POR UMA GEOGRAFIA DO PODER - Claude Raffestin

POR UMA GEOGRAFIA DO PODER - Claude Raffestin

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POR UMA GEOGRAFIA DO PODER* Claude Raffestin

Crítica da geografia política clássica

I -Nascimento da geografia política

Paradoxalmente, quanto mais jovens as ciências do homem, mais tentadas elas são a estabelecer sua genealogia. Ninguém espera uma exposição histórica no início de um trabalho de física. Em contrapartida, em se tratando de sociologia, de ciência política ou geografia, as referências a uma filiação não causam estranheza. Os historiadores das ciências do homem se permitem esforços muitas vezes consideráveis para buscar no passado as origens dessas disciplinas. Por muito tempo, todos esses discursos históricos tiveram por objetivo antes mostrar a existência de uma continuidade que fundamentar a identificação de "momentos" epis-temológicos. A geografia política não escapou dessa tradição e descobriu, de Heródoto a Ratzel, uma infinidade de ancestrais, tais como Platão, Aristóteles, Botero, Bodin, Vauban, Montesquieu, Turgot etc., para só citar alguns que, por uma razão ou por outra, foram chamados a testemunhar a antiguidade do projeto político em geografia.

Não se trata aqui, em absoluto, de desvalorizar esse género de pesquisa erudita indispensável à compreensão de uma génese, mas nos parece ainda mais significativo, ao menos para o nosso propósito, destacar os "momentos mais densos" da epistemologia geográfica. Não abriremos um debate para saber se uma epistemologia da geografia é possível, e no entanto seria necessário fazê-lo, na medida em que muitos epistemólogos, a partir de Piaget,não reconhecem um estatuto epistemológico para a geografia. É particularmente revelador que Piaget não considere a geografia humana uma ciência "nomotética". O que surpreende ainda mais porque a geografia, da mesma forma que a economia ou a demografia, por exemplo, com menos sorte talvez, procura descobrir "leis". Seja como for, postulamos a existência de uma possível epis-temologia da geografia, em razão de sua própria busca de "leis", quantitativas ou não.

Somos encorajados nesse caminhopela geografia política, ela própria fundada de fato, em toda a sua amplitude, por Ratzel, em 1897. Todo o projeto ratzeliano é sustentado por uma concepção

*. Capítulos relevantes do livro.

nomotética, e pouco importa, nesta fase da análise, saber se ela-foi ou não bem-sucedida. A obra de Ratzel é um "momento epistemológico", quer se trate de sua Antropogeografia ou de sua Geografia política.

a geografia política, algo que às vezes ocorreuO próprio Ratzel recuou e reconheceu que a

Ratzel está num ponto de convergência entre uma corrente de pensamento naturalista e uma corrente de pensamento sociológica que a análise atenta de suas fontes revelaria. Ainda que isso seja difícil, pois Ratzel, excetuando-se algumas notas e observações, quase não nos fornece referências. Contudo, no decorrer de sua obra é relativamente fácil descobrir aquilo que buscou nas ciências naturais, naetnografia, na sociologia, e sobretudo na história. Sem dúvida, Ratzel foi influenciado por historiadores como Cur-tius e Mommsen, por geógrafos como Ritter e Reclus, mas igualmente por um homem como Spencer, que o fez descobrir a lei do desenvolvimento,mais tarde retomada por Darwin. Foi também influenciado pelo rigor quase matemático de um Clausewitz. O quadro conceituai de Ratzel é muito amplo e tão naturalista quanto sociológico, mas seria erróneo condená-lo por ter "naturalizado" comparação do Estado com organismos altamente desenvolvidos não era produtiva. Insistindo no Estado, na circulação e na guerra, ele revela preocupações e sobretudo uma perspectiva sociopolítica que pouco se satisfariam com uma simples demarcação dos métodos puramente biológicos.

Pode-se considerar a segunda edição a obra-mestra que não somente orientou e influenciou a escola alemã, mas também, de diferentes maneiras, todas as outras escolas da geografia. Não queremos dizer que os autores que seguiram Ratzel sejam seus epígonos, mas simplesmente que a obra ratzeliana, lançando as bases da geografia política, traçou um quadro no qual ainda se pode trabalhar mesmo quando a ela nosopomos como foi o caso da escola francesa. Ratzel propôs toda uma série de conceitos, sendo que alguns foram bastante difundidos, e outros, menos. Um breve apanhado da contribuição ratzeliana se revela indispensável para compreendermos como a geografia política nasceu e como se desenvolveu a partir daí.

Ratzel partiu da ideia de que existia uma estreita ligação entre o solo e o Estado. Trata-se de uma ilustração política daquilo que se chamou de determinismo, que teve seus defensores e seus detratores inflamados. Este não é o lugar apropriado para se reto-, mar essa velha disputa, que só teria interesse histórico. Contudof é interessante mostrar que essa relação entre solo e Estado inaugurou uma tendência nomotética na geografia que o famoso pro-babilismo francês não soube substituir. Não soube, na medida em que os instrumentos que se deveriam mobilizar, a saber os da estatística probabilística, pelo menos durante meio século não fizeram parte do arsenal metodológico da geografia.

Para Ratzel, o elemento fundador, formador do Estado, foi o enraizamento no solo de comunidades que exploraram as poten-cialidades territoriais. A análise ratzeliana se desenvolveu tanto sincrônica como diacronicamente, vindo daí o recurso a historia--dores. Ratzel viu muitobem o papel e a influência que poderiam desempenhar as representações geográficas, assim como as ideias religiosas e nacionais na evolução do Estado. Mas, sem dúvida, ele concentrou os seus esforços nos conceitos espaciais e, em particular, na posição, que é um dos conceitos fundamentais da geografia política. Também as fronteiras, na qualidade de órgãos periféricos do Estado, durante muito tempo prenderam sua atenção. Daí ter procurado distinguir o significado das zonas de contato, terra-mar, por exemplo, de mares, de montanhas e planícies, sem esquecer as dos rios e dos lagos. Da mesma forma, não negligenciou o estudo da população e da circulação, concebida como movimento dos seres e das coisas.

Quando consideramos mais de perto alguns dos conceitos utilizados por Ratzel, ficamos admirados com a sua modernidade. Bastaria lembrar o crescimento diferencial, o centro e a periferia, o interior e o exterior, a vizinhança, entre outros. Os estudos contemporâneos sobre a alometria deram uma base matemáticaao conceito de crescimento diferencial, enquanto os economistas, mas não somente eles, se apropriaram dos conceitos de centro e de periferia. Sem dúvida esses conceitos foram desviados de seu sentido primitivo, que para Ratzel era espacial, mas não se pode negar que tenham servido para expressar estratégias realizáveis no espaço.

A obra de Ratzel é muito abrangente, mas isso foi esquecidoe redescoberto por vezes,

sessenta anos mais tarde. A perspectiva aberta por ele foi muito ampla, e durante vários decénios o programa da geografia política não foi de fato modificado em profundidade. Pode-se mesmo afirmar que nos contentamos em explorar a "mina ratzeliana". O que pode parecer novo é aquilo que Ratzel, voluntária ou involuntariamente, deixou na sombra. Com efeito, se levarmos em consideração apenas os quadros conceituais, deixando de lado as" transformações que intervieram no globo desde o início do século X e, por outro lado, os progressos metodológicos realizados em geografia política pelo uso da linguagem lógico-matemática, descobre-se que o pensamento da geografia política atual flui, grosso modo, nos mesmos moldes que os de Ratzel. O que significa que houve um enorme trabalho de reprodução, atualizado nos conteúdos, mas um modesto trabalho de invenção, ou seja, uma medíocre atualização das formas. Se Ratzel abrisse hoje os manuais de geografia política geral, não se sentiria deslocado —exceto por algumas fórmulas e índices —, pois encontraria as categorias de análise utilizadas ou forjadas por ele. Essas categorias de análise seriam aliás procedentes, direta ou indi-retamente, de um único conceito, o de Estado: "Ninguém jamais viu o Estado. Quem poderia, no entanto, negar que ele seja uma realidade?".

realidade em ato da Ideia moral objetiva"Habitualmente ele tem sua existência imediata na consciência

Certamente, Ratzel não negou que o fosse! Até contribuiu muito para afirmá-lo no domínio geográfico. É mesmo a única realidade, por representar o fato político, como é visto por Ratzel. Mas que Estado é esse privilegiado por Ratzel? É o Estado moderno ou Estado-nação. Melhor dizendo, Ratzel só faz geografia a partir de uma dessas "conformações históricas possíveis pelas quais uma coletivïdade afirma sua unidade política e realiza seu destino". De fato, não pode haver dúvida sobje isso: "Quem diz poder ou autoridade, não diz Estado". Para Ratzel, tudo se desenvolve comose o Estado fosse o único núcleo de poder, como se todo o po-aer estivesse concentrado nele: "É preciso dissipar a frequente confusão entre Estado e poder. O poder nasce muito cedo, junto com a história que contribui para fazer". Dessa forma, Ratzel introduziu todos os seus "herdeiros" na via de uma geografia política que só levou em consideração o Estado ou os grupos de Estados. Veremos em seguida o significado propriamente geográfico dessa escolha, mas antes é necessário perguntar por que Ratzel escolheu esse caminho. O próprio Ratzel não dá nenhuma explicação, mas podemos analisar o contexto no qual ele viveu. A Alemanha do século XIX achava-se mergulhada no contexto hegeliano. Não saberíamos dizer se Ratzel aderiu à concepção hegeliana, no entanto é certo que toda a sua geografia política revela que "o Estado é a de si, e sua existência mediata no saber e na atividade do indivíduo, sendo que este último tem, em contrapartida, a sua liberdade substancial ligada ao Estado, como se fosse a sua essência, como finalidade e como produto de sua atividade9. O peso do Zeitgeist não deve ser subestimado. Em todo caso, Ratzel na sua geografia política, faz eco ao pensamento do século XIX que racionaliza o Estado. Dá ao Estado sua significação espacial, "teoriza-o" geograficamente. Aliás, nisso ele foi influenciado por uma longa tradição filosófica que encontrou em Hegel o seu mais brilhante representante: "[...] entre os primeiros teóricos políticos da Europa —Hobbes, Spinoza, Rousseau —, o Estado-nação ainda mal se distingue da cidade- Estado, porque o povo, a nação e o Estado se confundem. Já Hegel estabelece uma relação racional entre esses termos".

A partir do momento em que o Estado = ao político, a categoria do poder estatal sendo superior a todas as outras, o Estadopode vir a ser a única categoria de análise. Dizer que o Estado é a única fonte do poder é, como dissemos, uma confusão, mas também um discurso metonímico. Ou o Estado detém o poder e é o único a detê-lo, ou é o poder superior e é preciso construir a hipótese de poderes inferiores que podem agir com ele.

Com efeito, a geografia política de Ratzel é uma geografia do Estado, pois veicula e subentende uma concepção totalitária, a de um Estado todo-poderoso. Involuntariamente, talvez, Ratzel fez a geografia do “Estado Totalitário”, o adjetivo sendo aqui tomado no sentido daquilo que abraça uma totalidade e não no sentido político atual. Mas não nos enganemos com isso; se Ratzel ainda não conhecia o Estado totalitário, no sentido atual do termo, já fazia uma ideia dele e, de fato, por meio da sua geografia, tornou visível o Estado em seu cenário espacial. É verdade que não vemos o Estado, mas é também verdade que o Estado se mostra em todas as formas de manifestações espaciais, da capital à fronteira, passando pelas malhas interiores hierarquizadas e pelas redes de circulação. O Estado pode ser lido geograficamente, e Ratzel forneceu categorias para decifrá-lo: centro versus periferia, interior versus exterior, superior versus inferior etc. A geopolítica, que na verdade é uma geografia do Estado totalitário (Itália, Alemanha, URSS), nada mais teve a fazer que buscar, no conjunto dos conceitos ratzelianos, os instrumentos de sua elaboração.

Só existe o poder do Estado. Isso é tão evidente que Ratzel só faz alusão, em matéria de conflito, de choques entre dois ou vários poderes, à guerra entre Estados. As outras formas de conflito, tais como as revoluções, que colocam em causa o Estado em sua interioridade, não têm lugar em seu sistema. A ideologia subjacente é exatamente a do Estado triunfante, do poder estatal.

Com efeito, todas as escolas geográficas, seja a francesa, a inglesa, a italiana ou a americana, que seguindo a escola alemã fizeram geografia política, ratificaram esses pressupostos filosóficos e ideológicos, no sentido de que não colocaram em causa, de forma alguma, a equação Estado = poder.

Do ponto de vista do "saber científico", qual é o significado geográfico dessa situação? Para começar, se considerarmos apenas o Estado, como é o caso na geografia política geral, só se dispõe de um nível de análise espacial, aquele que é limitado pelas fronteiras. Sem dúvida, pode-se também dispor de uma hierarquia de níveis, os mesmos que o Estado criou para organizar, controlar e gerenciar seu território e sua população. Porém, com o carátercadavez mais integrador e globalizante do Estado, tais níveis aparecem sobretudo como marcos espaciais para difundir o poder estatal em vez de níveis articulados do exercício de poderes inferiores. Isto é, a escala é dada pelo Estado. De certa forma, trata-se de uma geografia unidimensional, o que não é aceitável na medida em que existem múltiplos poderes que se manifestam nas estratégias regionais ou locais. Além disso, o poder estatal é tratado como um fato evidente que não precisa de explicação, uma vez que se encontra nas cristalizações espaciais que manifestam suficientemente a sua ação. É, ao que parece, inferir uma coisa não identificada a partir de sinais que deixa aqui e ali. Enfim, há uma ruptura entre a dinâmica que se pode conceder a esse poder estatal e as formas que se pode observar no campo operatório de um território. Queremos dizer que os sistemas de fluxos diversos que, na origem do poder estatal, contribuem para elaborar essas formas não são muito bem descritos e explicados. Ás coisas mudaram após Ratzel? Estamos mais presos a uma geografia política ou ainda con-:riuamos numa geografia do Estado? É o que tentaremos analisar.

I -Geografia política ou geografia do Estado?

espaço-temporal que contribuem para organizar oupara desorganizar.

Uma verdadeira geografia só pode ser uma geografia do poder ou dos poderes. Para nós, a expressão geografia do poderé bem mais adequada e nós a utilizaremos daqui para a frente. Se dissermos, seguindo Lefebvre, que só existe o poder político, isto significa, levando-se em consideração o que precedeu, que o fato político não está inteiramente refugiado no Estado. Com efeito, se o fato político atinge a sua forma mais acabada no Estado, jsto não implica que não caracterize outras comunidades: "Estudando de forma comparativa o poder em todas as coletividades, pode-se descobrir as diferenças entre o poder no Estado e o poder nas outras comunidades". Para uma discussão do fato político, remetemos a Balandier. Admitimos que há poder político desde o momento em que uma organização luta contra a entropia que a ameaça dedesordem. Esta definição, inspirada em Balandier, nos fazdescobrir que o poder político é congruente a toda forma de organização. Ora, a geografia política, no sentido estrito do termo, deveria levar em consideração as organizações que se desenvolvem num quadro

De uma forma geral, a escola alemã acentuou as tendências manifestadas por Ratzel e revelou certas dimensões latentes nesse autor. Se tomarmos Maull ou Supan não hesitaremos diante do fato de que nos encontramos sobretudo diante de umageografia do Estado bem mais do que de uma geografia política, que daria lugar a outras formas de poder político diferentes daquelas diretamente derivadas do Estado. Maull, de modo bastante sistemático, chegou até a elaboração de uma morfologia dos Estados, colocando em evidência o processo vital de criação estatal. Isso constitui uma cadeia "lógica" de inspiração biológica que lembra, em certos pontos, aquilo que Jones tentou, alguns decénios depois, com sua Unified Field Theory. Fiel ao determinismo, Maull procurará formular leis: dependência causal do homem e da natureza, lei da variabilidade das relações entre a natureza e o ser humano, lei do desenvolvimento, lei da unidade dos efeitos geográficos. Notar-se-á, de passagem, que o determinismo de Maull não é absoluto mas sim relativizado, nem que seja só pela lei da variabilidade das relações entre o homem e a natureza. Maull encerrou uma época sem dúvida marcada por sérios esforços teóricos, na geografia alemã. Supan e Dix seguem essa linha. O primeiro parece mais ligado à quantificação, cujos resultados atraíram a ironia de Ancel, enquanto o segundo se inscreveu numa perspectiva geopolítica. Com a geopolítica, cujo no-' me se deve a Rudolf Kjellen, prepara-se a mundialização do Estado. A Primeira Guerra Mundial não é estranha a esse controle total do Estado. Julien Benda teve boas intuições e analisou o que se tramava: "A guerra política, que implica a guerra entre culturas, é uma invenção própria de nosso tempo, o que lhe assegura um lugar insigne na história moral da humanidade". Esta observação, escrita em 1927, mostra com clareza que o Estado estava em vias de ocupar todo o espaço disponível.

É evidente que, com o aparecimento da geopolítica, estamos iidando com uma ciência do Estado, concebido como um organismogeográfico em constante movimento. É o jogo sem vencedores dos

Estados do século X que começa. Nos anos 30, uma série de autores, sob a direção de Karl Haushofer, elaboraram o pensamento geográfico do Estado nazista, utilizável por qualquer Estado totalitário. Desde então, a geopolítica aparece como uma espécie de geografia aplicada ao Estado. Como estranhar depois o desinteresse de certas escolas pela geografia política, tida nessas condições como de má fama? Golpeada assim, de forma tão vil, a geografia política permaneceu estacionária durante um longo tempo. Ainda que essa geografia não fosse justamente, em nossa opinião, uma verdadeira geografia política mas uma "geografia do Estado". Depois de ser rompida, a tradição alemã serestabeleceu, e uma das últimas obras de Schwind teve o mérito de se apresentar como uma "geografia do Estado".

como postulava implicitamente, a geografia teria conhecido um outro destinoMas não foi assim. Na

Em grande parte, a escola francesa foi criada como reação à precedente. Por outro lado, é mais discreta em suas manifestações. E também é assim, sem dúvida, porque nesse domínio Vidal de Ia Blache só publicou artigos e notas esparsas. A corrente vida-liana, ao relativizar a relação homem—solo, abriu uma'crise no pensamento geográfico. A primeira vítima dessa crise foi talvez Camille Vallaux, que nos parece pouco à vontade após ter rejeitado o determinismo: "Para que ela [a geografia política] seja legítima, basta que a marca dos agentes naturais seja encontrada, senão sempre, ao menos de vez em quando, senão profunda, ao menos discernível no decorrer do desenvolvimento histórico e da evolução dos Estados". Seria possível um maior incómodo, cientificamente falando? Vallaux, de quem esquecemos muito depressa as contribuições originais, concluiu sua obra com a constatação de que não é fácil descobrir, entre o solo e o Estado, laços de causalidade e de interpenetração munidos desse caráter de necessidade, do qual nenhuma ciência pode prescindir. Se a crise aberta por Vidal —que desembocou sobre o que se chamou em seguida de possibilismo —houvessese apoiado no conceito de probabilidade, realidade, a escola francesa, tendo rejeitado —com razão —o determinismo como um todo, conservou contudo a ideia de necessidade, que não é probabilista. Faltaram instrumentos de reconstrução para agir após a crise. Seria necessária toda uma obra sobre o determinismo residual da escola francesa que ainda hoje pode ser observado.

Jean Brunhes, em sua geografia da história, em parte escapou do quadro constrangedor do

Estado. Assim como Albert Demangeon e Emile-Félix Gautier em suas obras que tratam do fenómeno colonial, entre outros. André Siegfried, sob um outro ponto de vista e continuando uma tradição inaugurada por Alexis de Toc-queville, ilustrou o poder político, tal como nós o definimos, mais que o do Estado.

Um dos raros autores que tentou teorizar a geografia política é Jacques Ancel, que Gottmann condena severa e injustamente: "Ainda não seria o caso de qualificar de doutrina uma tentativa infeliz de compromisso entre os métodos franceses e os alemães". Julgamento tanto mais injusto se lembrarmos que o próprio Ancel estigmatizou os erros habituais da geopolítica alemã. Mergulhado na tradição possibilista, Ancel desenvolveu um trabalho nada desprezível em matéria de fronteiras. Não há dúvida de que seus trabalhos envelheceram, mas não deixaram de marcar um momento da geografia política francesa. Após a Segunda Guerra Mundial, somente Gottmann escreveu trabalhos em geografia política que agradaram talvez mais aos historiadores e aos politicólogos que aos geógrafos. Gottmann encontrou-se num cruzamento entre as influências francesas e as anglo-saxônicas. De tal forma que encontramos em seus trabalhos essa combinação de história, ciência política e geografia. Foi glorificado por ter chamado a atenção, em geografia política, para a iconografia e a circulação. Na realidade, isso origina-se, em linha direta, de Ratzel, e Gottmann teve o mérito de redescobrir. Mas Gottmann se aproximou da geografia política: "Só há política onde se pode exercer a ação dos homens que vivem em sociedade". Mas a ideia de poder só é explicitada para o Estado.

Os ingleses e os americanos manifestaram um interesse bem particular pela geografia política.

hereditariedadeNo sentido oposto, homens como Bowman mantiveram uma concepção mais maleável,
worldpoliticalpatternWhittlesey não hesitou em embarcar nessa via, sacrificando até a geopolítica e

Aliás, os americanos continuam a íazé-lo de forma intensa. Deve-se ver nisso o efeito da açao e da cominação que a Inglaterra exercia sobre o mundo na virada do século X e que os Estados Unidos exerceram mais tarde? De qualquer forma, desde 1904 M. J. Mackinder tentou sistematizar em mapas de pequena escala uma visão geistórica do poder, ou mais exatamente do poderio no mundo. Houve e ainda há uma inegável tentação planetária na explicação em geografia política. Conhece-se a fórmula sintética de Mackinder: "Aquele que detém o World Island (Europa, Ásia, África) comanda o mundo". Essas visões prenunciativas da geopolítica, apesar de seu caráter pré-científico —no sentido de que não se apoiam em conceitos explicitados —, não deixaram de seduzir. A esse respeito, é preciso notar também a tentação das explicações monistas, como as de Hunting-ton, que procurou descrever os movimentos políticos a partir das grandes pulsações climáticas. Contestado, ele acentuaria o papel da senão mais justa. Bowman foi guiado pela opinião de que: "as qualidades e as reações mentais do homem mudam pouco". Nessas condições, é fácilcompreender que a filosofia da história subjacente implica que certos fenómenos se repetirão. Além do mais, Bowman abriu a veia inesgotável dos proclamando, por exemplo, que é "natural para o Estado italiano aspirar à hegemonia mediterrânea". Os Estados Unidos, aliás, tiveram alguns representantes em matéria de geopolítica, tais como Spykman e Strausz-Hupé, que contribuíram para desenvolver alguns esquemas de política estrangeira para os Estados Unidos. Boggs e Harts-horne ilustraram tendências mais humanistas, mas sempre profundamente voltadas para o Estado. Boggs, assim como Hartshorne, enriqueceram muito a geografia das fronteiras, quer por ajuste, quer por tipologias. Hartshorne é autor de uma teoria funcional -,., na qual identifica a

"razão de ser" do Estado e as forças centrífugas e centrípetas que podem, respectivamente, incriminar sua existência ou reforçar sua coesão.

Para encerrar este rápido panorama, lembremos que a geografia italiana também não deixou de ilustrar o Estado na qualidade de única fonte do poder político. Toschi, após tantos outros, a ele se curvou25.

De modo.bem genérico, com algumas raras exceções, a geografia política no século X foi uma geografia do Estado. Em certo sentido, uma geografia política unidimensional que não quis ver no fato político mais que uma expressão do Estado. Na realidade, o fato político penetrou toda a sociedade e, sé o Estado é triunfante, não deixa de ser um centro de conflitos e de oposições —em resumo, um lugar de relações de poder que, apesar de dissimétri-cas, não deixam de ser presentes e reais. Mas a geografia do Estado apagou esses conflitos, que apesar de tudo continuam a existir em todos os níveis relacionais que postulam uma geografia políti-, ca multidimensional. Essa geografia do Estado foi um fator de ordem ao privilegiar o concebido, em detrimento do vivido. Só a análise relacional pode ultrapassar essa dicotomia concebido-vivido.

A geografia do Estado foi construída a partir de uma linguagem, de um sistema de sinais, de um código que procede do Estado. Quais são esses sinais? Qual é a linguagem que foi empregada para descrever geograficamente o fato estatal?

I -A linguagem da geografia do Estado

O Estado, neste caso, é o Estado-nação, o mesmo que a cisão política da Revolução Francesa fez emergir. Em suma trata-se portanto de um fenómeno recente, que não tem mais que dois séculos. Mas nem todos os Estados são Estados-nação. Mesmo que o Estado seja tomado como a expressão política da nação, é o Estado na"qualidade de ser político que é, de início definido. Se há um conceito sobre o qual os geógrafos concordam é com certeza o da definição de Estado: "O Estado existe quando uma população instalada num território exerce a própria soberania". Portanto, três sinais são mobilizados para caracterizar o Estado: a população, o território e a autoridade. Toda a geografia do Estado deriva dessa tríade.

Para começar, consideremos o território, segundo uma tradição que não seguiremos depois. Com relação a ele, nos encontramos na presença de dois tipos de códigos: os códigos sintéticos e .os semânticos. O código sintático é constituído por uma série de articulações, tais como a dimensão, a forma e a posição, para considerar apenas estas, por enquanto. Elas obedecem à lógica estrutural de uma combinatória que permite denotar a morfologia geral do território. Mas, tendo a observação empírica prevalecido durante muito tempo sobre a construção teórica em geografia, o alcance dos códigos sintáticos nunca foi percebido nem realmente explorado na geografia política clássica. E, no entanto, se procuramos determinar a ação política dos diferentes Estados ao longo da História, somos forçados a admitir que as estratégias estão marcadas por um ou outro desses elementos sintáticos. Apenas escandindo uma política pode-se tornar plausível a busca de um sistema coerente. A Ingjaterra, até a Segunda Guerra Mundial, colocou a posição no centro de sua estratégia geral. A Rússia, a partir de Pedro, o Grande, também teve essa preocupação. Outros Estados, no entanto, como o Brasil, no século XIX —um século "de disputas fronteiriças —, foram fortemente marcados pela preocupação com a dimensão.

Mas, de um modo paradoxal, a geografia política clássica foi mais incitada a dizer que tal Estado, em termos de território, era pequeno, compacto e marítimo ou grande, alongado e peninsular. No entanto, talvez fosse mais significativo mostrar, ou procurar mostrar, qual aarticulação mantida na estratégia territorial durante um período determinado. A utilização de códigos semânticos do tipo "território grande, marítimo e fragmentado" é frequente. Esses códigos têm um caráter estático que não deve ser negligenciado, mas que dissimula a estratégia ou as estratégias que conduziram a esse resultado. A combinatória de uma estratégia não é dada de chofre, mas é sequencial. Finalmente, esses códigos semânticos são tipos de mensagens que "não estabelecem possibilidades generativas mas sim esquemas já prontos, não formas abertas que suscitam a palavra, mas formas esclerosadas...". Assim, a partir do código sintáti-co pode-se descrever um grande número de territórios, dos quais alguns não são observáveis. Qual o interesse, então? Certamente não no nível da descrição, pois seria difícil descrever aquilo que não existe. O problema está noutro lugar. As possibilidades generativas do código sintático são perfeitamente adequadas para seguir a génese de uma estratégia territorial que não integra vários objetivos ao mesmo tempo. A princípio, uma estratégia pode realizar uma sequência cujo objetivo é atingir uma posição determinada e, em seguida, na "segunda ou terceira sequência, visar a dimensão, por exemplo. Isso para dizer que foi feito um mau usodos códigos sintáticos, quando eram perfeitamente explicitados e, portanto, perfeitamente utilizáveis. Em lugar de uma utilização e de uma exploração que os teriam empurrado para os seus limites extremos por meio do conceito de estratégia procedeu-se a uma transposição matemático-estática. Tentou-se quantificar as formas, as dimensões e também as posições relativas. Chegou-se a isso sem muito esforço, ainda que se tenha, na maioria dos casos, tomado o problema dessa quantificação numa perspectiva geométrica simples e não de um ponto de vista sintético que integrasse os mecanismos habituais do poder, ou seja, não somente o território, mas ainda a população e os seus recursos32. No entanto, só o fato de a quantificação ter se revelado possível já seria motivo para se dar atenção ao interesse desses códigos sintáticos, pois era a prova de que se lidava com elementos de primeira articulação. Na realidade, a quantificação introduziu, nesse caso, precisões inúteis ou supérfluas, ao menos do ponto de vista da problemática morfológica, que durante muito tempo reinou solitária. É ilusão pensar que a passagem do qualitativo ao quantitativo leva a fazer um salto positivo na direção da clareza, uma vez que a problemática permanece idêntica. Oúnico ganho possível éna coerência. Não é de se desprezar, muito pelo contrário, mas é insuficiente.

Co-extensivos de um saber-ver "geométrico", esses códigos sintáticos, pouco significativos em si mesmos —e nisso reside o seu interesse inicial, que não foi percebido —, teriam permitido denotar, se utilizados com prudência, a teoria e a prática das diferentes políticas territoriais, em ligação com a concepção estratégica própria de cada Estado. A percepção territorial do príncipe r.ão é geográfica, no sentido de um valor concreto, o do "terreno",mas geométrica. Não poderia ser de outra maneira, pois trata-se de possuir uma imagem ou um modelo a partir do qual se elabora uma ação: "Armada com sua teoria, pareceria que a estratégia nada mais tem a fazer a não ser voltar-se para o 'terreno', surgindo da observação pura os dados concretos do seu cálculo. Isto não procede, visto que, a priori, a forma teórica determina da mesma forma os marcos essenciais que permitem organizar os movimentos sobre o terreno". O "estrategista" não vê o terreno; mais ainda, só deve vê-lo conceitualizado, senão não agiria. É à distância que sua ação é possível e, desde então, essa distância é a única a criar o "espaço": "O espaço estratégico não é uma realidade empírica...". É, de fato, criado pelo conceito de ação, que pode ser a guerra, mas que também pode ser qualquer tipo de organização, de distribuição, de malha ou de corte. O estrategista não vê o terreno, mas a sua representação. Eis o porquê de esses elementos do código sintético, que sãoa dimensão, a forma e a posição, permanecerem essenciais na linguagem do território, mas devem ser retomados como plano de expressão de uma semiologia conotativa.

Também pertencem à linguagem da geografia política as core áreas, reveladoras da problemática morfofuncional. A core área é a célula a partir da qual o Estado ter-se-ia se desenvolvido. A core área nem sempre existe. Muitos Estados não foram construídos a partir dessa célula primitiva. De qualquer forma, o conceito é útil e foi desenvolvido em tipologias surgidas de códigos semânticos que colocam a tónica sobre o espaço (core área central, periférica ou excêntrica, externa), seja sobre o tempo, seja sobre sua dimensão.

As capitais e as fronteiras que também emergem, tal como foram concebidas, de códigos semânticos constituem articulações da linguagem da geografia do Estado. Pode-se dizer que as capitais são pontos-chave, da mesma forma que as core áreas são regiões-chave. Mas, assim como as fronteiras, que deram lugar a múltiplas classificações, exprimem conformações, produtos de relações quesó aparecem na problemática morfofuncional como resultados que mascaram com frequência as relações de força, ou seja, as relações de poder que as fizeram nascer. Por outro lado, só dizem respeito ao Estado, embora sejam suscetíveis de uma utilização mais ampla, isto é, a cada vez que haja uma relação de poder. Quer queira, quer não, os negros americanos possuem core áreas no Estado americano: são os corações de muitas cidades, de onde partem ações políticas, reivindicações, revoltas etc. Ou seja, todos esses sinais que só serviram para exprimir as formas e as funções do Estado poderiam ser retomados numa problemática relacional e estendidos a todas as relações de poder político nas quais o Estado nunca está ausente, mas pode desempenhar apenas o papel de um referencial.

Enfim, os códigos até aqui mencionados se inserem na consideração do poderio potencial do

Estado. Já foi visto que os sinais geométricos revelam preocupações estratégicas, cujo objetivo éa potência. Contudo, esses sinais que constituem um "discurso" nada mais são do que a imagem da potência. Esta é uma imagem possível, construída a partir de elementos cuja combinação forma classes de índices que estarão, ou não, em correlação com classes de ações efetivamente realizadas. No fundo, a geografia, nesse caso, só produz índices que têm uma probabilidade mais ou menos forte de estarem em correspondência com estratégias reais.

Do mesmo modo, na análise da população a linguagem utilizada é composta por certos signos específicos: número, distribuição, estrutura, composição, para citar apenas os mais representativos. Poder-se-á se notar que são característicos de um ponto de vista coerente em relação àqueles do território, no sentido de que a população é tomada como um recurso. Esses signos servem para identificar e caracterizar a população na condição de fator da potência. Na geografia do Estado, a população perde seu significado próprio, isto é: é concebida, e não vivenciada. Ela só tem significado pela ação do Estado. Seu significado deriva da finalidade do Estado. De fato, se notará que os signos utilizados permitem muito mais definir e exprimir um potencial do que uma identificação diferenciada.

nos tenha habi.ado a pensar assim. É verdade que a densidade exprime uma .stribuiçãomas é

O número exprime uma ideia vizinha à dimensão e, portanto, correlata à potência. Aliás, de sua combinação resulta um "número puro", integrável em qualquer estratégia: a densidade. Seria possível acreditar que a densidade exprime a distribuição, mas tal não é o caso, mesmo que uma certa geografia sempre a mesma! Isso nada tem de original, tal constatação já foi feita por vários autores: "Porém, mais uma . ez, aqui temos o que poderíamos chamar de perigo da média". O que é mais estranho é a maneira que propõe De Blij para sair dessa dificuldade: "Poderíamos sugerir um modelo: o Estado que tem apenas um 'coração', considerando-se os outros fatores inalterados, desfruta de um maior grau de unidade interna do que o Estado que possui diversos focos desse tipo". Seria mais simples acrescentar a cada densidade um índice de concentração que dana uma imagem mais fiel da distribuição. Nesse caso, a quantificação não somente aumenta a coerência como também é útil e significativa.

Quanto à estrutura demográfica, ela exprime uma ideia próxima da de posição. Ela o é, na exata medida em que as repartições por idade e por sexo exprimem uma "posição" demográfica que denota a situação desse "recurso", que é a população.Da mesma forma que para o território, a estratégia do Estado conota a estrutura demográfica a partir de suas finalidades. De uma forma um pouco caricatural, pode-se dizer que uma pirâmide com base larga conota estratégias de "futuro aberto", enquanto as pirâmides de base "estreita" conotam estratégias de "futuro fechado". A generalização é menos excessiva do que poderíamos supor. A França, por exemplo, nesses últimos anos se inquieta —ao menos em certos meios governamentais —com a queda da taxa de natalidade, que coloca em questão a taxa de reprodução. Esses temores são encontrados em níveis ainda mais elevados quando se constata a diminuição relativa da proporção do grupo branco em relação ao grupo amarelo ou negro. É, sem dúvida, um antigo temor, uma história antiga mas que parece sempre atual!

A composição da população, quer seja considerada do ponto de vista étnico, linguístico ou religioso, é com frequência abordada por meio da categoria homogeneidade versus heterogeneidade. A homogeneidade é, nesse caso, percebida como uma condição favorável à sobrevivência do Estado, enquanto a heterogeneidade é tida como uma condição mais desfavorável. Em outras palavras, a estratégia do Estado visa a homogeneidade, e é este o motivo da adequação dos índices de diferenciação. Trata-se, é certo, de uma "leitura estatal". O Estado que procura unificar, tornar idêntico por todos os meios. O Estado teme as diferenças e, em consequência, só quer ver uma face das coisas.

A linguagemda autoridade, da soberania, não deixa de ser menos reveladora. Em primeiro lugar, há a origem dessa autoridade: procede ou não de um consenso democrático? Essa autoridade é centralizada ou não? Dá origem a um Estado unitário ou federal? Mesmo que certas condições geográficas postulem antes um que outro, é quase sempre na evolução histórica que se procuram as explicações. A razão é simples: o caráter unitário da França e o caráter federal da Suíça foram adquiridos e formados no decorrer de uma evolução que se estendeu por vários séculos. Aliás, nesse ponto preciso, a abordagem histórica e a abordagem funcional de Hartshorne convergem, pois a segunda necessita da primeira para apreciar o grau de coesão de um Estado qualquer.

Ao finalizar esta rápida análise da linguagem utilizada, éconveniente precisar que não tivemos, de forma alguma, a intenção de levantar todos os códigos em uso, mas somente realçar certos mecanismos de codificação da geoestrutura, considerada do ponto de vista político e, mais precisamente, do ponto de vista político do Estado. Pareceu-nos que, antes de tudo, o procedimento de descrição da geografia política estava orientado para o Estado. Quase toda a linguagem foi forjada e organizada em função do Estado, e isto desde Ratzel. Melhor dizendo, houve uma inversão do expediente. O Estado mesmo sendo a mais acabada e a mais incómoda das formas políticas não é a única. Se a linguagem tivesse sido criada para justificar o poder político e as relações que ele estabelece no espaço e no tempo, o Estado certamente teria tido um lugar privilegiado, mas não estaria sozinho. Sem dúvida, essa é uma das razões pelas quais a "geografia política", na realidade a geografia do Estado, permaneceu marginal e pouco integrada no corpus geográfico. Em vez de se interessar por qualquer organização dotada de poder político suscetível de se inscrever no espaço, a geografia política só viu e, em consequência, só fez a análise de uma forma de organização: a do Estado. No entanto, tentaremos mostrar que os símbolos utilizados são recuperáveis numa análise muitidimensional do poder. Vimos que essa concepção unidimensional, paradoxal no plano geográfico, não o era no plano filosófico. De fato, desde Hegel o Estado ocupou todo o horizonte da existência política. Para escapar desse paradoxo, é preciso uma outra problemática que tente tornar inteligíveis não somente as formas investidas de poder, mas as relações que determinam as formas. É preciso substituir a problemática morfofuncional, ou ao menos acrescentar a ela uma problemática relacional cujos resultados, se existirem, serão conotativos daqueles que surgiram da primeira. Quando dizemos "acrescentar", seria possível acreditar que se trata de uma evolução linear. De fato, não é isso, uma vez que a problemática relacional deveria preceder a problemática morfofuncional; ieveria ser anterior a ela.

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