Planejamento e uso da terra

Planejamento e uso da terra

(Parte 1 de 6)

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA SUPERIOR DE AGRICULTURA “LUIZ DE QUEIROZ” Campus de Piracicaba

LSN 401 - CIÊNCIA DO SOLO IV – Outubro 2003

Parte 3 Planejamento do uso da terra

Prof. Dr. J. Alexandre Demattê Departamento de Solos e Nutrição de Plantas

Assuntos abordados

Capítulo 1: Levantamento e mapeamento de solos Capítulo 2: Avaliação do Uso da Terra Capítulo 3: Geoprocessamento no planejamento do uso da terra

2 Capítulo 1: Levantamento e mapeamento de solos

1. Introdução, objetivos, utilidades Para iniciar um planejamento racional de uma área e poder obter boas produções, a primeira fase refere-se ao conhecimento dos solos, especificamente o seu levantamento, classificação e mapeamento.

É importante levar em consideração a terminologia dos termos levantamento de solos e mapeamento de solos. Estes frequentemente são utilizados como sinônimos. Por outro lado, apesar de terem íntima relação, apresentam algumas caracteríxticas diferentes. Levantamento significa ‘obter”. Levantamento de solos portanto é obter informações sobre os solos. Estas informações podem ser das mais variadas, desde informações de campo, analíticas até o mapa de solos, portanto, um termo abrangente. Mapeamento significa mapear, detreminar a distribuição espacial de algo. No caso seria o mapa de solos. O termo é mais adequado quando utilizado de maneira mais restritiva, relacionado ao mapa propriamente dito.

Um levantamento pedológico é uma pesquisa de campo e laboratório, cuja síntese é o registro de observações, análises e interpretações de aspectos do meio físico, visando a caracterização e a classificação destes.

Cada unidade de mapeamento delineada em um mapa, possui um conjunto de propriedades inter-relacionadas que a distinguem das outras. Este conjunto de propriedades é o que caracteriza um levantamento pedológico durável, que pode ser interpretado para diversos fins, em qualquer época, sempre que surjam propostas de uso e planejamento da terra. Enfim, essas informações são essenciais na avaliação do potencial ou das limitações de uma área, constituindo a base de dados para estudo de viabilidade técnica e econômica de projetos e palnejamento do uso, manejo e conservação de solos.

O elo entre a classificação de solos e o levantamento fica estabelecido no momento em que os solos semelhantes são reunidos em classes, que, por sua vez, combinadas com informações e relações do meio ambiente, constituem a base fundamental para a composição das unidades de mapeamento, cuja distribuição espacial, extensão e limites são mostrados em mapas.

Os levantamentos pedológicos têm objetivos diversificados, desde a geração de conhecimentos sobre o recurso solo de um país ou regiões, até o planejamento de uso da terra para diversos fins, em nível de propriedade. O objetivo principal é subdividir áreas heterogêneas em parcelas homogêneas, que apresentem a menor variabilidade possível, em função dos parâmetros de classificação e das características utilizadas para a distinção dos solos.

Os levantamentos de solos são bases ideais para a previsão de uso dos solos, podendo evitar que áreas inaptas para a exploração agropecuária e outras atividades sejam desmatadas ou alteradas em suas condições naturais de equilíbrio. Também servem para geração dos chamados grupos de manejo de solos, ou seja solos com classificações diferentes, porém manejo iguais. Os levantamentos um dos parâmetros que devem ser levados em consideração no talhonamentode determinada cultura; na alocação de variedades; no auxílio do planejamento para fins de fertilidade.

Em países mais desenvolvidos, os levantamentos pedológicos são executados de maneira planificada, obedecendo a uma programação de governo, para atendimento de projetos globais ou específicos, envolvendo o uso agrícola e não agrícola, conservação e recuperação dos solos, decisãoes localizadas em construção civil, expansão urbana, irrigação, drenagem, planejamento de uso, manejo e conservação de solos. O Brasil devido a uma série de fatores, entre eles, econômicos, políticos e de mão de obra especializada, apresenta poucos dados cartográficos de solos compatíveis com as necessidades reais dos planejamentos agrícolas.

2. Mapas base utilizados em levantamentos de solos Mapa base é o um termo que serve para designar todo e qualquer material que possa ser usado como base para realizar o levantamento de solos. Este mapa base deve ter, no mínimo, informações que permitam se localizar na área. Esses mapas podem ser mais ou menos úteis para o levantamento, o que irá depender da qualidade e número de informações que ele der. A função do mapa base e a de fornecer a base para a elaboração do mapa. A escala desse mapa irá influenciar o nível de mapeamento de solos, conforme descrito adiante.

Diversos mapas base podem ser utilizados num levantamento de solos, entre eles, as fotografias aéreas, as imagens orbitais, as imagens de radar e as cartas topográficas (planialtimétricas).

Um dos mapas base mais comuns utilizados em levantamentos de solos, refere-se às cartas topográficas. Através das curvas de altimetria ou planimetria, pode-se localizar facilmente uma área. Esse material é obtido através do uso de aparelhos topográficos. As curvas de nível obtidas permitem uma visualização da declividade do terreno e consequentemente dos limites preliminares dos solos.

3 3. Unidade taxonômica e unidade de mapeamento

O elo entre a classificação de solos e o levantamento, fica estabelecido no momento em que solos semelhantes são reunidos em classes, que por sua vez, combinadas com informações e relações do meio ambiente, constituem a base fundamental para a composição de unidades de mapeamento, cuja distribuição espacial, extensão e limites, são mostrados em mapas.

De maneira geral, um levantamento identifica e separa unidades de mapeamento. É constituído, na sua forma final, por um mapa e um texto explicativo, que define, descreve e interpreta, para diversos fins, as classes de solos componentes de unidades de mapeamento. É importante então, entendermos as definições de classe, unidade de mapeamento e unidade taxonômica.

Classe: grupamento de indivíduos semelhantes quanto às propriedades consideradas. Uma classe de solos, refere-se a uma unidade de mapeamento simples, ou uma unidade taxonômica simples.

Latossolo Vermelho Escuro distrófico

Unidade de mapeamento: grupamento de áreas de solos, criado para possibilitar a representação cartográfica e mostrar a distribuição espacial dos solos.

Esta é uma unidade taxonômica, que está caracterizando uma unidade de mapeamento simples, que neste caso é o
Latossolo Vermelho Escuro distrófico
Neste caso temos duas unidades taxonômicas, Latossolo Vermelho Escuro distrófico e Latossolo Vermelho Amarelo

eutrófico, que representam uma unidade de mapeamento combinada tipo associação

Unidade taxonômica: teoricamente, uma unidade taxonômica é constituída por solos de uma só classe.

Pelas características observadas num perfil representante da área, caracterizou-se taxonomicamente de Latossolo Vermelho Escuro distrófico. Este perfil refere-se a unidade taxonômica, que está representando toda a área delimitada, denominada de LEd, que é uma unidade de mapeamento simples, ou ainda uma mesma classe de solo

4. Tipos de levantamento Os levantamentos pedológicos são executados para atender a diversos objetivos, por isso, variam quanto a escalas cartográficas, densidade de observações, composição das unidades de mapeamento e precisão das informações apresentadas. A escolha do nível de levantamento vai depender diretamente do objetivo do trabalho, que deve ser definido antes desta escolha.

O quadro 1.1 apresenta um resumo dos tipos de levantamentos existentes e suas principais características. A diferenciação básica entre eles, é ilustrada na figura 1.3.

5 Figura 1.1. Representação do pedon e do polipedon.

Figura 1.2. Início da formação dos vales.

6 Quadro 1.1. Diferenças básicas entre os tipos de levantamentos pedológicos (Fonte: Embrapa, 1995).

5. Legenda e Métodos de prospecção

Ao iniciar os trabalhos de levantamento pedológico de uma área, normalmente é programada uma vistoria geral da mesma, com o propósito de se identificar unidades de mapeamento e estabelecer correlações destas com diversas feições da paisagem. Este procedimento visa a elaboração da legenda preliminar, que servirá de guia de identificação dos solos durante o mapeamento. Com o decorrer dos trabalhos de campo, a legenda passa por modificações, adaptações e atualiações, à medida que novas unidades são constatadas ou descartadas. Legenda, portanto, são os nomes dos solos da área, como por exemplo os Latossolos, Podzólicos e Areias Quartzosas.

Os métodos de prospecção utilizados em levantamentos pedológicos visam a coleta de dados, descrição de características dos solos no campo e a verificação de limites entre unidades de mapeamento. Os métodos usuais compreendem investigações ao longo de transeções, estudos de topossequências, sistema de malhas e o método de caminhamento livre.

6. Densidade de observações Densidade de observação é o número de observações realizadas por área. Não há consenso quanto à densidade de observações estabelecida para levantamentos pedológicos. No entanto, são registrados números que variam de 0,25 a 5 observações por cm2 de mapa. Todos concordam que são números teóricos e que a densidade de observações é função do tipo de levantamento, da escala de mapeamento, da extensão e da homogeneidade ou heterogeneidade da área de trabalho. Existem três tipos de observações importantes para a adequada realização de um mapa de solos: a) Observações para classificação dos solos b) Observações para verificação de limites entre as unidades de mapeamento com análises em laboratório c) Observações para verificação de limites entre as unidades de mapeamento sem análises em laboratório, somente em campo d) Obaservações especiais

De maneira geral recomenda-se levar em consideração os seguintes valores:

Levantamento detalhado: 0,2 a 4 obs/ha Semidetalhado: 0,02 - 0,2 obs/ha Reconhecimento: 0,04 - 2,0 obs/km2 Exploratório: menos de 0,04 obs/km2 Esquemático: sem especificação

A densidade de observações é estimada em função da escala de mapeamento, do nível e objetivos do levantamento, do grau de heterogeneidade ou uniformidade da área de trabalho e da eficiência da análise de geoprocessamento disponíveis. Geralmente, as interpretações criteriosas de produtos de sensores remotos reduzem significativamente a densidade de observações.

7. Escala de trabalho e Área mínima mapeável A escala do material básico deve ser selecionada, tendo em vista a compatibilização cartográfica entre níveis de detalhe ou generalização previstos para o levantamento e o mapa final a ser apresentado. Geralmente a escala do material básico é maior que a escala de publicação. A escala final de publicação ou apresentação de mapas pedológicos é geralmente decidida na fase de planejamento do levantamento e é função dos objetivos, das necessidades dos usuários, do grau de detalhamento desejado e do nível de conhecimento disponível.

Área minima mapeável é, por definição, deeterminada pelas menores dimensões que podem legivelmente delineadas num mapa, sem prejuízo da informação gerada nos trabalhos de campo, o que corresponde, na prática, a uma área de 0,4 cm2 (0,6 x 0,6 cm). A equivalência desta área de desenho no mapa, com a área corresponde no terreno, é em função da escala de apresentação final do mapa.

8. Caracterização analítica e amostragem É necessário coletar amostras de terra nos locais deteminados pelo método da prospecção. Em cada local deve-se coletar amostras de terra em pelo menos três profundidades diferentes, sendo 0-20 cm, 40-60 e 80-100 cm. Geralmente utiliza-se o trado, sendo o holandês o mais utilizado. É necessário que sejam realizadas análises de solos nestas amostras. Os dados analíticos têm cinco funções fundamentais, sendo elas: Caracterização dos solos; determinação de propriedades essenciais; definição e estabelecimento de limites; obtenção de dados essenciais para fins de previsão de uso, manejo e conservação, manejo da água; Estudos de gênese e formação dos solos.

As análises de laboratório têm mais validade e maior utilidade, quando as amostras são de solos representativos, adequadaemente descritas e precisamente localizadas na paisagem, de preferência georreferenciadas.

Geralmente são necessárias análises químicas e granulométricas. Análises específicas como do ferro e curvas de retenção também podem ser utilizadas. A escolha dos tipos de análise depende dos objetivos e da área a ser trabalhada.

Alguns dos parâmetros importantes na avaliação dos solos são: pH; bases extraíveis; matéria orgânica; capacidade de troca de cátions, saturação por bases; saturação por alumínio; fósforo assimilável; carbono orgânico; ataque sulfúrico com ênfase no Fe2O3 e Ki; mineralogia das frações areia e argila; classes de textura.

9. Sequência geral para o levantamento e mapeamento de solos

A seguir é descrito a sequência básica para o levantamento e mapeamento de solos. Maiores informações, pode-se consultar Embrapa (1989), Prado (1995) e Embrapa (1995).

a. Definição dos objetivos. Obtenção do material pré-existente sobre a área, como o histórico, mapas base, mapas de solos pré-existentes.

b. Observação geral da área no campo. Verificar as condições de relevo.

c. Marcar, no mapa base, locais para realização de tradagens. Essa marcação deverá ser realizada sempre partindo das partes altas para as mais baixas. O objetivo é determinar onde está havendo diferença de solos. Portanto, tais marcações devem ser em forma de transceções.

d. Coletar amostras de solo nas posições das tradagens. Geralmente, realizam-se coletas à 3 profundidades: 0-20, 40-60 e 80-100 cm. Anotar também algumas características para cada profundidade como: cor, textura, presença cascalhos.

(Parte 1 de 6)

Comentários