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“Quanto maior for a organização visual da forma do objeto, em termos de facilidade de compreensão e rapidez de leitura ou interpretação, maior será o seu grau de pregnância”. Com esta explicação, o professor João Gomes Filho nos apresenta um dos princípios básicos da Lei da Percepção Visual da Teoria da Gestalt.

Uma dúvida muito comum é de que maneira essas regras influenciam o design de interfaces. Nesta entrevista, o artista plástico e webdesigner Ronaldo Gazel, trabalhando atualmente na BHTEC e:house (w. bhtec.com.br), analisa como esta teoria pode e deve ser aplicada na construção de interfaces digitais, através da

apresentação de exemplos práticos na área.

Wd :: Certa vez, o professor Luli Radfahrer disse que a

Gestalt pode ser considerada como “a gramática subliminar da alfabetização visual”. No processo de construção de ambientes digitais e interativos, como este conceito pode contribuir para melhorar o período de experiência do usuário? E como este conhecimento pode ajudar no trabalho do designer?

Gazel :: Antes de entrarmos na construção visual da interface propriamente dita, não custa lembrar que antes dela precisamos construir a identidade conceitual e editorial da nossa proposta, afinal, de que nos adiantará o domínio da gramática se o que temos para comunicar não está bem definido? Nossa mensagem precisa estar coesa; sua personalidade, sem idiossincrasias que nos desviem de seus objetivos. A pregnância começa na proposta conceitual.

Relação da Teoria da Gestalt e as duas abordagens: é preciso ter em mente que o estudo da Gestalt tem um caráter neutro quanto à aplicação de seus enunciados. Assim, conhecer a única - e até mesmo a não-experiência.

As subabordagens/abordagens derivadas: combinando-se as duas macroabordagens (design e arte) com outros enfoques direcionadores, obtemos o coeficiente de originalidade que dá personalidade a cada interface. É justamente a combinação das abordagens, orientadas por objetivos bem definidos, que determinarão o sucesso ou o fracasso de uma proposta de comunicação visual.

Algumas das abordagens derivadas mais utilizadas são: a publicitária, a comercial, a lúdica/de entretenimento, a comunicacional e a utilitária (ver gráfico página 26). Vejamos no diagrama a ideia de construção conceitual das interfaces, representando o relacionamento entre as abordagens e as subabordagens. Note-se a riqueza de combinações possíveis na construção do desenho conceitual da interface.

Enfim, a construção visual da interface: Tendo-se em vista que, agora, nossa interface, mesmo sem existir visualmente, já possui vida própria, personalidade e objetivos bem definidos, situando-se com clareza entre as diversas abordagens, possuindo, enfim, seu coeficiente de originalidade, estamos aptos a buscar na teoria da Gestalt e na Semiótica os princípios mais adequados aos seus objetivos, direcionando tanto os aspectos latentes, abstratos e inerentes à percepção visual, pela "gramática subliminar" da Gestalt, quanto os aspectos analíticos, relacionais e mnemônicos da semiótica. Em suma, se temos a gramática, agora temos a capacidade de construir as estruturas, as "frases visuais" mais adequadas, melhorando a experiência do usuário, aprimorando o relacionamento deste com a interface, que deverá assim, possuir máxima coerência com seu desenho conceitual.

Por mais que muitos estudiosos da comunicação visual se esforcem em estabelecer práticas ideais, baseados em testes comportamentais, criando "receitas" para uma eficiência máxima, a interface ideal como ideia universal é uma utopia, pois desconsidera peculiaridades estéticas e conceituais inerentes a cada proposta. O que existe - e precisa ser o foco da pesquisa estética - é o total reconhecimento da personalidade única de cada projeto e a consequente composição de um layout que possua o máximo de coerência com seus princípios e objetivos. O conhecimento da Teoria da Gestalt será fundamental para se compor tal layout, feito assim, sob medida para cada caso.

Wd :: Nos dias atuais, com a explosão dos meios de comunicação em massa, nossa percepção visual tem teoria somente trará resultados práticos, desejados, se houver direcionamento. É preciso, tendo em vista tanto a abordagem do design, quanto à artística, saber em que aspectos a interface deve ser orientada, equilibrada entre esses dois enfoques. Por exemplo: se a interface a ser construída será projetada para uma utilização constante, percebemos a sua proximidade conceitual a uma ferramenta, um objeto utilitário, ou seja, com uma personalidade prioritariamente ligada ao design; por outro lado, numa interface que considere a experiência única ou temporária do usuário, ou que esteja preparada para um comportamento imprevisível do mesmo, estaremos mais próximos da abordagem artística.

A abordagem do design: pensa o uso da interface numa perspectiva universal, humanizada, positiva, visando facilitar a experiência, eliminando o máximo de ruídos que, considerando-se o uso repetido da interface, tiram sua eficiência, aumentando o trajeto entre objetivo e resultado funcional.

A abordagem artística: foca muito menos no sentido utilitário, priorizando a experiência numa perspectiva plural, que se estende da empatia ao caos. Considera-se tanto a facilidade do uso quanto o antiuso. Tem-se aqui um fator experimentalista e conceitual que busca tanto a utilização contínua quanto a experiência

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26 :: Webdesign26 :: Webdesign sido constantemente estimulada, sendo um dos alvos principais das campanhas de publicidade e marketing. Nesta dinâmica, quais fatores devem ser considerados quando falamos da percepção visual da forma em projetos marcados pelo dinamismo e interatividade?

Gazel :: Desde a invenção da imprensa até os tempos atuais, o modelo de comunicação sempre considerou o receptor da mensagem visual como uma entidade essencialmente passiva, de reflexividade controlada em relação à comunicação visual. Isso por causa dos pedestais - realidades sociais, econômicas e tecnológicas - que delimitavam claramente os atores do processo de comunicação. Tínhamos uma estrutura imutável gerando conteúdo imagético e ditando os padrões estéticos numa só via, para uma massa consumidora que reagia aos estímulos visuais de forma controlada, previsível.

Mas, com as quedas dos pedestais que restringiam o papel de geradores de comunicação visual a uma pequena parcela da sociedade representada pelo "stablishment" editorial formado pelos detentores dos meios tecnológicos, como as grandes editoras, estúdios cinematográficos, gravadoras fonográficas e difusoras de tele e rádio comunicação, queda esta provocada pelo nivelamento tecnológico, pela socialização dos recursos e ferramentas de criação e edição de linguagem visual e pela facilidade de se difundir esse conteúdo através da internet, das redes digitais, houve uma revolução - e está havendo! - que "não será televisionada", como profetizado por Gil Scott Heron (http://tinyurl.com/cofdzf).

Esta revolução embaralhou os papéis na comunicação, e mais notadamente, tem trazido uma nova consciência estética tanto individual quanto coletiva; um novo e exigente senso crítico que nos faz enxergar a nós mesmos como entidades editoriais legítimas, ampliando nossa maturidade visual e nossa responsabilidade em relação a nossa própria relevância como atores principais do processo de comunicação.

Sendo assim, os fatores aos quais devemos nos ater quando trabalhamos a percepção visual tanto em nossas interfaces quanto ao seu conteúdo gráfico, sejam eles estáticos ou animados, considerando esse cenário onde as diversas entidades geradoras de comunicação visual concorrem por um usuário cada vez mais indiferente aos estímulos, são:

a) Não assumir uma proposta ousada de apresentação dos elementos se você não tiver condições técnicas ou artísticas para realizá-la: o público despreza a "bravata visual" e se frustra com a expectativa nãocorrespondida. Com o "overkill" imagético, surgiu um consumidor mais criterioso que não dá bola para os clichês que até pouco tempo causavam impacto, como a modulação das propriedades visuais básicas dos objetos: fade, rotate, stretching etc. Ou você encara a concorrência extremamente criteriosa ou parte para outras estratégias. Mudar os dispositivos ou a tecnologia trabalhada, como, por exemplo, a realidade aumentada, as telas sensíveis ao toque e os aparelhos móveis de comunicação, pode trazer novos horizontes para sua expressão criativa.

b) Lembre-se de não superestimar o impacto da sua produção visual, seja ela uma experiência interativa ou uma peça de motion design. Tenha em mente que o usuário,

28 :: Webdesign28 :: Webdesign além de um voraz consumidor, também é um produtor de comunicação: gera, captura e edita informações visuais e precisa encontrar um alto grau de relevância para ficarem satisfeitos. Foque no que é realmente interessante, mesmo que sua relevância não esteja na complexidade técnica e sim na simplicidade. Evite clichês ou os utilize com muita parcimônia sabendo que, refletindo o hype visual de uma época, o presente, serão considerados antiquados ou desgastados em outras épocas, como o efeito bevel, o degradê sólido, a sombra difusa, só para citar alguns (ver gráfico abaixo).

c) Não limite sua criatividade refreando sua intuição gráfica em prol do cumprimento de regras estéticas e doxas escravizantes. É melhor distribuir os elementos visuais livremente e só depois questionar as configurações espaciais usando a Teoria da Gestalt e demais ferramentas de análise de campo visual. Mesmo diante do wireframe, não se esqueça de que os processos cartesianos e positivos da arquitetura de informação não contemplam a catarse provocada pelo caos controlado. Dificultar ou ir contra princípios consagrados pode, sim, prolongar o tempo de fechamento da gestalt, aumentando o prazer da experiência. Mas só faça isso se você tiver consciência de que a gestalt será fechada em um determinado momento: que um menu será, em algum instante determinado, reconhecido como tal; que as informações serão transmitidas de forma eficiente. Tive uma experiência bastante gratificante criando uma interface que prolongava o fechamento da gestalt sem comprometer a cognição dos elementos interativos, que foi o website que fiz para meu amigo, o maestro Ruben Di Souza (ver imagem página 30). Não há nenhum elemento na mancha visual que remeta ao estereótipo de interface. Na verdade, os elementos são descobertos intuitivamente, revelados separadamente, compondo-se harmonicamente à “mancha visual”.

Wd :: No livro “Gestalt do Objeto”, João Gomes

Filho aponta que a pregnância da forma é a lei básica da percepção visual da Gestalt. Assim, como ele explica, “quanto melhor for a organização visual da forma do objeto, em termos de facilidade de compreensão e rapidez de leitura ou interpretação, maior será o grau de pregnância”. Considerando tal explicação, quais características vão nos ajudar a alcançar um bom grau de pregnância em um site?

Gazel :: Traduzindo-se "pregnância" por coerência entre a mensagem formada pela mancha visual e sua perfeita compreensão pelo receptor, compreendemos imediatamente que, da mesma forma que no modelo de comunicação textual e auditiva, quanto menos "ruído" houver na formação da mensagem, maior facilidade de ser assimilada ela terá. Essa é a característica principal de uma

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forma com alta pregnância: possui o mínimo de "ruído", permitindo que o receptor, o interpretador da mancha visual feche a Gestalt rapidamente, encontrando em sua memória visual elementos correspondentes, análogos àqueles estímulos gráficos.

Por exemplo: digamos que nossa memória visual e cognitiva tenha armazenadas determinadas entidades conceituais de interface, como a ideia do que seja um menu, ou a ideia de como se comportam elementos clicáveis; as diferenças entre conteúdo informativo (dados, textos, imagens ilustrativas) e conteúdo gráfico estrutural (linhas, backgrounds, ícones, elementos compositivos). Ao nos depararmos com uma mancha visual, a nossa "máquina gestáltica" faz uma varredura nos objetos e formas visualizados, com o objetivo de organizá-los segundo aquelas referências da nossa memória. O período entre a varredura visual e a compreensão total da composição - analisada como um todo a partir do reconhecimento das partes e do relacionamento entre elas - é o tal "fechamento" da Gestalt. E é justamente por tratarmos da análise de formas independentes graficamente - porém relacionadas cognitivamente - formando um todo, que optei por usar o termo "mancha visual", usado pelos realistas e impressionistas quando deixaram de representar os objetos de uma composição isoladamente para retratá-los como um todo, como uma impressão única formada pelas partes relacionadas.

Voltando aos clichês visuais, repare na tendência dos clichês em tridimensionalizar os elementos visuais: o porquê disso é que nossas máquinas gestáltica e semiótica gastam muito menos tempo reconhecendo a pregnância de objetos que tenham propriedades tridimensionais - justamente porque vivemos em um mundo tridimensional. Formas "sólidas", bidimensionais, sem brilho, sombra ou volume, demandam mais esforço cognitivo para gerarem pregnância. E talvez seja mesmo por pressa, preguiça ou incapacidade criativa que lançamos mão desses clichês tridimensionais: eles não propõem nada de novo, mas são bem assimilados.

Wd :: Outro ponto destacado por João é o conceito de unidade, que pode ser classificado como “o conjunto de mais de um elemento, configurando o ‘todo’ propriamente dito, ou seja, o próprio objeto”. Assim, termos como segregação, unificação, fechamento, continuidade, proximidade e semelhança vão exercer grande influência na busca pelo seu entendimento. Como estas questões devem ser trabalhadas no design de interfaces?

Gazel :: A experiência perceptiva da "mancha visual", formada pelos diversos elementos da interface, absorvidas como um todo pela nossa máquina gestáltica, é completamente diferente da experiência de analisar

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32 :: Webdesign32 :: Webdesign individualmente cada um dos elementos compositivos. Os Impressionistas, citados anteriormente nessa entrevista, usaram esse princípio da unidade, da "mancha visual" - precursor da Teoria da Gestalt - em resposta a um modelo de pintura que analisava os elementos individualmente, criando composições produzidas para serem desvendadas em partes, e não como um todo, em uma só impressão - daí o nome, "Impressionismo".

O fato é que na criação dos elementos estruturais e artísticos da interface, isoladamente, por mais que eles se mostrem interessantes, bem resolvidos em si mesmos, quando forem posicionados em conjunto essa percepção será completamente diferente do resultado individual. Isso, na prática, significa que se você quiser aproveitar os princípios da Teoria da Gestalt no seu processo de criação, precisa experimentar deixar de lado a linearidade compositiva.

Ao invés de montar a interface em uma ordem determinada, começando, por exemplo, pelo menu principal, passando pelo cabeçalho, depois pela iconografia, backgrounds, finalizando no rodapé, experimente trabalhálos de forma simultânea, deixando-se impregnar pelas informações subliminares da Gestalt a cada instante, ajustando posicionamentos e demais propriedades de maneira não-linear (ver gráfico acima). Esse é um dos melhores métodos para se criar um layout criativo e altamente consciente das realidades perceptivas da interface como um todo.

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