A chave do entendimento da Psicologia Feminina

A chave do entendimento da Psicologia Feminina

(Parte 1 de 5)

SHE - A CHAVE DO ENTENDIMENTO DA PSICOLOGIA FEMININA

ROBERT A. JOHNSON

EDITORA MERCURYO, S.P. 1996

INTRODUÇÃO

O mito grego de Eros e Psiquê é um dos melhores que encontramos para explicar a psicologia feminina. Pré-cristão, esse mito foi registrado na era clássica grega, mas antes disso já existia na tradição oral. E ainda hoje é relevante para nós.

Que devesse ser assim, não é estranho, uma vez que a biologia humana parece ser a mesma dos idos tempos gregos. Igualmente, a dinâmica do inconsciente psicológico da personalidade humana é semelhante. As necessidades básicas do ser humano - tanto fisiológicas quanto psíquicas - têm-se mantido estáveis, variando apenas a maneira de serem satisfeitas, através dos tempos.

Por essa razão é que quando queremos estudar os padrões humanos básicos - de comportamento e de personalidade - é bom voltarmos às fontes primeiras, onde sua representação é tão direta e simples que não há como não aprender com elas. Aí, ao compreendermos a estrutura básica, começamos a ver as variações peculiares à nossa época.

O PAPEL DESEMPENHADO PELO MITO

Os mitos são ricas fontes de insights psicológicos. A produção literária e artística de alto nível registra e retrata a condição humana com uma precisão indelével. Os mitos, porém, constituem um gênero muito especial de literatura. Não são escritos ou criados por um único indivíduo, porque na realidade são produtos da imaginação e experiências de toda uma era, de toda uma cultura.

Parece que eles se desenvolvem gradativamente quando certos motivos emergem; à medida que as pessoas contam e recontam algumas histórias que despertam e prendem sua atenção, os mitos vão-se aperfeiçoando até chegar à sua lapidação total. Deste modo, temas que são exatos e universais mantêm-se vivos, enquanto aqueles que dizem respeito a alguns poucos indivíduos, ou a alguma época em particular, desaparecem. Mitos, portanto, retratam imagens coletivas, mostram coisas que são verdadeiras para todos.

Isso desmente a definição racionalizadora, que diz ser o mito mentiroso e imaginário: "Como? Ah, isso é só um mito, não tem nada de verdadeiro!" , é o que ouvimos com freqüência. Os detalhes da história mítica podem ser inverídicos ou até fantásticos, mas na realidade um mito é profunda e. universalmente verdadeiro.

Um mito pode ser uma fantasia ou ainda produto de imaginação; não obstante, é verdadeiro e real. Descreve níveis de realidade que incluem o mundo racional exterior, assim como o pouco compreensível mundo interior.

Essa compreensão a respeito da limitada definição da realidade pode ser perfeitamente ilustrada através do pensamento de uma criança de tenra idade logo após um pesadelo. Para confortá-Ia, os pais até poderão dizer-lhe: "Foi só um sonho, o monstro não era real!" Mas a criança não se convence, e tem toda a razão. Para ela aquilo é tão real e tão vivo quanto qualquer outra experiência. O monstro do sonho estava em sua cabeça e não em seu quarto; mesmo assim, era uma realidade aterrorizante" com poder sobre as suas reações físicas e emocionais. Essa realidade interior não pode nem deve ser negada.

Os mitos foram alvo de estudos minuciosos de muitos psicólogos, como Jung, por exemplo, que, ao estudar as bases estruturais da personalidade humana, soube dar-Ihes atenção particular e neles encontrar a expressão de padrões psicológicos básicos. Espero poder fazer o mesmo com o nosso estudo sobre Eros e Psiquê.

Precisaremos, em primeiro lugar, pensar mitologicamente - um processo delicioso e vibrante. Sentimentos muito fortes afloram quando alcançamos o pensamento psicológico que os mitos, os contos de fadas e os nossos próprios sonhos nos trazem. No entanto, os termos e os cenários dos velhos mitos podem, à primeira vista, parecer-nos estranhos, por serem arcaicos ou distanciados de nós. Mas, se prestarmos bastante atenção e os tomarmos seriamente, começaremos por ouvi-Ios e entender-lhes o significado. Faz-se necessário, algumas vezes, traduzir um símbolo, o que não é difícil uma vez que se veja como isso é feito.

Muitos psicólogos interpretaram Eros e Psiquê como sendo uma demonstração da personalidade feminina. Talvez mais sábio fosse, desde o início do estudo, dizer que estamos falando da feminilidade onde quer que ela se encontre: seja no homem, seja na mulher.

Jung, em um de seus mais profundos insights, mostrou que, como geneticamente todos os homens têm cromossomos e hormônios recessivos femininos, eles apresentam um conjunto de características psicológicas femininas - elementos que neles são minoritários. Da mesma forma, as mulheres têm um componente masculino minoritário em seu interior. Jung chamou de anima a faceta feminina do homem e de animus, a masculina da mulher.

Muito tem sido escrito a respeito da anima e do animus, e teremos mais a dizer sobre esses dois aspectos, mais adiante. Nesse ponto, toda vez que nos referimos aos aspectos femininos do mito Eros e Psiquê, estamos falando não somente da mulher, mas também da anima do homem, ou seja, sua face feminina. Pode ser mais óbvio associá-Ia à mulher, já que a feminilidade é sua principal característica psicológica, mas existe também um paralelo com o aspecto interior feminino existente no homem, a anima.

I - O NASCIMENTO DE PSIQUÊ

Nossa história começa com uma frase: Era uma vez um reino... (E sempre existe um reino que é o começo de todas as coisas.) Por aí já sabemos que vamos encontrar um insight desse reino, que é nosso próprio mundo interior. Se você prestar atenção à velha linguagem do conto, poderá enxergar esse reino que está lá dentro de nós e que é raramente explorado pela mente racionalista de nossos dias. Uma verdadeira mina de ouro, no sentido de informação e insight, é depreendida destas poucas palavras: Era uma vez um reino...

INÍCIO DA HISTÓRIA

Nesse reino há um rei, uma rainha e suas três filhas. As duas primeiras são princesas comuns, sem qualquer expressão.

A filha mais nova, que se chama Psiquê, que significa Alma, é a personificação do mundo interior. É ela quem nos levará a uma jornada pelo reino interior, ela é a que expressa, ao mesmo tempo, o reino mítico e o reino terreno.

Você se dá conta dessas três personagens dentro de você? Quem não tem consciência da parte comum dentro de si mesmo, e da parte especial, não terrena, que pouco sabe lidar com o cotidiano?

Ela, a nossa princesa, é uma pessoa extraordinária: bonita, charmosa, porte de deusa; sua forma de falar e o todo de sua personalidade merecem o culto de adoração que se formou ao seu redor. O que levava as pessoas a assim se referirem a ela: "Eis aí a nova Afrodite, eis a nova deusa que tomará o lugar da antiga no templo, e a suplantará". E Afrodite teve de suportar o insulto de ver as cinzas do fogo sagrado de seu templo esfriarem e, ainda, assistir a um arremedo de mulher tomar seu lugar!

Afinal, Afrodite havia sido a divindade reinante da feminilidade desde os primórdios, sem que ninguém jamais pudesse definir a época exata do início de seu reinado. Portanto, presenciar a escalada de uma nova deusa da fertilidade era-lhe totalmente insuportável! Raiva e ciúmes apocalípticos marcaram, nesse momento, um novo rumo em nossa história: mexer com a fúria de divindades, ou exigir delas uma mudança, é convulsionar as fundações de nosso mundo interior.

OS ELEMENTOS MÍTICOS

As origens das duas deusas, Afrodite e Psiquê, são bem interessantes. Brandindo uma pequena foice, Cronos, o filho caçula de Urano - o deus dos céus -, cortou os genitais de seu pai e arremessou-os ao mar, assim fertilizando as águas e permitindo o nascimento de Afrodite. Esse momento foi imortalizado por Botticelli, na sua magnífica obra O Nascimento de Vênus:1 na plena majestade de sua feminilidade, Afrodite aparece em pé em uma concha, emergindo das ondas.

Aí está a origem divina do princípio feminino em sua forma arquetípica, um grande contraste com o nascimento de Psiquê, concebida - diz-se - quando uma gota de orvalho do céu caiu sobre a terra. Que linguagem mais curiosa! Rica, porém, em insight psicológico, para quem consiga ouvir sua mensagem arcaica e perene.

A diferença entre esses dois nascimentos, se entendida de forma justa, revela a diversidade de natureza desses dois princípios femininos. Afrodite é a que nasceu do mar: primeva, oceânica, em todo o seu poder feminino. Ela é desde o início do tem­po, faz parte de um estado de evolução pré-consciente; sente-se à vontade no fundo do mar e lá mesmo mantém sua corte.

Em termos psicológicos, ela reina no inconsciente, simbolizado pelas águas do mar. Por isso raramente é acessível em termos conscientes, comuns; é como se nos confrontássemos com um vagalhão. Também é difícil atingir a natureza de Afrodite, enquanto feminilidade primitiva, ou com ela conviver. Pode-se admirá-Ia, adorá-Ia, ou ser esmagado por sua feminilidade arquetípica, pois é muito difícil relacionar-se com ela. E esta será a tarefa de Psiquê, dada a vantagem que leva por ser humana: integrar e suavizar essa feminilidade oceânica arquetípica. Eis aí o propósito de nosso mito.

Toda mulher tem dentro de si uma Afrodite, reconhecida pela sua irresistível feminilidade, pela sua intensa, impessoal, inatingível majestade. Suas principais características são a vaidade, a luxúria, a fertilidade e a tirania, quando contrariada.

Mas as histórias a respeito de Afrodite e sua corte são maravilhosas. Uma aia sempre carrega um espelho diante da deusa, para que ela possa estar constantemente mirando-se nele, e alguém está a borrifar-lhe perfume a toda hora. Ciumenta, não tolera nenhum tipo de competição, e continuamente está arranjando casamentos para quem quer que seja. Não se satisfaz nunca a não ser que todos estejam muito ocupados, servindo sua fertilidade.

Afrodite é o princípio que está constantemente espelhando para o nosso inconsciente cada experiência vivida. Enquanto o homem se ocupa em expandir, encontrar e explorar tudo aquilo que é novo, Afrodite está refletindo, espelhando e assimilando. Esse espelho simboliza uma das qualidades mais marcantes da deusa do amor: sempre colocando um espelho à disposição do self, que, sem o auxílio desse espelho, poderia ficar preso na projeção. Ao buscar a resposta, porém, para aquilo que está sendo espelhado, poderá ter início o processo que leva ao entendimento, não permitindo que se fique aprisionado num emaranhado emocional sem solução. O que não quer dizer que não haja influência de fatores externos. Mas é importante perceber e entender que muitas coisas de nossa natureza interior, mascaradas como sendo fatos externos, deveriam refletir esses fatos de volta ao mundo subjetivo, de onde se originaram.

Afrodite oferece esse espelho com mais freqüência do que gostaríamos de admitir. A cada vez que alguém se apaixona e vê as características do deus ou da deusa na pessoa amada, é Afrodite refletindo em seu espelho nossa imortalidade ou qualidades divinas. Relutamos em ver nossas virtudes, tanto quanto nossos erros, e um longo período de sofrimento geralmente interpõe-se entre o ver no espelho e a realização do que quer que seja. Psiquê leva um longo tempo entre apaixonar-se por Eros e descobrir sua própria imortalidade.2

Esta Afrodite é a grande deusa-mãe, como é vista pelos olhos de sua futura nora. Quando uma mulher intermedia a beleza e a graça para o mundo, é a energia de Vênus - ou Afrodite - em ação. Mas quando é confrontada com a nora, a deusa se torna ciumenta, competitiva, determinada a criar obstáculos o tempo todo para Psiquê.

Esse drama envolvendo sogra e nora é levado em todas as culturas, e representa uma das irritações psíquicas que mais contribuem para o crescimento de uma jovem. Conseguir lidar com o universo de sua sogra significa para ela atingir a maturidade. Deixar de ser aquela gota de orvalho, chegada de forma tão ingênua a este mundo e ao casamento.

É bem embaraçoso para uma mulher moderna, razoavelmente inteligente, descobrir sua natureza-Afrodite, com seus truques e instintos primitivos. Essa deusa freqüentemente mostra seu lado tirânico e crê que sua palavra é lei.

É natural que, quando uma nova forma de feminilidade aparece num grau evolutivo, essa velha deusa sinta-se irada. Ela está além de qualquer moralidade, pois existia antes do tempo da moralidade. Usará, portanto, todos os meios de que dispõe para subjugar a oponente. E as mulheres sabem muito bem disso, pois quando acontecem as súbitas regressões à sua natureza-Afrodite elas se tornam figuras aterrorizantes, enquanto presas dela. É raro encontrar um lar em que a mulher, quando se deixa levar por suas súbitas erupções, reconheça-se nesse momento como Afrodite e saiba dar o uso real para essa energia sublime que se desprende dessas explosões.

A energia-Afrodite é uma força de grande valor, que se põe a serviço do desenvolvimento pessoal quando domina seu poder aterrador, fazendo com que todos à sua volta cresçam. Quando chega o tempo de crescimento, as velhas formas e os velhos hábitos devem dar as boas-vindas aos novos. As velhas formas de agir parecem perseguir, em cada ponto, as novas que desabrocham. Mas é uma questão de se perseverar, pois esse caminho trará à luz uma nova consciência.

Há uma história sobre o primeiro elefantinho nascido em cativeiro. O tratador ficou deslumbrado, mas logo a seguir apavorou-se, quando os outros animais juntaram-se num círculo e começaram a lançar o recém-nascido para o ar, atirando-o de um para outro. Num primeiro momento, ele pensou que o estivessem tentando matar, mas depois verificou que o intuito era fazê-Io respirar.

No processo de um novo crescimento, fatos terríveis parecem acontecer; mas, se observarmos com atenção, veremos que eram absolutamente necessários. Afrodite, que é impiedosamente criticada a cada passo, faz tudo para tornar possível a evolução de Psiquê. É muito fácil ser otimista depois de ocorrido o fato, mas é infernalmente doloroso o seu processo. Enquanto se processa essa evolução, instala-se um estado verdadeiramente caótico, de guerra, dentro do ser. A velha maneira, a natureza-Afrodite é regressiva. Leva a mulher de volta ao inconsciente, mas ao mesmo tempo força-a à nova vida - às vezes com grande risco. Talvez a evolução possa ser alcançada de outra forma; pode ser que Afrodite seja, por vezes, o único elemento capaz de promover o crescimento. Existem mulheres, por exemplo, que não conseguiriam evoluir a não ser sob a tirania ou de uma sogra ou de uma madrasta.

A COLISÃO

Muitos dos conflitos de uma mulher moderna resumem-se na colisão entre suas duas naturezas intrínsecas - Afrodite e Psiquê. Isso ajuda-a a adquirir uma estrutura para entender o processo; se ela for capaz de vislumbrar o que lhe está ocorrendo, estará a caminho de uma nova consciência. Reconhecer Afrodite pode ser-lhe de grande valia. Quando o homem reconhece Afrodite na mulher e sabe o que deve ou não fazer, ele estará numa posição privilegiada.

II - A MOCIDADE DE PSIQUÊ

Agora que já conhecemos algo sobre a natureza de Afrodite - o mais antigo e primitivo nível de feminilidade -, passaremos a observar a nova expressão do feminino. Diferente de Afrodite, que surgiu do mar, Psiquê nasceu de uma gota de orvalho que, vinda do céu, caiu sobre a terra. Essa mudança do oceano de Afrodite para a terra de Psiquê é a progressão da primeva feminilidade oceânica para uma nova forma, mais humana. Em vez de turbilhões oceânicos, temos as controláveis águas de uma gota de orvalho.

A natureza de Psiquê é tão magnificente, tão fora deste mundo, tão original e pura, que é adorada, mas não cortejada. Eis aí uma experiência brutalmente solitária, pois a pobre Psiquê não encontra marido.

Nesse sentido, existe uma Psiquê em toda mulher, o que significa ser muito só. Por um lado, toda mulher é filha de rei: muito adorável, muito perfeita, com uma riqueza interior muito grande para um mundo tão vulgar. Quando uma mulher se vê solitária e incompreendida, quando percebe que as pessoas são afáveis para com ela mas mantêm um certo distanciamento, acaba descobrindo o seu lado-Psiquê. E como dói. As mulheres tornam-se por vezes agudamente conscientes desse dolorido estado de alma, sempre que consigam decifrar-lhe a origem, que nada mais é que o surgimento de seu lado-Psiquê em sua própria personalidade. Ficar presa neste aspecto do caráter feminino significa permanecer intocável e privar-se de relacionamentos afetivos.

Absurdos de toda sorte acontecem, quando as mulheres tentam acomodar sua parte- Psiquê dentro do dar-e-receber cotidiano que constitui esses relacionamentos afetivos. Se sua parte-Psiquê abranger uma posição considerável de sua personalidade, essa mulher terá uma penosa tarefa nas mãos. Cairá em pranto bradando: "Ninguém me entende". E é verdade! As mulheres têm dentro de si essa característica, e não faz diferença nem sua condição social nem sua idade. Se a mulher souber dessa característica e puder atingi-Ia, então o manancial da beleza e da divindade de Psiquê tornar-se-ão conscientes para ela, e uma evolução, cheia de nobreza, terá início.

Se a mulher for muito bonita, o problema será mais complexo. Marilyn Monroe é um bom exempIo. Foi excessivamente idolatrada, e mesmo assim nunca conseguiu manter um relacionamento bem-sucedido e duradouro. Por fim, não pôde mais suportar. Pessoas assim parecem ser as portadoras dessa condição de deusa, uma perfeição quase inatingível por não ter lugar no âmbito humano do relacionamento comum. É possível pôr em movimento a evolução necessária a Psiquê, se bem entendida a sua dinâmica.

Certa vez assisti a um filme em que dois pacientes de um manicômio, terrivelmente desfigurados, apaixonaram-se. Através da magia da fantasia, viam-se como seres infinitamente belos, e o amor entre eles floresceu. Ao término do filme, a câmara, focalizando suas faces, foi aos poucos desfocando as imagens até reaparecerem aqueles rostos deformados. Mas a platéia sabia onde ambos haviam estado: viram o deus e a deusa que habita cada alma, o que é mais poderoso do que a realidade exterior da desfiguração. Esse episódio mostra a fratura existente entre o divino interior e o cotidiano exterior, que é o cerne de nossa história.

O CASAMENTO

Psiquê é a preocupação de seus pais, porque, enquanto as irmãs mais velhas estão casadas com reis de reinos vizinhos e vivem felizes, ninguém aparece para pedir-lhe a mão. Os homens só fazem adorá-Ia. O rei então vai consultar um oráculo, que por "acaso" é dominado por Afrodite. Cheia de raiva e inveja de Psiquê, Afrodite faz com que a resposta seja uma terrível profecia! A jovem terá de desposar a Morte, a mais horrenda e repulsiva das criaturas. A pobre moça é então levada ao alto de uma montanha, acorrentada a uma pedra e lá deixada para ser violada por essa criatura repugnante, a Morte.

Os oráculos, nas sociedades da Grécia antiga, eram inexoráveis, tidos como verdade absoluta. Portanto, os pais de Psiquê não questionaram a profecia e promoveram um cortejo nupcial à maneira de funeral. Seguindo meticulosamente as instruções, acorrentaram a filha à rocha no alto da montanha, onde se mesclaram rios de lágrimas, atavios de casamento e tristeza de morte. O rei e a rainha apagam as tochas e Psiquê é abandonada à sua sorte na escuridão.

Que podemos extrair disso? Psiquê está prestes a casar-se. O marido virá, sem dúvida, mas é uma ocasião trágica, porque o esposo é a própria Morte. Na verdade, a donzela realmente morre no dia de suas bodas: uma etapa de sua vida se extingue e ela morre para muitos aspectos femininos que vivera até então. Em certo sentido, o casamento representa um funeral para ela.

Muitas de nossas tradições matrimoniais são, na verdade, cerimônias funerárias, herdadas das culturas primitivas. Assim, o noivo, seu padrinho e alguns amigos raptavam a noiva, e as damas de honra encarregavam-se de salvaguardar sua virgindade. A "batalha", ritualisticamente, é levada a cabo, com a noiva chorando pela morte de uma etapa de sua vida, ou seja, a donzela está morrendo. As portas de uma nova vida abrem-se para ela, e as festividades são para celebrar um novo poder que ela conquistará como noiva e como matriarca.

Na verdade, não reconhecemos suficientemente o aspecto da dualidade no casamento, somente tentamos fazê-Io cor-de-rosa, alegre e feliz. Mas em algum momento deveríamos levar em consideração a parte que morre, deveríamos honrá-Ia, pois do contrário as emoções vão aflorar mais cedo ou mais tarde, de uma forma inadequada. Algumas mulheres, por exemplo, poderão manifestar uma violenta repulsa com relação ao seu casamento, depois de passados alguns meses ou anos.

Certa vez vi uma estampa que representava a festa de um casamento turco, em que garotos de oito ou nove anos pulavam num pé só, com o outro amarrado na coxa. Tal costume era para lembrar aos convivas que a dor e a alegria estavam presentes, ao mesmo tempo.

Na África, a não ser que a noiva saia da noite de núpcias coberta de hematomas e feridas, e tenha sido raptada, o casamento não é nem válido nem real. Se o elemento sacrifício do matrimônio é homenageado, a alegria da união se torna possível. Afrodite não gosta que donzelas morram pelas mãos dos homens, pois não é de sua natureza ser submetida por um homem. Por essa razão, a Afrodite, em uma mulher que se casa, chora ao deixar de ser donzela. Ela representa seu papel paradoxal: quer o matrimônio, mas ao mesmo tempo ressente-se da perda da virgindade. Esses anos tão longínquos ainda jazem dentro de nós e são homenageados com propriedade nas cerimônias feitas com consciência.

Aqui, outra vez, observamos o paradoxo da evolução: é a própria Afrodite quem condena Psiquê à morte, mas também é ela a casamenteira que provoca o matrimônio ao qual ela própria se opõe. É ela também a que chora e range os dentes durante a cerimônia, pelas futuras perdas da liberdade, individualidade e virgindade da noiva.

O "empurrão" para a evolução, que o casamento traz, é acompanhado por um "puxão" regressivo, causado pela nostalgia da independência e da liberdade que a noiva gozava antes dele.

Uma vez vi uma tira humorística que conseguiu resumir com genialidade a força arquetípica do casamento. Retratava os pensamentos dos pais dos noivos durante a cerimônia: o pai da noiva, furioso com o tipo que teve a audácia de roubar-lhe a "princesinha" adorada; o do noivo, sentindo-se triunfante com a supremacia masculina da comunidade; a mãe da noiva, horrorizada com o bruto que estava levando sua criança para longe dela; a do noivo, também enfurecida, mas com a lambisgóia que seduziu e arrancou-lhe o filhinho.

Muitos dos arquétipos mais primitivos - aqueles padrões de pensamento e comportamento arraigados, incrustados no inconsciente da psique humana, ao longo de milhares de anos de evolução - estavam retratados nessa caricatura. Se não os respeitarmos, no seu devido tempo eles voltarão e poderão causar muitos problemas.

III - EROS

Para destruir Psiquê, como gostaria de fazê-Io, Afrodite pede ajuda a seu filho, Eros, o deus do Amor. Eros, Amor e Cupido são os vários nomes dados ao deus do amor. Já que Cupido foi reduzido às ilustrações de cartões do Dia dos Namorados e Amor foi despojado de sua dignidade, vamos usar o nome de Eros para esse nobre deus.

Eros leva a tiracolo a aljava com suas flechas e põe a perder todos do Olimpo; nem os deuses escapam de seu poder, até mesmo Zeus, pois essas flechas podem levar a confusão às mais altas hierarquias. Não obstante, é dominado pela mãe, que lhe ordena inflamar de amor o coração de Psiquê pelo monstro hediondo que viria reclamá-Ia, para assim acabar de vez com o desafio que a jovem representava para ela. Uma das características de Afrodite é ser constantemente regressiva, é querer as coisas exatamente como estavam antes. Ela quer que a evolução caminhe para trás; é a própria voz da tradição e, ironicamente, é exatamente esta tendência que impulsiona nossa história para sua real evolução.

Podemos analisar Eros sob vários pontos de vista: como o homem exterior, o marido ou o homem em qualquer relacionamento, como o homem interior, ou seja, o animus da mulher, a sua masculinidade interior. Ou também podemos vê-Io como o princípio da união e harmonia, que é o clímax de nossa história. Eros não é apenas a sensualidade, bastando lembrar que suas flechas têm por alvo o coração, não os genitais. No decorrer do mito, abordaremos esses aspectos de Eros.

O CASAMENTO DA MORTE

Eros obedece às ordens da mãe, mas ao bater os olhos em Psiquê, acidentalmente espeta o dedo em uma de suas flechas. No mesmo instante apaixona-se perdidamente por ela e decide torná-Ia sua esposa. Pede ao Vento Oeste, seu amigo, que a carregue, suavemente, montanha abaixo, até o Vale do Paraíso. E Psiquê, que esperava a Morte e agora se vê, ao invés, no paraíso da Terra, não faz qualquer pergunta a Eros, inebriada que está com sua inesperada boa sorte. Ao ver-se pousando numa sala de alabastro, com música e servos, é claro que ela não faz perguntas, pois já fora suficiente haver sido salva da morte. Não quer nem precisa de nenhuma explicação por ora.

Apesar de belo, Eros vem a ser a morte para Psiquê. Todo marido é a morte para a sua esposa, porque representa a destruição da donzela que ela ainda é e a impele na direção da maturidade, como mulher. É paradoxal, mas podemos sentir ao mesmo tempo gratidão e ressentimento em relação a quem nos força a palmilhar nosso próprio caminho de crescimento.

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