Arranjo Produtivo Local

Arranjo Produtivo Local

(Parte 3 de 5)

Assim, pode-se dizer que a existência de vantagens competitivas locacionais desse tipo seja uma condição necessária para a formação de um APL. Existe uma ampla literatura sobre as vantagens competitivas locacionais que pode ser dividida entre literatura típica de APL e literatura típica de economia e desenvolvimento regional. No primeiro caso, há o enfoque sobre vantagens competitivas locacionais relativamente restritas a setores ou cadeias e, no segundo, o enfoque maior é sobre vantagens competitivas e sobre outros efeitos de aglomeração de cunho mais genérico presentes nos territórios.

Para se compreender melhor o porquê da existência, da importância e das diferenças entre as aglomerações, é fundamental entender as vantagens competitivas que as empresas obtêm por estarem localizadas nessas aglomerações, assim como as vantagens competitivas que uma região tem para atrair novos investimentos.

Como foi visto acima, nem toda concentração espacial de empresas pode ser chamada de APL. Deve-se ressaltar que o conceito de APL baseia-se em uma característica que não está presente em qualquer aglomeração setorial, trazendo implícito que a localização é uma importante fonte de vantagens competitivas para as empresas aí instaladas e que essa vantagem locacional não é simplesmente decorrente de vantagens genéricas, mas sim setor-específica.

Geralmente, são as pequenas e médias empresas que mais dependem da localização, porque: a) têm mais dificuldade em abrir escritórios ou filiais em muitos lugares; b) possuem dificuldade de se relocalizar por uma questão de custos de investimento; c) o dono geralmente precisa estar presente e relocalizá-lo pode até ser mais difícil que relocalizar a empresa; e, por último, d) dependem muito das relações que têm no local, pois não possuem capital suficiente para obter certas escalas mínimas necessárias para se suprir de determinados serviços e externalidades que encontram em condições facilitadas e seguras no local atual e podem não encontrar em outros locais.

REVISTA DO BNDES, RIO DE JANEIRO, V. 1, N. 2, P. 151-179, DEZ. 2004163

Assim, aglomerações em que pequenas empresas têm pouca importância muitas vezes não podem ser caracterizadas como APLs, porque suas empre- sas não dependem significativamente de ganhos de escala ou escopo advindos de cooperação multilateral ou não dependem tanto da proximidade entre suas plantas e dos concorrentes para obterem serviços especializados e sua capacidade tecnológica também não depende da proximidade de suas plantas industriais com locais com sofisticada demanda tecnológica ou importantes centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D). De fato, grandes empresas não possuem a competitividade tão determinada pela microlocalização da unidade produtiva ou sede.1 Portanto, aglomerações formadas apenas de unidades produtivas de grandes empresas não podem ser definidas como APLs sem que sejam feitas outras qualificações.

Um exemplo clássico é o distrito industrial de Manaus, que é certamente uma das maiores aglomerações de empresas produtoras de bens de consumo eletrônicos do Ocidente. No entanto, ao que parece, ninguém teve a iniciativa de considerá-lo um APL. Manaus está mais para o que Markusen (1999) chama de “plataforma satélite” [ver Diniz e Santos (1999)].

De fato, os setores dominados por grandes empresas quase nunca precisam de instituições de cooperação multilateral para se beneficiarem de ganhos de escala e escopo. Grandes empresas, nos setores em que dominam, usualmente internalizam sozinhas os ganhos de escala e escopo, ou então fazem parcerias estratégicas com outras empresas, mas geralmente se trata de cooperação bilateral e definida por negociação independente de instituições multilaterais, senso de comunidade ou outras questões desse tipo.

Diferentemente das pequenas empresas, as grandes não precisam de políticas públicas para obter a cooperação bilateral ou multilateral que porventura necessitem. Os setores por elas dominados também não dependem tanto de que suas plantas industriais estejam próximas a centros de pesquisa e ensino ou em locais que possuem uma sofisticada demanda tecnológica, ainda que muitas empresas se beneficiem fortemente ao ter alguns de seus escritórios ou unidades de P&D em tais locais. Essa é a principal situação em que o APL pode ser constituído exclusivamente por grandes empresas.

As unidades de pesquisa são muito mais dependentes de conhecimento tácito e, portanto, com maior dependência local do que as unidades de produção.

AGLOMERAÇÕES, ARRANJOS PRODUTIVOS LOCAIS E VANTAGENS COMPETITIVAS LOCACIONAIS164

11O país em que se localiza ou a macrolocalização regional podem ser mais importantes nesse caso, porque têm mais relação com os custos de logística de transporte, serviços e acesso a crédito e apoio de política industrial e comercial.

As atividades criativas, para que tenham sucesso, dependem fortemente da existência de um ambiente que seja propício a servir de fonte de inspiração comercialmente competitiva e, principalmente, que possibilite testar e colocar em prática essas inspirações. Para isso, é necessário um enorme conjunto de pessoas com conhecimento técnico, experiência (ou seja, conhecimento tácito), acesso aos recursos e à organização que saiba dividir as responsabilidades de forma a tornar a invenção um produto bem-sucedido. É necessário também que as organizações envolvidas no investimento tecnológico tenham um importante conjunto de vantagens competitivas que viabilizem a lucratividade e a segurança do investimento em P&D, frente às investidas de potenciais imitadores.

Ademais, a maior parte desses recursos precisa estar relativamente próxima (do ponto de vista cognitivo) para que a divisão entre as tarefas criativas das várias áreas responsáveis pelo desenvolvimento – pesquisa de mercado, fabricação, marketing, distribuição – possa fluir em todos os sentidos, pois todas as etapas precisam estar compatíveis entre si e com boas condições competitivas, técnicas e mercadológicas (adequadas ao consumidor).

Dessa forma, principalmente em setores de tecnologia mais complexa, as atividades criativas em geral e de P&D em particular precisam concentrar um grande número de pessoas em locais próximos, dentro da mesma empresa ou não. Assim, grandes empresas concentram P&D em grandes centros tecnológicos, mas mesmo elas se beneficiam fortemente de estarem próximas de grandes centros de criação nos quais podem ter contato mais rápido e interagir melhor com fornecedores, concorrentes, clientes e outras importantes fontes de inspiração e de capacitações criativas. Em P&D raramente uma empresa sozinha consegue estar sempre na ponta em todos os tipos de atividades e fontes de inspiração.

Existe outra vantagem competitiva locacional muito importante capaz de gerar também importantes APLs, ou seja, a imagem mercadológica regional, que é absolutamente essencial no setor de turismo, mas pode também ser necessária nos setores de bebidas, gastronomia, alimentos, bens culturais e moda. Esse tipo de vantagem é uma espécie de bem público da região, que pode ser rapidamente eliminada se empresários oportunisticamente abusarem dessa imagem para prover serviços ou produtos de baixa qualidade. Dessa forma, a ação cooperativa ou pública é fundamental para esse tipo de APL.12

REVISTA DO BNDES, RIO DE JANEIRO, V. 1, N. 2, P. 151-179, DEZ. 2004165

12A ação pública é mais comum.

Resumidamente, viu-se que o APL pode ser constituído por grandes aglomerações que tenham uma importante presença de pequenas e médias empresas, ou concentração produtiva em geral que possua um grande volume de atividades criativas, ou quando a imagem regional é fundamental para a competitividade das empresas. Essas são as principais situações em que a localização oferece às firmas vantagens competitivas em nível setorial ou da cadeia que são decisivas e que se mantêm no tempo. O APL só é um conceito novo e relevante quando isso ocorre.

Como foi visto acima, nem toda aglomeração de empresas pode ser chamada de APL. Discutiu-se o que não é importante, mas também alguns fatores que são essenciais para constituir ou desenvolver um APL. No entanto, não foi aqui exposta qualquer definição, pois uma definição precisa do que seja APL, se existe, possui alguns problemas. Antes de tudo, qualquer definição precisa deixar claro aquilo que tornou o debate sobre APL especial, ou seja, aquilo que o tornou diferente dos debates anteriores relacionados com política industrial e regional. O que tornou o APL uma questão nova?

Do ponto de vista da política industrial e regional, basicamente duas características se destacam: por um lado, a localização pode ser uma importante fonte de vantagens competitivas, independentemente dos custos de transporte, dos incentivos fiscais e das condições de acesso a insumos de uso genérico; e, por outro, essas vantagens competitivas locacionais estão relacionadas com a capacidade inovadora das firmas e com a difusão de conhecimento,13 com o acesso local de serviços especializados ou com a capacidade de elas reagirem conjunta ou individualmente a ameaças e oportunidades, como criação e aproveitamento de imagem regional ou atração de investimento público ou coletivo.

Como ficou evidente, a questão-chave para a definição de APL é o tipo de vantagem competitiva que ele proporciona às empresas. Mas antes dessa discussão deve-se compreender o que são vantagens competitivas locacionais e quais são os seus tipos. Existem dois tipos básicos, a saber: vantagens competitivas estáticas e vantagens competitivas retroalimentáveis.14

As vantagens competitivas locacionais estáticas são, basicamente:

•terras agrícolas em condições competitivas associadas à boa logística de transporte;

AGLOMERAÇÕES, ARRANJOS PRODUTIVOS LOCAIS E VANTAGENS COMPETITIVAS LOCACIONAIS166

13Para mais detalhes sobre o assunto, ver Garcez (2000). 14Ou auto-alimentáveis, dinâmicas etc. O termo “dinâmicas” não foi o escolhido porque tem diversas conotações.

•minas com condições competitivas associadas à boa logística de transporte;

•mão-de-obra não-qualificada muito barata; e

• incentivos fiscais.

Denominam-se vantagens competitivas retroalimentáveis aquelas que se realimentam com o crescimento da produção, do mercado, dos novos usos, da diversificação de produto ou do tempo de uso, podendo ser originadas de três fatores:

• externalidades multissetoriais; •ganhos de escala ou escopo; e

• externalidades setoriais.

Chamamos aqui de externalidades multissetoriais as vantagens locacionais que beneficiam diversos setores e geralmente estão associadas de alguma forma a ganhos de logística. Como ganhos de logística, entende-se a redução de custos de transporte, a redução de custos de estoques e outros ganhos decorrentes de menores prazos de entrega e acesso ou menores custos e prazos para prestação de serviços genéricos.15 Esses tipos de vantagens são mais comuns em regiões com maior densidade econômica ou naquelas próximas a importantes entroncamentos logísticos.

Externalidades multissetoriais são uma importante fonte de vantagem competitiva para indústrias que possuem elevados custos de transporte e ubiqüidade de fornecimento de insumos. Um exemplo são as montadoras de sistemas complexos e formados por uma infinidade de partes, como as indústrias de equipamentos de transporte. Esse tipo de ganho logístico também é muito importante para atividades que demandam grande quantidade de serviços sofisticados, como sedes administrativas de grandes empresas, e para atividades que fornecem esses tipos de serviços, como o setor bancário, consultorias de aplicação difusa e publicidade. O acesso a serviços sofisticados é uma vantagem competitiva não apenas porque reduz o custo diretamente, mas também porque favorece as atividades criativas e es-

REVISTA DO BNDES, RIO DE JANEIRO, V. 1, N. 2, P. 151-179, DEZ. 2004167

15Serviços genéricos são aqueles úteis a uma grande gama de indústrias, como publicidade, contabilidade, gestão, auditoria, telecomunicações, processamento de dados, pesquisa de mercado, finanças etc.

tratégicas da empresa a ganharem novas soluções, reduzirem o custo e até obterem mercado.

Entretanto, essas externalidades, apesar de beneficiarem uma infinidade de setores, não são, em geral, as vantagens locacionais que tipicamente levam à criação dos APLs, pois essas são basicamente vantagens competitivas setoriais.16 Outras evidências dessa proposição são: os APLs nem sempre se localizam próximos a grandes aglomerações urbano-industriais e poucas grandes aglomerações urbano-industriais, que são ricas em ganhos logísticos, conseguem gerar os APLs mais competitivos em certos setores. De fato, a elevada concentração setorial dessas experiências sugere que existe algum tipo de vantagem competitiva locacional retroalimentável restrita ao setor ou à cadeia e não-multissetorial como as vantagens de logística usuais.

Existe um tipo de vantagem competitiva locacional retroalimentável que tem poucos efeitos difundidos regionalmente para diversos setores – ou seja, que tem a maior parte de seus efeitos positivos restritos ao setor ou cadeia –, mas que dificilmente pode ser o fator fundamental para a existência dos APLs. Esse tipo de vantagem locacional são os ganhos de escala e escopo estáticos ou dinâmicos internos às firmas advindos de investimentos adicionais em plantas industriais que possuem alto custo de relocalização.

De fato, o potencial ganho de escala ou escopo estático que pode ser obtido em investimentos adicionais em uma planta produtiva é uma importante fonte de vantagens competitivas para uma região, principalmente na atração de investimentos adicionais ou complementares. Já os ganhos de escala dinâmicos, geralmente decorrentes de ganhos de aprendizagem internalizados, são outra importante fonte de vantagem competitiva para as firmas. Quando estão restritos a firmas que não possuem unidades fora da região (tendo dificuldade, assim, de difundir esse conhecimento para outras regiões), eles se tornam uma vantagem competitiva local restrita à firma e, portanto, ao setor e à região.

Entretanto, esses ganhos de escala e escopo (estáticos e dinâmicos) internos às firmas, mesmo quando geram um importante diferencial competitivo locacional para a região em que estão inseridos, dificilmente dão origem a APLs, porque não são capazes de criar aglomerações, já que a maior parte dos seus ganhos competitivos ficam restritos às firmas individuais e outras empresas não se beneficiam significativamente.

AGLOMERAÇÕES, ARRANJOS PRODUTIVOS LOCAIS E VANTAGENS COMPETITIVAS LOCACIONAIS168

16Isso não significa que as vantagens genéricas não beneficiem fortemente os APLs, ou que estes não necessitem desse tipo de vantagens.

Esses ganhos não induzem à aglomeração de empresas, tendendo apenas a fazer crescer o tamanho delas, e são limitados, pois há um ponto em que ganhos de escala estáticos adicionais vinculados à mesma planta tornam-se pouco importantes ou não-acessáveis por limitação de demanda. Além disso, os ganhos de escala dinâmicos tornam-se pouco presos à localidade, já que a empresa pode se tornar grande o suficiente para investir em filiais ou em transferência de tecnologia. Apenas quando os ganhos de aprendizagem não ficam restritos à firma, mas se difundem pelo local em que ela se situa, e não para outras regiões, pode-se dizer que exista uma vantagem competitiva locacional que é particular ao APL.

(Parte 3 de 5)

Comentários