Evolução das doenças transmissíveis no brasil

Evolução das doenças transmissíveis no brasil

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EVOLUÇÃO DAS DOENÇAS TRANSMISSÍVEIS NO BRASIL

EVOLUÇÃO DAS DOENÇAS TRANSMISSÍVEIS NO BRASIL

As ações sobre as doenças transmissíveis em nosso meio, datam do tempo do Brasil Colonial, quando os serviços de saúde se preocupavam com as doenças pestilenciais. Estratégia de controle= AFASTAMENTO OU CONFINAMENTO dos doentes nas santas casas, com ações voltadas para o indivíduo doente e não para a prevenção. Fins do século XVII = ação contra a febre amarela em Pernambuco, inaugura uma nova prática, em decorrência das epidemias. Ações: aterro de águas paradas, limpeza de ruas e casas, criação de cemitérios( ações pontuais). A partir do século XIX são estruturadas ações de promoção da saúde.

Século XVIII- com a chegada da família real ao Brasil = surge a denominação POLÍCIA MÉDICA , onde era proposto uma intervenção nas condições de vida e saúde da população, com o objetivo de vigiar e controlar as epidemias – controle profilaxia para vigiar a cidade e controlar as instalações de minas e cemitérios , o comércio do pão , vinho e carne. 1815 = o Brasil passa a condição de Reino Unido a Portugal , traz uma nova organização para o governo, buscando o controle das epidemias e do meio ambiente devido as preocupações com a saúde da população e corte e a necessidade de saneamento dos portos, como estratégia para o desenvolvimento. 1808= Concepção sobre as causas das doenças baseava-se na teoria miasmática.Desta forma os serviços de saúde tinham sua atenção voltada para a profilaxia das moléstas epidêmicas baseadas no saneamento do meio. Tinham como propostas para as causas ligadas ao meio Urbanização da cidadade com aterros de pântanos Demarcação de lugares de construção Organização de uma rede de água e esgoto Organização dos cemitérios com criação de normas higiênicas para o enterro

Popostas para as causas ligadas á alimentação Controlar o comércio , os matadouros, os açougues Criar curral para o gado que era abatido na cidade Proposta para as causas ligadas aos portos ( vigilância sanitária dos portos) – mostra preocupação com o indivíduo, esboçando noção de caso. Criação de lazaretos para quarentena dos escravos portadores de doenças epidêmicas e cutâneas Fiscalização das embarcações que poderiam trazer pestes ou outras moléstias.

Era da bacteriologia = surgiu a noção do agente etiológico, possibilitando o combate destes agentes através da soroterapia e quimioterapia), propiciou a execução da vacina anti variólica, repercutindo na forma de organizar os serviços de saúde coletiva. As ações de vacina e isolamento são ações restritas ao indivíduo, e para cumprir estes objetivos , os indivíduos poderiam ser controlados, manipulados e punido.

Preocupações do Poder Público:

Endemias Saneamento dos núcleos urbanos e dos portos

Necessidades:

Criar condições sanitárias mínimas indispensáveis, sendo São Paulo, Santos e Rio de Janeiro os primeiros municípios contemplados com o saneamento urbano.

As doenças pestilenciais como a cólera, peste bubônica, febre amarela, varíola, tuberculose, hanseníase, febre tifóide requeriam maior atenção.

A estratégia adotada para o controle, obedecia à necessidade de atração e retenção da mão de obra, e dava condições mínimas de combate à febre amarela, e vacinação contra a varíola. As campanhas e as medidas gerais de promoção de higiene se caracterizavam pela utilização de medidas jurídicas impositivas, no que dizia respeito a notificação de casos, vacinação obrigatória, e vigilância sanitária, ou as medidas representavam tentativas de respostas aos quadros epidêmicos que ameaçavam a população e eram motivos de pressão política.

Década de 20 = Crescimento da saúde pública como questão social, com o auge da economia cafeeira, com tentativa de extenção das ações de saúde para o país.

1923= Foi criado o Departamento Nacional de Saúde Pública com função de cuidar da higiene industrial, da saúde dos portos e combate das endemias rurais

Década de 30= Processo de industrialização, onde o Estado tem alto grau de autonomia e centralização. A autonomia forneceu condições para que o Estado pudesse dar respostas baseadas em um conjunto de medidas integradas, elaborando o que chamamos hoje de políticas sociais.

As campanhas sanitárias foram elementos importantes no processo de centralização da política de saúde, e foram motivadas pelas crises sanitárias. Os recursos envolvidos nas campanhas fazem com que estas instituições de cristalizem em serviços de combate às doenças por tempo indefinido, aparecendo os serviços de combate á febre amarela, tuberculose e outras.

1941= O Departamento Nacional de Saúde incorpora vários serviços de combate às endemias e assume o controle técnico em saúde pública institucionalizando as campanhas sanitárias.

1953 = Criado o Ministério da Saúde

1956 = Criado o Departamento Nacional de Endemias Rurais ( DNERu), com sistemas de informação

Década de 60 = Crise do Sistema Nacional de Saúde devido a crescente pressão da massa assalariada, por ampliação e melhoria dos serviços, e a escassez financeira do Estado e a falta de prioridade para o setor da saúde, com elevação dos custos da assistência à saúde baseada na maior utilização de medicamentos, diagnósticos e equipamentos médicos.

A resposta do Estado para a crise foi a reforma da medicina previdenciária, deixando á Saúde Pública em segundo plano.

No período constatava-se a permanência de graves problemas de saúde na população devido ás más condições de vida e insuficiente desenvolvimento das medidas de saúde e saneamento.

Década de 70=

  • Presença de doenças infecto contagiosas e crônico-degenerativas

  • Endemias rurais tornando-se urbanas

  • Agravamento da desnutrição, tuberculose e hanseníase

  • Volta da malária

Nas práticas específicas de saúde coletiva, passam a ocorrer mudanças com dissociação nas modalidades de intervenção:

Ações de observação, monitoramento e controle de doentes e meio ambiente vão se dIferenciando, as ações de controle principalmente as transmissíveis vão se organizando em torno da Vigilância Epidemiológica, as práticas de saneamento passam para outros setores.

Em 1975- crise sanitária, epidemia de meningite meningocócica , aumento da mortalidade infantil e grande aumento dos acidentes de trabalho, se dá a organização do Sistema Nacional de Saúde propondo integração da medicina previdenciária e da Saúde Pública através das 3 esferas de governo e setor privado. Propõe-se a elaboração de programas regionais que integram as atividades preventivas, curativas e de reabilitação, com a participação de todos os órgãos públicos e privados. No entanto houve desarticulação entre atribuições cabíveis a cada ministério, com a separação de medicina preventiva ( ações do Ministério da Saúde ) e medicina curativa ( ações do Ministério da previdência). Neste contexto cria-se o Sistema de Vigilância Epidemiológica, Plano Nacional de Imunização e o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, consolidando as ações de saúde coletiva. A VE ( Vigilância Epidemiológica)coube responder pelo controle das doenças especialmente as transmissíveis e a VISA (Vigilância Sanitária) coube a fiscalização de portos, aeroportos, fronteiras, medicamentos, alimentos, cosméticos. Há inter relação entre as vigilâncias, mas com práticas autônomas.

EPIDEMIOLOGIA

DEFINIÇÃO: Define-se Epidemiologia, como o ramo da ciência destinado a estudar “tudo sobre a população”, do grego – epi ( sobre) + demos(população). O objetivo epidemiológico situa-se no organismo social, isto é, descrever os agravos que ocorrem na população, apontar as causas e orientar as indicações dos meios de controle. Hoje a Epidemiologia atua no estudo da distribuição da morbidade e mortalidade, determina testes de inocuidade de vacinas, testa a toxicidade de produtos, desenvolve a vigilância epidemiológica, verifica fatores ambientais e sócio econômicos que integram com as doenças transmissíveis e não transmissíveis, no sentido de facilitar a implementação de medidas profiláticas.

A Associação Internacional de Epidemiologia ( IEA 1973), define epidemiologia como “o estudo dos fatores que determinam a freqüência e a distribuição das doenças nas coletividades humanas”

Enquanto a clínica dedica-se ao estudo da doença no indivíduo, analisando caso a caso, a epidemiologia dedica-se aos problemas de saúde em grupos de pessoas, ás vezes grupos pequenos, na maioria das vezes envolvendo populações numerosas.

TIPOS:Epidemiologia descritiva e epidemiologia analítica

Objetivos principais da Epidemiologia:

  • Descrever a distribuição e a magnitude dos problemas de saúde nas populações humana

  • Identificar e entender o agente causal e fatores relacionados aos agravos à saúde.

  • Identificar e explicar os padrões de distribuição geográfica das doenças.

  • Estabelecer metas e estratégias de controle.

  • Estabelecer medidas preventivas.

  • Auxiliar o planejamento e desenvolvimento de serviços de saúde

HISTÓRIA DA EPIDEMIOLOGIA

PRIMÓRDIOS

A tensão essencial entre a Medicina individual e a medicina coletiva, desde os primórdios do pensamento ocidental na Grécia Antiga, refletia uma antagonismo ancestral entre as duas filhas do deus Asclépios: Panacéia e Higéia. Panacéia era a padroeira da medicina curativa, prática terapêutica baseada em intervenções sobre indivíduos doentes, através de manobras físicas, encantamentos, preces, e usos de pharmakon ( medicamentos) . Sua irmã Higéia, era adorada por aqueles que consideravam a saúde como resultante da harmonia dos homens e dos ambientes, e buscavam promove-la por meio de ações preventivas, mantenedoras do perfeito equilíbrio entre os elementos fundamentais terra, fogo, ar e água.Da sobrevivência dessas crenças e práticas, através dos tempos , derivam todos os conceitos de promoção da saúde, principalmente no âmbito coletivo.

Raízes da Epidemiologia:

Muitos autores acreditam que a Epidemiologia nasceu com Hipócrates ( adesão a Higéica).A ciência epidemiológica se constitui sobre os três eixos: A Clínica, A Estatística e a Medicina Social

1-CLÍNICA Thomas Sydenham – fundador da medicina clínica e precursor da Ciência Epidemiológica .Originou a partir de uma questão veterinária (doença com um rebanho ovino) através da contagem dos enfermos, ainda que não humanos em busca da eliminação das doenças.

Louis Pasteur e sua teoria microbiana

2-ESTATÍSTICA A pesquisa da origem das doenças com auxílio da matemática influenciou os primeiros estudos de morbidade na Inglaterra.

3- MEDICINA SOCIAL O termo medicina social foi proposto por Guérin em 1838 para designar de uma forma genérica, modos de tomar coletivamente a questão da saúde.

Era romana = contribuição apenas de censos periódicos Ex : decreto do Imperador Marco Aurélio, que introduziu o registro compulsório de nascimentos e óbitos , antecipando o que viria a ser conhecido como “estatísticas vitais”.

No início da idade média, houve predomínio das práticas de saúde de caráter mágico religioso ( catolicismo romano) e a prática médica para pobres era exercida por caridade,e para a aristocracia, havia o médico privado.

Século X , médicos mulçumanos adotaram os princípios hipocrático fundamentando uma prática precursora da saúde pública com alto grau de organização , consolidando desde registros de informações demográficas e sanitárias e sistemas de vigilância epidemiológica.

1929 – Crise econômica e crise da medicina científica na década seguinte e uma incapacidade do sistema econômico de prover condições mínimas de vida e de saúde para a população, neste cenário redescobre-se o caráter social e cultural das doenças e da medicina, graças a epidemiologia que buscava retomar a tradição médico – social de privilegiar o coletivo

Destinada ao estudo dos processos patológicos na sociedade, a Epidemiologia passa a ser tomada como uma patologia social,como proposto por Ryle em 1948. A disciplina epidemiologia se define pelo seu caráter social ,buscava retomar o trabalho médico social de privilegiar o coletivo ( resgatar Higéia), visto como algo mais do que um conjunto de indivíduos, ao tempo que ampliava seu objeto de intervenção para além das enfermidades transmissíveis.

ATUALIDADE DA EPIDEMIOLOGIA

Década de 50, programas de investigação e departamentos de epidemiologia criam ou aperfeiçoam novos desenhos de investigação, como os estudos de coorte , e os ensaios clínicos. Estabelecem-se as regras básicas da análise epidemiológica , sobretudo pela fixação de indicadores típicos da área ( incidência a prevalência) e pela delimitação do conceito de risco, fundamental para a adoção da bioestatística como instrumental analítico.

Nos anos 60 ocorreu uma verdadeira revolução na epidemiologia: a introdução da computação eletrônica, onde a investigação epidemiológica obteve como resultado, a matematização da área. A ampliação dos bancos de dados, criação de técnicas analíticas

Décadas de 70 e 80, podemos considerar que a epidemiologia caracteriza-se por três tendências:

*Aprofundamento das bases matemáticas da disciplina;

*Proposta de uma Epidemiologia clínica, favorecendo a identificação de casos e na avaliação da eficácia da terapêutica ;

*Reafirma a história saúde-enfermidade-atenção e a raiz econômica, e política de seus determinantes.

EPIDEMIOLOGIA MODERNA

CAUSALIDADE EM EPIDEMIOLOGIA

O conceito de causa e as origens da epidemiologia

A epidemiologia constitui-se como ciência apenas no século XIX. Entretanto, desde o século XVII, é possível identificar um conjunto de saberes ou — para utilizar a expressão de Michel Foucault (1987) — uma positividade discursiva aplicada ao processo saúde-doença na dimensão coletiva. John Graunt (apud Rosen, 1980) utiliza listas de mortalidade para detectar diferenças entre campo e cidade, entre sexos, bem como alterações das causas ao longo do tempo, visando identificar situações de risco distintas que remetessem, por conseqüência, a distintas ‘causas’.

No século seguinte, aprofundam-se os estudos dos fatos vitais e das doenças, lançando-se mão da quantificação, classificação e descrição detalhada de sintomas, procurando-se estabelecer vínculos causais

No século XIX, quatro acontecimentos influenciam fortemente a constituição da epidemiologia como disciplina científica: o nascimento da clínica; o desenvolvimento da bioestatística; a filosofia positivista; e a medicina social.

A ciência epidemiológica no século XX

Do ponto de vista da causalidade, observa-se um novo momento de inflexão no final do século XIX. As descobertas da bacteriologia abrem a possibilidade de identificação de causas únicas, necessárias e suficientes para muitas doenças.

A existência de microrganismos associados à produção das doenças reaviva a concepção mecanicista de causalidade. Os agentes etiológicos, entretanto, apesar de serem causas necessárias não são suficientes, no sentido de que dependem de outros fatores para produzir alterações morfológicas funcionais e doença.

Desde as primeiras descobertas de Pasteur, evidencia-se a importância da resposta imune do homem na produção dessas alterações. Novamente a epidemiologia tem de lançar mão da idéia de multicausalidade para melhor apreender os fenômenos no âmbito populacional. Novamente a determinação probabilística se ajusta aos fatos melhor do que a explicação causal mecânica.

A euforia dos primeiros descobrimentos exige algum nível de formalização para que seja estabelecido o nexo causal entre doenças e microrganismos, o que resulta na elaboração dos postulados de Koch.As regras propostas pelo bacteriologista alemão tentam eliminar das considerações causais a possibilidade de simples coincidências. Exigem que o microrganismo suspeito seja isolado em todos os casos conhecidos da doença, não seja encontrado em pacientes com outras doenças, seja capaz de infectar animais de laboratório e reproduzir neles os mesmos processos patológicos e possa, finalmente, ser recuperado nos tecidos e secreções desses animais. Hoje sabemos que poucos agentes etiológicos resistiriam a essa prova.

Alguns são de difícil isolamento, outros provocam uma série de doenças e não apenas um quadro clínico, e para outros, ainda, inexistem modelos animais satisfatórios.

Os vínculos entre epidemiologia, bacteriologia, parasitologia, virologia e imunologia se estreitam bastante durante a última década do século XIX e as três primeiras décadas do século XX, produzindo inúmeros avanços no conhecimento e controle das doenças transmissíveis.

Este acúmulo permitiu o desenvolvimento da metodologia de análise da chamada epidemiologia descritiva, e embasou os inquéritos epidemiológicos e as investigações de surtos e epidemias.A abordagem causal caracteriza-se, nessa fase, pela procura de múltiplos fatores e o estabelecimento de relações funcionais entre eles e o comportamento das doenças.

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