Tecnicas de construção

Tecnicas de construção

(Parte 3 de 5)

No centro da aldeia existia a ocara – a praça, o ponto de encontro e dos rituais.

Uma oca durava cerca de cinco anos e era erguida com varas, sendo fechada e coberta com palhas ou folhas. Não tinha janelas, mas aberturas nas extremidades, sem paredes ou outras divisões. Quando os portugueses desembarcaram, trouxeram um modo de vida e de construção muito diferente do empregado pelos índios. Ainda assim, mesmo com técnicas novas, as construções portuguesas no Brasil buscaram se adaptar ao nosso clima, adotando alguns artefatos existentes nas ocas dos índios, como as redes e a palha.

O primeiro tipo de construção que se multiplicou no Brasil foi o engenho. O engenho era, na verdade, uma fazenda que se organizava em torno de um único produto: a cana-de-açúcar. Uma fazenda de engenho era um pequeno retrato da sociedade existente no Brasil colonial. Havia a máquina de engenho, dedicada à moagem da cana e à fabricação do açúcar, na qual trabalhavam os escravos sob a vigilância de alguns capatazes, e havia a sede da fazenda, chamada de casa-grande, na qual habitava o senhor-de-engenho e sua família, além de al- guns agregados. Próximo à casa-grande estava a senzala, na qual dormiam os escravos, sujeitos a péssimas condições de

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História das construções: na Europa, na América pré-colombiana, no Brasil colonial, independente e moderno conforto e salubridade. Um engenho era um organismo completo, que não dependia de provisões de fora dele: tinha capela para missas, plantações e criações para a subsistência, serrarias para a confecção de móveis e para o madeiramento das casas e até mesmo escolas de “primeiras letras”, nas quais um padre-mestre ensinava os meninos. Esse sistema era patriarcal, ou seja, o poder era concentrado no senhorde-engenho e as suas mulheres não tinham poder de decisão. O País era eminentemente agrário, convivendo com o primeiro sistema político que existiu no Brasil, das capitanias hereditárias. Não havia uma noção clara de governo ou de associação entre os moradores de uma mesma região. Tudo era subordinado à Coroa portuguesa e, enquanto a economia do açúcar funcionasse, assim se manteria o País: uma fazenda, com diversas casas-grandes e suas senzalas.

As casas-grandes eram geralmente construídas com paredes de taipa, ou seja, de barro, além de pedra, cal, teto de palha (como o das ocas), sapé ou telhas. O seu piso era de terra batida ou assoalho de madeira. Eram adequadas ao clima quente e úmido do Nordeste: tinham poucas portas e janelas, muitas varandas ou alpendres e paredes grossas. Eram grandes, mas não suntuosas em seus acabamentos e ornamentos: o símbolo de status estava relacionado principalmente ao número de escravos e às vestimentas do senhor. Uma característica da fazenda colonial era dispor tudo meio próximo – casa-grande, senzala, engenho – pois isso facilitava a defesa contra invasores.

Ruínas da Casa-Grande do Engenho de Santa Bárbara, Sergipe. (Fonte: <http://w. infonet.com.br/arquitetura/GALERIA.HTM>. Acesso em: 27 set. 2007.)

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História das construções: na Europa, na América pré-colombiana, no Brasil colonial, independente e moderno

Essa proximidade das construções existentes num engenho foi bem lembrada por Gilberto Freyre, em sua obraCasa-grande e senzala, que relata o cotidiano do Brasil colonial. Segundo ele, a arquitetura aproximava ricos e pobres, senhores e escravos, mas indicando a cada um seu papel e sua posição, lembrada sempre pelo uso da força.

A urbanização do Brasil teve início graças a um novo ciclo econômico: a extração de ouro e pedras preciosas. Após a descoberta das primeiras minas de ouro, o rei de Portugal tratou de organizar sua extração e de estabelecer a cobrança de impostos nas casas de fundição. A descoberta de ouro e o início da exploração de minas nas regiões auríferas (Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás) provocaram uma verdadeira “corrida do ouro” para essas regiões. Vários empregos surgiram, diversificando o mercado de trabalho na região aurífera. Igrejas foram erguidas em cidades como Vila Rica (atual Ouro Preto), Diamantina, Mariana, Cuiabá e Vila Boa de Goiás.

Nesse período vieram da Europa arquitetos, pintores, escultores e comerciantes interessados nas riquezas brasileiras. Esses artistas conviviam com o estilo barroco europeu, que sucedeu ao Renascimento, caracterizado por construções exuberantes, muito decoradas, pinturas de colorido forte e contrastante, com figuras que pareciam estar em movimento. A arquitetura religiosa foi o maior expoente da arte barroca. As igrejas eram decoradas com entalhes em madeira cobertos de ouro, tinham teto pintado com cenas bíblicas, esculturas de santos, altares com anjos, colunas, flores e muitos outros elementos decorativos. O grande artista desse período foi Aleijadinho, lembrado até hoje: ele produziu muitas esculturas, seja em madeira ou em pedra-sabão, e também imprimiu um estilo próprio, notadamente na expressão dos rostos, que gerou uma grande influência sobre outros artistas do mesmo período.

As construções desse período incorporavam essas influências européias, mas também produziam uma linguagem local. No caso das casas, prevalecia a influência dos portugueses, com a adequação de seus espaços ao clima brasileiro. Alguns elementos foram incorporados e muito aproveitados em construções brasileiras, como é o caso dos “muxarabis”. Os muxarabis são espécies de janelas ou balcões, protegidos por uma

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História das construções: na Europa, na América pré-colombiana, no Brasil colonial, independente e moderno treliça de madeira, nos quais quem está do lado de dentro consegue ver a rua, mas quem está do lado de fora, não enxerga nada do que está por trás da treliça. Além de fornecer privacidade, é um ótimo elemento de ventilação. Os portugueses trouxeram ao Brasil os muxarabis, que eles haviam herdado dos mouros (árabes do norte da África), que ficaram em Portugal por cerca de 700 anos.

Janela com muxarabis na cidade de Diamantina-MG. (Fonte: Acervo Renato Pereira.)

As casas possuíam um pé direito alto, o que fornecia maior conforto térmico. Em geral, eram construídas em pau-a-pique ou alvenaria de adobes ou pedras, cobertas de telhas de barro.

As casas tinham forro de madeira e eram ventiladas por meio de janelas largas e altas e em repetição num mesmo ambiente. Os forros podiam ser de madeira, lisos ou emoldurados, valorizados por pintura decorativa. Havia também forros em palha entrelaçada, formando um desenho geométrico. A pe-

Pé direito é a altura entre o piso e o teto, indicando a altura de uma parede.

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História das construções: na Europa, na América pré-colombiana, no Brasil colonial, independente e moderno dra era muito utilizada para fazer os portais, soleiras e escadas. O aumento na utilização da pedra ocorria à medida que se desenvolvia o conhecimento da técnica da “cantaria”.

Cantaria é a pedra que, tendo sido trabalhada manualmente com o uso de ferramentas adequadas, apresenta-se pronta para ser utilizada em construções e equipamentos. Na região de Ouro Preto existia (e existe) a técnica da Cantaria em pedra-sabão para a ornamentação de igrejas, casas e outros edifícios. A pedra sabão recebe esse nome porque é muito fácil de ser desbastada.

Com a crescente urbanização e a redução dos terrenos nas cidades, criaram-se duas formas típicas de construção urbana, que perduram até hoje: as casas “grudadas” umas nas outras e os sobrados. Os sobrados eram construídos com o piso intermediário estruturado em madeira, pois ainda não existia o concreto armado que possibilitasse a fabricação de uma laje.

Casa de Chica da Silva em Diamantina-MG, um típico sobrado do Brasil colonial. (Fonte: Acervo Renato Pereira.)

Pau-a-pique é uma técnica construtiva antiga que consistia no entrelaçamento de madeiras verticais fixadas no solo, com vigas horizontais, geralmente de bambu, amarradas entre si por cipós, dando origem a um grande painel perfurado que, após ter os vãos preenchidos com barro, transformava-se em parede. Podia receber acabamento alisado ou não, permanecendo rústica, ou ainda receber pintura de caiação. Fonte: <http:// pt.wikipedia.org/wiki/Pau-apique>. Acesso em: 29 ago. 2007.

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História das construções: na Europa, na América pré-colombiana, no Brasil colonial, independente e moderno

Com a independência, em 1822, o Brasil experimentou um novo processo econômico agrário e novas formas de urbanização e de incremento em sua infra-estrutura interna. Desembarcaram no país muitos profissionais ligados à construção civil com domínio de técnicas e linguagens arquitetônicas próprias que enriqueceram o repertório nacional. Destacaram-se os profissionais ingleses e franceses que integraram as equipes projetistas e construtoras de estradas de ferro, portos, canais, pontes metálicas e até de edifícios públicos e particulares, como teatros, mercados, pavilhões e palacetes. O século XIX e o início do século X foram marcados por um estilo chamado “Neoclassicismo”, ou seja, que utilizava uma idéia de projeto baseada em construções clássicas européias, como a Romana, a Gótica e a Renascentista. Nesse período, as construções em taipa e pau-a-pique foram aos poucos substituídas por construções de alvenaria e concreto. A alvenaria é a construção de estruturas e de paredes utilizando unidades ligadas entre si por argamassa. Essas unidades podem ser os tijolos ou os blocos de pedra.

Alguns novos materiais, como o aço, começaram a ser utilizados como elemento estrutural.

No início do século X surgiu um novo material, o concreto armado, que transformou a maneira de projetar edifícios. O concreto armadoé um material da construção civil que se tornou um dos mais importantes elementos da arquitetura do século X. Ele é usado nas estruturas dos edifícios. Trata-se do concreto reforçado por uma armadura metálica, que é responsável por resistir aos esforços de tração, enquanto o concreto em si já resiste à compressão. Isso possibilitou a verticalização das cidades, ou seja, a construção de edifícios mais altos e também com vãos cada vez maiores.

Junto com essas novas tecnologias surgiu uma nova linguagem arquitetônica que transformou a função e o aspecto das edificações no Brasil: a arquitetura moderna.

A arquitetura moderna brasileira foi um movimento muito importante no mundo todo, porque ela utilizava uma técnica moderna de construção e buscava preservar alguns elementos locais, criando uma linguagem, uma forma de representação bastante original.

Assim, junto a estruturas de concreto armado, de grandes vãos livres e de um acabamento quase sem ornamentos, havia elementos que levavam a memória lá para o nosso barroco,

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História das construções: na Europa, na América pré-colombiana, no Brasil colonial, independente e moderno para as casas e sobrados de cidades como Ouro Preto. A arquitetura moderna incorporou, no Brasil, muitas técnicas tradicionais de nossa arquitetura colonial, por exemplo: utilizava o muxarabi e os elementos vazados – como os cobogós – para a ventilação e proteção do sol e possuía murais em azulejos e cores semelhantes às empregadas nas construções coloniais. Isso aconteceu em grande parte graças a um estudo realizado pelo arquiteto Lúcio Costa, na cidade de Diamantina. Em visita a essa cidade, ele percebeu a importância desses elementos tradicionais e revelou a potencialidade que eles tinham para ser utilizados na arquitetura moderna. A partir do uso desses elementos, surgiu uma outra característica construtiva de nossa arquitetura moderna que a fez única no mundo: a maneira de se trabalhar o concreto armado. Esse tipo de estrutura, graças a utilização de vergalhões e telas de aço, permitia a realização de formas curvas e sinuosas, possibilitando uma excelente junção entre a técnica, a arte e nossas características regionais. Oscar Niemeyer soube fazer uso desse potencial. Ele dizia que as curvas, as linhas sinuosas dos edifícios que projetava, como a igreja de São Francisco de Assis, em Belo Horizonte, eram uma lembrança das montanhas de Minas Gerais, uma homenagem ao seu povo, ao seu clima e, graças à técnica do concreto armado e ao uso que fez dela, era um tributo à própria arquitetura moderna.

A Organização das Nações Unidas para a Ciência e a Cultura (Unesco) possui uma Convenção do Patrimônio Mundial para incentivar a preservação de bens culturais e naturais considerados significativos para a humanidade. O Brasil possui alguns bens culturais que são considerados patrimônios da humanidade, como as cidades de Ouro Preto, Diamantina e Brasília, graças ao notório valor histórico e arquitetônico. Para saber mais sobre outros patrimônios da humanidade e sobre essas cidades, acesse o site do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). (Disponível em: <w.iphan.gov.br>. Acesso em: 26 set. 2007.)

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Hist ória das constru ç ões: na Europa, na Am érica pr é-colombiana, no Brasil l on ial, in d epen dente e mo d ern o

Igreja de São Francisco de Assis, em Belo Horizonte-MG.

A) Se a sua cidade tem mais de 30 anos, observe sua escola e sua cidade e verifique quais as técnicas construtivas que foram empregadas no edifício escolar. São técnicas que você julga contemporâneas ou que vêm do nosso período colonial? Sua escola lembra alguma construção histórica de sua cidade? Meça a espessura das paredes das salas de aula de sua escola. Elas são finas ou grossas? Compare agora o prédio de sua escola com prédios mais antigos de sua cidade (escolas, igrejas, repartições públicas e residências) e reconheça as principais diferenças de estilos e de materiais. Se possível fotografe e anexe ao seu memorial ou relatório, discutindo com colegas de grupo.

B) Se você mora numa cidade com menos de 30 anos, a mesma pesquisa será feita por meio de entrevistas com educadores e outros cidadãos com mais de 50 anos de idade, formulando perguntas sobre diferentes estilos e materiais usados nos prédios escolares. Talvez você mesmo tenha lembranças de seu tempo de estudante ou de relatos de sua família. O que se usava antigamente nas construções e não se usa mais hoje? O que não se usava antigamente e se usa hoje? Procure em sua escola algum elemento que lembre nossa arquitetura colonial: muxarabis, elementos vazados, tijolos furados, varandas, taipa. Faça uma lista e discuta com os colegas em grupo.

3 O edifício escolar

UNID ADE 3 – O edifício escolar

3.1 Leitura e desenho de projetos

Para efetuar algum reparo ou para discutir com engenheiros e arquitetos em uma eventual reforma ou ampliação da escola, é importante que você saiba ler as informações transmitidas sobre o edifício escolar, compreendendo o seu projeto. Essas informações são representadas por um tipo específico de desenho, chamado “desenho técnico”. São representações gráficas do edifício e de seu entorno, que guiam os construtores na fase de implantação da escola e auxiliam os funcionários que irão cuidar de sua manutenção e conservação.

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