História Oral - Desafios para o Século XXI

História Oral - Desafios para o Século XXI

(Parte 3 de 6)

Essa "competição entre memórias" (Michael Pollak fala de "memórias em disputa") também está na base do texto de von Plato, que destaca a rivalidade que se estabeleceu na Alemanha entre as vítimas do nazismo e as vítimas do regime soviético, com significados variados conforme o período - no imediato pós-guerra, durante a guerra fria, ou após a reunificação alemã. Nos dois textos fica claro que o uso da metodologia de história oral como recurso para elaborar (ou "digerir") o passado recente alemão exige todo cuidado da parte do intérprete e leitor das entrevistas.

A parte 5 traz para a discussão dois temas bastante atuais. De um lado, a associação da história oral à imagem fotográfica, que lança novos desafios, além daqueles que se apresentam ao uso de cada uma das fontes em separado. De outro lado, a globalização da economia, aqui analisada observandose seu reflexo sobre a (re)construção da identidade da classe trabalhadora, a partir da combinação entre história oral e fotografia.

O texto de Michael Frisch centra suas reflexões no trabalho do fotógrafo Milton Rogovin, traçando um paralelo entre sua produção e a do brasileiro Sebastião Salgado. Suas preocupações voltam-se para a imagem de operários do setor siderúrgico de Buffalo, diante dos novos problemas que a economia globalizada e reestruturada lhes impõe. Michael Frisch detém-se ainda sobre a resistência de editores quanto à publicação de trabalhos em que imagens de trabalhadores estão associadas a narrativas dos próprios trabalhadores.

Alicia Rouverol discute, a partir da relação entre texto e imagem, o declínio industrial e o impacto deste sobre as classes populares, tomando como exemplo uma indústria avícola fechada em um contexto de desindustrialização. O ponto de vista de suas reflexões é o da experiência de determinada operária, Linda Lord, incluída no processo de construção da pesquisa através de sua própria narrativa.

Comentando os textos de Michael Frisch e Alicia Rouverol, Ana Maria

Mauad denuncia o papel durante muito tempo ocupado pela imagem, como "ancorada à palavra", seja ilustrando-a, seja servindo-lhe de legenda, e considera fundamental a intertextualidade para uma "compreensão integral da comunicação humana".

Dada a qualidade e importância do material aqui reunido, optamos por, após um rigoroso tratamento editorial, transformá-lo em livro. Assim, estão aqui publicadas todas as conferências feitas em plenário, à exceção da palestra de Devra Weber, proferida no painel "Desafios da história oral na América Latina", por opção da própria autora. Demais comunicações apresentadas em grupos de trabalho já foram publicadas nos anais do congresso1, distribuídos por ocasião do evento.

Esperamos que a leitura dos textos que se seguem torne possível traçar um perfil de parte da discussão que vem sendo travada nos últimos anos na área da história oral.

As organizadoras

1 Conferência Internacional de História Oral; 10:1998: Rio de Janeiro. Oral History: Chalknges for the 21 st Cenlury; Xth International Oral History Confercnce, proccedings. Rio de Janeiro, CPDOC-FGV/Fiocruz, 1998, 3 v.

1 Abertura

Mercedes Vilanova

Como presidenta da Associação Internacional de História Oral (IOHA International Oral History Association) tenho o prazer de dar as boas- vindas a esta histórica conferência internacional, a primeira na América do Sul. Uma boa coisa desta conferência é que posso falar em minha própria língua, o que significa que não terei de traduzir como, por exemplo, quando estou na Europa - algo que os que falam inglês raramente têm de fazer. Não terei de traduzir porque, espero, nesta platéia a maioria das pessoas possa me compreender.

Nestas breves palavras, desenvolverei três linhas de reflexão em torno do significado deste momento presente, da transição que implica esta conferência, orientada para o terceiro milênio; e dar minha própria visão da Associação Internacional, que estarei presidindo durante poucos dias mais.

Este momento é importante porque, pela primeira vez, nos reunimos sob os auspícios de três instituições: a Associação Brasileira de História Oral, o CPDOC da Fundação Getulio Vargas e a IOHA que deu todo o apoio de que foi capaz. É a primeira vez que se dá uma participação deste tipo. Passamos de um comitê de pessoas designadas por cooptação, que tomavam as decisões arbitrariamente, a reger-nos por estatutos e a aceitar o compromisso de nos submetermos às decisões da Assembléia Geral dos membros da IOHA. Mas, além disso, os organizadores desta conferência quiseram ampliar o debate a todos os participantes, e amanhã, depois da intervenção de Philippe Joutard, manteremos uma sessão de debate aberta a todos que quiserem participar.

Talvez o melhor e mais novo deste momento esteja no grand large de que nos falará Philippe Joutard amanhã. Grand large que traduzo livremente

* Tradução de Paulo Martins Garchct.

como "horizonte insondável" ou, significativamente, por "hemisfério sul". Pela primeira vez temos a oportunidade, a partir da IOHA, de contemplar conjuntamente uma visão descentralizada e poliocular do mundo, que se liga diretamente com este futuro que temos na virada da esquina.

que derrotaram ontem a seleção da EspanhaE ainda outro exemplo fute-
distintos

Mais ainda, creio que este momento é decisivo para todos nós porque, também pela primeira vez em nossas reuniões, o espanhol e o português são idiomas oficiais reconhecidos pela IOHA. Estamos, pois, começando a praticar a mestiçagem cultural e começamos a reconhecer nossas respectivas identidades culturais. Deixamos de ser provincianos para iniciar uma caminhada cosmopolita, empreendedora, dinâmica, alegre e mais efetiva; se me permitem uma metáfora, estamos jogando futebol como os nigerianos bolístico nestes momentos de Copa do Mundo, a IOHA queria ser como o Maracanã, este maravilhoso estádio circular do Rio, com uma entrada única para todos os espectadores, o que não é aceito pela FIFA, que prefere estádios divididos em classes sociais e, por isso, com entradas e preços muito

Minha segunda linha de reflexão se refere aos desafios do futuro que a transição que estamos vivendo implica. Transição que, me parece, percebese claramente em três âmbitos. Escolhemos a América para nos reunirmos porque sabemos que estes são países em que é preciso investir atenção e esforços, países que estão sub-representados na IOHA. Ao eleger o Rio para sede da X Conferência não o fizemos para reparar o passado, mas porque sabemos olhar para o futuro.

Além desta aventura, ou nesta viagem da história oral em direção às fronteiras do indizível, da des-capacitação, ou da linguagem escrita, deveremos adotar o multiculturalismo como realidade iniludível; o grand large, nesse sentido, é a humanidade sem deixar ninguém no esquecimento, e principalmente os menos favorecidos.

Em terceiro lugar, esta hibridação ou futuro deve implicar forçosamente as gerações mais jovens que a minha. Quando aceitei assumir a presidência da IOHA em Gotemburgo, o fiz por dois motivos. Em primeiro lugar, para apoiar com todo meu coração o desenvolvimento da IOHA na América; sentimento que tem em mim raízes muito fundas. Quando, em Barcelona, em 1989, fundamos a revista Historia y Fuente Oral o fizemos como uma resposta à exclusão que espanhóis e latino-americanos havíamos sofrido na Conferência de Oxford de 1987; e o fizemos para favorecer o diálogo, para integrar e não desunir o movimento. E, em segundo lugar, aceitei a presidência para passar a tocha ou, se me permitem expressão tão odiosa, para passar a liderança à geração mais jovem, e espero que isto ocorra no decorrer desta conferência. De fato, vivemos já em plena transição. Durante estes anos, trabalhei com dois vice-presidentes que representam justamente a incorporação dessa nova juventude. Quero agradecer publicamente, aqui, o esforço, a dedicação e a amizade de Alistair Thomson, que generosamente aceitou ser o editor de nosso boletim Words and Silences, apoiado por Graciela de Garay, que se ocupou da edição de Palabras y Silencios. E quero, naturalmente, agradecer a Marieta de Moraes Ferreira, que aceitou o desafio de organizar esta conferência.

Sei que há muitas ausências significativas nesta sala. A que mais me dói é a de Sven Ek e Birgitta Skarin Frykman, organizadores da IX Conferência Internacional. Em minha despedida de Gotemburgo, admiti que seria difícil superar o que eles haviam feito; pois bem, Marieta o conseguiu, no mínimo em três aspectos: pela elegância dos Anais; por sua acomodação generosa a todas as eventualidades, e pelo esforço de organização que implica manejar três idiomas simultaneamente. Aconteça o que acontecer no Rio, a IOHA estará em boas mãos porque, graças ao esforço de todos nós, temos plantado uma semente original nesta terra que cruza fronteiras, inclusive sob os mares.

Para concluir, quero apontar que nossos trabalhos no Rio terão muito a ver com os ecos de gestos, vozes e atos, como as ondas sempre presentes da memória. Não podia imaginar que, quando em 1975, com Wila Baum, convocamos em San Francisco uma mesa- redonda intitulada "Oral history as a new methodology for historical research", as vibrações deste primeiro encontro nos levariam à plenitude de hoje. Com maior força ainda, as ondas que serão geradas nesta conferência que agora iniciamos nos levarão, com seu estrondo e seus silêncios, ao terceiro milênio, que queremos novo por sua qualidade de vida, participação e solidariedade.

Finalmente, um anúncio de interesse para todos. Se até agora havia sido difícil encontrar quem quisesse organizar nossos encontros internacionais, chegaram-me já três petições escritas, uma do México, da UNAM, outra da Espanha, da Universidade de Granada, e outra da Turquia, da Universidade Bogaziçi de Istambul. Também a Universidade de Salzburgo se ofereceu como sede de nosso próximo encontro. Talvez nesta conferência a IOHA adote a decisão de celebrar os encontros cada vez em continentes distintos. Se assim for, África, Ásia e Austrália são desafios que esperamos enfrentar no próximo milênio. Muito obrigada.

Roberto DaMatta

Quero, primeiramente, agradecer aos organizadores deste congresso a honra que me reservaram convidando-me a pronunciar sua conferência inaugural. Honra que agradeço e que imediatamente acasalo à responsabilidade, pois entendo que uma conferência inaugural deva ser se não inspiradora e instigadora dos temas a serem debatidos pelos especialistas aqui reunidos, pelo menos auspiciosa no sentido de tratar de alguma questão que possa despertar interesse.

E se o convidado que vos fala é um antropólogo social, então o tema deverá estar situado em algum espaço comum tanto à disciplina dos espaços sociais particulares, daquilo que nós, antropólogos, chamamos de cultura, quanto aos estudos do que é localizado no tempo e interessa à história.

Quero, pois, à guisa de profetizar um futuro muito próximo, discutir o que considero um problema persistente na sociologia brasileira. Uma questão que surge, tanto nos estudos do Brasil enquanto sociedade e tradição, quanto nos estudos históricos.

trabalho se ele não o amasseUma posição que faz com que toda compara-

Quero me referir a uma profunda desvalorização do Brasil pelos estudiosos brasileiros. Uma visão negativa de nós mesmos que, mesmo quando o autor do trabalho diz que ama o Brasil, nos faz imaginar o que seria do ção seja feita, já sabemos, para exaltar o outro e para dar valor positivo ao que vem ou o que está fora.

O pano de fundo para o que vou aqui expor, portanto, diz respeito a esse fato. Realizar uma leitura positiva de sua própria sociedade parece ser uma das maiores impossibilidades para todos nós e para as elites brasileiras em geral. E por leitura positiva eu não me refiro a meras boçalidades nacionalis¬ tas de que fomos testemunhas durante a ditadura de Vargas ou durante os governos militares. Não estou aqui para insultá-los.

Quero me referir; isso sim, à possibilidade de dispor algum modelo neutropositivo de operação para o Brasil. Um modelo que, sem excluir os constrangimentos e o ceticismo obrigatório de uma autoconsciência crítica, considere a visão positiva de certos processos, mecanismos e valores sociais que deveriam ser discutidos para serem preservados.

Em outras palavras, quero aqui refletir rapidamente sobre um assunto, tabu para todos nós, qual seja: quais as vantagens ideológicas do Brasil nessa virada de milênio.

Talvez esse exercício seja básico para a construção daquilo que temos sempre esquecido quando falamos sobre nosso sistema político, nossa "concentradíssima" concentração de renda e nossa história, a saber: a distinção entre a crítica e a condenação.

O Brasil entrou no século X com o pé esquerdo, mas - apesar dos pessimistas e dos "brasilianistas" - pode sair dele com o pé direito. Mais preparado do que nunca para os desafios do século XXI.

Na virada dos 1900, 12 anos após uma gradual, segura e tardia libertação de sua multidão de escravos, o Brasil negava a si mesmo como sociedade e duvidava profundamente de sua integridade nacional.

Para muitos, éramos uma sociedade doente, feita de "raças inferiores" - o "branco" português, o "índio" e o "negro" - que não tinha capacidade para gerenciar sua imensa riqueza e seu próprio destino. Nosso maior defeito era ser aquilo que ninguém poderia corrigir por meio de leis copiadas de fora: éramos uma sociedade híbrida, um sistema inapelavelmente misturado e mestiço.

Se a nossa elite tinha um denominador comum, tão dividida que sempre foi por seus interesses políticos, essa unanimidade era (que quase digo, tem sido...) a leitura do Brasil como uma coletividade enferma e constituída de coisas fora do lugar. A elite podia discordar em tudo, menos do seu profundo desamor pelo Brasil.

Tal auto depreciação, consolidada após a frustração da experiência republicana que autoritariamente pensava poder mudar (eunificar) por meio de uma modernização institucional, feita por decreto, se exprime nitidamente na tristeza de Paulo Prado, no Jeca Tatu de Monteiro Lobato, no profetismo negativo de Coelho Neto, na visão das coisas fora do lugar de Olavo Bilac, no soturno pessimismo de Sílvio Romero e, sobretudo, na perplexidade épica e igualmente negativa dos Sertões de Euclides da Cunha.

Para todos esses gigantes, o Brasil só escaparia do fracasso histórico, ao qual estava racial, climática, dietética e historicamente predestinado, por um esforço de autoconsciência que era ao mesmo tempo diagnóstico sociológico, programa político e exercício flagelatório. No limite, o Brasil era definido pelo que não era e pelo que não tinha - por um conjunto de ausências sociais e históricas, que fazia nossa elite lamentar até mesmo a falta de guerras civis e revoluções sangrentas.

Naquela época, o heterogêneo, o múltiplo, o polissêmico e o ambíguo representavam exclusivamente a "doença" e o "atraso".

Num momento de consolidação do Estado-nacional capitalista e de triunfo do individualismo, do mercado, da industrialização e da técnica, nada era mais caro ao chamado "mundo civilizado" ou "adiantado" do que a idéia de pureza e de compartimentalização. Para essa mentalidade, o maior sintoma de atraso era a convivência num mesmo sistema de dois ou mais códigos culturais que liam o mundo de modo diferenciado. Para ela, o básico era que o Estado-nacional tivesse um só chefe e uma só cara, funcionando como um indivíduo dotado de um conjunto de traços similares. Tal ideal marcou a trágica história do século X, exprimindo-se em brutal totalitarismo de esquerda e de direita, em duas sangrentas guerras mundiais e em odiosos holocaustos, cuja ideologia, convém lembrar, tinha como objetivo a "purificação racial".

Como, portanto, lidar com o Brasil num momento em que o prestigioso e modelar Ocidente pregava a pureza e a compartimentalização étnica? Como individualizar esse Brasil constituído de escravos e senhores? Como conciliar o ideal burguês de igualdade com um universo social marcado pela mais profunda desigualdade? Como orquestrar a massa de negros e mestiços analfabetos com uma elite cosmopolita e sofisticada - estrangeiros dentro do Brasil - ,cujo modelo era uma família imperial branca, que falava com sotaque e estava acima das leis?

No início do século X, então, o Brasil tinha o sério problema de conciliar a heterogeneidade de sua experiência histórica com um modelo civilizatório que não contemplava como positivo o hibrismo. Um modelo, ademais, que propunha ao mundo colonizado um projeto de desenvolvimento que simplesmente deveria repetir a história dos países centrais.

Mas como ser como a França, a Inglaterra e, sobretudo, os Estados Unidos, sem franceses, ingleses e norte-americanos e se a experiência brasileira juntava paradoxalmente a América com a África e com a Europa, de modo especial, pois, além de sua massa de escravos, o Brasil também foi inesperadamente transformado em metrópole e teve rei e imperadores, um dos quais fez a nossa independência nacional? Experiência, aliás, à espera de uma avaliação mais detida que amplie os achados clássicos de um Oliveira Lima, mas que certamente perdura na consciência popular. Pois a elite pode ter esquecido de um d. João VI fora do lugar, mas o povo sempre se lembra do luxo da corte surgida no Rio de Janeiro em 1810, recriando no carnaval não o poder do dinheiro na nobreza, mas a nobreza que, englobando o poder, inventa um universo movido a "luxo". Esse "luxo" que é uma categoria social importante para entender não só o carnaval como uma tradição e um ritual, mas o Brasil como um estilo de vida.

Por outro lado, como contemplar o ideal de vir-a-ser como o colonizador "branco" se o Brasil era profundamente "mestiço"? Se ele não gerenciava suas diferenças pela lógica do conflito que dizia "sim" ou "não" , mas era uma sociedade governada pela ambiguidade, pela complementaridade e pela gradação que contempla o contexto e o "mais ou menos"? Como conciliar o nosso ideal hierárquico dado no princípio do "desiguais, mas juntos" com a proposta burguesa do "iguais, mas separados"?

Sabemos que o ideal de "branqueamento" e as políticas de extermínio de índios contemplou esse modelo civilizatório de integração nacional absoluta, apresentada por meio de um código racista. Países com maioria de população branca podiam partir para uma política agressiva de isolamento étnico como solução para sua unidade nacional. No caso do Brasil, porém, a magnitude da mistura tornava impossível negar a multiplicidade étnica que de fato constituía a sociedade brasileira. Realmente, como separar legalmente o que práticas sociais seculares haviam juntado? Como eliminar os intermediários que despolarizavam uma sociedade jurídica e politicamente polarizada se esses mediadores eram a própria razão de ser do sistema?

Se, como disse Tocqueville, os "hábitos do coração" dos Estados Unidos eram a igualdade e o individualismo, no caso do Brasil eles se localizavam numa multidão de espaços intermediários: adros, praças, carnavais, procissões e crenças sincréticas que afirmavam que tudo era bom e ruim, que tudo se salvava e poderia ser também condenado. Se o espaço cósmico da América calvinista é dual - salvação ou danação -, nós, brasileiros, elegemos uma terceira via como centro do além: o purgatório, lugar típico da passagem e da inclusão.

Impedido, pois, de realizar um projeto de purificação racial, o Brasil criou - a despeito dos programas de suas elites e às vezes com eles - um forte quadro de valores contra-hegemônicos. Valores híbridos e relativamente antiburgueses que sustentaram suas mais diversas experiências políticas. Como tudo que é histórico ou sociológico, a impossibilidade de imitação foi uma vantagem. Foi ela que criou um estilo brasileiro de ser e de viver. Foi ela que primeiro proporcionou a autovisão - articulada primeiramente pela obra originalíssima de Gilberto Freyre (profundamente influenciada e constituída pela história oral) - de que, apesar de tudo, a mestiçagem cultural era uma experiência positiva. Não podíamos ser brancos, tampouco ser uma sociedade hegemonicamente articulada por leis universais. Mas podíamos ser mulatos e usar a nossa indefinição como vantagem. E foi assim que, sabendo ou não, saímos da escravatura sem guerra civil. Foi assim também que passamos pela onda racista e totalitária do século X. Nosso sectarismo político não nos fez matar parentes e amigos que eram nossos eventuais inimigos. Fomos autoritários, mas não chegamos ao nazismo; fomos racistas, mas não segregacionistas.

O modelo burguês sempre foi atuante, mas não deixou de ser amaciado pela experiência histórica de coletividade que era igual pela metade, mas que, não obstante, tinha fascinação pelo encontro e instituía a ambiguidade, a mistura e intimidade - vale dizer, a relação - como valor social.

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