Manual de Combate a Incêndio Florestal

Manual de Combate a Incêndio Florestal

(Parte 1 de 7)

Considerações gerais, 3 1. Introdução, 3 2. Objetivo, 3 3. Topografia, 4 4. Coordenadas terrestres, 6 5. A vegetação, 1 6. Agentes atmosféricos, 13 7. Efeitos benéficos, 24 8. Efeitos maléficos, 25

Deslocamentos nas matas, 27 1. Introdução, 27 2. A orientação, 27 3. A navegação em matas e florestas, 29 4. A sinalização, 30 5. Animais peçonhentos e venenosos, 31

Os incêndios florestais, 3 1. Introdução, 3 2. Os tipos de fogo, 3 3. Partes do incêndio, 35 4. Causas do incêndio, 35 5. Fatores de propagação, 39 6. Períodos de incidências, 4 7. Prejuízos ecológicos, 45

O combate, 46 1. Introdução, 46 2. A localização do incêndio, 46 3. Composição da guarnição, 48 4. O desenvolvimento do combate, 50 5. Métodos de extinção, 52 6. O apoio logístico, 54 7. Fogo contra fogo, 54 8. Os aceiros ou linhas de defesa, 54

O material, 57 1. Introdução, 57 2. Equipamento individual, 57 3. Material e equipamento operacionais, 58 4. O helicóptero e o ultraleve, 63 5. O trator, 6 6. Osborne e goniômetro, 68 7. A comunicação, 69

A prevenção, 71 1. Introdução, 71 2. Educação preventiva, 72 3. Controle de riscos e causas, 73 4. A vigilância, 79 5. O código florestal, 82

Situações diversas, 85 1. Introdução, 85 2. Fogo no mato em local urbano, 85 3. Fogo no mato junto a rodovias e ferrovias, 86 4. Fogo no mato ameaçando residências, 87 5. Salvamento em incêndios florestais, 8 6. O rescaldo, 89

CAPÍTULO I Considerações gerais

1. INTRODUÇÃO

A ocorrência de incêndios florestais em todo o mundo é uma realidade. A perda de florestas através do fogo tem registrado de maneira generalizada e inquietante.

A poluição dos rios, as grandes inundações provocadas pelos desmatamentos e as terraplanagens não são menos destruidoras do que os incêndios florestais. As perdas materiais, com estes sinistros, durante um único ano, podem, às vezes, superar o consumo de madeira em dez anos em um país.

O empesteamento do ar, o perigo das radiações e a destruição das matas pioram as falhas da humanidade que, procurando evoluir, causam a sua destruição paulatina.

Dos três reinos da natureza, o reino vegetal é o mais importante, pois sem ele o reino animal não sobreviveria.

No Brasil, os dados sobre o assunto ainda são esparsos, e a ausência de estatísticas globais; nos mostra a necessidade de se conhecer melhor as peculiaridades de incêndios em matas, e de se preparar com maior eficiência, nossos homens de combate a incêndios, para que de sua intervenção, sejam alcançados melhores resultados na extinção de incêndios florestais, cujo potencial destruidor é elevado.

A destruição generalizada e inescrupulosa de nossas florestas, causa o desequilíbrio do clima, o terreno fica árido e as chuvas quase desaparecem, pois a floresta é o coração da natureza. Onde morre a floresta, pode nascer o deserto. A mata assegura a normalidade da circulação da água, a estabilidade do clima e a fertilidade dos campos agrícolas.

O assunto que apresentamos é de acentuada importância, não só pelos prejuízos que pode trazer como também por ser o segundo maior índice de saídas de socorro do Corpo de Bombeiros de todo país.

Contudo, pouca atenção se tem dado a esses eventos, não se preocupando com os prejuízos que trazem à comunidade e para o mundo futuro, prejuízos estes que, a cada ano, tornam-se crescentes.

O Brasil não pode continuar sendo uma imensa queimada, tendo como vítimas as nossas reservas florestais, nossa fauna, nosso homem e nossa economia.

2. OBJETIVO

Os incêndios florestais são complexos, diferentes e muito difíceis de serem combatidos, mesmo com apoio de pessoal treinado e equipamento especial, dadas as características próprias do terreno e à rápida propagação das chamas. Por isso, o objetivo deste trabalho é mostrar dados que permitam conhecer e qualificar estes sinistros, para que se possa estabelecer uma política racional de prevenção e combate, pois não se pode esperar que estes conhecimentos sejam adquiridos somente através de experiências.

3. TOPOGRAFIA

A topografia do terreno desempenha um papel importante na propagação do fogo e, ao contrário dos agentes atmosféricos, constitui um fator constante que não se modifica por simples mudanças.

Incêndios

Natureza do Imóvel Sinistrado Extensão do

Sinistro Unidades da

Federação Comercial Industrial Residencial Edifício

Público

Depósito em Geral

Matas, bosques, estabelecimentos agropecuários, etc.

Outra Total Parcial

Brasil 2074 1348 6363 372 845 3123 1935 2703 13104 Rondônia 8 9 25 2 1 7 5 12 47 Acre 8 - 6 1 6 18 4 17 24 Amazonas 12 7 28 - 8 - 1 19 36 Roraima 2 - 13 - 1 3 - 6 12 Pará 28 17 63 3 6 6 25 10 135 Amapá 8 7 28 2 4 1 3 6 47 Maranhão 4 3 51 - 1 - 1 51 7 Piauí 15 6 8 - 1 23 1 27 107 Ceará 34 17 68 10 17 - 41 31 141

Rio Grande do Norte 15 3 42 4 4 1 15 8 78

Paraíba 10 7 32 1 2 1 4 7 47 Pernambuco 73 39 175 14 13 45 5 18 303 Alagoas 19 8 15 9 - 1 3 7 48 Sergipe 2 2 - - 1 1 1 3 2 Bahia 63 18 57 2 12 4 49 92 107 Minas Gerais 197 113 789 4 89 328 904 80 2377 Espírito Santo 10 5 38 2 17 3 3 24 54 Rio de Janeiro 336 63 767 32 80 8 175 1213 São Paulo 581 477 2037 105 235 1233 139 576 4215 Paraná 235 182 603 25 91 635 45 391 1398

Santa Catarina 90 150 336 21 46 76 43 254 496

Rio Grande do Sul 230 193 890 68 180 593 527 766 1856

Mato Grosso do Sul 34 32 78 10 20 32 21 54 173

Mato Grosso 15 3 15 1 - - - 12 21 Goiás 23 1 53 3 9 8 6 48 65

Distrito Federal 24 - 6 15 1 - 3 1 98

*Fonte – Ministério da Justiça, Secretaria de Planejamento, Divisão de Estatística.

O Estado do Rio de Janeiro possui um relevo forte, com grandes desníveis e elevações pronunciadas. Cerca de 50% do território se encontra abaixo de 200 m de altitude, e apenas 1% acima de 1500 m. Três unidades compõem o quadro morfológico do Estado: baixada, maciços litorâneos e planalto.

a. Baixada

Estende-se ao longo do litoral, descrevendo um arco de nordeste para sudoeste.

Muito estreita em sua porção ocidental, alarga-se consideravelmente na parte oriental. Exibem complexa morfologia com morros e colinas talhadas em rochas cristalinas, praias, areais, campos de dunas e amplas várzeas.

b. Maciços litorâneos

Os maciços litorâneos erguem-se em meio à baixada, formando um alinhamento montanhoso com 200 a,500 m de altura. As elevações se prolongam desde Cabo Frio até a margem oriental da baía de Guanabara, seguindo rumo paralelo à costa. Do lado ocidental da baía, ganham maior altitude no Município da capital, formando os maciços de Jericinó (900m), da Pedra Branca (1.025m) e da Tijuca - (1.021m).

c. Planalto

O planalto ocupa a maior parte do Estado. Seu bordo montanhoso, chamado genericamente da Serra do Mar e localmente Serra dos Órgãos, da Estrela, das Araras, da Bocaina, de Paranapiacaba, etc.

Além do Rio Paraíba do Sul, junto ao limite com o Estado de Minas Gerais, seguindo rumo grosseiramente paralelo à linha divisória, ergue-se outro paredão montanhoso semelhante a Serra do Mar: é a Serra da Mantiqueira, que forma o rebordo do planalto Mineiro.

Dentre os picos mais altos estão o Pico de Itatiaia, no maciço das Agulhas Negras e o Dedo de Deus, na Serra dos órgãos, em Teresópolis.

Estrutura esquemática dos blocos falhados e basculados do Planalto Sul e das escarpas do Sudeste

Dentro desta topografia apresentada, é importante salientar que o declive é que mais facilita a propagação do fogo, de acordo com o grau de inclinação; quanto mais acentuado for, mais se pode calcular que a velocidade de propagação num declive muito acentuado sem a participação do vento, é igual à de outro incêndio desenvolvido sobre um terreno plano com a influência de uma ação eólica (ação do vento).

Esta rápida propagação dos incêndios montanha acima se explica pelos seguintes motivos:

Declive (topografia do terreno) a. O fogo seca e aquece os materiais florestais que estão na parte de cima com maior intensidade que os situados abaixo, não só pelo fato das ondas de calor irradiado tenderem a subir, corno também pelo fato do declive aproximar os materiais das chamas.

b. As chamas estão mais próximas (chegando mesmo a entrar em contato) dos materiais combustíveis que estão na parte mais alta.

c. O lençol freático está a uma profundidade maior, dificultando o fenômeno de capitalização da água.

d. A corrente de ar quente originada encaminha-se à parte superior da montanha, em conseqüência da corrente de ar frio, que é injetada na parte interior da montanha.

Levantamento de ar aquecido e. Recebendo maior quantidade de calor e secando mais rapidamente, os materiais florestais da parte superior entram em Combustão mais violentamente, gerando uma proporção mais rápida e mais destruidora.

Os incêndios podem também, dependendo das condições, propagar-se montanha abaixo, porém a velocidade de propagação será menor e, portanto, o combate bem mais fácil.

05 – 15 16 – 25 26 - 35 36 - 45 46 – 5

1.0 1.05 1.15 1.20 1.25

4. COORDENADAS TERRESTRES

Faz-se mister ressaltar tal estudo, tendo em vista sua importância no atendimento de capítulos posteriores. Senão vejamos: A Terra é um planeta que descreve em tomo do Sol uma órbita elíptica, levando neste percurso aproximadamente 365 dias e 6 horas.

Com a finalidade de facilitar o estudo do nosso planeta, considera-se a Terra cortada por diversos planos imaginários e linhas por eles determinadas na superfície terrestre, ou sejam, as coordenadas terrestres.

A Terra possui um eixo imaginário, cujas extremidades constituem os pólos norte e sul, ou "pólos verdadeiros", tendo em vista que suas posições diferem ligeiramente dos "pólos magnéticos" indicados pela bússola.

Se traçarmos um plano perpendicular ao eixo terrestre passando pelo seu centro, teremos a terra dividida em duas metades, denominadas "hemisféricos terrestres" (norte ou sul).

O plano perpendicular acima citado é denominado “piano do equador, porque delimita na superfície terrestre uma linha também imaginária, o Equador”.

Pelo eixo terrestre, podemos passar uma infinidade de planos paralelos ao plano do equador, os quais determinam, na superfície terrestre, linhas chamadas "paralelos". De modo análogo, se traçarmos planos que contenham o eixo terrestre e que sejam perpendiculares ao plano do equador, eles irão formar linhas imaginárias denominadas "meridianos".

Por convenção, o meridiano inicial ou meridiano de origem, é aquele que passa no Observatório de Greenwich, na Inglaterra.

Finalmente, o ponto determinado pela interseção do plano do equador com o eixo terrestre, é denominado "centro da Terra".

a. Longitude

Sendo o Equador uma circunferência (seção circular central da esfera terrestre), podemos dividi-lo em arcos de um grau, ficando dessa forma constituído por 360 arcos de um grau de abertura.

Denominamos de "longitude de um local L", o ângulo formado pelo meridiano de origem, com o meridiano que passa em "L". A longitude é expressa em graus, minutos e segundos, para leste e para oeste, a partir do meridiano inicial.

Evidentemente, a longitude de qualquer ponto não pode ser superior a 180º 0' 0” (este ou oeste). Por outro lado, todas as localidades situadas sobre um mesmo meridiano, têm a mesma longitude.

b. Latitude

Como o plano do equador forma com o eixo terrestre um ângulo de 90 graus, podemos dividir cada hemisfério terrestre em segmentos compreendendo arcos de um grau, contados a partir do equador (0º) em direção aos pólos (90º). Pela extremidade de cada um desses arcos, pode ser passado um paralelo.

A distância compreendida entre o paralelo que passa por um local "A" e o equador recebe o nome de "latitude".

Evidentemente, todas as localidades situadas sobre um mesmo paralelo têm mesmas latitudes, entretanto, nenhuma localidade pode ter latitude e longitude Iguais à outra localidade.

c. Altitude

O termo "altitude" é empregado para exprimir a distância vertical entre um local e o nível do mar. Para representar a altitude de um local qualquer, usa-se o símbolo - "H", mas em Meteorologia é a altitude do barômetro.

1) Altitude da estação meteorológica

Considerando que as estações meteorológicas raramente são instaladas em áreas rigorosamente planas, torna-se necessário determinar a altitude média dessa área, ou seja, a altitude da estação.

Ela é, então, a distância vertical média entre a área onde está localizada a estação e o nível do mar, considerando-se como "área da estação" o terreno circular de 20 metros de raio, em cujo centro está o abrigo de instrumentos meteorológicos.

Para representar a altitude da estação, usa-se o símbolo "Hp". 2) Altitude do barômetro

A altitude do barômetro, ou a "altitude da cuba do barômetro", é a distância vertical entre o nível do mercúrio da cuba e o nível médio do mar. Usa-se o símbolo "Hz".

Convém não confundir "altitude" com "altura". A altura de um objeto, representada por "h", corresponde à distância vertical que separa este objeto de um outro plano de referência estabelecido.

A figura existente, a seguir, contém esclarecimento sobre altura e altitude.

d. Plano do horizonte

Denomina-se "plano do horizonte de um ponto P”, situado na superfície terrestre ao plano paralelo ao formado por uma superfície líquida em repouso, no local considerado.

e. Movimentos da terra A Terra apresenta dois movimentos principais: o de rotação e o de translação.

O movimento de rotação, a Terra executa em tomo de seu eixo imaginário num período de 24 horas. Este movimento é responsável pela existência dos dias e das noites.

O movimento de translação é executado pela Terra em tomo do Sol, e dura aproximadamente 365 dias e 6 horas. Nesse movimento, a Terra descreve uma elipse, na qual o Sol ocupa um dos focos.

f – Estações do ano

Para compreendermos melhor a origem das estações do ano, vamos supor a Terra situada num ponto "P" da sua órbita.

Nesse ponto, os raios solares são perpendiculares a qualquer local situado sobre o equador. Assim sendo, é primavera no hemisfério Norte e outono no hemisfério Sul. Os dois pólos terrestres recebem então idênticas quantidades de energia luminosa, e para um observador que estivesse no Pólo Norte seria verão, e para o Pólo Sul, Inverno.

Quando a Terra se movimenta ao redor do Sol, tomando uma nova posição "Q", o hemisfério Norte começa a receber mais luz que o hemisfério Sul, devido à inclinação do eixo da Terra em relação a eclítica. Nesta posição, os raios solares vão se tornando perpendiculares aos locais situados cada vez mais ao Norte do equador, até atingir a Latitude máxima possível (23º 27’ N)

Isto ocorre exatamente quando a Terra atinge a posição "Q", ocasião em que se inicia o verão no hemisfério Norte e o Inverno no hemisfério Sul.

Continuando o seu movimento de translação a Terra passa agora a ocupar uma terceira posição "R". Durante este percurso, os raios solares vão se tomando perpendiculares a latitudes norte cada vez mais próximas do equador ocasião em que se transcorre outono no Norte e primavera no Sul.

Ao atingir o ponto "S", o outono do hemisfério Norte e a primavera do hemisfério

Sul, iniciadas quando a Terra estava em "R", chegam ao fim, pois os raios solares, cruzando a região do equador, passam a se tomar perpendiculares aos locais situados ao Sul, até atingir a latitude máxima (23º 27' S).

A partir daí, eles vão se tornando perpendiculares a locais situados sobre latitudes cada vez menores. Durante estes percursos, haverá inverno no hemisfério Norte e verão no hemisfério Sul.

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