Suicídio - Princípio de Bioética

Suicídio - Princípio de Bioética

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Bioética - Suicídio

Faculdade de Enfermagem de Valença – FEV/FAA

Curso: Enfermagem – 1º Período - 2010 Disciplina: Introdução ao estudo e a prática de Enfermagem Tema: Bioética - Suicídio Docente: Profº Fernando Salgado

Discentes: - Ana Carla Machado

- Ana Carolina Maia

- Ana Gabriella Bastos

- Ana Lina de Oliveira

- Ana Paula Ribeiro

- Christiane Grijó

- Gabriel Aguiar

- Glauco Lacerda - Mariá Esteves

- Maria das Dores

- Paula de Freitas

- Priscila Menezes

- Raquel Medeiros

- Thays Macela

Valença, 26 de Abril de 2010

Índice

Introdução

O suicídio é um problema complexo para o qual não existe uma única causa ou uma única razão. Ele resulta de uma complexa interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociais, culturais e ambientais.

É difícil explicar porque algumas pessoas decidem cometer o suicídio, enquanto outras em situação similar ou pior não o fazem. Contudo a maioria dos suicídios pode ser prevenida.

E essa é a finalidade deste trabalho, onde teremos um apanhado geral sobre o suicídio como uma questão social, intemporal e universal. Assim como, a abordagem de temas influentes como a religião, a ordem social, a família e a moral, a fim de poder depreender o que leva o indivíduo a cometer tal ação.

Faremos também, uma breve referência de como identificar, acompanhar e encaminhar um indivíduo com tendência ao suicídio, visando um atendimento onde o social, o físico e o emocional do paciente seja levado em conta, tornando esse atendimento o mais humanizado possível.

Conceito

Suicídio (do latim sui caedere) é um ato que consiste em pôr fim intencionalmente à própria vida. Define-se suicídio como a atitude individual de extinguir a própria vida, podendo ser causada entre outros factores por um elevado grau de sofrimento, que tanto pode ser verdadeiro, ou ter sua origem em algum transtorno psiquiátrico, como a psicose aguda (quando o indivíduo sai da realidade, porém não o percebe) ou a depressão delirante ou outro transtorno afetivo.

Em todos os três casos, a probabilidade de atitude tão extrema é consideravelmente potencializada se houver uso continuado de drogas e de bebidas alcoólicas.

Um amplo espectro da sociedade trata o assunto sob o véu do tabu, ou seja: um tema sobre o qual devem-se evitar maiores aprofundamentos teóricos ou acaloradas discussões. No entanto, o suicídio pode ser considerado um problema de saúde pública, na medida que em países onde a estatística é utilizada como ferramenta no auxílio de melhor visualização da realidade social, como nos Estados Unidos, são elevados os índices de mortes por suicídio e muito maiores os números referentes às tentativas infrutíferas.

As reações ao suicídio variam de cultura para cultura. O ato é considerado um pecado em muitas religiões, e um crime em algumas legislações. Por outro lado, algumas culturas veem tal ato como uma maneira honrosa de escapar a situações vergonhosas ou desesperadoras, como no caso do seppuku japonês geralmente usado para limpar o nome da família na sociedade.

As pessoas que tentam o suicídio, com sucesso ou sem ele, deixam geralmente um bilhete para explicar tal ato, o que comprova que o suicídio é, de uma maneira geral, um ato premeditado. O suicida pode, ou não, deixar uma nota de suicídio.

Suas causas psíquicas ainda permanecem desconhecidas, mas está associado principalmente a quadros depressivos. Há uma frase célebre sobre o tema do filósofo Albert Camus:

"O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo, decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma pergunta fundamental da filosofia"

Ideação Suicida: pode ser definida como uma alteração no pensamento no qual há idéias recorrentes ou permanentes de estar morto, perda da vontade viver e/ ou vontade de não mais viver. Esta idéia suicida ganha evolução e acaba ocorrendo o plano suicida, no qual é elaborado o plano de execução do ato suicida.

Risco para o suicídio: é a possibilidade de uma idéia suicida levar uma pessoa a cometer o suicídio. A idealização do suicídio deve ser avaliada devendo o profissional estar atento quanto a presença de um plano, tipo de plano, co-morbidades, tentativas prévias e tentativas atuais que este indivíduo apresenta para se suicidar.

Ato suicida: caracteriza-se pelo fato de o paciente passar a ter alterações da sua conduta, o que o leva a agir voluntariamente buscando formas de acabar com sua própria vida. A execução do ato pode ter dois resultados: o paciente provoca sua morte e esta ganha o nome de suicídio ou este tenta sem sucesso e fica como tentativa de suicídio.

Tentativa de suicídio: define-se como uma ação auto dirigida que apresenta por finalidade dar fim à própria vida sem o êxito final, a morte. O paciente tenta, porém não consegue se suicidar.

Didaticamente é o resultado da interação de uma alteração no conteúdo do pensamento com uma alteração na conduta do paciente que tem como resultado a morte. É uma forma que um indivíduo encontra para escapar de uma crise ou problema ao qual este está enfrentando e não há dúvidas que isto traz sofrimento estando associados a necessidades frustradas ou não satisfeitas, sentimentos de desesperança e desamparo, necessidade de fuga.

Questão Histórica

É difícil precisar quando o primeiro suicídio ocorreu, mas ele parece estar sempre presente na história da humanidade. A Enciclopédia Delta de História Geral registra que, em um ritual no ano 2.500 a.C., na cidade de Ur, doze pessoas beberam uma bebida envenenada e se deitaram para esperar a morte. Recorrendo a livros religiosos como a Bíblia, por exemplo, é possível também encontrar os registros de alguns suicidados famosos - Sansão, Abimelec, Rei Saul, Eleazar e Judas.

Na Antiga Grécia, um indivíduo não podia se matar sem prévio consenso da comunidade porque o suicídio constituía um atentado contra a estrutura comunitária. O suicídio era condenado politicamente ou juridicamente. Eram recusadas as honras de sepultura regular ao suicidado clandestino e a mão do cadáver era amputada e enterrada a parte. Por sua vez, o Estado tinha poder para vetar ou autorizar um suicídio bem como induzi-lo. Por exemplo, em 399 a.C., Sócrates foi obrigado a se envenenar.

grupo cuja solidez estava ameaçada pela debilitação do espírito que habitava o corpo do chefe de família

Em outras culturas do primitivo mundo ocidental, era dever do ancião se matar para preservar o

No Egito, se o dono dos escravos ou o Faraó morriam, eram enterrados com seus bens e seus servos, os quais deixavam-se morrer junto ao cadáver do seu amo. Desde o tempo de Cleópatra, o suicídio gozava de tal favor que se fundou a Academia de Sinapotumenos que, em grego, significa "matar juntos".

Em Roma, como em Atenas, adotou-se em relação ao suicídio atitudes diferentes, legitimando a morte do senhor que se matava e condenando a morte do escravo suicidado. O senhor, um homem livre, ao se matar, exercia sobre si mesmo o direito próprio de sua condição social, amparado no espaço político pela lei pública. O escravo, porém, matando-se, ia contra a autoridade do senhorio, contestando seu poder e diminuindo seu capital, o que era contra a lei familiar predominante no espaço doméstico.

Se quatro séculos antes e quatro séculos depois de Cristo o suicídio é ora tolerado ora reprimido, sua reprovação vai se reforçando durante os primeiros séculos da era cristã até que seja totalmente condenado no século V por Santo Agostinho e pelo Concílio de Arles (452 d.C.), seguido depois pelos de Orleans, Braga, Toledo, Auxerre, Troyes, Nimes, e culminando com a condenação expressa de todas as formas de suicídio no "Decret de Gratien".

A Europa cristã acaba com as diferenças entre o suicídio legal e ilegal: matar-se era atentar contra a propriedade do outro e o outro era Deus, o único que criou o homem e quem, portanto, deveria matá-lo. A vida do indivíduo deixa de ser um patrimônio da comunidade para ser um dom divino e matar-se equivale a um sacrilégio. O suicidado não tem direito aos rituais religiosos, seus herdeiros não recebem os bens materiais e seu cadáver é castigado publicamente, podendo ser exposto nu ou queimado. Os suicidados são igualados aos ladrões e assassinos e o Estado e a Igreja fazem tudo para combater os suicídios.

O fato é que, apesar da Revolução Francesa ter abolido as medidas repressivas contra a prática do suicídio, aparentando que a conduta suicida não compromete a estabilidade do Estado, uma observação primeira da relação suicidado-sociedade indica que há um movimento social organizado de prevenção ao suicídio, o qual mobiliza os poderosos meios de comunicação modernos e instituições como, por exemplo, o CVV-Centro de Valorização da Vida. Ou seja, há um confronto latente na complexa estrutura social moderna entre dois movimentos: o dos suicidados e outro que se lhe opõe.

A partir da Renascença então, período de maior liberdade religiosa, o suicídio recrudesceu e continua até nos dias atuais, principalmente explicados pelos problemas causados pela Revolução Industrial e pelo Capitalismo nascente, os quais diminuíram os apelos à Religião.

Questão Filosófica

Alguns vêem o suicídio como um assunto legítimo de escolha pessoal e um direito humano (coloquialmente conhecido como o "direito de morrer"), e alegam que ninguém deveria ser obrigado a sofrer contra a sua vontade, sobretudo de condições como doenças incuráveis, doenças mentais, e idade avançada que não têm nenhuma possibilidade de melhoria. Os defensores deste ponto de vista rejeitam a crença de que o suicídio é sempre irracional, argumentando às vezes que ele pode ser um último recurso válido para aquelas dores maiores persistentes traumas. Essa perspectiva é mais popular na Europa continental, onde a eutanásia e outros temas, como são comumente discutidas no parlamento, tem uma boa dose de apoio.

Um segmento mais estreito desse grupo considera o suicídio como uma escolha grave mas condenável em algumas circunstâncias e um direito sagrado que todos tem (mesmo as pessoas jovens e saudáveis), que acredita que eles têm plena consciência racional para decidirem sobre suas próprias vidas. Adeptos notáveis dessa escola de pensamento inclui o filósofo pessimista Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, e o empirista escocês David Hume. Os adeptos desta visão muitas vezes defendem a revogação das leis que restringem as liberdades dos povos conhecidos por serem suicidas, bem como as leis que permitem o seu compromisso involuntário em hospitais mentais.

afirmam que o suicídio é o processo em si mesmo

O estudo de Durkheim(1987), analisando os suicídios ocorridos no século passado, tornou-se obra clássica da sociologia por chamar a atenção sobre a significação social do suicídio pessoal - o suicídio é uma denúncia individual de uma crise coletiva. Já o estudo de Kalina e Kovadloff merece destaque porque parte da premissa de que em cada sujeito que se mata fracassa uma proposta comunitária. Eles analisam a sociedade atual com clara intenção de entender o suicídio como existência tóxica. A existência tóxica é a vida vivida de forma que o ser humano esteja se matando no cotidiano, todos se matando em comum acordo através de uma maneira de viver perigosa para a saúde. Uma existência tóxica é uma vida envenenada porque vive daquilo que a aniquila, promove e perpetua a alienação humana e fomenta o apoio às contradições que a destroem. Para tanto, multiplicam-se as condutas autodestrutivas como o armamento nuclear, a contaminação do planeta e, até mesmo, a despersonificação urbana do homem contemporâneo. Enquanto na concepção clássica o suicídio é o ponto final de um processo, Kalina e Kovadloff(1983)

Partindo do pressuposto que o suicídio é um processo em si mesmo que não termina com a morte e, ainda, que o suicídio é um gesto de comunicação entende-se que o indivíduo se mata para relacionar-se com os outros e não para ficar só ou desaparecer. A morte é o único meio que o sujeito encontra para restabelecer o elo de comunicação com os outros.

Questão Religiosa

Na maioria das escolas do Cristianismo, o suicídio é considerado um pecado, baseado principalmente em escritos de influentes pensadores da Idade Média como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino; o suicídio não era considerado um pecado sob o código de Justiniano do Império Bizantino, no entanto. Na doutrina católica, o argumento é baseado no mandamento "Não matarás" (aplicado no âmbito do Novo Testamento por Jesus em Mateus 19:18), bem como a idéia de que a vida é um dom dado por Deus que não deve ser desprezada, e que o suicídio é contra a ordem "natural" e, portanto, interfere com os planos de Deus para dominar o mundo.

O Judaísmo enfoca a importância da valorização da vida, e como tal, o suicídio é o mesmo que negar a bondade de Deus no mundo. Apesar disso, em circunstâncias extremas, quando não pareceu nenhuma escolha mas para qualquer ser mortos ou forçados a trair a sua religião, os judeus cometem suicídio individual ou suicídio em massa e como um lembrete desagradável há mesmo uma oração na liturgia judaica para "quando a faca na garganta", para aqueles que estão morrendo "para santificar o nome de Deus". Estes atos não receberam respostas misturadas pelas autoridades judaicas, considerados ambos como exemplos de martírio heróico, enquanto outros afirmam que era errado para eles tomarem suas próprias vidas em antecipação do martírio.

O suicídio não é permitido na religião do Islã; contudo, martirizando-se para Deus (durante combate) não é o mesmo de completar o suicídio. Suicídio no Islã é visto como um sinal de descrença em Deus. Entretanto, a utilização de suicídio é praticada por grupos radicais como o Hamas e a Al-Qaeda no Iraque.

No Hinduísmo, o suicídio é desaprovado e é considerado tanto pecaminoso como matar outra pessoa.

Os textos hindus dizem que quem comete suicídio passará a fazer parte do espírito do mundo, vagando.

Segundo o Budismo, o passado dos indivíduos atua fortemente na influência que experimentam no presente; atos presentes, por sua vez, tornam-se a influência de fundo para experiências futuras (carma). As ações produzidas pela mente, pelo corpo e pela reação, ou repercussão, por sua vez, são a causa das condições (boas e más) de que nos deparamos no mundo de hoje.

Algumas seitas religiosas fazem cultos ao suicídio, como a Ordem do Templo Solar, a Heaven's Gate, a Peoples Temple e outras.

Epidemiologia

Generalidades

No mundo, 815 0 pessoas cometeram suicídio no ano 20, o que perfaz 14,5 mortes por 100 0 habitantes (uma morte a cada 40 segundos).

Países do Leste Europeu são os recordistas em média de suicídio por 100.0 habitantes. A Lituânia (41,9), Estônia (40,1), Rússia (37,6), Letônia (3,9) e Hungria (32,9). Guatemala, Filipinas e Albânia estão no lado oposto, com a menor taxa, variando entre 0,5 e 2. Os demais estão na faixa de 10 a 16.

Em números absolutos, porém, a China lidera as estatísticas. Foram 195 mil suicídios no ano de 2000, seguido pela Índia com 87 mil, a Rússia com 52,5 mil, os Estados Unidos com 31 mil, o Japão com 20 mil e a Alemanha com 12,5 mil. A tentativa de suicídio é mais freqüente entre as mulheres, no entanto, os homens conseguem um índice maior de morte por utilizarem métodos mais agressivos, como armas de fogo ou enforcamento, enquanto as mulheres utilizariam de meios como remédios ou veneno.

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