O ensino da geografia em questão e outros temas

O ensino da geografia em questão e outros temas

(Parte 3 de 4)

A Geografia tem ignorado esta relação dos homens entre si que determina o que vai ser feito da natureza. Os homens são sempre tratados como homens abstratos e não como homens concretos que, na nossa sociedade, ou são industriais ou operários; ou são banqueiros ou bancários; latifundiários ou posseiros. Estes são os homens concretos que se relacionam com a natureza, sob determinadas relações sociais.

Em função dessas relações sociais é que se desenvolve o processo de trabalho, que é o processo de transformação da natureza em coisas úteis para a vida humana. Esta é a chave para a Geografia que eleve levar em conta a análise do processo de trabalho, visto como um processo social de apropriação da natureza, não de maneira individual, mas dentro de determinados objetivos definidos socialmente, influenciados fortemente por aqueles que controlam os próprios meios de produção. Não é, portanto, a sociedade como um todo que define essa apropriação, mesmo porque, no bojo dessa sociedade, inclusive a própria classe capitalista é obrigada a reconhecer direitos frente à luta contra a exploração do trabalho e a destruição da natureza. Neste sentido, a luta de classes está bem dentro das nossas preocupações.

A história da Europa e dos Estados Unidos atesta a dimensão geográfica dessa análise. Na Inglaterra do séc. XIX trabalhava-se dezesseis horas por dia, com meio expediente de oito horas aos domingos. Este fato tinha grande influência em algo de que os geógrafos tratam: a taxa de mortalidade. É evidente que esta era influenciada pela taxa de exploração de dezesseis horas por dia. Perguntase: desde quando os geógrafos correlacionam índice de mortalidade com taxa de exploração? Será que não se morre mais onde se é mais explorado? Onde as relações sociais são de exploração? Ou este tema é dos sociólogos? No entanto, os geógrafos continuam falando de taxa de mortalidade sem correlacioná-la com o aspecto social que a determina.

Temo-nos recusado, via de regra, a tratar da situação social e histórica, o que torna o ensino sem sentido. Por exemplo, ao construir uma pirâmide etária utilizamos os critérios de idade e sexo; ora, estes servem para se construir uma pirâmide de qualquer animal. Dentro desse limite, estamos, portanto, reduzindo o homem, considerando apenas seu aspecto biológico — idade e sexo — e não considerando a relação entre as próprias pirâmides etárias e as condições sociais, as classes sociais. Será que a expectativa média de vida dos operários é igual à dos industriais; a dos camponeses igual à dos fazendeiros?

Esta é uma questão central na Geografia; se não analisarmos as relações sociais que os homens estabelecem entre si para se apropriarem da natureza, através do processo de trabalho, dificilmente superaremos as dicotomias surgidas até aqui. Eis, portanto, uma pista teórica a ser sugerida. Exemplificando: o mundo foi urbanizado fortemente a partir do final do século XVIII, intensificando-se esse processo até os nossos dias.

Será que não há correspondência entre esse processo e o tipo de relação social construído a partir desse século? Seria possível fazer investimentos numa fábrica, se o homem estava preso à terra, como no feudalismo? Adam Smith, que também não era geógrafo, afirmava que, para o desenvolvimento da industrialização, era necessário libertar o servo da gleba e com isso produzir um deslocamento do trabalhador para a cidade. Adam Smith estava tratando de migrações, percebendo que era preciso arrebentar com as relações sociais do tipo feudal a fim de que aqueles homens, livres dos grilhões feudais, pudessem se deslocar para as cidades. Nestas, é bem difícil praticar agricultura de subsistência. Portanto, a alternativa para o indivíduo sobreviver seria vender a única coisa que lhe restava, que é a capacidade de trabalho. E a cidade era o lugar por excelência do desenvolvimento capitalista, onde o indivíduo poderia vender a sua energia. Por que o geógrafo não trata dessa relação entre capitalismo e cidade? De fato, o capitalismo criou uma geografia própria, adequada à sua existência e reprodução: disso também nos temos recusado a tratar.

Aparte: Quer dentro da Geografia quer dentro da História, como tratar a questão do capitalismo?

CW: Estou sugerindo que, enquanto geógrafos, devemo-nos preocupai-, fundamentalmente, com a questão da organização do espaço, que é nosso problema básico. Porém, para entender essa organização, é preciso saber qual é o seu fator determinante.

Estou querendo que os geógrafos assumam com mais clareza a existência desta relação sociedade-espaço. Chamo a atenção para um dado central da análise, através de um exemplo: o processo de industrialização iniciado no final do século XVIII, com o advento do capitalismo, deve ser visto como um todo e não de modo dicotomizado, a fim de que se possa entender como este se constrói e como se localiza.

Tal processo, ao mesmo tempo, se desdobra, por exemplo, numa concentração da população através das migrações; da mudança das relações sociais, como no caso dos "enclousures" na Inglaterra, em que os cercamentos dos campos expulsaram os homens para as cidades. Tal fato gerou um tipo de cidade e um tipo de relação cidade-campo. Se nós considerarmos todas essas variáveis na análise do desenvolvimento das relações sociais capitalistas, encontraremos uma série de temas geográficos a serem tratados, dentre os quais a indústria é ligação chave para o entendimento do capitalismo. Assim, para se analisar o Brasil, é fundamental iniciar a abordagem da Geografia Econômica brasileira pelo processo que vai definir a acumulação do capital industrial em São Paulo-Rio de Janeiro-Belo Horizonte, constituindo o centro da economia e da sociedade brasileira como um todo, inclusive modificando as próprias relações no campo.

É esta a noção de unidade a ser obtida, na medida em que se percebe que o espaço analisado — seja o brasileiro ou o mundial — só pode ser comprendido como resultado de uma relação social, como espaço produzido socialmente. Daí uma série de temas se abrem e estes devem ser tratados a partir de algo que os ligue. Percebe-se, deste modo, a existência de uma totalidade, que é a sociedade se desenvolvendo e construindo um espaço adequado à sua reprodução. Por exemplo, a migração é um fenômeno no qual, em nossa sociedade, o trabalhador migra para determinados lugares onde possa vender a sua força de trabalho.

Estes tais lugares são, exatamente, aqueles onde o capital está localizado ou para onde o capital está migrando.

É importante, portanto, assumir uma postura metodológica, na qual a análise do processo de industrialização deve proceder a análise das migrações; o encadeamento de questões será lógico se se compreender a lógica da sociedade em que se vive. Por sua vez, não será possível entender a organização do espaço sem, primeiramente, compreender as relações sociais que estão sendo tecidas nesse espaço através do processo de trabalho.

Aparte: Se o processo de trabalho vai explicar tudo, pode-se entender toda a realidade através da dimensão técnica do trabalho.

CW: Um indivíduo trabalhando na terra, transformando a natureza primitiva, já realiza um trabalho social. Os objetivos que levaram os homens a produzirem já estão determinados socialmente, o que significa entender as relações sociais determinando o processo de trabalho, como um processo social de apropriação da natureza. Relembro o caso da sociedade indígena, citado anteriormente.

Para fins de operacionalização, acabamos por dividir a realidade, julgando ser esta uma forma de melhor explicitá-la. Porém, a questão central é sabermos que realidade queremos mostrar. Na sociedade onde vivemos, o processo de trabalho pode ser entendido do ponto de vista técnico, o que, entretanto, me leva à preocupação de não cair numa visão tecnicista do processo de trabalho, pois ele, em si, já é um momento do processo social. Por exemplo, o que se vai fazer com a natureza já é definido socialmente: por quê? para quem? O modus operandi mais concreto vai ser o processo de transformação da natureza que, para o geógrafo, é a chave da questão. Mas a geografia que encare esse processo de transformação como exclusivamente técnico vai perder a dimensão social mais ampla.

Retomando, gostaria de reforçar a necessidade de se perceber a unidade entre espaço e sociedade, na medida em que esta constrói aquele. Por exemplo: a sociedade capitalista concentra a população nas cidades, através da constituição de uma camada ampla de assalariados. Esta concentração é, entretanto, contraditória para o capitalismo, pois ao mesmo tempo que concentra os trabalhadores, também o faz com relação à força potencial de contestação ao sistema econômico. Não é por acaso que as cidades são focos de lutas sindicais, econômicas e mesmo políticas dos trabalhadores. Isto é, o próprio capitalismo concentra forças que, contraditoriamente, podem superá-lo. Não digo que necessariamente o vão fazer, mas não se pode ignorar tal processo contraditório.

Por isso, aparecem divisões nas nossas cidades. O Rio de Janeiro, por exemplo, é uma cidade extremamente segregada do ponto de vista social, parecendo, inclusive, que existem duas cidades come um retrato da própria segregação social, ao observarmos a Zona Norte e a Zona Sul separadas pelo Túnel Rebouças. E só compreenderemos esta geografia se formos capazes de entender as relações sociais que criaram este espaço. Basta atentar para o fato de que 6% dos investimentos públicos em saneamento básico e similares se fizeram, durante o período de 1979 a 1982, na orla marítima — da Glória, do Catete, até a Barra da Tijuca. No entanto, neste trecho não moram 6% da população do Rio. Para se compreender o porquê desses investimentos, tomemos o caso de uma rua do bairro de Botafogo, onde existiam vinte casas há dez anos atrás e atualmente conta com vinte edifícios de vinte andares, com dois apartamentos por andar. Assim, onde existiam antes vinte casas, hoje há oitocentas residências, pelo que a rede de esgotos, de água e de energia elétrica teve que ser ampliada. Já o outro lado do Rio nunca teve tais serviços e vai continuar a não tê-lo, pois o Estado gastou os recursos necessários na ampliação desses serviços no bairro citado. O responsável por tal situação é o capital imobiliário que

energia e etc

exige do Estado a criação da infra-estrutura para a venda de seus prédios, pois apartamentos com "livings", lavabos, suítes, não podem ser vendidos se não dispuserem de água,

Portanto, a Geografia que se tem só pode ser entendida se compreendermos as relações sociais que vão determinar, inclusive, um processo de trabalho de construção de rede de esgotos, por exemplo, de acordo com os desígnios do capital imobiliário.

Quando as associações de moradores reivindicam os investimentos públicos para o outro lado da cidade, estão desenvolvendo uma luta política. Esta aparece, no Rio de Janeiro, como uma luta entre a Zona Norte e a Zona Sul. Portanto, o que não é exclusivamente uma questão geográfica, mas social, aparece sob uma forma geográfica.

Ao entendermos a organização do espaço a partir da compreensão da sociedade em que se vive, das relações sociais estabelecidas, vislumbro a possibilidade teórica de ser geógrafo não-geógrafo; e a partir da Geografia ou da organização do espaço, a possibilidade de entender a sociedade. É uma ruptura interessantíssima com a divisão do trabalho científico, e, nesse sentido, se minha análise tiver que invadir a Sociologia para uma melhor compreensão da organização do espaço, não ficarei preocupado em indagar se estou ou não fazendo geografia sem dúvida alguma, irei aonde for possível e necessário para compreender a organização do espaço e, por esta via, compreender as relações sociais sob as quais estamos vivendo.

Ao escrever um artigo sobre geografia e imperialismo, * percebi que minha análise não poderia ficar somente na Geografia e que, ao mesmo tempo, o Imperialismo tem uma conotação geográfica de dominação dos países imperialistas desenvolvidos sobre os países do Terceiro Mun-

* GONÇALVES, Carlos Walter Porto. "Geografia e imperialismo: uma introdução", in Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, (59): 23-41, out. de 1982.

do. Ocorre uma desigualdade social, uma drenagem de recursos, e não é à toa que tínhamos no Brasil uma dívida externa de 98 bilhões de dólares em 1984.

Coloquei a seguinte epígrafe nesse meu trabalho:

"Neste artigo fui obrigado a romper com as fronteiras das disciplinas científicas com a mesma facilidade com que o imperialismo invade as fronteiras nacionais". Em outras palavras, não era possível entender o imperialismo ficando fechado num território de conhecimento restrito.

Dado que para avançar a análise geográfica é preciso entender a questão da organização do espaço como produto da sociedade e que aquela é uma condição para que essa sociedade continue existindo, coloco a necessidade de romper as fronteiras científicas para sermos geógrafos sérios. Desta forma, teremos um ensino com o qual o aluno ficará mais satisfeito, pois estaremos mostrando-lhe que a organização do espaço é algo importante para compreender as contradições de nossa sociedade.

Vamos torcer para que o historiador também rompa com essa historiografia que não consegue analisar a organização do espaço. Quando isto ocorrer, seremos todos historiadores e geógrafos ao mesmo tempo, rompendo com a divisão do trabalho científico. Da mesma maneira, quando o economista e o sociólogo perceberem que a Economia e a Sociologia têm uma dimensão espacial, seremos sociólogos, economistas, geógrafos e historiadores. Por sua vez, os geógrafos não ficarão tão presos à Geografia e tão preocupados em serem geógrafos, atitude que tem dificultado a compreensão da realidade. Deste modo, caminhamos para nos tornar simplesmente cidadãos conscientes da realidade contraditória em que vivemos, rompendo com o mito do especialista competente. Afinal de contas, o mundo nunca contou como hoje com tantos técnicos planejando. Por trás do mito do especialista competente se escondem os interesses de uma camada social específica — os gestores, os tecnocratas — mais preocupados em se preservar do que em lutar pelo estabelecimento de uma sociedade

Verdadeiramente democrática, o que só pode ser conseguido com a Autogestão.

Aparte: Apontando para uma briga entre o capitalismo e o socialismo, o senhor propõe uma geografia socialista?

CW: Em todas as análises feitas, não necessariamente estou propondo uma Geografia Socialista. Devemos, acima de tudo, partir da seguinte reflexão: a sociedade em que vivemos hoje é contraditória?

O capitalismo deu respostas para alguns problemas que a sociedade feudal não conseguia mais responder. Ao mesmo tempo, o capitalismo não instalou o paraíso na face da Terra, pois vivemos numa sociedade onde se chega ao cúmulo de exibir terras sem serem trabalhadas, máquinas paradas, e, por outro lado, trabalhadores desempregados. Trata-se de uma sociedade que não está preocupada em satisfazer as necessidades humanas, que não consegue controlar a si própria, e, mais ainda, uma sociedade que nem os próprios capitalistas controlam. Costuma-se dizer que o capitalismo se revigora com as crises. Dizem que numa crise uma série de empresas abrem falência e outras conseguem sobreviver, e até sobreviver bem. Porém, qual é o capitalista que sabe se é justamente ele que vai escapar da crise? Esta, portanto, não é boa nem para os capitalistas. É claro que, posteriormente, abre-se um mercado imenso para aquele que sobrevive e aparece, inclusive, vasto contingente de mão-de-obra desempregada que pode ser utilizada a baixíssimo salário, iniciando-se um novo ciclo de acumulação. No entanto, sabemos que, se a crise é ruim para o capitalista, ela é muito pior para os trabalhadores.

Além do mais, o empresário, ao fazer um investimento, não tem muita certeza, a priori, de que seu produto vai ser vendido. É o que ele chama de risco e eu chamo de anarquia! Trata-se, portanto, de uma sociedade que trabalha e só depois sabe se o seu produto vai ser vendido ou não; em que cada um quer fazer do segredo a "alma do negócio" no qual quer colocar o máximo de produtividade possível, mas, não sabendo se o outro está fazendo a mesma coisa, acredita que esse outro está fazendo o máximo.

Tem-se então um processo que leva a contradições muito grandes, como todos os problemas analisados até aqui. Ora, se a alternativa que se extrai daí é o socialismo, partindo da escolha das pessoas, que o seja. Entendo que, se for preciso superar o capitalismo para trazer felicidade para os homens, farei o possível por essa mudança. Se isso se chamar socialismo, muito bem. Não estou preocupado com o nome que tal transformação terá, mas em resolver os problemas. Se, para tanto, é preciso romper com o capitalismo, estou disposto a esta tarefa.

Aparte: Nós, como professores de Geografia, ao expormos nossas idéias aos alunos, poderemos estar nos levantando contra o modelo de sociedade que aí está.

MoscouO processo de mudança social não ocorre por-

CW: É preciso lembrar que estamos num processo social muito desigual. Por isso sentimos, na sociedade brasileira hoje, que o novo, um tipo de sociedade nova, está efetivamente brotando, mas de maneira pontual: às vezes, uma greve em São Bernardo; às vezes, um movimento no Acre; movimentos de bóias-frias em Bebedouro, etc. Isto, por sua vez, nos leva a crer que as pessoas recuperaram a dignidade e são contra a opressão e a exploração, não fazendo tais movimentos, é claro, por incitação do ouro de que o professor induziu o aluno a isso. Esse processo ocorre se a população sente necessidade disso. Claro que o professor que não escamoteia a realidade, mas, ao contrário, estimula o aluno a refletir sobre os seus problemas, está ajudando-o a se posicionar mais conscientemente no mundo. Afinal, não é esta a nossa função?

que dispomos, etcNão temos é o direito de confundir

Coloco ainda uma questão filosófica: se esta sociedade que temos é natural e garante aos homens a felicidade; se nesta sociedade as estruturas sociais, econômicas, políticas e geográficas são capazes de dignificar o homem, temos todo o direito de propugnar pela sua preservação e passar para os nossos alunos os seus valores. Porém se esta sociedade é contraditória e dentro dela há pessoas resistindo, devemos ouvi-las. Pode-se considerar que estamos diante de uma questão só de tempo para resolvermos problemas como o salário que se paga, as condições em que se vive, as condições ambientais, de saneamento básico de nossos alunos ao passar-lhes a idéia de que nossa sociedade é harmônica e muito bem integrada, quando ela é contraditória. Qualquer análise que ignore este fato não é uma análise científica.

Aparte: Quero acrescentar, questionando o aparte anterior, que antes de sermos professores de Geografia, estamos compondo uma sociedade, uma humanidade.

Aparte: O capitalismo que se passa no Brasil é o mesmo dos Estados Unidos, Alemanha, França?

CW: Vou responder com um exemplo. Em 1978, aqui, em São Paulo, ocorreu um fato concreto: greve na Scania Vabis. O presidente da Scania é um sueco. No momento da greve, ele chamou imediatamente o delegado de polícia para prender a liderança dos trabalhadores. Se esse elemento estivesse na Suécia, chamaria o delegado sindical. Isto é, atua de maneira diferente no Brasil e na Suécia. No entanto, o "socialismo sueco", que só é socialismo no nome, vive na verdade dos superlucros que, por exemplo, a Scania tem em São Bernardo. Portanto, é preciso acabar com a idéia de que o capitalismo lá na Suécia é civilizado e aqui é selvagem, como se isso não fosse as duas faces de um mesmo capitalismo; que concentra a riqueza de um lado e a espolia do outro, havendo, inclusive, pessoas no Brasil que, lamentavelmente, se beneficiam desta situação e não querem romper com ela. Não é a Suécia que explora o Brasil; são alguns suecos que, juntos com alguns brasileiros, exploram o trabalho de muitos brasileiros e suecos. São as classes sociais dominantes suecas que, aliadas às classes dominantes brasileiras, exploram os trabalhadores. Portanto, ao se falar que um país explora outro, é preciso lembrar que dentro desses países existem classes sociais, o que, muitas vezes, é escamoteado pela análise geográfica.

aceitar que o suicídio seja a solução para a humanidade
do Chaplin

Pode-se acrescentar, ainda, que, mesmo nos países capitalistas avançados como nos Estados Unidos, ou nos da Europa norte-ocidental, é possível ver as condições em que vive o trabalhador. Por exemplo, não se pode esquecer que a Suécia é recordista mundial de suicídio; uma sociedade onde o indivíduo passa os seus dias realizando o mesmo tipo de trabalho, de maneira alienada. Se se considerar que essa sociedade dignifica o homem, então, há que se Assim, mesmo onde o capitalismo foi bem-sucedido, há profundas contradições. Há que se questionar: na Suécia, por exemplo, o trabalho está dignificando o homem ou o está torturando? Para discutir esse assunto com os alunos, o melhor é levá-los a assistir o filme "Tempos Modernos",

Aparte: Em termos didáticos, ao ensinarmos em 5. e 6. séries, parece que não conseguimos abordar a Geografia Brasileira. Teríamos que abordar a realidade de forma mais concreta, para evitarmos distorções. E como resolver o problema da dicotomia?

CW: Ao escrever livros didáticos de Geografia, optei por um caminho que pode ser objeto de crítica. Numa coleção de quatro livros, o primeiro volume trata de Geogra- fia Física. Seu objetivo é estudar a história natural do planeta, levando o aluno a entender o processo de gênese da natureza e de como ela foi paulatinamente se autodiferenciando, ao longo do tempo e do espaço, constituindo os diversos ecossistemas. Isto é, estudar o processo de formação da litosfera, da atmosfera, da hidrosfera e da biosfera. Isto para mostrar ao aluno que existe um tempo geológico, um tempo de formação das florestas, um tempo muito longo de formação dos solos. Tal estudo talvez o ajude a lutar amanhã contra certas práticas de uso do solo que levam à erosão e destroem num ano o que levou 300, 400, 600 anos para se formar. Da mesma forma, pode-se estudar com os alunos a formação dos continentes. Toda essa abordagem da natureza é feita em função da sua história. Assim, não tenho a preocupação de descrever, mas de analisar o processo histórico que a foi constituindo. No último capítulo do meu livro sobre a Geografia da Natureza, trato do aparecimento do homem a partir da natureza, mostrando que ele passa, durante um milhão de anos, por um processo muito semelhante ao dos animais: recolhe coisas da natureza tal como ela as oferece (é a coleta, a caça e a pesca). Mas há um momento em que os homens começam a organizar o seu espaço, a partir da revolução neolítica. É a partir daí que os homens começam a fazer geografia, passando a extrair da natureza aquilo que ele plantou.

Assim, quando se passa para a Geografia Humana, analisando-a também como um processo histórico, vê-se que esse processo é o de apropriação da Natureza. Este é um dos fatores mais importantes de produção. Não se pode ignorar que a Natureza é um dos elementos das chamadas forças produtivas, como também o são as técnicas, os instrumentos de trabalho e também o próprio homem (o homem social e não o homem individual).

Aparte: Como tratar os aspectos físicos relacionandoos com os humanos e econômicos? Como fazer isso em sala de aula?

C W: Não se trata apenas de relacionar o homem com a natureza. As relações sociais é que são importantes, como antes analisei.

Aparte: O relacionamento feito com as demais disciplinas não é suficiente para se compreender as relações sociais.

CW: O importante é saber que o homem que está ocupando o espaço não é um homem isolado; existe uma unidade que só se pode entender se compreendermos as relações sociais entre os homens; se compreendermos que esse processo de apropriação da natureza é social; isto é, através de um determinado modo de produzir a existência, apropriamo-nos da natureza. Não se pode conceber os homens como seres que vão simplesmente povoando um território, porque eles o fazem através de determinadas relações sociais, através de determinado modo de produção.

Aparte: A Ecologia veio para socializar o conhecimento; nesse sentido, não parece uma tentativa malsucedida.

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