HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA E DO ESPORTE

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA E DO ESPORTE

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HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA E DO ESPORTE GRIFFI, Giampiero.

A EDUCAÇÃO FÍSICA NA DINAMARCA A Escola de Copenhaguen

Copenhaguen foi uma das primeiras cidades onde o ensino da ginástica teve larga e rápida difusão, mesmo se aí não se desenvolveu um método específico e original.

Fator de tal sucesso foi Francisco Nachtegall (1777-1847) que fundou em 1799 uma sociedade de ginástica e no mesmo ano torna-se professor junto ao "filantropino" de Copenhagen.

Em 1800, com a ajuda do príncipe Federico, seu aluno, instituiu uma escola de natação; em 1801 introduziu a ginástica no ensino primário e em 1804 fundou o Instituto Militar de ginástica, o primeiro dos tempos modernos e dele assume a direção.

Dentre os seus alunos, o mais célebre foi, sem dúvida, Pier Henrique

Ling que porá em prática a experiência adquirida de Nachtegall, para dar vida, na Suécia, à ginástica científica.

Em 1808, tornando-se rei Federico, foi-lhe concedido de instituir uma sessão civil de educação física junto ao Instituto Militar. O quê se repetirá mais tarde em Estocolmo, Paris e Turim.

Em 1816 teve-se a formação dos primeiros verdadeiros professores de educação física, os quais multiplicaram as iniciativas de Nachtegall que, no meio tempo, tinha-se aproximado muito ao endereço da escola alemã de Jahn.

Em 1828 o Instituto Militar transformou-se em Escola Normal de

Ginástica de Copenhagen e a própria ginástica transformou-se em matéria obrigatória de ensino na Dinamarca. Este foi o primeiro reconhecimento oficial que a educação física teve no mundo.

Nachtegall teve, sobretudo, o mérito de representar a ponte, não somente ideal, de conjunção entre o empirismo de Guts Muths e a ginástica científica de Ling. Ele foi, também, um promotor e assertor da educação física feminina: a ele deve-se, de fato, a fundação, em 1839, em Copenhagen, da Escola Normal de Ginástica Feminina para a formação de professoras.

Na Alemanha, como dizíamos pouco antes, a educação física ressentiu particularmente a influências das condições históricas e ambientais da própria nação.

As exigências políticas da Alemanha requeriam uma rígida impostação da atividade física. Após a derrota de Jena, em 1806, por obra de Napoleão, a Prússia em bloco desejou a desforra. Impõ-se, então, um sistema de educação tendente a potencializar, ao máximo, o espírito e o corpo.

Diz Pepe: "Antes da invasão napoleônica o sentimento nacional era muito mais um patriotismo intelectual, representado por grandes estudiosos como Lessing, Herder, Gorthe, Kant, Fichte, etc. que intencionava impor a cultura e não a potência militar". Foram as humilhações sofridas nas várias batalhas durante a dominação napoleônica que despertaram os sentimentos patrióticos dos alemães. Foi então que Fichte afirmou que o espírito alemão "é uma águia que com força levanta o seu corpo poderoso para aproximar-se do sol". Korner incitou a Alemanha a construir um único Estado da Europa, e a fundação da Universidade de Berlim teve um objetivo, sobretudo, patriótico. Fichte, como primeiro reitor, fez o "Apelo à nação alemã", no qual afirmava a bem conhecida teoria que "Deus tinha confiado ao povo alemão a missão de civilizar o mundo". Conseqüentemente os mestres da ginástica, como Jahn, Eiselen, Frieser, Massmann e muitos outros começaram a reunir em ginásios esportivos e em associações, a juventude para educá-la e prepará-la física e moralmente a fim de fazer renascer a nação alemã. Foram estes os mestres que adestraram a juventude sob o gímnico-militar, que enrubusteceram seus membros e endureceram os seus caracteres, preparando-os para darem tudo à Pátria, até a vida. Foram eles também, que deixados os ginásios esportivos, guiaram - como Jahn - os batalhões dos seus alunos voluntários rumo às estradas da vitória, levando-os da planície de Hasenheide ao triunfo de Paris.

É evidente, que assim, na Alemanha, a ginástica não pode ter, neste período, outro endereço senão aquele militar, com fundo nacionalista, mesmo se não faltaram interessantes e valiosas alternativas. Outras nações européias condividiram com a Alemanha as mesmas paixões nacionalísticas, o ódio pela opressão estrangeira e o mesmo desejo de renascer, assim que a difusão do pensamento e das idéias da escola alemã encontrou um terreno favorável nas condições históricas do século XIX.

A ginástica alemã de 1800 teve, como dizíamos acima, também características educativas comuns aos demais métodos de educação física que se estavam, contemporaneamente, afirmando na Europa: em efeitos, não se pode, certamente, afirmar que a atividade física da Alemanha tenha ficado alheia e avulsa ao valor pedagógico e daquele médico-científico: somente que, por razões históricas e políticas, a ginástica alemã reforçou aquele seu endereço militarista que influenciará posteriormente, uma boa parte do ensino tradicional da educação física, também nos demais países europeus.

A difusão do exercício físico nas escolas e nas sociedades de ginástica levará a uma inevitável diversidade de endereços assumindo novas formas, ficando em inércia a veia patriótica suscitada pelo pai da ginástica alemã (Jahn).

O endereço gímnico da escola alemã teve, portanto, origens patriótico-militar com Jahn, assumiu com Spiess um caráter escolásticoeducativo, com Rothstein racional-higiênico influenciado pela escola sueca, inclinando-se então ao ecletismo com Jager, por sua vez inspirado pelas origens clássicas do exercício físico, mas sempre com escasso sucesso.

Próximo ao fim de 1800 desenvolveu-se o momento dos jogos ao ar livre e o advento dos esportes sem, porém que esta grande atividade se afirme; no inicio de 1900 existiu um aceno estético-rítmico com Jacques Dalcroze, Bode e outros; entre as duas guerras, no clima do estado hitleriano, o exercício físico retornou o fim nacional e patriótico, permeado de princípios biológicos com endereço natural e bélico. No período nazista, a atividade física foi integrada ao sistema político; mais que de educação física tratou-se de uma atividade que, partindo do corpo e servindo-se desse, mirou infundir, na criança, os dotes da obediência absoluta e o hábito à ordem. A educação do corpo foi, sobretudo, duro treinamento para reforçar a vontade ê o caráter do futuro soldado.

No segundo após guerra, com Diem, a educação física tornar-se-á um meio essencial e indispensável do inteiro complexo educativo. De qualquer maneira, a difusão do método ginástico alemão favoreceu o desenvolvimento, não somente da educação física na Alemanha, mas também no resto da Europa, até na América, tanto no século XIX que na primeira metade do século X.

A única diferença entre a ginástica da escola alemã e aquela das demais escolas (suecas, inglesas, francesas), é que a primeira tinha limitadas capacidades de difusão pelas próprias condições históricas ambientais da Alemanha antes de 1870, enquanto que as outras não conheceram tais limitações ou obstáculos para os fins universais que se tinham prefixadas.

a) A Educação Física para Kant e Fichte

As idéias filosóficas que sempre influenciaram as várias teorias ginásticas encontraram no pensamento de Kant e após naquele de Fichte altas contribuições que predispuseram e formularam aqueles temas que, após, foram desenvolvidos, difundidos e popularizados por Jahn através do Turnen.

E. Kant (1724-1804) estudioso de filosofia, matemática e teologia, terminada a universidade, torna-se perceptor junto a famílias patrícias, para ser, após, nomeado professor ordinário de lógica e metafísica na universidade de Konisberg.

Convicto da importância da pedagogia, grande admirador de

Rousseau, concorda com muitas idéias do Francês, como no afirmar que a criança não deve ser educada com o fim de conseguir particulares habilidades ou sucessos ou vantagens no mundo, mas deve ser ajudada a formar-se para si mesmo, como caráter moral, como livre pessoa. Diverge de Rousseau, porém, em afirmar que o homem não nasce bom, mas nasce para tornar-se bom, submetendo-se à leis de dever que surge, não da natureza individual, mas do elemento transcendental da consciência.

Para Kant a educação do homem, privada ou pública, deve compreender a disciplina, a cultura ou então a instrução, a educação no sentido de boas maneiras e a formação moral, e é justamente na moral, que segundo Kant, o intervento da atividade motora é determinante para o futuro espiritual do jovem citadino.

Lá onde o filósofo alemão trata da educação física encontram-se concepções de Locke e de Rousseau; de Locke enquanto propõe habituar a criança a uma certa dureza de vida; de Rousseau enquanto insiste em deixar a criança livre para desenvolver-se fisicamente, sem constrições. Segundo Kant a educação física deve ser praticada em toda a duração da sua formação e, particularmente, durante a infância para impedir que as crianças tornem-se demasiadamente distesas no seu temperamento e ainda para ensinar-lhes a servirem-se, convenientemente, das suas próprias forças.

Kant assinala duas funções à educação física: o uso de movimentos voluntários e aquele dos órgãos do sentido; isto é educar as faculdades sensitivas e, ao mesmo tempo, aperfeiçoar os movimentos. Também os jogos são, para ele, muito importantes porque não somente são instrutivos e educam os sentidos e o corpo, mas habituam as crianças a disciplinarem-se e a formarem-se para a sociedade.

No seu Tratado de pedagogia, levanta-se uma impostação crítica, dura, mas válida, que constituem o ponto de partida de uma importante renovação da educação física, que não se pode mais identificar somente com a educação corpórea mas diz respeito, em geral, àquilo que no homem é natureza: a cultura física é assim contraposta àquela moral, mas esta é formada, como dizíamos, da primeira.

Segundo Kant, nenhuma ação moral pode ser desenvolvida se faltar a educação física. Destas novas e modernas concepções reconhece-se a necessidade da ginástica, os seus benefícios e a sua não inferioridade com respeito à educação intelectual e moral.

G. A. Fichte (1762-1814) completado os seus próprios estudos, transcorre alguns anos como preceptor de casas privadas, após, por cinco anos assumiu a cátedra de filosofia na Universidade de Jena, que teve de deixá-la porque acusado de ateísmo e pela sua aberta defesa em favor de Kant, atacado pelo rei da Prússia pela publicação da obra. A religião dentro dos limites da simples razão.

No seu livro de 1808, Discursos à nação alemã, Fichte expressa as próprias idéias no campo educativo. A verdadeira educação deve, segundo ele, conseguir determinar o futuro comportamento dos alunos, formar homens que saibam produzir ideais e pô-las em prática.

Também em Fichte a ação moral assume uma grande importância, que vai, porém, além do quadro da individualidade para configurar-se como obra coletiva: a educação serve a um objetivo essencialmente moral: disso a sua preocupação em distingui-la da educação do tipo corrente, sempre orientada em sentido individualístico. Esta educação, posta a serviço da moral e da comunidade, inspira-se, sobretudo, na educação do Pestalozzi, que Fichte admira muito e do qual expõe e recomenda as idéias, das quais ele extrai os elementos que devem definir a primeira educação da criança.

A educação física figura já no estágio mais elementar da educação fichtiana; essa não constitui que um meio e uma preparação à educação física e religiosa. Na comunidade, onde esta educação vem ensinada, apresenta um aspecto original, um aspecto, talvez, já divisado por Kant e que Jahn não cansar-se-á de desenvolver: será, isto é, uma condição essencial da educação moral e patriótica.

O aluno, na comunidade da qual faz parte, deve executar exercícios físicos e mecânicos, trabalhos agrícolas enobrecidos pelo ideal e cultivar profissões manuais de todo o gênero, agindo de acordo com a própria iniciativa, sem esperar-se alguma recompensa, porque trabalhando para a comunidade faz simplesmente o próprio dever.

"Assim - como diz Ulmann - em Fichte a educação física termina transformando-se em instrumento insubstituível de uma ação moral que deve levar à constituição de uma sólida comunidade nacional. Essa assume, portanto, um caráter coletivo."

A filosofia kantiana e fichtiana, em última análise, deram origem a uma nova concepção da ginástica: esta não é mais somente a condição da saúde ou uma espécie de higiene moral, mas torna-se o instrumento indispensável de uma ação moral, cuja primeira função era aquela de assegurar a existência e a independência de uma comunidade nacional.

Conhecidas assim as ideologias de Kant e de Fichte, será possível compreender os pensamentos e as metas de Jahn e, portanto, entrar na parte culminante daquilo que será o TURNER alemão.

b) O Turner

Federico Ludovico Jahn (1778-1852), chamado o Turner vater, ou seja, o pai da ginástica alemã foi certamente uma das figuras mais significativas da história da educação física. Estudou teologia, literatura germânica e conseguiu formar-se em filosofia.

Em 1803-1804 foi preceptor em Neubrandeburg onde praticava como os alunos exercícios físicos e natação, organizando, também, jogos bélicos. Ele concebeu e aplicou um novo sistema de educação físico e moral da juventude idónea às armas. Ã base do seu programa, existia uma única aspiração: aquela de preparar os jovens à dura e rígida vida militar.

Jahn afirmava que a comunidade germânica, por ele chamada

Volkstum, isto é, uma comunidade de seres de uma mesma classe, devia reforçar-se mediante a educação, com o fim de estarem em condições de realizar todas as suas aspirações nacionalísticas. O Deutsches-Volkstum, por ele publicado em 1810 não é que uma exaltação do povo alemão todo o seu aspecto e um convite à unidade alemã.

Ela não tolerava a dominação napoleônica, contra a qual combateu com escritos e com o ensino da ginástica, com o intento de despertar, do seu torpor, a juventude alemã. Foi também um valioso soldado nos campos de batalha, como chefe de um batalhão de voluntários que tinham freqüentado a sua palestra.

Jahn predispôs um vasto plano de reorganização da atividade física que providenciava, também, a construção de muitos ginásios de esporte e iniciou a sua obra em 1811 com a fundação, planície de Hasenheide, perto de Berlim, de uma grande escola-palestra, ao ar livre, que chamou Turnplatz, onde afluíram, de imediato, muitos jovens berlinenses, de todas as classes, desejosos de praticarem os exercícios físicos. A Turnplatz era uma verdadeira palestra ao ar livre, porque Jahn - continuador do pensamento de Rousseau e dos métodos de Basedow e de Guts Muths — preferiu sempre as exercitações ao ar livre, ao invés de ser na palestra coberta, para ser usada somente em casos de mau tempo.

À educação física Jahn assinalava uma dúplice finalidade: dar e conservar a saúde, preparar os jovens aos incômodos e ao heroísmo da guerra. Ele exaltava a ginástica militar, a única - segundo ele - capaz de realizar a comunidade alemã perfeita. Os passeios e os exercícios físicos alternavam-se com os cantos, com as espetaculares exibições e com ensaios gímnicos também na presença de espectadores, e com discursos do próprio Jahn.

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