História Oral - Desafios para o Século XXI

História Oral - Desafios para o Século XXI

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Assistindo-se a alguns de nossos debates, pode-se duvidar. É caso de desespero? Por princípio e por método, diria que não. Mas minha resposta não basta. Devo argumentar e propor alguns princípios para tal enriquecimento.

Primeiro princípio imperativo: se me for permitida esta metáfora em um país de tradição católica, mas que, contraditoriamente, pratica o sincretismo com a umbanda, é preciso rejeitar as excomunhões recíprocas. Todos os empreendimentos têm sua utilidade e sua forma de legitimidade. Trazem à luz memórias orais distintas, mas todas têm interesse, com a condição de que não se perca de vista essa diversidade, e de que não haja mistura de gêneros. Não se pode esperar o mesmo resultado de uma pesquisa universitária - que segue uma problemática determinada e um questionamento preciso na constituição de um acervo de arquivos orais - como a que há muito é feita na Universidade de Colúmbia, e de todos os registros, ora em andamento, de testemunhos de sobreviventes dos campos de extermínio - onde se trata de um trabalho de militância em defesa da identidade de um grupo. Acredito que mesmo as pesquisas mais modestas podem nos dar muito. Tomarei um único exemplo: o trabalho pedagógico que tive a oportunidade de apreciar graças aos empreendimentos de minha esposa com suas turmas do liceu de Aubagne, perto de Marselha. Entrevistando seus avós, mesmo desajeitadamente e sem a sutileza dos entrevistadores profissionais, as crianças podem obter confidências inestimáveis. Às vezes, a ligação de parentesco sequer é necessária, bastando a distância de duas gerações e que a pessoa idosa sinta a necessidade de transmitir uma experiência de vida ou uma tradição.1 Posso testemunhar, de minha parte, que o historiador "profissional", "acadêmico" tem muito a lucrar com as gravações escolares - e não apenas para a didática da história. Digo isto sem nenhum espírito demagógico.

A partir do momento em que cada um explicite claramente seus pressupostos, seus objetivos e seu método, sem que ninguém esteja convencido de que o seu é o único método que chega à verdade, será possível um diálogo e poder-seão utilizar os documentos recolhidos por outrem. Este é o segundo princípio.

Vou ainda mais longe: espero que o século XXI permita o máximo de análises cruzadas sobre os acervos de pesquisas orais das mais diversas proveniências. Mas, ao formular este desejo, não escapo à questão posta por Jean- Pierre Wallot, o diretor dos Arquivos do Canadá, durante nossa reflexão de Montreal: "Até que ponto o testemunho oral se presta a uma utilização fora de contexto e não prevista por seus criadores?"12 E sequer abordo aqui os problemas jurídicos extremamente complexos: suponho que estejam acertados pelo momento.

1 Ver Joutard, G. L'enquête orale en classe. Historiens et Géographes, julho de 1981 e os videoteipes: De L'Orient à l'Occident, un jour, elles ont eu vingt ans (1984), et Le Vent de l'exil (1987), Productions C.R.D.P. de Marselha.

12 Archivistica e Historia Oral . Historia y Fuente Oral, vol. 14, p. 19.

Para levar a interrogação ainda mais longe, evocarei o caso seguinte: é possível, doravante, que um pesquisador faça um trabalho baseando-se predominantemente em fontes orais sem que ele mesmo jamais tenha feito uma única pesquisa. Poderemos considerá-lo um "historiador orar"? Por mim, tenho o ímpeto de responder pela negativa porque para se entender até que ponto a entrevista é uma construção a dois, onde a participação do entrevistador é determinante, é preciso que se tenha feito entrevista, quando mais não seja para mensurar os constrangimentos do exercício, o que ele revela e o que não revela.

Responderia afirmativamente à pergunta de Wallot, na condição, precisamente, de que se conheçam os constrangimentos da entrevista e seus obje¬ tivos. A utilização de documentos desviados de sua função e fora de contexto tornou-se, na historiografia contemporânea, um meio de vencer o silêncio e de atingir as realidades difíceis de serem percebidas. Penso no historiador das mentalidades que na França, por exemplo, utiliza um testamento para revelar outras realidades bem distintas da riqueza de uma família, ou das práticas de sucessão: citaria, entre outras, o grau de alfabetização, a cultura literária, a cultura material, a piedade, a descristianização. Vou mais longe, ainda: é uma nova oportunidade para a história oral de poder se beneficiar de uma certa profundidade histórica e de poder fazer um cruzamento de fontes orais, não mais de um mesmo período apenas, mas de épocas distintas, talvez por uma mesma pessoa, com mais frequência por um grupo. Vêm-me à mente, para o primeiro caso, certos chefes da resistência francesa que deram seus testemunhos ao saírem da guerra, nos anos 1945- 1950. Vinte ou vinte e cinco anos depois foram interrogados por jovens pesquisadores. No crepúsculo de suas vidas desejam, frequentemente, fazer um balanço; escrevem suas memórias, ou são novamente requisitados por uma nova geração de pesquisadores, ou dentro de colóquios organizados para o cinquentenário do fim da guerra.13 Uma comparação sistemática é de grande interesse metodológico para estudar o funcionamento da memória, sua evolução, a relação do presente com o passado.

Há um campo que é particularmente interessante de se seguir: o da tradição oral. Até agora foi possível esboçar alguns comparativos graças às pesquisas dos folcloristas do século XIX e do início do X, mas tratava-se de traços escritos; hoje, é possível estabelecer uma história desta tradição oral, que tantas vezes se considera imóvel ou, simplesmente, em degradação. E o

13 Dominiquc Veillon, pesquisadora do Institut de l'histoire du temps présent cm Paris, aborda bem isto em um texto inédito, para sua tese de habilitação, a propósito de Jean- Pierre Lévy, um dos chefes do movimento de franco-atiradores da resistência.

que se vê é o que se pressentia: que a tradição oral é discurso dinâmico, constantemente em contato com a atualidade mais contemporânea e, assim, integralmente originária da história. Esta historicidade da tradição oral é um dos campos mais promissores dos próximos anos, na medida em que, nos grupos e sociedades onde está viva (e que são mais numerosos do que se acredita), é um documento histórico de primeira ordem. Acrescento que uma comparação entre as diversas dinâmicas das tradições orais segundo as civilizações daria muitos frutos. É claro que um lugar particular deve ser reservado às tradições orais de conteúdo histórico, tão importantes para as civilizações africanas, mas, já o disse, também significativas em outros lugares. A este propósito, seria a ocasião de reforçarem os laços com os africanistas, que têm uma longa experiência na matéria, e com quem lamento não mantermos diálogos mais frequentes.

Torno a dizer: uma das tarefas dos "oralistas" do século XXI será oferecer a possibilidade de utilizar este novo patrimônio acumulado ao longo de meio século. E volto-me para nossa presidente: não seria uma das tarefas da Associação Internacional de História Oral, nos anos vindouros, facilitar tal utilização? Nossos amigos arquivistas já refletiram sobre os problemas de conservação e de indexação desde o congresso internacional de Paris, cujo tema foram as fontes não escritas.14 Com sua ajuda, poderíamos avançar em pelo menos dois pontos: as questões jurídicas e uma classificação segundo o tipo de empreendimento.

Para lançar o movimento, porém, os historiadores devem executar suas funções conduzindo, paralelamente, um trabalho de tipo historiográfico. Gostaria de fazer uma sugestão: tomar-se um assunto sobre o qual haja numerosos trabalhos de história oral e, por conseguinte, várias pesquisas de origens diversas, feitas em diversas épocas e com perspectivas distintas; in¬ teressar-se por ele, não por seu conteúdo, prioritariamente, mas pela historiografia e pela epistemologia. Tenho até um tema a lhes propor, bem delimitado no tempo e bastante rico, sem que tenhamos, por isso, de recear sua dispersão, e que não interessa a um único país apenas - ainda que faça parte de uma de nossas histórias nacionais - porque tem, também, uma dimensão internacional muito forte, particularmente devido à intervenção dos combatentes estrangeiros e, mais tarde, ao exílio. Sem dúvida, já adivinharam: refiro-me à guerra civil espanhola; basta reler os programas de nossos grandes encontros e verão que é raro não encontrar uma, duas ou

14 Com este congresso em vista, os arquivistas franceses haviam refletido sobre a questão cm dois encontros preparatórios, cm 1985 c 1986, cf. Directions des Archivcs de Franco, Actes dy XXUe Congrès National des Archivistes Français. Paris: Archivcs Nationales, 1986, e Actes du XVIIIe Congrès National des Archivistes Français. Paris: 1987.

três comunicações sobre o assunto - e não só de espanhóis. Para tomar um único exemplo, que ilustra bem meu objetivo, em nosso último congresso de Gotemburgo, Dora Schwarzstein estudou a construção da identidade entre os republicanos espanhóis exilados na Argentina, e Javier Cervera Gil, "a quinta coluna": não se trata apenas de história política, mas antropológica, também. Neste mesmo ano, encontraremos ainda três comunicações sobre o mesmo período. Volto a ressaltar, não estou propondo um novo encontro sobre a guerra civil espanhola. Ela serviria de ocasião para levar a comunidade dos historiadores "oralistas" a refletir sobre o patrimônio oral já existente, sobre este tema e sua possível utilização no século XXI. Recensear todas as pesquisas sobre o assunto, agregando-lhes os documentos orais; compará-las; analisar as diferenças e os pontos comuns; tentar novas utilizações de documentos mais antigos: eis algumas tarefas que poderíamos abraçar neste tipo de encontro.

Historia oral e nova tecnologia

O quarto desafio impõe-se por si só (Paul Thompson já o evocara na sessão de abertura da conferência de Gotemburgo):15 é a boa utilização das novas tecnologias pela história oral. Será necessário lembrar um ponto da história? As premissas da história oral na Universidade de Colúmbia estão ligadas à descoberta do gravador, que nos permitiu capturar a voz, em vez de nos contentarmos com as notas escritas, integrando, assim, em nossa análise, os silêncios, as hesitações, os lapsos. Diferenças consideráveis em relação às pesquisas etnológicas do início do século.

Este quarto desafio não deixa de estar ligado ao anterior. É, sem dúvida, graças às redes informatizadas que podemos facilmente indexar e reencontrar numerosos acervos de arquivos orais, localizar as pesquisas em andamento, dialogar uns com os outros. Para quando, sra. Presidenta, a abertura de um site de nossa associação na Internet, com um fórum? Encontro grande dificuldade para obter informações sobre os diferentes projetos de história oral a partir dos grandes motores de pesquisa - Excite, Hotbot, Altavista ou Yahoo. Não que nos faltem referências: elas existem em grande número, um número, às vezes, grande demais, mas estão perdidas, em meio a assuntos os mais variados e inesperados. Porém, um site nosso, ainda que útil, é secundário em relação à própria evolução das entrevistas.

Com o desenvolvimento da imagem digital e a facilidade cada vez maior da tomada de imagens e de sua flexibilidade, que, no limite, torna desnecessário

15 Sharing Oral History: Archives and New Technology.

o trabalho do cinegrafista, coloca-se o problema da multiplicação de entrevistas sistematicamente filmadas. Várias grandes coletas já a utilizam; por exemplo, no caso dos testemunhos dos deportados (ver o empreendimento de Spielberg). Já vemos hoje várias sessões de nossos encontros consagradas à apresentação de vídeos. Percebemos o grande interesse que têm: ao lado da palavra, a linguagem das mímicas, das expressões e dos gestos; mas ressaltamos, também, todos os seus constrangimentos: uma intervenção ainda maior do entrevistador e, em consequência, o caráter cada vez mais construído do testemunho. Para os entrevistados mais frágeis, bloqueios adicionais. As dificuldades de interpretação são maiores: seja temos grande tendência para nos limitar ao conteúdo, raramente fazendo o estudo dos silêncios ou das hesitações, o que esperar, então, de mímicas e gestos?

As novas tecnologias também multiplicam os documentos orais que não decorrem exatamente de história oral, mas aos quais precisamos dar atenção: os audio-livros, as videocartas e, mais além, como integrar o conteúdo dos inúmeros fóruns da Internet, ou das páginas de simples particulares na Web? Paradoxalmente, voltamos à escrita, mas a uma escrita muito mais amplamente difundida, mesmo que hoje envolva apenas uma minoria.

Neste trabalho, posso apenas enumerar certos problemas, sem ter condições de aferir todas as suas consequências. O ponto importante é estar em permanente estado de vigília. É uma banalidade afirmar que a técnica, não importa quão sofisticada seja, vale apenas pela utilização que lhe dão os homens e as mulheres. É preciso, de novo, estarmos atentos a suas limitações, e conhecê-las bem, para delas não sermos vítimas. Por que não criar, dentro da estrutura da Associação Internacional de História Oral, uma célula de vigia que tenha por função manter-se a par de todas as evoluções tecnológicas que possam influenciar de alguma maneira o campo da história oral? Chamo atenção para o fato de que a IASA (International Association of Sound and Audiovisual Archives) está organizando seu congresso anual de novembro de 1998 em torno do tema Improving access to sound and audivisual collections: how to respond to the challenges of new media technology? (Aprimorando o acesso às coletas sonoras e audiovisuais: como responder aos desafios da nova tecnologia de mídia?).

História oral e identidade

O último desafio talvez seja o mais delicado, e nos envolve tanto individual quanto coletivamente, não apenas como historiadores ou historiadoras, mas principalmente como cidadãos e cidadãs. Explico-me.

Houve, desde o início, uma estreita ligação entre história oral e identidade.

No índice dos 12 primeiros números de Historia y Fuente Oral este termo aparece em terceiro lugar, logo após "metodologia" e "mulheres". Na última conferência, de Gotemburgo, encontram-se 31 comunicações - em um total de 138 - diretamente ligadas ao tema; mais que um quinto (2%). Aqui, no Rio, esta presença é ainda maior: 56 intervenções (entre 175) tratam do assunto, não apenas nos sete grupos de trabalho,16 mas dispersas em outros lugares, o que perfaz pouco menos de um terço (32%). Esta forte posição e sua progressão não são de surpreender: a memória é um elemento constitutivo da identidade. Assistimos, hoje, ao crescimento da força de todas as identidades, de sexo, de grupo, de religião, de nações, o que seria uma reação à globalização e a uma certa uniformização cultural (ao menos superficial).

Numerosos empreendimentos de história oral participam deste crescimento de força, que eles exprimem e reforçam, alternando-se como causa e consequência do movimento identitário.

Este fortalecimento das identidades, perfeitamente compreensível, pode ser a melhor ou a pior das coisas. Porque há identidades abertas e identidades fechadas e, sejamos realistas, espontaneamente a identidade se fecha, porque defende o que acredita ser sua "integridade", reage contra tudo que lhe parece estrangeiro, é exclusivista, e o perigo da xenofobia e do racismo não está distante. É em nome da memória e da identidade que os protestantes e católicos irlandeses vêm se matando, há décadas, e que ocorreram os enfrentamentos que conhecemos na antiga Iugoslávia. Foi em nome das identidades nacionais que houve as primeiras grandes hecatombes do século X - refiro-me à Primeira Guerra Mundial. Sobre este ponto, estamos na linha de frente, a história oral tem pesada responsabilidade: manejamos a "dinamite" e, até, o "nuclear". Trazer à luz o patrimônio oral, instrumentalizado, pode contribuir para fortalecer as identidades simplificadoras, maniqueístas, que excluem, portadoras do ódio e da morte. Tenho a ilusão de acreditar que podemos ajudar as identidades fechadas a se abrirem, desempenhando nosso papel pleno de historiadores e historiadoras, e não o de simples memorialistas.

O memorialista se contenta em escutar, recolher fielmente, sem jamais intervir nem tomar a mínima distância; seu silêncio vale aprovação, para não dizer adesão. O historiador não deixa de ouvir e recolher, mas sabe que deve se

16 Fiz esta contagem a partir das atas do encontro distribuídas no início da conferência. Trata-se dos seguintes grupos de trabalho: Identidade, trabalho e migração; Tradição oral, arte e identidade étnica; História de gênero 1 e 2; Identidade e trabalho; Religião e identidade, Oral History: Challenges for lhe 21st Cenlury, p. 97-174, 215-264, 685-764, 1.359- 1.404, 1.405-1.462, 1.665-1.714, ao qual podemos acrescentar Ethnicity 2, p. 1.291- 1.358.

distanciar, que a simpatia necessária, virtude cardeal do bom entrevistador, não deve cegá-lo nem privá-lo da lucidez. O cruzamento das fontes, o necessário espírito crítico não são incompatíveis com o respeito devido à testemunha ou aos grupos. A história relativiza, na melhor acepção do termo; ela desafia a idéia simplista de uma memória e tradição oral - sua expressão mais formalizada - puras, originais, sem nada a dever, que exprimem a alma de um grupo. A história mostra, ao contrário, que estas são construções que evoluem, integram elementos exteriores, estrangeiros, que são até mais dinâmicas, que são capazes de mestiçagens culturais. Relativizar não significa diminuir nem, menos ainda, desprezar. Fazer compreender, a uns e outros, que se reconhece a parte da verdade que exprimem, mas que sua verdade não é a verdade global é ajudá-los a abrir suas identidades. Para facilitar a aceitação deste discurso, nós, os historiadores, devemos também reconhecer o caráter parcial da verdade que trazemos à tona: estamos longe de exprimir o real em toda sua diversa complexidade - cada um de nós, individualmente, é claro, mas também a comunidade dos historiadores em sua totalidade. Artistas e escritores têm uma outra visão da realidade que é uma outra forma de verdade. Um encontro como o que propus a respeito da guerra civil espanhola mostraria isto claramente.

Empreguei há pouco a expressão mestiçagem cultural; não foi por acaso.

Jovem historiador, li apaixonadamente, há quase quarenta anos, o belíssimo livro sobre o país que nos acolhe, livro pioneiro de Gilberto Freyre, Casa- Grande e Senzala (1933), traduzido para o francês, em 1952, com o título Maitre et esclave,17 tradução em que se perdeu parte do sentido, muito mais rico, do original, e que não revela o conteúdo de um livro de múltiplos sentidos. Esta obra revela quanto da profunda riqueza deste país nasceu de sua mestiçagem. Não estamos longe de nosso último desafio. Prestei bastante atenção, durante nossa discussão, ao uso do termo mestiçagem por Alessandro Portelli. A mestiçagem, originalmente, é o resultado de uma opressão sexual agregada a todas as demais opressões engendradas pela barbárie da escravidão. Mas, de certa maneira, a mestiçagem cultural é uma revanche dos fracos contra a mestiçagem genética, pois consiste em reconhecer pleno valor à cultura do escravo que influencia, às vezes de forma determinante, a cultura do senhor. Daí que as ideologias mais racistas - o nazismo, por exemplo - execram a mestiçagem cultural e acusam, por exemplo, a arte moderna de ser decadente porque é mestiça e, particularmente, influenciada pela arte africana.

17 Introduzido na França pelo grande etnólogo Roger Bastide, que os brasileiros conhecem bem, c com prefácio de Lucien Febvre, um dos fundadores do Annales.

Para que as identidades não sejam "mortíferas", quer dizei; portadoras da morte, é preciso que saibam mestiçar-se, ou seja, reconhecer a necessidade de contribuições exteriores, estrangeiras. A história oral, que por seu permanente recurso à memória é um poderoso vetor de identidade, pode ajudar as identidades a efetuar esta mestiçagem necessária, antídoto do fechamento: em primeiro lugar, ela demonstra que em suas próprias construções as identidades já são mestiças, e que basta, portanto, que permaneçam fiéis a esta origem; assim, ela pode ajudá-las assumindo completamente sua própria mestiçagem, suas ambiguidades (a ambiguidade do próprio nome "história oral") e sua diversidade.

Faço votos, em todo caso, que durante estes quatro dias possamos aceitar nossa diversidade, aferir suas possibilidades e dela tirar o máximo proveito.

Segundo a tradição registrada pela North American Oral History Association, "a história oral, como técnica moderna de documen-

tação histórica, foi estabelecida em 1948 quando Allan Nevins, historiador da Universidade de Colúmbia, começou a gravar as memórias de pessoas importantes da vida americana". Este ensaio explora, cinquenta anos depois, temas relevantes da história oral. Enfoca quatro desdobramentos que estão no cerne das atuais preocupações dos historiadores orais, tirando lições de projetos de todo o mundo. Em primeiro lugar, os acadêmicos reconhecem hoje que o processo de entrevista opera dentro de sistemas de comunicação culturalmente específicos, de modo que não há, necessariamente, uma única, ou universal "maneira certa", de se fazer história oral. Em segundo, novas reflexões sobre memória e história apresentaram outras oportunidades e dilemas à interpretação dos testemunhos orais. Em terceiro lugar, uma crescente ênfase dada à importância do ato de recordar para o narrador ampliou a prática da história oral, permitindo-lhe ser mais que uma metodologia de pesquisa. Finalmente, à medida que novas tecnologias multiplicam os modos de registrar entrevistas e apresentar história oral, os acadêmicos trazem para o centro de suas preocupações as maneiras como as memórias das pessoas são usadas, ou abusadas, na apresentação pública. Esta pesquisa não apresenta conclusões nem recomendações definitivas; o que se pretende é sugerir indicações para um debate continuado.1

* Anteriormente publicado em The Journal of American History, September, 1998, p. 1-15. Tradução de Paulo Martins Garchet.

1 Esta pesquisa se beneficia do levantamento que cu e Robert Perks realizamos durante a preparação de uma antologia internacional dos escritos publicados anteriormente sobre teoria e prática de história oral: Perks, R. c Thomson, A. (eds.). The Oral History Reader. Nova York: 1998.

A "maneira certa" de fazer história oral?

Atendendo à feroz crítica de cientistas sociais positivistas e historiadores documentalistas tradicionais, alguns dos primeiros manuais de entrevistas procuraram legitimar a história oral advogando um modelo "científico" para a entrevista de pesquisa: o entrevistador deveria usar um questionário consistente e cuidadosamente estruturado de modo a facilitar a análise comparativa; ele, ou ela, deveria controlar o enfoque e o fluxo da entrevista, mantendo, porém, uma presença neutra e objetiva, evitando, assim, afetar adversamente as histórias contadas; deveria conduzir entrevistas individualmente e fazer o mínimo de interrupções possível.2

cana: "reduzir o ato de entrevistar a um conjunto de técnicas écomo
cortejar seguindo uma fórmulaHá o perigo de se confiar demais nos
usar em que situaçãoas técnicas e outros aspectos da história oral variam

Na prática, os historiadores orais geralmente achavam difícil fazer as entrevistas seguindo um conjunto único de técnicas ou regras. Como escreveu, em 1970, Charles T. Morrissey, o pioneiro da história oral norte-ameriinstrumentos, e de menos na intuição, à antiga, sobre quais instrumentos conforme o tipo de pessoa que se estiver entrevistando." Ainda assim, Morrissey resumiu sua experiência pessoal em entrevistas sobre as presidências de Harry S. Truman e John F. Kennedy em conselhos práticos para entrevistadores da história oral: a importância da preparação; a necessidade de estabelecer rapport e intimidade, de ouvir e de fazer perguntas abertas, de refrear os impulsos de interromper; a importância de permitir pausas e silêncios, de fugir dos jargões, de evitar ser inquisitivo e de minimizar a presença do gravador.3

À primeira vista, parece difícil discordar de conselhos de tanto bom senso.

Contudo, os historiadores orais vieram a perceber, nos últimos anos, o fato crucial - derivado, em parte, da antropologia e de estudos sobre as comunicações e promovido por pesquisadoras feministas - de que a entrevista é uma relação que se insere em práticas culturais particulares e que é informada por relações e sistemas de comunicação específicos. Em outras palavras, não existe uma única "maneira certa" de entrevistar, e a maneira que o "bom senso" indica como "certa" para entrevistas com membros da elite política branca do sexo masculino pode ser completamente inadequada em outros contextos culturais.

2 Ver, por exemplo, Thompson P. The Voice of íhe Past: Oral History. Oxford: 1978; e Baum, W. K. Oral History for the Local History Society, Nashville: 1969.

3 Morrissey, C. T. On Oral History Interviewing. In: Perks c Thomson (eds.). Oral History Reader, 1970, p. 107-108.

As experiências de história oral em contextos fora do mundo ocidental confirmam a opinião de que as técnicas desenvolvidas no Ocidente podem ser incompatíveis com sistemas e relações de comunicação autóctones. Na Conferência Internacional de História Oral realizada em Nova York, em 1994, o historiador oral cingapuriano Daniel Chew argumentou que as perguntas incisivas, que são parte integrante de uma entrevista ocidental, podem ser inadequadas - e até impossíveis, na verdade - em um contexto asiático, onde poderiam infringir fortes expectativas culturais a respeito da deferência devida à autoridade dos mais velhos. Escrevendo sobre compilação de testemunhos orais em países em desenvolvimento, Hugo Slim e Paul Thompson caracterizam a entrevista individual como potencialmente um "encontro perigosamente íntimo" e argumentam que a recordação em grupo pode ser uma abordagem mais aceitável e conhecida em determinadas sociedades. Fundando-se no trabalho de antropólogos, explicam que os pesquisadores precisam ter em mente as hierarquias locais e as "normas relativas a rodízios, ordem de discussão dos tópicos, ou vários rituais pertinentes às narrativas de histórias", que podem divergir substancialmente da etiqueta da conversação nos países ocidentais. Em algumas sociedades africanas, há uma estação própria para contar histórias (o entrevistador bem preparado chega no inverno) e contá-las gera uma expectativa de recompensa ou prêmio. Circunstâncias objetivas podem, também, ditar a boa prática para uma sociedade particular: os historiadores orais namibianos recebem a orientação de usar lápis e papel para registrar suas entrevistas visto que, frequentemente, faltam-lhes condições para ter um gravador de áudio ou videoteipe. Em alguns contextos, uma identificação como membro do grupo (insider) pode ser pré-requisito para uma entrevista bem-sucedida. Belinda Bozzoli, historiadora e socióloga sul-africana, descobriu que as anciãs da aldeia de Phokeng sentiam-se mais confortáveis e se abriam mais quando entrevistadas por uma assistente de pesquisa, Mmantho Nkotsoe, porque ela era " 'uma menina de Mabeskraal', a aldeia próxima". 'Assim, o que poderia parecer uma deficiência de Mmantho para os positivistas (seu envolvimento subjetivo com as vidas das informantes e a percepção que estas tinham dela como uma pessoa com significado particular em suas vidas)", escreve Bozzoli, "provou-se sua maior vantagem."4

4 Chew, D. Thoughts on thc International Oral History Movcment, trabalho apresentado na Conferencia Internacional de História Oral, Nova York, 1994, anotações feitas por Alistair Thomson (em poder de Alistair Thomson); Slim, H. c Thompson, P. com Bcnnctt, O. e Cross, N. Ways of Listening, In: Perks c Thomson (eds), Oral Hislory Reader, 1993, p. 114-15. Para a orientação aos historiadores namibianos, ver Hayes, P. Speak for Yourself. Windhoek: 1992; Bozzoli, B. Intervicwing the Women of Phokeng, In: Perks e Thomson (eds.). Oral History Reader, 1986, p.147.

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