus (Thorell, 1876)4 10 13 17 18 como as principais responsáveis pelos acidentes que podem levar a óbito. Embora com menor intensidade, casos de escorpionismo por outras

Escorpionismo por Tityus pusillus Pocock, 1893 (Scorpiones; Buthidae) no Estado de Pernambuco

Scorpionism caused by Tityus pusillus Pocock, 1893 (Scorpiones; Buthidae) in State of Pernambuco

Cleide Maria Ribeiro de Albuquerque1, Tiago Jordão Porto2, Maria Lucineide Porto Amorim3 e Pedro de Lima Santana Neto1

Apresentamos neste trabalho os primeiros relatos de acidente escorpiônico causado pela espécie Tityus pusillus (Buthidae). Os acidentes ocorreram no ambiente doméstico, na área rural situada nas Cidades de Paudalho e São Lourenço da Mata, Pernambuco, Brasil. Os dois casos descritos, uma criança e uma mulher grávida, foram classificados como leve e moderado, respectivamente. Os sintomas clínicos apresentados foram distúrbios locais (dor e parestesia) e distúrbios sistêmicos (calafrios, tontura, cefaléia e vômito). Esses registros permitem incluir Tityus pusillus como uma espécie de importância médica no Brasil.

Palavras-chaves: Acidente escorpiônico. Envenenamento. Pernambuco.

This paper presents the first reports on scorpion accidents caused by Tityus pusillus (Buthidae). The accidents took place within the home environment, in rural areas located in the municipalities of Paudalho and São Lourenço da Mata, Pernambuco, Brazil. The two cases described (a child and a pregnant woman) were classified as mild and moderate, respectively. The clinical symptoms presented were local disorders (pain and paresthesia) and systemic disorders (chills, dizziness, headache and vomiting). These records make it possible to including Tityus pusillus as a species of medical importance in Brazil.

Key-words: Scorpion accident. Poisoning. Pernambuco.

espécies têm sido relatados na região Nordeste, incluindo acidentes com outros gêneros além do Tityus. Dentre estas encontram-se Bothriurus asper Pocock, 1893, Rhopalurus rochai Borelli, 1910, Tityus neglectus Mello-Leitão, 193221, Isometrus maculatus (DeGeer, 1778), Tityus mattogrosenssis Borelli, 19017 21, Tityus brazilae Lourenço & Eickstedt, 19847 9 21 e Rhopalurus agamemnon(C.L. Koch, 1839)1. Os acidentes causados por essas espécies têm sido classificados como leve ou moderado com base nas manifestações clínicas apresentadas pelos pacientes.

Em geral, a gravidade dos acidentes escorpiônicos depende de fatores como a espécie e tamanho do escorpião, a quantidade de veneno inoculado, a massa corporal do acidentado e a sensibilidade do paciente ao veneno18. A maior parte desses sintomas e sinais clínicos é causada pela liberação de adrenalina, noradrenalina e acetilcolina decorrente da atuação da toxina do veneno em sítios específicos dos canais de sódio31 32. Outros fatores como, o tempo decorrido entre a picada e a administração do soro e a manutenção das funções vitais podem interferir na evolução e no diagnóstico precoce18.

Apresentamos neste trabalho o relato dos dois primeiros casos de envenenamento atribuídos a Tityus pusillus, ocorridos no Estado de Pernambuco, contribuindo para a ampliação do registro de espécies de interesse médico no Brasil.

Albuquerque CMR cols

Caso 1. Paciente do sexo feminino, com idade de 23 anos, gestante de sete meses, com história de picada de escorpião em mão esquerda ocorrido no domicílio 3 horas antes do atendimento no Hospital da Restauração (HR) no setor do Centro de Assistência Toxicológica de Pernambuco (CEATOX), no dia 8 de julho de 2007. A paciente referiu ter apresentado calafrios, tontura, cefaléia e vômito. O acidente ocorreu no município de São Lourenço da Mata, distante 18km ao norte da Cidade do Recife, Estado de Pernambuco. O tratamento incluiu a administração de 2ml de dipirona endovenosa para alívio da dor. De acordo com a sintomatologia relatada para acidentes escorpiônicos18, o caso analisado foi classificado como moderado.

Caso 2. Criança de 1 anos, sexo feminino, deu entrada no

CEATOX do HR no dia 27 de setembro de 2007, com história de picada de escorpião na parte superior da coxa esquerda, há 4 horas, referindo dor e dormência no local. O acidente ocorreu na residência do paciente, município de Paudalho, localizado a cerca de 40km do Recife, Estado de Pernambuco. O tratamento incluiu uso de anestésico local com xilocaína. O paciente foi liberado 12 horas após o acidente, o qual foi classificado como leve, de acordo com o quadro clínico conhecido para acidentes com escorpiões18.

Os exemplares dos escorpiões responsáveis pelos acidentes descritos nesse trabalho foram capturados e levado pelos pacientes ao CEATOX, sendo identificados como Tityus pusillus, com base em Lourenço (1982) (Figura 1). Os espécimes encontram-se depositados na Coleção de Aracnologia da Universidade Federal da Pernambuco (UFPE). De acordo com Lourenço 1982, Tityus pusillus apresenta colorido geral amarelado com manchas pretas por todo o corpo, com cerca 4cm de comprimento total23. Sua ocorrência tem sido registrada para os Estados da Bahia (TJ Porto: dados não publicados), Pernambuco23 e Paraíba25. A fauna escorpiônica do Estado de Pernambuco ainda é pouco conhecida, havendo registro da ocorrência de 13 espécies: Bothriurus asper e Bothriurus rochai29, Ananteris franckei e Ananteris mauryi25, Isometrus maculatus25, Physoctonus debili26, Rhopalurus agamemnom e Rhopalurus rochai25, Tityus anneae24, Tityus brazilae (TJ Porto: dados não publicados), Tityus neglectus27, Tityus pusillus23 e Tityus stigmurus17.

O registro de Tityus pusillus em Pernambuco foi feito com base em exemplares coletados na região de Igarassu, em ambiente natural de Mata Atlântica, refugiado sob pedra23. Os espécimes responsáveis pelos acidentes analisados nesse trabalho foram provenientes dos municípios de Paudalho e São Lourenço da Mata, ambos possuindo áreas de mata. Paudalho apresenta vegetação constituída de matas secundárias e dispersos resquícios de Mata Atlântica primitiva5 e limita-se ao sul pelo município de São Lourenço da Mata, localizado na microrregião conhecida como Floresta Tropical da Encosta. Originalmente, essa região tem vegetação característica de floresta tropical, a qual tem sido sistematicamente destruída para o plantio da cana de açúcar,

FIgURA 1 Vista dorsal do Tityus pussilus adulto.

monocultura quase exclusiva da região6. Esses registros sugerem que alterações ambientais como a fragmentação do hábitat original de Tityus pusillus, podem aumentar a incidência de encontros deste escorpião com o homem, ocasionando uma elevação no número de acidentes.

Até o presente, os casos de envenenamento no Estado de Pernambuco têm sido associados unicamente a Tityus stigmurus17, escorpião endêmico do Nordeste do país, registrado para áreas com alta densidade populacional4 18 2. Esse fato pode ter três possíveis explicações: em geral, o acidentado procura atendimento médico somente quando os sintomas do envenenamento são graves; o paciente, na maioria das vezes, não captura o escorpião causador do acidente; ou o espécime apresentado não é identificado28.

O quadro clínico considerado leve e moderado observado nos acidentes registrados nesse trabalho mostrou-se similar ao causado por outras espécies, como Tityus adrianoi3 e Tityus stigmurus21. Nesses casos é comum o relato de dor no local da ferroada pelos pacientes logo após o acidente e parestesia na área atingida21.

Esse trabalho registra uma nova espécie de escorpião responsável por acidente em humanos em Pernambuco e sugere que alterações no habitat de Tityus pusillus podem elevar o número desses acidentes.

Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 42(2):206-208, mar-abr, 2009

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