PORTUGUÊS-Regência Verbal

PORTUGUÊS-Regência Verbal

(Parte 2 de 5)

"E quem mora no beco, só aspira ao beco." (Rachel de Queiroz) Não se diz aspiro-lhe, e sim aspiro a ele(s), a ela(s). Só encontra o amor quem a ele aspira.

Assistir a) No sentido de ver, presenciar, estar presente, é transitivo indireto. Esse objeto indireto deve ser encabeçado pela preposição a, e se for expresso por pronome de 3ª pessoa, exigirá a forma a ele(s), ou a ela(s) (nunca lhe/lhes).

Todos assistiam ao espetáculo (a ele).

Vimos em nossa aula de verbos que os verbos transitivos apenas indiretos não se constroem na voz passiva porque só o objeto direto da ativa pode transformar-se no sujeito da passiva. Ainda se lembra disso? Pois é, agora a coisa vai complicar um pouquinho.

Na linguagem coloquial, dada sua proximidade com os verbos VER, PRESENCIAR, OBSERVAR (todos eles transitivos diretos), é usual o emprego do verbo ASSISTIR (que, nessa acepção, é transitivo indireto) em voz passiva: A missa foi assistida por milhares de fiéis.

De qualquer forma, segundo a linguagem culta formal, deve-se abolir essa construção.

Para a prova, mais uma vez recomendamos cuidado: bancas tradicionais exigem os aspectos cultos da gramática, devendo ser respeitada a sintaxe original.

Outras mais modernas podem aceitar a forma passiva. O jeito é analisar as opções e agir com bom senso.

b) No sentido de prestar assistência, confortar, ajudar, proteger, servir, é transitivo direto OU indireto (indiferentemente).

O médico assiste os doentes. Ele assistiu-lhe (ao doente) na enfermidade.

Para lembrar: se for para prestar socorro, não importa a regência – assista o/ao acidentado de qualquer forma.

c) No sentido de caber, pertencer de direito ou razão, é transitivo indireto. Não lhe assiste o direito de reclamar.

d) No sentido de morar, constrói-se com preposição EM, sendo intransitivo. Aliás, essa é a sintaxe empregada aos verbos que indicam permanência (morar, residir, estar, situar-se).

“Assiste em Lisboa.” (Caldas Aulete, citado por Celso Luft)

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Atender a) Quando o complemento for pessoa, é transitivo direto ou indireto O diretor atendeu os/aos alunos.

Se a preferência for pelo pronome (e não o substantivo), usa-se somente de forma direta o, a, os, as (e não lhe/lhes):

O diretor os atendeu.

b) Quando o complemento for coisa, é transitivo indireto. No entanto, modernamente é aceita também a forma direta para coisa.

O governo não atende as/às reivindicações dos grevistas. Atenda o/ao telefone, por favor.

Resumo: Modernamente, aceitam-se a sintaxe direta ou indireta, indistintamente. Se o complemento estiver expresso por um pronome, usa-se a forma direta (o,a, os, as).

Chamar a) No sentido de chamar a presença de alguém, é transitivo direto:

Eu chamei meu filho e pedi um favor. Ninguém o chamou aqui, seu moço.

b) Na acepção de pedir auxílio ou atenção, é transitivo indireto, com a preposição por.

"Gurgel tornou à sala e disse a Capitu que a filha chamava por ela." (M. Assis) c) Com o sentido de apelidar, dar nome, qualificar, admite as seguintes construções:

Chamaram-no covarde. Chamaram-no de covarde. Chamaram-lhe covarde. Chamaram-lhe de covarde.

Nessa construção, é um verbo transobjetivo, apresentando o complemento verbal (objeto direto ou indireto) e o predicativo do objeto (que pode vir acompanhado de preposição ou não).

Esse é o único verbo transobjetivo que apresenta complemento indireto. Todos os demais possuem apenas objetos diretos.

Custar a) No sentido de ser custoso, difícil, tem como sujeito aquilo que é difícil, podendo apresentar-se sob a forma de uma oração reduzida de infinitivo, que pode vir precedida da preposição a.

Custa-me o seu silêncio. (O seu silêncio é custoso para mim.) Custa-me dizer que acendeu um cigarro. Custou-me muito a brigar com Sabina.

Como vimos na aula sobre concordância verbal, quando o sujeito é representado por uma oração (sujeito oracional), o verbo permanece na 3ª pessoa do singular.

Na linguagem cotidiana, dada a sua proximidade com “demorar” ou “ser difícil”, houve alteração na construção, atribuindo-se valor à pessoa (Custei a entender essa lição, Ele custou a chegar aqui.).

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Essa inovação sintática, presente até em registros literários, segundo CEGALLA (Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa), ainda não foi sancionada pelos gramáticos.

Para a prova, leve a sintaxe originária: Custou-lhe chegar aqui. Custou-me entender a lição.

b) No sentido de causar, acarretar conseqüências, é transitivo direto e indireto.

A imprudência custou-lhe lágrimas amargas. c) No sentido de indicar preço, é intransitivo. Esta casa custou trinta mil dólares. Informar, Avisar, Comunicar, Cientificar

Agora, começamos a conhecer alguns verbos que admitem dupla regência, ou seja, indistintamente direta e indireta para coisa ou pessoa (serão chamados de flexíveis), e outros que apresentam somente uma forma para coisa e outra para pessoa (inflexíveis).

Parece que estou falando grego, não é? Vamos, então, partir para os exemplos.

Assim, o conceito fica claro. Dentre os verbos flexíveis, podemos destacar:

INFORMAR: Eu posso informar alguma coisa a alguém (direto para coisa e indireto para pessoa) ou informar alguém de/sobre alguma coisa (direto para pessoa e indireto para coisa).

O ministro informou o povo sobre as novidades na Economia. O ministro informou as novidades na Economia ao povo.

AVISAR: Avisei o amigo do acidente. / Avisei o acidente ao amigo.

Por isso, em construções de voz passiva, tanto a pessoa como a coisa podem exercer a função de sujeito paciente, porque qualquer desses elementos pode ser o objeto direto, indiferentemente:

O amigo foi avisado do acidente. O acidente foi avisado ao amigo. Outros verbos não possuem essa “flexibilidade”. Vamos analisar alguns desses verbos inflexíveis

COMUNICAR: Como o sentido originário desse verbo é “TORNAR ALGO COMUM (enfatiza-se a coisa em detrimento da pessoa).

Assim, esse verbo apresenta a sintaxe direta para coisa e indireta para pessoa = COMUNICAR ALGO A ALGUÉM.

Comunicamos ao diretor a decisão do grupo.

Por isso, segundo a norma culta, condena-se a construção de voz passiva em que a pessoa se apresente como sujeito, uma vez que ela exercia a função de objeto indireto da voz ativa. Somente a coisa pode ser o sujeito paciente:

A decisão do grupo foi comunicada ao diretor. (e não: O diretor foi comunicado da decisão do grupo)

CIENTIFICAR: O sentido de CIENTIFICAR é TORNAR ALGUÉM CIENTE (enfatizase a pessoa em detrimento da coisa).

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Enquanto o verbo comunicar apresenta construção direta para coisa e indireta para pessoa, o verbo cientificar é direto para pessoa e indireto para coisa (Eu cientifiquei o diretor da decisão do grupo.).

Agora, para uma melhor compreensão, vamos traçar um paralelo entre COMUNICAR e CIENTIFICAR.

COMUNICAR ALGO A ALGUÉM ≠ CIENTIFICAR ALGUÉM DE ALGO Celso Luft observa que às vezes ocorre a inovação sintática cientificar algo a alguém, que atinge também verbos como informar, avisar, certificar. Contudo, em linguagem culta forma, é preferível a sintaxe originária cientificá-lo de.

No decorrer dos exercícios de fixação, encontraremos mais alguns verbos de dupla possibilidade de regência.

Esquecer Admite três construções diferentes:

Esqueci o nome dele. Esqueci-me do nome dele. Esqueceu-me o nome dele.

Quando pronominal (esquecer-se), o verbo necessariamente é empregado com complemento indireto (esquecer-se de algo).

Se este complemento for oracional, especialmente em orações desenvolvidas (iniciadas pela conjunção que), admite-se a omissão da preposição DE: “Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra” (Drummond).

O que nas duas primeiras construções é objeto (direto ou indireto) passa a sujeito na terceira: "O nome dele esqueceu-me" significa que esse nome apagou-se da memória, saiu da lembrança. Essa sintaxe emprega à construção um valor involuntário da ação ocorrida (algo foi esquecido por mim).

"Nunca me esqueceu esse fenômeno." (M. Assis) = O fenômeno (sujeito) nunca esqueceu a mim (objeto indireto). Tudo o que acontece com o verbo ESQUECER se repete com o verbo LEMBRAR.

Lembrar a) Com o sentido de trazer à lembrança, evocar, recordar-se, é transitivo direto.

Seu penteado lembrava as divas de Hollywood.

b) Com sentido de vir à memória, aceita, à semelhança do que ocorre com o verbo esquecer, três modelos de construção:

Lembro o acontecimento. Lembro-me do acontecimento. Lembra-me o acontecimento

Implicar a) No sentido de ter implicância com, mostrar má disposição para com alguém, é transitivo indireto.

Implicou com os irmãos..

b) No sentido de comprometer-se, enredar-se, envolver-se em situações embaraçosas, é acompanhado de pronome reflexivo e de complemento introduzido pela preposição EM.

Atualmente não são poucos os políticos que se implicam em negociatas.

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"um dever que implica desdouro para meu amigo, se eu me esquivar a

c) No sentido de trazer como conseqüência, acarretar, é transitivo direto. cumprilo." (C. C. Branco) "...sem que a investida do novo chefe implicasse a menor quebra no movimento político e social." (Latino Coelho)

Celso Luft: “Implicar em algo é inovação em relação a implicar algo por influência dos sinônimos redundar, reverter, resultar, importar. Aparentemente brasileirismo.

Plenamente consagrado, admitido até pela Gramática Normativa. P.ex.: Tal procedimento implica (em) desdouro (Rocha Lima, Gramática Normativa da Língua Portuguesa, pg. 401)”

Em relação a essa inovação, já vejamos uma questão de prova da ESAF: (AFRF/2002.1) Julgue os períodos abaixo em relação à correção gramatical.

b) A prática do racismo é definida como crime na Lei nº 7.716/89, isto é, nessa Lei estão definidas várias condutas que implicam tratamento discriminatório, motivado pelo preconceito racial. / A prática do racismo é definida como crime na Lei nº 7.716/89, isto é, nessa Lei estão definidas várias condutas que implicam em tratamento discriminatório, motivado pelo preconceito racial. Este item foi considerado CORRETO pela banca.

Na acepção de trazer como conseqüência, acarretar, tradicionalmente o verbo implicar é transitivo direto (“Seu silêncio implicava consentimento.”). Contudo, provavelmente seguindo a doutrina recente, a construção com o verbo transitivo indireto foi tida por correta em ambos os períodos – implicam tratamento / implicam em tratamento.

Obedecer É um verbo transitivo indireto, que rege a preposição a.

Em relação à possibilidade do emprego dos pronomes oblíquos lhe/lhes no lugar de a ele(s)/ela(s), a maioria esmagadora dos gramáticos se posiciona favoravelmente à troca.

Ele não é capaz de obedecer às ordens de seu chefe. Quem lhe desobedecer sofrerá sanções.

Mesmo sendo um verbo transitivo indireto, modernamente admite voz passiva, reminiscência do antigo regime transitivo direto. São diversos registros literários dessa possibilidade. Essa observação, inclusive, consta da Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, e é abonada por Celso Luft (“A voz passiva é vista como normal - Alguém é obedecido.”).

"A Senhora manda, e é obedecida." (José de Alencar)

Em linguagem culta formal, contudo, ainda se recomenda a construção indireta.

Para a prova, tome muito cuidado. Algumas bancas são extremamente tradicionais e ficam naquele “feijão com arroz”. Outras já preferem inovar e explorar novos conceitos. O candidato deve procurar identificar o posicionamento da banca e, se isso não for possível, analisar as demais opções antes de tachar a afirmação como certa ou errada.

Idêntica é a construção do antônimo desobedecer. Ele não podia mais desobedecer às vontades de Deus.

Vamos ver uma questão de prova: (NCE UFRJ / INCRA / 2005)

25 - Sabemos que só os verbos transitivos diretos admitem a forma passiva; por isso, a alternativa que mostra uma forma adequada de passiva é:

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(A) O pai do candidato foi comunicado do ocorrido; (B) Os professores são muito obedecidos pelos alunos; (C) O chefe foi substituído pelo novo funcionário; (D) O presidente Juscelino foi sucedido por Jânio Quadros; (E) A peça será acontecida no dia 28 de agosto.

O gabarito foi a letra C. Note que a banca da UFRJ não aceitou a forma passiva do verbo OBEDECER (opção B), considerando-a inadequada.

Em relação aos demais verbos:

a) o verbo COMUNICAR apresenta como objeto direto a COISA e indireto a PESSOA. Por isso, estaria incorreta a forma passiva de pessoa como sujeito paciente (O pai foi comunicado).

c) o verbo SUBSTITUIR é transitivo direto – Uma pessoa substitui outra. Assim, é possível a construção passiva: O chefe foi substituído. Essa foi a resposta certa.

d) na acepção de “ser o sucessor”, o verbo SUCEDER constrói-se com objeto indireto: Ele sucedeu ao pai na gestão dos negócios.

Contudo, há registros clássicos da transitividade direta do verbo (sintaxe em desuso). Luft registra que “é compreensível certa inclinação por sucedê-lo na linguagem culta formal”, muito comum no português clássico, talvez por influência do verbo substituir. Note que a banca não aceitou a forma direta, considerando incorreta a construção de voz passiva O presidente Juscelino foi sucedido por Jânio Quadros.

e) O verbo ACONTECER pode ser INTRANSITIVO (algo acontece) ou TRANSITIVO INDIRETO com a preposição a (algo acontece a alguém). Não há, pois, objeto direto para que se possa construir voz passiva.

Pedir

Trata-se de um verbo transitivo direto. Somente aceita o complemento regido pela preposição para quando houver subentendida, entre o verbo e a preposição, uma palavra como licença, autorização, permissão.

Pedimos que sejam observadas as regras de convivência. Os alunos pediram para sair. (permissão para sair)

Perdoar - Pagar – Agradecer

Na língua culta, constroem-se com objeto direto em relação à coisa e objeto indireto em relação à pessoa.

Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem! Agradeci-lhe os presentes. Já paguei as contas a meus credores.

Contudo, por influência de verbos do mesmo campo semântico – desculpar alguém / indenizar alguém– surgiu uma nova estrutura: objeto direto para a pessoa (perdoar alguém / pagar alguém), o que levou à possibilidade de construção passiva:

Todos foram perdoados pelo rei (o rei perdoou todos). Neste mês, os empregados não serão pagos (a empresa não pagará os empregados).

Preferir O verbo é transitivo direto e indireto (Preferir uma coisa a outra). "Capitu preferiu tudo ao seminário." (M. Assis)

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Em virtude da proximidade semântica com querer, desejar (uma coisa mais do que outra), passou a ser comum na linguagem coloquial a forma preferir uma coisa mais do que outra ou preferir muito mais, construções condenadas pelos gramáticos.

Para a prova, tenha sempre em mente a sintaxe original: PREFERIR ALGO A OUTRA COISA.

Não há impedimento algum para a construção com somente o complemento direto:

Prefiro os antigos moldes. Proceder a) No sentido de ter fundamento é intransitivo. Seu pedido não procede.

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