Breve avaliação de uma concepção de ensino

Breve avaliação de uma concepção de ensino

Introdução

No meio educacional, existem várias concepções a respeito do significado e dos objetivos do ensino. Algumas são centradas na figura do professor, geralmente baseadas nas tendências de educação tradicional, outras têm o aluno como sujeito do ensino, baseadas em tendências escolanovistas, e outras ainda, talvez cada vez mais atuais e elaboradas, são centradas não tão somente no trabalho do professor e nem mesmo somente no processo de aprendizagem individual do aluno, mas no conjunto formado por estes fatores, na relação professor-aluno que permeia, obrigatoriamente, o processo eficaz de ensino-aprendizagem.

Concepções do ensino: um ensino efetivo para uma efetiva aprendizagem

A concepção de ensino é própria de cada professor, e geralmente reflete a sua prática pedagógica.1 Porém, existem algumas concepções de ensino bastante variadas e correntes entre os teóricos da educação, que provêm das diferentes tendências pedagógicas. Saint-Onge cita algumas delas, apontando também a validades de algumas destas concepções.2

A primeira concepção de ensino citada por Saint-Onge é a de que “ensinar é transmitir seus conhecimentos”, uma das concepções mais comuns e que limita a compreensão do trabalho do professor. Se esta concepção fosse de todo válida, não existiriam problemas pedagógicos, pois bastaria que o professor proclamasse todo o seu saber para que os alunos tivessem um aprendizado efetivo, e a única condição para a eficácia do ensino estaria no domínio do conteúdo por parte do professor. Neste contexto, o que veria-se, na prática, seria apenas o amplo conhecimento do professor, mas talvez nenhum conhecimento sendo produzido por parte do aluno.

Apesar de esta concepção de ensino ainda estar viva em alguns professores, de acordo com Saint-Onge, já demonstrou-se que apenas o conhecimento do conteúdo a ser ensinado não assegura que este conhecimento se desenvolva nos alunos, ou que deixa explícito que apenas a exposição do próprio saber do professor não é suficiente para que haja a aprendizagem, e cada vez mais, ensinar vem se tornando um processo de relacionamento entre pessoas, no qual há a construção do próprio saber, uma relação que faz aprender. Esta concepção de ensino considera que tudo o que é ensinado, é ensinado a alguém que aprende. Em outras palavras, não há ensino onde não há aprendizagem, e este processo é muito mais complexo do que o simples enunciado de próprios conhecimentos. Esta relação existente deve ativar o processo de aprendizagem em função de capacidades a serem adquiridas.

Em uma avaliação concisa destas duas concepções de ensino tomadas como extremos, de acordo com o autor, o ensino é o trabalho no processo de levar a aprender, e não se resume a simples e vulgarmente “dar aulas”.

Em sua obra, Saint-Onge, na primeira parte, trata exatamente das concepções de ensino formadas individualmente pelos professores e idéias ligadas a estas concepções, na forma de oito postulados, em um capítulo intitulado Eu ensino; mas será que eles aprendem?. Ao longo dos oito postulados propostos pelo autor, a conclusão sobre as discussões apresentadas é a de que a simples transmissão da matéria por parte do professor, e o descaso ou talvez desejo do professor pela independência quase autodidata dos alunos, para que estes procurem seus próprios meios de aprender, mostra uma má compreensão dos mecanismos de aprendizagem, visto que a aprendizagem é um processo longo e que deve ser dirigido. O ensino é, portanto, numa terceira e mais completa concepção, “a organização de métodos de intervenção que permitam ao aluno construir seu saber com base no modelo do saber das diversas disciplinas escolares. O ensino não pode ser identificado com a exposição.” (SAINT-ONGE, 1999).

Conclusões

Avaliando as concepções de ensino descritas por Saint-Onge e outras leituras além daquelas utilizadas como referência neste trabalho, e comparando com a formação psicopedagógica e didática dos futuros professores nos cursos de licenciatura, observa-se que há uma grande concordância entre as atuais concepções de ensino e as concepções constantemente discutidas durante a graduação, além das discussões a respeito das responsabilidades e competências do professor.

Como citado nas referências, existem muito professores que ainda não têm plena compreensão dos mecanismos do processo de ensino, e, portanto, têm ainda concepções de ensino muitas vezes baseadas na idéia de que somente a exposição do seu conteúdo possibilita o aprendizado por parte dos alunos. Para permitir e incentivar a reflexão a respeito do ensino e seus mecanismos é que se torna necessária a formação continuada dos professores, para que estes tenham novas oportunidades de refletir sobre o seu trabalho enquanto educador, ter contato com novos conhecimentos sobre a educação e evoluir como profissional, resultando em um ensino de melhor qualidade para seus alunos.

Referências

1 Evolução das concepções de ensino e aprendizagem em professores estagiários de biologia/geologia. Disponível em http://webpages.ull.es/users/apice/pdf/133-062.pdf, acesso em 24/04/10.

2 SAINT-ONGE, Michel. O ensino na escola: O que é? Como se faz? Edições Loyola: São Paulo, 1999.

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