Livro - Psicologia Cognitiva

Livro - Psicologia Cognitiva

(Parte 1 de 10)

DISCIPLINA: PSICOLOGIA COGNITIVA

Texto 1:

STERNBERG, Robert J. Psicologia Cognitiva. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

CAPÍTULO 1 Sim (p. 21-41)

O que é Psicologia Cognitiva?

A PSICOLOGIA COGNITIVA É DEFINIDA (p. 22)

O que você vai estudar em um livro didático sobre psicologia cognitiva?

1. Cognição — As pessoas pensam.

2. Psicologia cognitiva — Os cientistas pensam a respeito de como as pessoas pensam.

3. Estudantes de psicologia cognitiva — As pessoas pensam sobre a maneira como os cientistas pensam a respeito de como as pessoas pensam.

4. Professores que ensinam psicologia cognitiva aos estudantes — Você capta a idéia.

Para ser mais específico, a psicologia cognitiva trata do modo corno as pessoas percebem, aprendem recordam e pensam sobre a informação. Um psicólogo cognitivo pode estudar como elas percebem várias formas, o motivo pelo qual recordam alguns fatos mais esquecem outros, a maneira como aprendem a linguagem ou como raciocinam quando jogam xadrez ou resolvem os problemas cotidianos. Por que, em dias brumosos, os objetos parecem mais distantes do que realmente estão, às vezes enganando os motoristas e causando acidentes de carro? Por que muitas pessoas lembram-se de uma experiência especial (p. ex., ver o Ford Bronco branco de O. J. Simpson cruzar uma rodovia, sendo ao mesmo tempo perseguido por uma radiopatrulha), esquecendo, contudo, os nomes de pessoas a quem conhecem há muitos anos? Por que muitas pessoas têm mais medo de viajar em aviões do que em automóveis, quando as chances de danos e de morte são tão mais altas em um automóvel do que em um avião? Esses são alguns dos tipos de questões a que podemos responder ao longo do estudo de psicologia cognitiva.

Este capítulo apresenta o campo da psicologia cognitiva, descrevendo a história intelectual do estudo do pensamento humano e enfatizando, especialmente, alguns dos problemas e preocupações que surgem quando ponderamos sobre o modo como as pessoas pensam. A perspectiva histórica é seguida por uma breve visão geral dos principais métodos, problemas e áreas temáticas da psicologia cognitiva. As idéias apresentadas neste capítulo oferecerão um alicerce sobre o qual irá se construir uma compreensão dos tópicos de psicologia cognitiva abrangidos nos demais capítulos.

Por que estudar a história desse campo — ou de qualquer outro, também? Em primeiro lugar, se soubermos de onde viemos, podemos ter uma compreensão melhor de para onde estamos nos dirigindo. Em segundo lugar, podemos aprender com os erros anteriores — de modo que, quando cometermos erros, estes serão novos e diferentes, não os mesmos erros antigos. Além disso, muitos dos problemas que agora enfrentamos, em psicologia cognitiva, como em qualquer outro campo têm profundas raízes em nossa antiga história intelectual. Por todo o curso da história intelectual, nossas maneiras de tratar esses problemas mudaram, mas algumas das questões fundamentais permanecem quase iguais. Finalmente, examinando nossa própria história intelectual, podemos perceber padrões no desenvolvimento das idéias — na verdade, aprendemos como as pessoas pensam, por meio do estudo de como elas ponderavam sobre o pensamento.

Um dos padrões que emerge de um estudo da história intelectual é a observação de que a sucessão de idéias envolve, freqüentemente, um processo dialético. Na dialética, é apresentada uma tese (declaração de fé). Por exemplo, uma escola de pensamento defendeu, por longo tempo, que muitos aspectos do comportamento humano (p. ex., a inteligência ou a personalidade) são inteiramente governados pela natureza humana. Outros pensadores consideram a tese e, se ela parece aumentar a compreensão, a idéia é aceita. Pouco depois, entretanto, alguns pensadores observam falhas aparentes na tese e, posteriormente (ou, talvez, até bem logo), surge uma antítese (afirmação que se opõe à declaração de fé anterior). Por exemplo, uma outra escola de pensamento postulou que muitos aspectos do comportamento humano são determinados quase inteiramente por nossa educação — os contextos ambientais nos quais somos criados e onde, mais tarde, funcionamos como adultos.

Mais cedo ou mais tarde, o debate entre a tese e a antítese leva a uma síntese, que integra os aspectos mais dignos de crédito de cada um dos dois pontos de vista. Por exemplo, no debate sobre natureza versus educação, tem sido sustentado que vários aspectos do comportamento humano são governados por uma interação entre nossa natureza inata (congênita) e nossa educação ambiental. Se essa síntese parecer melhorar nossa compreensão de um assunto, ela, então, servirá como uma nova tese, que será seguida por uma nova antítese, depois uma nova síntese, e assim por diante. Essa observação da sucessão dialética de idéias foi desenvolvida por Georg Hegel (1770-1831), um filósofo alemão que chegou às suas idéias sintetizando alguns dos pontos de vista de seus predecessores e de contemporâneos intelectuais.

ANTECEDENTES FILOSÓFICOS DA PSICOLOGIA COGNITIVA (p. 22/3)

Onde e quando começou o estudo da psicologia cognitiva? Como argumentação, por mais longe no passado que nossos registros históricos possam ir, esses relatos documentados não registram os primeiros esforços humanos para compreender como os seres humanos pensam. Entretanto, geralmente atribuímos as origens das bases mais antigas da psicologia cognitiva a duas abordagens diferentes à compreensão da mente humana: (1) a da filosofia, que procura compreender a natureza geral de muitos aspectos do mundo, principalmente através da introspecção (intro-, “interno”, “dentro”; -specção, “observação”; exame das idéias e experiências internas); e (2) a da fisiologia, o estudo científico das funções vitais mantenedoras da matéria viva, principalmente através de métodos empíricos (baseados na observação). Mesmo agora, os problemas levantados nesses dois campos de origem continuam a influenciar a maneira pela qual a psicologia cognitiva se desenvolveu. Na verdade, muitas das questões fundamentais em fisiologia e em filosofia encontram-se ainda entre as que estão sendo feitas hoje em psicologia cognitiva. Por exemplo, os psicólogos cognitivos ainda perguntam: “As características psicológicas humanas, e mesmo o conhecimento humano, são inatos (herdados de nossos genitores e de outros ancestrais) ou adquiridos (aprendidos através de nossas interações com nossos ambientes físicos e sociais)? Qual é o melhor caminho para encontrar e compreender as respostas a essas perguntas - fazer observações mediante o uso de nossos sentidos ou utilizar meios lógicos de interpretar a informação disponível?”

O SURGIMENTO DA PSICOLOGIA (p. 25)

A Fusão da Filosofia e da Fisiologia na Psicologia Moderna

Estão tão entrelaçados os temas confrontados por filósofos, por médicos e por psicólogos que, nos anos 1800 (ao redor da mesma época em que Georg Hegel propôs sua idéia da dialética), quando a psicologia principiava como um campo, ela foi considerada, por alguns, como um ramo da filosofia e, por outros, como um ramo da medicina. Em alguns sentidos, a psicologia cognitiva pode ser concebida como abrangendo mais completamente ambas as atividades do que outras áreas da psicologia. Com relação à fisiologia, muitos insights em cognição vêm de estudos fisiológicos do cérebro. Quanto à filosofia, os psicólogos cognitivos manifestam um profundo interesse na maneira como as pessoas utilizam o raciocínio e tiram conclusões.

À medida que a psicologia se tornou crescentemente uma disciplina científica focalizada na mente e no comportamento, ela divergiu gradualmente da filosofia e da medicina. Atualmente, embora a psicologia, a filosofia e a medicina estejam essencialmente separadas, não o estão de forma tão completa, pois muitas questões psicológicas permanecem arraigadas em temas tanto filosóficos quanto fisiológicos, com relação a vários aspectos da cognição.

As Perspectivas Divergentes da Psicologia Moderna

As principais perspectivas psicológicas basearam-se naquelas perspectivas anteriores, contra as quais também reagiram; o processo dialético que apareceu ao longo da história da psicologia também abriu caminho para a psicologia moderna. Os primeiros psicólogos, todavia, propunham outra questão fundamental que continua a perturbar os psicólogos cognitivos: alcançaremos uma compreensão da mente humana estudando suas estruturas (tanto quanto estudamos as estruturas do corpo, pela aprendizagem de anatomia) ou estudando suas funções (tanto quanto investigamos os processos do organismo pelo estudo da fisiologia)? Embora a psicologia cognitiva não fosse identificada como um ramo distinto da psicologia até a segunda metade do século XX, as questões a que ela se dedica eram as principais tratadas pelos psicólogos da primeira metade deste século.

O SURGIMENTO DA PSICOLOGIA COGNITIVA (p. 30/1)

Até agora, enfatizamos os avanços filosóficos e psicológicos que levaram ao surgimento da psicologia cognitiva. Os progressos em outros campos também contribuíram para o desenvolvimento do cognitivismo (a crença de que muito do comportamento humano pode ser compreendido se entendermos, primeiramente, como as pessoas pensam) e da moderna psicologia cognitiva. Os campos que mais contribuíram para a emergência da psicologia cognitiva são os campos científicos, como a psicobiologia (também denominada de “psicologia biológica”, “psicologia fisiológica”, ou mesmo “biopsicolo­gia”), a lingüística e a antropologia, assim como os campos tecnológicos como os sistemas de comunicação, de engenharia e de informática.

Ironicamente, um dos primeiros discípulos de Wat­son, Karl Spencer Lashley (1890-1958), incluía-se entre os primeiros (em um simpósio de 1948) a articular a necessidade de os psicólogos irem além do behaviorismo, estudarem tópicos dificilmente explicados pelas simples relações de estímulo-resposta e adotarem outros métodos, além da manipulação experimental de contingências ambientais (Gardner, 1985). Lashley estava profundamente interessado em neuroanatomia (o estudo das estruturas cerebrais) e em como a organização do cérebro governa a atividade humana. Ele contestou impetuosamente o ponto de vista behaviorista de que o cérebro humano é um órgão passivo, simplesmente respondendo às contingências ambientais externas ao indivíduo; ao contrário, considerou o cérebro como um organizador ativo e dinâmico do comportamento planejado. Ele procurou entender como a organização do cérebro humano possibilitava atividades tão complexas e planejadas como o desempenho musical, as atividades esportivas e o uso da linguagem— nenhuma das quais era explicável em termos das simples relações de estímulo-resposta, em seu ponto de vista.

Na oportunidade, os behavioristas não se lançaram a concordar com Lashley. Na realidade, o behaviorista B. E Skinner (1957) escreveu um livro inteiro descrevendo como a aquisição e o uso da linguagem podiam ser explicados puramente em termos das contingências de estímulo-resposta. Em 1959, o lingüista Noam Chomsky escreveu uma contundente revisão das idéias de Skinner. As perspectivas de Chomsky eram transformar todo o campo da lingüística. Em seu artigo, ele enfatizou o potencial criativo da linguagem - o número infinito de sentenças que podemos produzir com facilidade - , desafiando, ao mesmo tempo, as noções behavioristas segundo as quais aprendemos a linguagem por reforço. Mesmo as crianças pequenas estão continuamente produzindo novas frases para as quais não poderiam ter sido reforçadas no passado. Chomsky afirma que nossa compreensão da linguagem é compelida não tanto pelo que ouvimos, mas por um dispositivo de aquisição da linguagem inato (DAI) que todos os seres humanos possuem. Desse modo, é a estrutura da mente, em vez da estrutura dos padrões mundiais de estímulo-resposta, que determina nossa aquisição da linguagem.

A aquisição e o uso da linguagem, como uma expressão da mente humana, também intrigaram antropólogos como Claude Lévi-Strauss. Lévi-Strauss (1958/ 1963) percebeu que muitos fenômenos lingüísticos diferentes, observáveis nas culturas ao redor do mundo, podem ser explicados em termos de variações sistemáticas. Além dessas variações sistemáticas em linguagem, ele verificou variações envolvendo duas ou mais culturas diferentes nos sistemas de parentesco (influenciando as pessoas supostamente relacionadas), nos sistemas de classificação (influindo em coisas que estão relacionadas a outras coisas) e nos mitos. Para Lévi-Strauss, todas essas variações através das culturas são unificadas pela organização fundamental da mente humana. Desse modo, a cultura humana é uma expressão da mente humana, a qual tem características fundamentais comuns que podem ser expressas de maneira diferente por meio das culturas, desde as sociedades menos orientadas tecnologicamente até as mais sofisticadas tecnologicamente.

Além dos progressos científicos, os avanços tecnológicos também estavam começando a influenciar a maneira pela qual os psicólogos consideravam a mente humana. Os avanços tecnológicos em telecomunicações, na manipulação de fatores humanos e nos computadores digitais levaram a progressos análogos na teoria psicológica, particularmente em relação ao processamento da informação. Os psicólogos começaram a falar em códigos de informação (sistemas de símbolos ou de sinais para representar a informação), limitações na capacidade de processamento e no processamento da informação, seja em série (um item ou uma etapa por vez, como em um computador digital) ou em paralelo (mais de um item por vez, como nas ondas sonoras múltiplas de um sistema de telecomunicações).

Cada uma dessas idéias inspiradas pela tecnologia sustentava a noção de que ocorrem eventos importantes no interior da mente humana e que os psicólogos deveriam tentar compreender as atividades mentais. Além disso, alguns pesquisadores estavam chegando a acreditar que uma maneira de tentar entender a mente humana é observando - e, talvez, até criando - os modelos tecnológicos de processamento da informação. Ao fim dos anos 50, alguns psicólogos estavam intrigados pela noção tantalizante de que podiam ser programadas máquinas para demonstrar o processamento inteligente da informação. Em 1956, uma nova expressão entrou em nosso vocabulário: inteligência artificial (IA), a tentativa humana para construir sistemas que mostrem a inteligência e, particularmente, o tratamento inteligente da informação (Merriam-Webster’s Collegiate Dictionary,10. ed., 1993).

No início dos anos 60, os avanços em psicobiologia, em lingüística, em antropologia e em inteligência artificial, assim como as reações contra o behaviorismo por muitos dos psicólogos de maior influência, convergiram para criar uma atmosfera propícia à revolução. Os antigos cognitivistas (p. ex., Mille; Galanter & Pribram, 1960; Newell, Shaw & Si­mon, 1957b) argumentaram que as explicações behavioristas tradicionais do comportamento eram inadequadas, precisamente porque nada diziam - na verdade, não tomavam conhecimento - sobre como as pessoas pensam. O livro de Ulric Neisser, Cognitive Psychology (1967), foi especialmente decisivo para tornar bem conhecido o cognitivismo, por meio da informação a estudantes de graduação e de pós-graduação e a professores universitários sobre esse campo de recente desenvolvimento. Neisser definiu psicologia cognitiva como o estudo da maneira como as pessoas aprendem, estruturam, armazenam e usam o conhecimento. Subseqüentemente, Allen Newell e Herbert Simon (1972) propuseram modelos detalhados do pensamento humano e da resolução de problemas, partindo dos níveis mais básicos para os mais complexos. Durante os anos 70, a psicologia cognitiva foi amplamente reconhecida como um importante campo do estudo psicológico, com um conjunto característico de métodos de pesquisa.

Ulric Neisser éprofessor de Psicologia na Universidade de Emory. Seu livro Cognitive Psychology foi útil em lançar a revolução cognitiva na psicologia. Foi também um importante proponente de uma abordagem ecológica à cognição e mostrou o valor de estudar-se o processamento cognitivo em contextos ecologicamente válidos.

MÉTODOS DE PESQUISA EM PSICOLOGIA COGNITIVA (p. 31/2)

Objetivos das Pesquisas

Antes de descrever alguns dos métodos específicos utilizados pelos psicólogos cognitivos, pode ser útil focalizar alguns dos objetivos das pesquisas em psicologia cognitiva. Sucintamente, tais objetivos incluem a coleta de dados, a análise de dados, o desenvolvimento teórico, a formulação de hipótese, o teste de hipótese e talvez até a aplicação a meios externos ao ambiente da pesquisa. Muitas vezes, os pesquisadores procuram simplesmente coletar tantas informações quantas possíveis sobre um fenômeno específico. Podem ou não ter noções preconcebidas com relação ao que possam encontrar durante a coleta de dados. Em qualquer caso, sua pesquisa focaliza a descrição de fenômenos cognitivos, tais como a maneira pela qual as pessoas reconhecem as fisionomias ou desenvolvem as habilidades.

A coleta de dados reflete um aspecto empírico da investigação científica. Uma vez que existam dados suficientes sobre o fenômeno cognitivo de interesse, os psicólogos cognitivos usam vários métodos para extrair inferências a partir desses dados. Às vezes, apenas um rápido olhar de relance aos dados resulta em deduções intuitivas com relação aos padrões emergentes desses dados. Mais comumente, entretanto, os pesquisadores usam vários métodos estatísticos para a sua análise.

A coleta de dados e a análise estatística ajudam os investigadores a descrever os fenômenos cognitivos. Nenhuma pesquisa científica poderia ir longe sem essas descrições. Entretanto, a maioria dos psicólogos cognitivos quer entender mais do que é a cognição; a maior parte procura também compreender o como e o por que pensar. Isto é, os pesquisadores buscam meios para explicar a cognição, tanto quanto para descrevê-la. Para avançar além das descrições, os psicólogos cognitivos devem usar o raciocínio para saltar do que é observado diretamente para o que pode ser inferido, com relação às observações.

Suponhamos que desejamos estudar um aspecto da cognição, por exemplo como as pessoas compreendem a informação contida nos livros didáticos. Geralmente, começamos com uma teoria (um texto organizado sobre os princípios explanatórios gerais com relação a um fenômeno), bem como algumas hipóteses razoáveis (proposições de tentativas considerando as conseqüências empíricas esperadas da teoria, tais como os resultados de pesquisa) derivadas da teoria, no tocante a como as pessoas compreendem a informação do livro-texto. Depois, procuramos testar a teoria e, desse modo, perceber se ela tem o poder de predizer determinados aspectos do fenômeno em questão. Em outras palavras, nosso processo de pensamento é: “se nossa teoria estiver correta, então sempre que X ocorrer ocorrerá o resultado Y”.

A seguir, testamos nossas hipóteses pela experimentação. Mesmo se os resultados específicos parecerem confirmar uma dada hipótese, eles deverão ser submetidos à análise estatística, para determinar sua significância estatística. As medidas da significância estatística indicam a probabilidade de que os resultados oferecidos não representam meramente flutuações aleatórias nos dados.

Uma vez que nossas predições hipotéticas tenham sido testadas experimentalmente e analisadas estatisticamente, os resultados desses experimentos podem levar a uma coleta de dados mais extensa, análise dos dados, desenvolvimento da teoria, formulação de hipótese e teste de hipótese. Além disso, muitos psicólogos cognitivos esperam usar os insights obtidos a partir da pesquisa para ajudar as pessoas a utilizarem a cognição em situações da vida real. Para cada uma dessas intenções, diferentes métodos de pesquisa oferecem vantagens e desvantagens diferentes.

Herbert A. Simon é professor de Informática e de psicologia na universidade de Carnegie-Mellon. É conhecido por seu trabalho pioneiro, com Allen Newell e outros, sobre a construção e a testagem de modelos de computador que simulam o pensamento humano, bem como por seus testes experimentais desses modelos. Tem sido, também, um importante defensor dos protocolos sobre pensamento verbalizado como um meio de estudar o processamento cognitivo.

Métodos Específicos de Pesquisa

Os psicólogos cognitivos utilizam vários métodos para examinar como os seres humanos pensam. Esses métodos incluem os seguintes (ver a Tabela 1.1, para descrições e exemplos de cada um): (a) experimentos controlados de laboratório ou outros, (b) pesquisa psicobiológica, (c) auto-relatos, (d) estudos de casos, (e) observação naturalista e (f) simulações computadorizadas e inteligência artificial. Conforme a tabela mostra, cada método oferece vantagens e desvantagens características.

TABELA 1.1 Métodos de Pesquisa (p. 34/5)

Os psicólogos cognitivos utilizam experimentos controlados, pesquisa psicobiológica, auto-relatos, estudos de casos, observação naturalista e simulações computadorizadas e inteligência artificial quando estudam os fenômenos cognitivos

MÉTODO

EXPERIMENTOS LABORATORIAIS CONTROLADOS

PESQUISA PSICOBIOLÓGICA

AUTO-RELATOS, COMO PROTOCOLOS VERBAIS, AUTO-AVALIAÇÕES, DIÁRIOS

ESTUDOS DE CASOS

OBSERVAÇÕES NATURALISTAS

SIMULAÇÕES COMPUTADORIZADAS E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA)

Descrição do método

Obter amostras do desempenho, em um dado tempo e lugar

Estudar os cérebros de animais e humanos, usando estudos post­-mortem, bem como várias medidas psicobiológicas ou técnicas de imagens (ver Capitulo 2)

Obter relatos individuais da própria cognição em desenvolvimento ou à medida que for recordada

Envolver-se no estudo intensivo de indivíduos únicos, tirando conclusões gerais

Observar situações da vida real, corno salas de aula, ambientes de trabalho ou lares

Simulações: Tentativa para fazer os computadores simularem o desempenho cognitivo humano em várias tarefas breves ao comportamento

IA: Tentativa para fazer os computadores demonstrarem desempenho cognitivo inteligente, independentemente de o processo assemelhar-se ou não ao processamento cognitivo humano

Validade das inferências causais: distribuição aleatória dos indivíduos

Habitualmente

Não habitualmente

Não-aplicável

Altamente improvável

Não-aplicável

Não-aplicável

Validade das inferências causais controle experimental de variáveis independentes

Habitualmente

Varia amplamente, dependendo da técnica especifica

Provavelmente não

Altamente improvável

Não

Completo controle das variáveis de interesse

Amostras: tamanho

Podem ter qualquer tamanho

Freqüentemente pequenas

Provavelmente pequenas

É quase certo ser pequeno

Provavelmente pequeno

Não-aplicável

Amostras: representatividade

Podem ser representativas

Freqüentemente não representativas

Podem ser representativas

Improvável que seja representativo

Pode ser representativo

Não-aplicável

Validade ecológica

Não-impossível; depende da tarefa e do contexto em que está sendo aplicado

Improvável sob algumas circunstâncias

Talvez; observar vantagens e desvantagens

Alta validade ecológica para casos individuais; baixa generalização para outros casos

Sim

Não-aplicável

Informação sobre diferenças individuais

Habitualmente não-enfatizada

Sim

Sim

Sim; informação ricamente detalhada com relação aos indivíduos

Possível, mas a ênfase está nas diferenças ambientais, não nas diferenças individuais

Não aplicável

Vantagem

Facilidade de administração, de avaliação e de análise estatística tornam-no relativamente acessível para aplicar em amostras representativas de uma população; probabilidade relativamente alta de tirar conclusões causais válidas

Fornece “firme” evidência das funções cognitivas, relacionando-as à atividade fisiológica; oferece uma visão alternativa dos processos cognitivos inacessíveis por outros meios; pode possibilitar o tratamento de pessoas com graves déficits cognitivos

Acesso a insights introspectivos a partir do ponto de vista do indivíduo, os quais podem ser inacessíveis através deoutros meios

Acesso à informação ricamente detalhada sobre os indivíduos, inclusive informação sobre os contextos histórico e atual, que pode não ser disponível por outros meios; pode levar a aplicações especializadas para grupos de pessoas excepcionais (p. ex., prodígios, pessoas com dano cerebral)

Acesso à rica informação contextual, que pode não ser disponível por outros meios

Permite exploração de uma ampla gama de possibilidades para modelar os processos cognitivos; permite completa testagem para averiguar se as hipóteses prognosticaram corretamente os resultados; pode levar a uma grande amplitude de aplicações práticas (p. ex., “robótica” para desempenhar tarefas arriscadas ou para funcionar em ambientes perigosos)

Desvantagens

Nem sempre é possível generalizar os resultados para além do lugar, tempo e condições especificas da tarefa; discrepâncias entre os comportamentos na vida real e no laboratório

Acessibilidade limitada para a maioria dos pesquisadores; exige acesso tanto aos indivíduos apropriados como ao equipamento que pode ser extretamente expensivo e difícil de obter; pequenas amostras; muitos estudos baseiam-se em exames de cérebros anormais ou de cérebros de animais, de forma que a generalização dos resultados para as populações humanas normais pode ser problemática

Incapacidade para relatar os processos que ocorrem fora do conhecimento consciente

Protocolos verbais e auto-avaliações: Coleta de dados pode influenciar o processo cognitivo que está sendo descrito

Recordações: Discrepâncias possíveis entre a cognição real e os processos e produtos cognitivos recordados

Aplicabilidade a outras pessoas; o pequeno tamanho e a não-representatividade da amostra geralmente limitam as generalizações para a população

Falta de controle experimental; possível influência sobre o comportamento naturalista, devido à presença do observador

Limitações impostas pelos limites do hardware (i. e, do hardware do computador), bem como do software (os programas escritos pelos pesquisadores); distinções entre a inteligência humana e a inteligência mecânica - mesmo em simulações envolvendo técnicas sofisticadas de modelação, essas simulações podem representar imperfeitamente o modo pelo qual o cérebro humano pensa

Exemplos

David Meyer e Roger Schvaneveldt (1971) desenvolveram uma experiência de laboratório na qual apresentavam muito brevemente duas séries de letras (ou palavras ou não-palavras) às pessoas e depois pediam-lhes que tomassem uma decisão sobre cada uma das séries de letras, tal como decidir se as letras formavam uma palavra legítima ou se uma palavra pertencia a uma categoria pré-determinada

Elizabeth Warrington e Tim Shallice (1972; Shallice & Warrington. 1970) observaram que as lesões (áreas injuriadas) no lobo parietal esquerdo do cérebro estão associadas a graves déficits na memória a curto prazo (rápida, ativa), mas sem comprometimento da memória a longo prazo, porém pessoas com lesões nas regiões cerebrais temporomedianas (centrais) mostram memória a curto prazo relativamente normal, mas graves déficits na memória a longo prazo (Shallice, 1979; Warrington. 1982)

Em um estudo de imagética mental, Stephen Kosslyn e seus colaboradores (Kosslyn, Seger, Pani & Hillger, 1990) pediram aos estudantes que mantivessem um diário semanal no qual registrassem todas as suas imagens mentais em cada modalidade sensorial

Howard Gruber (1974/1981) realizou um estudo de caso de Charles Darwin, a fim de explorar em profundidade o contexto psicológico para a grande criatividade intelectual

Michael Cole (Cole e cols., 1971) estudou membros da tribo KpelIe, na África, observando como as definições de inteligência daquela tribo comparavam-se com as definições ocidentais tradicionais de inteligência, tanto quanto o modo como as definições culturais de inteligência podem governar o comportamento inteligente

Simulações: Através de computadorizações detalhadas, David Marr (1982) tentou simular percepção visual humana e propôs uma teoria da percepção visual baseada em seus modelos de computador (ver Capítulo 4)

IA: foram escritos vários programas de IA que podem demonstrar habilidade (p. ex., jogar xadrez), mas provavelmente fazem isso através de processos diferentes dos utilizados pelos peritos humanos

Juntando Tudo (p. 37)

Os psicólogos cognitivos, freqüentemente, ampliam e aprofundam sua compreensão da cognição pelas pesquisas em ciência cognitiva, um campo interdisciplinar que utiliza idéias e métodos da psicologia cognitiva, da psicobiologia, da inteligência artificial, da filosofia, da lingüística e da antropologia. Os cientistas cognitivos empregam essas idéias e métodos para evidenciar o estudo de como os seres humanos adquirem e utilizam o conhecimento. Os psicólogos cognitivos também se beneficiam da colaboração com outros tipos de psicólogos, como os psicólogos sociais (p. ex., no campo interdisciplinar da cognição social), os psicólogos que estudam a motivação e a emoção e os psicólogos-engenheiros (p. ex., engenharia de fatores humanos). As colaborações com os psicólogos-engenheiros ilustram a interação entre a pesquisa cognitivo-psicológica básica e a investigação psicológica aplicada.

QUESTÕES-CHAVE NA PSICOLOGIA COGNITIVA (p. 37/8)

Ao longo deste capítulo, aludimos a algumas das questões-chave que surgem no estudo de psicologia cognitiva. Muitas dessas questões têm uma longa história, iniciando com o antigo questionamento filosófico. Outras aparecem, em grande parte, como conseqüência dos trabalhos recentes na área. Pode ser útil resumir essas questões, dado que surgem repetidas vezes nos diversos capítulos deste livro didático. Algumas dessas questões chegam ao próprio âmago da natureza da mente humana.

Por exemplo, o que influencia mais na cognição humana - a natureza ou a educação? Se acreditamos que as características inatas da cognição humana são mais importantes, podemos concentrar nossa pesquisa no estudo das características cognitivas inatas. Se cremos que o ambiente desempenha um importante papel na cognição, podemos realizar nossa pesquisa examinando como as diferentes características ambientais parecem influir na cognição.

Outras questões cognitivo-psicológicas relacionam-se mais aos métodos para estudar-se a mente humana:

1. Racionalismo versus empirismo - Como devemos descobrir a verdade sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos rodeia? Devemos fazer isso tentando raciocinar logicamente, baseados no que já sabemos, ou observando e testando nossas observações do que podemos perceber, através de nossos sentidos?

2. Estruturas versus processos - Devemos estudar as estruturas (conteúdos, atributos e produtos) da mente humana ou aprenderemos mais estudando os processos do pensamento humano?

3. Generalidade de domínio versus especificidade de domínio - Os processos que observamos são limitados a domínios individuais ou são gerais entre uma variedade de domínios? As observações em um domínio aplicam-se também a todos os domínios ou apenas aos domínios específicos observados?

4. Validade das inferências causais versus validade ecológica - Devemos estudar o pensamento usando experimentos altamente controlados, que aumentem a probabilidade de inferências válidas em relação à causalidade ou devemos usar técnicas mais naturalistas, que elevem a probabilidade de obtenção de resultados ecologicamente válidos, ainda que, possivelmente, às custas do controle experimental?

5.Pesquisa básica versus pesquisa aplicada - Devemos realizar pesquisas sobre os processos cognitivos fundamentais ou estudar maneiras para auxiliar as pessoas a usarem efetivamente a cognição em situações práticas?

Embora muitas dessas questões sejam propostas na forma “ou-ou”, na qual você não pode evitar de fazer uma escolha, é importante lembrar que, freqüentemente, uma síntese de pontos de vista ou métodos mostra-se mais útil do que uma ou outra posição extrema. Por exemplo, nossa natureza propicia uma estrutura hereditária para nossas características distintivas e padrões de pensamento e de atividade, mas nossa educação dá forma às maneiras específicas pelas quais melhoramos essa estrutura. Podemos usar métodos empíricos para coletar dados e testar hipóteses, mas podemos utilizar métodos racionalistas para interpretar dados, elaborar teorias e formular hipóteses baseadas nessas teorias. Nosso entendimento da cognição aprofunda-se quando consideramos tanto a pesquisa básica sobre os processos cognitivos fundamentais, quanto a pesquisa aplicada em relação aos usos efetivos da cognição, nas situações do mundo real. As sínteses estão constantemente evoluindo: o que hoje pode ser considerado como uma síntese pode ser visto amanhã como uma posição extrema, ou vice-versa.

Antes de encerrar este capítulo, é útil ponderar sobre algumas das áreas de psicologia cognitiva, descritas nos capítulos restantes, às quais essas questões-chave podem aplicar-se.

ÁREAS DA PSICOLOGIA COGNITIVA (p. 38/9)

Os psicólogos cognitivos têm-se envolvido no estudo de uma vasta gama de fenômenos psicológicos, incluindo não apenas percepção, aprendizagem, memória e pensamento, mas também fenômenos aparentemente de orientação menos cognitiva, como a emoção e a motivação. Na realidade, quase todos os tópicos de interesse psicológico podem ser estudados sob uma perspectiva cognitiva. Entretanto, existem algumas áreas de interesse essencial para os psicólogos cognitivos. Neste livro-texto, tentamos descrever algumas das respostas preliminares às questões feitas pelos pesquisadores nas principais áreas de interesse.

Capítulo 2 As bases biológicas da psicologia cognitiva - Quais são as estruturas e os processos do cérebro humano que sustentam as estruturas e os processos da cognição humana?

Capítulo 3 Atenção e consciência - Quais são os processos básicos da mente que governam o modo como a informação entra em nossas mentes, em nossa consciência e em nossos processos de alto nível de controle da informação?

Capítulo 4 Percepção - Como o cérebro humano percebe o que os sentidos recebem? Como a mente humana realiza distintamente a percepção de formas e de padrões?

Capítulo 5 Representação do conhecimento: imagens e proposições - Como representamos mentalmente a informação em nossas mentes? Fazemos isso em palavras, em imagens ou em alguma outra forma para representar o significado? Alternativamente, temos formas múltiplas de representação?

Capítulo 6 Representação do conhecimento e processamento da informação - Como organizamos mentalmente o que sabemos? Como manipulamos e operamos o conhecimento - fazemos isso em série, pelo processamento em paralelo ou por meio de alguma combinação de processos?

Capítulo 7 Memória: modelos e estruturas - Como estão representados na memória os diferentes tipos de informação (p. ex., nossas experiências relacionadas a um evento traumático, os nomes dos presidentes dos Estados Unidos ou o procedimento para andar de bicicleta)?

Capítulo 8 Processos de memória - Como passamos a informação para a memória, nela a conservamos e dela a recuperamos, quando necessária?

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