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© Revista da ABRALIN, v. 6, n. 1, p. 183-203, jan./jun. 2007.

Cândida Martins PINTO** Universidade Federal de Santa Maria

Este artigo objetiva discutir questões sobre o ensino de português para estrangeiros e a noção de gêneros textuais como modelos didáticos. Para tanto, o gênero entrevista será analisado de acordo com o Interacionismo Sociodiscursivo. Também a proposta visa a uma exemplificação de uma aula de leitura sustentada na análise prévia.

This article investigates the teaching of Portuguese for foreigners and the notion of genres as didactic models. For doing this, the genre interview will be analyzed according to the Sociodiscursive Interacionism. In addition, the proposal aims an exemplification of a reading class supported in the previous analysis.

PALAVRAS-CHAVE Português para estrangeiros, gênero entrevista, interacionismo sociodiscursivo.

KEYWORDS Portuguese for foreigners, genre interview, sociodiscursive interacionism.

1 Introdução

O aprendizado de uma língua estrangeira deveria ser alicerçado na noção de gêneros textuais, pois os gêneros possibilitam ao aluno um agir consciente em relação às práticas sociais das diferentes situações comunicativas em que está submetido. O domínio dos gêneros requer um conhecimento específico das características de cada texto. Isso possibilita uma melhor relação com os mesmos, pois o aluno estará metaconsciente sobre o uso da linguagem de determinados contextos e, assim, irá se comunicar de uma maneira mais eficaz.

Diante dessas afirmações iniciais, sabemos que o ensino de português para estrangeiros (PLE) deve também ser embasado na teoria dos gêneros textuais, pois o aluno estrangeiro está inserido numa comunidade que requer um conhecimento dos vários textos constituintes dessa comunidade, como, por exemplo, os textos midiáticos – notícia, reportagem, entrevista, propaganda, entre outros.

Sob esse ponto de vista, pretendo, com este artigo, trabalhar com a noção de gêneros textuais como modelo didático para o ensino de português para estrangeiros. A fim de ilustrar essa proposta, utilizo o gênero entrevista como objeto de ensino e, na tentativa de desenvolver uma breve discussão sobre esse gênero, formulo as seguintes questões:

1ª)Como o gênero entrevista se caracteriza levando em consideração as atividades sociodiscursivas e os recursos lingüísticos nele desempenhados?

2ª)Como poderiam ser elaborados exemplos de atividades para uma aula de leitura de português para estrangeiros com base nos resultados alcançados?

Os pressupostos teóricos que embasam a construção dos exemplos de atividades e da análise do gênero entrevista provêm do interacionismo sociodiscursivo, defendido por Bronckart (1999). Dessa forma, este artigo trará, primeiramente, uma breve revisão da literatura sobre o interacionismo sociodiscursivo, como também sobre gêneros textuais, mais especificadamente sobre o gênero entrevista. Em um segundo momento, a análise do gênero em questão, levando em consideração a teoria do folhado textual, defendida por Bronckart. Por fim, alguns exemplos de atividades que poderão ser aplicadas em uma aula de leitura.

2 Revisão da literatura

2.1 Interacionismo sociodiscursivo (ISD)

A expressão interacionismo social, segundo Bronckart (1999: 21), “adere à tese de que as propriedades específicas das condutas humanas são o resultado de um processo histórico de socialização, possibilitado especialmente pela emergência e pelo desenvolvimento dos instrumentos semióticos”. É a partir dessa tese que a investigação interacionista vai se pautar, isto é, nas condições de socialização da espécie humana e nas formas de interação de caráter semiótico.

Bronckart (1999) defende que a linguagem, sendo um modo de comunicação particular, confere às organizações e às atividades humanas uma dimensão particular e social. Assim sendo, os indivíduos regulam as atividades sociais, caracterizadas pelo agir comunicativo, através de interações verbais. “Sob o efeito mediador do agir comunicativo, o homem transformará o meio (ou o mundo em si) nesses mundos representados, que constituem, a partir daí, o contexto específico de suas atividades” (Bronckart, 1999: 34), ou seja, o caráter social da linguagem. Observa-se que a linguagem é vista como uma característica fundamental da atividade social humana, que tem como maior função ser comunicativa.

É nesse viés comunicativo que Bronckart ressalta que a linguagem será organizada em discursos ou em textos: “sob o efeito da diversificação das atividades não verbais com as quais esses textos estão em interação, eles mesmos diversificam-se em gêneros” (1999: 35). A atividade da linguagem, portanto, é considerada como o lugar e o meio das ações humanas sóciohistoricamente situadas. Os gêneros textuais surgem, na concepção de Bronckart, como enunciados orais ou escritos com determinados propósitos comunicativos e com função sociocomunicativa de uma sociedade.

2.2 Gêneros textuais

Bronckart (1999: 73), seguindo as premissas de Bakhtin, define a noção de gêneros textuais segundo sua aplicação:

no decorrer deste século e, mais particularmente a partir de Bakhtin, a noção de gêneros textuais tem sido progressivamente aplicada ao conjunto das produções verbais organizadas: às formas escritas usuais (artigo científico, resumo, notícia, publicidade, etc.) e ao conjunto das formas textuais orais, ou normatizadas, ou pertencentes à “linguagem ordinária” (exposição, relato de acontecimentos vividos, conversação, etc.). Disso resulta que qualquer espécie de texto pode atualmente ser designada em termos de gênero e que, portanto, todo exemplar de texto observável pode ser considerado como pertencente a um determinado gênero.

Bakhtin já postulou que os textos existentes podem ser designados como gêneros textuais. Seguindo a mesma linha de raciocínio, Marcuschi (2004: 23) define-os como uma expressão vaga para referir os diversos textos que se encontram na nossa vida diária e que possuem “características sóciocomunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica”. Dessa forma, tem-se aqui o gênero como representação e estruturação da maneira como as pessoas atuam no mundo.

Essa visão de Marcuschi confere com a visão da teoria do interacionismo sociodiscursivo (ISD) de Bronckart, pois, para ISD, “gênero de texto é aquilo que sabemos que existe nas práticas de linguagem de uma sociedade ou aquilo que seus membros usuais consideram como objetos de suas práticas de linguagem” (Machado, 2005: 242).

Schneuwly e Dolz (2004: 25), resumem a visão de Bakhtin (1953/ 1979), sobre o conceito de gênero:

•cada esfera de troca social elabora tipos relativamente estáveis de enunciados: os gêneros;

•três elementos os caracterizam: conteúdo temático – estilo – construção composicional;

•a escolha de um gênero se determina pela esfera, as necessidades da temática, o conjunto dos participantes e a vontade enunciativa ou intenção do locutor.

É notável que os gêneros tenham sua estrutura definida pela função que exercem no plano comunicacional, ou seja, os três elementos que o caracterizam (citados acima: conteúdo temático, estilo e construção composicional) determinam sua forma. Em contrapartida, será essencialmente a função que o determinará socialmente. Seguindo os preceitos de Schneuwly (1994), Machado (2005: 251) argumenta que “os gêneros se constituem como verdadeiras ferramentas semióticas complexas, que permitem que realizamos ações de linguagem, participando das atividades da linguagem.” Em adição a essa idéia, Bronckart (1999) defende a tese de que as situações sociais em que atuamos se relacionam diretamente com o gênero produzido nessas situações. Dessa forma, o indivíduo utiliza determinado gênero adequado com uma determinada situação.

Assim sendo, os gêneros textuais, sendo vistos como ferramentas necessárias para a realização das nossas ações, podem auxiliar no processo de ensino-aprendizagem na escola e em cursos livres, no caso particular, no curso de português para estrangeiros.

2.2.1 Gênero entrevista

O gênero textual entrevista é visto como “uma constelação de eventos possíveis que se realizam como gêneros (ou subgêneros) diversos. Assim, teríamos, por exemplo, entrevista jornalística, entrevista médica, entrevista científica, entrevista de emprego, etc.” (Hoffnagel, 2003: 180)

Hoffnagel (2003: 181), citando Marcuschi (2000), pontua as diferenças existentes entre os diversos tipos de entrevistas:

há eventos que parecem entrevistas por sua estrutura geral de pergunta e resposta, mas distinguem-se muito disso. É o caso da ‘tomada de depoimento’ na Justiça ou do inquérito policial. Ou então um ‘exame oral’ em que o professor pergunta e o aluno responde. Todos esses eventos distinguem-se em alguns pontos (em especial quanto aos objetivos e a natureza dos atos praticados) e assemelham-se em outros.

Seguindo os preceitos de Marcuschi, pode-se dizer que esse gênero possui itens gerais comuns a todos os subgêneros, a saber: 1) sua estrutura será sempre caracterizada por perguntas e respostas, envolvendo pelo menos dois indivíduos – o entrevistador e o entrevistado; 2) o papel desempenhado pelo entrevistador caracteriza-se por abrir e fechar a entrevista, fazer perguntas, suscitar a palavra ao outro, incitar a transmissão de informações, introduzir novos assuntos, orientar e reorientar a interação; 3) já o entrevistado responde e fornece as informações pedidas; 4) gênero primordialmente oral, podendo ser transcrito para ser publicado em revistas, jornais, sites da Internet (Hoffnagel, 2005: 181). Entretanto, os itens que diferenciam um subgênero de outro estão relacionados com o objetivo, a natureza, o público-alvo, a apresentação, o fechamento, a abertura, o tom de formalidade, entre outros.

3. Metodologia

O corpus do presente artigo é composto por cinco entrevistas retiradas das páginas amarelas da Revista Veja dos meses de fevereiro (dias 1, 8 e 15) e março (dias 1 e 8) de 2006. As entrevistas possuem assuntos variados como: a guerra entre o Ocidente e o Islã, a fuga da dor através do pensamento positivo, diversidade cultural, crescimento populacional mundial e educação brasileira.

Para a análise do corpus, farei, primeiramente, um estudo quantitativo, a fim de pontuar os elementos caracterizadores comuns a todas essas entrevistas. Num segundo momento, farei um estudo qualitativo de um dos textos (1/02/06), para análise detalhada dos recursos lingüísticos e as características textuais nele empregados. Para tanto, utilizarei a proposta de Bronckart (1999), que concebe a organização de um texto como um folhado constituído por três camadas superpostas: a infra-estrutura textual, os mecanismos de textualização e os mecanismos enunciativos. Segundo Bronckart (1999: 119), “essa distinção de nível de análise responde adequadamente a necessidade metodológica de desvendar a trama complexa da organização textual”. No Quadro 1, estão os constituintes de cada camada do folhado textual:

QUADRO 1 Os três extratos do folhado textual de Bronckart (1999)

Plano mais geral do texto: depende do gênero ao qual o texto pertence, do tamanho, da natureza de seu conteúdo temático, de suas condições externas de produção (tipo de suporte, variantes oral-escrito e dialógico-monológico).

Conexão: contribui para marcar as grandes articulações da progressão temática e é realizada por um subconjunto de unidades, a que chamamos de organizadores textuais, que são: conjunções, advérbios ou locuções adverbiais, grupos preposicionais e segmentos de frases.

Posicionamento enunciativo e vozes: ao produzir seu texto, o autor cria um (ou vários) mundo(s) discursivo(s), cujas regras de funcionamento são diferentes das do mundo empírico em que está mergulhado. É a partir desses ‘mundos virtuais’ que são distribuídas e orquestradas as vozes que se expressam no texto.

Tipos de discurso: são formas de organização lingüística, em número limitado, com as quais são compostos, em diferentes modalidades, todos os gêneros textuais. Ex: discurso interativo, relato interativo, teórico, narrativo.

Coesão nominal: tem a função de introduzir os temas e/ou personagens novos e de assegurar sua retomada ou sua substituição no desenvolvimento do texto. As unidades que realizam esses mecanismos são chamadas de anáforas e podem ser pronomes pessoais, relativos, demonstrativos e possessivos, e também alguns sintagmas nominais.

Em um terceiro momento, darei alguns exemplos de atividades que podem ser elaboradas para uma aula de leitura sobre o gênero entrevista de acordo com Aebersold e Field (1997), que trabalham com o ensino de línguas divididos, em três momentos – atividades de pré-leitura, atividades de leitura e atividades de pós-leitura. Essas atividades estão no Anexo.

Para Aebersold e Field (1997), a fase de pré-leitura é aquela realizada antes da leitura do texto propriamente dita, na qual são feitas algumas questões para ativar o conhecimento prévio do aluno para que ele infira informações sobre o assunto do texto. É nessa fase que é trabalhada a infra-estrutura geral do texto, para que o aluno tenha uma visão geral da estrutura do mesmo e consiga fazer uma leitura da foto, do título, da frase de abertura, das citações, da seção em que o texto aparece na revista, dos agentes envolvidos no texto, entre outros.

A fase de leitura consiste na leitura do texto propriamente dita, com a constante confirmação-refutação das hipóteses sobre o assunto que o aluno fez na fase de pré. É nessa segunda fase que ele constrói seu próprio entendimento do texto, checando-o com o que já sabe sobre o tópico. Assim, o aluno discutirá com o professor o vocabulário não compreendido, o assunto do texto, a opinião do autor e outras características específicas de

Modalidades de articulação entre os tipos de discurso: devido ao número e à diversidade dos tipos, essas modalidades de articulação são os elementos essenciais que permitem apreender a homogeneidade/heterogeneidade dos textos.

Coesão verbal: assegura a organização temporal e/ ou hierárquica dos processos (estados, acontecimentos ou ações) verbalizados no texto e é essencialmente realizada pelos tempos verbais. Entretanto, essas marcas morfológicas aparecem em interação com outras unidades que têm valor temporal (advérbios e organizadores textuais).

Modalizações: avaliações formuladas sobre alguns aspectos do conteúdo temático – os tempos do verbo no futuro do pretérito, os auxiliares de modalizações (poder, ser preciso, dever etc.), um subconjunto de advérbios (certamente, sem dúvida, felizmente etc.), certas frases impessoais (é evidente que, é possível que etc.) e outros tipos de frases.

Seqüências textuais: Adam (1992) – seqüências narrativa, descritiva, argumentativa, explicativa e dialogal.

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