História Oral - Desafios para o Século XXI

História Oral - Desafios para o Século XXI

(Parte 2 de 6)

Philippe Joutard Professor da Universidade de Ciências Sociais de Toulouse (Toulouse 1)

Roberto DaMatta

Professor de Antropologia e detentor da Cátedra Reverendo Edmundo Joyce de Antropologia na Universidade de Notre Dame, Indiana, EUA

Selma Leydesdorff

Professora do Instituto para Estudos de Gênero Belle van Zuylen da Universidade de Amsterdam, Países Baixos

Apresentação 1 1. Abertura

Significado do X Congresso Internacional de História Oral Mercedes Vilanova 19

Brasil dois mil: um exercício de profecia

Roberto DaMatta 23

2. Avaliações e tendências da história oral

Desafios à história oral do século XXI

Philippe Joutard 31 Aos cinquenta anos: uma perspectiva internacional da história oral Alistair Thomson 47

Memória e diálogo: desafios da história oral para a ideologia do século XXI

Alessandro Portelli 67 Desafios do transculturalismo

Selma Leydesdorff. 73

3. História oral na América Latina

Desafios da história oral latino-americana: o caso do Brasil José Carlos Sebe Bom Meihy 85

Desafios da história oral latino-americana Dora Schwarzstein 9

Nós e o espelho Janaína Amado 105

Balanço e novos desafios

Eugenia Meyer 113

4. Traumas na Alemanha

Introdução ao painel "Traumas na Alemanha"

Alexander von Plato 119 Memória sobrevivente: verdade e inexatidão nos depoimentos

sobre o Holocausto Mark Roseman 123 O fardo de falar sobre a perseguição nazista na Alemanha Friedhelm Boll 135 A integração de conhecimentos históricos na narrativa da própria vida: entrevista com prisioneiros dos campos soviéticos entre 1945 e 1950 na Alemanha Anne Kaminsky 143 Competições entre vítimas Alexander von Plato 155

5. Identidade da classe trabalhadora em uma economia global

A desindustrialização vista de baixo para cima e de dentro para fora: o desafio de se retratar a classe trabalhadora em palavras e imagens Michael H. Frisch 167

Entre texto e fotos: contando a história de Linda Lord e do fechamento da Penobscot Poultry Alicia J.Rouverol 179

Comentários sobre o painel "Identidade da classe trabalhadora em uma economia global"

Ana Maria Mauad 199

Este livro reúne as conferências proferidas durante o X Congresso

Internacional de História Oral, intitulado "História Oral: Desafios para o Século XXI", realizado no Rio de Janeiro em junho de 1998.

Os textos ora divulgados, não incluídos nos anais do congresso, permitem que o leitor tenha acesso às discussões mais recentes sobre o panorama e as perspectivas da história oral no mundo.

A realização do X Congresso Internacional de História Oral, que contou com mais de trezentos congressistas provenientes de 25 países, representou um marco importante no movimento da história oral. Como já é sabido, a história oral desenvolveu-se inicialmente de forma significativa nos países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos, regiões que sempre sediaram os encontros internacionais, limitando assim a participação de pesquisadores da Ásia, da África e da América Latina. Uma maior institucionalização do movimento da história oral, com a criação da Associação Internacional de História Oral (IOHA - International Oral History Association) em Gotemburgo, na Suécia, em 1996, e a opção por privilegiar a realização das conferências fora do eixo Europa-Estados Unidos abriram um imenso espaço de renovação e de democratização deste campo de trabalho. Como acentuou Mercedes Vilanova, presidente da IOHA, em sua palestra de abertura aqui publicada (parte 1), esse deslocamento geográfico promoveu uma maior participação dos grupos de pesquisa até então pouco articulados com o debate internacional.

O Congresso de 1998 representou a consolidação dessa nova tendência, ao integrar um número expressivo de pesquisadores da América Latina, que contribuíram para o desenvolvimento e a divulgação de novas temáticas, articuladas aos problemas e desafios sociais existentes na região. Entre essas temáticas, podemos citar: a questão agrária, em especial o Movimento dos Sem-Terra; a questão étnica e a mestiçagem; os contrastes urbanos e a situação dos meninos de rua; as comunidades indígenas, o extrativismo e a problemática amazônica; novas manifestações religiosas; as ditaduras militares e o problema dos desaparecidos políticos, além de outras, é claro.

Mas, além da inserção de novas questões e abordagens ao campo da história oral, o evento permitiu o aprimoramento de temas já clássicos, como, por exemplo, as problemáticas de gênero, a imigração, as questões metodológicas, a subjetividade e a eloquência do silêncio, além de conjunturas históricas especialmente investigadas através da história oral, como é o caso da Segunda Guerra Mundial.

Os textos aqui publicados exploram e discutem uma gama variada de questões. A palestra inaugural de Roberto DaMatta (parte 1) compara a situação do Brasil no mundo em dois momentos: na entrada do século X e na entrada do século XXI. Enquanto há cem anos as características híbridas da sociedade brasileira não eram bem-vistas pelos intelectuais impregnados dos valores de "pureza" e "compartimentalização" do mundo civilizado, hoje nossa mestiçagem tornou-se uma vantagem perante os países que não conseguem conciliar o nacional com o étnico. Procurando instigar os debates de todo o Congresso, o eixo central escolhido por DaMatta tem relação com o próprio campo da história oral, um campo multidisciplinar e miscigenado por excelência, em que diferentes tendências e abordagens se tornam possíveis.

A questão da miscigenação acabou sendo retomada por vários conferencistas, ao mapearem os desafios da história oral no século XXI, especialmente pelos autores dos textos reunidos na parte 2. Para Philippe Joutard, a história oral pode ajudar a introduzir elementos de mestiçagem e de diversidade, de maneira a impedir um fechamento das identidades em si mesmas. No seu entender, a vinculação estreita entre história oral e identidade apresenta-se como um desafio perigoso e sua proposta é que a supervalorização das identidades seja objeto de atenção e cuidado, pois, do contrário, as identidades podem tornar-se mortíferas; assim, é necessário que elas se misturem, isto é, que seja reconhecida a necessidade de um aporte externo, estrangeiro.

Alistair Thomson, ao também enfocar os desafios para o século XXI, direciona suas reflexões para a compatibilização entre o aperfeiçoamento teórico, que deve embasar a metodologia da história oral, e seu compromisso de atuar como um instrumento de ação social. No seu entender, é fundamental garantir o envolvimento da história oral com propostas comunitárias que possam mapear a realidade e fornecer instrumentos de ação para politicas de saúde, educação e assistência social. Seu texto proporciona ainda um painel de diferentes programas de história oral que cobrem essas áreas de trabalho e as possibilidades e riquezas daí resultantes.

Alessandro Portelli enfatiza a importância da história oral como uma ferramenta baseada na memória para questionar interpretações que, atualmen¬ te, estão empenhadas em retratar o século X como o século dos horrores. No seu entender, a história oral é a metodologia que pode recuperar para o século XI a visão de que o século X produziu uma série de lutas importantes pela defesa da igualdade social. O desafio da história oral nesse sentido é mostrar, diferentemente do que costuma ser consagrado, que a memória não é apenas ideológica, mitológica e não confiável, mas sim um instrumento de luta para conquistar a igualdade social e garantir o direito às identidades.

Selma Leydesdorff analisa os desafios do transculturalismo e chama atenção para o fato de o transculturalismo não ser igual ao transnacionalismo. Pessoas podem ser transnacionais, mas isso não significa que sejam transculturais. O reforço das identidades locais ou regionais contrapõe-se à rápida globalização de uma comunidade mundial de pessoas que criam cultura e mudam culturas - uma comunidade que se tornou transnacional -, mas isso não conduz obrigatoriamente à afirmação do transculturalismo. Como as formas complexas de relações culturais são um campo privilegiado para a metodologia da história oral, a autora sugere, como agenda para a IOHA e para os próximos congressos, o desafio de estimular a montagem de pesquisas transnacionais que melhor elucidem a complexidade das relações transculturais.

A parte 3, dedicada à história oral na América Latina, inicia-se com o texto de José Carlos Sebe Bom Meihy, que ressalta a aproximação entre o advento da história oral na região e as conjunturas políticas de redefinição democrática que se seguiram às ditaduras militares. Um ponto negativo relativo à história oral na América Latina consiste, segundo ele, na excessiva dependência aos pensamentos europeu e norte-americano, levando a uma espécie de colonialismo cultural que tem ofuscado o livre reconhecimento do sentido público e social da história oral entre nós.

Dora Schwarzstein e Janaína Amado são unânimes em defender o aprofundamento das bases teóricas para a pesquisa, lançando os problemas com os quais a história oral se vê envolvida hoje, no campo da historiografia como um todo. A alternativa, para Dora Schwarzstein, não está na busca da elaboração de marcos teóricos necessariamente distintos e "nacionais", e sim no aprofundamento das pesquisas nos países latino-americanos. Traçando um panorama da história oral na Argentina, ela chama atenção para as diferentes realidades e experiências empreendidas nos países da região, defendendo a existência não de uma, mas de várias vozes da história oral na América Latina.

Janaína Amado relaciona a discussão com características próprias da construção da identidade latino-americana 3/4 partida, bifurcada e problemática 3/4, cujas dificuldades podem ser superadas quando abandonamos a dicotomia entre tentar ser o outro (o europeu) e escandalizar-se com a imagem deformada de nós mesmos. Para ela, a especificidade da produção latino-americana repousa na variedade não só temática como teórica, incluindo a própria utilização da história oral, ora entendida como metodologia, como técnica ou como disciplina, ora aplicada a pesquisas na universidade, ora utilizada por historiadores, ou ainda por profissionais de outras áreas.

Articulada com os textos anteriores, a linha de argumentação de Eugenia

Meyer, ao refletir sobre a história oral na América Latina, é a de chamar atenção para a nossa originalidade, dada pelo fato de povos latino-america¬ nos serem produtos de múltiplas mestiçagens étnicas e culturais. Partindo desse ponto, defende que é preciso reconhecer a necessidade de seguir caminhos próprios com meios próprios, de maneira a evitar a reprodução de modelos inadequados à nossa realidade. Assim, o grande desafio é encontrar alternativas para superar a imensa desigualdade social que separa os povos latino-americanos e recuperar os silêncios e os esquecimentos impostos pelas ditaduras do século X, como um instrumento para garantir a marcha de consolidação democrática.

Na parte 4, o grupo de artigos sobre depoimentos de sobreviventes do

Holocausto e prisioneiros em campos soviéticos da antiga Alemanha Oriental trata de questões clássicas da história oral, surgidas nos casos concretos estudados pelos autores. Mark Roseman discute as diferenças entre depoimentos de história oral e documentos de época, como cartas e diários, no caso da biografia de uma sobrevivente do Holocausto radicada na Inglaterra. Para ele, a possibilidade de confrontar o depoimento de Marianne Ellenbogen com registros de época mostrou que as "falhas de memória" são, na verdade, tentativas de manter um controle sobre o passado, como uma espécie de "distância psicológica" que os entrevistados colocam entre si próprios e a insuportável realidade.

O texto de Friedhelm Boll examina de modo bastante pungente diferentes razões do silêncio de um sobrevivente do Holocausto que se recusava descrever sua experiência: desde a impossibilidade mesma de comunicação, que o impedia de contar, em linguagem cotidiana, o que aconteceu, porque não acreditava que pudesse ser compreendido, até a enorme culpa de ter sobrevivido. Essa culpa é, aliás, comum aos entrevistados que sobreviveram ao Holocausto, constituindo-se num dos fardos mais pesados que carregam ao se defrontar com seu destino.

Já os textos de Anne Kaminsky e Alexander von Plato tratam de outra dimensão da culpa, aquela que repousa sobre a sociedade alemã como um todo, englobando as "duas" Alemanhas: o trauma das mortes e da destruição causadas pelos regimes nazista e soviético. Como lidar com isso - com os milhares de mortos, refugiados, sem família, durante a guerra, e com os aprisionados depois de 1945 e transformados em vítimas do comunismo? Kaminsky discute a tomada de depoimentos em uma instituição destinada a guardar a memória de um campo de concentração que serviu posteriormente de campo de prisioneiros de guerra na zona soviética da ex-Alemanha Oriental. Percebe-se que os entrevistados mesclavam a seu depoimento informações obtidas a posteriori, procurando influenciar os entrevistadores, que, a seus olhos, eram os detentores da memória oficial.

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