Doenças Sexualmente Transmissíveis, Inclusive o HIV

Doenças Sexualmente Transmissíveis, Inclusive o HIV

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Os profi ssionais que prestam planejamento familiar podem ajudar suas clientes de diversas maneiras a se prevenir contra as DSTs, entre elas a infecção pelo Vírus da Imunodefi ciência Humana (HIV). Os gerentes e profi ssionais de programa podem optar por abordagens que acomodem as necessidades de suas clientes, a seu treinamento e recursos bem como à disponibilidade de serviços existentes para encaminhamento.

O Que São as Doenças

Sexualmente Transmissíveis?

As DSTs são causadas por bactérias e vírus que se disseminam através do contato sexual.

As infecções podem ser encontradas em fl uidos corporais tais como o sêmen, na pele dos genitais e áreas próximas e algumas também na boca, garganta e no reto.

O Que São Doenças Sexualmente Transmissíveis

CAPÍTULO 21

Doenças Sexualmente

Transmissíveis,

Inclusive o HIV

Pontos Básicos para Profi ssionais de Saúde e Clientes

Pessoas portadoras de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) Inclusive o HIV, podem usar a maioria dos métodos de planejamento familiar de maneira segura e efi caz.

Os preservativos masculinos e femininos podem prevenir as DSTs quando usados de forma consistente e correta.

As DSTs podem ser reduzidas por outros meios também— limitação do número de parceiros, abstinência de sexo e ter um relacionamento mutuamente fi el com um parceiro não infectado.

Algumas DSTs não apresentam sinais ou sintomas nas mulheres. Caso uma mulher ache que seu parceiro possa ter uma DST, ela deve procurar atendimento.

Algumas DSTs podem ser tratadas. Quanto antes tratadas, menos probabilidade têm de causar problemas a longo prazo, tais como infertilidade ou dor crônica.

Na maioria dos casos, há descarga vaginal proveniente de infecções que não são sexualmente transmitidas.

Doenças Sexualmente T ransmissíveis, Inclusive o HIV

276Planejamento Familiar: Um Manual Global para Profi ssionais e Serviços de Saúde

Algumas DSTs não provocam sintomas. Outras podem causar desconforto ou dor. Se não forem tratadas, algumas podem provocar doença infl amatória pélvica, infertilidade, dor pélvica crônica e câncer cervical. Com o passar do tempo, o HIV suprime o sistema imunológico. Algumas DSTs também podem aumentar enormemente a chance de se infectar com o HIV.

As DSTs se espalham numa comunidade através de uma pessoa infectada que faz sexo com outra não infectada. Quanto mais parceiros sexuais a pessoa tiver, maior será o seu risco de se infectar ou de transmitir DSTs.

Quem é Vulnerável?

Muitas mulheres que buscam os serviços de planejamento familiar—mulheres em relações duradouras, estáveis e com fi delidade mútua—enfrentam risco muito pequeno de contrair uma DST. Contudo, algumas clientes podem apresentar alta vulnerabilidade para as DSTs ou até mesmo serem portadoras de uma DST naquele momento. Entre as clientes que podem se benefi ciar mais da discussão sobre o risco de DSTs estão aquelas que não possuem um parceiro fi xo, não são casadas ou qualquer outra que, casada ou não tenha dúvidas ou expresse preocupação referente às DSTs ou ao HIV ou cujo parceiro possa ter outras parceiras.

O risco de adquirir uma DST, inclusive o HIV, depende do comportamento da pessoa, do comportamento do(s) parceiro(s) daquela pessoa e da incidência destas doenças na comunidade em que vive. Sabendo quais são as DSTs e o comportamento sexual prevalente naquela localidade, um profi ssional de saúde tem melhores condições de ajudar um/a cliente a avaliar os riscos que corre.

Compreender o próprio risco frente ao HIV e outras DSTs ajuda as pessoas a decidir a proteger a si mesmas e aos outros. As mulheres estão, frequentemente, em melhor posição para julgar seu próprio risco de contrair uma DST, especialmente quando são informadas sobre os comportamentos e situações que potencializam o risco.

Os comportamentos sexuais que aumentam a exposição às DSTs são:

Sexo com um parceiro que tenha sintomas de DST

Um parceiro sexual que foi recentemente diagnosticado ou tratado por ter uma DST

Sexo com mais de um parceiro—quanto mais parceiros, maior o risco

Sexo com um parceiro que faça sexo com outras pessoas e nem sempre use preservativos

Em lugares em que muitas pessoas da comunidade estejam infectadas com DSTs fazer sexo sem camisinha pode ser arriscado com praticamente qualquer parceiro

Em certas situações, as pessoas tendem a mudar de parceiros sexuais com freqüência, a ter muitos parceiros ou a ter um parceiro que tenha outros parceiros/ as—todos estes são comportamentos que aumentam o risco de transmissão das DSTs, inclusive pessoas que:

Fazem sexo por dinheiro, por comida, para ganhar presentes, um abrigo ou favores

Mudam-se para outro bairro ou cidade em função de trabalho ou que viajem frequentemente a trabalho, como é o caso dos motoristas de caminhões

Não têm relacionamento sexual fi xo duradouro, como é comum entre adolescentes sexualmente ativos e adultos ainda jovens

Seja parceiro(a) sexual das pessoas mencionadas acima

277O Que São Doenças Sexualmente Transmissíveis

O Que Causa as DSTs?

Diversos tipos de organismos provocam as DSTs. As que são causadas por organismos tais como bactérias geralmente podem ser curadas. De modo geral, as DSTs provocadas por vírus não podem ser curadas, embora seja possível aliviar seus sintomas.

DST Tipo

Transmissão

Sexual

Transmissão Não SexualCurável

Cancro BacterianaSexo vaginal, anal e oral Nenhuma Sim

ClamídiaBacterianaSexo vaginal e anal

Raramente, dos genitais para a boca

Da mãe para a criança durante a gravidez

Sim

GonorréiaBacterianaSexo vaginal e anal ou contato entre a boca e os genitais

Da mãe para a criança durante o parto

Sim

Hepatite BViralSexo vaginal e anal ou do pênis para a boca

No sangue, da mãe para a criança durante o parto ou no leite materno

Não

HerpesViralContato genital ou oral com uma úlcera, inclusive sexo vaginal e anal; também contato genital na área sem úlcera

Da mãe para a criança durante a gravidez ou o parto

Não

HIVViralSexo vaginal e anal

Muito raramente, sexo oral

No sangue, da mãe para a criança durante a gravidez ou parto ou no leite materno

Não

Papilomavi-rus humano

ViralContato pele com pele e genital ou contato entre a boca e os genitais

Da mãe para a criança durante o parto

Não

Sífi lisBacterianaContato genital ou oral com uma úlcera, inclusive sexo vaginal e anal

Da mãe para a criança durante a gravidez ou parto

Sim

Tricomon-íase

ParasitaSexo vaginal, oral e analDa mãe para a criança durante o parto

Sim

Doenças Sexualmente T ransmissíveis, Inclusive o HIV

278Planejamento Familiar: Um Manual Global para Profi ssionais e Serviços de Saúde

Mais informações sobre o HIV e AIDS

O HIV é o vírus que causa a síndrome de imunodefi ciência adquirida (Aids). O HIV lentamente provoca danos ao sistema imunológico do corpo reduzindo sua capacidade de combater outras doenças.

Uma pessoa pode conviver com o HIV por muitos anos sem que apresente quaisquer sinais ou sintomas da infecção. Mas ao fi nal, essa pessoa desenvolverá Aids—uma situação clínica em que o sistema imunológico do corpo da pessoa entra em colapso e não tem mais condições de combater determinadas infecções, conhecidas como doenças oportunistas.

Não há cura para a infecção pelo HIV ou para a Aids, mas a terapia antiretroviral (ARV) pode retardar o ritmo de avanço da doença, melhorar a saúde da pessoa portadora da Aids e prolongar sua vida. Os ARVs também podem reduzir a transmissão vertical (da mãe para a criança) no momento do parto. As doenças oportunistas são passíveis de tratamento.

Os profi ssionais de saúde que oferecem planejamento familiar podem colaborar nos esforços de prevenção e tratamento de HIV/Aids, particularmente em países onde o número de pessoas soropositivas seja grande, da seguinte maneira:

– Dando aconselhamento sobre as maneiras de se reduzir o risco de infecção (ver Escolha de uma Estratégia de Dupla Proteção, p. 280).

– Encaminhando clientes para testagem e aconselhamento em HIV bem como para o atendimento e tratamento de casos de HIV caso a clínica não ofereça tais serviços.

Sintomas de Doenças Sexualmente Transmissíveis

Nem sempre é possível a identifi cação precoce das DSTs. Por exemplo, clamídia e gonorréia frequentemente não apresentam sinais ou sintomas observáveis nas mulheres. A identifi cação precoce, contudo, é importante tanto para evitar que se passe a infecção adiante a outras pessoas quanto para evitar conseqüências mais graves à saúde a longo prazo. Para ajudar a detector as DSTs precocemente, um profi ssional de saúde poderá:

Perguntar se a cliente ou o seu parceiro tem feridas nos genitais ou alguma descarga incomum.

Procurar sinais de DSTs ao realizar um exame pélvico ou genital por alguma outra razão.

Saber como aconselhar uma cliente que possa ter uma DST.

Se a cliente tiver sinais ou sintomas, prontamente diagnostique e trate ou, se isto não for possível, encaminhe para o atendimento apropriado.

Aconselhe as clientes a observarem se há feridas, verrugas ou descarga incomum nos genitais, em si mesmas e em seus parceiros sexuais.

Entre os sinais e sintomas comuns que podem sugerir a presence de uma DST estão:

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Sintomas Possível causa

Descarga do pênis—pus, gotejamento claro ou verde-amarelado Comumente: clamídia, gonorréia

Ás vezes: tricomoníase

Sangramento vaginal anormal ou sangramento após o sexo

Clamídia, gonorréia, doença infl amatória pélvica

Queimadura ou dor ao urinarClamídia, gonorréia, herpes

Dor na parte inferior do abdômen ou dor durante o sexo

Clamídia, gonorréia, doença infl amatória pélvica

Testículos inchados e/ou doloridosClamídia, gonorréia

Coceira ou formigamento na área genital Comumento: tricomoníase

Ás vezes: herpes

Pústulas ou feridas nos genitais, ânus, áreas circundantes ou na boca Herpes, sífi lis, cancro

Verrugas nos genitais, ânus ou áreas circundantes Papilomavirus humano

Descarga vaginal incomum—mudanças da descarga vaginal normal na cor, consistência, quantidade e/ou odor

Mais comumente: vaginose bacteriana,

Candidíase (não são DSTs; ver Infecções Vaginais Comuns Frequentemente Confundida com Doenças Sexualmente Transmissíveis, abaixo)

Comumente: tricomoníase Às vezes: clamídia, gonorréia

Infecções Vaginais Comuns Frequentemente Confundidas com Doenças Sexualmente Transmissíveis

As infecções vaginais mais comuns não são transmitidas sexualmente. Ao contrário, geralmente se devem a um crescimento excessivo de organismos normalmente presentes na vagina. Entre as infecções comuns do aparelho reprodutivo que não são transmitidas sexualmente encontram-se a vaginose bacteriana e a candidíase (também conhecida como monilíase).

Em muitas regiões geográfi cas, estas infecções são muito mais comuns do que as DSTs. Os pesquisadores estimam que entre 5% e 25% das mulheres têm vaginose bacteriana e entre 5% e 15% têm candidíase em algum momento.

A descarga vaginal decorrente destas infecções podem ser semelhantes à descarga causada por algumas DSTs como é o caso da tricomoníase. É importante esclarecer às clientes que tais sintomas que elas possam ter não constituem uma DST—particularmente se não apresentarem outros sintomas e

Doenças Sexualmente T ransmissíveis, Inclusive o HIV

280Planejamento Familiar: Um Manual Global para Profi ssionais e Serviços de Saúde

A vaginose bacteriana e a tricomoníase podem ser curadas com antibióticos tais como metronidazole; a candidíase pode ser curada com medicamentos fungicidas tais como fl uconazole. Sem tratamento, a vaginose bacteriana pode conduzir a complicações da gravidez e a candidíase pode ser transmitida ao recém-nascido durante o parto.

São boas práticas de higiene lavar a área genital externa com sabão neutro e água limpa bem como não fazer ducha ou usar detergentes, desinfetantes ou agentes de limpeza ou secagem vaginal. Eles também podem ajudar algumas mulheres a evitar infecções vaginais.

Prevenção de Doneças Sexualmente Transmissíveis

As estratégias básicas de prevenção às DSTs envolvem evitar ou reduzir as chances de exposição. Os profi ssionais que trabalham com planejamento familiar podem conversar cm as cliente sobre as maneira que elas têm ao alcance para se protegerem tanto das DSTs, entre elas o HIV, quanto da gravidez (dupla proteção).

Escolha de uma Estratégia de Dupla Proteção

Toda cliente de planejamento familiar precisa refl etir sobre a prevenção às DSTs, inclusive o HIV—mesmo aquelas pessoas que supõem que não enfrentam nenhum risco. Um profi ssional pode discutir quais são as situações que tornam uma pessoa mais vulnerável às DST, entre elas o HIV (ver Quem é Vulnerável?, p. 276), e as clientes podem refl etir se estas situações de risco estão presentes em suas vidas. Caso estejam, podem considerar a possibilidade de adotarem uma das 5 estratégias de dupla proteção a seguir.

Uma pessoa poderá usar diferentes estratégias em diferentes contextos; um casal pode usar estratégias diversas em momentos diferentes. A melhor estratégia é aquela que a pessoa tem condições de realizar efetivamente na situação em que se encontra. (A dupla proteção não necessariamente signifi ca apenas usar preservativos juntamente com algum outro método de planejamento familiar.)

Estratégia 1: Usar um preservativo masculino ou feminino de forma correta em cada relação sexual.

É um método que ajuda a proteger contra a gravidez e DSTs, inclusive o HIV.

Estratégia 2: Usar preservativos de maneira consistente e correta junto com outro método de planejamento familiar.

Adiciona proteção extra contra gravidez na eventualidade de um preservativo não se usado ou caso seja usado incorretamente.

Pode ser uma boa opção para mulheres que querem estar seguras de que estão evitando a gravidez mas nem sempre podem contar com seus parceiros quanto ao uso de preservativos.

281Prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis

Estratégia 3: Se ambos os parceiros têm certeza de que não estão infectados, usar qualquer método de planejamento familiar e permanecer num relacionamento com delidade mútua.

Muitas clientes de planejamento familiar se encaixarão neste grupo e, por isso, estarão protegidas das DSTs, inclusive o HIV.

Depende da comunicação e da confi ança existente entre os parceiros.

Outras estratégias, que não envolvem o uso de anticoncepcionais, incluem:

Estratégia 4: Praticar somente intimidade sexual segura evitando o ato sexual e prevenindo assim que o sêmen e uidos vaginais entrem em contato com os genitais do parceiro.

Depende da comunicação, confi ança e auto-controle.

Se esta for a primeira opção de estratégia da pessoa, é melhor ter preservativos à mão na eventualidade do casal fazer sexo.

Estratégia 5: Retarde ou evite a atividade sexual (seja evitando o sexo toda vez que ele possa ser arriscado ou abstendo-se dele por um período mais longo).

Se esta for a primeira opção de estratégia da pessoa, é melhor ter preservativos à mão na eventualidade do casal fazer sexo.

Esta estratégia está sempre à disposição caso não haja um preservativo à mão.

Muitas clientes precisarão de ajuda e orientação para fazer com que sua estratégia de dupla proteção funcione com sucesso. Por exemplo, poderão necessitar de ajuda para se preparar para conversar com seus parceiros sobre proteção contra as DST, para aprender o modo de usar um preservativo e outros métodos e para lidar com questões práticas tais como onde obter tais insumos e onde guardá-los. Se for possível auxiliar em tais assuntos, ofereça ajuda. Caso contrário, encaminhe a cliente para alguém que possa proporcionar aconselhamento e capacitação, tal como exercícios de dramatização para praticar a negociação do uso de preservativos.

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