História Oral - Desafios para o Século XXI

História Oral - Desafios para o Século XXI

(Parte 6 de 6)

Slim e Thompson concluem que é "fundamental ter em mente estas diferentes dimensões conceituais e culturais das entrevistas e da informação histórica":

Uma parte vital de qualquer preparativo para um projeto de testemunho oral é obter informações sobre o que o antropólogo britânico Charles Briggs descreve como "repertório comunicativo" das pessoas: suas formas particulares, seus eventos especiais, suas categorias de fala e seus tabus. A regra mais fundamental é ter sensibilidade para com os modos habituais de fala e comunicação e permitir que as pessoas falem segundo seus próprios termos.

É igualmente necessário que o historiador oral esteja atento às nuanças culturais quando realiza entrevistas dentro de sua própria sociedade, que dificilmente será culturalmente homogênea. Os entrevistadores precisam ter sensibilidade para com os padrões de relacionamento e comunicação de subculturas definidas por gênero, classe, raça e etnia, região, sexualidade, deficiências e idade. Janis Wilton escreve que há forte resistência entre as pessoas mais velhas da comunidade chinesa na Austrália, homens e mulheres, a se referirem a experiências negativas de racismo em suas entrevistas, em parte porque tal franqueza pode solapar uma aceitação social conquistada a duras penas e, em parte, também, devido a uma preferência cultural por não falar mal do passado. Em entrevistas com refugiados cambojanos na Nova Zelândia, Nicola North também encontrou "diferenças culturais sutis que influenciam a franqueza de informações", em particular devido à insegurança dos refugiados com as revelações. Quando Akemi Kikumura entrevistou sua própria mãe, uma issei que emigrara para os Estados Unidos em 1923, percebeu que ela só falaria sobre certos aspectos significativos de sua vida com outro membro da família, porque "a gente não revela a alma para um tanin (pessoa que não é parente)".5

Numa perspectiva feminista, Kristina Minister afirma que "o método de história oral continua a se assentar sobre a premissa de que os entrevistadores conduzirão as entrevistas da maneira como os homens conduzem entrevistas". Ela argumenta, por exemplo, que os padrões de conversação das mulheres norte-americanas não são iguais ao padrão masculino de rodízio nas

5 Slim e Thompson com Bcnnctt e Cross. Ways of Listening, p. 114-15; Wilton, J. Identity, Racism, and Multiculturalism: Chincsc-Australian Responses, In: Migration and Identily, Benmayor, R. c Skotnes, A. (eds). Oxford: 1994, p. 85-100; Nicola North. Narratives of Cambodian Refugees: Is sues, In: the Collection of Refugee Stories. Oral History 23 (outono de 1995), 34; Akemi Kikumura, Family Life Histories: A Collaborative Venture, In: Perks e Thomson (ed.), Oral History Reader, (1991) p. 141.

entrevistas, e que, com estas mulheres, uma estratégia de entrevista mais interativa propiciará comunicação e narrativas mais eficazes. O historiador oral escocês Graham Smith argumenta que as mulheres da classe operária das gerações de sua mãe e de sua avó na cidade de Dundee estão habituadas a falar de suas vidas em grupos de mulheres - no local de trabalho, na vizinhança, na lavanderia - e há maior possibilidade de que venham a se abrir e instigar as memórias, histórias e interpretações umas das outras em entrevistas em grupo. Se houver um conselho universal sobre entrevistas de história oral, este será que o entrevistador precisa estar constantemente alerta para perceber qual a boa prática de entrevista em culturas e circunstâncias particulares.6

"Memórias não confiáveis" vistas como recurso, em vez de problema

A história oral, definida por Ronald J. Grele como "entrevistas com participantes, testemunhas oculares dos eventos do passado, visando a reconstrução histórica" é um valioso método de pesquisa, imprescindível para a história do século X.7 Ela permite acesso à experiência não documentada - inclusive as vidas de líderes que ainda não escreveram suas autobiografias - e, mais importante, às "histórias ocultas" dos marginalizados: trabalhadores, mulheres, indígenas, minorias étnicas e membros de outros grupos oprimidos, ou excluídos. As entrevistas de história oral também permitem explorar aspectos da experiência histórica que raramente são registrados, tais como relações pessoais, vida doméstica e a natureza de organizações clandestinas. Elas oferecem uma rica evidência sobre os verdadeiros significados subjetivos, ou pessoais, de eventos passados: qual a sensação de casar-se, de estar na linha de fogo, de enfrentar a morte em um campo de concentração. Os historiadores orais são singulares em sua capacidade de questionar seus informantes, de fazer perguntas que podem não ter sido imaginadas no passado e de evocar reminiscências e entendimentos anteriormente silenciados ou ignorados. Usufruímos os prazeres -bem como os consideráveis desafios - de nos engajarmos em relacionamentos humanos ativos no curso de nossas pesquisas.

6 Minister K. A Fcminist Frame for thc Oral History Interview, In: Women's Words: The Feminist Practice of Oral History, Gluck, S. B. e Patai, D. (eds.). Nova York: 1991, p. 31; Smith, G. The Interwar Years, trabalho apresentado na Voices, Narralives, Idenlities: Women's History Network Sixth Annual Conference, Brighton, Inglaterra: 1997, anotações feitas por Thomson (em poder de Thomson).

7 Grele, R. J. Directions for Oral History in the United States, In: Dunaway, D. K. e Baum, W. K. (eds). Oral History: An Interdisciplinary Anthology. Walnut Creek, 1996, p. 63.

de puro subjetivismoE onde nos levará? Não à história, mas ao mito".8

Contudo, esses relacionamentos e o uso de memórias como evidência histórica têm sido severamente criticados. No centro das críticas à história oral no início dos anos 60 estava a convicção de que a memória seria distorcida pela deterioração física, na velhice, pela nostalgia, pelos preconceitos pessoais - tanto do entrevistador quanto do entrevistado - e pela influência das versões retrospectivas e coletivas do passado. O historiador australiano Patrick O'Farrell, por exemplo, escreveu, em 1979, que a história oral estava se deslocando para "o mundo da imagem, da memória seletiva, por camadas superpostas

Garrochados pelas censuras dos historiadores documentalistas, os primeiros historiadores orais desenvolveram diretrizes para avaliar a confiabilidade da memória oral (ao mesmo tempo que, perspicazes, lembravam aos tradicionalistas que as fontes documentais não são menos seletivas e tendenciosas). Baseados na psicologia social e na antropologia, mostraram como determinar a tendenciosidade e a fabulação da memória, o significado da retrospecção e a influência do entrevistador. Da sociologia, adotaram métodos de amostragem, e da história documental trouxeram regras para verificar a confiabilidade e a coerência interna de suas fontes. As diretrizes propiciaram marcos úteis para a leitura de memórias e para sua combinação com outras fontes históricas para descobrir o que aconteceu no passado.

Durante os anos 70, historiadores orais em distintas partes do mundo começaram a questionar a ênfase nas "distorções" da memória, e a encarar "as peculiaridades da história oral" como um ponto forte, em vez de fraqueza. Uma das mudanças mais significativas nos últimos 25 anos de história oral foi o reconhecimento de que a, assim chamada não confiabilidade da memória pode ser um recurso, em vez de um problema para a interpretação e a reconstrução históricas. Luisa Passerini, por exemplo, analisou os silêncios e as incoerências das memórias da classe trabalhadora durante o regime fascista de Benito Mussolini no entreguerras para mostrar como a ideologia fascista havia se entranhado profundamente na vida cotidiana e na identidade pessoal, e para revelar a dificuldade de se lembrar de envolvimentos com um regime desacreditado. Outro italiano, Alessandro Portelli, observou que os entrevistados do centro industrial de Terni lembravam "erradamente" a data da morte do trabalhador Luigi Trastulli. Este morrera durante uma pequena manifestação contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em 1949, mas a população local recordava sua morte como um martírio durante greve e lockout catastróficos que envolveram

8 O'Farrell, P. Oral History: Facts and Fiction. Oral History Associalion of Australia Journal n. 5, 1982-1983, p. 3-9.

toda a cidade em 1953 e terminaram com a derrota do sindicato e o fim da garantia de emprego. Portelli argumentou que a memória enganada era uma chave fundamental para a compreensão dos verdadeiros significados desses eventos para os indivíduos e para a comunidade da classe trabalhadora, de como haviam acontecido e como ficaram na memória. Concluiu que "o que realmente importa é que a memória não é um depositário passivo de fatos, mas um processo ativo de criação de significados".9

Embora não tivessem conhecimento desses escritos europeus, alguns historiadores orais norte-americanos começaram, nos anos 70, a imaginar possibilidades mais sofisticadas para interpretação e uso da memória. Escrevendo, em 1972, sobre o influente livro Hard Times: An Oral History of the Great Depression (Tempos Difíceis: Uma História Oral da Grande Depressão) de Studs Terkel, Michael Frisch argumentou contra a atitude de que a memória oral seria "a história como realmente ocorreu", e afirmou que a memória - "pessoal e histórica, dos indivíduos e de sua geração" - deveria ser posta no centro do palco "como objeto - não apenas método - da história oral": "o que acontece à experiência quando se vai tornando memória? O que acontece às experiências quando se vão tornando história? À medida que uma era de intensa experiência coletiva vai fazendo passado, qual é a relação da memória com a generalização histórica?" Se as memórias forem tratadas como um objeto de análise histórica, a história oral pode se tornar "um poderoso instrumento para a descoberta, exploração e avaliação da natureza do processo de memória histórica - como as pessoas compreendem seu passado, como vinculam a experiência individual e seu contexto social, como o passado torna-se parte do presente, e como os indivíduos o utilizam para interpretar suas vidas e o mundo à sua volta".10

Uma história cultural e intelectual mais detalhada é necessária para se explicar como e por que as idéias e abordagens exemplificadas nos trabalhos de Passerini, Portelli, Frisch e outros passaram, em uma década, das margens ao centro da história oral. Nas memórias de diversas figuras-chave sobressai um evento: a Conferência Internacional de História Oral realizada na Universidade de Essex, em 1979, que reuniu historiadores orais norte-americanos e europeus em significativo intercâmbio cultural. Ron Grele recorda este evento como uma "epifania":

9 Passerini, L. Work Ideology and Conscnsus under Italian Fascism, In: Pcrks c Thomson (eds.)- Oral History Reader. 1979: p. 53-62; Portelli, A. What Makes Oral History Different. 1979, ibid., 69.

10 Frisch, M. A Shared Aulhority: Essays on lhe Craft and Meaning of Oral and Public History. Albany: 1990, p. 188. Ver, também, Grele, R. Envelopes of Sound: The Art of Oral History. Chicago: 1991.

(Parte 6 de 6)

Comentários