Amostragem de solos para análise química

Amostragem de solos para análise química

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Departamento de Solos e Engenharia Rural Disciplina Solos I

FERTILIDADE DOS SOLOS Parte Prática

Profa Responsável: Sânia Lúcia Camargos

Cuiabá – MT 2005

A análise se solo, num sentido mais amplo, pode ser entendida como um conjunto de procedimentos físicos e químicos que visam avaliar as características e propriedades do solo através de análise de amostra representativa do mesmo. Num sentido mais restrito, a análise do solo considte de determinções químicas com o objetivo de avaliar a sua fertilidade. A tendência é de continuar havendo um grande incremento no uso desta ferramenta e tanto mais será quanto maiores forem as deficiências de nutrientes no solo e maiores produtividades forem desejadas.

A análise química do solo será tanto mais útil quanto mais confiável forem os resultados, e isso atualmente está sendo realizado através de um importante programa de controle feito em conjunto por grande parte dos laboratórios brasileiros. Atualmente existem cinco programas interlaboratoriais de controle de qualidade em funcionamento no Brasil: ROLAS no RS e SC, CELA no PR, IAC para os laboratórios que usam o método da resina em SP e em 8 Estados, PROFERT em MG e alguns Estados vizinhos e EMBRAPACNPS, que cobre o restante do País, especialmente as regiões do cerrado, sudeste, norte e nordeste. Cerca de 220 laboratórios participam de tais programas. A concessão de “selos” atestando a vinculação com os programas representa um grande incentivo.

Embora seja uma ferramenta muito útil para conhecer o nível de fertilidade do solo e para recomendar corretivos e fertilizantes, há muitos agrônomos e técnicos ligados ao setor de agricultura, que não estão inteiramente satisfeitos com a análise de solo, pois eles não tem confiança nos resultados e na utilidade desta análise. Frequentemente isto ocorre, porque as expectativas depositadas excedem a capacidade limite do programa, desconhecendo o que uma análise química pode ou não fazer.

Figura 1. Métodos para avaliar a fertilidade do solo. 2. FINALIDADES:

Conhecer o nível de fertilidade do solo, ou seja, estima a capacidade do solo de suprir determinados nutrientes às plantas e determinar a necessidade de corretivos e fertilizantes ⇒ estes dois objetivos constituem o programa de adubação e calagem.

Para que se possa atingir estes objetivos, as seguintes etapas devem ser consideradas num bom programa de adubação e calagem:

AMOSTRAGEM DE SOLO ANÁLISE EM LABORATÓRIO: - Extração

- Quantificação

INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS: - Classes de fertilidade

Figura 2. Passos da análise química do solo.

Portanto, os resultados do programa todo dependem da qualidade das partes componentes. Mas, onde estão atualmente as mais prováveis fontes de erro ? - Não é exagero afirmar que é na etapa da amostragem onde ocorrem as maiores falhas. Isto porque os métodos atualmente empregados nas análises geralmente são precisos e bem estudados. A interpretação dos resultados e recomendação dependem dos resultados de pesquisa e da capacidade dos técnicos. - 80 a 85% do erro total podem ser atribuídos à amostragem no campo e 20 a 15% restantes podem ser decorrentes do trabalho de laboratório, sendo que a determinação analítica raramente ultrapassa 5%.

- O fato da amostragem do solo ser a principal fonte de erro do programa é devido aos pouquíssimos resultados de pesquisa referente à amostragem e além disso normalmente a amostra do solo é retirada por pessoal não qualificado, que desconhecem os princípios básicos de uma boa amostragem.

Vale ressaltar que a análise química é de execução rápida e fácil; pode ser executada em qualquer época do ano; estima a necessidade do solo antes do plantio; e custo reduzido. E os pontos críticos para a obtenção de bons resultados são: a) A amostragem do solo deve ser representativa do mesmo; b) Contaminação da amostra; c) Seleção de métodos eficientes de análise: a solução extratora deve ser capaz de discriminar os conteúdos diferentes do elemento no solo; d) Calibração: os resultados analíticos devem ser calibrados com dados de ensaios de campo, a fim de que se possa fazer recomendações seguras de adubação.

3. AMOSTRAGEM DO SOLO: 3.1. Considerações iniciais:

O programa de análise de solo começa com a coleta das amostras de solo das glebas das quais se deseja conhecer seu nível de fertilidade.

A correta amostragem do solo é um fator de primordial importância para a avaliação da fertilidade de um solo. Na impossibilidade de se analisar todo o volume e/ou peso da camada arável de um solo, utilizam-se amostras que irão representar todo o universo que se quer avaliar. Vários fatores afetam a representatividade da amostra, tais como: profundidade de amostragem; quantidade do material do solo a ser coletado; no. de amostras por área; no. de pontos amostrados na formação de cada amostra; tamanho de talhões ou sub-áreas; manejo e uso do solo, etc..

A amostragem constitui uma das principais fases da análise. É reconhecida como a maior fonte de erro em um programa de análise de solo. Dela, em grande parte, depende a precisão das recomendações de fertilizantes e corretivos.

Partindo-se do princípio básico do programa que é: “a área deve ser amostrada de tal forma que os resultados das análises químicas das amostras coletadas reflitam o verdadeiro estado dos nutrientes no solo”, cabe a pergunta : Será isso possível, sabendo-se que o solo é um sistema de três fases que varia química e fisicamente, tanto em profundidade como horizontalmente?? ⇒ os estudos de variabilidade do solo mostram que este é um campo vasto para ser pesquisado.

Como não é possível analisar o solo como um todo, analisa-se uma pequena parte (amostra) de solo que irá representar uma área muito grande. Supondo-se uma área de 10 ha e considerando-se a profundidade de 20 cm, tem-se: 100.0 m2 x 0,2 m = 20.0 m3 x 1.0 kg/ m3 (densidade do solo) = 20.0.0 kg de solo

Se for retirada, nesta área, uma amostra composta de apenas meio quilo, como é o normal, observa-se que uma parte estará representando um todo de 40 milhões de partes: 0,5 kg ÷ 20.0.0 = 1/40.0.0

Isto corresponderia a chegar em uma cidade com 40 milhões de habitantes, tomar 1 só pessoa como descrição para todas as demais e considerar 40 milhões de pessoas iguais a essa única. Considerando-se ainda que as determinações analíticas são realizadas em uma porção de 10 g da amostra (2% da amostra), pode ser calculado que uma parte estará representando um todo de 2 bilhões de partes: 0,01 kg ÷ 20.0.0 = 1/ 2.0.0.0

Por estes cálculos, pode-se perceber a importância da amostragem no processo de análise do solo. Pode-se concluir, como comentado acima, que amostragem é a etapa mais crítica, ou seja, que pode mais facilmente causar erros na análise do solo. Portanto, vale ressaltar: “ A análise não é melhor que a amostra” !!

E ainda:

“Toda prática agrícola convencional está baseada em tratar o campo como homogêneo, ignorando as variações...” (Prof. Eduardo, Solos I)

É preciso diferenciar dois tipos de amostra: a) Amostras simples = porção de terra coletada em cada ponto do terreno. b) Amostra composta = reunião das várias amostras simples coletadas.

Quanto mais AMOSTRAS SIMPLES forem coletadas para compor a AMOSTRA COMPOSTA, maiores serão as chances de se ter uma amostra representativa.

Apesar desta variabilidade é possível amostrar o solo de uma gleba de tal forma que as análises químicas das amostras coletadas reflitam o verdadeiro estado dos nutrientes nos solos desde que sejam obedecidos certos critérios.

3.2. Passos na amostragem: a) Seleção da área homogênea – Quanto maior é a área , maior é desuniformidade das características químicas e físicas do solo. Portanto, nesta fase da amostragem é o bom senso que deve guiar o técnico, que pode utilizar de critérios como observar: relevo, topografia, cor do solo, textura, drenagem, cobertura vegetal/cultura anterior, profundidade, mancha, calagem e adubação anteriores, uso futuro, erosão. Se todos os fatores forem homogêneos entre duas partes da área, mas as condições de uso são diferentes, este último critério deve prevalecer. As áreas a serem amostradas não devem exceder de 10 a 20 ha do solo uniforme.

Figura 3. Separação da propriedade em áreas homogêneas e caminhamento em zigue-zague para a amostragem.

Figura 4. Representação esquemática da separação em áreas homogêneas.

b) N° de amostras simples: A literatura interncional mostra que não há concordância entre os autores quanto ao tamanho da área a amostrar e o número de amostras necessárias para se estimar a fertilidade média. No Brasil há poucos trabalhos que tratam do assunto, com variações entre autores e entre os Estados. Diante da variação de resultados de pesquisa pode-se aceitar que de forma geral, recomenda-se uma amostra composta de 20 amostras simples para representar uma ÁREA HOMOGÊNEA de até 10 ha. Ressalta-se que todo o segredo está na delimitação da ÁREA HOMOGÊNEA. c) Material necessário para amostragem do solo (instrumentos para a tomada da amostra):

Para a tomada da amostra simples, o instrumento a ser utilizado deverá satisfazer as seguintes condições: - Ser capaz de tomar pequenos, suficientes e iguais volumes de solo de cada local de amostragem que irá compor a amostra que será enviada ao laboratório; - Ser fácil de limpar;

Figura 5. Volumes de terra, de acordo com os instrumentos utilizados na coleta de amostra de terra.

As ferramentas mais comuns são trado, pá reta, colher de jardineiro e enxadão. O balde plástico é mais aconselhavél para reunir as amostras simples, no qual também é fácil o trabalho de homogeinização das amostras simples para a formação da amostra composta. O uso de lápis, sacos plásticos e etiquetas de identificação são também necessários. Cuidados especiais: - Todas as ferramentas e recipientes devem estar limpos, livres de resíduos de defensivos, fertilizantes e corretivos;

- Entre a coleta de uma amostra e outra, as ferramentas e recipientes de mistura devem ser cuidadosamente limpados;

- Evitar coleta em cupins, formigueiros, locais próximos à dejeções de animais ou em estradas; em pequenas depressões do terreno ou manchas; sulcos de erosão; locais sob construções antigas ou onde tenham sido empilhados defensivos, fertilizantes e corretivos; em pontos ou linhas de adubações anteriores; - Terrenos encharcados por chuvas não devem ser amostrados.

Figura 6. Instrumentos utilizados na coleta de amostras de terra.

Figura 7. Instrumentos utilizados na coleta de amostra de terra.

Figura 8. Uso do trado na coleta de amostra de terra. Figura 9. Detalhe do trado com amostra de terra.

Figura 10. Coleta de terra com o uso de enxadão. Figura 1. Amostragem com enxadão.

d) Profundidade de retirada das amostras e frequência da amostragem:

A amostra corretamente retirada na camada de 0-20 cm de profundidade fornecerá resultados médios da fertilidade. Ressalta-se a importância da amostra conter porções de terra de toda a camada de solo de 0-20 cm. Em alguns casos, se amostras forem retiradas em camadas inferiores a 20 cm, a fertilidade poderá ser superestimada; e se for retirada em camadas mais profundas que 20 cm, pode-se subestimar a fertilidade do solo. A profundidade de coleta das amostras de solo varia em função da maior concentração do sistema radicular existente ou a ser implantada.

Ressalta-se hoje, a importância de se conhecer as camadas abaixo de 20 cm, principalmente onde ocorre impedimento químico ( presença de aluminío tóxico) para o bom desenvolvimento das raízes em regiões sujeitas a veranicos. As amostras em profundidades maiores são muito úteis na implantação de culturas perenes e neste caso, as amostras sempre devem ser feitas de 20 em 20 cm, ou seja, 0-20, 20-40, 40-60 cm e assim por diante. Em culturas perenes já formadas as amostras serão retiradas na projeção da copa, em quatro pontos ao redor.

Figura 12. Amostragem em profundidade (sub-solo).

Tabela 1. Profundidade de retirada de amostras simples. CULTURAS FORMAÇÃO JÁ FORMADAS

PERENES 20 cm 5 cm ANUAIS 20 cm - CAPINEIRAS E PASTAGENS 20 cm 5 cm

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