Arte Naval

Arte Naval

(Parte 1 de 4)

1 – Introdução

Fica difícil afirmar, com certeza, como teria sido o primeiro contato do homem com os rios e os oceanos. Lendas e mitos envolvem o assunto. É certo, no entanto, que as águas constituíam, a princípio, fator limitador ao deslocamento espacial dos seres humanos. Pode-se supor que, contemplando o deslocamento de materiais flutuantes sobre as águas, como troncos de árvores, por exemplo, o homem tenha tido a idéia de utilizar tais elementos como “veículos”. Inicialmente a esmo, ao sabor das correntes, mais tarde, aperfeiçoando-lhe as formas, à força de remos e, em seguida, a vela aproveitando os ventos, o que perdurou até fins do século XIX. Posteriormente, a mera força humana e a energia eólica cedem lugar à máquina, que se impõe, soberana, às crescentes exigências da atividade econômica, de um mundo que inicia vertiginoso desenvolvimento na relação entre os povos. Assim, na visão histórica da civilização ocidental, a expansão do mundo conhecido – a verdadeira globalização – deve-se à utilização de navios com propulsão a vela. Das balsas de papiro que navegaram pelo Nilo entre o V e o IV milênios antes de Cristo aos belíssimos e velozes clippers do século XIX, magníficos “castelos de velas”, uma verdadeira epopéia tem seu lugar de honra na história da humanidade. Engenho, criatividade, coragem, espírito de aventura, romantismo, conquista e sacrifício são algumas facetas que podem ser exploradas dessa epopéia, que deu origem a uma das mais belas culturas, a tradição dos homens do mar.

Dessa época de aventuras resta hoje o fascínio por essa riquíssima cultura que se tem cultivado em todas as marinhas do mundo, em inúmeros museus marítimos existentes em muitos países, e na permanência, com propósitos de instrução, turismo ou esporte, de grandes navios a vela, num seleto e pouco numeroso grupo de países que ainda os possui. No ano 2000, foi incorporado à Armada brasileira o Navio-Veleiro Cisne Branco, digno herdeiro dos navios de instrução a vela de nossa Marinha. Armado em galera, tal qual o Navio-Escola Benjamim Constant (“Garcinha Branca” como era carinhosamente chamado pela maruja, inspirando os versos da Canção do Marinheiro), o Cisne Branco segue as linhas de projeto dos mais velozes clippers que cruzaram os mares no século XIX, transportando chá da China, lã da Austrália e cobre do Chile para portos europeus e norte-americanos principalmente, atingindo, não raro, velocidades superiores a vinte nós.

Dispondo a Marinha do Brasil, uma vez mais, de um navio de grande porte com propulsão a vela, é imprescindível que o seu pessoal, de maneira geral, volte a possuir conhecimentos mínimos sobre esse tipo de navio, objetivo ao qual se propõe este trabalho, fruto da compilação de informações obtidas em diversas publicações que versam sobre o assunto. Àqueles que desejem aprofundar seus conhecimentos sobre o tema, recomenda-se recorrer à bibliografia indicada. Por oportuno, salienta-se que, em vários casos, nomenclaturas, classificações e mesmo alguns conceitos diferem ligeiramente, dependendo do autor, quando se buscaram as origens mais remotas dessas convenções.

APÊNDICE I 845APÊNDICES

2 – Noções sobre propulsão à vela (Figura 1)

Pela forma com que são cortadas e cosidas as diversas seções que compõem uma vela, esta, quando exposta à ação do vento, assume uma forma bojuda, ao longo da qual, por ambos os lados, flui o ar impulsionado pelo vento. A noção de que o vento ao bater na vela, enchendo-a, empurra o veleiro, só é integralmente verdadeira caso o vento esteja entrando exatamente pela popa. Em todas as outras situações a correta regulagem (mareação) da vela é que permite o escoamento do ar com o mínimo de turbulência possível por ambos os lados da vela. Pelo princípio de Bernoulli, esse fluxo de ar, ao ser dividido pelos dois lados da vela, gera uma zona de baixa pressão e uma zona de alta pressão, pelos lados externo e interno da vela, respectivamente, o que faz com que o veleiro seja, ao mesmo tempo sugado (maior efeito) e empurrado no sentido da alta para a baixa pressão. Para visualizar esse efeito, imagine-se que duas partículas de ar cheguem juntas à borda de ataque de uma vela, fluindo, a primeira, pelo lado externo da vela, e a segunda, pelo lado interno. Pelo estudo da mecânica dos fluidos, ambas deverão chegar ao outro extremo da vela ao mesmo tempo, e a que se encontra pelo lado externo, como tem um caminho maior a percorrer, tem aumentada a sua velocidade, o que reduz a pressão naquela região. Essa baixa pressão tem o efeito de “aspirar” a vela, enquanto a maior pressão, pelo lado interno, tende a empurrar a vela. A força resultante desses dois efeitos é que movimenta a vela no sentido da alta para a baixa pressão. Estando a vela presa a um mastro, essa força pode ser decomposta em duas, uma atuando no sentido longitudinal da embarcação, responsável pelo seu avanço, e a outra, no sentido transversal, responsável pelo deslocamento lateral (abatimento) e pela inclinação.

É oportuno dizer que, considerando-se o conjunto de velas de um navio de três mastros, por exemplo, dependendo da posição onde trabalha uma determinada vela, ela tem efeitos distintos sobre o navio. Assim, velas que estejam por ante-avante do centro de gravidade do navio, trabalhando no traquete, ou velas de proa, tenderão a fazer com que ele gire no sentido de afastar a proa do navio da direção de onde sopra o vento, arribando-o. Já as velas que estejam posicionadas por ante-a-ré daquele ponto de referência, no mastro da gata, por exemplo, produzem um efeito que tende a levar a proa do navio para a direção de onde sopra o vento, orçando-o.

3 – Classificação (Figura 2)

São inúmeros os tipos de navios e embarcações a vela e, eventualmente, encontram-se classificações ambíguas e até contraditórias nessa matéria. No intuito de não levar em consideração pormenores de somenos importância, com vistas ao máximo de objetividade, optou-se por apresentar apenas algumas classificações mais comuns e que identifiquem navios de vela mais conhecidos atualmente, tomando-se por critério o arvoredo do navio, ou seja, sua mastreação. São elas: a. Galera A classificação de galera, proveniente dos portugueses, indica, a princípio, um navio de três mastros, cruzando vergas em todos eles. É possível haver galera de quatro mastros, sempre cruzando vergas em todos os mastros, exceto no gurupés, que também deve ser considerado como mastro. Esse mesmo tipo de

I - 2 navio é classificado pela cultura espanhola como fragata e pela cultura inglesa como full rigged ship. O Cisne Branco é uma galera, tal qual o foi o Navio-Escola Benjamim Constant, navio de instrução que antecedeu o Navio-Escola Almirante Saldanha. b. Barca Caracteriza-se por barca o navio que, dotado de três ou quatro mastros, cruza vergas em todos eles, exceto no mais de ré, onde enverga apenas velas latinas. O Navio-Escola Guanabara, por exemplo, era uma barca; na verdade ainda o é nos dias de hoje, arvorando o pavilhão português como Navio-Escola Sagres. c. Lúgar-Escuna É um navio de quatro mastros, cruzando vergas somente no mastro de vante (traquete) e envergando apenas velas latinas nos demais mastros. Assim era armado o Navio-Escola Almirante Saldanha. d. Clipper A palavra clipper está relacionada à velocidade do navio, originada do inglês, to clip, numa alusão à facilidade que tinham esses navios em “cortar” as águas devido à geometria afilada do seu casco. Eles tiveram sua origem no chamado Clipper de Baltimore, pequeno navio de dois mastros, bastante inclinados para ré, com grande área vélica e casco afilado, o que lhe dava velocidade elevada e grande capacidade de manobra. A evolução dessas embarcações resultou nos velozes e imponentes navios conhecidos genericamente como clippers que, no século XIX, transportaram riquezas por todo o mundo, além de imigrantes para os “novos mundos” descobertos. e. Fragata A marinharia espanhola classifica como fragata o navio que cruza vergas em todos os mastros, em número de três. É o caso, por exemplo, da Fragata Ara Libertad, da Marinha argentina. f. Full Rigged Ship De acordo com os manuais em língua inglesa, o full rigged ship, ou simplesmente ship, é o navio de três mastros que cruza vergas em todos eles. Ou seja, o mesmo que a galera portuguesa e a fragata espanhola. Assim podem ser classificados, em sua maioria, os antigos clippers, e assim também, repetimos, o Navio- Veleiro Cisne Branco.

4 - Mastreação

A mastreação de um navio é composta, basicamente, por seus mastros, mastaréus, cestos de gáveas, vergas, caranguejas, retrancas, paus de cutelo, paus de surriola, gurupés, pau da bujarrona, pau da giba, pau de pica-peixe, vergas da cevadeira ou barbas de baleia. Mais detalhadamente, inúmeras outras peças, ainda, compõem a mastreação de um navio mas não cabe, nesta breve apresentação, detalhá-las. Os elementos acima designados podem ser definidos como: a. Mastros São grossas peças de forma quase cilíndrica, confeccionadas, antigamente, em madeira. Atualmente, graças aos avanços da tecnologia, podem ser de diversos materiais, até mesmo de alumínio especial, como é o caso do Cisne Branco

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(exceto por seus mastros reais, isto é, as primeiras seções inferiores de cada mastro, que são de aço). b. Mastaréus São compridas peças de menor dimensão que os mastros, e que servem para aumentar a altura desses. Sua extremidade superior mais delgada e redonda chama-se galope. c. Cestos de Gáveas São plataformas semicirculares. Servem para disparar as enxárcias que trabalham para cima, além de ponto de descanso para o pessoal que trabalha nos mastros. d. Vergas São peças cuja forma lembra dois cones alongados, unidos por suas bases. Cruzam os mastros e mastaréus no sentido de bombordo a boreste, possuindo liberdade para girar em torno dos mastros, dentro de limites que são impostos pelo aparelho fixo. Nelas são envergadas as velas redondas.

À seção central das vergas dá-se o nome de terço e de lais às extremidades. À região das vergas onde se abre um gorne (bem próximo aos laises) por onde gurnirão as escotas das velas que lhes são imediatamente superiores, dá-se o nome de cunho. As vergas, portanto, possuem terços, cunhos e laises.

As vergas do traquete, da vela grande, do velacho e da gávea podem trabalhar com velas auxiliares (cutelos e varredouras) e possuem aros de aço, chamados aros dos paus de cutelo (de dentro e de fora), por onde passam esses paus que, disparados para fora, sustentarão as referidas velas auxiliares. e. Caranguejas Assim são chamadas as vergas nas quais são envergadas as velas latinas.

Não cruzam os mastros no sentido de bombordo a boreste, sendo instaladas no sentido da quilha ou de proa a popa. Antigamente, as caranguejas eram adaptadas aos mastros, por meio de duas peças nelas encaixadas, cada uma apresentando a forma de um quarto de círculo, um semicírculo em seu conjunto, adaptando-se ao mastro, abraçando-o. Essa extremidade da carangueja chama-se boca-de-lobo. Na extremidade oposta, à região onde se abre um gorne denomina-se cunho da carangueja. Já à extremidade final da carangueja, seu lais, dá-se o nome de penol. Ao ângulo formado entre o mastro – ou mastaréu – e a carangueja, denominanos repique da carangueja. f. Retranca Trata-se de uma comprida e muito resistente peça, normalmente de forma cilíndrica, que possui uma boca-de-lobo em uma das extremidades para abraçar o mastro. A extremidade oposta chama-se lais da retranca, onde se abre um gorne no sentido vertical, para passar a escota da vela que aí trabalha. Pouco adentro do lais da retranca há um olhal de cada bordo, nos quais se engatam as talhas ou escotas da retranca. De forma semelhante, são passados os amantilhos da retranca, que a sustentam no plano vertical.Não raro, a retranca ultrapassa a popa do navio.

Tanto a retranca como a carangueja podem ser fixadas ao mastro por meio de um conjunto de peças de aço, as quais trabalham como “macho e fêmea”, denominadas garlindéu (que substitui a boca-de-lobo) e pé-de-galinha ou cachimbo (fixo ao mastro).

I - 4 g. Vergueiros São delgadas vergas de aço, fixadas na parte superior das vergas, um pouco inclinadas para vante, pelos dois bordos, correndo do terço até os cunhos. Ao envergarem-se as velas redondas, amarra-se o gurutil das velas nos vergueiros, por meio de cabos chamados envergues. Também as retrancas podem possuir vergueiros. h. Paus de Cutelo São peças de madeira, de forma cilíndrica, que se colocam de um e de outro lado das vergas que com elas trabalham, enfiadas nos aros de paus de cutelo. Quando disparados, aumentam o comprimento dessas vergas, permitindo que sejam largadas as velas auxiliares (cutelos e varredouras). i. Paus de Surriola São peças de madeira (em geral), colocadas em cada bordo do navio, horizontalmente, que ficam, quando disparadas, perpendiculares à quilha, tendo o pé apoiado e fixo, por meio de garlindéu e pé-de-galinha ou cachimbo, no costado, na altura das mesas das enxárcias do mastro grande e do mastro traquete. Próximo ao seu lais há um aro de aço com três olhais, que servem para engatar o seu amantilho, o qual o sustenta e conserva-o na posição horizontal, o gaio, que diz para vante, e o patarrás, que diz para ré. Além de servirem para amurar as varredouras, servem ainda, quando no porto, para amarrar as embarcações miúdas. j. Gurupés É uma grossa e comprida peça semelhante aos mastros e lançada pela proa, formando, com o plano do horizonte, ou com a quilha, um ângulo de aproximadamente 35°. Sua extremidade interna chama-se pé e a externa, topo. A abertura existente na roda-de-proa, por onde sai o gurupés, é a casa do gurupés. l. Pau da bujarrona É uma grossa e comprida peça que se coloca a vante do gurupés e serve para aumentar-lhe o comprimento, à semelhança dos mastaréus em relação aos mastros. Tal qual no gurupés, sua extremidade interior chama-se pé, e a exterior, topo. m. Pau da Giba É uma pequena peça que serve para aumentar o comprimento do pau da bujarrona. Tal qual no gurupés, sua extremidade interior denomina-se pé; entretanto, sua extremidade exterior é chamada de lais. n. Pau de Pica-Peixe É uma pequena e resistente peça colocada pela parte inferior do gurupés, perpendicular a este. Denomina-se pé sua extremidade superior, que se une ao gurupés. A extremidade inferior é o lais. A seção onde gurnem os cabos que por ele passam chama-se encapeladura. o. Vergas de cevadeira ou barbas de baleia São pequenas peças de madeira ou de ferro colocadas quase horizontalmente, uma de cada bordo do gurupés, perpendiculares a este. Da mesma forma que o pau de pica-peixe, possuem pé, encapeladura e lais. Sua função é disparar os patarrases dos paus da bujarrona e da giba.

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O comprimento ou a altura de cada um dos mastros ou mastaréus é a guinda do mastro ou do mastaréu. Em relação ao conjunto da mastreação, a guinda da mastreação. Ao comprimento das vergas denomina-se lais.

5 - Aparelho

É o conjunto de cabos, velas, cadernais, moitões, sapatas etc. que se empregam na mastreação dos navios a vela. Compreende o poleame, o velame e o massame.

Poleame: São todos os cadernais, moitões, sapatas, bigotas, patescas e outros. O poleame pode ser classificado como surdo ou de laborar, dependendo de possuir ou não roldanas e servir a cabos fixos ou a cabos de laborar, respectivamente.

Velame: É o conjunto de velas utilizadas no navio.Velas são o resultado da junção, por meio de costuras, de pedaços de lona, brim ou, mais modernamente, tecidos sintéticos como, por exemplo, o dácron. Esses pedaços são denominados panos. À reunião de todos os panos de uma vela, já cosidos, dá-se o nome de painel da vela. Genericamente também se utiliza a expressão “pano” para designar o conjunto de velas de um veleiro. As velas poderão ser redondas ou latinas. a. Velas redondas As velas redondas são envergadas nas vergas e trabalham no sentido de bombordo a boreste. São denominadas, genericamente (de baixo para cima, em cada mastro), papafigos, gáveas, joanetes e sobres. Também são consideradas como velas redondas as velas auxiliares, as varredouras (utilizadas na verga do traquete) e os cutelos (utilizados nas gáveas e nos joanetes dos mastros grande e traquete). As velas redondas levam o mesmo nome das vergas em que estão envergadas.

Papafigos: Vela grande; Traquete; e Seca (normalmente esta vela não existe ou não é envergada).

Gáveas: Gávea; Velacho; e Gata. Joanetes: Joanete grande; Joanete de proa; e Sobregata. Sobres:Sobrejoanete grande;Sobrejoanete de proa; e Sobregatinha. Cutelos: São velas auxiliares das gáveas e joanetes, exceto gata e sobregata, pois estas não possuem velas auxiliares.

Varredouras: Embora possam ser utilizadas no mastro grande, seu uso preferencial vem sendo, desde o início do século XIX, no mastro traquete. Esse emprego também é recomendado nos manuais brasileiros de fins do século XIX. Pode-se considerar, portanto, que sejam velas auxiliares do traquete.

É oportuno ainda observar que, de acordo com a literatura antiga e as gravuras e pinturas existentes, as varredouras têm, normalmente, forma semelhante às demais velas redondas, ou seja, trapezoidal. Entretanto, há varredouras, como as do Navio-Veleiro Cisne Branco, que possuem forma triangular, sem que, apesar disso, devam ser consideradas como velas latinas, pois trabalham no sentido de bombordo a boreste, conceito de emprego das velas redondas.

I - 6 b. Velas latinas As velas latinas são as que se envergam no sentido de proa a popa,quais sejam: Vela ré ou mezena; Latino grande; Traquete latino; Velas de proa (vela de estai, bujarronas, giba); Rebeca;Formosa; Gaff-tops; e Velas de entremastros.

As velas latinas podem, ainda, ser subdivididas em dois tipos: as triangulares e as quadrangulares. São velas latinas triangulares as velas de estai, a bujarrona, a giba, a rebeca, as velas de entremastros e, eventualmente, as gaff-tops, além da vela de capa. As demais velas latinas são quadrangulares. c. Nomenclatura básica das velas (ver Figura 3) (1) Lados A velas redondas possuem sempre quatro lados que recebem a seguinte denominação: – Gurutil: lado superior da vela;

– Esteira: lado inferior da vela; e

– Testas: demais lados da vela, compreendidos entre o gurutil e a esteira. No caso das velas auxiliares, apesar de também serem velas redondas, há uma pequena diferença na denominação das testas, chamadas testa de dentro, a que fica mais próxima ao navio, e testa de fora, a que fica mais afastada, por fora.

As velas latinas quadrangulares, também de quatro lados, possuem, da mesma forma que as velas redondas, gurutil e esteira, independentemente de estarem envergadas em caranguejas ou estais. Ao lado que se prolonga com o mastro ou mastaréu denomina-se testa, e ao oposto, que fica mais a ré, valuma.

No caso das velas latinas triangulares, o lado que é envergado ou se prolonga com o respectivo estai leva a denominação de gurutil; o lado inferior é a esteira e o lado que fica voltado para a popa, valuma. (2) Punhos Os ângulos das velas, formados pela interseção de seus lados, são chamados de punhos.

No caso das velas redondas, os punhos superiores, formados pelo gurutil e pelas testas, são os punhos do gurutil de bombordo e de boreste, e os inferiores, formados pela esteira e pelas testas, os punhos da escota de bombordo e de boreste. Nas velas auxiliares, os punhos superiores chamam-se punhos de dentro, ou de fora, do gurutil, dependendo da testa com que são formados; os punhos inferiores são o punho da amura, se formado pela esteira com a testa de dentro, e o punho da escota, se formado pela esteira com a testa de fora.

No caso das velas latinas quadrangulares, o punho formado pela interseção do gurutil com a valuma chama-se punho da pena, o formado pela interseção do gurutil com a testa, punho da boca; o formado pela interseção da esteira com a testa, punho da amura e, por último, o formado pela interseção da esteira com a valuma, punho da escota.

Nas velas latinas triangulares, o punho formado pela interseção do gurutil com a valuma é o punho da pena ou punho da adriça, o formado pela interseção do gurutil com a esteira, punho da amura, e o formado pela interseção da esteira com a valuma, punho da escota.

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(3) Forras São chamadas forras os reforços, normalmente do mesmo tecido com que é feita a vela, que, paralelos ao gurutil no caso das velas redondas, e paralelos à esteira no caso das latinas, fortalecem as velas naquela seção, permitindo a utilização de rizes, que são cabos finos, mas muito resistentes, que servem para amarrar a vela à verga, no caso das velas redondas, ou à retranca, no caso das velas latinas. Esse dispositivo (forra e rizes), permite reduzir o pano, sem que haja a necessidade de substituir a vela. (4) Tralha É o nome que se dá aos cabos que guarnecem a vela, cosidos a ela, ao longo de todo o seu perímetro, acrescido do nome do lado que guarnecem. Assim, temos, por exemplo, a tralha do gurutil, a tralha da esteira etc. Essa denominação também é utilizada, ainda hoje, para identificar o cabo que, cosido a um dos lados das bandeiras, dá-lhes sustentação quando içadas. (5) Massame São todos os cabos empregados no aparelho, sejam fixos ou de laborar. – Cabos fixos São aqueles empregados para a segurança da mastreação. Podem-se citar, por exemplo, estais, contra-estais, brandais, enxárcias (ovéns e enfrechates), cabrestos, contracabrestos, patarrases, estribos, andorinhos, dentre outros.

Os estais e contra-estais trabalham nos mastros, agüentando-os no sentido longitudinal do navio.

Os brandais e as enxárcias, estas constituídas pelos ovéns e pelos enfrechates, formando uma espécie de escada, trabalham nos mastros, agüentandoos no sentido transversal do navio.

Cabrestos, contracabrestos e patarrases são cabos (às vezes correntes) que dão suporte ao gurupés ou a outros apêndices do navio, como, por exemplo, o caso dos patarrases em relação aos paus de surriola.

Estribos são cabos colocados ao longo das vergas, do pau da bujarrona, do pau da giba e da retranca e servem de apoio aos pés dos homens que trabalham nesses locais.

Andorinhos são cabos da mesma bitola que os estribos e que, ligando-os às vergas, ao pau da bujarrona, ao pau da giba e à retranca, aumentam-lhe a segurança. Também podem ser encontrados nos paus de surriola e nos turcos, porém com maior comprimento, servindo como via de acesso para as embarcações miúdas.

– Cabos de laborar São os empregados para movimentar mastaréus, vergas e velas e, em geral, para todas as manobras.

Laboram nos mastros e nas vergas: brandais volantes, amantes, andarivelos ou andrebelos, troças, amantilhos, braços, ostagas, adriças, guardins, patarrases e gaios dos paus de surriola, escotas e burros da retranca, talhas das vergas e outros.

Laboram nas velas: escotas, amuras, estingues, brióis, apagas, sergideiras, talhas dos laises, bolinas, adriças, carregadeiras e outros mais.

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