História Oral - Desafios para o Século XXI

História Oral - Desafios para o Século XXI

(Parte 4 de 6)

Hoje, quando a globalização faz o mundo encolher e dialeticamente traz à tona as diferenças étnicas e religiosas, como comprovam os conflitos na índia, no México, no Peru, na ex-União Soviética, na Bósnia e, certamente, na Europa etnicamente purificada e nos Estados Unidos dos livres e iguais, podemos ler como potencialmente positiva a experiência brasileira.

Em todos esses países consolidados em torno do ideal burguês do individualismo e do mercado, articulados por uma cultura cívica aceita por todos e gerenciada pelo Estado, o que se observa hoje é a dificuldade de orquestrar o étnico e o nacional. Como se houvesse um combate entre o Estado-nação e as etnias que estão sob o seu governo, há em todos esses "países adiantados" uma disputa de lealdades. De um lado, os valores locais que falam em cor, experiência histórica e religião; do outro, os estilos administrativos e os valores da cultura cívica que falam em lealdades nacionais, fundadas em leis que teoricamente valem para todos. O resultado é uma crise configurada pelos limites do civismo fundado no ideal da igualdade e do mercado, um civismo que não parece ter capacidade de resistir aos laços étnicos primordiais e a valores religiosos e étnicos que as teorias da modernização julgavam superados.

Se, portanto, o século XXI for marcado pelas viagens, pela imigração e pela presença étnica, o Brasil, que mais uma vez "moderniza" o seu Estado-naci¬ onal, terá uma enorme vantagem. Primeiro, porque a sociedade não está colada ao Estado e aos valores cívicos que ele representa, tendo a capacidade de a ele sobreviver, como demonstra a experiência dos últimos vinte anos: uma corrupção desenfreada, uma impunidade deslavada e uma inflação catastrófica. Depois, porque o Brasil tem uma vasta experiência no que diz respeito à orquestração das diferenças sociais. Se é verdade que ele articulou essa experiência de modo injusto no passado, é também legítimo afirmar que nem por isso essa demarcação foi segregacionista ou exclusivista no limite. Temos preconceitos, mas não temos ódio racial no Brasil. Nosso capitalismo, sendo de Estado e de casas-grandes, não foi cívico nem filantrópico, mas teve preocupações sociais que até hoje se realizam no plano de solidariedades pessoais profundas. Finalmente, temos a vantagem de estar reconstruindo o Estado. Para nós, portanto, não se trata de adaptar a nação à sociedade, mas de fazer chegar os anseios da sociedade ao Estado-nacional moldado pela ética e pela norma burguesa.

O mundo do ano 2000 será sem dúvida globalizado, nacionalizado, cívico e universalista, mas também será um universo no qual os valores étnicos terão enorme presença e visibilidade. Será um mundo simultaneamente homogêneo e heterogêneo. Um universo, portanto, muito mais brasileiro do que poderiam imaginar os nossos teóricos. Nele, certamente, vamos encontrar dimensões universais e também uma multidão de intermediários e mestiços: "mulatos culturais" que viverão entre nações e etnias, explicando as diferenças, intermediando disputas, criando sociedades híbridas e sistemas a meio caminho. Será certamente muito mais um mundo de "mulatos" do que de "puros", um sistema que só poderá operar com a presença dos que têm simpatia pela diferença, pelo hibridismo e pela multidão de "outros" com que todos irão conviver.

Nossa experiência com a mestiçagem, nossa crença de que a virtude está no meio, nosso ideal de fazer como dona Flor - casar com os dois e tirar partido de tudo - pode, ao fim e ao cabo, dar certo. Pois os maiores problemas dos "países adiantados" serão as etnias que militam contra seus códigos nacionais. No Brasil, porém, não poderá haver código nacional eficiente sem levar a sério esses intermediários que estão dentro dos nossos corações. Esse será o nosso desafio, tais são as nossas potencialidades.

Avaliações e tendências da história oral

Philippe Joutard

Desafios à história oral do século XXI é um tema vasto, complexo e difícil, o que me leva a pedir que sejam indulgentes. O que vou sugerir é um ensaio para provocar a discussão e aprofundar a reflexão ao longo destes quatro dias - e para além deles -, sabendo que, neste campo, como sempre ocorre na história, as certezas não nascem de posições individuais, mas do diálogo e do trabalho conjunto. Diria mais, até, as certezas precisam saber ser modestas.

São cinco os desafios que vejo, à imagem dos cinco continentes, mas há um em particular que já superamos, o que me alegra profundamente.

AX Conferência: o grande oceano

O desafio já superado é o do grande oceano. Nossa conferência internacional se realiza, pela primeira vez, fora da Europa, no Brasil, este belo país da América Latina; e não é uma conferência qualquer, é a 10ª - se formos sensíveis ao simbolismo dos números.

Mais que justo, quando se considera a contribuição da América Latina para a história oral, nas suas origens com os admiráveis Los Hijos de Sanchez, que todos lemos, e que continuou depois de 1956, quando os arquivos sonoros do Instituto Nacional de Antropologia do México recolheram as lembranças dos cabeças da revolução mexicana.

Mais que justo, quando todos conhecemos o trabalho feito pela Fundação

Getúlio Vargas, no Brasil, lançando, a partir de 1975, um grande programa de história oral destinado a recolher os testemunhos dos líderes políti¬

*Tradução de Paulo Martins Garchct.

cos posteriores a 1920. A esta mesma fundação devemos a organização deste encontro - e, mais particularmente, ao CPDOC, a Marieta de Moraes Ferreira e todos que a ajudaram, cuja iniciativa saúdo. Todos lhes agradecemos.

Seu país é, também, toda a riqueza da tradição oral na confluência de três continentes e de três civilizações, tradição oral que tanto inspirou diversos de vossos grandes escritores: José Lins do Rego, Guimarães Rosa e, evidentemente, Jorge Amado. A este respeito, não resisto ao prazer de lhes dar "em primeira mão", um fragmento de pesquisa oral recolhido por nossa colega brasileira, Tânia Almeida Gandon, autora deste belo trabalho sobre a memória da gente de Itapuã.1 Ela entrevistou Jorge Amado por telefone, e ele lhe respondeu: "Lamento não poder lhe dizer em luso-brasileiro: 'não me acho um escritor tão bom assim, mas sou um excelente tradutor da linguagem oral do povo da Bahia'."

Não desejo fazer o papel do Velho Guerreiro em um colóquio inteiramente voltado para o século XXI. Porém, nós o sabemos, a memória se declina no presente e é o impulso de ação para o futuro. Hão de me permitir, portanto, evocar nosso itinerário comum não por espírito nostálgico e refúgio no passado, mas para dele extrair o segundo desafio. Quanto chão andado desde nosso primeiro encontro, que teve lugar em Bolonha, em 1976, mas que havia sido precedido da mesa-redonda preparatória no XIV Congresso Internacional de Ciências Históricas de San Francisco, intitulada: Oral History as a New Methodology for Historical Research (História Oral como Nova Metodologia para a Pesquisa Histórica). Relembro, a título de informação, nossas oito outras conferências: Colchester, em 1978; Amsterdam, em 1980; Aix-en¬ Provence, em 1982; Barcelona, em 1985 - à qual nossa presidente acaba de aludir; Oxford, em 1987, onde foi notada a importância da presença da América Latina; Essen, em 1990; Siena em 1992; e, finalmente, Gotemburgo, em 1996.

Através destas conferências, mas, também, através de outros encontros como o da Universidade de Colúmbia, em outubro de 1994, e de nossas publicações internacionais, delineiam-se já as linhas mestras deste campo histórico, de onde tiro o segundo desafio posto para o século XXI.

1 Ver a comunicação: A voz de Itapuã: dinâmica de um discurso de identidade cultural, In: Oral History: chanlknges for the 2lst century, Atas, Rio de Janeiro: CPDOC/ Fundação Getúlio Vargas; Casa de Oswaldo Cruz/ Fiocruz, 1998, p. 1.354-1.358.

Permanecer fiel às inspirações iniciais

Estamos persuadidos de que a história oral não está mais em suas primícias.

Chegou já à primavera e é cada vez mais reconhecida e compreendida nos círculos acadêmicos mais tradicionais. Os que contestam a fonte oral travam combates ultrapassados. Em contrapartida, como em todo fenômeno que atinge a maturidade, o risco de perda de vitalidade, de banalização é real. Seu segundo desafio é o de permanecer fiel à sua inspiração inicial.

Neste segundo desafio é preciso saber respeitar três fidelidades à inspiração original: ouvir a voz dos excluídos e dos esquecidos; trazer à luz as realidades "indescritíveis", quer dizer, aquelas que a escrita não consegue transmitir; testemunhar as situações de extremo abandono. Irei desenvolver estes três pontos sucessivamente.

A força da história oral, todos sabemos, é dar voz àqueles que normalmente não a têm: os esquecidos, os excluídos ou, retomando a bela expressão de um pioneiro da história oral, Nuno Revelli, os "derrotados". Que ela continue a fazê-lo amplamente, mostrando que cada indivíduo é ator da história. Já conhecemos o papel representado pela história oral no desenvolvimento de uma verdadeira história das mulheres, Gender History (História de gênero), que foi um dos grandes temas do último congresso internacional de ciências históricas de Montreal. Não tenho preocupação quanto a este ponto: o lugar e a importância das mulheres no progresso da história oral representam uma garantia. Mas, há, ainda, o mundo operário e o camponês - e o dos emigrantes. É preciso ir além, e seguindo os conselhos de nossa presidente, em sua comunicação ao congresso de Montreal, dar a palavra - amplamente - aos analfabetos e ao mundo da pobreza extrema:2 todos os que tiveram esta experiência conhecem a qualidade de certos diálogos, a justeza do tom e a riqueza dos testemunhos. Há, porém, além desses, o mundo dos deficientes, das crianças; tudo que é humano é nosso, e é preciso fazer recuar as fronteiras.3 Nossa conferência dá vários exemplos em todos os campos que acabo de evocar.

Não se pode esquecer que, mesmo no caso daqueles que dominam perfeitamente a escrita e nos deixam memórias ou cartas, o oral nos revela o "indescritível", toda uma série de realidades que raramente aparecem nos documentos escritos, seja porque são consideradas "muito insignificantes" - é o mundo da cotidianidade - ou inconfessáveis, ou porque são impossíveis de

2 Ver: El combate en España por una historia sin adjectivos con fuentes orales, Historia y Fuente Oral, v. 14, 1995, p. 113-116.

3 Ver toda uma série de exemplos no texto: Al Margen: La Historia de la Discapacidad. Historia y Fuenie Oral, v. 13, 1995, p. 5-95.

transmitir pela escrita. É através do oral que se pode apreender com mais clareza as verdadeiras razões de uma decisão; que se descobre o valor de malhas tão eficientes quanto as estruturas oficialmente reconhecidas e visíveis; que se penetra no mundo do imaginário e do simbólico, que é tanto motor e criador da história quanto o universo racional. Apelo aqui para a experiência pessoal dos universitários. Um relatório escrito de uma de nossas assembléias consegue traduzir o que realmente se passou? De minha parte, tendo tido, durante vários anos, funções de gestão, como responsável pelo sistema educativo de uma região,4 saí desta experiência reconfortado com a idéia de que, mesmo sendo abundantes, os arquivos escritos são insuficientes para descrever e, sobretudo, se compreender uma realidade tão complexa quanto a história da educação, e de que precisam ser complementados por grandes pesquisas orais que teremos a oportunidade de realizar. Uma história oral das elites é, portanto, de grande utilidade e, de novo, ressalto que nossa conferência oferece múltiplas evidências, quer se tratem de arquitetos do México, de jornalistas brasileiros ou de intelectuais franceses.5 Devo acrescentar, sobre este ponto, que a história oral é uma via de acesso privilegiada a uma história antropológica e deve continuar a sê-lo.

Porém, para que a pesquisa oral desempenhe plenamente seu papel, precisa reconhecer seus limites e, até, fazer deles uma força. Explico-me: estou convencido de que a história oral fornece informações preciosas que não teríamos podido obter sem ela, haja ou não arquivos escritos; mas devemos, em contrapartida, reconhecer seus limites e aquilo que seus detratores chamam suas fraquezas, que são as fraquezas da própria memória, sua formidável capacidade de esquecer, que pode variar em função do tempo presente, suas deformações e seus equívocos, sua tendência para a lenda e o mito. Estes mesmos limites talvez constituam um de seus principais interesses.

Sem contradição nem provocação, estou, de fato, convencido de que tais omissões, voluntárias ou não, suas deformações, suas lendas e os mitos que elas veiculam, são tão úteis para o historiador quanto as informações que se verificaram exatas. Elas nos introduzem no cerne das representações da realidade que cada um de nós se faz e são evidência de que agimos muito mais em função dessas representações do real que do próprio real (mesmo

4 O que chamamos na França recleur d'académie, que, ao contrário de outros países, não dirige uma universidade, mas os ensinos primário e secundário.

5 ComparaF: Oral History: Challenges for the 21st century, op. cit. grupo de trabalho 7; trajetórias de intelectuais, p. 321 e as comunicações de: Abreu, A. A. c de Ferreira, M. de M. Ver, também, os videoteipes de Graciela de Garay, Traición o Modernidad: Reto de Una Generación, no marco do Proyecto Historia Oral de la Ciudad de México, Testimonios de sus Arquitectos (1940-1990).

em um nível intelectual bem elevado). O que os historiadores positivistas consideram radicalmente como o ponto fraco do testemunho oral não apenas nos permite compreender melhor o "vivido" dos testemunhos, mas também conhecer os motores da ação. Esses "erros" nos apresentam uma forma de verdade superior. Um único exemplo, mas de peso: através da história oral colhemos, frequentemente, os "rumores". Façamos o levantamento, em nossas diversas histórias nacionais, de todos os acontecimentos importantes que foram deslanchados por rumores. Permitam que tome apenas um exemplo de minha própria história nacional: um dos atos decisivos da Revolução Francesa, a abolição dos privilégios na noite de 4 de agosto de 1789 - data bem conhecida de quantos por ela se interessam-, é resultado de um gigantesco rumor que deu lugar a numerosos movimentos camponeses e que chamamos de "la Grande Peur" (O Grande Medo) . 6

cios, lapsosAssinalemos, ainda, o interesse da gravação em vídeo, que per-

Nesta ótica, são necessários o tratamento crítico e a distância não só para sinalizar as distorções em relação à realidade passada, mas também para interpretá-la. Como interpretar o silêncio e o esquecimento? Para nos ajudar, é indispensável a análise da totalidade do documento: hesitações, silênmite capturar também gestos e expressões. Inútil dizer, estamos todos convencidos de que o documento original é a gravação e que a transcrição não passa de acessório, não podendo substituir a audição de fitas gravadas ou, ainda melhor, a visão dos videoteipes.

Quanto às situações de extremo abandono, teremos um belo exemplo com o painel sobre traumas na Alemanha, coordenado por Alexander von Plato. Não preciso insistir em lembrar quanto a pesquisa oral é o meio privilegiado para compreender os mecanismos do mundo da concentração. A melhor história sobre a solução final na França é Shoah, o filme inteiramente composto de testemunhos de Claude Lanzmann, que se recusou até a recorrer aos documentos escritos. O horror não terminou com o fim do nazismo, ou com a queda do muro de Berlim e, infelizmente o sabemos, perpetua-se em novos genocídios, o que vale dizer que a história oral tem, mais que nunca, o imperativo de testemunhar, tendo a coragem de permanecer história diante da memória de testemunhos fragmentados que têm o sentimento de uma experiência única e intransmissível: é preciso combinar respeito e escuta atenta, de uma lado, com procedimentos históricos, não importa quanto isto nos seja penoso.7

6 Descrito em belíssimo livro que se tornou um clássico da historiografia francesa, La Grande Peur, de G. Lefebvre, publicado em 1932 pela Armand Colin.

7 Um belíssimo exemplo c dado por Pollack, M. L'Expérience Concentrationnaire, Paris: Metaillé, 1993.

Não me estenderei muito mais porque estou, aqui, pregando a convertidos e não tenho dúvidas de que os sentimentos que levaram muitos de nós a nos lançarmos neste campo, há vinte ou trinta anos, são exatamente os mesmos que hoje movem os que iniciam suas primeiras pesquisas.

Nossa diversidade, uma oportunidade

O terceiro desafio é de ordem metodológica. Fiquem tranquilos, não irei lembrar a discussão em torno do próprio termo história oral, que sempre reaparece em nossos encontros: sobre este ponto permito-me sugerir como referência os comentários que fiz em meu relatório para o congresso internacional de Montreal8 e, ainda, o que consta das comunicações a esse congresso, e que foram publicados no volume 14 da Historia y Fuente Oral (de Dora Schwartein, de Pietro Clemente ou de Jean Pierre Wallot).9 O termo história oral é equívoco e ambíguo, impreciso, mas é simples e, sobretudo, tem agora a antiguidade a seu favor. Devo acrescentar que sua ambiguidade não me desagrada: o ser equívoco e de múltiplos sentidos não reflete a imagem da realidade que procura alcançar? Desconfio, na história, dos conceitos muito simples, muito geométricos. Pior para as discussões teóricas, das quais nos privaremos! Em contrapartida, gostaria de abordar um problema mais simples, teoricamente, mas que na prática é mais complexo, e que não pode se agravar.

Em três décadas de história oral multiplicaram-se os empreendimentos mais diversos. O crescimento é exponencial e não se trata de um problema meramente quantitativo, mas qualitativo, também. E o movimento se amplia. Nos Estados Unidos, Dunaway já anotou quatro gerações de "oralistas";10 na Europa ocidental e na América Latina serão duas, ou três, conforme o país. Além dos que podemos atribuir-lhe, há muitos outros, e a diversidade não é tanto de países como de tipos de projeto.

Há as instituições locais, os grupos religiosos, étnicos, ideológicos, as empresas que buscam coligir sua memória oral para reforçar sua identidade, os

8 Histoire orale: bilan d'un quarl de siècle de réflexion méthodologique et de travaux, atas do XVIII Congresso Internacional de Ciências Históricas. Montreal: 1995, p. 214-215, reproduzido em Historia, Antropología y Fuentes Orales, v. 15, 1996, p. 166-167.

9 La Historia Oral en América Latina; Debate sobre fuentes orales en Italia; Archivistica e Historia Oral. Historia y Fuente Oral, p. 48-49, 90, 8-9.

10 La Inter Disciplinariedad de la Historia Oral en Estados Unidos. In: Historia y Fuente Oral, p. 14, p. 27-31.

pedagogos preocupados em iniciar seus alunos na história, os jornalistas tentando fazer compreender tal ou qual realidade social ou evento, os arquivistas e curadores de museus interessados em completar seus acervos de arquivos - ou que receberam uma encomenda pública - e, finalmente, o mundo universitário e acadêmico, que coloca um problema histórico a ser resolvido e procura a resposta nas fontes orais - isoladamente ou, no mais das vezes, em conjunto com outros documentos.

No próprio campo dos universitários e arquivistas há a história oral das ciências políticas, de um lado, para quem a fonte oral é complemento dos documentos escritos, especialmente interessada em interrogar os atores - antigamente, os principais, agora, e cada vez mais, também os atores medianos e da base. De outro lado, a história oral antropológica. A segunda tem amplo domínio e influenciou a primeira, seja pelas conversas com os homens e mulheres do campo, seja pelo tipo de assunto. Há também o caso particular daqueles que procuram recolher a tradição oral, quer dizer, não a memória pessoal da testemunha, mas aquilo que lhe foi transmitido. Sabemos a importância desta tradição oral, como documento da história na África, mas acredito estar particularmente bem colocado para vos dizer do interesse que ela pode ter nas civilizações com forte base escrita.

Mas a grande divisão ideológica e epistemológica está em outro lugar: contrapõe, de um lado, uma história oral militante, radicalmente alternativa; de outro, uma história oral acadêmica. A primeira ambiciona fazer história do ponto de vista dos que estão embaixo e dos excluídos; intervir, interpretar, distanciar-se - como o fazem os historiadores - é quase um sacrilégio, uma tomada ilegítima de poder. Os historiadores acreditam que a melhor homenagem que se pode prestar à memória dos excluídos é transformar sua memória em história. Se quisermos tirar melhor partido da pesquisa oral e extrair toda sua riqueza, não poderemos deixar de utilizar plenamente os procedimentos históricos.

Eis aqui o terceiro desafio: será possível evitar a fragmentação da história oral? Haverá um diálogo possível entre empreendimentos diversos e com metodologia variável, ou será o estatuto do testemunho oral radicalmente diferente? E entre os militantes de uma "história alternativa" e os historiadores acadêmicos, que respeitam seus interlocutores mas buscam um certo distanciamento e a construção de um verdadeiro discurso histórico? Desta diversidade, que às vezes beira a explosão, será possível obtermos uma oportunidade e um enriquecimento recíprocos?

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